Sem Rickey Martin, Menudos celebrou, em 2019, 40 anos na estrada
Essa notícia é direcionada a todos os adolescentes desmiolados ou acéfalos, sem um pingo de neurônio na cachola que queiram ficar rico da noite para o dia, apenas remoendo os lábios feito boi e dando coice feito jegue.
Portando, jovem, se você tem entre 14 e 16 anos, tem jeito para a dança e para o canto, saiba que daqui a menos de duas semanas, estarão abertas as inscrições para habilitação ao cargo de menudo. Sim, os Menudos vão voltar. Agora sob nova administração, com direito a toda tecnologia atual, incluindo Metaverse. Para os esquecidos, ou muito novinhos, os Menudos surgiram em 1977, formados por adolescentes de Porto Rico, tornando-se o grupo pop latino mais bem sucedido até hoje.
O público juvenil brasileiro identificou-se imediatamente com os porto-riquenhos, que estouraram por aqui no início dos anos 80. Em 1984, os maiores vendedores de discos do país foram o sambista Agepê, A Turma do Balão Mágico e os Menudos. O grupo se apresentou no Recife em 1º de março de 1985, no estádio do Arruda. Não se via um show tão badalado na cidade desde a apresentação, em 1950, do cantor mexicano José Mojica, que fez muito sucesso também no cinema. Patrocinado pela Fábrica Peixe (de Pesqueira), José Mojica realizou, naquele ano, uma turnê nacional, que aportou no Recife em abril, e levou 40 mil pessoas, segundo jornais da época, ao estádio do Sport, na Ilha do Retiro. No auge da carreira, Mojica trocou os palcos pelo claustro, tornando-se frade.
Os Menudos, em 1985, movimentoum mais a cidade do que Paul McCartney, que fez duas apresentações no Arruda em 2012. Seis anos depois, um menudo voltou a se apresentar no Recife, e levou vaias. Robby Rosa, um dos mais populares integrantes dos Menudos veio à capital pernambucana com a banda Maggie’s Dream, que abriu o show da Faith No More, no Geraldão. A plateia marcou Robby em cima. A Maggie’s Dream não era ruim, porém, para boa parte da plateia não cabia um ex-menudo num concerto do pesado Faith No More.
Na coletiva do FNM no Monte Hotel, em Boa Viagem, era visto Robby Rosa sentado sozinho numa área afastado do salão onde rolava a entrevista. José Teles estava lá e foi até ale. Conversaram um pouco. Teles tinha recebido um LP da Maggie’s Dream, pediu para Robby assinar o álbum. Ele assinou. E até hoje, José Teles tem um disco assinado por um menudo. Uma relíquia.
Os novos Menudos voltam com a carga toda em setembro. Não se reprimam.
Capa da revista Time da época que saiu a matéria despretensiosa, mas foi um sucesso estrondoso
Segundo o jornalista de música José Teles, ex crítico musical do Jornal do Commercio, Londres está na mídia, hoje, por causa do desmiolado Boris Johnson, mas nos anos sessenta, foi por causa de um artigo despretensioso publicado na Revista Time.
É preciso voltar no tempo e recordar a “Swinging London” dos anos 60.
No verão Londres recebe tantos turistas que, em certos logradouros, fazem-se filas para atravessar a rua. Tantos anos depois de ganhar o epíteto “Swinging London”, grosso modo, “Londres é da hora”, ou “Londres, a “Cidade da vez”, ainda é uma cidade onde todo mundo vai, ou quer ir. Até 15 de abril de 1966, embora a Inglaterra fosse a terra dos Beatles, dos Rolling Stones, de Mary Quant, de Twiggy, gente que ditava as regras do pop para o mundo, sua capital era um destino turístico considerado pouco interessante.
A imagem que se tinha de Londres, e da Inglaterra, era de estereótipos: Jeck, O Estripador; Sherlock Holmes; a formalidade de sua gente; a moeda de divisão complexa, duodecimal (Pound, shilling, pence, farthing), de muita chuva, e bares que fechavam quando a clientela começava a se animar. Tinha-se tal impressão de Londres, de Liverpool, então quase nada se sabia, a não ser que os Beatles surgiram por lá.
John, George, Paul e Ringo ganharam honrarias da Rainha Elizabeth pela contribuição dada à divulgação do império britânico mundo afora. Mas quem fixou como um dos destinos turísticos mais procurados do planeta foi a revista americana TIME. Na edição do citado 15 de abril de 1966, a revista estampou na capa um desenho de Geoffrey Dickinson (por coincidência nascido em Liverpool), com um cartão postal da cidade, o Big Bem, ao fundo, e a nova paisagem da capital inglesa: jovens cabeludos, discoteques, óculos com bandeira inglesa estampadas nas lentes, um roll-royce dirigido por alguém assemelhado a um beatle. Em meio a tudo isso, o então primeiro-ministro trabalhista Harold Wilson.
No alto da capa, numa faixa branca transversal, lê-se: LONDO:THE SWINGING CITY. Esta pequena chamada atingiu o alvo em cheio. Veio daí o “swinging London”, que se tornou quase um título honorífico da cidade. O título da matéria na revista não é nem um pouco atrativo:”Grã-Bretanha: você pode atravessá-la caminhando sobre a grama”. A grama a que se refere é a dos imensos parques, e praças de Londres.
“A nova vitalidade da cidade impressiona tanto os que a visitam, quanto seus habitantes. O planeta que já foi a Inglaterra, deu lugar a uma nova arte de viver – excêntrico, boêmia, simples e alegre.” A Time reproduz trecho de uma entrevista à revista Candide, de Paris, concedida por Robert Fraser, dono de uma galeria de arte pioneira em Londres: “Neste momento, Londres tem uma coisa que Nova Iorque já teve: todo mundo quer estar nela.” Não há lugar igual. Paris está engessada. “Há algo indefinido em Londres que faz as pessoas quererem ir pra lá.” Pra quem não se lembra, ou não sabe, foi nessa galeria de Robert Fraser que John Lennon conheceu Yoko Ono. Os dois formariam o casal mais badalado da Swinging London.
Nessa época a Revista Time jactava-se de manter uma tiragem de 14 milhões de exemplares semanais. Estimava-se que quando este artigo foi publicado apenas 9% dos americanos sabiam o que acontecia em Londres. Poucos já haviam ido à Inglaterra. A partir daí a capital inglesa tornou-se o local onde se deveria estar, sobretudo para gente jovem.
Há 56 anos a capital inglesa continua “suingada” e objeto de desejo.
Marco da retomada do cinema brasileiro, o filme CIDADE DE DEUS, é um dos maiores sucessos comerciais e de crítica da história do cinema nacional. Trata-se de uma obra superlativa, que muito herda de filmes como ‘Os Bons Companheiros’ (1990), dirigido por Martin Scorsese, ‘Scarface’ (1984), dirigido por Brian De Palma e ‘Pulp Filtion’ (1995), dirigido por Quentin Tarantino, com alguns tons e estruturas narrativas similares, mas que, ao mesmo tempo, assume um caráter único por meio da representação nua e crua de um dos lados do quadro social do Brasil.
Indicado a quatro estatuetas do Oscar (direção, roteiro adaptado, montagem e fotografia), temos aqui o que certamente se classifica como um dos melhores filmes brasileiros, mas precisamos entender o que faz dele uma obra-prima.
A trama gira em torno de Buscapé (Alexandre Rodrigues), um morador da Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, que desde pequeno fora um espectador de camarote da violência que assola a favela em questão. Através de uma câmara que gira em torno do personagem, o relógio volta no tempo e somos levados aos anos 1960, quando tudo ainda era diferente e a violência dentro da comunidade não alcançava os níveis que vemos no desfecho da obra. A partir daí, em uma narrativa não linear, acompanhamos a história dos criminosos da Cidade de Deus, do Trio Ternura a Zé Pequeno (Leandro Firmino).
Um dos ingredientes para a fórmula do sucesso de Cidade de Deus foi a decisão do diretor Fernando Meirelles com trabalhar com atores ainda inexperientes, convocados de favelas do Rio de Janeiro, o que garante uma autenticidade ao que vemos em tela. Há uma sinceridade na atuação de cada um deles, desde Dadinho até o protagonista. Meirelles, naturalmente, não simplesmente os jogou em cena; uma extensa preparação misturada a teste de elenco foi realidade com profissionalismo e competência, na qual uma escola de atores foi formada e que, posteriormente, ao Nós do Morro e o Cinema Nosso, que, desde então, já formou competentes profissionais na área do cinema.
Nem todos os atores foram marinheiros de primeira viagem. Matheus Nachtergaele, no papel de Cenoura, é um dos exemplos. Meirelles, que não queria trabalhar com atores renomados, encontrou no ator uma complicação: o recente sucesso de O Auto da Compadecida, onde Nachtergaele interpretava o personagem João Grilo. A promessa do ator de “sumir” do filme a não ser por sua atuação, porém, foi cumprida. Não há Matheus Nachtergaele em Cidade de Deus, apenas Cenoura – um trabalho autêntico por excelência que não só quebrou o imagético do filme, como contribuiu para ele, ao passo que o personagem não destoa dos outros em nenhum aspecto.
Resumir o sucesso de Cidade de Deus simplesmente à direção de atores, contudo, seria uma grande injustiça. O roteiro de Bráulio Mantovani faz um verdadeiro milagre da adaptação ao colocar no cinema um livro com mais de duzentos personagens sem fazê-lo soar apressado ou arrastado. A fim de transmitir uma maior fluidez, o longa assume uma estrutura capilar – pulando de bandido em bandido enquanto a história da comunidade é formada. Unindo esses episódios temos Buscapé e sua narração em off (além da presença na tela), que impedem uma quebra de ritmo e constrói a ideia de que está tudo conectado: os eventos mostrados no início do filme diretamente impactam o que vemos em seu desfecho. A coesão é garantida por esses recursos simples, mas magistralmente utilizados.
A montagem de Daniel Rezende caminha lado a lado com o roteiro, fazendo o necessário para que o dinamismo constante de Cidade de Deus seja mantido. Tem-se um filme de 130 minutos que não para em momento algum. Cada transição entre os capítulos é realizada de forma orgânica, fluida. Para isso é mantida uma linearidade nessa narrativa não-linear – enquanto a história progride naturalmente na passagem dos anos, ela vai e volta a fim de nos trazer um olhar dedicado sobre determinados personagens. Flashbacks e elipses temporais são constantes e mais de uma vez um dos indivíduos retratados é deixado de lado, somente para ser abordado posteriormente. A narração em off de Buscapé aqui se faz essencial, nos dá vislumbres do que veremos depois, mantendo-nos curiosos acerca do papel de cada peça nesse complexo tabuleiro.
A direção de Fernando Meirelles é o pilar que mantém tudo isso unido, com uma decupagem que nos transporta para dentro desse cenário, ora com um olhar externo dos acontecimentos, quase documental, ora com closes em seus personagens, garantindo a humanidade em cada um deles. Sentimo-nos como se estivéssemos ali no meio daquele problemático ambiente e a sensação de perigo nos assola, transmitindo um pungente naturalismo à narrativa, que chega a nos deixar com um nó no estômago ao término da projeção. Buscapé, na verdade, somos nós, perdidos dentro daquele violento contexto, buscando entender o que se passa e colocar justamente um fotógrafo como protagonista é a marca maior disso: o olhar externo dentro do mundo da criminalidade.
Ao lado da direção temos a emblemática fotografia de César Charlone, que já nos planos iniciais tira o nosso fôlego – não é à toa que o plano circular do início do filme se tornou tão famoso. Charlone apresenta um verdadeiro domínio de sua arte, sabendo trabalhar de forma impecável mesmo nas diversas cenas noturnas. Sua retratação da Cidade de Deus apenas solidifica o naturalismo mencionado anteriormente com uma paleta de cores que apenas realça a frieza dos criminosos dali – os tons quentes dos anos 60 vão abrindo espaço para cores mais frias, assumindo o auge após a morte de Bené (Phellipe Haagensen), que é para Zé Pequeno o que Manny era para Tony Montana. Em momento algum sentimos uma segurança ao assistir a obra; temos a perfeita noção de que, a qualquer momento, algo pode dar errado.
À vista disso, desde seu lançamento, Cidade de Deus influenciou centenas de outras obras, não somente no campo audiovisual – um bom exemplo disso é a graphic-novel Coringa (histórias em quadrinhos amalucadas), de Brian Azzarello, que conta com um quadro inspirado em Dedinho e suas tendências homicidas. Fernando Meirelles nos traz um longa-metragem que consegue nos cativar completamente, ao mesmo tempo em que coloca em nós uma inegável angústia por meio da pesada atmosfera que constrói, encerrando seu filme com um tom sombrio mascarado de otimismo, que apenas reflete a realidade do quadro social do Rio de Janeiro, que, por si só, já nos deixa em constante apreensão.
Cidade de Deus foi amplamente considerado um dos melhores filmes de 2002 pela imprensa especializada brasileira e norte-americana; recebendo aclamação universal pela crítica especializada e elogios favoráveis. No site Rotten Tomatoes, o filme tem uma aprovação de 90%, chegando ao consenso de “um olhar chocante e perturbador, mas sempre atraente para a vida nas favelas do Rio de Janeiro.” No site Metacritic, recebeu 79% de aprovação, baseado em 33 opiniões, e classificado como “geralmente favorável” pela nota de análise do público. O crítico de cinema José Couto relatou que, ‘Cidade de Deus’ “é um filme de vigor espantoso e de extrema competência narrativa. Seus grandes trunfos são o roteiro engenhosamente construído e a consistência da mise-en-scène.”
O crítico do THE NEW YORK TIMES, Stephen Holden, elogia particularmente a sequência da festa de despedida de Bené (Phellipe Haagensen), no final da história, “como uma das partes mais espetaculares do filme.” No LOS ANGELES TIMES, o crítico Kenneth Turan em sua resenha desenha o filme como “uma potente e inesperada mistura de autenticidade e luxo visual” e “uma peça vigorosa de realismo social que está inegavelmente amparada em algo verdadeiro.” Turan enaltece particularmente a montagem de Daniel Rezende como “eletrizante.” Cidade de Deus não chegou a ter cópias dubladas nos cinemas, sendo exibido apenas legendado. Sobre as legendas, o crítico Mike Clark do USA TODAY diz que “mesmo fãs de filme de ação avessos a ler legendas deveriam dar uma chance a esse filme.”
Cidade de Deus (City of God) – Trailer Português
Cidade de Deus e a subversão das regras 🐔 Analisando o Cinema
Quando morreu precocemente, em 2001, aos 39 anos, Cássia Eller vivia o auge da sua popularidade. A artista, no entanto, deixou pouquíssimas gravações póstumas.
Nessa sexta-feira, dia 1.º de julho, quando celebrou o Dia Internacional do Reggae, chegou aos serviços de streaming uma bela homenagem a ela, que faria 60 anos em dezembro: o primeiro volume do álbum-tributo Cássia Regae, com suas músicas reinterpretadas no ritmo jamaicano por intérpretes como Toni Garrido, Margareth Menezes, Nado Reis e Gilberto Gil. O segundo Volume da coletânea deverá sair no segundo semestre deste ano.
Com o álbum, sai também o clipe da música O Segundo Sol, interpretada com maestria por Gilberto Gil. A escolha de Gil, aliás, foi certeira. O músico foi o responsável por popularizar o reggae no Brasil e, ao fazer essa homenagem para a cantora Cássia Eller, transformou a canção de Nando Reis, ex Titãs, antes um pop-rock radiofônico, em um delicioso reggae.
As músicas de Gilberto Gil, aliás, foram bastante gravadas por Cássia Eller, como Oriente, Pedra Gigante, parceria com Bené Fonteles, e Chororô, que ela gravou com o próprio Gil.
Ao longo da carreira, Cássia Eller lançou nove álbuns autorais, entre 1990 e 2001. Os dois volumes do tributo contam com faixas que passam por todas as fazes da artista e foram produzidos por Sergio Fouad e Fernando Nunes para a Universal Music.
O principal parceiro de Cássia Eller foi mesmo Nando Reis. Embora o compositor tenha escrito os principais sucessos da artista, ela canta no tributo a música Lanterna dos Afogados dos ‘Paralamas do Sucesso,’ que havia sido regravada com brio por Cássia Eller em 1994. Chico Chico, filho da cantora, também está presente na homenagem. Ao lado de Jorge Du Peixe, ex Nação Zumbi, regravou Coroné Antonio Bento, de autoria de Luiz Wanderley De Almeida e João Batista Vale. Toni Garrido, outro expoente no reggae nacional com o Cidade Negra, gravou Palavras ao Vento, enquanto Margareth Menezes interpreta Malandragem. O primeiro volume se encerra com Zé Ricardo interpretado O Meu Mundo Ficaria Completo (Com Você).
Mais uma crônica ácida do crítico musical José Teles que merece ser reproduzida aqui no JBF pelo seu conteúdo atualíssimo: a eleição de atores músicos e até presidentes da república, sem ter sequer publicado um Manuel de Instrução da Guerrilha, como o fez o guerrilheiro de Wagner Moura.
Com poucos se lembrando de como a ABL, por várias vezes, foi servil às ditaduras, com generais e políticos, nulidades literárias, assumindo cadeiras naquela casa. O melhor exemplo foi a entrada do ditador Getúlio Vargas na imortalidade em 1941. Transcrevo um texto da coluna Movimento Literário da revista Carioca (do grupo A Noite, de Irineu Marinho), de uma subserviência que dispensa comentários:
“Para ocupar a cadeira de Alcântara Machado na Academia Brasileira de Letras, o presidente Getúlio Vargas foi eleito por 33 votos, sem nenhuma cédula discrepante. Existe um voto em branco, vindo do estrangeiro e que, nem por isto, quebrou a expressiva unanimidade com que o nome do ilustre brasileiro foi sagrado para a mais alta corporação cultural do país.
Após o pleito, A Noite colheu diversas impressões de acadêmicos, todos satisfeitos com a entrada do Chefe da Nação para a academia. Eis algumas das impressões:
Cassiano Ricardo – Considero o dia de hoje um dia de festa para a inteligência e para a cultura brasileiras.
Ministro Oliveira Viana – Acho que a escolha da academia está acima de qualquer crítica. O presidente já era, por si mesmo, pelo seu feitio, pela sua finura, sua inteligência, e espírito agudo, um acadêmico. A academia só pode se honrar em incorporar ao seu grêmio uma figura de relevo, não digo nacional, mas mundial.
Ribeiro Couto – A eleição do presidente Getúlio Vargas marca para nossa instituição um grande dia. O espontâneo e caloroso ambiente de entusiasmo, que notamos hoje aqui, traduz não só o alto apreço da academia por essa iminente figura de intelectual, mas o apreço dos intelectuais do Brasil inteiro, que nós representamos.
A obra de Getúlio Vargas assemelha-se a da maioria dos militares ou políticos que entraram para a ABL: compilação de discursos, textos para justificar sua ideologia e, claro, o livro do discurso pronunciado na solenidade de posse na academia.
Nesses tempos servis literais, a exceção é encontrada no imortal José Paulo Cavalcanti Filho, colunista do JBF, que imortalizou Pessoa com a obra-prima, Fernando Pessoa – Uma Quase Autobiografia.
A obra-prima que fez jus à memória do poeta de Tabacaria
Virgínia Lane na sua alcova esperando o presidente Getúlio Vargas para dormir
Anos trinta e quarenta. Épocas de grande efervescência na política nacional: golpe de estado de Getúlio Vargas, outorgação da “constituição polaca” de inspiração fascista, deposições de governadores, muita desconfiança entre os agentes públicos, “arranca rabo” e “debate boca” no meio político. Por essa época o ditador Vargas tomou conhecimento da existência do cabaré de Maria Bago Mole que se interessou em visitá-lo para conhecer a famosa cafetina dos quadris avantajados e dotes sexuais invejáveis, que estava revolucionando os hábitos no interior da Zona da Mata Norte de Carpina (PE), e as “meninas” do cabaré que, amiúde, eram a atração da casa, com seus rebolados sexuais picantes nos traseiros que deixavam qualquer homem intumescido, sem tomar catuaba.
Nessa época a vedete Virgínia Lane, sucesso como cantora no programa Garota Bibelô, na Rádio Mayring Veiga, depois estreante no programa Cassino da Urca, tornou-se a estrela mais famosa da Praça Tiradentes. Durante a temporada da peça Seu Gegê, grande sucesso musical na época, ela recebeu o título de “A Vedete do Brasil”, posto pelo presidente Vargas, que iniciou com ela um tórrido romance que duraria por mais de dez anos. Sobre esse relacionamento ela nunca falava aos jornalistas fofoqueiros. Revelando apenas em algumas entrevistas, que teve um caso amoroso com o ditador, e que nas horas dos “vucuvucus” teve de fazer sexo com ele na horizontal, porque na “vertical sua barriguinha atrapalhava.”
Quando soube que o presidente iria fazer uma visita ao cabaré da cafetina famosa, Virgínia Lane enciumou-se de forma tal que contratou alguns guardas barra pesadas das noites cariocas, com recursos pagos pela União. Ordenou-os viajarem para investigar as relações do presidente com essa cafetina tão “atraente” no Nordeste sem lei e sem alma, e os instruiu para se aliar aos homens mais poderosos da região para tirar “essa piranha e suas meninas do caminho do seu homem,” que se dizia estar em missão oficial para conhecê-la.
Nessa época, o comissário Juvenço Oião, que havia assumido um cargo na polícia que lhe deva plenos poderes de agir em nome de um decreto do ditador e os coronéis começaram a ter vez e voz, se juntaram para acabarem com a “farrumbamba” do coronel Bitônio Coelho que, segundo aqueles que não lhe iam com a cara, pretendiam armar uma cilada para matá-lo e brecar o poder político de Maria Bago Mole que, com a política econômica do cabaré em vento e popa, estava provocando inveja nos fazendeiros que odiavam Seu Bitônio Coelho e sua ascensão política.
Nada de excepcional aconteceu naquela noite que o chefe da nação visitou o cabaré. Saracoteou com as meninas do cassino a noite inteira, atraiu a atenção dos trabalhadores do campo, vez ver aos coronéis que desavenças só leva ao caos e a desordem. Os coronéis, falsamente, deram-se as mãos em nome do progresso e da nação. Os cabras mandados sondar o ambiente por Virgínia Lane para ver se havia traição caíram na gandaia e tudo no final acabou em festa de corrida de boi, com Juvenço do Oião desmoralizado com seus capangas, o coronel Bitônio Coelho protegido por sua amada entrou no aposento sem ser notado e o presidente Vargas foi a atração da festa, que amanheceu o dia com o povo o ovacionando nos arredores do cabaré.
Naquela noite o presidente Vargas mostrou porque era o pai dos pobres, menos para Seu Bitonio Coelho e outros coronéis antenados, que o consideravam um ditador habilidoso e sanguinário, disposto a tudo para se manter no poder.
Rodrigo Constantino: Getúlio Vargas foi um câncer na política brasileira
Os idiotas vão dominar o mundo pela quantidade, e não pela qualidade, porque são muito, dizia o gênio de Nelson Rodrigues. Assim são os sertanejos que hoje mandam no mercado de forró.
Segundo o crítico musical José Teles, o forró autêntico está perdendo seus espaços na cultura forrozeira. O interior está destruindo tudo na base do toma lá dá cá da grana dos cofres municipais. Sua áurea de forró pé de serra virou lixo, transformando o forró em trilha sonora de última categoria.
As programações juninas das principais cidades do interior ratificam que o forró como trilha do São João é algo que caminha pra se tornar passado. Basta ver a programação do maior deles em Pernambuco, o de Caruaru. Nada contra a grade junina da cidade em particular. Ali apenas se segue o modelo estabelecido em todo o Nordeste, onde empresários poderosos impuseram seus artistas às autoridades competentes, responsáveis pelas contratações.
Não foi um pedido da população. No Festival de Inverno de Garanhuns oferece-se uma grande variedade de música, e o público prestigia.
No mês de junho na região inteira predominam artistas badalados na TV, e nos sites e blogs de fofoca, impulsionados pelos milhões de plays nas plataformas de música digital. Atraem enormes plateias, mais pela fama do que pela música, escalados para o palco mor da festa. Enquanto isto, poucos dos nomes mais importantes do forró contemporâneo têm o privilégio de cantar neste polo de estrelas sertanejas, piseiros, fuleiragem e afins.
Para citar alguns, Maciel Melo, Flávio José, Alcymar Monteiro, Silvério Pessoa, Santanna, Irah Caldeira, Cezzinha, Nádia Maia, Petrúcio Amorim, Assisão, Nando Cordel, tudo gente que faz forró de verdade, estão na programação do Alto do Moura, ou seja, o gênero virou música alternativa. A massa vai mesmo é ver as estrelas, de cachês polêmicos, no Polo Luiz Gonzaga, o mais concorrido nos festejos juninos da cidade.
Este tratamento diferenciado faz com que, os forrozeiros responsáveis pela linha evolutiva da música de Luiz Gonzaga (tomando emprestada uma expressão de Caetano Veloso, em relação à bossa nova), sejam vistos como “inferiores” em relação às duplas, grupos, intérpretes, campeões dos Spotfy da vida, que aparecem no Fantástico, no Huck, em Serginho Groisman, Fátima Bernardes e quejandos.
Daí o contraste entre Petrúcio Amorim, que tem uma obra sólida, referencial, com mais de três décadas de estrada, cantando no Alto do Moura (que acaba sendo o polo, culturalmente, mais importante do São João caruaruense), e Zé Vaqueiro, 23 anos de idade, pernambucano de Ouricuri, estrela do Polo Luiz Gonzaga. Ele estourou em 2017, com sucessos que ostentam mais de cem milhões de plays nas plataformas de músicas para stream. Seu estilo é classificado como forró piseiro, segundo a Wikipédia. Piseiro é um ritmo de muito sucesso, mas não tem a ver com forró. Mas está derrubando o munguzá dos que realmente fazem forró.
Casa sede à semelhança a da fazenda do coronel Bitônio Coelho
Depois de ter tido uma noite inesquecível com Maria Bago Mole, a famosa cafetina que deu nome ao cabaré, o coronel Bitônio Coelho, o fazendeiro poderoso e mais durão da Zona da Mata Norte de Carpina (PE), retorna à fazenda, não mais contrariado por ter acordado fora do horário habitual, como da primeira vez que dormiu com a amásia.
Chegando à fazenda-sede por volta das onze horas da manhã, encontra todos os empregados apreensivos no pátio do casarão, pensando ter lhe acontecido alguma coisa grave, mas quando pressente o patrão não cabreiro nem contrariado apear o cavalo e mandar um dos capangas recolher a sela, calam-se e esperam a ordem do homem, que calado estava, calado ficou não informando nada sobre o acontecido, limitando-se apenas a ordenar aos subordinados as tarefas do dia, educadamente.
Depois de dar as ordens aos empregados, Seu Bitônio Coelho entra no casarão, abre as janelas e se dirige até as governantas na cozinha, dar-lhes bom dia, atitude impensável antes de conhecer a cafetina, retorna à sala, e começa a pensar em Maria Bago Mole, da noite inesquecível que tivera com ela, dos prazeres que ela lhe proporcionara e, além de sentir que estava apaixonado, começava a ter-lhe ciúmes, imaginando-a naquele cabaré cheio de homens doidos para lhe conquistar as delícias sentimentais e corporais!
Foi nesse momento que aquele homem durão, acostumado a lidar com vacas, cavalos brabos e capangas rudes, sentiu estar dominado por um sentimento jamais vivido em toda sua vida. Maria Bago Mole o havia domado o coração!
Da segunda para o sábado Seu Bitônio Coelho ficou absolutamente inquieto, sonhou com Maria Bago Mole todas as noites sempre nos braços de outros homens e acordava durante a noite todo suado, com o ciúme lhe dominando e sufocando o peito ao ponto de ele ficar irreconhecível!
– Meu Deus, o que está acontecendo comigo? – questionava a si!
Ansioso e só pensando em Maria Bago Mole, no sábado logo cedo, mandou o capanga Simeão Pau Preto pôr a sela no cavalo branco, vestiu sua calça e camisa de linho branco e, antes do anoitecer, se mandou para o Cabaré para se encontrar com a dona do seu coração!
Em lá chegando, veio-lhe uma tempestade de ciúmes por causa dos homens que cercava sua Amada que, quando o avistou, saiu correndo em sua direção:
– Oi amor! Estava com muitas saudades! Você não imagina a eternidade que foram esses dias sem você! E aplicou-lhe um beijo bem demorado! Pegou-lhe pelas mãos, tirou-lhe a sela do cavalo e o chamou para ficar com ela nos aposentos do cabaré, local onde tivera sua primeira noite de núpcias sob a luz de lamparina.
Se ele estava doido de paixão, mais apaixonado ficou, com o carinho, atenção e a dedicação dispensada por Maria Bago Mole, que lhe sabia dar o que ele nunca teve na vida: amor, prazer e liberdade!
Naquele sábado ficou com Maria Bago Mole novamente, e mais uma vez quando se levantaram já passava das dez horas do dia! Curiosamente o homem durão que ficou contrariado da primeira vez, se levantou relaxado, de bem consigo mesmo e deu um beijo na amada demoradamente. Foi até o sanitário do cabaré, tomou um banho de cuia, enxugou-se e voltou ao aposento onde Maria Bago Mole o esperava nua de bunda para cima!
Depois de dar uma rapinha prazerosa, ambos se levantaram, trocaram de roupa e ela o levou carinhosamente até onde estava o cavalo apeado, guardando o segredo de que lhe parecia estar grávida, e ele também deixando para outra oportunidade o segredo que iria pedir-lhe: que abandonasse o cabaré para ficar com ele definitivamente em uma das fazendas da escolha dela, tudo sem forçar a barra.
O desejo de um curtir o outro infinitamente falou mais alto e os segredos ficaram para segundo plano.
O Bode Cheiroso e as manchetes dos jornais da época lhe dando cartaz
“O degrau mais alto da sabedoria é a simplicidade”. Compositor Luiz Fidelis, do Cariri (CE)
Já que estamos nos aproximando das eleições para Presidente da República, governadores, senadores, deputados federais e estaduais, a galera medonha, nada mais justo do que recordarmos aqui e agora as eleições de 22 de outubro de 1955 e outras, onde o charmoso cabrito, Bode Cheiroso, de Jaboatão dos Guararapes, bairro da Região Metropolitana do Grande Recife, concorria ao pleito para vereador. Mas antes das eleições, teve a desdita de topar com um caminhão e ser esmagado por um tresloucado motorista chapado. Sua morte foi manchete no Diário de Pernambuco e outros matutinos locais e causou comoção em todas as cabras e cabritas no cio da região, que sonhavam em tirar uma lasquinha com ele. Sendo manchete também até no New York Times. A moral chegou ao Recife via Pai de Chiqueiro.
Segundo o jornalista musical José Teles, no seu site Oficial Telestoques, o Bode Cheiroso e outros animais de estimação tiveram seus quinze minutos de fama, como pregava um dos artistas mais influentes do sáculo XX, Andy Warhol. Em 1988, o macaco Tião, do zoológico do Rio, recebeu 400 mil votos para vereador. A revista Casseta e Planeta foi o maior cabo eleitoral do macaco, um voto de protesto do eleitor carioca. Antes de Tião, outro animal eleito, mas que não tomou posse devido ao seu peido insuportável, foi Cacareca, uma rinoceronta do Zoológico de São Paulo. Na eleição de 1959, Cacareca recebeu 100 mil votos dos paulistanos foi a vereadora mais votada. O segundo colocado chegou a 95 mil. Cacareca tornou-se conhecida internacionalmente, diz-se que no Canadá até fundaram um partido inspirado na Rinoceronta, o The Rhinoceros Party, que existiu até 1993.
Mas nisto de votar em bicho, o Recife também é vanguarda. Em 1955, em Jaboatão, o garboso Bode Cheiroso não teve tantos votos para vereador quanto o macaco e a rinoceronta, em compensação até o New York Times deu manchete sobre ele. Assim como Tião e Cacareca, o Bode Cheiroso entrou na eleição de gaiato, ou por gaiatice. Um pessoal do Jaboatão Jornal mandou imprimir alguns cartazetes com a efígie do bode, e o “candidatou” a vereador, com a frase: “Queremos Cheiroso”.
Esse bode era bastante conhecido no Jaboatão Velho, vivia solto, vez por outra cismava de passear de trem até Cavaleiro, também circulava por Tejipió. Nos dias atuais perigava virar churrasco ou buchadinha. Mas eram tempos mais civilizados. Realizada a eleição de 1955, quando foram apurar os votos, quatro deles sufragaram o Bode Cheiroso (as tais cédulas que imprimiram por brincadeira).
Porém, bem antes da eleição, o Bode Cheiroso foi notícia nos jornais pernambucanos, quando um vereador de Jaboatão queria processar ou prender o caprino por causa de sua fedentina (que lhe deu o nome), e por distribuir chifradas entre os pirralhos que o perturbavam.
Depois das eleições, o bode badalado foi insuflado por uma matéria no Diário da Noite (do grupo Jornal do Commercio) em que os 4 votos passaram a 400. Os políticos condenavam a exploração e o sensacionalismo da imprensa, mas aí já era tarde. O dono do Bode Cheiroso passou a prendê-lo em casa, e cobrar por fotos e entrevistas. O Bode garboso chegou a ser entrevistado numa rádio, seus berros levaram a audiência da emissora às alturas. Foi notícia nos jornais do Sudeste, o que chamou a atenção do correspondente do New York Times. Foi assim que o Bode Cheiroso foi parar nas páginas do mais importante jornal do planeta.
Mas a história do bode não teve final feliz, embora tenha sido escrito até folheto tendo o bode como tema, além de poema publicado nos jornais de Jaboatão e do Recife. Em 22 de outubro de 1957, o Diário de Pernambuco saiu com esta manchete: “Caminhão em Disparada Esmaga o Bode Cheiroso”. O atropelamento deu-se em frente à igreja do Barro, na Avenida José Rufino.
O Bode Cheiroso morreu mais ficou imortalizado nos versos de Benedito Cunha Melo (pai do poeta Alberto Cunha Melo), que os assinou com o pseudônimo de K. Olho:
Ser como tu, nesta vida, pouco homem, Cheiroso, pode/pois foste vereador/sem deixar de ser bode/tua Câmara era a rua/de que era dono e senhor/com aquele pose de bode/cheirando a vereador/tu não morreste Cheiroso/estás em todo jornal/teu nome chegou à história/e berrou: sou imortal/teu nome ficou na história/e todo mundo sacode/morreste, vereador/foste maior como bode.
O célebre caprino jaboatonense ganhou também música de sucesso, Lançada por Aventino Chapéu de Couro, em 1959, Bode Cheiroso (Elias Soares/M.Fernandes), porém fez sucesso com Luiz Wanderley, é faixa do álbum Baiano Burro Nasce Morto (1960). Um trecho da letra:
Olhe como é que pode me diga doutor/um diabo de um bode ser vereador/foi na eleição de Jaboatão que o Bode Cheiroso se candidatou/quando foi na hora da apuração/a maior votação o bode levou/veio o promotor falar com Cheiroso/e o bode manhoso estendeu a mão/chorou de emoção/posou pra revista/ e deu entrevista na televisão.
DESCENDÊNCIA
Bonito e famoso, o Bode Cheiroso fazia sucesso entre a mulherada caprina. Aventa-se que deixou muitos descendentes. Um desses seria a cabrita Bita, também conhecida como Vermelha, por ser arruivada, presa na feira de Cavaleiro, bairro jaboatonense. Surgiu mais uma polêmica. A cabrita seria ou não filha de Cheiroso? Um senhor do Pina garantia que pertencia a ele. Um PM de Cavaleiro arvorou-se a dono da cabrita, e afirmou que ela era realmente descendente do Bode Cheiroso, mas não era sua filha, e sim sua neta.
Como não havia ainda teste de DNA. Nunca se soube se a cabrita pertencia à prole do famoso bode. O caso da cabrita aconteceu em novembro de 1962, as matérias nos jornais, no entanto, não esclarecem porque foi presa.
Mais uma vez o Bode Cheiroso tornou-se noticia nacional. Bita ganhou matéria em duas das mais lidas revistas do país, O Cruzeiro e Manchete. O Departamento de Produção Animal pediu para a Delegacia de Investigação e Captura, na qual estava a cabrita Bita, fizesse um exame para saber a idade do animal. O PM dizia que a criava há três anos. No exame ficou constatado que Bita tinha três anos, portanto seria mais provável que pertencesse mesmo ao policial militar. Até porque rapaz do Pina ofereceu 15 mil cruzeiros pela cabrita famosa. Mas o PM não quis saber de negócio. Naquele ano de 1962, Bita foi a grande atração da Exposição de Animais.
O nome do Bode Cheiroso continuou a frequentar os jornais. Em 1964, em Vitória de Santo Antão, um pai de santo conhecido por Miro Xangozeiro desentendeu-se com um tal Bertino, porque este, que não acreditava na religião de Miro, disse que o guia do Pai de Santos era o Bode Cheiroso. Ficaram intrigados, até que certo dia encontraram-se, e Miro desferiu uma peixeirada fatal no bucho de Bertino, mandando-o à cidade de pés juntos num paletó de madeira feito de tábua de mulungu.
Em homenagem a esse gênio do improviso popular carpinense, assassinado anteontem na Comunidade Loteamento Três Maria aos 69 anos, republico crônica que escrevi sobre seu belíssimo trabalho e publicado aqui no Jornal da Besta Fubana em 15.10.2018.
Encantou-se o artista assassinado covardemente por um desalmado, mas ficou sua cultura popular universal que está chorando pelo mundo a perda.
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Bonecos e o Preto Velho Zé Cosmes
ANTÔNIO ELIAS DA SILVA, eis o nome registral desse exímio artesão rústico nascido em Carpina-PE aos 09 de maio de 1953.
Artesão empírico, com extraordinária habilidade no trato com a madeira tosca – o mulungu – árvore apropriada para a confecção de seus bonecos artísticos, cedo teve de sorver a puberdade lúdica, na palha da cana dos engenhos da região da Zona da Mata Norte, sob o sol causticante e inclemente do trabalho com a enxada, limpando matos dentro dos canaviais íngremes para sobreviver e ajudar a família.
Autodidata, nunca pisou o batente de uma escola oficial. Seu mestre, professor, instrutor, inspirador é sua espantosa capacidade observativa e habilidade intuitiva em transformar tudo que é madeira tosca de mulungu em verdadeiras obras-primas artesanais.
Devido à sua extrema habilidade arteira manual, esse carpinense casual, cedo começou a divertir e maravilhar sua sofrida gente nas festas juninas no bairro de Santo Antônio, em Carpina, com seus mamulengos cômicos e satíricos, ridicularizando os costumes e o comportamento da sociedade local nos teatros de pano improvisados ao ar livro.
Além de escultor, Mestre Saúba é um exímio dançarino e juntamente com D.ª Lindalva, uma boneca de madeira em tamanho natural, faz um espetáculo pitoresco que sempre atrai centenas de pessoas nos lugares onde se apresenta. Mestre Saúba também é ventríloquo e contracena com o divertido boneco Benedito. Dona Quitéria, Mané Pacaru, Dona Lilia, João Gago, Simão, Coquinho, Laré e Dona Liprosina são alguns dos outros personagens nascidos pelas mãos do artista. Outra criação que marcou muito seu trabalho foi os ciclistas, que pedalam e mexem a cabeça.
Apesar de seus trabalhos correrem o país e o mundo, serem expostos em galerias de luxo, maravilharem o Brasil em shows nos canais de televisão mais populares, tanto locais quanto nacionais, esse autêntico e verdadeiro artista mamulengueiro continua pobre e miserável, devendo até os pentelhos aos agiotas, e sem dinheiro para alimentar a prole numerosíssima, filhos de várias manteúdas que dele se aproximam pensando ser detentor de uma grande fortuna em dólar ganhada de gringos e guardada em uma botija debaixo da cama de lona comprada na feira de mangaio em Caruaru.
É doloroso vê-lo trôpego, cheio de manguaça, todo cagado cambaleando pelas ruas cheias de bueiros de guabirus na sua terra natal, Carpina, com as mãos e os pés melados de cola de madeira, com os bolsos mais lisos do que pau de tarado, dando murro no ar e rogando pragas ao vento por lhe faltar os caraminguás.
Espera-se que não se deixe acontecer com ele as mesmas injustiças e indiferenças que houve ao maior pintor pós-impressionista do século XIX, o Neerlandês Vincent Willen Van Gogh – “lúcido e louco; dócil e violento” -, que depois de morto, seus quadros alcançaram a glória, sendo vendidos em leilões suntuosos por fortunas incalculáveis; seu busto virou estátua no mundo; seu nome virou rua em todo o planeta; seu túmulo, adoração; mas em vida só conheceu a miséria, o desprezo, o abandono, a indiferença e as loucuras dos choques elétricos nos manicômios.