CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

RONALDO LUPO

Ronaldo Lupo

Talvez nem nosso colunista Peninha se lembre do grande cantor brasileiro Ronaldo Lupo, que no Recife se apresentou várias vezes, com o maior sucesso.

Na década de 1960 os maiores espetáculos de canto e dança ocorriam nos teatros e auditórios das duas emissoras de Rádio: a Rádio Jornal do Comércio e a Rádio Clube de Pernambuco.

Era o tempo em que a juventude que apreciava os programas de rádio se identificava como “macacos de auditório”; e eu fui um deles. Aos domingos, na emissora do Dr. Pessoa de Queiroz, na Rua Marquês do Recife, as tardes eram recheadas de atrações, principalmente no “Programa Ernani Seve”.

No auditório, um luxo! As pessoas bem vestidas, jovens entusiasmados e até o casal, dono da emissora, Dr. Pessoa e D. Lotinha, ali estavam presentes com outros convidados de fino trato.

Anos antes, os espetáculos que se notabilizaram aconteciam no Palácio do Rádio Oscar Moreira Pinto, na Av. Cruz Cabugá, sede da PRA- 8. As duas emissoras disputavam as tardes domingueiras.

Lembro-me de certa apresentação do cantor paulista, Ronaldo Lupo, quando Ernani Seve aproveitou um dos intervalos para entrevistá-lo e logo a “macacada” começou a gritar: “Canta, canta, canta!”

Foi um fato tão raro que o Dr. Pessoa de Queiroz levantou-se, como sendo um bedel de escola, para pedir silêncio àqueles jovens tão entusiasmados, para que o público pudesse ouvir a voz maravilhosa.

Mas, lembro-me bem, somente naquela entrevista soubemos um pouco da vida do artista. Seu nome verdadeiro: Ronaldo Lupovici Lito, nascido em Campinas, que era um mestre no palco, porque tinha qualificações como cantor, compositor, roteirista, artista de cinema e produtor de Teatro de Revista.

Era cantor contratado das emissoras: Mairink Veiga, Tupi e Rádio Nacional, esta última muito ouvida no Recife, através das Ondas Curtas.

Ronaldo Lupo consolidou sua fama nas cidades por onde se apresentou porque, na propaganda de seus espetáculos, dias antes, ele criou um artifício para homenagear o lugar e as rádios tocavam várias vezes, como chamariz.

Assim, antes de vir ao Recife, as rádios tocavam uma espécie de paródia de sua melhor música: “Linda Cidade”:

Meu Pernambuco tu resumes
Do meu Brasil os teus perfumes
Na graça da mulher e na força varonil
És a imagem do meu Brasil!

Muito organizado, mantinha no bolso do paletó um caderninho e um lápis. Ao terminar o espetáculo formava-se uma fila de rapazes e moças no térreo do edifício, para receber os autógrafos. Às moças, ele respeitosamente dava um beijo na testa. Tudo com muito critério.

Ronaldo Lupo foi famoso na época em que as emissoras de rádio e os discos de 78 RPM eram as únicas maneiras de propagação de sua arte.

Um dos seus maiores sucessos foi “Linda Cidade”, canção de sua autoria, que ele adaptava para saudar e homenagear cada cidade nas quais se apresentava.

Decorridos mais de 70 anos de vida, jamais esqueceremos a voz límpida do grande intérprete, que nosso jornal traz para os leitores se deliciarem com o jeito romântico de cantar a voz inimitável de Ronaldo Lupo.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

POSTAIS DA AMÉRICA

Logan e Lucas, meus bisnetos americanos

Beirando os 90 anos, começo a cuidar de minhas melhores lembranças. Notadamente aquelas que permeiam constantemente meus pensamentos, pois são de tal forma significativas que não as posso olvidar.

Vou abrindo duas caixas cheias de fotografias e encontro imagens que me lembram histórias de um passado inesquecível. São postais de uma vida inteira.

Aproveito e utilizo esse momento para produzir crônicas, nas quais deixarei significativas heranças imateriais. Algumas cenas significativas que vivemos.

Já “emplaquei” a quantidade de 12 bisnetos e isto merece várias crônicas, que vou publicar com o título de “Postais da América”. Referem-se a uma viagem que fiz há alguns anos, por cinco estados americanos, a fim de conhecer um ramo de minha família que mora muito distante de mim: os bisnetos.

Eles merecem que eu lhes entregue comentários e fotos de quando eram pequeninos, tempo em que podíamos viver próximos. Mas, infelizmente, os bisnetos acharam de nascer e viver em cidades muito distantes.

O mais importante é que foram registrar meu sobrenome em cartórios da América do Norte, pois nasceram, ou vivem, na Califórnia, em Nevada, no Texas, no Arizona e em Idaho.

Recordo quando em outubro de 2013 viajei aos Estados Unidos, passeio desejado desde os meus 15 anos, quando trabalhei num Banco americano, o City Bank.

Lá em Boulder City, estado de Nevada, conheci meus bisnetos. Lucas e Logan, filhos da neta Gabriela e seu marido Garret. Embora permanecendo com eles alguns dias, infelizmente já os encontrei crescidos; meninos de 9 e 10 anos.

Mesmo assim, pude brincar como se criança fosse; andar de patinete, conhecer lugares e trocar palavras confusas: eles querendo falar português e eu apelando para um inglês meio “macarrônico”. Mas, com certa dificuldade, nos entendemos.

Houve momentos em que fiquei fitando os americaninhos e lamentando pois havia perdido o convívio na fase de suas infâncias. Um valor de tempo inestimável. Cenas que poucos avós poderão talvez viver!

Na mesma viagem pelas terras do “Tio Sam”, fui a Dallas rever Isabela Thelga e Set, filhos de Patrícia e James, que eu já conhecia, ambos, também já crescidos.

Fui, em seguida, conhecer, em Phoenix, no Arizona, três figurinhas – também galegas – Allie, Paige e Sedona, filhas de Maria Eduarda e Nick,onde me senti bisavô de fato, porque fiquei “de quatro” e duas delas subiram nas minhas costas, como se eu fosse um cavalinho.

Marca autenticada de um “bi-vô” felizI

O que aqui apresento nestas notas são apenas partes dos meus Postais da América.

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DOIS CARLITOS

Fui visitar o amigo Francisco de Oliveira Melo, Presidente da Academia de Artes e Letras da AABB Recife, que se recupera de intervenção cirúrgica. Mesmo sabendo de suas limitações físicas – pois ainda está em convalescença – alonguei a prosa, pecando, devido a ânsia recíproca do reencontro.

Os temas foram resumidos, devido às circunstâncias. Mas focamos, com naturalidade, a literatura, assunto da qual ele é mestrado; nossa Academia, que em sua gestão, vem se agigantando com iniciativas envolventes e a escolha do seu substituto temporário, nosso Tarcizo Leite de Vasconcelos.

Deu-me gosto rever o amigo-irmão, inteiriço e animado. E, ao correr das palavras idas e vindas, me deparei com um livro muito volumoso, em exposição na sala. Era a obra: Os Miseráveis, de Victor Hugo.

E, naquele instante, pensei: depois de muitos anos de vida, passando os olhos por tantos livros, jamais toquei naquela notável coleção de folhas encadernadas, que o mundo tanto aprecia.

Não folheei, mas fiquei admirado com a quantidade de papel. Só de texto, fotografias e ilustrações: 1.511 páginas. Refleti: Isso não é um livro, mas u’a montanha de papel impresso, numerado, cortado e encadernado!

Quanto tempo de sua vida teria o notável autor utilizado para escrever tanto?!

O romance, publicado em 1862, retrata as desigualdades sociais em todos os seus prismas. Inúmeras publicações foram reeditadas em várias línguas.

A conversa com Melo foi fluindo. Assuntos do Banco onde trabalhamos, cenas sobre meu Padrinho Djalma Marques de Melo – Grão Mestre da Maçonaria – e as nossas famílias. Até descobrirmos que temos, entre os nossos familiares, dois Carlitos e um deles comigo estava naquela visita.

Dois Carlitos, por que?

Meu, o filho caçula, registrado como Carlos Eduardo, foi “batizado” pelo compadre Fernando Sckaff, com esse, epíteto – Carlito – o que, depois de crescido, ele tem rejeitado de forma discreta.

Mas, como eu poderia imaginar que um Francisco poderia ser apelidado de Carlito?

Pois é! Que fosse Chico ou Chiquinho, vá lá… Mas Carlito?! Pois bem, é assim que no íntimo familiar Melo é conhecido. E isso vem da infância. Ficou carimbado!

Ocorreu-me a ciência do fato quando D. Irene, sua esposa, assim se referiu a ele: Carlito.

Bem, e o que é que o mestre Victor Hugo tem a ver com essa conversa de apelidos?

Nada! Só tive a curiosidade de ver que o livro ali estava como objeto de decoração.

O principal de nossa descoberta foi o fato de haver entre nossas famílias uma coisa engraçada: dois Carlitos.

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O ESPÍRITO DA PERMANÊNCIA

Euler Araújo de Souza e Luciano Lobo

Por ocasião da solenidade de erição do busto do ex-presidente Aluízio de Oliveira Periquito, na sede da Associação Atlética Banco do Brasil, no Recife, em 30 de agosto, escrevi o discurso, mas cedi minha vez de falar, preferindo que o Presidente Euler o fizesse.

Entreguei o texto aos filhos do homenageado.

Por sua importância histórica faço esta publicação.

* * *

Se minhas palavras fossem uma crônica eu as titularia “O Espírito da Permanência”, pois representariam a qualidade que certas pessoas têm de promover a perpetuação das características humanas de cada cidadão.

Aqui, agora, estamos diante de um Presidente de clube que reconhece os valores intrínsecos das pessoas que por ele trabalharam. Um daqueles que sabem fixar no tempo e na memória a grandiosidade do trabalho executado por uns poucos, que tanto beneficiaram os associados de hoje.

Louvo, como se a um santo fosse, Euler Araújo de Souza – ora concluindo seu mandato – que na administração desta Casa durante seis anos – soube perpetuar os que lhe foram antecedentes, preservando tudo quanto construíram.

E para esta louvação tenho motivos!

São marcas indeléveis – digamos, em pedra e cal – de dois personagens que se fizeram notáveis na história desta Associação: Capiba e Aluizio Periquito.

Conheço bem a História porque dela fiz parte ativa!

Decorria o ano de 1959. Ao terminar nossos mandatos como diretores do Náutico, nos deslocamos, em definitivo, para a AABB: Periquito, Ricardo, Moraes, Jayme , Simplício e Otacílio. Um time completo!

Nessa época, a AABB ainda funcionava na Av. Rosa e Silva, num casarão cedido pelo Banco do Brasil, em Contrato de Comodato sob a assinatura de Periquito, que logo no início de sua gestão como Presidente, foi doado ao nosso clube.

Pouco tempo rolou e logo ele começou a procurar um imóvel maior para construir um clube de verdade. Surgia a possibilidade de comprar o Sítio dos Moreira, de propriedade de 17 herdeiros do Barão Rodrigues Mendes.

Registra-se, a partir daí, uma história de audácias. Mais de 30 Corretores de Imóveis disputavam entre si, encarniçadamente, a primazia da venda do quadrilátero mais desejado das Graças. Já se havia até formado um consórcio para dar força à questão.

Aluízio me pediu para levantar a história detalhada daquelas heranças. Relacionei quase todos, buscando informações em cartórios e no CRECI, fazendo rigoroso levantamento, com os endereços daqueles que residiam no Recife e outros em Niterói, estado do Rio de Janeiro.

De posse da documentação, viajou para o Rio de Janeiro e obteve autorização para que o Banco do Brasil viesse a ser Procurador oficial de cada herdeiro do terreno. Dessa forma quase mágica, acabou com a questiúncula que já se prolongava há mais de 20 anos: a falta de confiança dos herdeiros em assinar contratos para Opção de Venda.

Em Niterói localizou os dois mais intransigentes herdeiros do Barão e conquistou as procurações que desejava. Em seguida, a transformação do Contrato de Comodato do casarão da Av. Rosa e Silva incluindo a cláusula de venda. Sem a participação de quaisquer intermediários realaizou o sonho de todos os associados. Consuistava-se a propriedade mais desejada do bairro das Graças.

Nesta inteligente jogada conseguiu com o desportista Dr. Sebastião Paes de Almeida, então Presidente do Banco, outra verba, desta vez para a construção daspiscinas e vestiários.

Mas, a atuação do Presidente que ora homenageamos, não se encerraria ali.

Periquito continuou na batalha para o progresso de nossa Instituição. Programou uma festa campal, em dias de maio de 1960, com a presença de representação da congênere de João Pessoa, e em campos provisórios organizou uma verdadeira olimpíada, com disputas de Tênis, Futebol e Voleibol, dando por inaugurado um Parque Esportivo.

Quase na sequência, obtivemos uma ajuda regimental do Banco, através de verba criada pelo Presidente, Dr. Ricardo Jafet, para todas as AABB, autoridade que nos creditou o valor suficiente para a construção de duas piscinas e os vestiários.

Ocorre, em dias de maio de 1962, a presença do Presidente Ney Neves Galvão, ao Recife e convidado para conhecer as nossas instalações, na mesma noite, confirmou a verba suficiente para a construção da sede propriamente dita. E assim Periquito, após 10 anos de gestão entregou um clube pronto.

Ao se encantar, Periquito mereceu homenagens do Náutico, com três dias de luto oficial e bandeira a meio mastro. A Prefeitura também lhe concedeu nome de rua no bairro do Recife. Nosso gestor atual achou justo erigir seu busto na parte mais nobre do Clube.

É o que aqui comemoramos!

Passamos ao Presidente Euler Araújo de Souza a honra de inaugurar o busto de Aluízio de Oliveira Periquito, nosso emérito Presidente.

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UM MENINO DE SÃO JOSÉ

Luiz Guimarães

Está na hora de manter vivas as tradições de Pernambuco e aqui faço a minha parte louvando personagens, frevos, livros e a intelectualidade em geral. E tudo isto se incorpora numa criatura cujo nome completo é Luiz Guimarães Gomes de Sá.

Esse meu velho amigo é uma criaturinha franzina, porém, ágil nas ações, possuidor de invejáveis qualificações morais. Nasceu no bairro de São José, no Recife, foi biografado por Vanda e Renato Phaelante, publicou três livros, sendo o mais recente: “Luz – Caminhos – Libertação”, onde apresentou suas poesias e reflexões filosóficas, cuja festa se lançamento ocorreu esta semana.

São pessoas de sua espécie que precisam estar sempre no topo das notícias porque exercem incessante trabalho de amplitude do que há de mais legítimo na cultura pernambucana, acima de tudo, pertinentes às nossas músicas.

Além das atividades profissionais exercidas como escriturário e depois médico-chefe do Serviço de Saúde do Banco do Brasil – ora aposentado – se dedica à caridade de maneira discreta, é palestrante sobre vários temas e tem uma de suas composições imortalizadas pelo ineditismo da Academia de Artes e Letras da AABB Recife, que tem como norma, abrir suas assembleias com preciosidade musical: “O sonho de Ana”. Mas é nos frevos que ele é bamba!

Para discorrer sobre sua obra mais completamente é preciso recorrer a pesquisa de outros escritores, além dos Phaelante, os quais já abordaram o assunto com maestria. Mas o faço, para ampliar ainda mais suas grandezas.

Sua carreira tem sido alongada quando se trata de divulgar que ele foi presidente da Associação dos Amigos do Conservatório Pernambucano de Música, da Academia Pernambucana de Música, criou o “Troféu Capiba”, para homenagear os ilustres músicos de nossa terra, lançou em 1995 um Songbook, contendo 55 composições dos mais variados ritmos através do selo “LG Projetos e Produções Ltda.”

Produziu os shows: “Estão Voltando as Flores”, em benefício do Núcleo de Apoio à Criança com Câncer (NACC), o “I Encontro de Violões & Bandolins do Recife” e o “II Encontro de Saxofonistas de Pernambuco”. Em 1997, dentre 212 músicas inscritas no “Recife Frevoé II”, obteve as duas maiores notas, com os frevos “Primeiro Dia” e “Menezes no Frevo”.

A partir das últimas décadas não parou de produzir músicas e ganhar prêmios. Em 1994, gravou o CD: Capiba Cidadão Frevo, em homenagem a Capiba, no transcurso dos seus 90 anos. Em 1995, lançou mais um, o Simplesmente Capiba, contendo Valsas, Choros, Maracatus e Noturno – contando com a participação da pianista Elyanna Caldas.

Em 1997, foi o produtor Executivo do primeiro CD de frevo exclusivamente por computador, cujo título é “Cibernética do Frevo”. Homem com visão do Amanhã, elaborou pesquisa histórica para a escolha dos Melhores Frevos de Rua do Século, contando com a participação de vários maestros, documento que será encaminhado às escolas de Pernambuco,

Em 2002, lançou o CD “Tábua de Pirulito” (Grupo Sá grama), Getúlio Cavalcanti “40 de Carnaval” e “Frevos de Ruas Os Melhores do Século” Vol. IV” – último da Série, em homenagem ao Centenário do Maestro Nelson Ferreira.

Durante dois anos foi Presidente da Academia de Artes e Letras da AABB Recife, sodalício do qual foi um dos fundadores.

A revista Continente Cultural, em 2005, publicou matéria “Heróis da Cultura”, com vários destaques, dentre eles, o trabalho de Luiz Guimarães. E por tudo isto não se pode esquecer que é mesmo um bravo esse “Menino de São José”.

Um frevo de Luiz Guimarães: Primeiro Dia – Orquestra do Maestro Duda

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COSTUREIRA DE VERDADES

Alice Carvalho dos Santos

Lá pelos meus 17 anos meu pai era Propagandista-vendedor de produtos farmacêuticos e passava cerca de 25 dias viajando pelo interior de Pernambuco.

Como residiamos no no bairro de Afogados, no Recife, mamãe aproveitava para passar semanas inteiras na casa das irmãs, na Boa Vista, onde aproveitava para costurar, ajudando a irmã mais velha, Tereza, que trabalhava com alta-costura.

Desde a juventude, aprendera, em Belo Jardim, a utilizar u’a máquina de costura Singer, ainda manual, que fora negociada com a família, por Pedro Moura Jr., Representante de Vendas daquela empresa.

O curioso é que quando me tornei escritor fui biógrafo desse ilustre político e ele me relatou que conhecera a Família Quaresma de Carvalho quando passou uns dias naquela cidade, onde conheceu a jovem Josefa, com quem veio a casar-se.

Mais adiante foi Prefeito da Cidade e anos depois fundou, com o filho Edson, a fábrica de Baterias Moura.

Todavia, quando papai estava no Recife – lembro-me bem – mamãe sempre costurava, após fazer as tarefas de casa. Era seu lazer. Já possuindo uma Singer elétrica, colocava a máquina na sala de jantar, que era o local mais fresco da moradia, e eu ficava sentado num banquinho, perto dela, conversando.

Costumava assenhorar-se sobre meu cotidiano, os trabalhos no City Bank, as aulas na Faculdade de Ciências Econômicas, as namoradinhas e me dava conselhos. Aqueles momentos funcionavam como um confessionário.

Foram meus melhores momentos com minha santa mãe. Mal sabia eu que ela iria falecer tão cedo, aos 52 anos. Certo dia estávamos num desses “convercês”, quando a vizinha bateu palmas no portão e indagou:

D. Alice, a senhora está muito ocupada? Pode vir até aqui?

Posso D. Arcelina! Estou apenas conversando com meu filho, costurando minhas verdades.

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PALESTRICE TEATRAL

Este colunista na arena

Há vários anos sou partícipe de academias de letras. Apenas uma vez, entretanto, fui instado a proferir uma palestra.

E evitando que os espectadores sofram a chatice da maneira geralmente comum, quando o apresentador fica lendo um trabalho, quase sempre de várias folhas e mal levanta a cabeça para se mostrar aos que estão no auditório, parti para a inovação.

Organizei mesas e cadeiras de forma que pudesse apresentar um esquete, em pleno salão de festas – por se tratar de um clube social – como se fosse uma arena – integrando os espectadores ao espetáculo e seus atores.

E sabendo que esquete é uma pequena peça teatral em tons humorísticos, entendi que eu poderia comentar a trajetória da Instituição de modo sério, todavia com toques pitorescos.

Aproveitando minha experiência teatral, planejei dosar a apresentação do sério com o pitoresco.

Primeiramente reunimos 12 acadêmicos e convoquei, de improviso, para atuar durante a representação, alguns “figurantes”solicitados ao auditório.

Recebendo cada um deles – os atores – um texto pronto para responderem às minhas indagações, devidamente postados na tribuna e apresentados através de dados curriculares, sob o foco de câmera e holofote, iniciei a palestrice.

Tudo deu a entender que éramos de fato amadores em uma peça teatral formalizada. E foi mesmo, porque, dias antes fiz dois ensaios. Um com os técnicos do som com imagem e outro com os atores.

Antes porém de surpresa, recebi homenagens da Mesa Diretora da assembleia acadêmica, que exibiu mensagem no telão de Edson Mendes, que por razões de saúde não compareceu. Foi um momento sensibilizante.

O 1º Ato da peça se iniciou quando solicitei aos três presidentes que estavam na Mesa da Assembleia da Academia para tomarem assento em cadeiras reservadas no auditório. Passando eles a serem espectadores.

Postei-me na arena e dei algumas informações sobre um teatro de arena, como aqueles da antiga Grécia, depois descrevi partes do Teatro Santa Isabel, o Teatro Regina, do Rio de Janeiro e o Teatro Amazonas, de Manaus.

Na sequência falei sobre os bastidores, as coxias,os camarins e os cenários. Completei informando que ali, naquele instante viveríamos um teatro de improvisos, não uma palestra.

O momento realmente emocionante foi a surpresa de ver surgir no telão instalado num grid, o saudoso Dr. Carlos Emílio Schuler, inspirador e fundador do Clube, apresentado numa das minhas entrevistas históricas.

Uma comprovação de como nossa Instituição havia surgido.

Do 2º Ato em diante fui convocando as atrizes,começando por Maria José, que falou sobre as duas fazes do Banco onde trabalhamos tantos anos.

Depois, convidamos Porfírio, que narrou sobre o tempo dos jogos amadores de futebol que se transformaram num clube: o Satélite Clube do Recife.

Veio o 3º, o 4º e o 5º Atos, onde o público ficou sabendo como se constituiu o clube, os presidentes mais notáveis, as piscinas de águas verdes, os funcionários que trabalharam de cuecas no BB e mostrei a foto de um deles quase sem roupa, ilustração que fora publicada num livro.

Um delírio na platéia.

Mas era a foto de um dos fundadores, aos seis meses de idade, de fraldas. As surpresas cômicas foram muitas porque sai descrevendo os tipos mais populares e seus apelidos.

Falei até que numa das peças do Teatro dos Bancários cuja trilha sonora foi “Maria Betânia”, valsa que se notabilizou na voz do grande Nelson Gonçalves, tornando-se um clássico da canção brasileira, de autoria do desconhecido Lourenço da Fonseca Barbosa, o fundador da AABB, cujo apelido virou timbre: Capiba.

No final, chamamos, do auditório, Euler Araujo de Souza e Rinaldo Nazário, pessoas que entrevistei, depois que o acadêmico Tarcizo Leite de Vasconcelos descreveu os feitos do atual Presidente.

Os assuntos foram emocionantes, porque naquele instante se falou sobre os seis anos da Gestão atual,como exemplo de administração, mesmo sob a tragédia da pandemia.

E de tão prodigiosa foi que se conseguiu montar uma nova chapa, eleita pela aclamação de Luciano da Silveira Lobo para a nova etapa de comando,cuja posse ocorrerá em setembro próximo.

E assim, no “improviso ensaiado”, contamos a história da Associação Atlética Banco do Brasil-Recife e ganhamos aplausos pela inusitada apresentação de uma rara espécie de “palestrice” teatral.

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UMA VÁRZEA MELHORADA

Condomínio Jardim Caxangá (Foto de Caio Guimarães)

Recordando os difíceis momentos sofridos pelos habitantes do bairro da Várzea, quando em 1975 ocorreu uma das maiores enchentes que já se abateu sobre o Recife, observamos, com alegria, que está havendo renovação de vários prédios antigos e a construção de unidades residenciais de grande porte.

Entrevistando a Síndica do Condomínio Jardim Caxangá, sra. Rita de Cássia Lopes, tomamos conhecimento de que o Corpo de Bombeiros havia notificado, há cinco anos, sérias irregularidades que precisavam urgentemente ser sanadas em várias daquelas unidades.

A imediata iniciativa dos proprietários foi eleger síndica profissional para assumir a Administração. Em seguida, sob contrato com empresa de cobranças, se atualizou o elevado valor da inadimplência, quitaram-se as Obrigações Sociais, instituindo-se taxa-extra e se iniciaram as reformas.

Na sequência logo ocorreram os reparos na estrutura dos prédios, nas instalações elétricas e hidráulicas, partindo-se, em seguida, para o empastilhamento das fachadas, obras que se encontram em franco desenvolvimento, estando concluído aquelas referentes ao Bloco A. (Foto).

Em se tratando do maior condomínio existente no bairro, o Jardim Caxangá, situado na Rua Rodrigues Ferreira, 45, é formado por sete edifícios, cada um com 16 pavimentos, formando uma população estimada em 3.584 habitantes.

A Várzea marca, assim, sua renovação urbanística, pois alí se notava o abandono de várias edificações históricas. Uma delas, a mais comentada é o chalé número 130, localizado na Praça Pinto Dâmaso, onde funcionou o primeiro hospital odontológico da América Latina, o Magitot.

Ao lado da ponte que liga o bairro da Várzea a Camaragibe, nas imediações do Terminal Rodoviário, já se observam vários edifícios altos, formando condomínios que embelezam o bairro.

Por outro prisma nota-se que há efetiva contribuição para a remodelação da cidade, principalmente na Várzea que tem significativa representatividade histórica num dos marcantes episódios da Restauração Pernambucana.

Segundo maior bairro do Recife, o núcleo atual referentes às terras da Várzea, correspondem à propriedade do antigo Engenho Poeta, tendo sido, séculos antes, as primeiras a serem repartidas entre os colonos, no início da ocupação de Pernambuco pelos portugueses.

Recordando o secular passado, sabe-se que da Várzea partiram as tropas de João Fernandes VIeira para o levante contra os holandeses, iniciando-se as batalhas da Restauração Pernambucana.

Portanto, o bairro bem merece uma reurbanização com edificações seguras, tal qual agora se confirma, faltando apenas a construção de um viaduto no cruzamento da descida da ponte da Caxangá e início da Av. Dr. Belmino Correia.

Instituto Ricardo Brennand

Não se pode esquecer que nesse bairro localiza-se o Instituto Ricardo Brennand, a maior instituição museológica do País.

Agora, diante da recuperação dos prédios e a construção de novas unidades, vê-se, que de fato, o bairro está uma Várzea melhorada.

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EXTINÇÃO DA CLASSE BANCÁRIA

Cena da peça “Senhora de Engenho”

Entre 1983 e 1994 deixaram os quadros do Banco do Brasil nada menos que 141.5468 funcionários, sob a égide do PDV – Plano de Demissões Voluntárias.

Na época todos que se despediram da Classe Bancária partiram na vantagem de botar no bolso boa quantia em dinheiro e se estabelecerem em alguma forma de comércio ou profissões.

Muitos deram com os burros n’água, à falta de experiência, depois de tantos anos de Banco, mas outros seguiram suas carreiras paralelas com vigor e tempo para se aplicarem, pois com duas atividades a luta havia sido ferrenha.

Os sociólogos só agora estudaram que com esse golpe a classe bancária se enfraqueceu de tal forma que deixou de ser aquele centro de desenvolvimento cultural e esportivo que tanto se apreciava.

Lembro-me que nos anos da década de 50 os bancários do Recife ainda se gabavam de manter a Liga Bancária de Futebol, fazendo interessantes campeonatos.

Dalí se transferiram jogadores como Expedito Fernandes de Almeida, do velho City Bank e Lauro de Castro Monteiro, do Banco do Brasil, que se integraram à equipe do Santa Cruz Futebol Clube.

Na parte cultural os bancários chegaram a apresentar magnífico movimento teatral, quando, inclusive, foi exibida, no Teatro Santa Isabel a peça de Mário Sette, “Senhora de Engenho”, dirigida por Hermógenes Viana.

A propósito, foi convidado para compor a trilha-sonora o então bancário Lourenço da Fonseca Barbosa – Capiba – daí surgindo um das mais notáveis páginas da canção popular do Brasil, “Maria Betânia”, que pela voz de Nelson Gonçalves, invadiu o País.

Hoje, com perdas tão significativas a classe bancária emagreceu mortalmente porque com a chegada da Tecnologia da Informação os computadores contribuiram para liquidar de vez com a valorosa classe bancária, hoje praticamente inexistente.

Eu, que por mais de 30 anos, fui um orgulhoso bancário e dois dos meus filhos também: Gustavo Jorge, do Banco Mercantil de Pernambuco e Carlos Eduardo, também, até aposentar-se no cargo de Superintendente do Banco Itaú.

Nunca pude imaginar que viesse um dia a constatar a quase completa extinção da classe bancária.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

ORGULHO E VAIDADE

Símbolo de orgulho

Outro dia conversando com um intelectual chegamos à conclusão de que “vaidade não é virtude e sim defeito”.

E examinando meus defeitos notei que carrego, já por vários anos, uma penca de vaidades; das mais simples e ocultas, às mais visíveis. Todavia, sinto-me mais orgulhoso do que vaidoso.

Acredito que orgulho é coisa que provém do sentimento de realização. Por exemplo: sinto-me orgulhoso por estar aparecendo todos os sábados neste jornal, onde estão profissionais os mais representativos da antiga Imprensa, de renomados escritores – como o nosso editor Luiz Berto – além de comunicadores e artistas os mais competentes da atualidade.

Há anos, olhando as prateleiras de um sebo, descobri dois exemplares do livro sobre a AIP – Associação da Imprensa de Pernambuco, magnificamente escrito por Carlos Leite Maia. Comprei os dois, principalmente porque fui encontrar meu nome numa relação de associados, coisa que me encheu de orgulho.

Em outros tempos adquiri um, em livraria normal, que citava meu nome na bibliografia, e calculando a importância da referência, fiquei animado, face ao orgulho. Levei-o para casa, por compreender que a citação fazia referência a vários trabalhos publicados.

Como sou um inveterado frequentador de sebos, catei outro, de autoria de Valter da Rosa Borges, que traçava a história do Grêmio Cultural Joaquim Nabuco, onde também constava meu nome.

Nestas três atitudes não se pode dizer que foram apenas iniciativas para elevar meu ego, mas formas de comprovar alguma atividade que viesse a dar aos meus netos uma ideia de minha trajetória intelectual, o que muito me orgulhava.

Quem não fica orgulhoso em poder provar que sua atividade intelectual tem sido registrada em vários livros, jornais e revistas? Se isto for pecado vou sair “desta para u’a melhor” carregado de bagagens. Mas acho que não chega a ser apenas vaidade, embora muitos assim se afirme.

Desde jovem costumo guardar recortes de jornais e revistas onde foi publicado o meu nome. Isto talvez já significasse minha atividade de cronista aflorando.

Aos 15 anos, quando estive com o Teatro de Amadores de Pernambuco, no Rio de Janeiro, a revista “O Cruzeiro” (o principal orgão dos Diários Associados) publicou uma reportagem de José Alberto Gueiros, intitulada “Pernambuco exporta teatro”, na qual constava a relação dos atores e meu nome lá estava. Guardei até hoje, cheio de orgulho.

Ao saber que vaidade é a qualidade do que é vão, vazio, firmado sob aparência ilusória, sinto-me, então, orgulhoso por essas publicações, porque, orgulho é um sentimento de prazer, de grande satisfação com o próprio valor, com a própria honra.

Segundo os dicionaristas, orgulho é um sentimento gerado pelo reconhecimento do valor de uma pessoa ou de algo, em geral, relativa a si próprio ou a alguma conquista pessoal.

De resto, são coisas distintas, orgulho e vaidade.