DEU NO JORNAL

OS TRAIDORES E A FORCA

Luciano Trigo

Quando um presidente fala em forca, mesmo metaforicamente, ele se aproxima de uma tradição política incompatível com os valores democráticos

A história brasileira costuma ser lembrada por meio de símbolos simplificados. Tiradentes, por exemplo. É o mártir da independência. Já Joaquim Silvério dos Reis ficou marcado como o traidor que vendeu seus companheiros à Coroa portuguesa. Mas, quando figuras públicas recorrem a esses personagens para atacar adversários, é importante recapitular os fatos em toda a sua complexidade.

Na semana passada, Lula afirmou que determinados adversários mereceriam a forca, evocando a memória de Joaquim Silvério dos Reis — que, na verdade, não foi enforcado, mas este é o menor dos problemas. A analogia revela um problema histórico e moral profundo. Afinal, quem foi o traidor, aos olhos do regime vigente em Minas Gerais no final do século XVIII? E quem acabou sendo enforcado: o traidor ou o herói?

Joaquim Silvério dos Reis era um rico proprietário de terras e minerador. Endividado junto à Coroa portuguesa, viu na delação da Inconfidência Mineira uma oportunidade para obter vantagens pessoais. Em 1789, denunciou às autoridades o movimento que articulava uma ruptura com o domínio português. Em troca, recebeu favores da administração colonial, incluindo o perdão de dívidas e outras compensações. Morreu de causas naturais, já idoso.

Do ponto de vista da memória nacional construída posteriormente, Silvério se tornou o arquétipo do traidor: o homem que colocou seus interesses particulares acima do ideal de liberdade defendido pelos inconfidentes.

Mas a perspectiva da Coroa portuguesa era exatamente oposta. Para Lisboa, Joaquim Silvério dos Reis não era um traidor: era um colaborador leal, que prestou um serviço ao Estado ao denunciar uma conspiração criminosa. Quem atentava contra a ordem estabelecida eram os inconfidentes. Eles é que planejavam desafiar a autoridade legítima do reino e romper com o sistema político vigente.

Tiradentes não foi enforcado por defender a liberdade em abstrato. Foi executado porque o governo da época o considerou um rebelde e um traidor. Mas a sua execução não é lembrada como um triunfo da justiça, e sim como um exemplo de perseguição estatal contra aqueles que ousaram desafiar o poder.

Como acontece hoje, a Coroa portuguesa também acreditava estar defendendo a ordem, a legalidade e a estabilidade. Também acreditava que seus opositores ameaçavam a integridade do Estado. Também se via como guardiã do bem comum. E foi em nome dessa convicção que condenou Tiradentes à morte. Isso comprova que a justiça histórica nem sempre coincide com a justiça proclamada pelos governantes de cada época.

O problema da declaração não está apenas na violência da imagem empregada. Está também na inversão histórica que ela sugere. Ao associar adversários a Joaquim Silvério dos Reis, presume-se automaticamente que o governo representa a causa justa e que os opositores ocupam o papel dos traidores. Mas foi exatamente esse tipo de certeza moral que levou regimes autoritários de diferentes épocas a perseguirem dissidentes.

Uma analogia alternativa parece muito mais pertinente ao debate. Se quisermos transportar a lógica da Inconfidência Mineira para os dias atuais, Tiradentes não se pareceria com os defensores do poder estabelecido, mas justamente com aqueles que são apontados pelo regime vigente como inimigos da democracia, ameaças ao Estado de direito ou traidores da pátria.

Evidentemente, as circunstâncias históricas são distintas, e não se trata de equiparar personagens ou causas específicas. Meu ponto é outro: a História ensina que governos costumam atribuir aos seus opositores os rótulos mais severos possíveis, enquanto reservam para si o papel de guardiães da legalidade. Mas Tiradentes se tornou um símbolo nacional justamente porque as gerações posteriores concluíram que o julgamento do poder não era o julgamento da História.

Essa constatação deveria servir de advertência sempre que autoridades contemporâneas tratam adversários políticos como inimigos a serem perseguidos, silenciados ou eliminados. Governantes democráticos deveriam evitar qualquer flerte retórico com a ideia de eliminar adversários políticos.

Quando um presidente fala em forca, mesmo metaforicamente, ele se aproxima de uma tradição política incompatível com os valores democráticos. A democracia pressupõe a coexistência de opiniões divergentes. Adversários devem ser derrotados nas urnas, no debate público e no campo das ideias, não conduzidos ao cadafalso — nem mesmo simbolicamente.

Convém recordar quem realmente terminou na forca em 1792. Não foi o homem que defendeu o poder estabelecido. Foi justamente aquele que ousou enfrentá-lo. O mártir da Inconfidência foi enquadrado, pelo poder de sua época, na categoria dos “traidores” e “inimigos da ordem”.

A História está repleta de casos semelhantes. Muitos personagens hoje reverenciados como defensores da liberdade foram considerados subversivos, extremistas ou traidores pelas autoridades de seu tempo. A diferença entre um herói e um traidor, entre um mártir e um criminoso, depende do julgamento das gerações futuras. E o julgamento da história frequentemente surpreende aqueles que acreditam possuir o monopólio da virtude.

Por isso, a lembrança da Inconfidência Mineira deveria inspirar prudência, não bravatas. A principal lição da Inconfidência Mineira não é que traidores merecem a forca. É que o poder costuma chamar de traidor quem desafia seus interesses. Ontem foi Tiradentes. Hoje pode ser qualquer opositor inconveniente.

DEU NO JORNAL

LAUDEIR ÂNGELO - A CACETADA DO DIA

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SEVERINO SOUTO - SE SOU SERTÃO

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ELEIÇÕES

Desde a posse de Donald Trump nos EUA, as cinco eleições realizadas na América Latina foram vencidas por candidatos conservadores ou da direita: Equador, Bolívia, Honduras, Chile e Costa Rica.

E faltam definir Colômbia e Peru, onde a eleição pode ser decidida por só 4 mil votos.

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E em Banânia?

Será que trilharemos o mesmo caminho nas próximas eleições?

Vamos torcer pra que esse sofrido recanto de mundo siga a mesma tendência do resto do continente.

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ALEXANDRE GARCIA

O SENADO NÃO VAI FACILITAR

benedito gonçalves

O ministro Benedito Gonçalves em sessão do TSE, em janeiro de 2023

Embora tenha sido aprovado por 21 a 5 na Comissão de Constituição e Justiça, o ministro do STJ Benedito Gonçalves não terá vida fácil para se tornar corregedor do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que é o órgão que julga os juízes – menos os do Supremo; esses só o Senado pode julgar, mas não quer, ou pelo menos o presidente do Senado não quer. Gonçalves vai encontrar oposição no plenário do Senado, tal como aconteceu com o “Bessias”, que foi aprovado na CCJ e recusado pelo plenário, algo inédito nos últimos 135 anos. Benedito Gonçalves é aquele que soprou “missão dada, missão cumprida” no ouvido de Alexandre de Moraes no dia da diplomação de Lula, e a frase foi captada pelos microfones. Ele foi integrante do Tribunal Superior Eleitoral, e a oposição se queixa de posições politizadas dele contra Jair Bolsonaro e Deltan Dallagnol.

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Americanos não estão interferindo na soberania de ninguém ao classificar facções como terroristas

Falam tanto em soberania nesse caso da classificação de terroristas para os grupos armados brasileiros que aterrorizam populações inteiras. Cinquenta milhões de brasileiros vivem sob o medo imposto por essas facções, e dizem que são os EUA que invadem a soberania brasileira. O diretor-geral da Polícia Federal chegou a afirmar que a decisão era um equívoco do governo americano; depois, disse que está disposto a trabalhar junto com os Estados Unidos para combater o crime. Como assim, “equívoco”? O governo americano tomou uma decisão com base na lei americana; não há relação alguma com a lei brasileira, que não considera terrorismo o que fazem as facções. A lei americana vale para o território americano; a lei brasileira continuará dizendo que as facções não são terroristas, porque para caracterizar terrorismo é preciso ter motivação religiosa, étnica, política etc.

As facções já estão presentes em 12 a 19 estados nos EUA, lavando dinheiro em empresas e bancos que operam lá. Agora, o governo americano poderá coibir isso, fazendo uma asfixia financeira, mas não vai agir no Brasil. Só quem pensa que pode agir em outro país é Alexandre de Moraes, que está sendo processado e tem até o dia 12 para se defender em um tribunal da Flórida. Ele invadiu a jurisdição americana, dando ordens a empresas americanas (inclusive uma de Donald Trump, vejam só) para bloquear contas de pessoas que vivem nos EUA, são cidadãos americanos e estão, portanto, sob a lei americana.

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Uns combatem o crime, outros têm “diálogo cabuloso” com ele

No Brasil o governo fala em soberania sobre a Amazônia, em combater o crime, mas não combate. Estão tomando conta da Amazônia. A última notícia que se tem é de 2019, quando o ministro Sergio Moro, da Justiça, e a Polícia Federal estavam combatendo o crime, e o bandido lamentava que com o governo do PT tinha um “diálogo cabuloso”.

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A imprudência nas estradas no Brasil mata mais que grandes terremotos no exterior

Alguma coisa deve estar errada no Brasil. Nas Filipinas, houve um terremoto de 7,8 graus na escala Richter. É um senhor terremoto, e morreram 30 pessoas. Aqui no Brasil, no feriadão de Corpus Christi, morreram 98 pessoas – mais que o triplo do terremoto filipino – só nas estradas federais.

DEU NO X

COMENTÁRIO DO LEITOR

ÁLBUM “MEU SAMBA É ASSIM”

Comentário sobre a postagem UM QUASE POETA

Jairo Juruna:

Xico Bizerra apresenta nesta letra uma bela demonstração de humildade artística e reverência aos grandes nomes da literatura mundial.

Utilizando o texto para se colocar como um mero aprendiz, o autor cita nominalmente gigantes da poesia para marcar a distância que enxerga entre seus versos e a genialidade consagrada do timaço de poetas que ele reverencia.

Ao fechar o poema com as expressões “nunca PESSOA” e “fingidor poeta de versos à toa”, ele faz uma clara alusão ao famoso conceito de Fernando Pessoa de que “o poeta é um fingidor”.

O autor brinca com essa ideia para reforçar sua própria autoimagem de “pretenso esteta”.

A letra faz parte do álbum MEU SAMBA É ASSIM, que conta com a direção musical do renomado mestre Jorge Simas – que tem histórico de trabalho semelhante com diversos craques da MPB – o que indica que, além da forte carga literária, a estrutura foi pensada para ganhar ritmo e melodia nas rodas de samba.

Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor.

O álbum MEU SAMBA – com as composições de Xico Bizerra – vem em boa hora, chegando para levantar o astral e servindo como uma importante contribuição para não deixar o samba morrer.

Boto fé em tudo isso aí.