CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

Na fila da Sorveteria Danúbio, Jorge Garcia contemplava os belos cabelos da senhora em sua frente. De repente, a mulher virou o rosto, ele reconheceu Vilma, ficou feliz ao rever o amor de sua juventude.

Alegria e um abraço apertado. Foram sentar à mesa, deliciaram-se com o sorvete de mangaba e a companhia do outro. Há muitos anos não se viam.

– E aí, Jorge, continua mulherengo?

– Estou solteiro. Dois casamentos não deram certo. Sou ainda o romântico incorrigível procurando alguém para lhe substituir. Nunca encontrei!

– Você é um danado! Sempre gentil!

– Não é gentileza, Vilma. Depois de tantos anos, sou um setentão e você está beirando. Mulher casada, respeito muito, mas posso dizer sem mágoa, você sempre foi a mulher de minha vida, nunca lhe esqueci, conservo esse amor bonito dentro de mim. Esse negócio de dizer que sou mulherengo é verdade. Depois que você se casou, descambei para as raparigas, tornei-me um grande boêmio, tive muitas mulheres, minha vida desregrada foi fruto da dor-de-cotovelo por você ter-me abandonado. Não tiro a razão.

– Nosso amor foi lindo, todos comentavam nossa paixão, nosso namoro avançado. Naquela época namorados não transavam, mas você queria muito. Uma paixão louca! Era tarado por mim. Precisei me segurar para continuar virgem. Terminei o namoro, mas, você teve culpa, queria todas as mulheres do mundo, namorou uma amiga minha, a Verinha. Imperdoável.

– Lembra na praia da Avenida? Eu colocava a boia de pneu de caminhão dentro d’água, você estirava seu corpo fazendo os braços de remo, eu me segurava na borda da boia. Por baixo as coisas aconteciam. Ninguém percebia. À noite eu subia às casas de raparigas de Jaraguá, descarregava meu desejo incontido pensando em você.

– Menino sem-vergonha! Como a gente era feliz!

– Como está o Gerson, o homem mais feliz do mundo, o homem que tem você nos braços há mais de 30 anos?

– Vou ser sincera. Desculpe o desabafo, afinal você é um amigo. Casei com Gerson por ser um bom rapaz, minha mãe queria, mas, a escolha foi minha. Construímos nossa família. São dois filhos e um neto. Ano passado tive duas tristezas na vida. Descobri que Gerson tem uma amante, menina nova, sustentada por ele há mais de quatro anos. Encheu-me de mágoa. E o pior, descobri um câncer na minha mama esquerda. Já me operei, tenho como tratar do câncer, os médicos dizem que posso controlar a doença e viver muitos anos. Mas o meu marido não dá mais para controlar, ele está apaixonado por essa sirigaita. Eu vivo só, ninguém sabe o que se passa comigo. Os filhos independentes, eu não quero aperreá-los.

Jorge Garcia apertou sua mão, olhou nos seus olhos.

– Deixe a merda desse marido. Eu ainda lhe amo, sempre lhe amarei, estou à sua espera o dia que você quiser, pelo resto da vida. Amanhã pela tarde estarei viajando, vou passar quase um mês no navio COSTA MARU parte do cais do porto de Maceió para Recife e Europa, atravessando o Oceano Atlântico. Quando eu retornar quero conversar com você. Está certo? Você promete que vai me ver? Me dê o número de seu celular.

Despediram-se com beijo no rosto e um vasto sorriso.

À noite Gerson chegou tarde e meio bêbado. Na hora de dormir, Vilma alisou o corpo do marido, beijou-lhe o pescoço, foi se achegando como pedisse carinho, um pouco de atenção. Nesse momento ele falou aborrecido, grosseiro.

– Não quero, não quero pegar sua doença. Você está com câncer. Porra!

Empurrou-a. virou-se para o lado e adormeceu.

Humilhada e ofendida, chorando baixinho, Vilma correu ao banheiro, sentou-se na privada e caiu em prantos, chorou muito. Certo momento se recuperou, respirou fundo, levantou-se, olhou-se no espelho, só de calcinha, levantou os braços, rodou, achou-se uma mulher bonita, conservada, atraente. Veio-lhe um sentimento forte de amor próprio, jurou para nunca mais chorar por Gerson.

Retornou à cama, custou a adormecer. Fez um retrospecto de sua vida, ninguém mais dependia dela, vivia só, os filhos independentes. Pensou no que restava de um futuro hipócrita e humilhante junto a Gerson.

Eram oito horas da manhã quando ela levantou-se. Tomou café, trocou de roupa, foi ao cabeleireiro, à manicure. No shopping comprou roupas, foi ao banco, almoçou. Chegou em casa por volta das duas horas, arrumou a mala, escreveu uma carta simples para Gerson. Tomou um táxi.

O navio Costa Maru repleto de passageiros desencostava do cais. Na balaustrada do convés Jorge Garcia contemplava o mar, o casario da Avenida da Paz se afastando, diminuindo de tamanho. Ele estava embevecido com a cor do mar de sua terra, quando, de repente, sentiu uma mão por cima da sua. Ao olhar de lado teve a mais bela aparição improvável de sua vida: Vilma sorrindo, feliz, liberta.

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