O transporte popular na década de 30
Já adulto, conversando com papai, perguntei como foi a década de 1930, no Recife, período em que nasci.
E ele me falou, mais ou menos, isto:
Quando você nasceu, meu filho, a rua tinha o nome de Avenida Venezuela. Foi engraçado, porque anos mais tarde ela foi rebaixada para Rua Venezuela, no Espinheiro. A casa nº 181 ainda está lá, firme e com a mesma fachada.
O Recife tem fatos curiosos a respeito de ruas, sabia? Sem querer criticar ninguém, mas aproveitando para citar fatos interessantes, anotei o que segue.
Na antiga entrada do Hospital Português, onde fica o edifício mais antigo daquele complexo hospitalar, a rua tem o nome de avenida – Avenida Portugal. Mas é tão magrinha que se assemelha a um bêco do bairro que já foi mais conhecido como: Paissandu.
Mas, continuou papai falando:
Você nasceu e viveu a primeira infância durante acontecimentos preocupantes, dentre eles a Revolução de 1930, e em 1939, quando tinha 3 anos, eclodiu a II Guerra Mundial.
A Revolução de 30 foi um buruçu infame, pois foi deposto o Presidente da República, Dr. Washington Luiz Pereira de Souza. Mas a cidade via com agradável surpresa as ruas novamente calmas, sem a agitação dos comícios políticos e discursos inflamados.
Já havia bondes modernos, todos fechados, semelhantes aos ônibus da atualidade. Os cavalheiros circulavam com trajes completos, geralmente de linho branco, relógios de algibeira, suspensórios nas calças e abotoaduras de ouro. Era moda os chapéus tipo Prada ou Ramezoni.
Os jornais circulavam sem mais suas colunas inteiras em branco, pois antes eram censurados rigorosamente.
Vivia-se um tempo propício às manifestações cordiais que renasciam nos gestos mais simples. Nessa época via-se o espírito associativo que se desenvolvia em todas as camadas populares.
O Recife tinha jeito provinciano, como se desejasse ser, novamente, a Cidade Maurícia.
Comprava-se frutas e verduras através de um vendedor chamado de verdureiro, que carregava nos ombros um pau roliço, os quais, através de cordéis, prendiam dois balaios cheios, e saia oferecendo pelas portas.
Os amoladores de tesoura, vinham de casa em casa, o gás das residências da Boa Vista, circulava através de canos de cobre embutidos nas paredes. No mesmo bairro, o leite de vaca diariamente era entregue na porta, em garrafas de vidro, vedadas com tampinhas de alumínio.
Lá em nossa casa, no alto da Torre, ainda usávamos o carvão para cozinhar alimentos e somente na década de 50 compramos um fogão a querosene.
Ouvia-se muito ruído de carroças puxadas a cavalo, que passavam pelas ruas, calçadas a paralelepípledos, transportando mercadorias. Em várias esquinas havia uma “venda”, estabelecimento que oferecia muitos produtos.
Aos domingos eu saía com você e sua mãe para ver as vitrines das lojas nas ruas Nova e Imperatriz Tereza Cristina, onde estavam as mais chiques; depois aproveitávamos uma visita ao Gemba, para saborear um delicioso sorvete ou apreciar uma “cartola” na Casa Pérola.
Já existiam os famosos clubes: o Internacional, o Náutico, o Flamengo, o Sport, o América, o Santa Cruz, o Grêmio Esportivo da Torre (Jet) o Tramways e o Clube Português do Recife, todos não muito acessíveis ao nosso padrão de vida.
Ah, meu filho, a década de 30 foi um tempo que já vai longe! O mundo parecia girar mais devagar!
As pessoas eram avaliadas por sua inteligência e habilidades, inclusive tinha-se que ter boa caligrafia para se empregar com facilidade. Para saber as notícias – sempre com 24 horas de atraso – só através dos jornais e da única emissora de rádio, a PRA-8 – Rádio Clube de Pernambuco.
Outro passeio, sem despesas, muito apreciado era a gente ir para o Cais de Santa Rita ou para o Chupa, a fim de ver os hidroaviões Catalina fazerem suas incríveis amerissagens na Bacia do Pina.
Tudo isso, meu filho, como disse meu amigo Dr. Valdemar de Oliveira, numa de suas crônicas, faz parte de minhas lembranças, uma espécie de meu mundo submerso.
