
O Bode Cheiroso e as manchetes dos jornais da época lhe dando cartaz
“O degrau mais alto da sabedoria é a simplicidade”. Compositor Luiz Fidelis, do Cariri (CE)
Já que estamos nos aproximando das eleições para Presidente da República, governadores, senadores, deputados federais e estaduais, a galera medonha, nada mais justo do que recordarmos aqui e agora as eleições de 22 de outubro de 1955 e outras, onde o charmoso cabrito, Bode Cheiroso, de Jaboatão dos Guararapes, bairro da Região Metropolitana do Grande Recife, concorria ao pleito para vereador. Mas antes das eleições, teve a desdita de topar com um caminhão e ser esmagado por um tresloucado motorista chapado. Sua morte foi manchete no Diário de Pernambuco e outros matutinos locais e causou comoção em todas as cabras e cabritas no cio da região, que sonhavam em tirar uma lasquinha com ele. Sendo manchete também até no New York Times. A moral chegou ao Recife via Pai de Chiqueiro.
Segundo o jornalista musical José Teles, no seu site Oficial Telestoques, o Bode Cheiroso e outros animais de estimação tiveram seus quinze minutos de fama, como pregava um dos artistas mais influentes do sáculo XX, Andy Warhol. Em 1988, o macaco Tião, do zoológico do Rio, recebeu 400 mil votos para vereador. A revista Casseta e Planeta foi o maior cabo eleitoral do macaco, um voto de protesto do eleitor carioca. Antes de Tião, outro animal eleito, mas que não tomou posse devido ao seu peido insuportável, foi Cacareca, uma rinoceronta do Zoológico de São Paulo. Na eleição de 1959, Cacareca recebeu 100 mil votos dos paulistanos foi a vereadora mais votada. O segundo colocado chegou a 95 mil. Cacareca tornou-se conhecida internacionalmente, diz-se que no Canadá até fundaram um partido inspirado na Rinoceronta, o The Rhinoceros Party, que existiu até 1993.
Mas nisto de votar em bicho, o Recife também é vanguarda. Em 1955, em Jaboatão, o garboso Bode Cheiroso não teve tantos votos para vereador quanto o macaco e a rinoceronta, em compensação até o New York Times deu manchete sobre ele. Assim como Tião e Cacareca, o Bode Cheiroso entrou na eleição de gaiato, ou por gaiatice. Um pessoal do Jaboatão Jornal mandou imprimir alguns cartazetes com a efígie do bode, e o “candidatou” a vereador, com a frase: “Queremos Cheiroso”.
Esse bode era bastante conhecido no Jaboatão Velho, vivia solto, vez por outra cismava de passear de trem até Cavaleiro, também circulava por Tejipió. Nos dias atuais perigava virar churrasco ou buchadinha. Mas eram tempos mais civilizados. Realizada a eleição de 1955, quando foram apurar os votos, quatro deles sufragaram o Bode Cheiroso (as tais cédulas que imprimiram por brincadeira).
Porém, bem antes da eleição, o Bode Cheiroso foi notícia nos jornais pernambucanos, quando um vereador de Jaboatão queria processar ou prender o caprino por causa de sua fedentina (que lhe deu o nome), e por distribuir chifradas entre os pirralhos que o perturbavam.
Depois das eleições, o bode badalado foi insuflado por uma matéria no Diário da Noite (do grupo Jornal do Commercio) em que os 4 votos passaram a 400. Os políticos condenavam a exploração e o sensacionalismo da imprensa, mas aí já era tarde. O dono do Bode Cheiroso passou a prendê-lo em casa, e cobrar por fotos e entrevistas. O Bode garboso chegou a ser entrevistado numa rádio, seus berros levaram a audiência da emissora às alturas. Foi notícia nos jornais do Sudeste, o que chamou a atenção do correspondente do New York Times. Foi assim que o Bode Cheiroso foi parar nas páginas do mais importante jornal do planeta.
Mas a história do bode não teve final feliz, embora tenha sido escrito até folheto tendo o bode como tema, além de poema publicado nos jornais de Jaboatão e do Recife. Em 22 de outubro de 1957, o Diário de Pernambuco saiu com esta manchete: “Caminhão em Disparada Esmaga o Bode Cheiroso”. O atropelamento deu-se em frente à igreja do Barro, na Avenida José Rufino.
O Bode Cheiroso morreu mais ficou imortalizado nos versos de Benedito Cunha Melo (pai do poeta Alberto Cunha Melo), que os assinou com o pseudônimo de K. Olho:
Ser como tu, nesta vida, pouco homem, Cheiroso, pode/pois foste vereador/sem deixar de ser bode/tua Câmara era a rua/de que era dono e senhor/com aquele pose de bode/cheirando a vereador/tu não morreste Cheiroso/estás em todo jornal/teu nome chegou à história/e berrou: sou imortal/teu nome ficou na história/e todo mundo sacode/morreste, vereador/foste maior como bode.
O célebre caprino jaboatonense ganhou também música de sucesso, Lançada por Aventino Chapéu de Couro, em 1959, Bode Cheiroso (Elias Soares/M.Fernandes), porém fez sucesso com Luiz Wanderley, é faixa do álbum Baiano Burro Nasce Morto (1960). Um trecho da letra:
Olhe como é que pode me diga doutor/um diabo de um bode ser vereador/foi na eleição de Jaboatão que o Bode Cheiroso se candidatou/quando foi na hora da apuração/a maior votação o bode levou/veio o promotor falar com Cheiroso/e o bode manhoso estendeu a mão/chorou de emoção/posou pra revista/ e deu entrevista na televisão.
DESCENDÊNCIA
Bonito e famoso, o Bode Cheiroso fazia sucesso entre a mulherada caprina. Aventa-se que deixou muitos descendentes. Um desses seria a cabrita Bita, também conhecida como Vermelha, por ser arruivada, presa na feira de Cavaleiro, bairro jaboatonense. Surgiu mais uma polêmica. A cabrita seria ou não filha de Cheiroso? Um senhor do Pina garantia que pertencia a ele. Um PM de Cavaleiro arvorou-se a dono da cabrita, e afirmou que ela era realmente descendente do Bode Cheiroso, mas não era sua filha, e sim sua neta.
Como não havia ainda teste de DNA. Nunca se soube se a cabrita pertencia à prole do famoso bode. O caso da cabrita aconteceu em novembro de 1962, as matérias nos jornais, no entanto, não esclarecem porque foi presa.
Mais uma vez o Bode Cheiroso tornou-se noticia nacional. Bita ganhou matéria em duas das mais lidas revistas do país, O Cruzeiro e Manchete. O Departamento de Produção Animal pediu para a Delegacia de Investigação e Captura, na qual estava a cabrita Bita, fizesse um exame para saber a idade do animal. O PM dizia que a criava há três anos. No exame ficou constatado que Bita tinha três anos, portanto seria mais provável que pertencesse mesmo ao policial militar. Até porque rapaz do Pina ofereceu 15 mil cruzeiros pela cabrita famosa. Mas o PM não quis saber de negócio. Naquele ano de 1962, Bita foi a grande atração da Exposição de Animais.
O nome do Bode Cheiroso continuou a frequentar os jornais. Em 1964, em Vitória de Santo Antão, um pai de santo conhecido por Miro Xangozeiro desentendeu-se com um tal Bertino, porque este, que não acreditava na religião de Miro, disse que o guia do Pai de Santos era o Bode Cheiroso. Ficaram intrigados, até que certo dia encontraram-se, e Miro desferiu uma peixeirada fatal no bucho de Bertino, mandando-o à cidade de pés juntos num paletó de madeira feito de tábua de mulungu.
Luiz Wanderley 1960 – Bode cheiroso
Eita Ciço, meu bom compadre:
Até agora, depois de ler duas vezes seu primoroso conto e escutar três vezes o Luiz Wanderley, estou com os beiços rasgados de tanto rir.
Você é um artista cabra da peste de bom em contar seus causos.
Um lindo final de semana.
Abraços,
Magnovaldo
Meu cumpade Magnovaldo Santos, não é que contraí de novo, novamente, o H1N2, dessa vez mais forte, e com uma secreção de lascar, e muita tosse!
Meu bom samaritano, li FERNDALE com um prazer enorme, diversão total, mas fiquei indisposto para comentá-lo. A tosse constante não me deu trégua.
Farei isso já,já!
Forte abraço, abraçaço por ter se divertido com o Bode Cheiroso, o Garboso, que se tornou vereador mas não foi empossado.!
Faço ecoar por este mundão fubânico: Beni, Beni, eni. ni, i, i,i,iiiiiiiiiiiiiiiiiiiii. Cadê tu, hômi?
Alguém sabe do Beni ? Faz tempo que não o encontro por estas páginas.
Beijão
Faço ecoar por este mundão fubânico: Beni, Beni, eni. ni, i, i,i,iiiiiiiiiiiiiiiiiiiii. Cadê tu, hômi? mas será “u beni ditu?”
Pois é, pessoal. Só vocês mesmo conseguem me trazer um pouco de “relax”, rsrs. É que eu tõ derrubadasso. De uma só vez peguei a Dona Zica, Dengue, Pixungunha e o carai a quatro. Tô tentando rir aqui, um pouquinho, mas doi até os cabelos das unhas, rsrs. Abração prá todos. Depois eu volto. Amo vcs.
Beni Tavares,
O diabo é que a bicha vai e volta. E quando volta, volta mais carregada do que caminhão com coco, ou como diz Mução, volta mais carregada do que cano de passar tolête!
Fiquei rouco. De rouco passei a tossir. De tossir passei a expelir muita secreção. Garganta crespa. Tudo ao mesmo tempo agora.
E o pior é que já fui benzido pela catimbozeira de Berto e o bicho (os vírus) não se foi-se.
Dá pra tu?
Forte abraço querido amigo! Vamos orar os dois juntos para a gente ficar bom logo.
Beni, meu caro,
um pouco de “relax”… Devidamente imunizadas, encaminhei ao amigo 4 enfermeiras de filme pornô para cuidar do amigo. Depois de cuidar do amigo irao para a sessão carinho. É tiro e queda, ops, tiro e tiro, pois elas quererão morrer de amor…
Si no funciona el tratamiento me preguntaré si estas listo para las chicas guapas de Sancho.
Um ótimo domingo; distâncias calculadas, certamente elas chegarão aí no final do domingo.
Parabéns pelo impagável texto “A SAGA DO BODE CHEIROSO, DO MACACO TIÃO E DA RINOCERANTA CACARECA” querido Cícero Tavares, ou Ciço!
Você resgatou o rico folclore político brasileiro, enriquecido com histórias hilárias e reais.
Aplausos para você e para o bom humor do povo brasileiro, que, quer chova, quer faça sol, encontra sempre uma forma de ironizar a antiga politicalha.
A música “Bode Cheiroso” é ótima.. Outra que fez grande sucesso carnavalesco foi “Cacareco”.
Grande abraço e um domingo cheio de saúde, alegria e Paz!