CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

NOMES PRÓPRIOS, PORÉM QUASE IMPRÓPRIOS

Quando em 1986 publiquei um livro em que constava a relação de 532 nomes de funcionários de uma empresa bancária, tive a ideia de algum dia relacionar os mais simplórios, pouco comuns e até espalhafatosos. Quase impróprios, digamos assim.

Alguns tipicamente estrangeiros, mas valeu.

Depois de iniciar a pesquisa descambei para outras denominações que não estavam ligadas à relação do Banco e resolvi reunir tudo isso numa crônica, justificando algumas situações.

Fui criando uma lista. E sempre que vejo alguma denominação “diferente” faço anotações. Chamam-me a atenção aqueles nomes que são esquisitos, excêntricos, extravagantes, heteróclitos ou mesmo ridículos. Em suma: pouco comuns.

Fui acrescentando, à medida do passar dos tempos, nomes de identidades oficiais de cada cidadão. Depois descambei e anotei até os que ouvi falar. Mesmo sem comprovação

Sabe-se que nos dias atuais, por lei, não são mais permitidos os registros em cartório de nomes estrambólicos, embora ainda constem nos livros das igrejas e representem pessoas que foram batizadas há mais de cinco décadas.

O certo é que mesmo proibidos fui encontrando e selecionando entre pessoas com mais de 50 anos, nomes que vieram a ser registrados, enquanto a lei ainda não existia.

Hoje fico pensando na grande responsabilidade dos pais ao batizarem seus filhos com nomes assim tão diferentes, porque o pobre terá que amargar essa diferença para toda a vida. Vejamos:

Adelblanda de Arruda Palhares
Adelzírio Neves Romano
Ali Kamel Moreira Barros
Alucinética Honorata do Rego
Aluízio Periquito de Oliveira
Américo Menezes Beltrão
Ana Cearina dos Santos Albuquerque Maranhão
Anélia Barbuda de Souza
Aprovinaldo Regente de Barros
Ariano Vilar Suassuna
Atanásio Francisco Barbosa
Austriclínio Borba Clemente
Ava Gina dos Santos
Abrilina Dilma da Silva Moura
Baden Powell da Silva
Benevaldo do Rego Cunha
Beroaldo Melo dos Anjos
Boaventura Bonfim
Bromélia de Jesus Marques Reis
Carlota Joaquina de Miranda Sales
Cicinato Dias de Miranda
Claudemário Nicácio Melo Ramos
Claudonir Luiz Manderico
Clidenor Ferreira da Silva
Corbiniano Lins
Deuteronômio Batista de Jesus
Dimitri Silva Neves
Dix-Sept Rosado Maia (número 17 em francês)
Dudanildo Sérgio de Melo
Dumriê Bezerra de Vasconcelos
Durango Kid de Paiva
Ederino Marques dos Reis
Edis Sakurai
Eleutério Proença de Gouvêa
Estephania Maria de Nazaré Moura Bezerra
Fagundes Varela da Silva
Florisbela Mercedes Borges
Florismelo Clemente de Barros
Florismundo Machado de Almeida
Flósculo José de Freitas Filho
Francis Hime de Melo Cunha
Gildécio Vasconcelos Selva
Garibaldi Quirino
Haviland Matheus Lopes
Helenina Haras Melo
Hermenegildo Soares Pinto.
Herven Feitosa de Lira
Ibanez Correia Primo
Ildenê Barros
Irvarlindo de Albuquerque Souza
Joacir de Medeiros Lopes
João de Deus Maria Gomes
João Pacífico Galvão
John Ford de Pedreiras
José Carloman Silva
Juvacatre Severino Souza
Kedma Barbosa Lira Magna Maria Viana
Lino Moreira da Silva Filho
Madilene Gomes Freire
Magnovaldo Severino de Souza
Manicobel Lages Regis
Maria Perpétua dos Anjos
Miguel Inocentado da Silva Cordeiro
Milvernes de Melo Lins
Mirocem de França Navarro
Neucatécio Normando Dias
Niagri de Carvalho Selva
Norivaldo Ferro da Silva
Numeriano Sales Lino
Pedro Iluminato de Medeiros
Phídias Galvão dos Santos
Querência de Nezinha Costa
Sandra Rosa Madalena
Sansão Sincaretto
Ufanildo Regente dos Ramos
Uneide Maia da Silva
Uynajá Jorge da Mata
Valeriano Augusto de Paiva
Vandevelde Marinho Neto
Vingt-un Rosado Maia
Walfridônio Cebola da Silva
Zanoni Mesquita Pimentel
Zylailton Neves Bria.

Ainda hoje me ufano de ter sido batizado com um nome tão simples, tendo papai escolhido tal identidade de um livro de Eça de Queiroz: “Os Maias”: Carlos Eduardo.

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LAPADA DE ACADÊMICO

Ao ler sobre acadêmicos e fardões, em notas contidas numa crônica de Ariano Suassuna, lembrei-me de um fato singular.

Ao receber uma ata para revisar, membro de uma confraria de letrados assinalou a necessidade apenas de completar com um simples circunflexo, a palavra “Antônio”, que várias vezes ali estava citada.

E lhe respondeu:

– Diante de tamanha magnitude redacional contida em ata tão bem escrita, quem sou eu – reles escriba – para me dirigir ao insigne mestre do Direito, membro-mor de nossa Academia, alertando-o que o “sistema corretor do computador” está lembrando que: “Antônio tem circunflexo”. Deus me defenda!…

O presidente da não referida Academia, considerado excelente dominador do vernáculo pátrio, ao receber o que lhe pareceu um “insulto ortográfico” contido na ata em revisão, que assinalava a necessidade de acrescentar um circunflexo nos nomes de Antônio, ali várias vezes citado, devolveu esta lapada:

– Qual dos Antonios? Dos que conheço, Antônio Pacheco Feitosa tem circunflexo, mas Antonio Porfírio da Silva não tem. São nomes próprios e o acento depende do tabelião que lavrou as notas do Registro Civil de cada um deles.

Agora lascou-me!… pensou o revisor, devolvendo o petardo:

– Terei que indagar junto aos “proprietários” dos nomes. Porém, tenho a certeza de que Antônio, com ou sem circunflexo, é Antônio, tanto aqui quanto na Baixa da Égua.

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UM CEARENSE DE VÁRIAS SABENÇAS

Dr. Manuel de Freitas Cavalcanti

Quando os convidados se reuniram diante do palco de uma Casa de Festas, na Torre, Dr. Manuel falou primeiro. Muito à vontade, sem as formalidades do vestuário de trabalho, disse que acolhia todos ali, em reunião de família, para comemorar seus 90 anos.

Um cenário de emoção. O ator principal traçou em linhas breves seu fluxograma de vida comercial e familiar. Despertou admirações ao mencionar partes de sua trajetória, pois muitos que ali estavam não conheciam.

Falou do seu tempo como aprendiz de trabalhador, quando aos 10 anos ajudava nos Serviços Gerais do Convento dos Capuchinhos, em Fortaleza, terra onde nasceu.

Quando conclui sua biografia, em março de 2020, vivi momentos de entusiasmo pela vida, diante de seu exemplo. Reaprendi e me estimulei a continuar lutando pelos ideais mais nobres, ao ver um homem de idade tão avançada, bravo, culto e dotado de bom humor incrível.

Fiz com ele cerca de 20 entrevistas além de outras muitas com pessoas a ele ligadas. Numa delas gravei em fita magnética algumas partes, quando ele me falou:

Ali com os capuchinhos aprendi a ser humilde, limpando o chão bruto com um vassourão pesado. Vi pessoas angustiadas buscando remédio espiritual para suas dificuldades. Como Porteiro de um monastério vivi as dificuldades de criaturas que iam chegando para curar seus males da alma. Sofri muito com elas, por suas angústias, absorvendo seus problemas mais pungentes que passaram a fazer parte do meu cotidiano.

Ampliei meu caráter – que alicerçado na casa paterna – me acompanharia pelo resto da vida. Deixo, aqui, uma recomendação: “Devemos louvar como se santos fossem as pessoas de caráter grandioso”, como disse o nosso sociólogo maior, Gilberto Freyre.

Estávamos diante de um cearense que se aclimatou no Recife, abriu veredas comerciais, criou empresas a partir de seus conhecimentos de Contador e Advogado. Fundador da Audiplan, formou um conglomerado de 10 empresas, espalhadas por vários estados. Agrupou os filhos, deu-lhes ensinamentos preciosos e o exemplo de companheiros de trabalho cotidiano.

Quando conclui sua biografia, em março de 2020, vivi momentos de entusiasmo pela vida, reaprendi e me estimulei a continuar a lutar pelos ideais mais nobres.

Estávamos diante de um cearense que se aclimatou no Recife, abriu veredas comerciais, criou empresas a partir de seus conhecimentos de Contador e Advogado. Fundador da Audiplan, formou um conglomerado de 10 empresas, espalhadas por vários estados. Agrupou os filhos, dando-lhes ensinamentos preciosos e o exemplo de trabalho cotidiano.

Dr. Manuel concretou seu patrimônio quando descobriu a vereda profissional mais importante: conquistar empresas às quais oferecia projetos para a obtenção de Incentivos Fiscais da Sudene. Vivia na “Ponte Aérea” entre Fortaleza e Recife. Fez fortuna.

Outro detalhe importante em sua atividade foram as oportunidades criadas pela Audiplan para os Estagiários de Direito, os quais, alguns, se tornaram seus sócios em vários empreendimentos.

Dr. Manuel, com Guilherme Lima, sogro de seu filho

Dr. Manuel conta hoje 93 anos e continua cativante, alegre, desprovido de vaidades. Os filhos lhe homenagearam com o nome do prédio recém-construído, no Espinheiro, onde funcionará a empresa que fundou. No jardim, seu busto, como imagem permanente de um homem singular. Um cearense de fibra, pernambucano adotivo e profissional de várias sabenças.

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EMISSÁRIO SUBMARINO

O “Cano do Pina”. Foto de Clóvis Campelo

Não é possível esquecer as razões de nossas significativas estripulias infantis. Sobremodo as mais pitorescas.

Todas guardam motivos que representam fatores preponderantes, os quais, ao meu ver, nos deram razões para fazê-las naquelas ocasiões e permanecerem indeléveis em nossas lembranças mais expressivas.

Aos 12 anos de idade, possuindo amiguinhos quase da mesma idade, morando às margens do Capibaribe, eu participava de um grupo com Avanildo, Zanoni, Geraldo, Guaracy e Orlando. Não tínhamos idade para chegar às praias mais próximas sem acompanhamento de adultos.

O jeito – como já disse em crônica anterior – era “tibungar” no rio mesmo, que era considerado nossa praia.

Na década de 1940 para se chegar ao bairro-balneário do Pina, partindo-se da Vila dos Remédios, em de Afogados, era uma aventura. Precisávamos andar 600 metros até o Largo da Paz e apanhar um bonde para o centro da cidade; depois saltar na Cabanga para pegar um outro transporte destinado à antiga ilha do Capitão Pina, que era a praia mais próxima.

Os domingos eram os únicos dias em que poderíamos provar o gosto de um “banho salgado”, porque, nos demais, éramos obrigados a nadar no Capibaribe geralmente “escondidos” de nossos pais, correndo vários perigos, dentre eles a poluição que já se notava nos anos 50.

Instalado em 1915, funcionava o “Cano do Pina” denominado pela autoridade como Emissário Submarino, por onde se expeliam os dejetos tratados, desde a Estação de Saneamento do bairro da Cabanga, do outro lado da bacia do Rio Pina.

O Emissário integrou o sistema de tratamento sanitário da cidade, que inicialmente tinha a denominação de DSE – Departamento de Saneamento do Estado, situado na Rua da Aurora, e depois se modernizou, tomando a denominação de CPRH – Cia. Pernambucana de Recursos Hídricos.

Segundo notas do meu saudoso amigo, o historiador José Luiz da Mota Menezes, durante mais de 200 anos, o Brasil foi o maior território escravagista do Ocidente, com quase 5 milhões de africanos escravizados.

Com a mão de obra escrava foi utilizada em larga escala, para vários fins, durante tantos anos, foram alguns cativos apelidados de “Tigres”, porque eram os responsáveis pelo recolhimento e despejo de urina e fezes de muitos moradores do bairro, que antigamente se chamava São Frei Pedro Gonçalves, atual Bairro do Recife, apelidado de Marco Zero.

Tais dejetos eram derramados no Rio dos Cedros, que ainda engana muita gente que o conhece por Capibaribe ou Beberibe, pois ambos formam o pedaço que vai do Palácio do Campo das Princesas até o mar.

Em época remota, a maior parte das casas não contava com banheiros, água corrente ou algum outro tipo de instalação sanitária. Por isso, os moradores da antiga cidade, faziam as “necessidades” em penicos e outros recipientes de metal ou porcelana.

Mas, voltemos ao “Cano do Pina”. Nos finais de semana passamos então a contar com um de nossos pais para nos levar à praia. Eles se organizaram e cada vez um deles era responsável pelo grupo de jovens nadadores.

Lembro-me da primeira vez. Fomos, com Seu Gil, o pai de Orlando. Todos com destino ao mar. Havia uma única ponte, aquela que só dava passagem aos bondes. Pedestres não tinham acesso. Atravessar o rio de bonde foi um alumbramento.

Ao chegar vivemos o início de u’a manhã de festa! Todos “tibumgaram” na água salgada, jogamos bola e nadamos à vontade, tudo sob as vistas do pai de Orlando, que se tornou um dos nossos, nas muitas brincadeiras. Depois, um lanche reforçado e o retorno pelo mesmo caminho, após de vários momentos que ficariam para sempre em nossas histórias.

Dias depois, comentando nossas estripulias, Seu Gil soube por papai que naquela praia havia o “Emissário Submarino”, o famoso “Cano do Pina”, instalado pelo Departamento de Saneamento do Estado para o despejo de parte dos esgotos, no mar. Instalado em 1915, o cano integrava o primeiro sistema de tratamento sanitário da cidade do Recife.

Acabou-se a festa e adeus às futuras “farras aquáticas” domingueiras, projetadas para a praia do Pina.

Para nós aquela praia foi definitivamente condenada. O diacho era quem desejava tomar banho correndo o perigo de algum “tolete” aparecer boiando perto de nós.

Notas do historiador Clóvis Campelo informam que em 2003 a Agência Estadual de Meio Ambiente decidiu que a Prefeitura retirasse o cano, pois era elemento de poluição da praia

Na época era comum se cantar esta modinha, para humilhar os moradores do Pina:

“Pina, casa e banho
Tem um tolete que é do teu tamanho”.

A partir de 2004, quando o cano foi retirado da praia o povão se esqueceu da memória do célebre cano. O bairro modernizou-se com boas avenidas, prédios altos, um shopping center e mais uma ponte, que liga à Avenida Mangue.

Poucos se lembram da obra que teve um nome tão pomposo, o antigo “Emissário Submarino”, que se popularizou como o “Cano do Pina”.

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ADEUS DONA FOLIA

Estas semanas pré-carnavalescas emocionam muito aqueles que têm mais de 80 anos e eu sou um deles. Sobretudo pelas músicas que as emissoras de rádio tocavam intensamente durante todos os meses que se antecipavam ao carnaval, nas décadas de 1940.

Uma – Adeus Dona Folia – me emociona por causa do momento que vivi quando estávamos no Café Lafayette e papai se encontrou com um fraterno amigo, Eduardo Barbosa, compositor campeão de muitos carnavais, cujas músicas sempre se colocavam nos primeiros lugares em concursos de frevo.

Havia tempo em que meu pai e aquele amigo compositor não se encontravam. Ouvi o musicista justificar a razão. Sua única filha havia sofrido um acidente, passara alguns meses no hospital e estava prestes a perder a visão dos dois olhos.

Ele então fez uma promessa para Santa Luzia, comprometendo-se a abandonar o carnaval e nem ao menos faria mais músicas, embora terminasse sua trajetória compondo apenas Adeus Dona Folia, para seu último carnaval.

Sempre que me lembro desse frevo-canção, costumo cantarolar essa expressão magnífica do sentimento musical, de uma pessoa que cumpriu sua promessa abandonando definitivamente o tríduo momesco.

Adeus Dona Folia, foi composta por Eduardo Barbosa, gravada em 78 Rpm, lançada por Nelson Gonçalves (Gilberto Inácio Gonçalves), com a Orquestra de Zacarias, em disco RCA Victor 80-0548-A, matriz S-078776), gravado em 12.09.1947 e lançado em novembro do mesmo ano.

Adeus eu vou me despedir
Não pretendo mais voltar
Guardarei saudades de você Dona Folia
E sinto até vontade de chorar.

Eu sempre vivi com você, querida
Numa eterna e verdadeira paixão
Foi você toda alegria de minha vida
Tudo não passou de ilusão.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

UM MAESTRO MAGISTRAL

Euler, Maestro Duda e Luiz, durante a entrega do “Diploma do Mérito Carnavalesco”.

Conheci o maestro Duda (José Ursicino da Silva) há pouco mais de 40 anos, quando comecei a produzir a primeira biografia sobre Capiba (Lourenço da Fonseca Barbosa). Em função da exiguidade do tempo procurei entre os famosos da época obter depoimentos que serviriam de enriquecimento àquela história.

Dessa maneira, me aproximei de gente ligada à música: maestros, compositores, dirigentes de clubes, sociólogos, jornalistas e escritores, que de alguma forma se vinculavam a essa arte maravilhosa cuja linguagem, sabemos ser universal.

Acabei compondo um livrinho que fez sucesso exatamente pelos nomes que ali estavam comentando sobre um dos maiores compositores de Pernambuco, livro que tomou por título: “Capiba, sua vida e suas canções”.

Aproveito para relembrar uma página que publiquei, assinada pelo jovem instrumentista, arranjador, orquestrador, compositor e regente; muito procurado pelos compositores para o complemento de suas obras, pois, é com os arranjos que as músicas se engrandecem na sua essência.

A primeira composição de Duda foi o frevo “Furacão”, apresentado pela banda da Saboeira, em sua cidade natal, Goiana.

Duda não só emoldura as pautas como domina bem o vernáculo e sabe falar com significativa simplicidade sobre o que lhes é solicitado. Escreveu assim, o maestro, em meu livro:

Comecei a ouvir falar sobre Capiba quando em 1950 ingressei como músico já Jazz Band Acadêmica, então dirigida por Dr. José Maria de Pádua Walfrido e somente depois vim a conhecer o compositor maior de Pernambuco.

Do trabalho antológico “Carnaval começa com o “C” de Capiba” participei com os músicos do inesquecível Nelson Ferreira. Estou hoje vinculado a Capiba, por especiais sentimentos. Sinto orgulho em ser um dos seus arranjadores preferidos.

Vale relembrar uma passagem. Quando certa feita procurei saber o que significava o Maestro Duda para Capiba e ele respondeu:

– Sem Duda eu estou “las-ado”!…

E continuou Duda em sua escrita:

Quando em 1974 foi fundada a Orquestra Popular do Recife, o 1º Concerto Oficial foi realizado com a apresentação de mais de 20 músicas de Capiba. Não poderia estar, portanto, Pernambuco vivendo esta festa maior que é a comemoração dos 80 anos de alguém que só nos tem dado alegrias; esse fabuloso ser humano e notável musicista chamado Capiba.

Os anos correram e Duda nunca perdeu o pique de arranjador e maestro. Sua orquestra é um dos símbolos de nossa terra, representação maior do nosso carnaval. E ele chega aos 90 anos inteirinho, embora auxiliado por uma cadeira de rodas, porque as pernas estão abatidas por muitas noites de pé, regendo sua orquestra, nos melhores clubes do Recife.

Há poucos dias, em iniciativa magistral, o produtor de discos e Presidente da Academia de Artes e Letras da AABB, Luiz Guimarães, levou ao clube fundado por Capiba – AABB Recife – a ideia de se criar a comenda: “Diploma do Mérito Carnavalesco”, logo adotado por seu Presidente, Euler Araújo de Souza.

Para dar refulgência ao agraciamento, a escolha do primeiro laureado recaiu sobre José Ursicino da Silva (Duda), aproveitando-se uma festa carnavalesca, há poucos dias, onde se fez homenagem póstuma a Levino Ferreira, um dos maiorais de nossa música.

Já com 90 anos, Duda se apresentou em cadeira-de rodas, deu entrevistas, foi abraçado, beijado, aplaudido e louvado como se fosse um santo. Se ofereceu para fotografias dos inúmeros fãs e recebeu o carinho de todos que estiveram naquela assembleia da Academia.

O fato legitimou o prestígio daquele menino que veio de Goiana para brilhar no Recife e o tem feito com uma maestrividade que pouco se conhece, regendo sua harmonia de vida como se estivesse ele próprio no auditório aplaudindo “o maior arranjador do século”, como bem o disse a instituição maior da música brasileira.

Na decoração, a AABB deu destaque a dois bonecos-gigantes, que serviram de cenário para as fotos e filmagens – o Capibão e o Luizão – enquanto o astro maior daquela manhã recebia mais u’a das legítimas manifestações de bem-querer do público que sempre se renova, mas não perde o embalo do frevo.

A homenagem autenticou, mais uma vez que Duda é um maestro magistral.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

MAURO BILOLA

Desde que publiquei um trabalho sobre o Banco do Brasil em Pernambuco, (primeira edição em junho de 1986), fiz constar, num dos capítulos, um esboço de Estudo Sociológico, no qual descrevi as qualidades dos funcionários mais destacados, suas habilidades extra bancárias e até alguns dos seus apelidos mais engraçados.

Não raro, por isso, sempre estou sendo solicitado a comentar sobre as alcunhas mais pitorescas de alguns, porque marcam uma época, onde a seriedade de trabalhadores bancários era uma tradição naquela Casa, porém, na intimidade – fora do expediente – a “bagaceira” corria frouxa.

“Mauro Fernandes” se projetou porque, além de possuir uma novíssima motocicleta “NSU”, costumava utilizá-la, algumas vezes, como transporte para ir ao Banco.

Estacionava a “maraviha” na porta do prédio, na Av. Alfredo Lisboa, 427, Marco Zero do Recife e o veículo que chamava a atenção pelo brilho dos seus cromados, pois, até o motor era reluzente.

Na década de 1940 havia poucos funcionários que possuíam automóveis, visto que todos os modelos eram importados. Por isso, a motocicleta de Mauro fazia sucesso por onde passava e quando estacionada juntava apreciadores.

Pela circunstância – o ruído do motor estridente – quando acelerava a partir da Rua do Aragão, onde seu dono residia, dava a impressão que por ali passava um “cabra macho que só preá”, trepado num cavalo de aço. Porém, não era bem assim…

Em 1945, terminada a II Guerra Mundial, muitas motocicletas apareceram no Recife, algumas abandonadas pelas Forças Armadas Americanas, as quais funcionavam sob a graça de mecânicos habilidosos, dentre os quais Berivaldo Lopes, um funcionário do Banco do Brasil, que costumava comprar tais veículos destroçados, no depósito do Departamento de Trânsito, fabricava as peças danificadas, consertava-os e revendia.

E nessas circunstâncias surgiu a aproximação dos dois colegas e a descoberta de que Mauro não era tão macho quanto se pensava.

Mauro Bilola, só a cara de homem mau

É verdade, que usando um daqueles gorros de aviador, dava a impressão de que se tratava de um “Super Men” abrasileirado, quando na verdade se acabou descobrindo o contrário.

Mauro tinha estatura atlética, “cara de mau”, porém, na verdade, era um meninão. Fora criado pelas irmãs mais velhas, e adquirira hábitos não muito másculos. Fora considerado “criado com vó”.

Estudioso, passara no concurso do Banco em posição invejável, mas se mostrava tímido no trabalho e não apreciava as festas em clubes, como os jovens de sua geração.

O que lhe dava temporária masculinidade, porém, era, de fato, quando pilotava aquela “senhora máquina”. Solteiro até os últimos dias de sua vida, confidenciara com um colega que tinha medo de mulher. Casar, nem pensar!

Por seu procedimento recatado acabou “agraciado” com o apelido de “Mauro Bilola”, que no Nordeste do Brasil significa menino abobalhado, abilolado.

Como o apelido havia se tornado identidade, certa feita o Subgerente Francisco Bayma se embaralhou ao pedir sua participação em determinado trabalho, e em voz alta se pronunciou no amplo salão:

– Ô colega, por favor chame aqui aquele rapaz da Contabilidade; um bem vermelho, que é motociclista, cujo nome não me ocorre agora, mas o conheço como “Mauro Bilola”!

Estava consagrado!

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

FOGO NO RABO

Consultórios médicos, como sabemos, são o inferno em vida de um paciente que reclama os incômodos de hemorroidas. A cirurgia nem é tão infernizante porque a anestesia evita dores. Porém o pós-operatório é lasca.

Certa feita fui acompanhar o amigo Marcelino que estava nervosíssimo diante do “bicho” que se fazia sobre a aplicação de um medicamento conhecido como “Nitrato de Prata”, destinado a limpeza da ferida hemorroidal após as cirurgias.

Tive o cuidado de lhe transmitir certos detalhes, para dar a entender que era coisa parecida com um supositório de glicerina, desses que usamos na infância para resolver prisão de ventre.

Mas, no caso, eu sabia tratar-se de um cauterizante químico que acelera a cicatrização e tenta evitar defeitos nas feridas, possibilitando retardamento na solução da enfermidade.

Quando o boato correu na rua em que ele mora, e ficou sabendo que iria ser medicado com “Nitrato de Prata”, tremeu mais do que vara verde.

Alias, pelo pouco que sabia, enquanto aguardávamos na sala de espera a chamada para o atendimento, lhe informei alguma coisa sobre o medicamento, porque ele teria sido informado que o produto ardia muito.

Disse-lhe que sua composição era simples. Tudo para tranquilizá-lo.

O farmacêutico havia me falado que se preparava a fórmula com certa dose de prata metálica em ácido nítrico concentrado e a medicação já estaria pronta. Mas foi apavorante.

– Ácido? Tô lascado. Vai comer minhas entranhas!

Deixei que ele se acalmasse e puxei conversa com um senhor moreno, corpulento, que estava com os olhos arregalados e ouvidos atentos à nossa conversa. E de seus lábios vieram as perguntas:

– É a primeira vez dele? Dizem que arde um bocado! E quando o ácido entra neguinho estribucha na maca. Fui estivador quase 20 anos, enfrentei sacos de cimento nas costas e nunca senti dor, mas essa tal de hemorroida está sendo meu inferno. Vou ter que enfrentar e mostrar que sou homem, agora.

Para acalmá-lo naquele instante em que parecia que ele também iria para a forca, argumentei:

Arde tanto não! Isso é “bicho de sete cabeças” que fazem de um medicamento simples. É só uma pomadinha, duas ou três vezes introduzida no seu ânus e pronto.

O cidadão seria atendido antes de Marcílio. Notamos sua inquietude, coitado. Tão corpulento e tão frouxo.

A gentil enfermeira, com ar angelical, chamou:

– Seu Severino, venha!

O morenão de repente ficou branco. Notei que ele entrou na sala com palidez cadavérica. Um momento Impressionante.

Algum tempo depois, ao sair da “sala-de-suplício”, indagamos como teria sido a aplicação.

– Aguentei porque sou macho! Mas esse tal de Nitrato de Prata arde que só a peste. Nunca mais voltarei aqui! Deixar que metam ácido nítrico em meu forever, nunca mais! Foi o mesmo que sentir fogo no rabo!…

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

POR TERRAS, CÉUS E MARES

Meu primo Sérgio Dantas de Oliveira, repórter internacional

Por tantos espaços que já percorri nestes quase 90 anos de vida, pisando em terras que não eram somente minhas, mares que nunca tiveram donos e ares que pertencem ao Grande Arquiteto do Universo, muito vi e ouvi.

Fui aproveitando para gravar boas coisas que captei através dos olhos, dos ouvidos e aquelas que minhas mãos tocaram, sob a forma de livros.

Vez por outra surge o desejo de transmitir, como agora, o que está guardado nas gavetas da memória. Coisas sérias, outras engraçadas.

Nos idos de 1980, voltando do Rio de Janeiro, à noite, voando num “Constellation” da Varig, sentei-me ao lado do escritor e etnógrafo Mário Souto Maior. Muita sorte. Prosa de primeira. Dias depois ele escrevia numa crônica que serviria de Prefácio::

– Conheci Carlos Eduardo numa atmosfera de sonhos, em pleno céu de noite estrelada, voando a muitos metros de altura. Falou-me dos seus sonhos e do livro que estava escrevendo sobre o tema, cujo título seria: “Nem Freud explica”.

Jamais me esqueci daquele magnífico preâmbulo.

Outra cena foi no interior da Paraíba, ao fazer uma reportagem. Deram-me um cavalo para atravessar um riacho. Uma gentileza especial para não me molhar. Mas nunca me vi numa situação tão ruim que foi montar pela primeira vez. Um sacolejo dos infernos.

E eu que me iludira por tantos anos ao brincar de caubói supostamente montando tudo quanto era alazão feroz, além de trepar em cabos de vassoura, a fim de parecer estar num daqueles animais. Meras ilusões infantis!

Uma lembrança dos tempos de teatro. Nos bastidores, camarim de D. Diná, estrela maior da peça “Sangue Velho”, que fazia sua estreia no Teatro Santa Isabel, nos idos de 1950, aguardei na porta meu momento, para que me maquiassem, pois seria o “menino, filho do Tio Velho” (Dr. Valdemar de Oliveira).

Depois que ela terminou, surgiram outros artistas. Margarida Cardoso, Celina Araújo e Clóvis. Permaneci à espera, até que fui ao “contra regra”, Alfredo de Oliveira, para indagar quem iria me pintar. Triste resposta:

– Meu filho, você vai entrar em cena assim mesmo, descalço e sem pintura, porque vai aparecer em cena durante uma noite chuvosa, do jeito que está. Portanto, você já está pronto para ser o menino Francisco!

Colecionei pequenas desilusões nesses arruares. Comitiva de 22 pessoas chega ao Grande Hotel Ok, do Rio de Janeiro, na Senador Dantas, todos artistas do Teatro de Amadores de Pernambuco, a fim de se apresentarem no palco do Teatro Regina.

Encantado com o local e entusiasmado após a primeira viagem num “Douglas” da Aerovias Brasil, até ajudei a carregar as malas de Geninha até o apartamento onde ela ficaria com seu marido, Octávio Rosa Borges.

Aos 15 anos, tudo era “primeira vez”. Chegar a um hotel era um alumbramento. Mas logo fui cientificado por Reinaldo que eu deveria esperar meu parente, lá no hall, que me hospedaria em sua casa, no bairro de Vila Isabel, casa dos meus primos Yeda e José Medeiros.

Desencanto total para quem esperava ficar num daqueles maravilhosos cômodos do “Ok”. O primo apareceu e Reinaldo me “despachou”, informando qual dia eu deveria estar no teatro.

Na segunda semana de estada no Rio, tempo em que minha peça seria apresentada, fui transferido para a casa de Tio Érico, em Copacabana, a fim de ficar mais fácil de me transportar para a Cinelândia, mesmo porque teria o primo Sérgio para aproveitar algumas andanças pela Zona Sul..

Chega o dia da estreia. Numa tarde, já metido a sabidão, fui com meu primo – ainda mais novo do que eu – para o teatro, prevendo chegar lá às 18 horas.

Por uma distração pegamos um ônibus Copacabana-Leme e fomos bater no terminal de retorno, chegando à parada junto ao famoso Cassino da Urca. Sofremos um atraso de quase meia hora, a fim de esperar outro transporte que partisse do Leme para a Cinelândia.

Na porta do Teatro Regina, bastante aflito, Alfredo, o “contra regra”. Suava frio, admirado ao ver aqueles dois meninos sozinhos, soltos pela cidade maravilhosa.

Mais tarde, ao terminar o espetáculo, tio Érico fora nos apanhar. Muito fleumático, teve que amargar um bom esculacho, por haver permitido tal feito: permitir que os meninos fossem sozinhos de Copacabana à Cinelândia.

Na sua calma britânica, apenas afirmou sorridente:

– Meu caro, eles já são dois homenzinhos! Garantiram que chegariam na hora e assim o fizeram!

Tia Mariíta e tio Érico

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

INICIAÇÃO POLÍTICA

Sede da Câmara Municipal do Recife

Aos 10 anos comecei a perceber coisas de gente grande. As cortinas da vida estavam começando a se abrir.

Morávamos em Afogados, um dos bairros históricos do Recife, mais exatamente à margem da Estrada dos Remédios, numa das vilas populares projetadas por Agamenon Magalhães: a Vila dos Jornalistas.

Meu pai começou a entender que eu chegara a idade de saber de algumas coisas. Era chegada a “Idade dos Porquês”.

Nas redondezas do mercado municipal, (a parte mais antiga e pobre do bairro), residia um pequeno comerciante de frutas. Um senhor alto, forte, amorenado, muito educado, conhecido como “O Vereador”. Era Arnaldo de Carvalho Paes de Andrade. Um dos primeiros políticos da década 1940, na região.

Era um líder em Afogados e já estava vereando a alguns mandatos. Muito querido por todos. Quando ia trabalhar se apresentava de terno branco, de linho, sapatos de duas cores e gravata com uma pérola. Um personagem respeitável, pois distinto e afável.

Certo dia papai estava comigo no Café Lafayette, no centro da cidade, quando ele apareceu e puxou conversa. Fiquei então sabendo que sua função como vereador era fiscalizar as ações do Prefeito e sugerir melhorias para a cidade.

Não perdi tempo. Como todo menino enxerido, entrei na prosa e apresentei uma reivindicação:

– Por que o senhor não manda calçar nossa rua?

Seu Arnaldo, sem pestanejar, engatilhou resposta um tanto inconveniente para o menino que aproveitava a presença do ilustre representante do povo:

– Eu não consigo nem calçar a minha, meu filho!…

E logo pensei: “Então não adianta ser vereador!”

Dias depois desse encontro, dado às minhas indagações sobre o assunto, recebi explicações detalhadas do meu pai. Entendi um pouco do que se chamava “democracia” e fiquei sabendo de algumas coisas na área de políticas públicas. Sobretudo que a maioria dependia de votos, de prestígio popular e de conchavos.

Em suma, um vereador precisava fazer “arranjos” com outros para aprovar projetos e utilizar as verbas orçamentárias disponíveis. Teria que saber influir nos orçamentos quando chegasse o tempo de serem elaborados, a fim de incluir novos projetos de melhorias para a cidade.

À medida em que a Vila dos Jornalistas foi sendo ocupada a população do bairro foi se ampliando e outro senhor, Antônio Batista de Souza, funcionário do Departamento de Estradas de Rodagem, se candidatou a vereador, levantando como bandeira de luta o calçamento da Vila. Ganhou e cumpriu a promessa. Tornou-se o líder.

Acomodando-se à função de um fiscalizador da gestão pública, seu Arnaldo, embora com eleitores fiéis, bem poderia ter levado a sério a minha reivindicação e talvez continuar ganhando mandatos sucessivos. Mas se descuidou e lhe “passaram perna”. Não se tem conhecimento nem do projeto para calçar a Rua 3 de agosto, onde morava.

Seu Antônio foi mais além apresentando projetos de uma escola para o bairro, u’a maternidade e a pavimentação da Estrada dos Remédios, que deveria ligar o nosso bairro à Madalena. Todos projetos vitoriosos, porque ele soube circular entre os políticos de camadas superiores – os deputados estaduais – dentre eles o então Prefeito Antônio Pereira.

Seu Arnaldo foi ficando no esquecimento e perdendo eleições.

Teriam sido esses fatos – conhecer dois representantes do povo e lhes solicitar melhorias para o bairro – a minha iniciação política.