CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

ANTÔNIO MOREIRA

Tonho Moreira no Bar Gracy sendo servido pelo garçom Pescoço

Eu almoçava todas as terças-feiras na casa de minha mãe. Certa vez, depois de ter saboreado uma arabaiana ao molho de camarão, barriga cheia, cochilando no sofá, de repente despertei assustado ao ouvir e ver na televisão um anúncio fúnebre comunicando o falecimento de Antônio Moreira, com o enterro previsto para às dezesseis horas no Cemitério Parque das Flores.

Foi um choque, uma dor no peito, uma porrada no âmago. Antônio Moreira meu querido amigo, meu irmãozinho havia morrido, emocionado, as lágrimas caíram. Dona Zeca me consolava sabendo que o filho é um incurável sentimental.

Triste, acabrunhado, contei para meu sobrinho Luís Cláudio nossas histórias quando éramos prefeitos. Eu da Barra de São Miguel e Antônio Moreira da Capela. Nós nos visitávamos, conversas bem humoradas, cerveja rolando. Amigos chegados à boemia e a alegria da vida. Com os olhos marejando falei de minha admiração por Tonho, usineiro com posturas humanitárias, progressistas. Havia quem o taxasse de louco quando foi eleito o deputado mais novo da história da Assembleia Legislativa por suas ideias inteligentes. Tonho Moreira estava bem adiante da época que vivia. Lia muito, belo ser humano, com uma visão bonita do mundo. Cabras como Antônio Moreira não deviam morrer. E caía no choro no sofá. Minha mãe, com cuidado, pensou que eu não estava em condições de dirigir e cedeu seu carro para me levar ao enterro. Fui conversando com o Sargento Jorge, motorista e amigo da família de muitos anos. Jorge, espiritualista, consolava-me assinalando que um dia eu veria meu amigo novamente em outra vida. Não era apenas tristeza, deu-me aquela depressão quando percebemos nossa insignificância diante da realidade da morte.

No Parque das Flores havia apenas um enterro. Jorge parou o carro no estacionamento. Fui em direção à capela, a emoção aumentava, era a expectativa de ver um amigo, um irmão, tão cheio de vida e inteligência, estirado num caixão. Aquilo doía ao me aproximar do corpo do amigo. Vidas que se acabam e nada mais. Na porta da capela perguntei a alguém se era o velório de Antônio Moreira, com a afirmação de uma senhora balançando a cabeça, me aproximei do caixão infiltrando-me entre os parentes e amigos. Eu estava emocionado, descontrolado, lágrimas corriam, uma forte dor tomou conta do meu peito, a pior hora, ver meu amigo estirado, inerte.

Consegui chegar mais perto para ver Tonho. Ao olhar o rosto do morto, houve uma confusão momentânea em minha cabeça. Fiquei perplexo, surpreso. Não deu para disfarçar a alegria, o sorriso, o alívio ao perceber que o defunto era outro Antônio Moreira, um homônimo.

Os parentes do morto-xará não entenderam minha saída rápida, levantando os braços, alegre, cheguei perto do Jorge gritando: “É outro Antônio, Jorge! Tonho Moreira não morreu, vamos para casa!”

Assim que pude telefonei para meu amigo, vivinho da silva, contei a história de seu enterro. Tonho às gargalhadas, respondeu que eu era o terceiro a confundir. Santa confusão, meu amigo Antônio Moreira estava mais vivo que nunca, com seu sorriso e careca mais reluzentes. E viveu ainda por muito tempo.

Anos depois, Kátia Moreira me telefonou comunicando que Antônio Moreira havia partido desse mundo para outro melhor. À noite fui com o amigo Geraldo Majella ao velório no Parque das Flores. Seus filhos, Duda, Tatá, Mônica e Andréia quando me viram, recordaram a incrível história da trapalhada do enterro errado. A inexorabilidade do tempo, da vida levou Tonho. Restou apenas lembrar o poema de John Donne que diz mais ou menos assim: “Nenhum homem é uma ilha isolada, faz parte do continente. A morte de qualquer ser humano diminui-me porque faço parte da humanidade. Nunca perguntes por quem os sinos dobram, eles dobram por ti.”

Quando se vai um ser querido, morremos um pouco também. Quem sabe se um dia, como vaticinou o Jorge, a gente se encontra na vastidão dos universos? Tive o privilégio de ser amigo de Antônio Moreira, uma das cabeças mais brilhantes, uma das figuras mais inteligentes que conheci nessa cidade de Maceió.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

LU, MULHER GUERREIRA!

Na praia da Jatiúca havia uma feirinha de artesanato e serviços diversos, Cheiro da Terra, onde Lu, cabelereira, instalou um salão. Tornei-me cliente. Era um momento de prazer e diversão cortar cabelo, unhas e ouvir a excelente contadora de histórias. Tornei-me amigo, nunca soube seu nome completo, para os amigos é simplesmente Lu.

Nasceu para as bandas de Palmeira dos Índios, filha do vaqueiro Zé de Miúda e Severina. Eles moravam numa casa de taipa e tinham um pedaço de terra onde plantavam e criavam galinhas, complementando a sobrevivência.

Lu era uma criança esperta, morena bonita, com ares de felicidades, sorriso constante nos lábios. Aos dois anos andava solta nas ruas do povoado. Foi criada tomando leite de cabra, leite de jumenta, comendo “tô fraco” (galinha d’angola) no pirão. Tornou-se uma menina forte e a mais traquina da região, aos seis anos era líder das meninas e dos meninos, jogava ximbra, subia em pé de pau, brincava de polícia e bandido.

De repente veio a adolescência, aos quatorze anos pegou corpo bonito, tornou-se mulher. Os homens ficavam tentados quando olhavam para aquela menina-moça exuberante, sensual, sapeca, cheia de energia, mas tinham medo do pai. Certo dia, um jovem caminhoneiro ao voltar para casa depois de três anos, avistou Lu, o coração bateu forte. A menina que ele via brincando, correndo, havia se transformado numa deslumbrante mulher. Ele foi se achegando, até que Lu concordou namorar. Passaram-se dois anos entre namoro e noivado, foi marcado casamento para o dia 28 de dezembro. O jovem caminhoneiro atrasou-se na viagem, não chegou no dia marcado, mesmo assim a festa rolou, bebidas e comidas foram consumidas pelos convidados. Casaram-se no dia 31 de dezembro.

Dois dias depois do casamento o marido partia para outra viagem. Lu surpreendeu o esposo, pela manhã estava pronta para acompanhá-lo na viagem, sentou-se na boleia do caminhão. Foi a primeira de muitas viagens, percorreu todo o Brasil com seu companheiro. Aprendeu a dirigir, tornou-se excelente motorista melhor que o marido. Assim passaram nove anos, só não dirigiu o caminhão na época de dar a luz aos dois filhos.

Um bonito amor também chega ao fim; houve a separação. Lu foi tentar sua vida em Santos onde ficou na casa do irmão. Aprendeu e arranjou um trabalho de cabeleireira, tinha dois filhos para sustentar. Uma bela mulher fica sozinha se quiser, casou-se novamente. As vicissitudes da vida fizeram acabar o novo casamento. Retornou a Maceió trabalhou de manicure num salão.

Certo dia Lu conheceu o Cheiro da Terra, havia um salão de beleza montado para alugar. Ela fez negócio, se estabeleceu, passou mais de seis anos à frente de seu confortável salão embelezando clientes. Os turistas adoravam quando iam às compras de artesanato, encontravam um salão de beleza bem equipado e bem servido pela simpatia e competência da Lu.

Certa manhã quando chegava perto do trabalho ouviu o grito de fogo; ao perceber o Cheiro da Terra em chamas, seu coração pulou, saiu correndo, conseguiu ainda salvar dois equipamentos. Ao retornar ao salão em chamas para tentar recuperar mais ferramentas de trabalho, os bombeiros proibiram, dois militares seguraram pelos braços. Lu tentava se desvencilhar para enfrentar o inferno. Chorava ao ver o fogo acabar seu salão em poucos minutos. (Dizem que houve incêndio proposital, especuladores imobiliários)

A vida de Lu nunca foi fácil, com muito esforço equipou outro salão na Avenida Amélia Rosa, onde a vistosa, bonita e honesta quarentona, mãe de dois filhos, avó de dois netos, no quarto casamento, atende a clientela.

Certo sábado, ao entardecer, o salão estava lotado quando entrou um assaltante de revólver na mão e na outra uma sacola mandando colocar dinheiro e celulares. Lu pediu calma ao ladrão que lhe apontava a arma, levou seus clientes para o fundo do salão, um local mais seguro, retornou e negociou com o assaltante. Começou a conversar com o meliante, de repente falou firme.

– Peço que você não mexa com meus clientes. Tome meu celular.

Arrematou gritando cheia de raiva:

– Sabe de uma coisa?! Puxe daqui seu cabra safado, seu filho de uma puta!

O assaltante ficou assustado, surpreso com medo daquela louca mulher, deu um pique, disparou pela calçada sem olhar para trás, entrou na primeira esquina. Os clientes aliviados bateram palmas. Fizeram uma cota, compraram e presentearam um novo celular, agradecidos. Assim é Lu, mulher valente, uma heroína anônima da cidade de Maceió.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

ALDEMAR PAIVA

Aldemar Buarque de Paiva, Maceió-AL (1925-2014)

Durante minha juventude, todas as noites, depois do jantar, encontrava os amigos para conversar, paquerar no calçadão da praia da Avenida da Paz. Certa vez estávamos sentados na grama e nos bancos abaixo ao coreto, ouvindo um tocador de violão cantar músicas românticas daquela época. Era serenata numa noite de luar. Alguém pediu “Pajuçara”, música nova, sucesso do poeta Aldemar Paiva. O violeiro não se fez de rogado: abriu a caixa, encheu os pulmões, ligou-se na inspiração, largou a voz com carinho e emoção e pela primeira vez ouvi, me apaixonei pela música sucesso até os dias de hoje.

“Eu que conheço o meu Brasil, sei muito bem,
As lindas praias coqueirais que ele tem
Por isso afirmo nesses versos que compus
Em Pajuçara, há mais encanto, há mais luz.
Pajuçara onde o mar beija as areias com mais alma e mais amor
Pajuçara lindo berço de sereia com seu coqueiral em flor
Pajuçara que reflete o sorriso que nos deu o Criador
Tem uma beleza rara, Pajuçara…”

A moçada bateu palma, pediu bis. O violeiro cantou várias vezes. Aprendi a canção que se tornou um símbolo de nossa amada terra, um Hino das Alagoas.

Nas minhas andanças, morei por esses brasis, voltava a Maceió nas férias, conservei amizade em todos os lugares onde morei. Uma força estranha me aproximava dos boêmios, poetas e artistas. Quando havia uma roda de música, não perdia tempo, eu cantava minha terra nas letras de Pajuçara.

Essa música se incorporou, tenho-a dentro de mim, no meu espírito. Se quando morre dissecassem nossa alma, tenho certeza que na minha encontrarão a música Pajuçara.

Conto essa história para homenagear o compositor, o poeta, escritor, artista, Aldemar Paiva, um alagoano que venceu no mundo das artes Sua fascinante existência foi dedicada à cultura nordestina e brasileira. Certo momento da vida do poeta o sucesso era tanto que emigrou das Alagoas, como tantos outros grandes alagoanos no século passado: Graciliano Ramos, Paulo Gracindo, Jofre Soares, todos brilharam pelo Brasil afora.

No Recife o talento de Aldemar Paiva encantou o povo. Tornou-se o artista mais eclético que o Brasil: poeta, compositor, cantor, ator de teatro e de televisão, roteirista de programa humorístico, entre eles o hilariante Chico City, do Chico Anísio. Aldemar ainda foi jornalista, radialista, cronista, cordelista, palestrista, contador de história, “homem show”. Deslumbrava mortais e imortais.

Duas preciosidades ele conservou com carinho e muito amor: seu batalhão de amigos e sua Angelita eram apaixonados desde os tempos que os índios caetés habitavam a praia da Barra de S. Miguel.

Certa vez, eu morava no Recife, recebi um amigo, intelectual, homem da noite. Fomos assistir a uma peça teatral se não me engano “Assassinato à Domicílio”, quando percebi no cartaz, Aldemar Paiva fazia o papel, era o personagem mais importante. No Recife, ao ouvir o programa de rádio, maior audiência no Estado, “Pernambuco Você é Meu”, eu me orgulhava em ser amigo de Aldemar Paiva. O tempo passou, acompanhei sua trajetória artística, com orgulho em ver um alagoano brilhar.

Há alguns anos, por intermédio da Internet, voltei a encontrar essa figura extraordinária. Toda manhã abria os e-mails e lia seus textos bem humorados, um cordel, ou alguma novidade prazerosa. Há poucos anos nos encontrávamos no Sítio Velho na Paripueira do nosso maior teatrólogo Bráulio Leite. Uma tarde de muita conversa, poesia, uísque, e muitos prazeres como eram as tardes do Sítio Velho.

O trio “Febre, Frio e Dor de Cabeça”, como apelidou, a mim, Pedro Cabral e Cidinha Madeiro, seus fãs de carteirinha, sentem uma saudade imensa do poeta.

Chico Anísio disse numa entrevista: “Quem não conhece Aldemar Paiva, não sabe o que está perdendo”. Hoje presto minha homenagem ao amigo, cantando e alegrando a cidade, com seu “Frevo da Saudade”:

“Quem tem saudade não está sozinho
Tem o carinho da recordação
Por isso quando estou mais isolado
Estou bem acompanhado, com você no coração…”

Saudade de Aldemar Paiva…

* * *

Frevo da Saudade, da autoria de Aldemar Paiva

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TROCA DE DAMAS – Festa Junina

Gilberto é malandro desde criança, na juventude fez parelha com um primo, viviam os dois matando aulas, pensando sempre em tirar vantagem e vadiando com mulheres. Seu primo tornou-se profissional da malandragem, hoje é deputado, Gilberto seu dileto assessor para assuntos aleatórios. Trabalho maneiro comparece duas vezes por semana à Assembleia, lê revistas, jornais, paquera as funcionárias e às vezes resolve algum problema do primo.

No início do mês Gilberto estava navegando pela Internet encontrou o convite de uma festa junina: “TROCA DE DAMAS”, inspirado na dança de quadrilha no passo, “trocar de damas”, quando os cavalheiros que estão defrontes, trocam de damas, depois elas retornam. Acontece que a festa anunciada na Internet, era literalmente para trocar de mulheres, o famoso swing. Ao ler o convite, aguçou a fantasia de Gilberto. Passou a tarde meditando, pensando, sonhando como comparecer essa festa no Recife. A entrada da festa estava difícil, a organização exigia certidão de casamento, três fotos do casal, e pagar o convite de R$ 1.000,00. Gilberto é bom marido, bem casado, jamais pensaria trocar Tereza, sua coroa, amor de sua vida.

De repente apareceu na sala a gostosa Dejanira, assessora de outro deputado. Se dispensassem do serviço os funcionários da Assembleia que já comeram a Dejanira, não ficava um homem.

Gilberto não perdeu tempo, conversou com sua amiga. Mostrou o anúncio da festa TROCA DE DAMAS, expôs o plano: falsificar a certidão de casamento. No outro dia, Dejanira e Gilberto com uma hora na sala de xérox saíram com uma perfeita cópia de certidão de casamento de Gilberto Pereira e Dejanira Silva Costa. No mesmo dia remeteram os documentos exigidos digitalizados para a organização da festa.

No início da semana Gilberto recebeu no zap a aprovação do casal, e enviaram por e-mail fotografais dos casais aprovados que confirmaram a presença. Gilberto quando olhou a foto de uma galega paranaense ficou louco.

Gilberto avisou em casa que viajaria para o Recife revolver problemas do deputado e no dia da festa, quinta-feira, dia 16, juntamente dom Dejanira tomou a estrada para o Recife, ficaram hospedados no Mar Hotel, como dois irmãozinhos aguardando a festa que iniciava às vinte horas daquela noite, ele tinha o mapa do local, uma casa discreta no bairro do Espinheiro.

Exatamente às vinte horas o casal alagoano entrou na casa mostrando na portaria, identidade. Foi conferido, o casal estava na lista, uma recepcionista bonita os levou para o quintal onde havia mesas e cadeiras espalhadas em baixo de toldos armados e um palco, onde um bom conjunto tocava músicas juninas para ouvir e dançar. O ambiente estava decorado com bandeirinhas e balões. Gilberto procurou com o olhar e reconheceu o casal do Paraná, deu-lhe uma sensação de felicidade, a mulher do cara era mais empolgante ao vivo, loura dos olhos azuis, sorriso perfeito, dentes brancos, exalando sensualidade. Como não conhecia as regras, Gilberto e Dejanira aproximaram-se do casal perguntando se os aceitavam na mesa. Os quatros conversaram amenidades. Dejanira saiu-se muito bem, com os detalhes de sua suposta família, combinados e inventados por Gilberto. Ela também estava entusiasmada, o cara do Paraná era bonito, louro, atlético.

Pediram uísque, cerveja e excelente tira-gosto. Dançaram forró com pares trocados, Cláudia, a paranaense, adorando o forró contou que vieram de Curitiba quase direto para festa, a mala estava guardada na casa. Quando deu meia noite, Otávio, o marido, que adorou Dejanira, sugeriu ficar no mesmo hotel e rumaram para o Mar Motel. Depois de ser atendido na portaria e com a chave na mão, Cláudia, tirou discretamente um lingerie da mala. De mãos dadas com Gilberto subiram ao apartamento. O outro casal também estava no clima da troca, Dejanira é uma sábia no amor.

Gilberto educadamente esperou Cláudia tomar banho. Ela saiu do banheiro vestida num maravilhoso lingerie. Gilberto também tomou banho, saiu de pijaminha e deparou-se com uma cena deslumbrante: sua parceira deitada na cama lia uma revista, suas pernas balançavam langorosamente por cima da magnífica bunda levemente coberta por uma calcinha de renda preta. Gilberto deitou-se a seu lado, começou com um beijo na boca, e o resto é silêncio, como diria Shakespeare.

Teve que repetir mais duas vezes durante a noite, com intervalos para bons papos, doses de uísques e ajuda do Viagra. A paranaense era uma tarada, tinha furor-uterino. Com a boca era inigualável. Ao acordarem cumpriram novamente o ritual. No café da manhã encontraram Dejanira e Otávio, felizes da vida.

Eles retornariam a Curitiba uma semana depois, Gilberto quis ficar alguns dias com eles. O casal não concordou, Otávio, com um sorriso simpático esclareceu que eles fazem troca de casais, uma vez por mês e nunca com o mesmo casal, havia gostado dos dois, mas jamais repetiriam a noitada. O jeito foi Gilberto retornar a Maceió. Está gabola, contando vantagem, diz que foi um dos poucos a brincar numa festa junina nesse ano de 2021.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

ORDENER CERQUEIRA

Ordener foi meu ídolo. Eu adorava e dava gargalhadas ouvindo suas histórias. Amigo da família, dentista competente, eficiente professor da Universidade, com consultório na Rua Boa Vista. Tinha alma de boêmio e muitos amigos. Certa vez Aldemar Paiva trouxe o famoso Capiba para um fim de semana em Maceió. Ordener acompanhou os passeios, inclusive ofereceu um almoço em sua casa na praia de Riacho Doce. Retornando ao Recife Capiba confessou a Aldemar Paiva que Ordener era a figura humana mais engraçada que conheceu.

Ordener, jovem adolescente foi um bom estudante no Liceu Alagoano. Havia um professor de história acostumado a dar aula sentado na cadeira, não levantava para pegar um giz. A narrativa histórica era chata, tediosa. O professor tinha a mania de colocar a mão na primeira gaveta do birô enquanto discorria a monótona aula. O preguiçoso professor passava o tempo de aula num blábláblá monocórdio provocando sono nos alunos, sempre com a mão enfiada na gaveta.

Certo dia, no quintal da casa de Ordener apareceu um baita goiamum, azulado e brabo, com uma pata do tamanho de seu casco. Ele conseguiu pegar e amarrar o caranguejo pelas patas, acondicionou, embrulhou em fibras de tronco de bananeira e guardou-o em sua pasta escolar. Na manhã seguinte levou-o para o Liceu. No intervalo, antes da aula do professor preguiçoso, Ordener desembrulhou e soltou o brabo caranguejo na primeira gaveta, fechando-a.

Quando o professor iniciou a aula, sentado na cadeira, imediatamente, num reflexo, abriu a primeira gaveta e enfiou a mão. Naquele instante soltou um estridente grito enquanto puxava o braço com um baita goiamum com a enorme pata travada no dedo indicador. Ele gritava de dor, pedia socorro, enquanto a alunada caiu às gargalhadas. Acudiram o professor que aproveitou e não deu mais aula, prometendo expulsar o meliante que aprontou aquela brincadeira.

Ordener cursando a faculdade foi convidado para atuar no Teatro Universitário, ensaiou durante um mês uma peça sacra a ser encenada na semana santa. Ordener fazia o papel de Jesus, e o amigo, Luís Alves, fazia o papel de Lázaro. Depois de vários ensaios chegou o dia da estreia, um sábado à noite no Teatro Deodoro.

Ninguém era de perder um sábado. Nem ele, nem Luís. Passaram o dia encheram a cara num Bar da Ponta Grossa. Chegaram para atuar às sete da noite no Teatro Deodoro com bafo de cana, cheios de birita. Luís estava mais bêbado. Não havia fala para o Lázaro; seu papel era ficar como morto até quando Jesus (Ordener) o mandasse levantar e nesse momento Lázaro (Luís) levantava e andava ressuscitado.

O Teatro Deodoro cheio, não havia vaga sequer no balcão A peça iniciou e prosseguiu até que aconteceu a cena dos amigos. Luís (Lázaro) deitou-se no chão como morto e Ordener (Jesus) falou alto, fazendo o milagre:

– Levanta-te e anda Lázaro!

Lázaro (Luís) continuou deitado, sem sequer mexia. Ordener (Jesus) para mostrar sua força divina, gritou mais alto:

– Levanta-te Lázaro!

Lázaro continuou sem se mover. Ordener impaciente, sentindo a apreensão da plateia chutou as costas de Luís e gritou mais alto ainda:

– Levanta-te Lázaro!

Até que perdeu a paciência e saiu o impropério:

– Levanta seu filho de uma puta!

A plateia ficou atônita. Ordener dirigiu-se ao público pedindo perdão comunicando:

– O Lázaro está bêbado!

Foi uma gargalhada geral. Alagoas perdeu de uma vez dois ótimos atores que foram expulsos do Grupo de Teatro Universitário.

Meu tio Napoleão, amigo de infância de Ordener, estava há 20 anos sem vir a Maceió. No dia que chegou me pediu para levá-lo ao seu consultório. Chegamos por volta das onze da manhã na Rua Boa Vista. Napoleão sentou-se numa cadeira na sala de espera, eu me aproximei e bati à porta. A me ver Ordener ficou feliz e perguntou a razão da visita; eu respondi ser uma surpresa. Naquele momento ele tratava os dentes de um cliente deitado na cadeira de boca aberta. Ordener deixou o cara com a cara para cima, pendurou a broca e limpando as mãos, sorrindo, perguntando pela surpresa saiu da sala. Foi emocionante quando apontei para meu tio Napoleão. Ao reconhecer o amigo de juventude a alegria foi tamanha que se abraçaram chorando. O encontro emocionou aos clientes que aguardavam serem atendidos.

Ordener tirou a bata branca, abraçado ao ombro de Napoleão, descemos para comemorar o encontro. Sentamos no Bar do Chope, onde emocionados brindamos algumas doses de cachaça acompanha por cerveja bem gelada. Em poucos momentos apareceu a atendente lembrando que o cliente ainda estava lá de boca aberta. Ele mandou recado: estava muito emocionado, sem condições psicológicas, pedia desculpas aos clientes, não mais atenderia naquele dia.

Terminamos o encontro por volta das quatro horas da madrugada no Bar das Ostras, à beira da Lagoa Mundaú, cantando acompanhado pelo violão de Marcos Vinicius; “Ai, ai, que saudade ai que dó… viver longe de Maceió… As noitadas felizes nas Ostras… bons amigos que choram até… que saudades da Bica da Pedra… e dos banhos lá do Catolé…” Ordener Cerqueira foi dentista e professor dos mais competentes e um dos boêmios mais queridos da cidade. Suas histórias ainda são contadas boca a boca em toda Maceió.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

DEODATO, O SANTEIRO

Artista alagoano, nascido na Levada. Conquistou o mundo com suas hábeis mãos, transformando madeira crua em belas esculturas.

Desde menino, moleque, andava pelos bairros, perambulando pelas ruas da cidade, que um dia iria se tornar sua paixão. Ao completar 13 anos descobriu sua vocação ao transformar um monte de barro em uma casa de farinha e foi vendê-la na Feira de Passarinho quando conheceu o antropólogo Dr. Théo Brandão que se encantou com o trabalho daquele jovem.

Sua vida repleta de muitas histórias e alegrias tornou-o um homem feliz. Foi Cabo do Exército Brasileiro em plena Segunda Guerra Mundial. Passou algum tempo como militar. Ao dar baixa do Exército arranjou um emprego no aeroporto de Maceió, era “espantador de urubu”, seu trabalho era dar carreira e não deixar os urubus perto da pista de pouso.

Até que resolveu afinal arriscar seu futuro no Rio de Janeiro: embarcou na terceira classe de um velho navio ITA no porto de Jaraguá.

No Rio de Janeiro se fez conhecido pelas peças de madeiras esculpidas. Morou no Morro da Mangueira e tornou-se carnavalesco. Conviveu com Cartola e Zica, tornou-se amigo de sambista de tradição. Ajudou nas alegorias e enfeites da Escola, desfilou no carnaval.

De espírito inquieto mudou-se para São Paulo em busca de melhor reconhecimento. Desempregado, tentou de tudo, foi boxeador valendo-se dos ensinamentos do Tenente Madalena com quem aprendeu a lutar boxe no Exército. Sua vida foi uma luta. Competiu no campeonato paulista de boxe por mais de uma temporada. Sobrevivia para poder trabalhar na madeira. Até que um dia descobriu a paixão de sua vida: Deodato esqueceu a luta, namorou Maria Lúcia, uma jovem guerreira, tornou-se companheira.

Casado, nosso herói aquietou-se e dedicou-se apenas a sua arte. Com ajuda de amigos e muita briga com fiscais da Prefeitura fundou a feira de artesanato da Praça da República. Deodato tinha razão e uma visão futura. Hoje a Feira da Praça da República é grande atração turística da cidade de São Paulo.

O ilustre alagoano nunca esqueceu sua terra, mesmo quando começou a ser reconhecida sua maravilhosa arte. Ficou famoso em São Paulo, no Rio e adjacências. Teve convite e foi para o Programa do Jô Soares, Argentina e Uruguai.

O Fantástico fez uma inesquecível matéria ao vivo com Deodato, o santeiro, aliás, o milagreiro.

A Igreja do Butantã encomendou um Cristo em madeira. Deodato caprichou, comprou um enorme tronco. Com menos de um mês esculpiu um belo Cristo de 3,5 metros de altura. A madeira ainda não estava completamente seca, saía um pouco de resina das talhas. Os padres acharam tão bonito que resolveram levar o Cristo para o altar da Igreja antes da madeira curtir.

Foi um sucesso. Os fieis frequentavam a Igreja para olhar aquela linda escultura do Cristo enorme. De repente uma beata descobriu nos pés e nas mãos de Cristo um líquido vermelho escorrendo. A Filha de Maria não teve dúvida, nem raciocinou quando gritou no átrio: “Milagre! Milagre! Cristo está sangrando!”.

Deu-se um clima de espanto quando o povo admirava o correr do líquido vermelho. Logo chegou reportagem dos jornais e televisão. Ninguém explicava o fenômeno, só um milagre justificava.

Até que o Fantástico foi gravar o “milagre” e Deodato tentou explicar o fato real, esclareceu que aquele líquido vermelho era resina. Mas o povo não quis saber da explicação. A massa tem necessidade de “milagres”.

Certa vez, uma senhora estava com o pescoço torto e duro. Na rua reconheceu Deodato como o santo que esculpiu Cristo que sangrou. De repente atacou gritando e beijando os pés do “milagreiro”, abraçou-o pela canela. Deodato aborrecido gritou para a senhora: -“Me largue”.

Na emoção a senhora entendeu mal e gritou: “Milagre!”. No mesmo instante a dor no seu pescoço passou e voltou a ficar mole. Foi um reboliço. Muitos foram testemunhas do milagre. Os repórteres dos jornais registraram a história do Santo Deodato, o milagreiro, a fama ficou até hoje em São Paulo.

Deodato nunca esqueceu sua Maceió e a lagoa Mundaú. Quando viajava à terra visitava aos amigos. O Prefeito de Marechal pediu e ele esculpiu aquela maravilhosa estátua equestre do Marechal Deodoro na entrada da cidade.

Infelizmente, um dos mais notáveis artistas do Brasil, nascido no bairro da Levada em Maceió, foi chamado para esculpir um bando de santo que deve ter no céu. Estou imaginando o trabalho que meu querido amigo, que não sabia dizer não, esculpindo o batalhão de santos do céu. Aqui na terra restou um boneco de carnaval que todo ano, desfila no Bloco do Siri Mole do artista Ovídio Gurgel, seu pareia.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

O APOSENTADO

Fernando José chegou em casa ao entardecer, sentou-se no sofá, abraçou Margarida, declarou feliz à esposa.

– Foi meu último dia de trabalho, me sinto cansado, a aposentadoria do Banco dá para viver sem atropelos financeiros. Quero viajar, brincar com os netos, andar na orla, nadar na Academia, assistir cineminha pela tarde, ler muito. Escrever minhas memórias, quase 70 anos. Tenho muitas histórias, dentro de dois anos lanço meu primeiro livro. Não trabalharei mais para ninguém, vou ser um jovem e feliz idoso aposentado, caminhante da praia da Jatiúca!

– Ótimo, vou lhe dar uma tarefa, levar seu neto, Fernandinho, toda quinta-feira de quatro às seis da tarde na aula de inglês. – Disse a filha, Denise, chegando e ouvindo a confissão do pai.

– Terei a maior satisfação, pode deixar comigo.

Na quinta-feira Fernando pegou Fernandinho em seu edifício. Entrou na escola de inglês segurando a mão do neto, sala ampla, onde se ramificavam quatro corredores com salas de aula, Fernandinho, nove anos, esperto, logo achou sua turma, desde os seis anos estuda inglês, um craque. O avô olhou o relógio, achou a sala aconchegante, resolveu esperar sentado numa confortável poltrona, pegou uma revista ficou a ler algumas reportagens. De repente uma senhora bem vestida sentou-se na poltrona ao lado, ele sentiu o perfume, deu-lhe uma deliciosa leveza dentro do ser, conhecia o aroma delicioso, a madame usava “Fleur de Rocaille”, seu perfume preferido, amava aquela fragrância desde o namoro com Vilma, uma paulista no início dos anos 70. Tórrida e inesquecível paixão. Muitas vezes se embriagou cheirando a nuca da namorada. Viveram juntos dois anos assim que entrou no Banco do Brasil foi trabalhar em Macapá, longínqua e bela capital do Estado do Amapá. Lá conheceu a paulista.

Fernando estava em devaneios quando ouviu um pigarro, nesse momento baixou a revista, olhou, contemplou a bela coroa, idade indefinida entre 40 e 50 anos, talvez 60. Quem sabe idade de uma mulher? Elegante, exalava suavemente Fleur de Rocaille. Atração à primeira vista. Sorriu, iniciou uma conversa leve.

– Esperando o filho?

– Não, neto, tenho essa missão, trazer o neto às aulas de inglês, prefiro ficar lendo, esperando a aula terminar. – respondeu a gostosa coroa.

Continuaram a conversa, vovô viu a vovó, gostou, nasceu uma química entre os dois. Ao terminar a aula, despediram-se.

Durante a semana Fernando sentia Fleur de Rocaille por onde andava, na sala, na cozinha, chegava-lhe o perfume. Na quinta-feira seguinte, tomou banho demorado, vestiu camisa nova, perfumou-se, espargiu Azarrô em seu corpo. Ao chegar à escola de inglês com o neto, era intenso o movimento de alunos, pais, avós, professores. Percebeu a nova amiga, sentou-se perto, deu um olá, ela responde um adeus em dedos, logo estavam conversando.

Passaram-se três semanas, ficaram íntimos, conheciam a vida um do outro. Fernando convidou Amanda, assim se chama a viúva, para tomar um sorvete na Bali, ao caminhar, no segundo quarteirão avistou uma placa num edifício, “Aluga-se apto quarto e sala mobiliado – chave na portaria”, ele precisava para um primo que chegava do Rio. Foram conhecer o apartamento. Ao se verem sozinhos, propositalmente ele encostou o braço em Amanda, ela sentiu um choque, eletricidade química, segurou a mão do vovô aposentado, apertou, virou-se, se abraçaram, se beijaram. Fernando se embriagou em tanto cheirar a mulher perfumada, deixaram o sorvete para outro dia.

Já se passaram quatro meses do primeiro encontro, toda quinta-feira Fernando deixa Fernandinho na aula de Inglês e sobe para o apartamento que ele mesmo alugou . Toma o fortificante azul diluído em meio copo d’água, coloca uma música dos anos dourados esperando a viúva bater à porta. Quando Amanda entra, ele sente o perfume Fleur de Rocaille penetrar nas narinas. Abraça, beija, funga o cangote da viúva. Depois relaxado, conversando com a namorada, espera a hora de terminar a aula. Leva Fernandinho à sua casa e num lapso agradece à filha.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

COLÉGIO DIOCESANO

Após o banho de mar matinal na Praia da Avenida da Paz, eu tomava um café reforçado da Dona Zeca quase na hora de pegar o bonde para o Colégio Diocesano. Havia um ponto de parada de bonde perto de minha casa, na esquina, defronte à belíssima mansão de Seu Paulo Tenório. Eu, menino cheio de vigor, preferia pegar o bonde em movimento ao passar em frente à minha casa. Pulava dando impulso com um pé, juntava o outro firme no estribo, a mão segurava o barrete vertical, viajava em pé, mesmo com vagas nos bancos, equilibrando uma pesada bolsa de livros e cadernos na outra mão. O bonde paquidérmico andava lentamente, eu sentia, amava a carícia do vento no rosto. O cobrador passava experto, uniforme desalinhado e inefável quepe, as notas de dinheiro arrumadas entre os dedos facilitando o troco aos passageiros, mandava sair do estribo e sentar nos bancos. Nós, meninos livres e teimosos, não obedecíamos.

O motorneiro (condutor) acelerava o bonde rangendo nos trilhos, tocando “Tim-Tim”. Entrava pela Praça Sinimbu, Rua do Imperador, dobrava por trás da Assembleia, subia a Rua do Comércio, finalmente chegava nosso destino, o majestoso e bonito casarão, Colégio Diocesano, onde hoje é a Secretaria de Agricultura.

Às sete da manhã, impreterivelmente, tocava o sino, os alunos entravam enfileirados na sala. Depois de rezar três ave-marias e um padre-nosso, iniciava a primeira aula. Assistíamos às aulas pensando no intervalo, recreio de dez minutos, mal dava para tomar água, jogar ximbra, pião, trocar figurinhas. O sino batia novamente acabando a alegria fugaz, retorno à sala de aula.

O Colégio tinha um ensino bem organizado, todos os colegas daquele tempo ficaram bem encaminhados pelo excelente nível de educação. Alguns colegas disputavam o primeiro lugar nas notas. Outros também se distinguiam nas aulas práticas de oratória, mostravam seus dotes brilhantes. Eu era bom na matemática. Fui aluno particular do professor Benedito na Praça das Graças, onde três vezes por semana, assistia às aulas noturnas do excelente professor Benedito que ficou na história da cidade.

Fui aluno marista de 1948 a 1955, sete anos, um bom tempo de aprendizado. Devo parte da minha educação politicamente correta aos Irmãos Maristas, havia aula de civilidade e religião. A outra parte de minha educação mais escrachada, anárquica, devo à vida livre nas praias, praças, mares, lagoas e ruas de Maceió.

Nossa turma teve como “lente” (responsável) durante o curso Colegial o irmão Bráulio, grande liderança sobre professores e alunos. Incentivador do esporte, treinador de nossa classe, campeã alguns anos de futebol do Colégio. Eu era um jogador medíocre, mas estava sempre escalado ou na reserva do time. Os jogos do campeonato eram pela tarde no campo do Colégio, uma área entre o prédio e o muro cheia de oitizeiros centenários, jogávamos à sombra. Quando a bola batia em uma árvore, continuava valendo. Houve um caso do goleiro Marcos Mello ter feito uma bela defesa quando chutou a bola para frente, ela bateu em uma árvore e voltou entrando na trave, o gol foi validado.

Havia um irmão, sempre mal humorado, vivia enfezado, francês, velho ranzinza, professor de francês e matemática, reclamava e censurava a nossa educação, insistia em nos comparar com a educação dos meninos franceses, seus conterrâneos. Era crítico dos nossos costumes. Certo dia, no intervalo de aula, um colega de turma, um tremendo gozador, hoje sério e recatado cidadão, escreveu no quadro-negro uma quadra que dizia mais ou menos assim: “Irmão Júlio vai morrer buchudo… Sem poder cuspir… Com um pirulito na boca… Sem poder engolir… E com um filho na barriga… Sem poder parir”. Quando o velho irmão entrou na sala de aula, leu os versos, soltou um grito, xingando de mal educados, cafajestes. Naquele momento teve um ataque, ficou vermelho que nem um pimentão e desmaiou na cadeira. Pensamos que estava morto, foi um corre-corre, com tapinhas na bochecha, água no rosto, ele voltou ao normal.

Era uma turma eclética deu bons profissionais que fizeram a história e construíram a cidade de Maceió no século XX.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

MISS PARIPUEIRA

Convicta dentro de sua insanidade, Ambrosina se orgulhava clamando aos quatro cantos da cidade: “Eu sou a Miss Paripueira”. Vestida de saias e blusas chamativas, enfeitada de colorares, diversas pulseiras enchiam seus pequenos braços. Baixinha e amável tinha paixão por sua peruca, amarrava uma fita na testa; os óculos escuros era peça imprescindível durante o dia e a noite.

A molecada gostava daquela figura excêntrica, que em sua imaginação ouvia música, cantava e dançava, marcava passos como uma bailarina, a dança estava no seu sangue, na sua índole, na sua loucura.

Nasceu não se sabe quando na comunidade de Paripueira, belíssima praia, atração turística do Nordeste, antigo recanto de poucos privilegiados, mar azul esverdeado. Marolas beijando os pés à beira-mar, andar dentro d’água ao fundo é um passeio, depois de alguns momentos mar à dentro, a água permanece pouco acima da cintura. Artistas, letrados, loucos e veranistas moram naquele paraíso promovido a cidade, perto da capital, um bairro de Maceió.

Ambrosina Maria da Conceição, era uma mulher saudável casou-se, teve filhos, até que um dia desatinou, sentiu-se linda, coroou-se Miss Paripueira. Em janeiro na famosa Festa de Santo Amaro era a alegria da meninada, divertida com seus colares, suas roupas coloridas e um sorriso constante na boca como se tivesse debochando do mundo, tornou-se símbolo da cidade. Nos carnavais ela percorria a maratona carnavalesca na Rua do Comércio em Maceió, o Banho de Mar à fantasia na Avenida da Paz e gostava de acompanhar os blocos pela cidade.

Ficava triste e irada quando a meninada a chamava de Sabiá, canela de Sabiá, perdia a alegria, se zangava, pegava pedra e pau sacudia na garotada. Certa vez acertou uma pedra no olho de um jovem, o levaram para no Hospital, o pai, influente político foi à Delegacia deu queixa do ocorrido, exigiu a prisão de Miss Paripueira. Entretanto, alguns moradores defenderam aquela criatura, não fazia mal algum. Para assegurar a liberdade levaram-na num jipe para Maceió, escondendo Ambrosina na casa de um primo no bairro do Poço. Morou algum tempo na capital. Todos os dias ela se arrumava com vestidos chamativos, seus inefáveis óculos escuros, a bolsa espalhafatosa e desfilava pela Rua do Comércio no centro da cidade. Empolgava-se em sua loucura ouvindo o povo aclamar, gritar: “Miss Paripueira!” Envaidecida, agradecia com uma reverência abaixando o corpo, dava uma volta, um adeus com a mão, continuava em frente, era a mulher mais bonita e mais feliz do mundo.

Em sua cabeça toda população lhe olhava, lhe admirava. Entretanto, seu maior prazer era dançar, quando ouvia música, a baixinha saía nos passos bem marcados, tinha ginga e balanço. Durante o carnaval ficava à frente dos blocos, seja o Vulcão, o Cavaleiro dos Montes, o Vou Botar Fora, Miss Paripueira era sempre bem vinda fazendo o passo no seu estilo alegre, contagiante. Sempre agradecendo à multidão, aos fãs, delirava em sua cabeça ao ouvir gritar: Miss Paripueira, Miss Paripueira.

Não se sabe o fim da doce, encantadora, louca, extravagante criatura que em sua época teve um pedaço do reino do mundo nas cidades de Maceió e Paripueira. Não se sabe onde ou quando morreu. O povo não a esqueceu, artistas anônimos lhe prestaram algumas homenagens anônimas.

Na entrada da cidade havia um bar com o nome de Miss Paripueira e um seu retrato pintado na parede com cores chamativas. O cineasta e ator José Marcio Passos dirigiu e produziu um curta documentário, “Meu Nome é Miss Paripueira”, exibido em 1978 no Festival de Cinema Brasileiro de Penedo.

Mais recente, na era da Internet nas redes sociais existe um grupo: “Eu sou fã de Miss Paripueira”. Em um carnaval houve um concurso de fantasia exclusiva de Miss Paripueira, foi um sucesso apareceram mais de 20 mulheres fantasiadas. Celso Brandão, premiado fotógrafo alagoano tem uma série de retratos de Ambrosina, nossa pacata e alegre cidadã. Não podemos relegar ao esquecimento os heróis e heroínas, famosos anônimos, de nossa cidade.

Obs. Essa crônica fará parte do livro: “FAMOSOS HÉROIS ANÔNIMOS”, historias biográficas de figuras simples ou loucas de nossa cidade.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

MOSSORÓ

Uma cidade não é feita apenas de ruas, prédios, praças e jardins; ela é feita, sobretudo, de seus cidadãos que a fazem funcionar; seja um taxista, um ambulante, um garçom, ou qualquer figura simples que trabalha para ganhar o pão de cada dia, ao mesmo tempo trabalha para o funcionamento de sua comunidade, de sua cidade. O povo é a alma de uma cidade. Os homens importantes como governador, prefeito ou vereador estão já inscritos na história oficial com livros mostrando as obras e serviços dessas autoridades. Aqui no meu cantinho quero contar um pouco de alguns simples cidadãos que se fizeram conhecidos na cidade, depois o tempo o fez esquecer, quero registrar alguns famosos anônimos esquecidos, como, por exemplo, Benedito Alves dos Santos, o Mossoró, o mais popular e controvertido dono da noite do século passado em Maceió.

Negro, alto, de sorriso largo, Benedito na juventude foi pintor de parede. Gostava de contar que a primeira cerveja de sua vida, ele tomou em minha casa ao terminar um trabalho de pintura. O meu pai ofereceu uma rodada de cerveja.

Nos anos 60 Mossoró iniciou a trabalhar numa boate em Jaraguá. A partir daí não parou mais, tornou-se o maior proxeneta das Alagoas. Enricou com o agenciamento de mulheres. Conta-se que em 1969 a mulher do Secretário de Segurança, ao passar por Jaraguá de manhã, viu um boêmio retardatário chegar-se ao meio fio, abrir a braguilha e fazer xixi na rua. A madame ficou impressionada, exigiu a retirada das boates do bairro de Jaraguá.

Mossoró tinha uma boa poupança. Além de dirigir a casa, ele trocava dólar; foi o primeiro cambista da cidade, com a determinação de mudar-se de Jaraguá, construiu a Boate Areia Branca no bairro do Canaã. A casa tornou-se o reduto dos boêmios dos anos 70/80.

Contam-se muitas histórias folclóricas do Mossoró. Quando construíram o Estádio Rei Pelé, o Trapichão, ele comprou duas cadeiras cativas: uma para ele, outra para o enorme rádio que sempre levava para ouvir a radiação dos jogos do CSA. Suas cadeiras eram das melhores, vizinhas a do austero Governador Afrânio Lages. Certo tarde, Mossoró encontrou-se com o governador Afrânio em visita às obras no centro da cidade. O Negão não perdeu o rebolado, cumprimentou o governador mostrando intimidade:

– Como está Governador? Vai amanhã por lá?

Os auxiliares do Professor Afrânio tiveram dificuldades em esclarecer que Mossoró havia perguntado se ele iria ao jogo no estádio Rei Pelé e não à Boate Areia Branca, como alguns pensaram maldosamente.

Outras histórias tornaram-se lendas. Na construção dos banheiros da boate o engenheiro especificou revestimento de azulejo. Numa visita à obra Mossoró mandou retirar todos os azulejos brancos já assentados, reclamando que não havia acertado “branculejo”, e sim, azulejo, azul da cor do seu CSA.

O Negão tornou-se um homem de fino gosto. Só usava camisa de seda, sapatos italianos impecavelmente engraxados, correntes de ouro, relógio rolex de ouro incrustado com pedras preciosas. O uísque era do bom e um charuto para dar a importância que ele aparentava. Os ricos de Maceió só trocavam dólar com ele. Mossoró se gabava da amizade com a fina flor da burguesia alagoana. Aprendeu a comer e beber do melhor.

Certa vez, ele estava de boca aberta para o dentista que examinava os dentes, ouviu o diagnóstico que precisava colocar uma nova dentadura inferior. Mossoró assim que pode abrir a boca foi bem claro:

– Doutor, sou rico. Não quero nada inferior, por favor, bote tudo superior.

As histórias com Benedito Alves dos Santos dão um livro.

A última vez que vi Mossoró foi em sua bela residência na Ponta Verde, fui acompanhado de um candidato no tempo de eleição, pedir votos. Ele tinha bom coração, ajudava aos mais necessitados do bairro Canaã, como também ajudava suas meninas, que lhes chamavam carinhosamente de “Pai Véio”.

Outro dia passando pelo Canaã, encontrei tudo diferente, a extensa casa da boate foi transformada em uma caquética pensão “familiar”. No espaço da Casa Areia Branca estabeleceu-se com um acanhado bar, onde vende cachaça e cerveja. Nas paredes do bar algumas fotografias de gente famosa, no fundo fotografias das equipes daquela época do CSA. Com a revolução sexual, os costumes mudaram, hoje já não existem boates, nem figuras de dono da noite e das raparigas como o lendário Mossoró.