Imagem das primeiras urnas eletrônicas fabricadas no Brasil
Em 2004 João Baxin se arvorou a ser candidato a vereador depois de mais de vinte anos afastado do município ribeirense. Sequer se lembrava mais dos nomes dos amigos de infância e adolescência. Uma lástima!
Seu Zezé, o pai dele, de cara, foi contra a ideia:
– Você tá lôco, rapaz! Depois de mais de vinte anos afastado de Ribeirão, sem conhecer mais ninguém no município da sua época, sem preparar uma base eleitoral sólida! Liso! Você vai levar fumo até desses pinguços da Praça 69!
Mas João Baxin, empolgado, não desistiu do sonho tresloucado, nem ouviu os conselhos do Velho Zezé. Criou endereços fictícios para transferir domicílios eleitorais dos irmãos e colegas da Capital, se endividou com empréstimos tirados em vários bancos, fez uma campanha política entusiasmada e no dia das eleições nem o nome dele apareceu na tela do microonda do TRE.
Decepcionado com o pleito, que chamou de “trambicagem das urnas,” entrou no bar o “Petisco de Zefa,” tomou duas garrafas de aguardente “Cachaça da Sogra” e, aos “intrupicões,” dirigiu-se até ao Clube Vassourinha do centro do município, local onde estava o “coletor eletrônico de voto.”
Quando percebeu que não havia recebido nenhum voto de fato, sequer tinha sido registrado seu nome no sistema, como candidato a vereador, e dos eleitores transferidos, correu para a mesa de apuração e bradou, bêbado:
– Essas porras dessas urnas eletrônicas são falsas! São artimanhas desses comunistas safados, felas da puta, para ludibriarem o sistema e arrombar os candidatos fudidos que não compartilham com essas “escandilices” do comunismo que quer escravizar a gente.
Passados mais de dezoito anos do pleito, hoje João Baxin é comunista ferrenho, defensor fervoroso das urnas de Barroso e Cia e seguidor fiel do chefão da seita petista!
Garotas do cabaré de Glorinha do Crato (CE), à semelhança das de Maria Bago Mole
Dedicado à Schirley, Violante Pimentel (Vivi), Sancho, D.Matt., Adônis Oliveira, e a todos os admiradores da empreendedora cafetina, que se orgulhava da profissão.
Dois anos após idealizar o embrião do cabaré na Vila dos Vinténs, Maria Bago Mole recebera a visita inesperada de Valentina, uma morenaça filha de escrava africana com imigrante italiano. Cabocla de um metro e oitenta de altura que aparentava ter seus trinta anos, seios duros e bunda majestosa, mas no rosto a face da fome, do sofrimento, do abandono e do horror.
Assim que bateu os olhos naquela mulherona sofrida em sua frente, pedindo ajuda na porta de entrada do cabaré, Maria Bago Mole não pensou duas vezes: mandou-a entrar, tomar um banho na sua suíte, sentar-se depois à mesa do bar e ordenou às meninas prepararem um prato caprichado para a visitante.
Após Valentina ter tomado o banho, comido e descansado, Maria Bago Mole a convidou até o seu aposento para uma conversa ao pé do ouvido, de mulher pra mulher:
– De onde tu vens, menina, com esse olhar amargurado? Tu tão bonita, charmosa e com todos os atributos corporais que os machos mais desejam numa mulher?
– Eu… eu…fugi do engenho “Pau Grosso” do comissário Juvenço Oião, Dona Maria. – Disse Valentina em tom de desabafo à cafetina, e começou a chorar de emoção por ter sido acolhida pela proprietária do cabaré. – Lá eu era muito explorada no trabalho, vivia como uma escrava, sem contar que tinha de fazer sexo a pulso com aquele homem bruto, horroroso e fedorento quase toda noite. Até arrancaram-me a ferro a mando dele, com a ajuda de duas parteiras da redondeza, dois filhos que foram gerados nessa barriga – e apontou para a barriga chorando, levantando a blusa que apareciam os peitos, o que levou Maria Bago Mole a acreditar que Valentina não nasceu para ser puta de cabaré, mas dona de casa.
– Depois de muito sofrimento – continuou Valentina – e pressentindo que poderia ser morta por disputas entre capangas selvagens a qualquer momento, tomei conhecimento da “casa” da senhora e fugi de lá à noite só com a roupa do couro pelos canaviais, enfrentando espinho, urtiga, fumigas, cobras, lagartos, mas o maior medo para mim – e senti isso na pele – era que os homens do comissário Oião descobrissem a minha fuga e viessem no meu encalço para me estuprar e depois matar.
Depois desse bate papo confidencial com Maria Bago Mole, Valentina ficou mais tranquila porque a cafetina prometeu acolhê-la e qualquer que fosse o “macho” que aparecesse ali para importuná-la levava bala. Seu Bitônio Coelho, que sempre se encontrava presente nas horas delicadas da amada, já estava sabendo do ocorrido e teria providenciado dois capangas de confiança para vigiar no entorno do cabaré e matar qualquer suspeito que se aproximasse.
Quando chegou à “casa,” fugida da fazenda do comissário Juvenço Oião, Valentina estava à beira da morte com uma doença venérea que havia contraído dos homens com quem era obrigada a transar a força. Foi quando Maria Bago Mole pediu ajuda a seu amado, Bitônio Coelho, que conhecia um médico de família bem conceituado na região. Levou Valentina até a casa dele, no engenho “Olho d’Água” em sua carruagem, armada com o COLT 45, na companhia de dois capangas armados até os dentes por ordem do coronel.
Ao chegar à fazenda do Dr. Justino Quentão, Maria Bago Mole desceu da carruagem segurando a paciente cambaleando de febre e a levou até o consultório “Deus é Amor”, sempre acompanhada dos dois capangas, por ordem expressa do coronel Bitônio Coelho. “Para inimigos não se fecham os olhos” – dizia. O médico examinou Valentina, aplicou-lhe uma injeção, deu-lhe uma pomada para passar na “rachada” duas vezes por dia, durante quinze dias, e pediu-lhe que tomasse uns comprimidos antibióticos bactericidas, recomendando-lhe repouso absoluto por dez dias sob pena de a doença se agravar mais e ela vir a óbito. “Bactérias são perigosas!” – dizia Dr. Quentão.
Duas semanas depois da consulta com o Dr. Justino Quentão, Valentina já se encontrava recuperada e disposta a fazer de tudo para pagar o favor que Maria Bago Mole fez por ela, tê-la acolhido no cabaré e a levado um médico que a curou da doença, livrando-a da presença funesta de “maria caetana.”
Sincera consiga mesma e leal aos seus princípios, Maria Bago Mole encontrou um meio de ganhar muito dinheiro com a presença de Valentina no cabaré, sem expô-la à exploração sexual. Pediu que as outras meninas a produzisse toda, colocando-a com roupa transparente num determinado local do saloon do cabaré, refletida na luz do espelho. Instalou um cassino no meio da festa, como no Velho Oeste Americano, e determinou que o forasteiro que desse o melhor lance da noite dormiria com a morenaça, inclusive com a promessa de se casar ali mesmo no cabaré e levá-la para casa.
Para cada noite Maria Bago Mole bolava um obstáculo nas bolas do cassino, para ninguém arrematasse Valentina e com esse estratagema o cabaré movimentava-se, entrava muito dinheiro no caixa e as meninas faturavam gordas comissões sem se submeterem aos caprichos sexuais dos fregueses indigestos, o que deixava a cafetina feliz da vida e mais criativa.
A fama da mulher em disputa quase nua, refletida no espelho, se espalhava por toda redondeza, o que atraia ainda mais a atenção dos homens, que imaginavam Valentina, a lenda do cabaré: uma deusa linda, gostosa e nua, com todo mundo a desejando, mas ninguém conseguindo o xeque mate no cassino, o que aumentava cada vez mais o sucesso do cabaré. Mas ninguém atinava que, quem estava por trás de todo aquele sucesso era a mulher dos sonhos do Seu Bitônio Coelho, que sabia como ninguém manipular os homens a gastarem todo dinheiro ganho na quinzena da palha da cana.
“Crônica dedicada ao jornalisteiro Augusto de Arruda Botelho, por escrever essa pérola: Bolsonaro não concedeu graça a Daniel Silveira; Bolsonaro deu um golpe.”
Neco de Zefa era um matuto apombalhado que saiu do distrito de Lagoa do Carro, Pernambuco, nos anos oitenta para cursar Ciências Políticas na UFPE.
Seu sonho: Ser professor estadual e municipal!
Como se destacava dos demais calouros por ser grandalhão, fez amizade na classe com o colega Jeferson Flor, um rapagão falsa bandeira da capital, freqüentador assíduo das baladas afrangalhadas das noites do Recife.
Entrosado em todos os trabalhos de classe, Neco de Zefa não desconfiava das tendências viadais de Flor e convidou-o para ir ao sítio dos pais em Lagoa do Carro para passar um final de semana em contato com a natureza e os animais de estimação.
Jeferson adorou a ideia e num final de semana viajou com Neco para o sítio. Chegando lá ficou encantado com o negão Adamastor Pezão, pau para toda obra no sítio, um metro e oitenta e oito de altura, braços e dedos grossos, beiço de gamela, butina quarenta e quatro nos pés… Era um Hulk Preto!
Além de Adamastor Pezão, Jeferson ficou com água na boca quando viu o jumento Pierre Collier, com a pomba dura, maior do que a de Polodoro, pra lá e pra cá, correndo atrás das jumentas no cio. Era pai de todos os jegues e éguas que nasciam no sítio! Um gigante!
À noite, quando todo mundo estava dormindo, Jerferson Flor, não resistindo ao tamanho da pajaraca de Pierre Collier, levantou-se da cama de campanha na ponta dos dedos dos pés, e, no silêncio da noite, foi direto à estrebaria onde o jumento dormia em pé para provar da mortadela jeguista.
Lá, no escuro da noite sem luar, Jerferson o alisou, passou a mão por todas as partes íntimas do jumento, pegou-lhe na jatumama já pra lá de dura e, não resistindo, arriou a bermuda e deixou entrar só o “chapéu”… Depois do coito zoofílico, correu para cama, todo ensanguentado e dolorido, andando com as pernas abertas, em forma de cangalha.
Manhazinha, Neco de Zefa percebendo a ausência de Jerferson Flor na hora do café, foi até a estribaria da casa onde ele se encontrava deitado. Encontrando-o gemendo e com o oi da goiaba sangrando.
Assustado com a cena furical, Neco perguntou o que aconteceu:
– Neco – disfarçou Flor – me desculpa cara. Mas é que eu não resisti à noite, tomei a liberdade de andar de cavalo, pus a sela em Pierre Collier e, quando escanchei as pernas e fui apoiar as nádegas, sentei-me mesmo no pito da sela que entrou todinha no meu ânus e desde ontem está sangrando e doendo muito!
Assustado com o desmantelo grande, Neco de Zefa não perdeu tempo diante da situação. Pegou o opala do pai e levou Jerferson às pressas à maternidade local onde havia um clínico geral, com especialidade em proctologia.
Assim que chegou à Unidade Municipal, Neco não perdeu tempo, tibungou com Jerferson no corredor e foi direto para sala de emergência.
O médico que estava de plantão era o clínico geral, especialista em proctologia Hildebrando Sarapião que, percebendo a gravidade do problema e desconfiando da sinceridade de Jerferson Flor, perguntou-lhe:
– Como foi esse acidente, meu filho? Foi no pito da sela mesmo ou você andou fazendo traquinagem que não devia. Olhe, eu vou fazer um tratamento aqui com penicilina e óleo de peroba. Mas se não estancar a sangria eu vou ter de utilizar um antibiótico novo que chegou de Cuba aqui na Unidade. Agora só tem um detalhe: Se você estiver mentindo o remédio vai ter um efeito colateral do caralho! Além de sofrer com insuportáveis dores, vai ter uma hemorragia letal que pode levá-lo a óbito! Portanto, é melhor contar a verdade!
Ao que Jerferson, temeroso, e desconfiado que o médico, experiente, já estava por dentro do “acidente”, confessou:
– Doutor, o senhor está certo! Eu senti uma atração irresistível pela mimosana do jumento do sítio, Pierre Collier, e não perdi tempo! Foi muito bom o desejo, doutor, mas quando entrou o “chapéu”… eu desmaiei e só vim me acordar no outro dia todo ensanguentado com o Neco me chamando e perguntando o que era isso no meu ânus. Agora não conta nada pra ele não, visse doutor! É que eu sou viado, mas gostaria que ele não soubesse!
O médico deu um sorriso irônico no canto da boca e ficou a refletir olhando a imagem de Santo Agostinho instalada na parede da sala de plantão, e pensou:
Cartaz do filme MEDIDA PROVISÓRIA, sem as tetas da vaca mimosa da União
O ator e agora diretor Lázaro Ramos – o novo queridinho afro-descendente do politicamente correto, lançou, recentemente, um balaio com um gato dentro, isto é, um longa metragem chamado MEDIDA PROVISÓRIA, que denomina de filme cabeça, cogumelo cool, desses que só quem entende são os adeptos da seita que está abaixo do porão do underground.
Sobre o filme cabeça, escreveu o crítico de cinema goiano Kevin Rick, que diz ter começado sua jornada na Grand Line, ter passado pelo Templo de Ar do Leste, adentrado no Monte da Justiça, em Happy Harbour, e nadado nas profundezas de Atlântica.
Afirma ainda está em busca do One Piece. Durante suas viagens pôde descobrir mundos nas imagens de quadrinhos, imaginá-los nas páginas de livros e vivenciá-los na tela de cinema. Ainda não chegou ao Laugh Tale, mas está aproveitando o caminho.
Eis o que escreveu sobre o longa MEDIDA PROVISÓRIA do novo cineasta Lázaro Ramos, adepto fervoroso das tetas da vaca Mococa da Lei Rouanet, lá do Engenho União, que parece ter secado o leite:
“Eu sinto que as únicas qualidades de Medida Provisória partem do campo extra-fílmico. Primeiramente, existe um contexto muito bacana da equipe criativa por trás do filme, passando pelo cineasta Lázaro Ramos e o elenco protagonizado por Taís Araújo, Seu Jorge, Alfred Enoch e Emicida, todos artistas que influenciaram e representaram o povo negro brasileiro de diversas formas na Arte, até o material original do filme, o sucesso teatral “Namíbia, Não”, escrito por Aldri Anunciação, que também virou livro premiado com um Jabuti em 2013. Além disso, o discurso racial da obra é extremamente importante e traz diversos níveis de debate e conscientização para o racismo estrutural no Brasil, inclusive tocando na ferida de certas organizações que censuraram a obra, como também aconteceu com o polêmico Marighella.
Assim sendo, a produção circula o ativismo, no que podemos usar o termo “artivismo” para classificar o trabalho de Lázaro Ramos, utilizando o Cinema como veículo de protesto e engajamento social. Existe verdade na obra enquanto estratégia artística para desencadear uma discussão, sendo que a própria censura é o primeiro ato ridículo que precisa ser problematizado. Notaram como Medida Provisória tem múltiplas camadas extra-fílmicas que dão pano pra manga? É um exercício cinematográfico bem interessante se formos analisar num contexto social e de mercado (por exemplo, por que censurar esse filme se tantos outros com temas similares já estrearam por aqui, seja do cinema brasileiro ou estrangeiro?).
No entanto, dito tudo isso, dado um leve panorama externo da produção sem se aprofundar tanto, é preciso olhar para a obra de arte em si. Não se esqueçam, importância temática é diferente de execução artística. Muitos filmes falam sobre racismo, feminismo, machismo, homofobia, representação cultural, entre outros tópicos relevantes, mas são pouquíssimos que o fazem com qualidade artística. E, para mim, essa frase anterior resume minha péssima experiência com a obra, mais próxima de um cartaz de protesto nas ruas do que uma experiência cinematográfica verdadeiramente reflexiva. Antes de se aprofundar neste argumento, vejamos a premissa do filme: uma sociedade brasileira distópica aprova uma medida provisória ordenando que os brasileiros de “melanina acentuada” sejam mandados de volta à África, provocando uma reação caótica e resistente daqueles oprimidos, com especial lente para o casal Antônio (Enoch) e Capitu (Araújo), e o divertido André (Seu Jorge, sempre carismático).
Existe uma intenção muita clara de Lázaro em ser acessível para o grande público, colocando seu discurso crítico da maneira mais possivelmente descomplicada. Logo de partida, isso dá um tom superficial à narrativa, sem interesse em qualquer nível de sutileza, nuance ou profundidade em seus temas, colocando personagens para gritarem aos quatro ventos os conflitos raciais em debate. É meio constrangedor quando o conteúdo de um filme é mais falado do que trabalhado, especialmente quando Lázaro tenta proporcionar um tipo de encenação valorosa para os monólogos rasos dos personagens, ou então nas suas sacadas visuais óbvias e pobres, como um racista comendo sorvete de chocolate.
São críticas raciais muito brandas, feitas numa espécie de zona de conforto para a audiência, desde o governo maldoso até as caricaturas preconceituosas, como nas personagens de Adriana Esteves e Renata Sorrah, proporcionando um jogo bobo para o espectador médio apontar o dedo para a tela e identificar alguns clichês sociais e ponderar por alguns minutos tudo que já sabia sobre preconceito no Brasil, além de nunca meditar sobre si mesmo como cidadão. Para um filme que se vende como radical em sua premissa absurda, é estarrecedor como Lázaro joga pela segurança, sem explorar qualquer tipo de elemento crítico do filme, seja o meio político, social, educacional ou até de dramas pessoais. Aliás, é difícil sentir algum nível de empatia ou conexão emocional com os protagonistas mal trabalhados e bem pouco complexos, basicamente avatares genéricos para transmitir o discurso aprazível do roteiro.
Nesse sentido, podemos criticar a falta de processo narrativo da obra. Lázaro não consegue criar tensão nas perseguições nas ruas, muito menos angústia nos períodos que Antônio e André passam sem comida (ou insulina, já que aquele conflito existe de forma aleatória e sem impacto na história), e, se possível, tem ainda menos rigor para transpor o sentimento de sobrevivência coletiva nos Afro Bunkers, que são mais julgadores do que representativos da cultura negra. Afinal, qual é o significado daquela sequência que eles matam um homossexual branco? Círculo vicioso? Pessimismo? Honestamente, me parece uma escolha arbitrária para mostrar os “dois lados da mesma moeda”, confortando o público no pensamento de que violência é chumbo trocado, pelo que eu digo: imparcialidade na Arte é morte criativa. Lázaro parece querer confrontar o brasileiro ao mesmo tempo que passa a mão na cabeça do preconceito.
Mas, vamos lá, talvez o intuito é ser ambíguo, certo? Para isso, eu respondo que Medida Provisória é tão ambíguo quanto suas piadinhas de mau gosto que tentam dar à obra um tom de sátira, mas que na verdade tiram a potência das críticas e dos dramas para novamente colocar a audiência numa segurança com pequenos risos. A comédia é só mais um elemento simplificador de Lázaro para tornar seu protesto audiovisual de fácil digestão, e consequentemente vazio de substância ou efeitos dramáticos. Vou além e digo que a escolha de Wagner Moura por escalar Seu Jorge em Marighella é mais provocativa do que qualquer porcaria leviana que vemos nesta obra para ativistas alienados e revolucionários de redes sociais.
Outro ponto terrivelmente construído no filme está em sua mitologia, que até tem bons conceitos como os quilombos modernos, mas que não dispõe de qualquer naturalidade ou coesão narrativa, como nas citadas cenas nas ruas, na anticlimática fuga do ato final e nos entornos do apartamento, em que não temos lógica interna mesmo no absurdo ou exploração de situações sugeridas (revolução, movimento, luta), e muito menos sensação de periculosidade, urgência ou suspense na direção estéril de Lázaro. Críticas visuais são inexistentes numa terra em que tudo é explicado da maneira mais trivial possível. Nada é desenvolvido em Medida Provisória, do discurso até o ambiente, dos personagens até a linha narrativa, tudo soa como um panfleto de conscientização para idiotas. Um “artivismo” pobre sem catarse. Um cartaz de protesto de Ensino Fundamental que pode ser muita coisa, menos cinema, no sentido simbólico-qualitativo do termo.”
Encontrei esse texto perambulando por aí nas redes sociais e, por considerá-lo significativo e revelador por conter verdades absolutas sobre o marginal e ex presidiário filho de Caetês, resolvi publicá-lo na minha coluna do Jornal da Besta Fubana, para que mais pessoas, através do mais conceituado jornal internético, tomem mais conhecimento dos perigos associados a esse psicopata.
* * *
O TRISTE E MERECIDO FIM DO MAIOR LADRÃO DO MUNDO
O maior ladrão do mundo está a caminho de uma severa demência. A cachaça está acentuando essa loucura.
Roubou, matou, mentiu, sempre acreditando na própria mentira.
Antes, durante e após a prisão, esteve sempre convencido de que era e é um herói, o único salvador do Brasil, um semideus.
Saiu da prisão convicto de que seria ouvido, aplaudido e compreendido pelo povo. Acatado, respeitado e endeusado.
Todavia, em todos os lugares para onde vai, é expulso pelo povo, sob vaias e gritos:
“Ladrão, seu lugar é na prisão!”
Vários estados brasileiros já declararam:
“Aqui, ele não entra!”
Nem o mais mal formado espírito, nem a pior e mais gelada consciência humana é capaz de suportar o peso de uma vida tão errada, tão cheia de crimes, de mentiras e de roubos, nunca confessados, nunca admitidos, sempre vigorosamente negados, sempre desmentidos, até a exaustão.
Esse conflito interno é dele e irá dilacerá-lo, cada vez mais. E não lhe será aliviado, enquanto persistir nessa mentira desvelada, nesse mantra de que é inocente, nesse ódio venenoso, nessa tresloucada arrogância, nessa ridícula e risível megalomania.
Ele não consegue acreditar no que está acontecendo à sua volta. Isso deve parecer-lhe um pesadelo.
Então, prefere o caminho do ataque.
Ataca, desesperadamente, Jair Messias Bolsonaro para tentar, também, desesperadamente, convencer os seus adeptos descerebrados da seita de que ele é o bom, o melhor, o “deus salvador.”
Cada vez mais enfurecido, cada vez mais odioso, cada vez mais repugnante… Ele está tão irado, tão fora de si, tão desequilibrado, que não consegue perceber que, desta forma, afasta esse mesmo povo pelo qual ele quer ser cada vez mais paparicado, pelo qual ele tanto desejava ser endeusado.
Vejam o abismo entre a expectativa dele e a realidade que está enfrentando…
Pouco a pouco, a ficha do ladrão caindo, ele vai enlouquecendo, porque nunca se preparou para ser desprezado e humilhado.
Pelo contrário, tudo o que fez foi inflar, mais a mais, o seu ego do tamanho do mundo e chamar de quadrilha os juízes e procuradores da Lava-Jato.
A ambição e a ganância desmedidas do maior ladrão do mundo vão levá-lo a um fim trágico! Ele mesmo é que está buscando isso.
Esse verme fez muito mal ao Brasil e aos brasileiros!
Lapa de ex presidiário vai enlouquecer de vez, abandonado pelos seus sectários descerebrados, pelos seus aduladores e até mesmo pelos seus familiares, que vão ter vergonha da sua sombra.
Vai se transformar numa “carniça” cheia de vermes… e que federá cada vez mais…
Carolina Maria de Jesus no dia do lançamento de Quarto de Despejo
Tom Farias, pseudônimo de Uélinton Farias Alves, Rio de Janeiro (1960), biógrafo negro de mão-cheia, relança a história de vida da poetisa, contista, memorialista, compositora, atriz, mulher, independente, Carolina Maria de Jesus, favelada, catadora de lixo por mais de doze anos na favela Canindé (SP), que se tornou uma das maiores escritora negra do Brasil.
Nascida no município de Sacramento (MG), em 14 de março de 1914 e encantada no dia 13 de fevereiro de 1977, em São Paulo, onde viveu boa parte de sua vida na favela Canindé, Zona Norte de Sampa, sustentando, sozinha, três filhos de pais diferentes, apenas catando papéis.
Foi nesse período, 1960, que teve seu diário, “Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada,” publicado pela Editora Francisco Alves, com o auxílio do jornalista alagoano Audálio Ferreira Dantas, que visitou a favela para fazer umas reportagens para a revista O Cruzeiro, tornando-a mundialmente conhecida. Nesse livro ela retrata o realismo cruel e degradante da favela de Canindé, onde parecia que o mundo da miséria tinha sua sucursal ali.
Depois do estrondoso sucesso do lançamento do quarto de despejo, Carolina Maria de Jesus, mais uma vez incentivada pelo jornalista Audálio Dantas, publica “Casa de Alvenaria 1”, onde registra os primeiros meses que morou em Osasco (SP) e “Casa de Alvenaria 2”: registra os meses que ela viveu em Santana (SP), onde ela descreve sobre as contradições cruéis de seu tempo, que não é diferente hoje. A fome, a miséria e o abandono ceifando vidas, e restos de comida jogados no lixo pelos donos dos armazéns todos os dias, não sendo distribuído com os pobres catadores de lixo; “Pedaços de Fome” e “Provérbios” (1963), são relatos dessas histórias desumanas do cotidiano da favela que estavam guardados em mais de quinze cadernos que Carolina mantinha num baú especial do seu barraco de madeira.
Carolina Maria de Jesus, é uma grande escritora negra brasileira sobrevivente da miséria, da fome, disse Tom Farias, seu biógrafo. Foi chamada de Machado de Assis de saia, Jorge amado do povo, e Shakespeare de cor. Tem muito peso nisso. Então os romances, os contos, os provérbios, as poesias de Carolina precisam estar no panteão da literatura com letra maiúscula, junto a todos os escritores de peso que o Brasil pariu, pela sua importância literária.
No dia 28 de julho de 2019, o colunista do JBF, José Domingos Brito, memorialista pródigo, prestou uma homenagem singular a Carolina Maria de Jesus na sua coluna domingueira: AS BRASILEIRAS aqui no JBF, detalhando sua descoberta pelo jornalista da revista O Cruzeiro, Audálio Dantas e a sua ascensão após a publicação do seu best seller aqui e no exterior: “Quarto de Despejo: O Diário de uma Favelada.”
Dentre seus livros lançados constam ainda: “Casa de Alvenaria Um” (diário 1961), “Casa de Alvenaria Dois” (diário 1961), “Provérbios” (memórias 1963), “Pedaços da Fome” (memória – 1963), “Diário de Bitita” (memória – 1986), “Antologia pessoal” (poemas – 1996), “Meu estranho diário” (1996), dentre outros tão mais importantes quanto quarto de despejo.
Carolina Maria de Jesus, escritora negra favelada de talento raro, encantou-se no dia 13 de fevereiro de 1977, aos 62, de insuficiência respiratória, em seu quarto, no bairro de Parelheiros, onde ela viveu os últimos 20 anos de sua vida, na Zona Sul de São Paulo, na chácara que ela havia comprado com o dinheiro recebido dos direitos autorais da venda do livro “Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada”, sucesso de venda aqui e no exterior.
Uma das casas da Fazenda de Bitônio Coelho, Século XX
Depois de mais de dois meses ausente de sua “soulmate”, com a solidão batendo-lhe à porta do coração imerso em saudades, o coronel Bitônio Coelho retorna aos braços de sua amada, cheio de salamaleques, com uma banda de boi abatido na fazenda Olho d’Água para servir no cabaré, dois quartos de bode e duas caixas de Macallan Reach de 1926 que ele armazenava no porão da senzala do engenho, dentro de dois barris de madeira antigo, coberto por uma cangalha de cavalo da raça nordestina, que o coronel tinha o maior apreço por não ser albino, não passar de um metro e cinquenta de altura, ter uma cabeça pequena e larga na frente com pescoço proporcional, sem contar com sua disposição para o trabalho e adaptação ao clima sertanejo.
Alertado por sua amada para ser mais cauteloso quando saísse da fazenda, pois havia atraído muitos inimigos por esses anos, que não se conformavam com o seu carisma, sua ascensão de poder e a conquista da mulher mais cobiçada das imediações canavieiras da Zona da Mata Norte carpinense, o coronel Bitônio Coelho não fez juízo de mercante, ouviu os conselhos de sua amada e passou a andar com três capangas fortemente armados. O amor prevalece de alguma forma mesmo com todos os obstáculos da vida. O coronel absolveu esses sábios conselhos da mulher tarimbada com as rugas da vida, apesar de nova.
Quando um ser humano começa a ganhar muito dinheiro ele começa a criar um sentimento de prepotência, arrogância e tirania, achando que pode ser o dono de tudo e mandar em todos. Com Maria Bago Mole foi diferente. À medida que ela ia crescendo, tornando poderosa, com o dinheiro entrando a troco de caixa e ela expandindo o negócio, principalmente o de venda de sexo, a felicidade dos homens endinheirados, mas ela começava a apreciar a paz, a humildade, a bondade, a distribuição de renda para as meninas irem procurando seus espaços para se tornarem independentes.
Maria Bago Mole, tomando como exemplo sua experiência de vida sofrida logo no início na Vila dos Vinténs, criou uma espécie de poupança para estimular as meninas que “trabalhavam” à noite. Para aquelas que se dedicassem mais, se esforçassem por ganhar mais dinheiro, vendendo sexo, e seus homens consumindo produtos do cabaré mais a comissão era gorda e havia uma escala de ascensão. Tudo isso Maria Bago Mole fazia sem forçar a barra, sem impor pressão nas meninas. Em “reunião”, dizia apenas que não seguissem seu exemplo. Que começassem a ser independentes ou se encontrassem um homem que a amasse e quisesse construir uma família, não titubeassem. A mocidade é curta – dizia ela às meninas, aproveitem.
Doida para se deitar com seu amado e matar a saudade de mais de dois meses sem terem tempo um para o outro, a cafetina, mais uma vez chamou as “cabeças” do cabaré, lhes deu instruções e poder para resolver os “pegas pra capar que acontecessem”, só a chamando quando o caso fosse de extrema gravidade, e foi se deitar com seu amado e se esquecer do que se passava fora do cabaré, mas antes de deitar-se, como era uma mulher que nunca acreditava em milagres e sim no trabalho e no poder da eterna vigilância quando não se sabia de onde viria o inimigo, recomendava as meninas que, se o cerco apertasse com qualquer engraçadinho que quisesse desmoralizar o ambiente, tacasse-lhe fogo com o COLT 45 que estava guardado numa dispensa do porão do cabaré, construído por ela com essa finalidade.
A noite terminou em paz, mas cedo houve rumores nas redondezas da “casa” que o desafeto do coronel Bitônio Coelho, Juvenço do Oião, esteve sondando o ambiente antes do sol aparecer…
O dia vinha amanhecendo com um sol prazeroso de se contemplar, iluminando o rosto cansado e triste dos lares humildes do local quando Maria Bago Mole resolveu deixar a Coreia com suas seis meninas recolhidas no cabaré de Palmares e cidades adjacentes. Antes de partir alimentou os cavalos, verificou se seu COLT 45 estava funcionado bem, pois iria enfrentar uma estrada longa, cheia de armadilhas e ciladas, onde aventureiros inescrupulosos agiam com a conivência dos comissários de polícia, que lembravam os caçadores de recompensas do velho oeste americano.
A cafetina estava feliz com o resultado econômico da viagem, pois apesar de negociar com a profissão mais antiga do mundo, que provocava ciúme e revolta nas madames, que pegavam em armas para eliminar suas desafetas, as mulheres da vida difícil, pois não aceitavam seus homens deitando com prostitutas desqualificas, a viagem havia lhe aberto o horizonte para a expansão de novos cabarés como previa o Seu Amado, o coronel Bitônio Coelho, quando da última noite que dormiram no aposento do cabaré.
Maria Bago Mole, apesar de viver num ambiente pesado para a época, onde a prostituição era a troca consciente de favores sexuais por dinheiro, ela fazia questão de transformar o lugar em pura diversão sexual, sem violência, com cada homem no seu espaço. Mas sempre havia momentos que era impossível conter os excessos provocados pelos frequentadores mais afoitos que estavam ali para se divertirem e fugirem do “papai e mamãe”, e depois de umas e outras no guengo, queriam por que queriam ser o centro das atenções por terem dinheiro e influência política. Era nesse momento que a cafetina usava de sua experiência e habilidade para brecar os arroubos viris.
Depois de mais de dezesseis horas de viagem por entre canavial, mata virgem e buracos na estrada, Maria Bago Mole se aproxima do cabaré e, intuitivamente, percebe um movimento estranho que não costumava ver quando ela estava na administração. Com cuidado, e usando a tática dos volantes e cangaceiros, desce da carruagem, que a essa hora já tinha sido avistada pelas “meninas” que ficaram tomando conta da “casa” na viagem dela e temendo pela sua vida, e caminha em direção ao cabaré. É nesse momento que aparecem dois “estranhos” que estavam à procura dela desde cedo a mando do comissário Juvenço Oião, que não aceitava o sucesso de Maria Bago Mole, nem a sua relação com o coronel Bitônio Coelho.
Colt 45 à mão e já de noite, a cafetina vem caminhando rente ao mural de madeira que cercava a área do cabaré, desde a descida da carruagem até à frente do bordel em silêncio tumular, quando houve a voz embargada de dois homens que caminhavam em sua direção. Como estava escuro, a mais ou menos três metros de distância a cafetina vendo os vultos em sua direção, não perdeu tempo, puxou o gatilho do colt 45 e o estampido clareou o escuro:
– Tá! tá! tá! tá! tá! tá! tá! tá! … Os dois malfazejos caíram pronto à cidade de pés juntos!
Com os peitos intumescidos, chapéu em cima do cabelo arriado, Colt 45 ainda na mão fumaçando, Maria Bago Mole vocifera:
– Tome aí, seus dois cabras safados, o que vocês queriam! No meu terreiro, o valentão que tentar cantar de galo, leva chumbo!
Terminado o “serviço,” se dirigiu ao cliente de cada mesa e acalmou a cada um, dizendo que estava tudo bem e que poderiam se divertir com as meninas a vontade. O que aconteceu foi um incidente irrelevante. Faz parte do negócio. Sentou-se à mesa, pegou uma caneta e um caderno, escreveu um bilhete à mão ao Seu Amado, Bitônio Coelho, narrando o ocorrido e pedindo sua presença com urgência. Pegou uma garrafa de Johnnie Walker, tomou um gole com coco do pote, e pensou consigo: a vida é bela!
Depois de ter visitado o cabaré de várias cidades da Zona da Mata Sul de Pernambuco em sua carruagem westerniana, presente do coronel Bitônio Coelho, à procura de carne nova para “abastecer” seu bordel, Maria Bago Mole visita a Coreia de Palmares, várias vezes mencionada n’O Romance da Besta Fubana, do escritor e editor do JBF Luiz Berto, local onde lhe sopraram ao ouvido existir a maior concentração de adolescentes fugidas de casa por não suportarem a tirania dos pais, que se tornaram insuportáveis do dia para a noite porque as más línguas das redondezas lhe sopraram no ouvido que a filha havia sido descabaçada debaixo de um pé-de-algaroba, ora por Tonho das Cabras, ora por Zeca Jumentim e outros aproveitadores da inocência juvenil.
Quando os habitantes das imediações da Coreia souberam, por meio de curiosos que estava chegando uma cafetina ao lupanar coreiano, guiando uma carruagem parecida com a do velho oeste americano, calçando botas vermelhas, vestindo calças compridas e usando chapéu vitoriano, aumentou ainda mais a curiosidade das donas de casa mexeriqueiras e oprimidas pelos maridos e, aproveitaram suas ausências para irem até o meretrício só para ver a chegada da cafetina que tanto atraia os homens, frequentadores assíduos desses ambientes de comes e bebes.
Quem não gostou nada da presença da cafetina Maria Bago Mole na Coreia foi o comissário de polícia Juvenço Oião, espécie de Tenório Cavalcanti local, o “Homem da Capa Preta,” que enfrentava seus desafetos com a submetralhadora “Lourdinha”, inimigo figadal do coronel Bitônio Coelho, que desconfiava que Maria Bago Mole estivera nas imediações a mando dele, sondando o ambiente para expandir seus negócios e transformar a Coreia no longa manus político do seu cabaré de Carpina e manipular todo comércio de carne mijada em toda região da Zona da Mata Sul.
Apesar de na vida nada lhe impressionar, pois já havia passado por todo tipo de agruras, fome e abandono, Maria Bago Mole ficou abalada com os milhares de retirantes que encontrou estrada afora apenas com a roupa do couro e uma trouxa na cabeça procurando uma sombra para descansar e uma raiz para comer, porque onde vivia a seca tinha devastado tudo e nenhuma esperança lhes restava mais viver naquele lugar desacolhedor, onde até os calangos e as lagartixas os escorpiões haviam devorado.
Quando encontrara uma família na beira da estrada esburacada só o couro e o osso, parava a carruagem e entregava um saco de mantimentos que carregava no porão para os retirantes irem enganando a fome até chegar à cidade grande em busca da prosperidade que não existia.
Nessa primeira viagem à região da Zona da Mata Sul, Maria Bago Mole não colheu o que estava dentro da sua expectativa, mas tinha plena consciência de que o resultado positivo viria pela frente em abundância graça aos seus esforços e acreditar que o que estava plantando iria servir de trampolim para o grande sucesso amanhã: a expansão dos seus negócios lucrativos, como bem observara o comissário Juvenço Oião, morrendo de inveja da mulher empreendedora e indomável.
“Prova” que embasa a decisão do executivo municipal olindense para banir o Poeta
Segundo o mais bem informado jornalista musical do Brasil da atualidade, o paraibano-pernambucano José Teles, autor de vários livros sobre a MPB, crônicas cotidianas e biografias de personalidades musicais locais e nacionais, entre eles LÁ VÊM OS VIOLADOS – Os 50 anos da Trajetória Artística do Quinteto Violado, CLAUDIONOR GERMANO – A Voz do Frevo, DO FREVO AO MANGUEBEAT, DA LAMA AO CAOS – Que Som é esse que vem de Pernambuco?, e, para breve, o lançamento de CHORO E FREVO – Duas Viagens Épicas, Castro Alves poderá deixar de ser nome de rua em Olinda, pela política do cancelamento.
Segundo o crítico musical e biógrafo Teles, “não é sensato julgar pessoas e acontecimentos históricos sem a devida contextualização. Em Olinda fala-se em trocar nomes de ruas, praças, prédios públicos e afins, batizados em homenagem a personagens com máculas na biografia, sobretudo, quem foi escravocrata. Doravante, será escrutinado o passado de pessoas candidatas a este tipo de homenagem.”
“POR ESTA LINHA DE RACIOCÍNIO, A PREFEITURA VAI PRECISAR TOMAR UM VOLUMOSO EMPRÉSTIMO PARA TROCAR AS PLACAS, PORQUE SERÃO MUITAS. UMA DAS RUAS QUE GANHARÃO PLACA NOVA É A CASTRO ALVES, EM ÁGUAS COMPRIDAS.
O BAIANO ANTONIO DE CASTRO ALVES (1847/1871), MOROU NO RECIFE ENTRE 1863 E 1865. VEIO PARA CÁ ESTUDAR DIREITO. LITERATO, CULTO, POLÊMICO, PELA CATILINÁRIA A FAVOR DO ABOLUCIONISMO. FICOU CONHECIDO COMO “O POETA DOS ESCRAVOS.”
“Naquela época, quase todo moço fidalgo tinha um criado para cuidar das suas necessidades e afazeres pessoais. Esses criados, geralmente eram escravos. Castro Alves era um moço fidalgo, logo, tinha um criado. O criado de Castro Alves era escravo.”
“É o que se deduz do recorte de jornal que ilustra a postagem. Ele foi pinçado da sessão, no Diário de Pernambuco, em que se publicava a lista de passageiros que desembarcaram no Recife. Este se refere a dia 21 de maio de 1865. Da lista consta o nome de Antônio de Castro Alves, e um escravo. Provavelmente vinha de Salvador para retomar o curso na Faculdade. Talvez fosse um homônimo que viajasse com um escravo, mas é pouco provável.”
“O nome de Castro Alves estava constantemente nas páginas dos jornais do Recife. Esteve, por exemplo, por mais de um mês, num anúncio pago pelo locatário de uma casa que alugou nos Coelhos. O anúncio avisava que enquanto o acadêmico Antônio de Castro Alves não saldasse seu débito do imóvel que alugou na Rua dos Coelhos, seu nome continuaria saindo no jornal. Saiu durante vários dias. A novela acabou quando o fiador mandou publicar um anuncio no Diário de Pernambuco, confrontando o locatário. Deu rolo entre os dois. O fiador pagou, e Castro Alves saiu bem na fita.”
“Contextualize-se também o mau pagador. Castro Alves chegou ao Recife com 16 anos incompletos, deve ter alugado a casa, com 17. Quando é citado acompanhado de um escravo estava com 18 anos. Ele é um personagem do seu tempo e circunstâncias. Caso viesse estudar no Recife em 2022, talvez ficasse devendo o aluguel. Mas não teria criados, muito menos escravo. São outros costumes, outros modos, outra sociedade.”
Os tiranos já estão se programando com unhas e dentes para ver se tiram o poder das mãos dos que sempre lutaram pela liberdade de escolha e o liberalismo econômico.