CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

ANDARILHO PARA A ETERNIDADE

Andando para a eternidade dos sonhos

Sou um andarilho de muitos dias percorridos e passageiro de inúmeras cenas oníricas. Tempos muitos já vivi e ainda procuro respostas nesse mistério psíquico.

Dos mundos por onde já estive, fui levado pelos sonhos, não pelos anseios de vida ou pelas realidades. Foram sonhos noturnos, diurnos e até sonecas. Vivi todos eles e os guardei.

Percorrendo pelos sonhos produzidos – não sei por quem nem porquê – alguns me apareceram compreensíveis e outros nem tanto.

O certo é que os meus compreenderes perambulam por caminhos ainda nebulosos, mas inigualáveis, onde me deparo com nuvens escuras e outras claras, mas abundantes de beleza.

Busco, avidamente, entender quem fez tudo isto: pessoas, animais, florestas, flores, frutos e a continuidade da vida além do corpo físico.

Ou seja, quem determina essa maravilhosa troca de comando, quando o corpo se torna receptivo aos misteres da alma, resultando em iniciativas físicas?

De dia, o corpo comanda nossas ações; de noite, ou durante qualquer soneca, é a alma que vive, livre e solta, na imensidão de mundos desconhecidos.

O que entendo é que a mente nos comanda e cria soluções para o infinito. Mas são os sonhos que deixam provas, permitindo-nos transitar por cenários incríveis, independente dos nossos quereres ou saberes.

Há alguém que me possa esclarecer quem produz tantas histórias, quando em estado de sonho?

Presumo que sejam companheiros da noite. Criaturas que nem conheço e nunca ouvi falar. Nem imagino quem sempre produz maravilhosas, que, em umas, sou espectador e em outras o ator principal.

O que posso entender é que sendo divindades, pretendem nos guiar durante a vivência física.

Algumas, dão recados à mente, para que possamos dar voltas, retornando, ou sigamos em frente, tomando como norte um determinado caminho, seguindo nossos destinos através da orientação contida nos sonhos.

São, geralmente, histórias breves, com cenários, atores e atrizes que se manifestam, interpretando temas que encantam e às vezes assustam, como os pesadelos. Mas se assemelham a peças de teatro que me oferecem audiência para cenas inesquecíveis.

Tenho passado por mundos vários; contraceno com atores conhecidos e desconhecidos. Histórias às vezes apresentadas como se fossem quadros de propaganda aparecendo num televisor. Breves, mas reais.

Quem as teria imaginado?

O que estou certo é que durante estes 32.120 dias vividos, quase em todos, sonhei.

E como não encontro respostas, até hoje, só sei que sou um andarilho rumo a um mundo chamado: Eternidade.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

HAJA PAU!…

Simulação de um corretivo

Nestes quase 90 anos de vida de participações culturais, sinto-me um privilegiado.

Tive oportunidade de circular com certa proximidade, de alguns mestres, cujas memórias sempre estou recordando e louvando. Realço aqui, Capiba, de todos, o meu mais próximo dessa linhagem.

Foi um personagem que jamais vi igual, dado à sua diversidade cultural, pois era tocador de trompa, cantor, pianista, maestro, letrista, compositor, poeta, escritor e pintor. Acima de tudo, um contador de histórias engraçadas.

Já estou no 4º livro em que ajudei a manter sua popularidade. Nestes dias estou tirando da prancheta mais um: “Viva Apiba!” E neste título não há erro. Era assim que ele se identificava: “Eu me chamo Apiba!”

Fazia músicas também por encomenda; tanto para o teatro quanto para atender sugestões de populares. O primeiro desafio foi criar, por solicitação de estudantes, u’a música para celebrizar a “Festa da Esmeralda”, evento anual dos formandos de Medicina. A valsa .oficial

Com letra do poeta Ferreyra dos Santos, criou a “Valsa Verde”. “Maria Betânia”, veio em seguida, para se tornar a trilha sonora da peça de Hermógenes Viana: “Senhora de Engenho”, surgida por encomenda de Mílton Persivo.

Mas teve uma, incomum, composta para uma peça do Teatro de Bonecos, de autoria do meu saudoso amigo José de Moraes Pinho, que foi apresentada pela primeira vez nos anos de 1950, em palco armado no Parque 13 de Maio, no Recife.

Quando foi improvisada a barraca-palco, o primeiro espetáculo constou da apresentação de um mamulengo (teatrinho popular de bonecos) arte muito conhecida do interior do Nordeste.

O principal astro era o boneco “Tiridá”, que vibrava ao ver a polícia bater nos ladrões e ficava escondido, gritando: Haja pau!. Haja pau! Capiba compôs a trilha sonora, sob encomenda. Completou-se o êxito da peça, que mais adiante, tornou-se internacional e foi premiada em Neuchâtel, durante o Festival Internacional de Teatro Infantil, na Suiça.

Augusto e o boneco Tiridá

Seria muito bom que essa peça, fosse adaptada para os nossos dias, a fim de focar, como personagens reais da atualidade, conhecidos políticos e funcionários da “Injustiça”, verdadeiros ladrões engravatados.

E que o povão, vibrando, pudesse gritar, ao invés de: “Fulano ladrão, teu lugar é na prisão!”, um entusiástico: “Vocês só merecem pau: Haja pau!.Haja pau!”.

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LEI DO PASSO-LIVRE

Dr. Pedro Lincoln, este colunista e o Prof. Skaff

De repente, ao chegar aos 88 junhos, me senti velho!

Cheguei a me assustar, pensando: Será que daqui pra frente não serei atacado com algum defeito irrecuperável na carcaça velha? Cuca enferrujada, falta de energia? Coisas do tipo.

Outro dia me encontrei com Raimundo e lhe fiz algumas indagações, de velho pra velho. Trocamos boas risadas com nossas próprias respostas.No final da prosa, “disparei”:

– Mundinho ainda sentes aquele desejo de estar num quarto à meia-luz, com um abajur daqueles antigos e uma cidadã te esperando, vestida com uma camisola rendada?…Lembra-se quando estávamos em “Viagem do Banco”, lá em Natal e visitamos a “Pensão de Maria Boa”?

E Mundinho: “Só tenho vagas lembranças, Carlinhos. Mas saudades não sinto mesmo não. Os tempos correram, e agora o “instrumento” não tem mais o mesmo vigor, já está meio bambo.”

Mas, retornando a uma consulta de rotina, a cardiologista confirmou que meus exames estavam tão bons que ela estava entusiasmada.

Tenho outro amigo que é médico e sempre está me reafirmando que coisinhas tolas, são normais, aos seres viventes, sobretudo nas idades avançadas.

E assim, tenho vivido: é uma caneladinha aqui, outra acolá, pequenas perdas de objetos caseiros, umas topadas pelas calçadas, mas nada é preocupante. A preguiça para fazer caminhadas e as restrições de açúcar, sal e boa dose de “Martini”, sabe-se que é tudo ligado à PVC – Porcaria da Velhice Chegando.

Juntei, então, meia dúzia de “velhotes amparados”, técnicos em vivências, a fim de participar de uma pesquisa, para se formular o texto de uma nova lei, a ser encaminhada aos nossos parlamentares.

Visa a normativa, definir, por Lei Federal, uma série de benefícios já identificados em conversas de bar, filas de Previdência Social e outras malocas. A lei visa a preservação de vários direitos, inclusive o direito de livre opção para a prática de todas as coisas que derem na telha, após os 70 anos.

Vejamos algumas sugestões que estão à mesa::

1. Os familiares não poderão encher nossos sacos com exigências bestas.

2. Não seremos obrigados a repartir problemas com os mais próximos, sejam amigos ou parentes.

3. Não nos obrigarão a cortar o cabelo, as unhas e tomar banhos.

4. Será proibido segurar nossos braços, quando em público, pra não nos avacalhar.

5. Os arquitetos serão obrigados a projetar quinas redondas nas paredes de apartamentos.

6. Será obrigatório que nos banheiros tenham bancos, com cintos de segurança.

7. Que os chuveirinhos das privadas funcionem com água perfumada.

8. Que tenham direito ao “Passo-livre” em transportes rodoviários, ferroviários, marítimos e aéreos e mais: em cinemas, teatros, shows ao ar-livre e quaisquer outras manifestações ditas “culturais”.

9. Acesso, sem despesas, a quaisquer clubes esportivos, sociais ou culturais, inclusive partidas de futebol e outras modalidades.

10. Familiares serão proibidos de nos obrigar a ingerir “remédios preventivos”, mesmo que sob receitas médicas, ou nos levar discretamente – a força – para as detestáveis “consultas de rotina”.

11. Teremos o direito de dormir e acordar de acordo com nossos gostos.

12. Não seremos obrigados a doação de nossas tralhas, inclusive chinelos velhos.

13. Poderemos nos casar oficialmente até mais de duas vezes.

Teremos direito a outros benefícios aqui ainda não assinalados.

Confesso que me alegrei ao ver tantas vantagens. Afinal contribuímos para o progresso. Creio que as “cabeças pensantes” do Parlamento vão até acrescentar outros itens ao nosso projeto, porque será uma felicidade se conseguirem chegar aos 70, frevando nas ruas do Recife ao som do “Vassourinhas”, ao gingado do passo livre.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

UVAS ABENÇOADAS

Às vezes meu pensamento volteia pelos dias, locais e fatos da infância e ocorrem interessantes recordações. Nesses retornos, recordo ensinamentos que recebi dos meus pais; recomendações que fortaleceram meu caráter para enfrentar os anos do porvir.

Como papai era Agente de Propaganda de produtos farmacêuticos, passava 25 dias viajando pelo interior de Pernambuco, e mamãe aproveitava para ficar na casa das irmãs, na Boa Vista, exatamente num casarão situado na Rua Rosário da Boa Vista, 136.

Com seis anos, eu era ainda, dos sobrinhos, o mais novo; por isso dominava oterritório. A casa ficava de frente com a Rua do Aragão, que terminava na Praça Maciel Pinheiro, onde havia uma fonte luminosa e às tardes, as primas Yeda e Nicinha, me levavam para passear.

O bairro era formado por compridos casarões. Onde minhas tias moravam, a frente dava para a rua do Rosário e os fundos para a Rua Gervásio Pires. Construídas bem ao estilo colonial: eram casas estreitas, compridas e quintais enormes.

Eram vizinhos, a família do Sr. Hamilton Groley, um inglês muito educado. A parte do quintal, que tinha uns 20 metros de comprimento, um muro alto limitava as duas propriedades. Por ele descia, como que por encanto, uma parreira de uvas, cuja raiz nunca localizei.

Não raro eu colocava um tamborete e subia para tirar deliciosas uvas brancas, um tanto amargosas, porque às vezes eram colhidas ainda verdes.

Naquela idade eu não poderia imaginar seus benefícios. Hoje tenho conhecimento de que, quando maduras, podem ter influência na redução de doenças cardiovasculares.

A ciência provou que a ingestão de seu suco, duas vezes ao dia, por 30 dias, resulta na diminuição da circunferência abdominal e do Índice de massa corporal, com perda de peso e diminuição de medidas.

Certa feita, dominado pela curiosidade normal das crianças, perguntei a uma das minhas tias onde ficava o pé das uvas e ela me disse que era do outro lado do muro; ou seja, no quintal do sr. Hamilton.

Fiquei preocupado porque estava comendo as uvas da casa de minhas tias, mas aquelas maravilhosas bolinhas verdes do vizinho! Lembrei-me dos ensinamentos do meu velho: “Só use o que for seu! O que não for, peça para usar.”

Dias depois, estando os vizinhos em cadeiras na calçada – como se fazia antigamente – aproveitei para falar com o sr. Hamilton:

O senhor deixa eu comer suas uvas?

Admirado e solícito, ele pediu a mamãe para me levar até seu quintal, onde mostrou-me a plantação, deu algumas explicações e tirou um cacho de uvas maduras para me presentear.

Muito obrigado, Sr. Hamilton, mas não vou aceitar porque todas elas que passam por cima do muro e chegam à casa de tia Teresa eu “passo nos peitos”!

O vizinho ficou admirado com a honestidade da criança. Mesmo assim, aceitei, e ao comê-las notei que eram doces. O vizinho me explicou:

É que certamente você deve estar comendo uvas ainda verdes. Estas nossas são doces porque foram colhidas no tempo certo de colheita.

Depois que a conversa se espalhou, houve discretos comentários, ficando em foco minha boa educação.Tia Teresa, então, passou a comprar uvas para mim, no Mercado da Boa Vista, perto do Pátio da Santa Cruz.

Certamente uvas abençoadas!

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DO 4º PODER DA REPÚBLICA

Ginásio Pernambucano

Lendo, há poucos dias, Notas de um diarista, de Humberto de Campos, lembrei-me de comentários de papai, referindo-se à importância dos jornalistas, com respeito à orientação e anseios da sociedade.

Meu avô paterno, João Pacífico Ferreira dos Santos, antes de se diplomar em Direito e tornar-se Juiz, foi jornalista. Guardo algumas de suas publicações. Sempre esteve voltado para causas que lhe pareceram nobres, como a Abolição da Escravatura e a campanha eleitoral do General Dantas Barreto em Pernambuco.

De ambos, mantive ensinamentos que complementei com as aulas que foram proferidas no Ginásio Pernambucano, pelos mestres: Nilo Pereira, Dias da Silva, Antônio Camelo, Jorge Abrantes e Esmaragdo Marroquim, na época em que não se havia ainda instituído os Cursos de Jornalismo.

Aqueles que já militavam no jornalismo – mesmo que aprendizes – receberam do Ministério do Trabalho e Previdência Social, em 1974, autorização para exercer a profissão, sendo assim considerados: Provisionados. Foi o meu caso.

Porém, o tema principal do aprendizado – que na época se restringia ao jornalismo – era inculcar na mente de cada aluno, a importância do que escreveríamos, salientando-se que o jornal era a tribuna do povo, Ou seja, a começar pelos editoriais e, que tais escritos representassem os anseios da sociedade, de um modo geral.

De certo modo até, sendo mensageiros de novas ideias ou divulgando sugestões para a melhoria dos serviços públicos, que firmassem suas notas em critérios de moralidade sólida, pois eram considerados: “O 4º Poder da República”.

Humberto de Campos, em sua crônica: “O Patrono da Imprensa” faz referências ao advogado dos trabalhadores desse ofício – S. Francisco de Sales – e comenta que a Imprensa, já em 1922, atravessava, no mundo inteiro e especialmente no Brasil, a mais terrível das crises.

São Francisco de Sales

E complementava que as empresas do ramo, até as mais poderosas,, estavam como pequenos navios no alto mar, em dia de tempestade, desejando vencer ondas que pareciam montanhas e muitos se encontravam de bandeira no mastro, pedindo socorro.”

Não tenho dúvidas de que as notas do ilustre jornalista-escritor se tornaram profecias. Naqueles anos, já havia surda e secreta indignação pelo que se publicava.

Em tempos recentes, diante da necessidade de sustentação, os jornais tiveram que se manter, não apenas com a venda avulsa, pequenos anúncios ou assinaturas, mas com a propaganda de produtos ostensivamente necessários à sociedade.

Nos dias de hoje, entretanto, entristece-nos avaliar que as palavras de tantos mestres do jornalismo, foram subvertidas, pela força do progresso e a ânsia dos políticos, em se perpetuar nos cargos, utilizando como veículos de propaganda, as folhas.

A grande quantidade de ações políticas, a ânsia de conquistar cargos e verbas públicas, alteraram a moral de muitos jornalistas e empresários da Comunicação, que se vendem a grupo,s para divulgar ações nem sempre verdadeiras.

É hora de repetir as palavras de Humberto de Campos: Corre pois, ó Francisco, em socorro dos teus servos. Mas não venhas a pé, como ias de Genebra a Roma e de Roma a Paris. Toma um automóvel, meu santo!

Perdemos o título, São Francisco! Hoje é difícil saber quem está divulgando as verdades ou quem está sendo pago para mentir. E assim, infelizmente, perdemos a posição de 4º poder da República.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

DÓLARES DE ALGODÃO E LINHO

PedrInho agraciado com o botton americano

Muito novo ainda, perguntei a meu pai o que significavam as medalhas que a gente ganhava participando de corridas de bicicleta, as quais aconteceram promovidas pelo Atlético Clube de Amadores, no Recife.

Fui informado que era um agraciamento. E completou explicando-me que seria uma ação resultante de algum feito importante na vida de um cidadão; no caso, ser o vencedor de uma competição atlética.

No decorrer dos anos, por vários motivos, tive o reconhecimento de méritos e fui agraciado com medalhas importantes, tanto no Atlético, quanto no Náutico e na AABB, além de troféus e Diplomas e Participação outorgados por entidades culturais.

Quando visitei a América do Norte, estive em Dallas, no Texa,s onde minha neta Patrícia e James, seu marido, me levaram às instalações da United States Mint (Casa da Moeda) uma das quatro oficinas de cunhagem e impressão de dinheiro, entre outras, localizadas na Filadélfia, Denver, São Francisco e West Point. A instituição também administra o depósito de metais preciosos, em Fort Knox.

Entre as funções daquela instituição, se incluem: produção de moedas nacionais e estrangeiras, em ouro; fabricação e comercialização de medalhas comemorativas nacionais; desenhar e produzir as medalhas de ouro do Congresso; salvaguardar e controlar o movimento de ouro no País; desembolsar ouro e prata para fins autorizados e distribuir moedas para os Bancos da Reserva Federal.

Nosso carro ficou no estacionamento, fomos recebidos por dois cordiais vigilantes. Após algumas perguntas regimentais (um discreto “baculejo”), assinamos um Documento de Responsabilização e seguimos num micro-ônibus do governo, veículo todo blindado, com um militar escoltando os visitantes.

Durante a visita – por ser repórter e historiador – indaguei muito e ouvi detalhes, inclusive sobre a qualidade do material empregado naquelas cédulas, desde a matéria-prima e os insumos, até os processos de impressão final, o que para os visitantes também foi um momento educativo.

Na minha memória apenas tinha o conhecimento de que os papeis utilizados para as diversas impressões, sempre foram: papel-jornal (no Brasil, usado até 1975, importado do Canadá), papel couché, Polen Soft, Offset, etc.

Entretanto, no fabrico de cédulas de dólares norte-americanos, não há papel. Exatamente, são fabricadas com 75% de algodão e 25% de linho, produto patenteado pela Crane & Company, que desde 1879, é a única fornecedora dessa matéria-prima; daí resultando sua durabilidade.

Bancário durante 30 anos, vivi o cotidiano de funcionários da Tesouraria, que trabalhavam na seleção de cédulas dilaceradas, as quais eram transportadas para o Banco Central, a fim de alí serem incineradas.

Tenho de memória alguns nomes daqueles colegas que viviam trabalhando em ambiente protegido por uma cerca de arame alambrado, que delimitava o espaço, para proteger as ações alí desenvolvidas.

Entre eles, Otacílio Venâncio, Renato Machado Maia, João Pires de Menezes, José Torres Galindo, Adolpho Moreira Couceiro, Mozart d’Olinda Campelo. Raimundo Alves da Costa, Benedito Alves Formiga, Raimundo Cordeiro de Brito, Luiz Gonzaga Mota, Luiz Moreira dos Santos e outros que já foram para uma pátria que se chama Eternidade.

No hall da fábrica de dinheiro que estávamos visitando, vimos uma exposição de cédulas e ouvi do oficial que nos acompanhou, “A História do dinheiro no mundo”. Como eu estava com antiga cédula de dólar americano na carteira, que há anos conduzia como talismã, houve uma coisa interessante.

Sendo descendente de mexicanos, o oficial J.R.Fridman achou melhor conversar comigo em espanhol, embora eu pudesse dispor dos meus tradutores particulares: a neta, o marido e o casal de bisnetos, Isabela e Set.

Tirei a velha cédula do bolso e a entreguei. Ele foi ao computador e identificou o ano de fabricação e os lugares por onde ela passou. Informou-me que era emocionante e rara tal cena.

Contei a curiosa história da chegada daquela cédula às minhas mãos. Havia sido encontrada no telhado de nossa casa, quando procedemos a um retelhamento. Fiz-lhe de presente. Mas ele me informou que iria incorporá-la ao acervo do museu da Casa da Moeda e me devolveria o valor correspondente, com uma cédula, nova.

Conversamos mais um bocado e lhe contei que aos 15 anos comecei a trabalhar no The First National City Bank of New York, Recife Branch of Brazil, e por influência de colegas americanos sempre sonhei em algum dia visitar os Estados Unidos.

No City Bank observei, pelos arquivos que eram minha função manter organizados, que havia também dólares em vários países e não apenas na América do Norte; mas também na Tchecoslováquia, Austrália; Canadá, Jamaica, Hong Kong, Nova Zelândia, Bahamas e Singapura, todos com seus sistemas de paridade próprios.

Depois, Freidman retornou, trazendo uma cédula correspondente ao mesmo valor e com ela, um botton que me presenteou, fixando-o na gola de minha camisa, informando que era praxe homenagear aqueles que contribuíram, de alguma forma, com o acervo da Casa da Moeda.

Na peça, estavam impressos os dizeres de identificação que se apresentavam rodeando a famosa águia, onde se lê: Great Seal of the United States (Grande selo dos Estados Unidos). Guardei-o como se fosse outro talismã.

Há poucos dias fui visitado pelo sobrinho Pedro Belém da Rocha Cordeiro, filho de Sophya e Clécio, “figurinha” que por mim se afeiçoou e sabia eu que, aos oito anos, ele já havia publicado o livro: “O reino da família humilde”. Resolvi, então, agraciá-lo condecorando-o com o botton recebido da Casa da Moeda dos Estados Unidos, pelo mérito de tão cedo já se destacar como um menino muito inteligente, já escritor.

Dias antes eu já havia presenteado ele e à mana Luiza, com um dólar-americano. E fiquei matutando: não é qualquer criança que pode possuir cédulas de dólares fabricadas com algodão e linho.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

CANTINFLAS

Cantinflas

Mário Moreno, o Cantinflas, famoso ator do cinema mexicano, parecia ter nas veias a comicidade. Não precisava nem falar. Logo ao se apresentar nos telões, com seu inimitável gorro, o bigode dividido ao meio, as calças arriadas até o “traseiro”, além dos inimitáveis trejeitos, não tinha concorrentes. Notabilizou-se.

Seu personagem ficou tão famoso que ele incorporou oficialmente à sua identidade civil, o nome: Cantinflas, que virou sua própria identidade artística – Mário Moreno Cantinflas – cujo nome de batismo era: Fortino Mario Alfonso Moreno Reyes.

No falar, fazia do idioma de sua pátria, o México, uma poderosa forma de conquistar o público. Era imbatível. Sabia harmonizar suas falas de forma que desse ao espectador a imediata sensação de que a história seria pitoresca.

O melhor é que tinha o cuidado de dar a cada filme, a expressão maior de verdadeiras aulas de boa educação moral e cívica. Por isso, também me encantava.

Possuia u’a marca infalível para provocar gargalhadas: se deslocava sobre o próprio eixo do corpo e dava repentinas paradas na ponta dos pés, como se bailarino fosse. Logo nos fazia rir.

Muito cedo começou a trabalhar, como engraxate. Cativava os clientes com seus trejeitos e piadas, deixando a todos, sorridentes. Tentou várias profissões, começando com engraxate, depois, aprendiz de toureiro, motorista de táxi e pugilista. Aproveitou essas experiências para criar histórias hilariantes.

Aos 20 anos, sua vida deu um pinote. Trabalhando no serviço de limpeza de um teatro, em Acapulco, no México, por ser muito simpático e atrair sorrisos, substituiu um apresentador de variedades e foi contratado como ator.

Invertia frases, trocava palavras e abusava do improviso. Conquistou a população hispânica de seu país e foi atraído por Hollywood. Inteligente, levou consigo, para a fama, o escritor e amigo Jaime Salvador, que escreveu seus filmes de maior sucesso.

Nascido em 12 de agosto de 1911, oriundo de família muito pobre, tinha 12 irmãos. Ao começar a receber salário regular, passou a ajudar os pais nas despesas do lar. Foi abençoado e logo ficou famoso como ator cômico.

Com mais de 40 filmes de sucesso, foi residir definitivamente na América, onde fundou sua própria empresa cinematográfica. Em 1956, com A Volta ao Mundo em 80 Dias, marcou definitivamente a carreira internacional, recebendo o Oscar de melhor filme.

Sua carreira se estendeu até 1980. A crítica registrou que entre as décadas de 1940 e 1950 seus melhores filmes, foram: Os Três Mosqueteiros, O Circo, El Supersabio, O Mágico, O Bombeiro Atômico e Se Eu Fosse Deputado.

Em 1957 ganhou o Golden Globe Award. como melhor ator de comédia musical. Fechou os olhos para sempre em 20 de abril de 1993, aos 81 anos, ao retornar à Cidade do México. Como pessoa, só deixou bons exemplos, favorecendo o público de vários continentes, com sua alegria, quenas entrelinhas de percepção dava aulas de vida.

Com sua maneira incomum de fazer graça, introduziu no cinema seu tipo famoso. Bem mereceu ser imortalizado em notáveis museus do mundo. Sua imagem na Middle American Gallery, em 1961, chama a atenção, no catálogo fotográfico do Museu.

Quando fui levado pelo amigo John Clifford Lawrence Jr. e sua esposa, Eliane, a Hollywood, pisei com o maior respeito na “Calçada da Fama”, onde estão simbolizados os grandes nomes da cinematografia internacional.

Segundo a Imprensa americana, Mário Moreno Cantinflas, como comediante, não teve igual na América Latina.

Em cada um dos seus filmes há uma forte recordação de momentos tão deliciosos, vividos, por mim e meus coleguinhas, frequentadores do Cine Eldorado, nos anos 1950. Dos cômicos, aquele mexicano de nome muito comprido – Fortino Mario Alfonso Moreno Reyes – nos fazia chegar à fila da bilheteria uma hora antes, mesmo quando o sol estava a pino.

Lembro-me bem que na “Calçada da Fama”, em Hollywood, ao ver seu nome, fiz uma oração em agradecimento e louvor, ao inimitável Mário Moreno Cantinflas!

Que Deus guarde esse amigo que conheci apenas através dos telões do Cine Eldorado, nas saudosas tardes de domingo, no Recife!

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

TEMPOS DO “BAL MASQUÉ”

Este colunista e Evandro de Castro Lima, “O Príncipe de Sabá”

Na década de 1980, no auge do jornalismo, na qualidade de Assessor de Imprensa do Clube Internacional do Recife, entrevistei, com exclusividade, o advogado, ator, figurinista, e carnavalesco baiano, Evandro de Castro Lima.

Era o tempo em que nos bailes, predominavam arte, luxo e beleza; empolgavam a sociedade nordestina os desfiles de fantasias. Senhoras e senhoritas participavam, mesmo sem desfilar, com belíssimas máscaras e arranjos-de-cabeça incomuns.

Pernambuco disputava aqueles eventos com o Rio de Janeiro, que realizava desfiles semelhantes no Teatro Municipal, no Hotel Glória e no Copacabana Palace.

O Clube Internacional realizou 75 bailes até entrar em certa decadência. Tantos foram os êxitos que, revivendo aqueles tempos, o clube vai realizar uma festa para homenagear pessoas que contribuíram para aqueles espetáculos.

Nota de mídia:

A 75ª edição do Bal Masqué, um dos eventos mais tradicionais do Carnaval brasileiro, acontecerá no dia 15 de fevereiro de 2025, presumindo-se que será uma noite de festa inesquecível, celebrando a cultura pernambucana do carnaval.

Haverá uma programação repleta de atrações, onde várias personalidades serão agraciadas com a “Medalha Burle Max”.

Mário Marinho, Diretor Social da tradicional agremiação do Benfica, informou que serão ao todo 75 nomes contemplados.

Pretende-se, assim, prestigiar essas diversas entidades e personalidades, que em suas mais diversas dimensões, continuam a contribuir para o desenvolvimento das artes em Pernambuco.

Entre esses destaques: a administradora Luciana Félix, o radialista Geraldo Freire, o presidente do Porto Digital, Pierre Lucena, o publicitário Walter Lins Júnior e o Paço do Frevo.

O Bal Masqué é um marco não apenas para o Recife, mas para o Nordeste, sendo reconhecido como um dos mais antigos da cidade.

Quem viveu aqueles anos – como eu que atuei intensamente no colunismo social – jamais poderá esquecer os tempos do Bal Marqué. 

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

PENINHA – UM OBREIRO DA MÚSICA

José Eduardo Sanches – Peninha

“Cada doido com sua mania!” Já se disse há tempos. Mas, de fato, o adágio tem outras singularidades.

Nem sempre um colecionador é um descatembado. No caso de José Eduardo Santos, colunista deste jornal, mais conhecido por Peninha, é um benemérito da música, destacando seus autores, intérpretes e acompanhamentos.

O mais incrível não é ser ele um historiador musical, mas um colecionador virtuoso.

Todos os dias nosso jornal recebe maravilhosas obras de sua coleção peças que o Editor Luiz Berto publica sem ausências.

Se observamos a importância da difusão que Peninha faz das tantas obras musicais que oferece ao público do Jornal da Besta Fubana, diariamente, concluiremos ele vale mais do que centenas de Ecad.

Está em tempo de se reconhecer que este organismo, como entidade responsável pela arrecadação e distribuição dos direitos autorais das músicas, dos autores e demais titulares, não lhe tem a missão de divulgar, em toda a plenitude desejada, as obras, autores, intérpretes e instrumentistas.

Sempre que pude – desde os primórdios de historiador,quando publiquei “Canta se Queres Viver”, contendo a biografia do cantor pernambucano, Claudionor Germano (Claudionor Germano da Hora) e “Capiba, sua vida e canções” (Lourenço da Fonseca Barbosa) que venho alertando Produtores, Apresentadores e os próprios intérpretes a darem dstaque aos autores.

Nestes dias, em contato com o colunista Peninha, observei que ele desenvolve um trabalho muito mais meritório do que apenas identificar as autorias, mas divulgar nossos valores mais legítimos.

Portanto, cabe aqui levar meus aplausos e agradecimentos – como leitor e ouvinte – ao gigantesco Peninha, que todos os dias oferece ao Brasil a oportunidade de manter vivas na memória do nosso povo, as maravilhosas produções e interpretações dos novos e velhos tempos das boas músicas nacionais e internacionais.

Não é sem razão que considero-o o competente colega o Obreiro da da Música.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

TUTU BUCHO BRANCO

Mauro Mota – O Barão de Chocolate

Vez por outra dou uma escorregada, traindo um dos meus lados. Um dos meus lados? Sim, porque um lado, existe a tendência para permanecer como historiador, pois, profissionalmente, desempenho tal ofício, desde 1984.

Mas, do outro, impera o espírito de gaiatice em muita coisa, que escrevo.

E pertencendo ao signo de gêmeos, existe a inclinação para a duplicidade; como se houvesse a necessidade de possuir um estepe para cada coisa; ou seja, a tendência que compõe a estrutura psíquica de minha maneira de ser.

Hoje volto ao lado socialmente gaiato, aquele que assinala os apelidos de pessoas que conheci, mas se entende que é, ao mesmo tempo, o escrito de um aprendiz de historiador.

Mauro Mota (Mauro Ramos da Mota e Albuquerque), Jornalista, professor e sociólogo, pessoa com quem estive várias vezes, em função de minha atividade no Diário de Pernambuco, demonstrou a importância dos apelidos no ambiente social de uma cidade, ao publicar: “Barão de Chocolate & Cia., na década de 1970. Foi o maior sucesso.

E, como se diz modernamente, nessa “Busca Avançada” – no caso: da memória – vou revendo essa época tão importante, quando os intelectuais de renome faziam parte da AIP – Associação da Imprensa de Pernambuco e do Jornal; dentre eles: Anibal Fernandes, Gilberto de Melo Freire, Antônio Camelo da Costa, Mário Carneiro do Rego Mello, Austregésilo de Athayde, João Condé, etcétera.

E botando a cuca pra funcionar lembro-me de alguns apelidos que me marcaram para sempre durante os momentos de senvergonhice que campeava nas oficinas do Diário. Enquanto a linotipo fumaçava derretando o chumbo para compor as letras, se ouvia, em profusão, muitas historietas.

“Dadá” – Era uma solteirona que morava na minha rua, cujo nome de batismo era Danúzia de Melo. Mas seu apelido se originou de ter sido vista, várias vezes, com homens diferentes, para noitadas fora do prumo.

Mas, voltando à gaiatice de minha maneira de narrar certas cenas, dou continuidade ao apelido de Danúzia.

E sabendo-se que ela dava “o negócio” adoidadamente, pegou a alcunha de “Dadá”. Como se a “Comissão dos Apelidos”, instalada na Vila dos Jornalistas, em Afogados, estivesse afirmando que ela “dava” mesmo até no recanto de um muro.

“Maria Trepadeira” era outra famosa. Boa atriz do Circo Fekete, Zefinha, era um morenaço até de certo modo “comestível”, “Empregada Doméstica” que trabalhava na casa de Seu Maviael, costumava ir “fazer zona”, com outras safadas. Depois das onze da noite, fechavam as ruas tranquilas do bairro de Mangueira.

Aproveitavam a troca de turno no 14-RI – (14º Regimento de Infantaria do Exército), situado na Rua São Miguel, que em dias de sextas-feiras liberava os recrutas a partir das 20 horas. Era o momento para se esbaldarem.

Uma delas, Maria Perpétua Martins de Sena, pegou a alcunha de “Maria Trepadeira”.

Fernanda Mulambo – Foi outra cidadã que conheci na juventude, também chegada aos “exercícios automobilísticos” e que, certo dia, Marlindo, foi tomar informações porque estava inclinado a noivar com ela; saindo horrorizado com as piores informações, sobre a pretensa donzela. Tornnou-se sabedor que a moça já havia sido “passada nos peitos” por toda a rapaziada do bairro. E assim foi agraciada como o pomposo título de “Fernanda Mulambo”!.

Tutu – D. Dirce Tutu Quadros era filha do Presidente Jânio da Silva Quadros. E muito se pensava que fosse “Tutu” um apelido. Mas, neste caso, Tutu era nome de família. Tratava-se de moça muito prendada e competente, que quando solteira e residindo no Brasil auxiliava o pai em serviços de secretaria, quando ele era Prefeito de São Paulo e não recebia remuneração.

Ao falecer, em Los Ângeles, na Califórnia, os jornais noticiaram seu nome completo: Dirce Maria Tutu do Valle Quadros, cuja mãe foi uma das mais distintas “Primeiras Damas” do Brasil, D. Eloá do Valle Quadros.

Daí vem uma historinha maliciosa, mas verdadeira. Perguntaram a Jânio se ele toparia ir a um motel com famosa atriz do nosso Teatro. Sendo, bom filólogo e atento às empulhações, respondeu ao indiscreto repórter:

– Se eu pudesse comê-la, ia. Como não devo, como Eloá!

“Tutu Bucho Branco” – Já no caso do meu pai, que se chamava Arthur, ganhou da irmã mais nova – Mariita – o apelido de “Tutu”; e através dos anos, pegou. Sendo ela ainda criança, não acertava pronunciar o nome do mano mais velho, corretamente. Durante algum tempo resolvi chamá-lo de “Tutu”, mas não emplacou. Faltaria com o respeito.

Entretanto, anos à frente, fui ouvindo da parentada, esse nome adotado, de forma carinhosa. Mas, aos 8 anos, durante certo momento em que ele estava enfermo e deitado tomaria uma injeção no “trazeiro”, comprovei que meu velho não tinha ascendência de África, pois tinha a barriga branca, como o resto do corpo.

Papai, por ser um trabalhador quase braçal – pois era Representante Comercial de produtos farmacêuticos- andava muito pelas ruas e não gostava de usar chapéu. Por isso a cor do rosto foi mudando.

Aos 50 anos, já estava com a fisionomia amorenada, tomando o carinhoso apelido de “Moleque Tutu”. Mas, dou meu testemunho, ele tinha o bucho branco!