CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

Euler, Maestro Duda e Luiz, durante a entrega do “Diploma do Mérito Carnavalesco”.

Conheci o maestro Duda (José Ursicino da Silva) há pouco mais de 40 anos, quando comecei a produzir a primeira biografia sobre Capiba (Lourenço da Fonseca Barbosa). Em função da exiguidade do tempo procurei entre os famosos da época obter depoimentos que serviriam de enriquecimento àquela história.

Dessa maneira, me aproximei de gente ligada à música: maestros, compositores, dirigentes de clubes, sociólogos, jornalistas e escritores, que de alguma forma se vinculavam a essa arte maravilhosa cuja linguagem, sabemos ser universal.

Acabei compondo um livrinho que fez sucesso exatamente pelos nomes que ali estavam comentando sobre um dos maiores compositores de Pernambuco, livro que tomou por título: “Capiba, sua vida e suas canções”.

Aproveito para relembrar uma página que publiquei, assinada pelo jovem instrumentista, arranjador, orquestrador, compositor e regente; muito procurado pelos compositores para o complemento de suas obras, pois, é com os arranjos que as músicas se engrandecem na sua essência.

A primeira composição de Duda foi o frevo “Furacão”, apresentado pela banda da Saboeira, em sua cidade natal, Goiana.

Duda não só emoldura as pautas como domina bem o vernáculo e sabe falar com significativa simplicidade sobre o que lhes é solicitado. Escreveu assim, o maestro, em meu livro:

Comecei a ouvir falar sobre Capiba quando em 1950 ingressei como músico já Jazz Band Acadêmica, então dirigida por Dr. José Maria de Pádua Walfrido e somente depois vim a conhecer o compositor maior de Pernambuco.

Do trabalho antológico “Carnaval começa com o “C” de Capiba” participei com os músicos do inesquecível Nelson Ferreira. Estou hoje vinculado a Capiba, por especiais sentimentos. Sinto orgulho em ser um dos seus arranjadores preferidos.

Vale relembrar uma passagem. Quando certa feita procurei saber o que significava o Maestro Duda para Capiba e ele respondeu:

– Sem Duda eu estou “las-ado”!…

E continuou Duda em sua escrita:

Quando em 1974 foi fundada a Orquestra Popular do Recife, o 1º Concerto Oficial foi realizado com a apresentação de mais de 20 músicas de Capiba. Não poderia estar, portanto, Pernambuco vivendo esta festa maior que é a comemoração dos 80 anos de alguém que só nos tem dado alegrias; esse fabuloso ser humano e notável musicista chamado Capiba.

Os anos correram e Duda nunca perdeu o pique de arranjador e maestro. Sua orquestra é um dos símbolos de nossa terra, representação maior do nosso carnaval. E ele chega aos 90 anos inteirinho, embora auxiliado por uma cadeira de rodas, porque as pernas estão abatidas por muitas noites de pé, regendo sua orquestra, nos melhores clubes do Recife.

Há poucos dias, em iniciativa magistral, o produtor de discos e Presidente da Academia de Artes e Letras da AABB, Luiz Guimarães, levou ao clube fundado por Capiba – AABB Recife – a ideia de se criar a comenda: “Diploma do Mérito Carnavalesco”, logo adotado por seu Presidente, Euler Araújo de Souza.

Para dar refulgência ao agraciamento, a escolha do primeiro laureado recaiu sobre José Ursicino da Silva (Duda), aproveitando-se uma festa carnavalesca, há poucos dias, onde se fez homenagem póstuma a Levino Ferreira, um dos maiorais de nossa música.

Já com 90 anos, Duda se apresentou em cadeira-de rodas, deu entrevistas, foi abraçado, beijado, aplaudido e louvado como se fosse um santo. Se ofereceu para fotografias dos inúmeros fãs e recebeu o carinho de todos que estiveram naquela assembleia da Academia.

O fato legitimou o prestígio daquele menino que veio de Goiana para brilhar no Recife e o tem feito com uma maestrividade que pouco se conhece, regendo sua harmonia de vida como se estivesse ele próprio no auditório aplaudindo “o maior arranjador do século”, como bem o disse a instituição maior da música brasileira.

Na decoração, a AABB deu destaque a dois bonecos-gigantes, que serviram de cenário para as fotos e filmagens – o Capibão e o Luizão – enquanto o astro maior daquela manhã recebia mais u’a das legítimas manifestações de bem-querer do público que sempre se renova, mas não perde o embalo do frevo.

A homenagem autenticou, mais uma vez que Duda é um maestro magistral.

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