MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

INCERTEZAS

Essa semana li que o Ministério Público entrou com uma ação para afastar o presidente do IBGE das suas funções. É público e notório que suas atitudes são muito próximas de tudo que ele praticou quando foi presidente do IPEA, ou seja, tirou de cargos importantes técnicos capacitados para colocar, em seus lugares, pessoas sem muito conhecimento, mas agradecidos pela oportunidade de estar produzindo “resultados” importantes para o Brasil.

Tanto o IPEA quanto o IBGE trabalham com série de dados macroeconômicos que são fundamentais para o entendimento das políticas econômicas. Há quem não goste de usar estatística, mas a questão não é o uso da estatística, mas a forma como os dados são processados e relatados. Os números do IBGE são fantásticos! Colocam o Brasil à mesa das grandes economias, mas há fatores que não se modificam ao longo dos anos como, por exemplo, a lista de classificação municípios em miséria absoluta.

Não é raro o aproveitamento do conhecimento específico para criar cenários falsos. O caso do Banco Master, por exemplo, vai mais ou menos nessa direção, posto que o banco forjou uma carteira de depósito a prazo que, simplesmente, inexistia. As Lojas Americanas não colocaram no balanço o endividamento, fato ao ser descoberto revelou um rombo de R$ 20 bilhões.

A manipulação de dados econômicos se configura como um dos grandes, e graves, problemas das economias, ou seja, qualquer economia, por mais sólida que seja, perde a credibilidade quando adota práticas nada salutares. O comportamento das instituições públicas e privadas, vai impactar diretamente nas decisões governamentais, colocando em risco a atração de investimentos, a formulação de políticas públicas e a confiança da sociedade nos indicadores que orientam a economia.

Um dos casos mais impactantes aconteceu no ano 2000 e envolveu a Grécia que, tentou por diversas vezes entrar na União Europeia, mas são contas públicas representavam um risco expressivo para o grupo. Naquela ocasião, para conseguir se integrar à zona do euro, o governo grego manipulou o tamanho real do déficit público e da dívida nacional e forneceu a União Europeia dados falsos, fato que foi descoberto em 2009. Em outras palavras: foi descoberto que para atender às exigências do Tratado de Maastricht e, com isso, permitir que a Grécia passasse a fazer parte da zona do euro. Os dados verdadeiros, quando publicados, gerou uma crise fiscal que levou a medidas severas de austeridade e à intervenção de organismos internacionais.

Outro fato de grande magnitude (feito medida de terremoto), ocorreu na Argentina, entre 2007 e 2015, e envolveu o instituto oficial de estatísticas do país (INDEC). Nesse período quem governava a Argentina era Cristina Kirchner – que coisa, não? – e havia um protesto público, de economistas e organismos internacionais, contra os dados divulgados, principalmente em relação aos índices oficiais de inflação que foram – que coisa, não? – artificialmente reduzidos. O impacto dessa manipulação era, direto, sobre títulos públicos indexados e negociações salariais e o caso gerou perda de credibilidade nas estatísticas oficiais. A situação tornou-se tão grave que o Fundo Monetário Internacional chegou a emitir uma censura formal ao país.

Tudo isso não é exclusivo de governos. Falei do caso das Lojas Americanas, mas outro famoso, ocorrido no início dos anos 2000, envolveu a empresa Enron – Estados Unidos – que fez uso de mecanismos contábeis para esconder dívidas e inflar artificialmente seus lucros. Quando a fraude foi descoberta, a empresa entrou em colapso, milhares de funcionários perderam seus empregos e investidores sofreram prejuízos bilionários. O caso levou à criação da Lei Sarbanes–Oxley, que reforçou regras de governança corporativa e transparência contábil.

Outro escândalo corporativo relevante foi o da WorldCom, também nos Estados Unidos. A empresa manipulou seus balanços ao registrar despesas operacionais como investimentos de capital, inflando seus lucros em bilhões de dólares. A fraude foi descoberta em 2002 e resultou em uma das maiores falências da história empresarial norte-americana.

Além dessas situações, existem casos em que governos manipulam indicadores macroeconômicos de maneira mais sutil, alterando metodologias estatísticas, atrasando a divulgação de dados ou selecionando quais informações divulgar ao público. Embora nem sempre configurem fraude direta, tais práticas podem distorcer a percepção da realidade econômica e prejudicar a formulação de políticas públicas.

A manipulação de dados econômicos também pode ocorrer no setor financeiro, mas eu nunca vi algo da natureza do banco Master. Não foi apenas uma fraude na captação de recursos, foi um avanço intricado nas relações de poder. O Banco Central tem capacidade de investigar desvios de conduta dos bancos e, ao que me lembro, Banco Econômico, Bamerindus, Bandeirantes, Banorte, Mercantil de Pernambuco, foram bancos liquidados extrajudicialmente, mas nenhum dos seus acionistas majoritários mantinha qualquer relação com o agente público.

Hoje, a gente sabe que Vorcaro pagou milhões com festinhas para nossas autoridades competentes. Só de degustação de whisky foram US$ 640 mil, o que dá, mais ou menos, R$ 3,3 milhões. Nós temos, absoluta, certeza de que amanhã teremos outro escândalo envolvendo nossas autoridades competentes. O que é incerto é apenas o tamanho dos fatos.

DEU NO X

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

PAISAGEM SERTANEJA

Eu vi a barra quebrando
Nas quebradas do sertão.

Mote deste colunista

Espetáculo todo dia
Foto imagem uma beleza
São coisas da natureza
Mas parece uma magia
Da natura é poesia
Temos a revelação
Do dia é terminação
Quando a noite vai chegando
Eu vi a barra quebrando
Nas quebradas do sertão.

Cabal Abrantes

Eu vi num entardecer
O sol indo descansar
Depois de muito brilhar
Sem ninguém reconhecer
O valor do seu poder
Fez ele parecer ser tão
Amável nesta questão
De ver o dia findando
Eu vi a barra quebrando
Nas quebradas do sertão.

Leo Brasil

Quatro horas da manhã
Já começa a clarear
A passarada a cantar
É disso que eu sou fã
O canto do maracanã
Olho e avisto o clarão
Dar até a impressão
Que Jesus está voltando
Eu vi a barra quebrando
Nas quebradas do sertão.

Poeta Nascimento

Um risco de luz se traça
Na escuridão do horizonte,
E antes que o sol desponte
Um tênue brilho já grassa
De forma inda um pouco baça.
Voltando a minha visão
Pro céu em transformação,
No parto do sol raiando,
Eu vi a barra quebrando
Nas quebradas do sertão.

Melchior SEZEFREDO Machado

Vi um canário da terra
Na copa do umbuzeiro
Parecendo um seresteiro
No palco do pé da serra
Enquanto o torino berra
Já reclamando a ração
O vaqueiro passa a mão
Numa vaca amamentando
Eu vi a barra quebrando
Nas quebradas do sertão.

Wellington Vicente

DEU NO X

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

EU GOSTO DE VER O PÔR DO SOL E DE CONTAR ESTRELAS

Pequeno Príncipe e a raposa olhando o pôr do sol

“Quando a gente está triste demais, gosta do pôr de sol”. (Antoine du Saint-Exupèry)

Jamais serei poeta.

Nada tenho contra esses privilegiados. Louvo-os!

Eu não sei fazer rima. Nem versos. Nem poesia.

Mas, a vida me ensinou a contar estrelas.

Já contei milhares delas.

Para cada uma, dei um nome – já tenho mais que um Cruzeiro do Sul.

Converso com elas. As estrelas.

Com algumas, até já convivi.

Com a limpidez do céu da noite, quando estou triste pego um caderninho e rabisco uma poesia……. minto!

Conto estrelas, quando estou triste.

Até a insônia me permite contar estrelas que vejo e cumprimento como fazem os beija-flores em voos rasantes de reconhecimento.

Conto estrelas, quando estou triste.

Em vários momentos, a insônia me entristece – por isso, conto estrelas.

Tanto quanto o Pequeno Príncipe e a Raposa gostam de ver o pôr do sol, todo fim de tarde, a insônia me impõe a tristeza – por isso, conto estrelas.

Também!

Vem-vem – o poeta

Todo fim de tarde, quando muitos estavam vendo o pôr do sol – um verso poético que se repete em várias partes do mundo, com a mesma rima – olhando para onde o sol nasceu ao amanhecer, vejo aquela árvore com galhos secos e desfolhados, sem rima, mas poeticamente recebe a esperança no cântico do vem-vem.

Para entender cada verso e toda a rima daquela poesia, é preciso estar triste.

Vem-vem canta a minúscula ave, enchendo de esperança a tristeza de quem espera a chegada de alguém. Que, às vezes, não vem.

Como o céu nublado no fim de tarde que não permite ver mais um pôr do sol, ou a chuva que não permite olhar (e contar) estrelas, o vem-vem canta sem saber que alguém não vem.

Mas amanhã e depois, em muitos fins de tarde, o vem-vem vai fazer poesia.

Cantando!

Mãos fazendo a poesia da debulha do milho

A terra recebe a semente semeada. A terra ajuda a semente semeada a nascer e a crescer, dia após dia. Verso após verso – com a rima da chuva, faz o milagre poético da colheita. As etapas, são versos rimados em poesias conclusas. Em sementes.

A colheita é a poesia da multiplicação da semente.

Tanto quanto o Pequeno Príncipe e a Raposa precisam do céu sem nuvens para que continuem vendo a cada fim de tarde o pôr do sol; e a insônia continue acontecendo para que aconteça a contagem das estrelas, a poesia da semente só terá rima em todos os versos, com o debulhar do milho.

Na debulha, mãos envelhecidas e calejadas transformam o semear, o nascer e o colher do milho em poesia.

Não.

Eu não sou poeta.

Eu não sei rimar.

Mas, a vida me ensinou a ver o pôr do sol, a contar estrelas e a debulhar o milho.

DEU NO X

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Marquesa de Santos

Domitila de Castro Canto e Melo nasceu em São Paulo, SP, em 27/12/1797. Viscondessa e mais conhecida como Marquesa de Santos, Integrou a nobreza na época do Brasil colonial e tornou-se célebre pela longa e influente relação mantida com o imperador Dom Pedro I.

Filha de Escolástica Bonifácia de Toledo Ribas e João de Castro Canto e Melo, 1º Visconde de Castro, descendente de nobres famílias da elite paulista. Casou-se, em 1813, aos 15 anos com o alferes Felício Pinto Coelho de Mendonça, descrito como violento e jogador compulsivo, que agredia a esposa, até fisicamente. Após o casamento, mudaram-se para Vila Rica, onde nasceram os 3 primeiros filhos.

Devido a vida conturbada do casal, ela voltou à casa dos pais em São Paulo, em 1816. Tentaram uma reconciliação em 1818, mas as agressões do marido se intensificaram. Em 6/3/1819 chegou a atacá-la com 2 facadas. Ele foi preso e ela passou a batalhar pela separação. O divórcio só foi concedido em 21/5/1824, quando ela já era amante do imperador. O longo processo decorrido acusava-a de adultério para justificar a violência. No entanto testemunhas e provas mostravam que o marido tentara assassiná-la para se apossar das terras herdadas em Minas Gerais.

Conheceu D. Pedro em 29/8/1822, pouco antes da Proclamação da Independência do Brasil, e já no ano seguinte o Imperador instalou-a numa casa no Rio de Janeiro. Em 1826 ganhou um presente do imperador: a famosa “Casa Amarela”, uma luxuosa mansão próxima à residência oficial do Imperador, na Quinta da Boa Vista. Em seguida concedeu-lhe títulos e honrarias: Viscondessa em 1825 e Marquesa em 1826. A escolha “de Santos” foi uma provocação aos irmãos Andrada, seus inimigos políticos, naturais de Santos. Exilado na França, José Bonifácio reagiu; “Quem sonharia que a michela (prostituta) Domitila seria viscondessa da pátria dos Andradas! Que insulto desmiolado!”.

A relação longa e notória com D. Pedro durou cerca de 7 anos, embora ele mantivesse outros casos, incluindo a irmã de Domitila, Maria Benedita. A presença de Domitila na corte causou profunda humilhação à Imperatriz. A nomeação da amante como dama de companhia foi o ápice do escândalo, obrigando a imperatriz a conviver oficialmente com a rival. A morte de Leopoldina, em dezembro de 1826, gerou uma crise política e acusações de que uma suposta agressão física de D. Pedro teriam precipitado sua morte. Porém, relatos médicos indicaram uma infecção puerperal como causa mortis. Mais de 180 cartas trocadas revelam a profundidade e a complexidade da relação, da qual nasceram 5 filhos, mas apenas 2 chegaram à fase adulta.

O relacionamento terminou em 1829 e D. Pedro foi pressionado a contrair novo matrimônio para garantir a sucessão e restaurar sua imagem na Europa. Foi negociado o casamento com a princesa Amélia de Leuchtenberg e a família da noiva e as cortes europeias, horrorizadas com o escândalo da amante, impuseram como condição o afastamento definitivo de Domitila da corte. D. Pedro se convencera de que sua presença no Rio de Janeiro era inoportuna e que sua mudança para São Paulo era essencial. Assim, Domitila retornou à sua província natal, encerrando um capítulo intenso e controverso de sua vida, bem como do império brasileiro.

Sua presença na corte marcou profundamente o 1º Reinado, influenciando a política e a vida da família imperial. Em São Paulo, adquiriu um grande casarão no centro histórico da cidade, hoje conhecido como “Solar da Marquesa de Santos”, tornando-se ponto de encontro da elite paulistana, palco de saraus e bailes. Em 1842 se casou com o brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar, um dos políticos mais influentes da província, tornando-se uma poderosa, matriarca, respeitada por suas atividades filantrópicas e sua forte personalidade. Sua figura histórica, complexa e controversa, foi objeto de intensa disputa memorialística. Foi retratada ao longo do tempo como uma vilã ambiciosa, uma heroína romântica e, também, como uma mulher que desafiou as convenções sociais e exerceu notável desempenho sobre sua própria vida.

Após a morte do marido, em 1857, se tronou uma figura respeitada, dedicando-se a obras de caridade e auxiliando estudantes da Faculdade de Direito. Segundo o biógrafo Paulo Rezzutti, ao contrário do que a historiografia tradicional sugeria, Domitila nunca foi uma “pobre coitada”, mas sim uma hábil administradora de sua fortuna e uma mulher consciente de seu poder, como demonstra uma carta a um genro: “Eu sendo mulher lembro-me do futuro”. Faleceu em 3\11\1867 e seu túmulo tornou-se local de peregrinação. Domitila transformou-se numa espécie de “santa popular”, invocada por prostitutas (por ter sido estigmatizada em vida) e por mulheres que buscam um bom casamento, inspiradas em sua capacidade de se reerguer e formar uma nova família de prestígio após o escândalo com o imperador.

Sua biobibliografia é vasta com destaque para o livro de Mary del Priore A carne e o sangue: A Imperatriz D. Leopoldina, D. Pedro I e Domitila, a Marquesa de Santos, publicado pela editora Rocco, em 2012 e o livro de Paulo Rezzutti A verdadeira história da Marquesa de Santos, publicado pela Geração Editorial, em 2013, reeditado como A história não contada pela editora Leya, em 2019 e 2023.

DEU NO X

DEU NO JORNAL

A SELIC, A PRODUÇÃO E O EMPREGO

Editorial Gazeta do Povo

selic produção emprego

Selic alta freia a produção, o emprego e o crescimento, mas ela é consequência do descontrole fiscal do governo

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central realiza sua segunda reunião de 2026, em 17 e 18 de março, sob pressão. A política monetária contracionista dos últimos tempos, que levou a taxa Selic aos atuais 15%, fez a economia desacelerar e trouxe a inflação de volta para dentro dos limites de tolerância da meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional, abrindo espaço para uma queda nos juros, que até chegou a ser antecipada no comunicado da reunião de janeiro. Por outro lado, os efeitos econômicos dos ataques que Estados Unidos e Israel lançaram contra o Irã, e a resposta do regime dos aiatolás, criaram novas incertezas, especialmente quanto ao fornecimento global de petróleo.

Além de ser a taxa de juros que o governo paga pelo dinheiro que o Tesouro Nacional capta vendendo títulos públicos, a Selic influencia as demais taxas de juros nas operações feitas pelos bancos e demais instituições financeiras, além de funcionar como principal instrumento de política monetária à disposição do Banco Central em sua missão de controlar a inflação. Num primeiro momento, a elevada taxa Selic recompensa os compradores de títulos do governo, de forma que tenham ganho real pela taxa de juros maior que a inflação e sejam estimulados a aplicar em títulos do governo. Na sequência, o juro alto desestimula o consumo e, por isso mesmo, inibe a elevação de preços e a ampliação da oferta de bens de serviços, o que significa produção menor e desemprego maior.

Sempre que esse cenário se instala na economia brasileira, surge a discussão se eventual queda na taxa de juros teria algum efeito prejudicial ao país. A resposta é que uma taxa de juros igual ou apenas um pouco maior que a taxa de inflação teria, sim, efeitos negativos, pois isso levaria o governo a ter dificuldades em contrair empréstimos com a venda de seus títulos e, assim, ficar sem condições de cobrir seus déficits pela via do endividamento.

Pessoas, empresas e outros poupadores buscam defender seus interesses e aumentar seu patrimônio por meio de ganhos líquidos acima da inflação, após os impostos, o que no mundo moderno é facilitado pelas opções de aplicar dinheiro no mercado nacional em ativos financeiros lastreados na moeda corrente do país ou em moedas estrangeiras, sobretudo o dólar. Além disso, tornou-se legal e fácil fazer aplicações em títulos de renda fixa ou variável no exterior, mesmo sem sair do Brasil, de forma que os agentes econômicos nacionais tomadores de empréstimos, entre eles o governo, sofrem a concorrência das opções de aplicações no mercado internacional.

A esse respeito, é necessário fazer duas ressalvas. No Brasil, os ganhos em forma de juros ou dividendos recebidos por investidores sofrem tributação que podem superar um quinto dos ganhos brutos, pois a Selic que o governo paga em seus títulos públicos é uma taxa bruta, já que esses rendimentos dos investidores são tributados pelo Imposto de Renda e outros impostos. Em qualquer análise sobre a questão dos juros é preciso considerar que a principal razão para a elevação da taxa Selic é a necessidade sempre crescente de o governo aumentar seu endividamento em função dos gastos públicos excessivos, bem superiores à arrecadação tributária. Ou seja, é o déficit público que obriga o governo e emitir títulos e a abocanhar cada vez mais uma fatia maior de todo o dinheiro disponível no país para aplicação financeira, diminuindo assim o volume de recursos disponíveis para empréstimos ao setor privado.

Essa situação, por si só, explica parte da política de elevação da taxa Selic pelo Banco Central, embora haja outra razão para que o BC aumente os juros: os investimentos e o consumo nacional são feitos pelo governo, pelas pessoas e pelas empresas; se o governo tem déficit em suas contas, como ocorreu em 2023, 2024 e 2025, é porque o setor público gasta mais em investimentos e consumo do que a parte que lhe cabe na divisão do PIB. Isso obriga as demais entidades econômicas – pessoas, empresas e resto do mundo – a absorverem uma parcela do PIB menor do que a parcela que suas rendas podem comprar.

Nesse contexto, a elevação da taxa de juros pelo Banco Central destina-se também a reduzir investimentos e o consumo das pessoas e empresas, para que o governo possa seguir comendo uma fatia do PIB maior do que ele poderia comprar se não houvesse déficit. A elevação da taxa de juros, com suas complexidades técnicas, é necessária para reduzir a demanda agregada e impedir uma elevação certa da inflação caso a demanda de todas as entidades econômicas fosse maior que o PIB total do país.

No Brasil, o principal instrumento de combate à inflação tem sido a taxa de juros, sobretudo porque o desequilíbrio fiscal que gera déficits fiscais recorrentes todos os anos tem sido a norma no conjunto das contas dos municípios, estados, União e empresas estatais dependentes do Tesouro. Essa realidade produz um ciclo inevitável: mais déficit público leva a juros mais altos, que levam a menor produção do setor privado e maior desemprego. A alta taxa de juros é consequência da gestão imprudente das contas públicas, cujo efeito socialmente perverso é inibir o crescimento do PIB e frear a geração de empregos. Quem mais sofre são as camadas mais pobres da população.

DEU NO X