XICO COM X, BIZERRA COM I

No álbum que estou gravando – MEU SAMBA É ASSIM, sob a regência e direção musical do mestre Jorge Simas (já gravou com Chico Buarque, Beth Carvalho, Jorge Aragão, Zeca Pagodinho, Agepê, Clara Nunes, dentre outros menos votados) uma das letras que mais gosto é esta, quando me reconheço na posição de mero aprendiz, um pretenso Poeta e exalto a excelência dos grandes vates. Poderia falar de muitos outros, tão geniais e imensos quanto: MANOEL DE BARROS, PINTO DE MONTEIRO, LOURO DO PAJEÚ e outros tantos … São do mesmo quilate. Sintam-se homenageados, pois, todos os Poetas.

Digo assim:

o olhar dela, tão singelo,
puro e belo, é tudo de bom,
eu, vate inventado,
tudo a dizer, nada a falar,
calo e foge-me o som:
sou muito menor que qualquer DRUMOND …

atrevo-me a fazer verso,
é a inspiração passageira …
tão ambicioso,
tudo a dizer, nada a falar,
e só bobageio asneira:
distante de todo e qualquer BANDEIRA …

tento juntar as palavras
transformá-las em canções
é só um desejo!
tudo a dizer, nada a falar,
muitos e tantos senões
e longe de todo e qualquer CAMÕES

e há tão pouca rima em minha não-poesia
que ao pretenso esteta que há em mim
resta a certeza, aí sim, de ser nenhum poeta,
tudo a dizer, nada a falar.
meu grito preso não ecoa,
é voz calada em cena muda
muito apartado de qualquer NERUDA,
sou falso bardo, um nunca PESSOA,
fingidor poeta de versos à toa …

10 pensou em “UM QUASE POETA

  1. Quanto ao enorme poeta Xico Bizerra, o problema está nas rimas. Com Xico, nenhum. Tem Bico, Mico, Pico, Rico ( o que ele é, por dentro ) e, a que prefiro, Tico Tico. Mas já Bizerra, Deus nos proteja. Por favor, mestre, encontre uma rima para seu sobrenome.

    • Meu Caro Doutor José Paulo,
      Ainda que eu fosse um Pessoa,
      Com sua prosa e verve boa
      (Que é tudo que me falta e some),
      Ainda assim, não acharia
      Rima que desse alegria
      Ao dono do meu sobrenome …
      Xico BIZERRA

  2. Xico Bizerra apresenta nesta letra uma bela demonstração de humildade artística e reverência aos grandes nomes da literatura mundial.

    Utilizando o texto para se colocar como um mero aprendiz, o autor cita nominalmente gigantes da poesia para marcar a distância que enxerga entre seus versos e a genialidade consagrada do timaço de poetas que ele reverencia.

    Ao fechar o poema com as expressões “nunca PESSOA” e “fingidor poeta de versos à toa”, ele faz uma clara alusão ao famoso conceito de Fernando Pessoa de que “o poeta é um fingidor”. O autor brinca com essa ideia para reforçar sua própria autoimagem de “pretenso esteta”.

    A letra faz parte do álbum MEU SAMBA É ASSIM, que conta com a direção musical do renomado mestre Jorge Simas – que tem histórico de trabalho semelhante com diversos craques da MPB – o que indica que, além da forte carga literária, a estrutura foi pensada para ganhar ritmo e melodia nas rodas de samba.

    Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor.

    O álbum MEU SAMBA – com as composições de Xico Bizerra – vem em boa hora, chegando para levantar o astral e servindo como uma importante contribuição para não deixar o samba morrer.

    Boto fé em tudo isso aí.

    • Meu caro Jairo Juruna,
      comentários generosos como o seu são o aditivo necessário para que eu continue destilando bobagices e besteiragens por aqui.
      Receba meu abraço de gratidão
      Xico Bizerra

      • Caro Xico, aprecio bastante seus trabalhos e gostei de saber que você curtiu meu comentário.

        Lembrando uma frase de Michel Temer: “Tem que manter isso, viu?”

        Abraços.

  3. Meu Caro Doutor Zé Paulo,
    Ainda sobre a ausência de rima e complementando meu comentário anterior, digo-lhe ser isso bronca de menor monta.
    Como exemplo, a canção SÚPLICA, uma das entronizadas joias da Música Popular Brasileira, composta por Otávio Gabus Mendes e José Marcílio, em 1940, e adicionada à cultura musical deste País pelo Cantor das Multidões, Orlando Silva, cuja maravilhosa letra, do começo ao fim, NÃO TEM UMA RIMA SEQUER!
    Pra não ficar por baixo, as rimas que se oferecem para Paulo (mesaulo, diaulo, hidraulo,
    compressicaulo e coraulo), nenhuma delas é tão poética quanto seu próprio nome kkkkkkk
    Grande abraço, de novo.

  4. Pingback: ÁLBUM “MEU SAMBA É ASSIM” | JORNAL DA BESTA FUBANA

  5. Nunca pensei nisso, mestre Xico. É verdade. Paulo é Bizerra, não sei qual o pior. O que salva é que a catástrofe poderia ser ainda mais devastadora. Se, por exemplo, nosso sobrenome fosse Lacerda. Há braços.

  6. Verdade, mestre Xico. Sorte é a de Berto, um sobrenome Certo. E Perto. Longe dos Costas. Será que se refere a nosso Senadora???, eis a questão.

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