CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

Ordener foi meu ídolo. Eu adorava e dava gargalhadas ouvindo suas histórias. Amigo da família, dentista competente, eficiente professor da Universidade, com consultório na Rua Boa Vista. Tinha alma de boêmio e muitos amigos. Certa vez Aldemar Paiva trouxe o famoso Capiba para um fim de semana em Maceió. Ordener acompanhou os passeios, inclusive ofereceu um almoço em sua casa na praia de Riacho Doce. Retornando ao Recife Capiba confessou a Aldemar Paiva que Ordener era a figura humana mais engraçada que conheceu.

Ordener, jovem adolescente foi um bom estudante no Liceu Alagoano. Havia um professor de história acostumado a dar aula sentado na cadeira, não levantava para pegar um giz. A narrativa histórica era chata, tediosa. O professor tinha a mania de colocar a mão na primeira gaveta do birô enquanto discorria a monótona aula. O preguiçoso professor passava o tempo de aula num blábláblá monocórdio provocando sono nos alunos, sempre com a mão enfiada na gaveta.

Certo dia, no quintal da casa de Ordener apareceu um baita goiamum, azulado e brabo, com uma pata do tamanho de seu casco. Ele conseguiu pegar e amarrar o caranguejo pelas patas, acondicionou, embrulhou em fibras de tronco de bananeira e guardou-o em sua pasta escolar. Na manhã seguinte levou-o para o Liceu. No intervalo, antes da aula do professor preguiçoso, Ordener desembrulhou e soltou o brabo caranguejo na primeira gaveta, fechando-a.

Quando o professor iniciou a aula, sentado na cadeira, imediatamente, num reflexo, abriu a primeira gaveta e enfiou a mão. Naquele instante soltou um estridente grito enquanto puxava o braço com um baita goiamum com a enorme pata travada no dedo indicador. Ele gritava de dor, pedia socorro, enquanto a alunada caiu às gargalhadas. Acudiram o professor que aproveitou e não deu mais aula, prometendo expulsar o meliante que aprontou aquela brincadeira.

Ordener cursando a faculdade foi convidado para atuar no Teatro Universitário, ensaiou durante um mês uma peça sacra a ser encenada na semana santa. Ordener fazia o papel de Jesus, e o amigo, Luís Alves, fazia o papel de Lázaro. Depois de vários ensaios chegou o dia da estreia, um sábado à noite no Teatro Deodoro.

Ninguém era de perder um sábado. Nem ele, nem Luís. Passaram o dia encheram a cara num Bar da Ponta Grossa. Chegaram para atuar às sete da noite no Teatro Deodoro com bafo de cana, cheios de birita. Luís estava mais bêbado. Não havia fala para o Lázaro; seu papel era ficar como morto até quando Jesus (Ordener) o mandasse levantar e nesse momento Lázaro (Luís) levantava e andava ressuscitado.

O Teatro Deodoro cheio, não havia vaga sequer no balcão A peça iniciou e prosseguiu até que aconteceu a cena dos amigos. Luís (Lázaro) deitou-se no chão como morto e Ordener (Jesus) falou alto, fazendo o milagre:

– Levanta-te e anda Lázaro!

Lázaro (Luís) continuou deitado, sem sequer mexia. Ordener (Jesus) para mostrar sua força divina, gritou mais alto:

– Levanta-te Lázaro!

Lázaro continuou sem se mover. Ordener impaciente, sentindo a apreensão da plateia chutou as costas de Luís e gritou mais alto ainda:

– Levanta-te Lázaro!

Até que perdeu a paciência e saiu o impropério:

– Levanta seu filho de uma puta!

A plateia ficou atônita. Ordener dirigiu-se ao público pedindo perdão comunicando:

– O Lázaro está bêbado!

Foi uma gargalhada geral. Alagoas perdeu de uma vez dois ótimos atores que foram expulsos do Grupo de Teatro Universitário.

Meu tio Napoleão, amigo de infância de Ordener, estava há 20 anos sem vir a Maceió. No dia que chegou me pediu para levá-lo ao seu consultório. Chegamos por volta das onze da manhã na Rua Boa Vista. Napoleão sentou-se numa cadeira na sala de espera, eu me aproximei e bati à porta. A me ver Ordener ficou feliz e perguntou a razão da visita; eu respondi ser uma surpresa. Naquele momento ele tratava os dentes de um cliente deitado na cadeira de boca aberta. Ordener deixou o cara com a cara para cima, pendurou a broca e limpando as mãos, sorrindo, perguntando pela surpresa saiu da sala. Foi emocionante quando apontei para meu tio Napoleão. Ao reconhecer o amigo de juventude a alegria foi tamanha que se abraçaram chorando. O encontro emocionou aos clientes que aguardavam serem atendidos.

Ordener tirou a bata branca, abraçado ao ombro de Napoleão, descemos para comemorar o encontro. Sentamos no Bar do Chope, onde emocionados brindamos algumas doses de cachaça acompanha por cerveja bem gelada. Em poucos momentos apareceu a atendente lembrando que o cliente ainda estava lá de boca aberta. Ele mandou recado: estava muito emocionado, sem condições psicológicas, pedia desculpas aos clientes, não mais atenderia naquele dia.

Terminamos o encontro por volta das quatro horas da madrugada no Bar das Ostras, à beira da Lagoa Mundaú, cantando acompanhado pelo violão de Marcos Vinicius; “Ai, ai, que saudade ai que dó… viver longe de Maceió… As noitadas felizes nas Ostras… bons amigos que choram até… que saudades da Bica da Pedra… e dos banhos lá do Catolé…” Ordener Cerqueira foi dentista e professor dos mais competentes e um dos boêmios mais queridos da cidade. Suas histórias ainda são contadas boca a boca em toda Maceió.

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