JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

VIVA SAMUEL HULAK

Em poucas linhas, foi médico especialista em Psiquiatria. Atuou nos palcos (com prêmio de melhor ator) e foi diretor do Teatro do Estudante Israelita, além de participar em peças das televisões. Sem esquecer, ainda foi compositor de músicas sinfônicas interpretadas por diversas orquestras. Uma vida, com certeza, incomum.

Escreveu artigos científicos publicados em revistas especializadas; e, mais, Elementos da Psicoterapia (1976); Entrevista, mitos, métodos e modelos (1986); e um capítulo (VI) em Psicossomática hoje (1992), editado por Júlio de Melo Filho), só livros técnicos.

“E de repente, mais de repente”, palavras de Pessoa na sua monumental Ode marítima (quase o mesmo que Vinícius de Moraes escreveu depois, no Soneto da separação, “E de repente, não mais que de repente”); de repente, pois, Samuel decidiu escrever contos. O que é surpreendente, dado seu tardio começo na atividade literária. Alguém que jamais escrevera nada parecido, antes, por que o fez agora? Mistério… Embora mistério maior, aquele que poucos poderiam esperar, é a qualidade superior dos seus textos.

O escritor Theóphile Gautier foi ver As meninas, de Velasquez. Passou horas contemplando cada detalhe da tela e, no fim, perguntou “Mas onde está o quadro?”. Uso essa metáfora, que ouvi do escritor português António Lobo Nunes (recentemente nos deixou), apenas para perguntar, depois de ler seu Na contramão e outros contos, “Mas onde está o livro?”

Melhor resposta fosse talvez dizer que está em cada pequeno roteiro do autor. Nas tramas. No inesperado. Mas prefiro recorrer a Érico Veríssimo (em Todos nós somos um mistério), “Na minha opinião, existem dois tipos de viajantes: os que viajam para fugir e os que viajam para buscar”.

Samuel faz parte do último grupo. E escreveu esse livro talvez apenas para provar, a si mesmo, que tem o dom especial de contar histórias. “A identidade é uma trajetória”, dizia Michel Foucault (Vigiar e punir). E essa identidade nele, a partir de agora, é ser reconhecido como um grande escritor. Enorme. Estelar. Para mim, o maior contista do Brasil.

É dele esse texto que vem a seguir, escolhido por ser o menor em seu livro, como já referido Na contramão e outros contos. Como o jornal tem limites de espaço, o ser pequeno passa a ser uma virtude. Poucos dias atrás nos despedimos dele, saudades do amigo querido. E para que continue vivo, em nossos corações, lhe dou voz.

Numa sexta-feira Santa, homenagens a um santo homem. Tudo muito adequado. Com a palavra, pois, Samuel Hulak:

MULTISSENSORIAL

“Vestiu o traje formal, pois a ocasião assim merecia; ajeitou o nó da gravata e deu outro relance no terno que paramentava. Em seguida, examinou, na tela do celular, como estava o trânsito, vez que se atrasara para a solenidade da posse da diretoria da associação. Não era espírita, mas tinha grandes amigos entre os novos diretores. Aliás, não professava religião alguma.

“Na tela, a avenida através da qual seguiria, tracejava no escuro da noite as setas vermelhas de um trânsito enlouquecido. Chamou um táxi e desceu para o saguão do prédio.

“A demora para a chegada do veículo só serviu para aumentar seu aborrecimento. Quando foi atendido entrou, pediu pressa e decidiu que, como seria uma corrida longa, relaxaria no percurso.

“Pela janela, observou a paisagem; que, mesmo tão conhecida, lhe pareceu como nova. Apreciou as pontes, o casario, os prédios altos e iluminados e até os ciclistas, motoqueiros, limpadores de para-brisa e os contorcionismos circenses dos ambulantes caçadores de moedas, nos sinais vermelhos. Afinal, tinha conseguido relaxar; até agradeceu, recusante, a oferta do motorista para ouvir música. A cidade que tão bem conhecia, lhe pareceu nunca vista.

“De repente, tudo parou; ao longe, ouviu a sirene de uma ambulância. Logo que relaxara, apesar de estar atrasado, o trânsito parou. Deveria ter ocorrido algum acidente. Não à toa, a estridência da sirene soava muito alto. Procurou o motorista, mas não o encontrou. Então, baixou o vidro da janela e viu estendido, no chão da avenida, a vítima do acidente. Era um homem, muito ensanguentado, morto.

“Súbito, no auge da angústia que passou a sentir, compreendeu tudo.

“O homem no chão era ele”.

DEU NO JORNAL

PESQUISA

A pesquisa BTG Pactual/Nexus aponta o “principal problema do Brasil”, segundo todos os entrevistados: corrupção (23%).

Segurança-violência-criminalidade é a segunda maior preocupação, com 12%.

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Que povo desligado…

Corrupão não é o principal problema neste país honesto.

O governo federal é um exemplo pra todo o restante da nossa impoluta república nos dias atuais.

Se liga, gente!!!

ALEXANDRE GARCIA

NAS ASAS DAS LINHAS AÉREAS VORCARO

toffoli moraes jatinhos vorcaro

Nos jatinhos de Vorcaro a mordomia certamente era garantida

Preparem-se os que usam avião, que fazem viagens por esse Brasil enorme, porque a passagem vai ficar mais cara. O querosene de aviação, o combustível dos jatos, vai subir 54,3% – em abril vem um primeiro aumento de 18%, depois virá o resto.

Isso, claro, para quem paga passagem aérea. Alguns não pagavam; agora, que estourou o escândalo do Master, já não sei. Estou falando dos que voavam no jatinho do Daniel Vorcaro. A Folha de S.Paulo denunciou em manchete de primeira página as viagens do casal Moraes nos jatinhos; no dia seguinte, foi a vez das viagens de Dias Toffoli, direto de Brasília para o resort Tayayá. Eles evitam o aeroporto internacional de Brasília para não serem vaiados; sabem que merecem vaia, já nem vão. Enquanto isso, Edson Fachin viaja normalmente de avião comercial, mesmo sendo presidente do Supremo, e não acontece nada.

Os ministros até poderiam usar os jatinhos da Força Aérea Brasileira, mas pelo jeito nem isso eles quiseram. Decerto acham chato, é muita disciplina, é só milico dentro do avião… Nos jatinhos do Vorcaro a mordomia é maior, deve ter até champanhe. Isso eles não vão encontrar num avião da FAB; terão água, pão, provavelmente um biscoito.

* * *

Não é só proximidade, é promiscuidade mesmo

Os voos estão todos registrados em Brasília; do lado esquerdo de quem vai para o aeroporto está o terminal de aviação executiva. A autoridade chega, e há o registro da hora em que chegou. Os dois ministros, certo dia, chegaram às 10 horas, e às 10h10 decolou um avião de Vorcaro. Como nenhum deles saiu do terminal depois, estavam ambos voando, obviamente.

O nome disso é promiscuidade, como aconteceu em Londres naquela degustação de uísque, como deve ter acontecido em Trancoso. Fala-se tanto das festas que Vorcaro promovia e filmava, guardando as imagens. Falam em 80 e tantos vídeos que ele gravou, e nove celulares com registros. Dali vão tirar os nomes, para orientar as perguntas caso Vorcaro faça uma delação.

* * *

A reputação ilibada se foi há tempos, mas eles seguem ministros do STF

O terrível nisso tudo é a nossa passividade diante da passividade do Supremo. O STF afunda como se estivesse em areia movediça. A resistência é fajuta. Eles acham graça e dizem que vão enfrentar tudo isso com um código de ética. Se lá no Supremo é preciso haver um código escrito, é porque esse código não está na medula das pessoas desde o berço. A Constituição é suprema, está acima dos ministros do Supremo e de nós todos, como a lei maior deste país, e ela exige reputação ilibada para ser ministro. É básico: quem não tem reputação ilibada nem deveria passar na sabatina do Senado. E quem perde a reputação ilibada depois de ter entrado no Supremo perde o principal atributo de um ministro do Supremo, além do notável conhecimento jurídico. E, se alguém perde o requisito para ser ministro do Supremo, por que continua lá?

BERNARDO - AS ÚLTIMAS NOTÍCIAS

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

1º DE ABRIL DE 1964

Acordei-me com o som cadenciado do toque de Alvorada pelo corneteiro do quartel. Tenente do Exército Brasileiro, eu servia na 2ª Companhia de Guardas, tropa de elite do IV Exército sediada no centro do Recife. Meus soldados estavam bem treinados contra distúrbios e guerrilha urbana. Uma luminosa manhã acordava a bela histórica cidade. A Companhia permanecia de prontidão há mais de uma semana devido aos acontecimentos da época. Um processo de desgaste político se espalhou sobre a Nação. O presidente João Goulart era ambíguo, acendia uma vela a Deus outra ao Diabo. Um esquema militar sustentava João Goulart na presidência, inclusive o General Justino Alves Bastos, comandante do IV Exército(Nordeste), havia jurado ao governador Arraes que a tropa estava com ele. Quando a conjuntura mudou, Justino também mudou. A situação política ficou mais nebulosa depois do grande comício das reformas em frente ao Ministério do Exército, dia 13 de março, com discursos provocativos às Forças Armadas. Jango, foi inábil, estava cutucando a onça com vara curta.

Naquela bela manhã logo depois da formatura matinal da tropa, o capitão Luís Henrique Maia reuniu os cinco tenentes comandante de pelotão, fez uma preleção. Havia notícias confirmadas que a tropa do general Mourão Filho de Minas Gerais estava a caminho do Rio de Janeiro para levantar o I Exército, e depor o presidente João Goulart. O objetivo era restabelecer a ordem no país, garantir a eleição para presidente em 1965. Mandou cada tenente preparar o pelotão para o enfrentamento, entrar em combate urbano a qualquer momento.

Dirigi-me ao alojamento de meu pelotão, sabia que haveria algum confronto naquelas próximas horas. Ainda estava em divagações quando o comandante me chamou e deu as primeiras ordens: Dissolver uma manifestação no Sindicado dos Bancários, perto do quartel. Coloquei o pelotão em forma, passei em revista o armamento e equipamento, falei para os soldados sobre a missão: O Exército estava destituindo o Presidente da República para garantir as eleições em 1965. Deixei bem esclarecido: tiro só com minha ordem. O pelotão tomou a rua em marcha. A batida uníssona do coturno no calçamento fazia um barulho assustador. Enquanto aqueles 44 soldados bem armados e equipados avançavam, eu vi mães colocando meninos para dentro das casas, ouvi algumas vaias, como também palmas das janelas dos edifícios, era o povo dividido. O Pelotão avançava, eu continha a emoção, pensava na informação que me passaram que os sindicalistas, os camponeses, os homens de Arraes, tinham sido treinados em guerrilha e possuíam armamento de primeira linha.

Assim que avistamos ao longe a multidão em torno de 400 pessoas, tive que controlar um sargento, meu auxiliar, ele pedia para dar um tiro para cima afim de dispersar a multidão. Mandei o sargento calar a boca, o comando era exclusivo meu. Evitava uma reação por parte dos manifestantes e provocar numa carnificina de um tiroteio dos dois lados. Tentaria até diálogo, se possível. O Pelotão se aproximava cada vez mais, dava para ver as fisionomias dos manifestantes. O sargento insistindo em atirar, eu negava, proibia gritando. Tomei uma decisão, dei voz de comando para o Pelotão: “Acelerado marche!” Os soldados iniciaram o avanço em acelerado (quase correndo). De repente tive a maior alegria e alívio de minha vida quando a multidão se dispersou em todas as direções.

Invadimos o prédio do sindicato. Ficaram apenas três sindicalistas. Solicitei para eles saírem ou teria que levá-los presos. Apenas um barbudo, corajoso, magro, me encarou: “Só saio morto ou preso”. Dei a ordem “Então têje preso, não vou lhe matar”. Mandei lacrar todos os móveis, deixei cinco soldados guarnecendo o sindicato. Retornei com o Pelotão para Avenida Visconde de Suassuna, sede da Cia de Guardas.

Durante o percurso, os soldados marchavam em duas colunas na rua, o barbudo, preso, caminhando no meio da tropa. Encostei-me e cochichei uma mentira no seu ouvido: “Estão matando tudo que é comunista, quando você chegar ao quartel vai ser fuzilado. Vou lhe dar uma chance, na próxima esquina lhe empurro e você se manda”!

Ao chegar mais perto da esquina, ele olhou para trás, encarou-me com olhar suplicante. Aproximei-me, segurei-o pela camisa, puxei-o pelo braço e empurrei-o, ele correu em disparada, escafedeu-se na primeira rua. No quartel fiz um relatório verbal. Um ano depois não houve a eleição. Ninguém, nenhum cientista político, nenhum profeta, nenhum futurólogo, acreditaria que aquele dia era o primeiro de uma ditadura prolongada, me desiludi. Deixei o Exército, escrevi um livro: Confissões de um Capitão, no qual conto a verdade que testemunhei.

Depois da redemocratização da nação, por mais que seja governado por um energúmeno, jamais haverá golpe no Brasil. As Forças Armadas estão profissionalizadas. Os acontecimentos de 6 de janeiro de 2023 nunca foi tentativa de golpe. Os militares são altamente organizados para cometerem aquela manifestação bagunçada, sem comando, sem apoio de governadores.

DEU NO X

DEU NO JORNAL

ATIVISMO PELAS DROGAS

Editorial Gazeta do Povo

Que um membro de suprema corte – em qualquer lugar do mundo – aceite ser descrito como “um ministro simpático à Cannabis” na apresentação de um podcast ligado ao tema, em um país no qual o consumo de drogas e o tráfico são mazelas nacionais, já é algo que coloca em xeque a parcialidade esperada de um magistrado. Mas Gilmar Mendes, o decano do Supremo Tribunal Federal, não se importa com essas formalidades sem importância. Ele não apenas endossa a descrição como também faz questão de antecipar que, em breve, assumirá novamente o papel de legislador para testar os limites de uma sociedade já machucada pelos entorpecentes.

“Acho que estamos próximos de discutir a descriminalização geral das drogas”, afirmou o decano do Supremo no episódio desta terça-feira, 31 de março, do podcast do canal Cannabis Hoje. Por “discutir”, evidentemente, entenda-se “descriminalizar”, passando por cima de inconvenientes como a vontade do legislador, refletida na atual Lei de Drogas. Em 2024, o STF abriu a primeira brecha na lei, descriminalizando – sob o aplauso da parcela dita “progressista” da sociedade e da imprensa – o porte de maconha, reescrevendo a legislação a seu bel prazer, estabelecendo até mesmo o limite que diferenciaria o usuário do traficante (sempre em tese, já que nada impede o tráfico de recorrer a vários “aviõezinhos” que não carreguem mais que o limite de 40 gramas). Agora, Gilmar acha que pode obter o que não conseguiu naquela ocasião.

O decano era o relator daquela ação, que terminou com a descriminalização do porte de maconha. E seu voto inicial fora pela descriminalização de todas as drogas – só depois que Edson Fachin, Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso votaram por restringir o alcance da decisão à maconha é que Gilmar revisou sua posição para alinhá-la à dos colegas. Se naquela época o ministro não quis carregar o peso de fazer do Brasil um paraíso para os usuários de drogas, desta vez ele parece pronto a assumir integralmente as consequências de sua tese: afinal, se o artigo 28 da Lei de Drogas era inconstitucional, como defendeu Gilmar, e se o direito constitucional à intimidade abrange o direito de portar e usar drogas, isso independe da substância em questão; o ministro até já votou, em fevereiro, pela rejeição da denúncia contra uma mulher pega portando 0,8 grama de cocaína. Não se pode reclamar de falta de coerência na pretensão do ministro – pode-se e deve-se, no entanto, lamentar que seja coerência no erro.

Goste o ministro ou não, o poder que representa o povo e tem a incumbência constitucional de fazer as leis – e não é o Judiciário – já havia definido o que considera aceitável ou não quando o assunto é a posse, o porte, o consumo e o tráfico de drogas. A lei, inclusive, já diferenciava traficantes de usuários, não aplicando a pena de prisão a esses últimos. Mas os brasileiros (e seus representantes eleitos) reconheceram o efeito catastrófico das drogas – não apenas para o indivíduo, mas para todo o seu entorno e para a sociedade como um todo –, e a lei refletia essa convicção. Quem discorda dela pode submeter seu nome ao eleitor, chegar ao parlamento e batalhar pela mudança da lei. Em vez disso, a Defensoria Pública do Estado de São Paulo, autora da ação julgada entre 2015 e 2024, sacou da cartola uma alegação de inconstitucionalidade, e os ministros do STF abraçaram com gosto a chance de impor a própria opinião sobre a deliberação do legislador, confundindo o direito constitucional à intimidade com um fictício direito à autodestruição.

Que Gilmar confesse a estratégia com toda a tranquilidade é um sintoma preocupante de que o Legislativo está anestesiado e não haverá de reagir – na esteira do julgamento sobre a maconha, o Senado até aprovou uma PEC que criminaliza a posse e o porte de quaisquer quantidades de quaisquer drogas, mas o texto parou na Câmara dos Deputados. Por mais que a Constituição esteja longe de ser o lugar ideal para se inserir lei penal, infelizmente o ativismo judicial do STF não deixa outra solução aos parlamentares, ao menos enquanto o Legislativo não começar a agir com mais firmeza contra a usurpação de seus poderes pelos ministros do Supremo.

PENINHA - DICA MUSICAL