CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

Uma cidade não é feita apenas de ruas, prédios, praças e jardins; ela é feita, sobretudo, de seus cidadãos que a fazem funcionar; seja um taxista, um ambulante, um garçom, ou qualquer figura simples que trabalha para ganhar o pão de cada dia, ao mesmo tempo trabalha para o funcionamento de sua comunidade, de sua cidade. O povo é a alma de uma cidade. Os homens importantes como governador, prefeito ou vereador estão já inscritos na história oficial com livros mostrando as obras e serviços dessas autoridades. Aqui no meu cantinho quero contar um pouco de alguns simples cidadãos que se fizeram conhecidos na cidade, depois o tempo o fez esquecer, quero registrar alguns famosos anônimos esquecidos, como, por exemplo, Benedito Alves dos Santos, o Mossoró, o mais popular e controvertido dono da noite do século passado em Maceió.

Negro, alto, de sorriso largo, Benedito na juventude foi pintor de parede. Gostava de contar que a primeira cerveja de sua vida, ele tomou em minha casa ao terminar um trabalho de pintura. O meu pai ofereceu uma rodada de cerveja.

Nos anos 60 Mossoró iniciou a trabalhar numa boate em Jaraguá. A partir daí não parou mais, tornou-se o maior proxeneta das Alagoas. Enricou com o agenciamento de mulheres. Conta-se que em 1969 a mulher do Secretário de Segurança, ao passar por Jaraguá de manhã, viu um boêmio retardatário chegar-se ao meio fio, abrir a braguilha e fazer xixi na rua. A madame ficou impressionada, exigiu a retirada das boates do bairro de Jaraguá.

Mossoró tinha uma boa poupança. Além de dirigir a casa, ele trocava dólar; foi o primeiro cambista da cidade, com a determinação de mudar-se de Jaraguá, construiu a Boate Areia Branca no bairro do Canaã. A casa tornou-se o reduto dos boêmios dos anos 70/80.

Contam-se muitas histórias folclóricas do Mossoró. Quando construíram o Estádio Rei Pelé, o Trapichão, ele comprou duas cadeiras cativas: uma para ele, outra para o enorme rádio que sempre levava para ouvir a radiação dos jogos do CSA. Suas cadeiras eram das melhores, vizinhas a do austero Governador Afrânio Lages. Certo tarde, Mossoró encontrou-se com o governador Afrânio em visita às obras no centro da cidade. O Negão não perdeu o rebolado, cumprimentou o governador mostrando intimidade:

– Como está Governador? Vai amanhã por lá?

Os auxiliares do Professor Afrânio tiveram dificuldades em esclarecer que Mossoró havia perguntado se ele iria ao jogo no estádio Rei Pelé e não à Boate Areia Branca, como alguns pensaram maldosamente.

Outras histórias tornaram-se lendas. Na construção dos banheiros da boate o engenheiro especificou revestimento de azulejo. Numa visita à obra Mossoró mandou retirar todos os azulejos brancos já assentados, reclamando que não havia acertado “branculejo”, e sim, azulejo, azul da cor do seu CSA.

O Negão tornou-se um homem de fino gosto. Só usava camisa de seda, sapatos italianos impecavelmente engraxados, correntes de ouro, relógio rolex de ouro incrustado com pedras preciosas. O uísque era do bom e um charuto para dar a importância que ele aparentava. Os ricos de Maceió só trocavam dólar com ele. Mossoró se gabava da amizade com a fina flor da burguesia alagoana. Aprendeu a comer e beber do melhor.

Certa vez, ele estava de boca aberta para o dentista que examinava os dentes, ouviu o diagnóstico que precisava colocar uma nova dentadura inferior. Mossoró assim que pode abrir a boca foi bem claro:

– Doutor, sou rico. Não quero nada inferior, por favor, bote tudo superior.

As histórias com Benedito Alves dos Santos dão um livro.

A última vez que vi Mossoró foi em sua bela residência na Ponta Verde, fui acompanhado de um candidato no tempo de eleição, pedir votos. Ele tinha bom coração, ajudava aos mais necessitados do bairro Canaã, como também ajudava suas meninas, que lhes chamavam carinhosamente de “Pai Véio”.

Outro dia passando pelo Canaã, encontrei tudo diferente, a extensa casa da boate foi transformada em uma caquética pensão “familiar”. No espaço da Casa Areia Branca estabeleceu-se com um acanhado bar, onde vende cachaça e cerveja. Nas paredes do bar algumas fotografias de gente famosa, no fundo fotografias das equipes daquela época do CSA. Com a revolução sexual, os costumes mudaram, hoje já não existem boates, nem figuras de dono da noite e das raparigas como o lendário Mossoró.

6 pensou em “MOSSORÓ

  1. Grande Mossoró.Dizem que Mossoró voltava da Bahia com algumas garotas para sua boate,parou num restaurante para almoçar com as meninas e pediu coca-cola,quando o garçom perguntou se era família (se referindo ao refrigerante),aí Mossoró respondeu: “não,é tudo puta mesmo”.

  2. Nossas cidades e nossos tempos sempre tiveram figuras desse porte.
    Em Natal, foi “Maria Boa”, por aqui, em João Pessoa, foi “Dona Osana”, respeitada e consultada por mães de família da “alta”, quando queriam saber por onde andavam seus filhos, que se iniciavam na sublime arte da boemia.
    Conta-se, inclusive, que em certa época, um deputado estadual mais abastado e, também, boquirroto, quis levar duas senhorinhas protegidas de Da. Osana a um baile no Clube Cabo Branco, o mais seleto da cidade, à época e, ao ser impedido pelo porteiro do clube, que disse serem elas de conduta reprovável e incompatível com a sociedade presente, reagiu dizendo: “são putas, mesmo. De conduta reprovável são muitas que estão lá dentro, com seus maridos cornos!”
    E assim caminha a humanidade…

  3. Pingback: UM CAUSO ALAGOANO | JORNAL DA BESTA FUBANA

Deixe uma resposta