CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

O “Cano do Pina”. Foto de Clóvis Campelo

Não é possível esquecer as razões de nossas significativas estripulias infantis. Sobremodo as mais pitorescas.

Todas guardam motivos que representam fatores preponderantes, os quais, ao meu ver, nos deram razões para fazê-las naquelas ocasiões e permanecerem indeléveis em nossas lembranças mais expressivas.

Aos 12 anos de idade, possuindo amiguinhos quase da mesma idade, morando às margens do Capibaribe, eu participava de um grupo com Avanildo, Zanoni, Geraldo, Guaracy e Orlando. Não tínhamos idade para chegar às praias mais próximas sem acompanhamento de adultos.

O jeito – como já disse em crônica anterior – era “tibungar” no rio mesmo, que era considerado nossa praia.

Na década de 1940 para se chegar ao bairro-balneário do Pina, partindo-se da Vila dos Remédios, em de Afogados, era uma aventura. Precisávamos andar 600 metros até o Largo da Paz e apanhar um bonde para o centro da cidade; depois saltar na Cabanga para pegar um outro transporte destinado à antiga ilha do Capitão Pina, que era a praia mais próxima.

Os domingos eram os únicos dias em que poderíamos provar o gosto de um “banho salgado”, porque, nos demais, éramos obrigados a nadar no Capibaribe geralmente “escondidos” de nossos pais, correndo vários perigos, dentre eles a poluição que já se notava nos anos 50.

Instalado em 1915, funcionava o “Cano do Pina” denominado pela autoridade como Emissário Submarino, por onde se expeliam os dejetos tratados, desde a Estação de Saneamento do bairro da Cabanga, do outro lado da bacia do Rio Pina.

O Emissário integrou o sistema de tratamento sanitário da cidade, que inicialmente tinha a denominação de DSE – Departamento de Saneamento do Estado, situado na Rua da Aurora, e depois se modernizou, tomando a denominação de CPRH – Cia. Pernambucana de Recursos Hídricos.

Segundo notas do meu saudoso amigo, o historiador José Luiz da Mota Menezes, durante mais de 200 anos, o Brasil foi o maior território escravagista do Ocidente, com quase 5 milhões de africanos escravizados.

Com a mão de obra escrava foi utilizada em larga escala, para vários fins, durante tantos anos, foram alguns cativos apelidados de “Tigres”, porque eram os responsáveis pelo recolhimento e despejo de urina e fezes de muitos moradores do bairro, que antigamente se chamava São Frei Pedro Gonçalves, atual Bairro do Recife, apelidado de Marco Zero.

Tais dejetos eram derramados no Rio dos Cedros, que ainda engana muita gente que o conhece por Capibaribe ou Beberibe, pois ambos formam o pedaço que vai do Palácio do Campo das Princesas até o mar.

Em época remota, a maior parte das casas não contava com banheiros, água corrente ou algum outro tipo de instalação sanitária. Por isso, os moradores da antiga cidade, faziam as “necessidades” em penicos e outros recipientes de metal ou porcelana.

Mas, voltemos ao “Cano do Pina”. Nos finais de semana passamos então a contar com um de nossos pais para nos levar à praia. Eles se organizaram e cada vez um deles era responsável pelo grupo de jovens nadadores.

Lembro-me da primeira vez. Fomos, com Seu Gil, o pai de Orlando. Todos com destino ao mar. Havia uma única ponte, aquela que só dava passagem aos bondes. Pedestres não tinham acesso. Atravessar o rio de bonde foi um alumbramento.

Ao chegar vivemos o início de u’a manhã de festa! Todos “tibumgaram” na água salgada, jogamos bola e nadamos à vontade, tudo sob as vistas do pai de Orlando, que se tornou um dos nossos, nas muitas brincadeiras. Depois, um lanche reforçado e o retorno pelo mesmo caminho, após de vários momentos que ficariam para sempre em nossas histórias.

Dias depois, comentando nossas estripulias, Seu Gil soube por papai que naquela praia havia o “Emissário Submarino”, o famoso “Cano do Pina”, instalado pelo Departamento de Saneamento do Estado para o despejo de parte dos esgotos, no mar. Instalado em 1915, o cano integrava o primeiro sistema de tratamento sanitário da cidade do Recife.

Acabou-se a festa e adeus às futuras “farras aquáticas” domingueiras, projetadas para a praia do Pina.

Para nós aquela praia foi definitivamente condenada. O diacho era quem desejava tomar banho correndo o perigo de algum “tolete” aparecer boiando perto de nós.

Notas do historiador Clóvis Campelo informam que em 2003 a Agência Estadual de Meio Ambiente decidiu que a Prefeitura retirasse o cano, pois era elemento de poluição da praia

Na época era comum se cantar esta modinha, para humilhar os moradores do Pina:

“Pina, casa e banho
Tem um tolete que é do teu tamanho”.

A partir de 2004, quando o cano foi retirado da praia o povão se esqueceu da memória do célebre cano. O bairro modernizou-se com boas avenidas, prédios altos, um shopping center e mais uma ponte, que liga à Avenida Mangue.

Poucos se lembram da obra que teve um nome tão pomposo, o antigo “Emissário Submarino”, que se popularizou como o “Cano do Pina”.

Um comentário em “EMISSÁRIO SUBMARINO

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