CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

TUTU BUCHO BRANCO

Mauro Mota – O Barão de Chocolate

Vez por outra dou uma escorregada, traindo um dos meus lados. Um dos meus lados? Sim, porque um lado, existe a tendência para permanecer como historiador, pois, profissionalmente, desempenho tal ofício, desde 1984.

Mas, do outro, impera o espírito de gaiatice em muita coisa, que escrevo.

E pertencendo ao signo de gêmeos, existe a inclinação para a duplicidade; como se houvesse a necessidade de possuir um estepe para cada coisa; ou seja, a tendência que compõe a estrutura psíquica de minha maneira de ser.

Hoje volto ao lado socialmente gaiato, aquele que assinala os apelidos de pessoas que conheci, mas se entende que é, ao mesmo tempo, o escrito de um aprendiz de historiador.

Mauro Mota (Mauro Ramos da Mota e Albuquerque), Jornalista, professor e sociólogo, pessoa com quem estive várias vezes, em função de minha atividade no Diário de Pernambuco, demonstrou a importância dos apelidos no ambiente social de uma cidade, ao publicar: “Barão de Chocolate & Cia., na década de 1970. Foi o maior sucesso.

E, como se diz modernamente, nessa “Busca Avançada” – no caso: da memória – vou revendo essa época tão importante, quando os intelectuais de renome faziam parte da AIP – Associação da Imprensa de Pernambuco e do Jornal; dentre eles: Anibal Fernandes, Gilberto de Melo Freire, Antônio Camelo da Costa, Mário Carneiro do Rego Mello, Austregésilo de Athayde, João Condé, etcétera.

E botando a cuca pra funcionar lembro-me de alguns apelidos que me marcaram para sempre durante os momentos de senvergonhice que campeava nas oficinas do Diário. Enquanto a linotipo fumaçava derretando o chumbo para compor as letras, se ouvia, em profusão, muitas historietas.

“Dadá” – Era uma solteirona que morava na minha rua, cujo nome de batismo era Danúzia de Melo. Mas seu apelido se originou de ter sido vista, várias vezes, com homens diferentes, para noitadas fora do prumo.

Mas, voltando à gaiatice de minha maneira de narrar certas cenas, dou continuidade ao apelido de Danúzia.

E sabendo-se que ela dava “o negócio” adoidadamente, pegou a alcunha de “Dadá”. Como se a “Comissão dos Apelidos”, instalada na Vila dos Jornalistas, em Afogados, estivesse afirmando que ela “dava” mesmo até no recanto de um muro.

“Maria Trepadeira” era outra famosa. Boa atriz do Circo Fekete, Zefinha, era um morenaço até de certo modo “comestível”, “Empregada Doméstica” que trabalhava na casa de Seu Maviael, costumava ir “fazer zona”, com outras safadas. Depois das onze da noite, fechavam as ruas tranquilas do bairro de Mangueira.

Aproveitavam a troca de turno no 14-RI – (14º Regimento de Infantaria do Exército), situado na Rua São Miguel, que em dias de sextas-feiras liberava os recrutas a partir das 20 horas. Era o momento para se esbaldarem.

Uma delas, Maria Perpétua Martins de Sena, pegou a alcunha de “Maria Trepadeira”.

Fernanda Mulambo – Foi outra cidadã que conheci na juventude, também chegada aos “exercícios automobilísticos” e que, certo dia, Marlindo, foi tomar informações porque estava inclinado a noivar com ela; saindo horrorizado com as piores informações, sobre a pretensa donzela. Tornnou-se sabedor que a moça já havia sido “passada nos peitos” por toda a rapaziada do bairro. E assim foi agraciada como o pomposo título de “Fernanda Mulambo”!.

Tutu – D. Dirce Tutu Quadros era filha do Presidente Jânio da Silva Quadros. E muito se pensava que fosse “Tutu” um apelido. Mas, neste caso, Tutu era nome de família. Tratava-se de moça muito prendada e competente, que quando solteira e residindo no Brasil auxiliava o pai em serviços de secretaria, quando ele era Prefeito de São Paulo e não recebia remuneração.

Ao falecer, em Los Ângeles, na Califórnia, os jornais noticiaram seu nome completo: Dirce Maria Tutu do Valle Quadros, cuja mãe foi uma das mais distintas “Primeiras Damas” do Brasil, D. Eloá do Valle Quadros.

Daí vem uma historinha maliciosa, mas verdadeira. Perguntaram a Jânio se ele toparia ir a um motel com famosa atriz do nosso Teatro. Sendo, bom filólogo e atento às empulhações, respondeu ao indiscreto repórter:

– Se eu pudesse comê-la, ia. Como não devo, como Eloá!

“Tutu Bucho Branco” – Já no caso do meu pai, que se chamava Arthur, ganhou da irmã mais nova – Mariita – o apelido de “Tutu”; e através dos anos, pegou. Sendo ela ainda criança, não acertava pronunciar o nome do mano mais velho, corretamente. Durante algum tempo resolvi chamá-lo de “Tutu”, mas não emplacou. Faltaria com o respeito.

Entretanto, anos à frente, fui ouvindo da parentada, esse nome adotado, de forma carinhosa. Mas, aos 8 anos, durante certo momento em que ele estava enfermo e deitado tomaria uma injeção no “trazeiro”, comprovei que meu velho não tinha ascendência de África, pois tinha a barriga branca, como o resto do corpo.

Papai, por ser um trabalhador quase braçal – pois era Representante Comercial de produtos farmacêuticos- andava muito pelas ruas e não gostava de usar chapéu. Por isso a cor do rosto foi mudando.

Aos 50 anos, já estava com a fisionomia amorenada, tomando o carinhoso apelido de “Moleque Tutu”. Mas, dou meu testemunho, ele tinha o bucho branco!

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

DOS JORNAIS AOS LIVROS

Guardar documentos, simples papéis ou fotografias, para quem vive escrevendo por força das circunstâncias profissionais, não é um fato tão raro assim. Muitos da velha geração costumavam guardar tais coisas a partir de manuscritos, visto que anos atrás as “máquinas de escrever” não eram popularizadas.

Conheci, há poucos dias, cidadão que quase me fez cair o queixo, pois mandou arrumar bem direitinho, todos os recortes de sua passagem por uma associação de classe e agora mandou digitalizá-los para publicar um livro de raro valor.

Está na lista de meus projetos transformar em livro tudo quanto tenho guardado em jornais. Matérias que vão desde a simples reportagem até pequenas notas em Crônicas Sociais.

Todavia, graças às inteligências que planejaram e adaptaram às tecnologias modernas, o Jornal da Besta Fubana, disponho hoje de um arquivo totalmente digitalizado, graças à ciência de Bartolomeu Silva, que trata do planejamento e publicação de todas as fases deste jornal.

Aproveitando o tema, recomendo aos jovens de hoje guardarem em papel tudo quanto for recordações de suas vidas, porque se algum dia faltar energia ou a Internet pifar, nada poderá ser revisto se não estiver também guardado em papel nos velhos baús de casa ou nas estantes das bibliotecas, indicativo de que os papéis fotografados, manuscritos ou datilografados já viraram livros que ficam para muitas gerações à frente.

Para que sirva de exemplo, já estão prontas as primeiras páginas de um livro de crônicas publicadas, projeto que terá o título: Crônicas Cheias de Graça. Os elementos fundamentais de suas páginas serão quase uma centena de recortes que meu pai guardou.

Dessa maneira, os recortes vão formando livros. Foram muitos os autores que aproveitaram essa matéria prima para publicar seus livros.

Meu saudoso amigo, o Dr. Rostand Paraíso, o fez de modo magistral, trazendo para um novo público velhas páginas editadas pelo Jornal do Commercio e deixou uma significativa coleção de preciosos livros sobre a História do Recife.

Dentre muitos: “Esses ingleses…”, “Velhas Pensões do Recife”, “Café Lafayette”, “Antigos hotéis e pensões”, “Velha senhora: a Medicina” e o mais inteligente é que ele escolhia, de cada uma dessas crônicas, os títulos dos seus livros.

Segui a mesma linha de preservação dessas preciosidades. Outro dia me lembrei que tais recortes são como os rios – que correm para o mar – os recortes de jornais vão compor livros e assim documentar a histórias dos nossos e de outros tempos. Ou seja: os recortes dos jornais chegam, geralmente, aos livros.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

ACADEMIA, REENCONTROS, RENOVAÇÃO

Que bom para todos nós os reencontros acadêmicos!

Nada como os afins da Velha Guarda se reencontrarem! Trata-se de u’a forma de renovação. E nossa Academia de Artes e Letras da AABB-Recife, serve como cenário para o local onde ocorrem fraternos abraços, reminiscências e sorrisos plenos.

Na mais recente assembleia, ainda com mais significado, pois agraciou Euler Araújo de Souza, abriu-se a cortina para as cenas que viriam. A Presidente Thelma, a Vice Maria José e a Secretária Lívia, assumiram a Mesa da Assembleia.

Vimos, naquele instante, no comando dos trabalhos, um belo e competente triunvirato.

Depois da homenagem ao legítimo inspirador do sodalício, o mais novo ex-Presidente do Clube, surpreendemo-nos com o deslumbramento de cenas que ficarão para sempre em nossas melhores lembranças.

Fomos surpreendidos por uma verdadeira peça teatral, quando Paula Francineti – aquela criaturinha miúda – pisou na arena para confirmar que tamanho não é documento. “Veio com tudo!”

Paula Francineti

Talvez procurando confirmar que palestras devem ser animadas com apresentação de imagens em telão, complementos musicais, e trejeitos teatrais, como o fez nossa querida Paulinha, incluindo destreza e habilidade das mãos, o comportamento das expressões fisionômicas, o andarilhar no improvisado palco-arena do Salão Capiba.

Além do mais, demonstrou boa presença-de-palco e classe de quem desenvolve um tema importante sob o foco de se dar o devido respeito ao Direito Autoral de um compositor, instrumentista e organizador de grupos de canto e dança, que se projetaram por vários estados do País.

Um quase desconhecido compositor João Pernambuco (João Teixeira Guimarães) tão notável quando pernambucano, nascido em terras sanfranciscanas, foi revivido ali, por palavras que demonstraram, sobretudo, a profundidade de uma pesquisa com fundamentos didáticos.

João Pernambuco

Ainda mais, pelo entusiasmo da narrativa, a graça da interpretação e a disposição de comprovar fatos, em fotos com notáveis recortes de jornais que registraram um Ontem que já se esvai nas gavetas dos seus apreciadores e na poeira dos tempos.

O que mais se poderia dizer além do que apreciamos durante a palestra da acadêmica Paula Francinete Rubens de Menezes, de nesta última quarta-feira?

Uma apresentação de acadêmica capaz de marcar, para sempre, os anais da própria Associação Atlética Banco do Brasil. Todavia, vou mais além: foi musicada, apresentando um show em dupla de dois grandes astros do canto e das cordas – Lucas e Maria Oliveira ( mãe e filho), momento que emocionou a todos.

Não foram poucos os aplausos, os assobios e a demonstração de entusiasmo, pois todos o fizemos de pé.

E mais, com auditório lotado – como há muito não se via – cantando em coro músicas do saudoso compositor.

Podemos dizer que a Assembleia de 20 de outubro de 2024 – por causa da palestra de Paula Francinete e a homenagem a Euler, foi soberba, esplêndida, maravilhosa, inolvidável, fantástica, e tome sinônimos muitos, para que se possa descrevê-la em tantas palavras que nem cabem nestas breves notas de um espectador atento e maravilhados com os momentos felizes que viveu.

Deo Gratias!

• José Leal, jornalista e Produtor Cultural publicou recentemente o livro: Raízes e Frutos da Arte de João Pernambuco.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

LIVROS INACABADOS

Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos

Uma das maiores infelicidades de um escritor é terminar seu trabalho e não vê-lo publicado. No meu caso, como profissional, já senti esta profunda amargura mais de uma vez. E parece que o destino continua tramando.

A solução que encontrei foi encaderná-los com as folhas das Provas Finais – que na linguagem dos gráficos foram apelidadas de “Boneca” – para que sejam guardados em minha pequena biblioteca e quando eu me for, deverão ser doadas à Fundação Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais.

Dessa maneira, juntando os originais de Provas Finais – mesmo com riscos de emendas e as rasuras dos clientes – consigo considerá-los: livros prontos, como alguns, de fato, estão, na sua originalidade.

O pior de tudo é que alguns já esperam publicação há quase 30 anos, pois, dentre os que não foram finalizados pelos clientes, há alguns que sendo apenas projetos meus, não consegui editá-los.

Os tempos mudaram muito e hoje não dispomos mais do o prestígio de algumas empresas que eram patrocinadoras. As agências de publicidade foram engolindo tudo quanto podia se constituir Apoio Cultural e captar serem captados valores através de leis do Governo Federal.

Há fatos até pitorescos nesses episódios: em 1984, para publicar uma pequena biografia de Capiba (aliás a primeira a circular no Recife), tive a audácia de vender um Fusca para atender às despesas gráficas. No final, comprei outro, novo, e ainda doei vários exemplares às bibliotecas municipais.

Em função de tudo isto, resolvi juntar velhas e muito riscadas páginas, preparando, para a encadernação, capas condignas e as Fichas Catalográficas, para em seguida guardá-los para a minha coleção.

Pareceria muito luxo!…

Mas, sabemos, cada livro incorpora uma história, onde estão, de fato, “Histórias de Pernambuco”, coleção que pretendo concluir, pois venho escrevendo ao longo destes 50 anos de atividade como repórter, escritor e editor; inclusive publicando uma crônica semanal neste magnífico jornal, sob a complacência do nosso Editor, Luiz Berto Filho.

Mas disso falarei oportunamente, em uma crônica.

E para o assunto não ficar esquecido, relaciono, aqui os títulos que não foram ainda publicados, os quais serão provisoriamente encadernados.

Todavia, tão logo disponha de tempo e possa utilizar significativo valor nas referidas edições, publicá-los-ei, a fim de presentear os amigos e as bibliotecas, notadamente as duas maiores do mundo.

A Library of Congress United States, (Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América do Norte) é o maior repositório de conhecimento do mundo, com uma coleção crescente de mais de 150 milhões de itens.

A Instituição é um repositório de livros, materiais impressos, fotografias, mapas, partituras, filmes, gravações sonoras e manuscritos, que só vi semelhante quando visitei, a cidade de Salt Lake City, em Utah, a magnífica biblioteca dos Mórmons, onde também doei vários títulos.

Já a segunda maior, é a Russian State Library – Moscow (Biblioteca Nacional Russa), localizada em São Petersburgo, que tem um acervo de livros com aproximadamente 36,5 milhões de exemplares.

Há sobre isto um fato bastante significativo, que certamente abrilhantará minha biografia profissional, quando for, algum dia, elaborada, constituindo-se alerta às gerações de escritores jovens.

Quando em junho de 1986 publiquei a 1ª das três edições do livro: “O Banco do Brasil na História de Pernambuco”, recebi correspondência do American Consulat, do Rio de Janeiro, expedida com base na Ficha Catalográfica daquele trabalho, solicitando a remessa de publicações de minha autoria, notadamente sobre os Bancos o Sistema Bancário Brasileiro.

O outro fato muito especial ocorreu quando um irmão do meu colega e amigo: Junancy Galvão, foi à Rússia pra visitar um dos seus irmãos e levou de presente o referido livro. Depois da leitura, foram tiradas as cópias e o original foi doado à Biblioteca de Leningrado, que é a representante da Biblioteca Nacional Russa. E assim, meu trabalho correu o mundo, através da catalogação internacional, o ISBN -International Standard Book Number.

Diante dos fatos, a partir de 21.01.1988, venho enviando todos os trabalhos que tenho editado. E para finalizar a história, registro aqui os livros de minha autoria, contratados por clientes, que por alguma razão, ainda não foram editados, embora pretenda fazê-lo oportunamente.

Recife da moeda ao crédito
Uma tomada de poder
Dr. Simões – Um líder de Petrolândia
Dr. Manoel de Freitas Cavalcanti – Histórias da Vida Inteira
Biai, um Vereador de Olinda – (Dr. Severino Barbosa de Souza)
Dr. Romero Carvalho – Um médico e sua História
Dr. José David – O advogado
O maior patrimônio do Banco do Brasil
Um personagem da AABB
Crônicas primaveris e outoniças
Dr. Luiz Ignácio Pessoa de Melo – Um Capitão de Indústrias.

Pelo menos, assim, terei meus livros acabados e inesquecíveis.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

CANIVETE SEXUAL

Victorinox Spartan

De excelentíssima senhora, já avançada nos anos, dona de respeitado bordel, situado em terras alencarinas – conhecido por “Fados e Fodas” – ouvi dizer que ela, quando completou 50 anos de idade e 30 de profissão, resolveu fazer uma Promoção de Vendas de seu único produto: seu corpo.

Para a rapaziada, a partir de 14 anos, oferecia suas habilidades corporais, somente na parte da tarde.

O mais curioso era a “moeda de troca”.

Merlinda facilitava àqueles que se dispusessem a lhe ofertar um canivete suiço, utensílio que oferecia várias aplicações e estimulava notáveis habilidades, sem dar a entender às autoridades policiais que se tratava de arma-branca.

Passava, portanto, por qualquer baculejo da Polícia.

O produto ficava embutido em bela peça cromada, criada por genial indústria suiça. Na época, os “Victorinox Spartan” desapareceram das lojas de importados de Fortaleza.

A “Promoção” fez tanto efeito que Merlinda teve que agendar os encontros, tal era a quantidade de candidatos, os quais procediam até de cidades próximas.

Quando indagada porque criou o “Cruzeiro-canivete”, (Cruzeiro era a moeda da época) ela respondeu:

– Sou previdente. Quando eu estiver mais idosa e sem atrativos, trocarei canivetes suíços por momentos amorosos e ainda poderei disponibilizar tais utensílios para vender aos rapazes do novo tempo. Por isso meu baú está cheio deles.

O famoso “Victorinox Spartan” tornou-se um canivete sexual.

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LIÇÕES DOS PEQUENINOS

Porta pantográfica

Esses pequeninos que vivem entre nós, sempre estão dispostos a nos dar lições. Parecem já haver nascidos sabendo das coisas.

As crianças de hoje já nascem com os olhos abertos, como se anunciassem: “Cheguei para mostrar que temos inteligência bem desenvolvida!”.

Numa época em que morávamos nas proximidades do aeroporto, onde víamos passar bem baixinho, os gigantes dos ares, um dos meus pequeninos filhos, certo dia, me disse:

– Papai, eu quero voar num avião!

E eu respondi:

– Vai voar, sim, meu filho! Quando você crescer mais um pouco, viajará.

Anos à frente, viajamos de férias ao Rio de Janeiro e ele ficou na residência de minhas tias. Mas questionou:

– Porque eu não posso ir viajar?

Argumentamos que nos aviões não havia berços, as crianças ficavam sem poder sair das cadeiras por muito tempo, eram amarradas por um cinto de segurança e ao dormir você não poderiam usar a chupetinha; e “carimbei” outros argumentos. Ademais, você precisa virar homem! Vai se hospedar num hotel. Foi convencido.

Não fez muita questão, sobretudo porque com minhas tias se davam muito bem. Era paparicado, por ser o caçula dos sobrinhos-netos. Mas lhe prometi que quando fosse possível ele viajaria, mas sem a chupetinha.

Anos depois, precisando ir ao Rio, resolvi ir com ele, porque a demora seria coisa de dois dias. Fui comprar as passagens, deixando ele na companhia da mãe. Quando voltei ao carro, fiz-lhe a surpresa: entreguei o Bilhete de Passagem, sob espanto:

– Pra que é isso, papai?

– É pra você entrar num avião e viajar para o Rio de Janeiro comigo. Mas, me disseram que só podem viajar crianças que não usam chupetas.

Ao preparar sua mala, a esposa colocou a chupeta bem escondidinha, para atender a algum caso extraordinário.

A partir do aeroporto fui lhe explicando coisas, a partir da apresentação dos bilhetes de passagem, entrega da bagagem, a ligação dos motores do avião, a inclinação para subir, as nuvens, os dois pousos e decolagens que se realizariam em Salvador, o lanche servido, etc.

O pequenino experimentaria um avião Constellation, da Panair do Brasil.

Reservei um daqueles antigos hoteis econômicos do Rio, cuja porta do elevador era pantográfica. Como os antigos sabem, se trata de um modelo com estrutura de grades, cujo fechamento articulado permite que fique completamente aberta ou totalmente fechada. Além do mais com ampla ventilação.

Logo que chegamos ao Itajubá Hotel e nos credenciamos, fomos para o velho elevador Otis, que estava de portas pantográficas abertas. Ao entrar e ver o cabineiro acionar a porta externa e a interna, ele aplicou:

– Ele vai trancar a gente aqui?

Como chegamos à tardinha, não dava mais para passear, logo após uma jantinha leve, retornamos. Na hora de dormir, metí-lhe o pijama, as meias, liguei o ventilador e notei que ele estava um pouco inquieto. E indaguei:

– Tá faltando alguma coisa meu filho?

– Sim, papai, esqueci minha chupetinha!

– Não, meu filho, sua mãe mandou que eu guardasse na minha mala. Tá aqui. Tome!

Ele olhou para a chupeta, me encarou, talvez sabendo que havia quebrado uma jura: não usar a danada para ter o direito de viajar. E saiu com mais uma, depois de instantes de reflexão:

Levantou-se, perguntou onde era a lixeirinha do quarto e lá jogou o “vício”, afirmando, feito gente, cheio de orgulho:

– Não uso mais chupeta, papai! Já sou homem, viajei de avião e conheci um hotel!

Hoje fico imaginando: como são vivas e inteligentes aquelas crianças da década de 60! A cada momento nos davam mostra de que eram portadores de muita vivacidade. Os olhinhos viam, gravavam e ouviam tudo. De fato, não poderei negar que recebi muitas lições dos pequeninos!

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

TURMINHA INTELIGENTE

Luana, a bisneta caçula

Conviver com netos, bisnetos e sobrinhos pequeninos é realmente um privilégio! E eu tenho um “estoque” de 12 bisnetos, um lote de netos e vários sobrinhos, formando uma “tuia” de gente muito engraçada. Saem com cada uma!…

Luana, uma das minhas bisnetas, filha de Adriana e Francisco Sales Linhares Neto, costuma sentar-se no tapete de casa e a mãe começa a ativar sua inteligência, fazendo-lhe perguntas educativas. E num desses episódios, deu nisso:

– Minha filha, coqueiro dá o que?

– Côco, não é mamãe!

– Jaqueira dá o que?

– Jaca.

– Laranjeira dá o que, Luana?

– Laranja Mimo-do-céu..

– Mangueira dá o que, minha filha?

E Luana, já com um jeito de quem está sendo interrompida, pois estava dando mingau à sua boneca; já com o juízo meio atrapalhado, face à duração do ”inquérito”, veio com esta dúvida:

– Mangueira… mangueira… Sei não!… Dá água?…

Há outra sujeitinha, a Luiza, filha de Sofia e meu sobrinho Felippe José Machado, que perturbando a vovó, Jurema, pois estava ansiosa para ir fazer compras num shopping, acabou recebendo um inteligente sugestão:

– Minha filha, não poderei ir assim com tanta pressa. Terei que terminar umas coisas na cozinha. Faça o seguinte: conte de 1 a 40 e quando terminar, iremos.

Meio chorosa e já de cara amarrada, Luiza “aplicou”:

– 1,2,3,4,5… 40. Pronto vovô! Completei! Vamos!

Gabriela, (que hoje reside em Nevada, Estados Unidos), filha de Eliane e Carlos Eduardo de Almeida Santos, sabendo que a avó paterna era conhecida pelos netos como: Vovó Carminha, logo que se entendeu de gente passou a chamar o pai de seu pai – que sou eu – de um jeito inédito:

– Vovô Carminho.

Certo domingo, fui com minha noiva e André, filho de minha saudosa cunhada, Iracema e José Tavares de Melo, para ele conhecer o mar e tomar um “banho-salgado”, como se chamava antigamente.

Logo que botou os pés nas águas do Pina, surpreendeu-se com as espumas, abaixou-se, molhou uma das mãos e levou à boca, logo afirmando e indagando:

– Á água é salgada!… Quem salgou?

Mariana, filha de Tereza Cristina e Gustavo Jorge de Almeida Santos, interrompendo minha prosa com seu pai, entrou na sala, choramingando, para informar:

– Papai, tô com uma dor de cabeça muito forte! Acho que vou desmaiar!

E sabendo-se que um carinho de avô diminui dores, falei:

– Venha cá, minha filha, quero ver essa dor de cabeça!

– Pode não vovô; a dor é dentro da cabeça!…

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

AMOROSA SURPRESA

Dr. Pedro Iluminato, este colunista e Mylenna

Não poderia, um velhote de 88 anos, ser tão prestigiado em vida, senão com a visita do tão querido neto – “Pedro Bala” – e sua namoradinha Mylenna, num tranquilo sábado de primavera.

– Vô, tô chegando e bem acompanhado!

E chegou “fervendo”., mostrando a namorada e o novo carrão.

Voltamos há uns 20 anos, revendo imagens do tempo em que, não tendo mais filhos pequenos, eu ia buscá-lo para se deliciar nos parques, como se eu fosse um pai de “primeira viagem”.

Os tempos passaram. Pedro assumiu as realidades da vida com dedicação e denodo, estudando muito e varando corajosamente as estradas alagoanas, a fim de situar-se na vida – como o fez – vitorioso em sua profissão, de forma que o futuro lhe indicasse dias proveitosos, como lhe ensinaram os pais.

Eis que, de repente, surge Pedro Victor, já homem, médico e com uma linda jovem à tiracolo!

Proseamos, um bocado. Falamos sobre deliciosos momentos de nossos passados dias, quando ainda estudante de Medicina, realizamos passeios incríveis planejados pela imaginária Agência de Viagens “Vovôtur”, que funcionava, proporcionando ao neto, viagens maravilhosas, inclusive com direito a vaucher da “Vovô Bank”.

Recordamos com certa emoção um dos passeios a Petrolândia, quando alugamos uma lancha e fomos até uma ilha que era o divisor de águas entre Pernambuco e a Bahia. Depois, falamos sobre João Pessoa, lembramos do parque de diversões da Jaqueira, no Recife e outras estripolias.

Em minha sala de visitas, no maravilhoso hoje, rolaram ainda comentários de tempos em que vivemos muito mais próximos. Apareceram histórias do seu bisavô, do tataravô e até fatos antigos, que meu querido “Pedro Bala” desconhecia.

Tudo sorrisos. Todos nós numa constante troca de emoções.

Uma inesperada visita familiar, tão simples, não poderia ter se revestido de tal brilho emocional.

De fato, uma amorosa surpresa.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

UM MUNDO SUBMERSO

O transporte popular na década de 30

Já adulto, conversando com papai, perguntei como foi a década de 1930, no Recife, período em que nasci.

E ele me falou, mais ou menos, isto:

Quando você nasceu, meu filho, a rua tinha o nome de Avenida Venezuela. Foi engraçado, porque anos mais tarde ela foi rebaixada para Rua Venezuela, no Espinheiro. A casa nº 181 ainda está lá, firme e com a mesma fachada.

O Recife tem fatos curiosos a respeito de ruas, sabia? Sem querer criticar ninguém, mas aproveitando para citar fatos interessantes, anotei o que segue.

Na antiga entrada do Hospital Português, onde fica o edifício mais antigo daquele complexo hospitalar, a rua tem o nome de avenida – Avenida Portugal. Mas é tão magrinha que se assemelha a um bêco do bairro que já foi mais conhecido como: Paissandu.

Mas, continuou papai falando:

Você nasceu e viveu a primeira infância durante acontecimentos preocupantes, dentre eles a Revolução de 1930, e em 1939, quando tinha 3 anos, eclodiu a II Guerra Mundial.

A Revolução de 30 foi um buruçu infame, pois foi deposto o Presidente da República, Dr. Washington Luiz Pereira de Souza. Mas a cidade via com agradável surpresa as ruas novamente calmas, sem a agitação dos comícios políticos e discursos inflamados.

Já havia bondes modernos, todos fechados, semelhantes aos ônibus da atualidade. Os cavalheiros circulavam com trajes completos, geralmente de linho branco, relógios de algibeira, suspensórios nas calças e abotoaduras de ouro. Era moda os chapéus tipo Prada ou Ramezoni.

Os jornais circulavam sem mais suas colunas inteiras em branco, pois antes eram censurados rigorosamente.

Vivia-se um tempo propício às manifestações cordiais que renasciam nos gestos mais simples. Nessa época via-se o espírito associativo que se desenvolvia em todas as camadas populares.

O Recife tinha jeito provinciano, como se desejasse ser, novamente, a Cidade Maurícia.

Comprava-se frutas e verduras através de um vendedor chamado de verdureiro, que carregava nos ombros um pau roliço, os quais, através de cordéis, prendiam dois balaios cheios, e saia oferecendo pelas portas.

Os amoladores de tesoura, vinham de casa em casa, o gás das residências da Boa Vista, circulava através de canos de cobre embutidos nas paredes. No mesmo bairro, o leite de vaca diariamente era entregue na porta, em garrafas de vidro, vedadas com tampinhas de alumínio.

Lá em nossa casa, no alto da Torre, ainda usávamos o carvão para cozinhar alimentos e somente na década de 50 compramos um fogão a querosene.

Ouvia-se muito ruído de carroças puxadas a cavalo, que passavam pelas ruas, calçadas a paralelepípledos, transportando mercadorias. Em várias esquinas havia uma “venda”, estabelecimento que oferecia muitos produtos.

Aos domingos eu saía com você e sua mãe para ver as vitrines das lojas nas ruas Nova e Imperatriz Tereza Cristina, onde estavam as mais chiques; depois aproveitávamos uma visita ao Gemba, para saborear um delicioso sorvete ou apreciar uma “cartola” na Casa Pérola.

Já existiam os famosos clubes: o Internacional, o Náutico, o Flamengo, o Sport, o América, o Santa Cruz, o Grêmio Esportivo da Torre (Jet) o Tramways e o Clube Português do Recife, todos não muito acessíveis ao nosso padrão de vida.

Ah, meu filho, a década de 30 foi um tempo que já vai longe! O mundo parecia girar mais devagar!

As pessoas eram avaliadas por sua inteligência e habilidades, inclusive tinha-se que ter boa caligrafia para se empregar com facilidade. Para saber as notícias – sempre com 24 horas de atraso – só através dos jornais e da única emissora de rádio, a PRA-8 – Rádio Clube de Pernambuco.

Outro passeio, sem despesas, muito apreciado era a gente ir para o Cais de Santa Rita ou para o Chupa, a fim de ver os hidroaviões Catalina fazerem suas incríveis amerissagens na Bacia do Pina.

Tudo isso, meu filho, como disse meu amigo Dr. Valdemar de Oliveira, numa de suas crônicas, faz parte de minhas lembranças, uma espécie de meu mundo submerso.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

ORGULHO DA GENTE PORTUGUESA

Meu saudoso amigo Carlos Leite Maia escreveu páginas que tive a honra de inserir algumas, no livro comemorativo dos 90 anos do Clube Português do Recife, que será lançado em dezembro próximo.

A Capital de Pernambuco se refazia dos terríveis efeitos da Revolução de 30, quando foi deposto o Presidente da República, Washington Luiz.

A cidade via com agradável surpresa as ruas novamente calmas, sem a agitação dos comícios políticos e discursos inflamados. Os jornais circulavam sem suas colunas inteiras em branco, pois antes eram censurados rigorosamente.

Tais fatos fizeram parte do panorama cultural do decênio em que foi fundado o Clube Português do Recife, aquela urbe ainda provinciana, como se querendo ser ainda a Cidade Maurícia.

O Recife se remodelava e novas ideias associativas completavam-se entre as classes. das mais abastadas àquelas de menor poder econômico. Comerciantes portugueses formavam seleto grupo que influiria bastante na modernização da cidade.

Projetaram a fundação do Clube Português do Recife, fato de grande significação na primeira década do progresso de Pernambuco, após as turbulências da Revolução de 1930.

Concentraram-se, na oportunidade, cidadãos nascidos em Portugal, no Recife residentes, para a criação de uma nova sociedade que os agrupasse a fim de promover melhor convívio social e esportivo.

O calendário marcava 1922. O momento atraiu ideias de denodados homens de empresa, dentre eles Eduardo Alberto Simões, o jornalista Simões Coelho e outros, todos portugueses, que iniciaram uma intensa e vigorosa campanha, tendo como objeto fundar um clube de grande relevância.

Visava-se agregar pessoas de significativa categoria empresarial e senso de sociedade, para a fundação de um clube de verdade, adquirindo-se, para isso, um terreno e a construção de uma sede sócio esportiva compatível com as necessidades da cidade.

Os líderes portugueses entenderam que o instante era propício à materialização do projeto, pois o Recife dava sua arrancada para o progresso, colocando-se no conceito das maiores metrópoles brasileiras.

Reunidos os valores para as primeiras iniciativas patrimoniais, a ideia já estava sólida. Convoca-se, então, a Assembleia Geral da Fundação do Clube Português do Recife e reunidos no Gabinete Português de Leitura, à Rua do Imperador Dom Pedro II, 290, bairro de Santo Antônio, aqueles que seriam os fundadores.

Estava solenemente criado o Clube Português do Recife que em 15 de fevereiro de 1936 inaugurava sua sede, na Avenida Conselheiro Rosa e Silva, 172, no bairro das Graças.

Demonstrou-se, assim, em Pernambuco, o maior orgulho da gente portuguesa.