Mauro Mota – O Barão de Chocolate
Vez por outra dou uma escorregada, traindo um dos meus lados. Um dos meus lados? Sim, porque um lado, existe a tendência para permanecer como historiador, pois, profissionalmente, desempenho tal ofício, desde 1984.
Mas, do outro, impera o espírito de gaiatice em muita coisa, que escrevo.
E pertencendo ao signo de gêmeos, existe a inclinação para a duplicidade; como se houvesse a necessidade de possuir um estepe para cada coisa; ou seja, a tendência que compõe a estrutura psíquica de minha maneira de ser.
Hoje volto ao lado socialmente gaiato, aquele que assinala os apelidos de pessoas que conheci, mas se entende que é, ao mesmo tempo, o escrito de um aprendiz de historiador.
Mauro Mota (Mauro Ramos da Mota e Albuquerque), Jornalista, professor e sociólogo, pessoa com quem estive várias vezes, em função de minha atividade no Diário de Pernambuco, demonstrou a importância dos apelidos no ambiente social de uma cidade, ao publicar: “Barão de Chocolate & Cia., na década de 1970. Foi o maior sucesso.
E, como se diz modernamente, nessa “Busca Avançada” – no caso: da memória – vou revendo essa época tão importante, quando os intelectuais de renome faziam parte da AIP – Associação da Imprensa de Pernambuco e do Jornal; dentre eles: Anibal Fernandes, Gilberto de Melo Freire, Antônio Camelo da Costa, Mário Carneiro do Rego Mello, Austregésilo de Athayde, João Condé, etcétera.
E botando a cuca pra funcionar lembro-me de alguns apelidos que me marcaram para sempre durante os momentos de senvergonhice que campeava nas oficinas do Diário. Enquanto a linotipo fumaçava derretando o chumbo para compor as letras, se ouvia, em profusão, muitas historietas.
“Dadá” – Era uma solteirona que morava na minha rua, cujo nome de batismo era Danúzia de Melo. Mas seu apelido se originou de ter sido vista, várias vezes, com homens diferentes, para noitadas fora do prumo.
Mas, voltando à gaiatice de minha maneira de narrar certas cenas, dou continuidade ao apelido de Danúzia.
E sabendo-se que ela dava “o negócio” adoidadamente, pegou a alcunha de “Dadá”. Como se a “Comissão dos Apelidos”, instalada na Vila dos Jornalistas, em Afogados, estivesse afirmando que ela “dava” mesmo até no recanto de um muro.
“Maria Trepadeira” era outra famosa. Boa atriz do Circo Fekete, Zefinha, era um morenaço até de certo modo “comestível”, “Empregada Doméstica” que trabalhava na casa de Seu Maviael, costumava ir “fazer zona”, com outras safadas. Depois das onze da noite, fechavam as ruas tranquilas do bairro de Mangueira.
Aproveitavam a troca de turno no 14-RI – (14º Regimento de Infantaria do Exército), situado na Rua São Miguel, que em dias de sextas-feiras liberava os recrutas a partir das 20 horas. Era o momento para se esbaldarem.
Uma delas, Maria Perpétua Martins de Sena, pegou a alcunha de “Maria Trepadeira”.
Fernanda Mulambo – Foi outra cidadã que conheci na juventude, também chegada aos “exercícios automobilísticos” e que, certo dia, Marlindo, foi tomar informações porque estava inclinado a noivar com ela; saindo horrorizado com as piores informações, sobre a pretensa donzela. Tornnou-se sabedor que a moça já havia sido “passada nos peitos” por toda a rapaziada do bairro. E assim foi agraciada como o pomposo título de “Fernanda Mulambo”!.
Tutu – D. Dirce Tutu Quadros era filha do Presidente Jânio da Silva Quadros. E muito se pensava que fosse “Tutu” um apelido. Mas, neste caso, Tutu era nome de família. Tratava-se de moça muito prendada e competente, que quando solteira e residindo no Brasil auxiliava o pai em serviços de secretaria, quando ele era Prefeito de São Paulo e não recebia remuneração.
Ao falecer, em Los Ângeles, na Califórnia, os jornais noticiaram seu nome completo: Dirce Maria Tutu do Valle Quadros, cuja mãe foi uma das mais distintas “Primeiras Damas” do Brasil, D. Eloá do Valle Quadros.
Daí vem uma historinha maliciosa, mas verdadeira. Perguntaram a Jânio se ele toparia ir a um motel com famosa atriz do nosso Teatro. Sendo, bom filólogo e atento às empulhações, respondeu ao indiscreto repórter:
– Se eu pudesse comê-la, ia. Como não devo, como Eloá!
“Tutu Bucho Branco” – Já no caso do meu pai, que se chamava Arthur, ganhou da irmã mais nova – Mariita – o apelido de “Tutu”; e através dos anos, pegou. Sendo ela ainda criança, não acertava pronunciar o nome do mano mais velho, corretamente. Durante algum tempo resolvi chamá-lo de “Tutu”, mas não emplacou. Faltaria com o respeito.
Entretanto, anos à frente, fui ouvindo da parentada, esse nome adotado, de forma carinhosa. Mas, aos 8 anos, durante certo momento em que ele estava enfermo e deitado tomaria uma injeção no “trazeiro”, comprovei que meu velho não tinha ascendência de África, pois tinha a barriga branca, como o resto do corpo.
Papai, por ser um trabalhador quase braçal – pois era Representante Comercial de produtos farmacêuticos- andava muito pelas ruas e não gostava de usar chapéu. Por isso a cor do rosto foi mudando.
Aos 50 anos, já estava com a fisionomia amorenada, tomando o carinhoso apelido de “Moleque Tutu”. Mas, dou meu testemunho, ele tinha o bucho branco!










