JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

Pequeno Príncipe e a raposa olhando o pôr do sol

“Quando a gente está triste demais, gosta do pôr de sol”. (Antoine du Saint-Exupèry)

Jamais serei poeta.

Nada tenho contra esses privilegiados. Louvo-os!

Eu não sei fazer rima. Nem versos. Nem poesia.

Mas, a vida me ensinou a contar estrelas.

Já contei milhares delas.

Para cada uma, dei um nome – já tenho mais que um Cruzeiro do Sul.

Converso com elas. As estrelas.

Com algumas, até já convivi.

Com a limpidez do céu da noite, quando estou triste pego um caderninho e rabisco uma poesia……. minto!

Conto estrelas, quando estou triste.

Até a insônia me permite contar estrelas que vejo e cumprimento como fazem os beija-flores em voos rasantes de reconhecimento.

Conto estrelas, quando estou triste.

Em vários momentos, a insônia me entristece – por isso, conto estrelas.

Tanto quanto o Pequeno Príncipe e a Raposa gostam de ver o pôr do sol, todo fim de tarde, a insônia me impõe a tristeza – por isso, conto estrelas.

Também!

Vem-vem – o poeta

Todo fim de tarde, quando muitos estavam vendo o pôr do sol – um verso poético que se repete em várias partes do mundo, com a mesma rima – olhando para onde o sol nasceu ao amanhecer, vejo aquela árvore com galhos secos e desfolhados, sem rima, mas poeticamente recebe a esperança no cântico do vem-vem.

Para entender cada verso e toda a rima daquela poesia, é preciso estar triste.

Vem-vem canta a minúscula ave, enchendo de esperança a tristeza de quem espera a chegada de alguém. Que, às vezes, não vem.

Como o céu nublado no fim de tarde que não permite ver mais um pôr do sol, ou a chuva que não permite olhar (e contar) estrelas, o vem-vem canta sem saber que alguém não vem.

Mas amanhã e depois, em muitos fins de tarde, o vem-vem vai fazer poesia.

Cantando!

Mãos fazendo a poesia da debulha do milho

A terra recebe a semente semeada. A terra ajuda a semente semeada a nascer e a crescer, dia após dia. Verso após verso – com a rima da chuva, faz o milagre poético da colheita. As etapas, são versos rimados em poesias conclusas. Em sementes.

A colheita é a poesia da multiplicação da semente.

Tanto quanto o Pequeno Príncipe e a Raposa precisam do céu sem nuvens para que continuem vendo a cada fim de tarde o pôr do sol; e a insônia continue acontecendo para que aconteça a contagem das estrelas, a poesia da semente só terá rima em todos os versos, com o debulhar do milho.

Na debulha, mãos envelhecidas e calejadas transformam o semear, o nascer e o colher do milho em poesia.

Não.

Eu não sou poeta.

Eu não sei rimar.

Mas, a vida me ensinou a ver o pôr do sol, a contar estrelas e a debulhar o milho.

5 pensou em “EU GOSTO DE VER O PÔR DO SOL E DE CONTAR ESTRELAS

    • Parabens, Ramos. Você é Poeta, seu texto atesta isto. O cabra que conta estrelas e vê o pôr do sol com olhar contemplativo é um Poeta sem precisar de rimas. Continue o debulhar do milho. De cá, agradecemos.

  1. A colheita é a poesia da multiplicação da semente.
    Senhor José, semeias poesia para meus octogenários olhos. E isso me faz muito bem. Gosto muito de sua prosa poética dominical nesta gazeta tão especial.
    Que bom que ainda há José Ramos que sabe, como Quintana e Manoel de Barros, brincar com as palavras.

    Manoel de Barros: “Quis pegar entre meus dedos a manhã. Peguei vento”. Mario Quintana: “Eles passarão… Eu passarinho!”

    Bom demais da conta…
    Um beijo,
    Matilde

  2. Pingback: PASSARÃO… PASSARINHO… | JORNAL DA BESTA FUBANA

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *