Editorial Gazeta do Povo

Selic alta freia a produção, o emprego e o crescimento, mas ela é consequência do descontrole fiscal do governo
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central realiza sua segunda reunião de 2026, em 17 e 18 de março, sob pressão. A política monetária contracionista dos últimos tempos, que levou a taxa Selic aos atuais 15%, fez a economia desacelerar e trouxe a inflação de volta para dentro dos limites de tolerância da meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional, abrindo espaço para uma queda nos juros, que até chegou a ser antecipada no comunicado da reunião de janeiro. Por outro lado, os efeitos econômicos dos ataques que Estados Unidos e Israel lançaram contra o Irã, e a resposta do regime dos aiatolás, criaram novas incertezas, especialmente quanto ao fornecimento global de petróleo.
Além de ser a taxa de juros que o governo paga pelo dinheiro que o Tesouro Nacional capta vendendo títulos públicos, a Selic influencia as demais taxas de juros nas operações feitas pelos bancos e demais instituições financeiras, além de funcionar como principal instrumento de política monetária à disposição do Banco Central em sua missão de controlar a inflação. Num primeiro momento, a elevada taxa Selic recompensa os compradores de títulos do governo, de forma que tenham ganho real pela taxa de juros maior que a inflação e sejam estimulados a aplicar em títulos do governo. Na sequência, o juro alto desestimula o consumo e, por isso mesmo, inibe a elevação de preços e a ampliação da oferta de bens de serviços, o que significa produção menor e desemprego maior.
Sempre que esse cenário se instala na economia brasileira, surge a discussão se eventual queda na taxa de juros teria algum efeito prejudicial ao país. A resposta é que uma taxa de juros igual ou apenas um pouco maior que a taxa de inflação teria, sim, efeitos negativos, pois isso levaria o governo a ter dificuldades em contrair empréstimos com a venda de seus títulos e, assim, ficar sem condições de cobrir seus déficits pela via do endividamento.
Pessoas, empresas e outros poupadores buscam defender seus interesses e aumentar seu patrimônio por meio de ganhos líquidos acima da inflação, após os impostos, o que no mundo moderno é facilitado pelas opções de aplicar dinheiro no mercado nacional em ativos financeiros lastreados na moeda corrente do país ou em moedas estrangeiras, sobretudo o dólar. Além disso, tornou-se legal e fácil fazer aplicações em títulos de renda fixa ou variável no exterior, mesmo sem sair do Brasil, de forma que os agentes econômicos nacionais tomadores de empréstimos, entre eles o governo, sofrem a concorrência das opções de aplicações no mercado internacional.
A esse respeito, é necessário fazer duas ressalvas. No Brasil, os ganhos em forma de juros ou dividendos recebidos por investidores sofrem tributação que podem superar um quinto dos ganhos brutos, pois a Selic que o governo paga em seus títulos públicos é uma taxa bruta, já que esses rendimentos dos investidores são tributados pelo Imposto de Renda e outros impostos. Em qualquer análise sobre a questão dos juros é preciso considerar que a principal razão para a elevação da taxa Selic é a necessidade sempre crescente de o governo aumentar seu endividamento em função dos gastos públicos excessivos, bem superiores à arrecadação tributária. Ou seja, é o déficit público que obriga o governo e emitir títulos e a abocanhar cada vez mais uma fatia maior de todo o dinheiro disponível no país para aplicação financeira, diminuindo assim o volume de recursos disponíveis para empréstimos ao setor privado.
Essa situação, por si só, explica parte da política de elevação da taxa Selic pelo Banco Central, embora haja outra razão para que o BC aumente os juros: os investimentos e o consumo nacional são feitos pelo governo, pelas pessoas e pelas empresas; se o governo tem déficit em suas contas, como ocorreu em 2023, 2024 e 2025, é porque o setor público gasta mais em investimentos e consumo do que a parte que lhe cabe na divisão do PIB. Isso obriga as demais entidades econômicas – pessoas, empresas e resto do mundo – a absorverem uma parcela do PIB menor do que a parcela que suas rendas podem comprar.
Nesse contexto, a elevação da taxa de juros pelo Banco Central destina-se também a reduzir investimentos e o consumo das pessoas e empresas, para que o governo possa seguir comendo uma fatia do PIB maior do que ele poderia comprar se não houvesse déficit. A elevação da taxa de juros, com suas complexidades técnicas, é necessária para reduzir a demanda agregada e impedir uma elevação certa da inflação caso a demanda de todas as entidades econômicas fosse maior que o PIB total do país.
No Brasil, o principal instrumento de combate à inflação tem sido a taxa de juros, sobretudo porque o desequilíbrio fiscal que gera déficits fiscais recorrentes todos os anos tem sido a norma no conjunto das contas dos municípios, estados, União e empresas estatais dependentes do Tesouro. Essa realidade produz um ciclo inevitável: mais déficit público leva a juros mais altos, que levam a menor produção do setor privado e maior desemprego. A alta taxa de juros é consequência da gestão imprudente das contas públicas, cujo efeito socialmente perverso é inibir o crescimento do PIB e frear a geração de empregos. Quem mais sofre são as camadas mais pobres da população.