Discreto, sério, culto e educado, Segue em visita a uma livraria. Relê um conto, lê uma poesia. “São tantos livros!” – pensa emocionado.
Até lamenta não ter dedicado A vida inteira simplesmente a lê-los. Mas, eis que surge um par de tornozelos, No pé esquerdo, um trevo tatuado.
As panturrilhas e cada joelho, Coxas que somem sob o tom vermelho De um vestido fino e sensual.
E, sem esforço, aquela criatura Logo desvia da literatura Toda a atenção do intelectual.
Marcos Mairton da Silva, Fortaleza-CE, é juiz federal, mestre em Direito Público (UFC) e MBA em Poder Judiciário (FGV Rio). Juiz Auxiliar do STJ. Escritor, poeta, cordelista, compositor e colunista do JBF
O mesmo juiz que era vítima da tentativa de golpe, que relatou o inquérito e que julgou, é agora o executor da sentença e fez a bondade de dizer que Jair Bolsonaro pode ir para casa quando o hospital decidir que ele já pode ter alta. Ele saiu da UTI há pouco mais de 24 horas, está no quarto e vai para casa. Ficará sob observação por 90 dias, com visitas proibidas. Os filhos, se quiserem visitá-lo, têm de marcar dia e hora, não podem aparecer a qualquer momento, quando sentirem saudade do pai. Um dos filhos, Eduardo, nem recebeu autorização. Só poderão estar com Bolsonaro a mulher, Michelle; a filha do casal, Laura; e a enteada, Letícia. Os advogados também precisam de hora marcada, terão de passar pelo 19.º Batalhão e marcar a visita. Bolsonaro ainda terá de usar tornozeleira em casa. Continuam o exagero, o arbítrio e o ineditismo dos tratamentos dados a Bolsonaro, a Filipe Martins e ao ex-ministro da Justiça Anderson Torres, alguns dos “prisioneiros favoritos” de Moraes.
Enquanto isso, o povo espera de Moraes os esclarecimentos sobre aquele contrato de R$ 129 milhões, agora que a polícia está investigando mais celulares de Daniel Vorcaro, e agora que o ministro André Mendonça mandou – o prazo termina nesta quarta-feira – Davi Alcolumbre ler no Congresso a prorrogação, por mais quatro meses, das investigações do roubo dos velhinhos da Previdência.
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Para governo, facções não são terroristas, e STF finge preocupação enquanto esquece a segurança jurídica
Lula assinou a Lei Antifacção. Estamos em um país onde bandidos tocam fogo em ônibus e automóveis, dominam municípios na Amazônia e áreas do Rio de Janeiro. O governo brasileiro se recusa a reconhecer que isso é narcoterrorismo, como quer o governo dos Estados Unidos. No fim, o governo dos Estados Unidos vai mesmo considerar as facções brasileiras como narcoterroristas.
Falando em facções, o presidente do Supremo, Edson Fachin, chamou no seu gabinete o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo; o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante; e o diretor da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, para uma reunião sobre como combater o crime. Como se Fachin fosse ministro da Justiça e da Segurança Pública… Isso é muito estranho, soa como uma tentativa pueril, inocente e ingênua, de tentar dividir as atenções. Como se estivessem dizendo “a principal preocupação do brasileiro é a segurança, e o Supremo está se preocupando com a segurança”.
Sim, nós nos preocupamos com segurança, mas nós também queremos ter segurança jurídica. É disso que o Supremo tinha de tratar: segurança jurídica, seguindo ao pé da letra a Constituição da qual o Supremo é guardião. Então teríamos segurança: o direito de ir e vir, o direito à ampla defesa, a não existência de tribunal de exceção, o respeito ao juiz natural e ao devido processo legal, a proteção da liberdade de expressão… tudo isso está na Constituição e queremos ver cumprido, mas não foi. O inquérito do fim do mundo começou um período de sete anos de arbítrio.
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Assessor é preso sacando R$ 2,7 milhões
Um assessor do deputado Vinícius Carvalho (PL-SP) foi preso na sexta-feira. O deputado diz que não tem nada a ver com isso e que demitiu o sujeito quando soube da prisão; mas Fernando José Palma Sampaio, advogado, ainda era assessor do deputado quando foi de São Paulo a Recife para sacar a bagatela de R$ 2,7 milhões. Procurem sacar R$ 10 mil e vocês verão a quantidade de notas. Pois o tal assessor sacou muito mais que isso; deve ter levado tudo num carrinho. Ele disse que havia ido a Recife para almoçar com um amigo – três amigos, aliás, foram presos também. Depois veio a audiência de custódia e foram todos soltos mundo foi solto.
É incrível como ainda viceja a corrupção, igual a anos atrás. Os políticos, pelo jeito, consideram que isso faz parte da natureza humana. Talvez seja até um direito humano. Enquanto isso, o Brasil tem um Ministério de Direitos Humanos que não mexeu uma palha sobre as injustiças cometidas contra os manifestantes do 8 de janeiro. Aqueles que quebraram e estragaram o patrimônio público têm de pagar, com isso todos concordam. Agora, dar 14 anos de prisão para quem pintou uma estátua com batom? Aí entram a raiva, o arbítrio, o ódio, a vingança, com o objetivo claro de impor o temor às pessoas. A pandemia foi a primeira experiência; como funcionou, passaram a aplicar para tudo, mas agora parece que os deuses mandaram Vorcaro para separar o joio do trigo.
Sobre a prisão domiciliar temporária de Jair Bolsonaro, o vice-líder do PL na Câmara, Rodolfo Nogueira, celebra “a migalha do estado totalitário”, mas avalia que “a verdadeira comemoração seria a absolvição total”.
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O parlamentar acertou em cheio ao falar em “migalha do estado totalitário”.
Isso é cagado e cuspido o retrato da republiqueta banânica nos dias atuais.