CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

Na praia da Jatiúca havia uma feirinha de artesanato e serviços diversos, Cheiro da Terra, onde Lu, cabelereira, instalou um salão. Tornei-me cliente. Era um momento de prazer e diversão cortar cabelo, unhas e ouvir a excelente contadora de histórias. Tornei-me amigo, nunca soube seu nome completo, para os amigos é simplesmente Lu.

Nasceu para as bandas de Palmeira dos Índios, filha do vaqueiro Zé de Miúda e Severina. Eles moravam numa casa de taipa e tinham um pedaço de terra onde plantavam e criavam galinhas, complementando a sobrevivência.

Lu era uma criança esperta, morena bonita, com ares de felicidades, sorriso constante nos lábios. Aos dois anos andava solta nas ruas do povoado. Foi criada tomando leite de cabra, leite de jumenta, comendo “tô fraco” (galinha d’angola) no pirão. Tornou-se uma menina forte e a mais traquina da região, aos seis anos era líder das meninas e dos meninos, jogava ximbra, subia em pé de pau, brincava de polícia e bandido.

De repente veio a adolescência, aos quatorze anos pegou corpo bonito, tornou-se mulher. Os homens ficavam tentados quando olhavam para aquela menina-moça exuberante, sensual, sapeca, cheia de energia, mas tinham medo do pai. Certo dia, um jovem caminhoneiro ao voltar para casa depois de três anos, avistou Lu, o coração bateu forte. A menina que ele via brincando, correndo, havia se transformado numa deslumbrante mulher. Ele foi se achegando, até que Lu concordou namorar. Passaram-se dois anos entre namoro e noivado, foi marcado casamento para o dia 28 de dezembro. O jovem caminhoneiro atrasou-se na viagem, não chegou no dia marcado, mesmo assim a festa rolou, bebidas e comidas foram consumidas pelos convidados. Casaram-se no dia 31 de dezembro.

Dois dias depois do casamento o marido partia para outra viagem. Lu surpreendeu o esposo, pela manhã estava pronta para acompanhá-lo na viagem, sentou-se na boleia do caminhão. Foi a primeira de muitas viagens, percorreu todo o Brasil com seu companheiro. Aprendeu a dirigir, tornou-se excelente motorista melhor que o marido. Assim passaram nove anos, só não dirigiu o caminhão na época de dar a luz aos dois filhos.

Um bonito amor também chega ao fim; houve a separação. Lu foi tentar sua vida em Santos onde ficou na casa do irmão. Aprendeu e arranjou um trabalho de cabeleireira, tinha dois filhos para sustentar. Uma bela mulher fica sozinha se quiser, casou-se novamente. As vicissitudes da vida fizeram acabar o novo casamento. Retornou a Maceió trabalhou de manicure num salão.

Certo dia Lu conheceu o Cheiro da Terra, havia um salão de beleza montado para alugar. Ela fez negócio, se estabeleceu, passou mais de seis anos à frente de seu confortável salão embelezando clientes. Os turistas adoravam quando iam às compras de artesanato, encontravam um salão de beleza bem equipado e bem servido pela simpatia e competência da Lu.

Certa manhã quando chegava perto do trabalho ouviu o grito de fogo; ao perceber o Cheiro da Terra em chamas, seu coração pulou, saiu correndo, conseguiu ainda salvar dois equipamentos. Ao retornar ao salão em chamas para tentar recuperar mais ferramentas de trabalho, os bombeiros proibiram, dois militares seguraram pelos braços. Lu tentava se desvencilhar para enfrentar o inferno. Chorava ao ver o fogo acabar seu salão em poucos minutos. (Dizem que houve incêndio proposital, especuladores imobiliários)

A vida de Lu nunca foi fácil, com muito esforço equipou outro salão na Avenida Amélia Rosa, onde a vistosa, bonita e honesta quarentona, mãe de dois filhos, avó de dois netos, no quarto casamento, atende a clientela.

Certo sábado, ao entardecer, o salão estava lotado quando entrou um assaltante de revólver na mão e na outra uma sacola mandando colocar dinheiro e celulares. Lu pediu calma ao ladrão que lhe apontava a arma, levou seus clientes para o fundo do salão, um local mais seguro, retornou e negociou com o assaltante. Começou a conversar com o meliante, de repente falou firme.

– Peço que você não mexa com meus clientes. Tome meu celular.

Arrematou gritando cheia de raiva:

– Sabe de uma coisa?! Puxe daqui seu cabra safado, seu filho de uma puta!

O assaltante ficou assustado, surpreso com medo daquela louca mulher, deu um pique, disparou pela calçada sem olhar para trás, entrou na primeira esquina. Os clientes aliviados bateram palmas. Fizeram uma cota, compraram e presentearam um novo celular, agradecidos. Assim é Lu, mulher valente, uma heroína anônima da cidade de Maceió.

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