VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

O AZULÃO

Não estou falando do belíssimo pássaro Azulão, mas sim de um antigo bar, que existiu em Natal, durante décadas (possivelmente, a partir da década de 70), e encerrou suas atividades, não faz tanto tempo assim.

As histórias do Azulão eram folclóricas e tornaram-se conhecidas, até por quem nunca o frequentou.

Exaltando o pássaro nordestino, encontrei no Blog dos Pássaros: “O azulão-do-nordeste (Cyanoloxia brissonii) é uma ave passeriforme da família Cardinalidae, também conhecido como azulão-bicudo, azulão, azulão-do-sul, azulão- verdadeiro, azulão-da-mata, guarundi-azul e tiatã. É um pássaro de porte médio, com plumagem predominantemente azul. Ave nativa do Brasil, e pode ser encontrado no nordeste até o Rio Grande do Sul. Além disso, ele também pode ser encontrado em países vizinhos, como Venezuela, Colômbia, Argentina, Paraguai e Bolívia.”

Pois bem. Até poucos anos, havia em Natal (RN) um pequeno bar, localizado na Avenida Afonso Pena, no Tirol, com o nome de Azulão Bar. Era ponto de encontro de boêmios da cidade, incluindo poetas, escritores, políticos e servidores públicos do alto escalão, da administração direta e indireta.

Conta o folclore boêmio da cidade, que um conhecido advogado de Natal, boêmio maduro, alto funcionário público, fazia do Azulão uma “extensão” da repartição onde trabalhava. Era comum, se ver, no final da tarde, um contínuo da repartição adentrar ao bar, portando uma pasta com documentos para o “chefão” assinar, como se estivesse em expediente, no órgão público onde trabalhava.

Havia um bloco de boêmios de idade madura, frequentadores habituais do Azulão Bar, que, de manhã cedo, chegavam ao bar, “para assinar o ponto.” Bebiam antes do início do expediente das repartições públicas, para poderem assinar o nome com firmeza, sem tremer, no “livro de frequência”.

No bar, de manhã cedo, havia sempre uma toalha de rosto para o boêmio colocar no pescoço, segurando com as duas mãos, para parar de tremer, e poder assinar a “folha de presença”. Em alguns, a tremedeira só passava depois que ingeriam alguma bebida.

Como brincadeira mórbida, ao findar o ano, os frequentadores gaiatos organizavam um “bolão”, apostando nos possíveis nomes de quem eles achavam que morreriam no ano seguinte. E quando ocorria o óbito de algum frequentador, era dado baixa no seu nome e prestada uma homenagem póstuma comovente, incluindo discursos de pessoas ilustres.

Naquela confraria, a vida era levada com bom humor e a saúde dos frequentadores preocupava mais à família do que a eles próprios.

Todos os dias, ali se podia saborear tira-gostos simples, como carne de sol e queijo de coalho assados, feijoada, ou cozido.

Aos sábados, podia-se comer uma boa rabada, dobradinha, sarapatel (picado) ou buchada, alimentos fortes e gordurosos, que davam “sustança” aos boêmios.
Aos domingos, o Azulão era fechado.

Alguns figurões da cidade, aos sábados, costumavam levar a família para o Azulão, onde almoçavam e permaneciam até o final da tarde. A diversão eram as boas conversas, coisa que não faltava.

Podia ter música ao vivo, se algum músico amador, seresteiro, lá chegasse com o seu instrumento musical, de preferência um violão.

O Azulão era altamente familiar, reunindo poetas, escritores e outras figuras importantes do Rio Grande do Norte. Era a segunda casa de muitos boêmios de Natal.

Muito bem localizado e bem frequentado por boêmios diferenciados, o Azulão era uma seleta confraria, onde se respirava amizade, respeito e cultura.

Figuras ilustres da cidade, de saudosa memória, como Dr. Ney Aranha Marinho, Dr. Fernando Pereira, Dr. Francisco Bittencour, Dr. Cleto Barreto, Gildázio Felipe de Souza e outros, eram frequentadores do Azulão, e costumavam levar as esposas.

O Azulão faz parte da memória boêmia da cidade, como o Bar do Mário e o bar de Zé Coroa.

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O COMEÇO DE TUDO

Estávamos na Barra do Cunhaú, eu e minha filha Diana, juntamente com meu irmão Bernardo, esposa e filhos, em janeiro de 2013, em pleno veraneio.

Percebi que Bernardo e o filho caçula não saíam do “notebook”, coisa que eu ainda não possuía. Certo dia, minha curiosidade aumentou e eu perguntei:

– O que vocês estão vendo de tão engraçado no computador?

Meu irmão e o filho responderam:

– É o Jornal da Besta Fubana, de Recife.

O filho caçula de Bernardo estava cursando Medicina em Recife, e através dos colegas, passou a conhecer o JBF, que, naquela época, já fazia sucesso.

Bernardo tornou-se leitor assíduo do JBF e, uma vez por outra, passou a escrever para Luiz Berto, o Editor, pedindo a publicação de textos que ele escrevia.

Fiquei com inveja do meu irmão e enviei um texto da minha autoria para Luiz Berto, me apresentando como irmã de Bernardo. Nunca tinha publicado nada, apesar de ter mania de escrever, para mim mesma, poesias, crônicas e contos.

Luiz Berto publicou o primeiro texto que enviei, e recebi elogios de leitores e grandes colunistas, como a consagrada poeta Glória Horta (É A GLÓRIA), de saudosa memória, e da grande poeta e Cordelista Dalinha Catunda.

O segundo texto também agradou e, quando eu menos esperava, recebi um e-mail do Editor Luiz Berto, me tecendo elogios e me convidando para assinar uma coluna no JBF.

Temerosa da responsabilidade, liguei para Bernardo, que vibrou com o convite e me incentivou a aceitar, pois “isso é o que todo o mundo deseja.” Disse para mim que “um convite desse ninguém enjeita”.

E assim, com a cara e a coragem, inibida diante da intelectualidade do Escritor e Editor Luiz Berto e dos excelentes colunistas, tornei-me fubânica, numa época em que o JBF já era uma irmandade maravilhosa.

Confesso que sinto saudade da minha estreia no JBF, pois passei a conviver virtualmente com pessoas maravilhosas, que sempre me incentivaram.

Relembrando um dos meus primeiros textos publicados no JBF:

* * *

UMA CANA

Pedro Elias era motorista de um órgão público estadual. Era um homem bom, respeitador e honesto. Para não ser perfeito, gostava de beber, e, uma vez por outra, tomava umas carraspanas, chegando ao trabalho embriagado. Já havia sido repreendido, verbalmente, diversas vezes, até que recebeu as penalidades de advertência e de suspensão.

Depois disso, ficou envergonhado e com medo de perder o emprego. Afinal, tinha a esposa e três filhos para sustentar. A partir de então, esforçou-se para andar na linha.

Depois de passar dois meses sem beber, recuperou a confiança dos colegas e do chefe imediato. Um dia, o Dr. José Silveira, Secretário desse órgão, precisou fazer uma viagem a João Pessoa, a serviço. Não gostou, quando soube que o motorista escalado para dirigir o carro oficial era Pedro Elias, que tinha fama de pinguço. O chefe da oficina, entretanto, garantiu que ele havia deixado de beber, e agora era outro homem.

Passando em Mamanguape (PB), por volta de meio dia, o Secretário ordenou ao motorista que parasse em um restaurante, a fim de almoçarem. Gentilmente, facultou ao motorista sentar-se com ele à mesa. Por timidez, o homem preferiu ficar mais afastado, em outra mesa, onde se sentiria mais à vontade.

O Secretário pediu ao garçom o almoço e um refrigerante. O motorista chamou o garçom e cochichou-lhe: “Rapaz, pelo amor de Deus, eu estou aqui doido pra tomar uma chamada de cana. Quero que você me traga uma doze grande de cachaça, disfarçada numa xícara, pra meu chefe, que está ali, não notar.”

O garçom anotou os pedidos, inclusive o do motorista, e do meio do salão os transmitiu ao colega que atendia no balcão. Para surpresa do Secretário, soou-lhe aos ouvidos a voz estridente do garçom, lendo os pedidos anotados: – ” Pra mesa 5, uma coca cola e um filé com fritas! Pra mesa 8, aquela ali, o homem quer uma cana “disfalçada”, numa xícara!

O Secretário virou-se para a mesa onde estava Pedro Elias, encarou-o, e balançou a cabeça em sinal de reprovação. O motorista, sentindo-se perdido, levantou-se nervoso e protestou: – Eu mesmo não pedi isso não, doutor! Eu não quero é nada! Esse garçom se atrapalhou!” E saiu do restaurante, indo aguardar o Secretário no carro.

A viagem até João Pessoa prosseguiu em completo silêncio. O motorista, com medo de uma nova punição, ainda tentou explicar ao Secretário, sem êxito, que o garçom havia se enganado. Dr. José Silveira, visivelmente irritado, permaneceu calado, demonstrando não acreditar em nenhuma daquelas palavras.

E foi assim que ruiu por terra a picardia do motorista Pedro Elias, de pretender tomar uma chamada de cana, disfarçada, numa xícara.

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DEPOIS DO CARNAVAL

Hoje, depois do carnaval, literalmente, inicia-se o Ano Novo (2025). O Carnaval é uma festa que transcende fronteiras geográficas e temporais, representando tradição e inovação.

É uma verdadeira lavagem cerebral do povo, com show de bundas, vestidas apenas com fio dental, na televisão e nos blocos carnavalescos que enchem as ruas do País, onde as visões se turvam e a libido enlouquece.

No Carnaval, há uma lavagem cerebral generalizada e o brasileiro, durante o período de Momo, adormece a mente para os problemas diários, e foca apenas na nudez exibida na mídia, agitando os cérebros e proliferando desejos.

Com as fantasias minúsculas que exibem o corpo, e muita bebida, o carnaval dá uma prega na vida e no pensamento. Fica tudo pra depois…E o depois só traz contas a pagar.

O Carnaval é a expressão mais genuína da cultura brasileira. É o tempo em que o povo brasileiro se reúne para celebrar sua própria miséria e sua própria ignorância, e expor as suas bundas. Alguns aproveitam o carnaval para sair do armário e assumir seus distúrbios hormonais e suas taras.

O Carnaval é o verdadeiro “Laissez-faire”, expressão francesa, que significa “deixe fazer”. Ela é utilizada para identificar um modelo político e econômico de não – intervenção estatal. O poder público deixa tudo acontecer.

A Barra do Cunhaú, bela praia do Rio Grande do Norte (Canguaretama), que já foi um recanto familiar, onde se podia descansar com tranquilidade, atualmente, no carnaval, passou a ser invadida por visitantes carnavalescos perturbadores e inconvenientes, portando paredões e serviços de som, onde a baixaria da música Funk impera. É de fazer vergonha o nível de músicas Funk que esses visitantes impõem aos veranistas e proprietários. Um verdadeiro deboche, sob os olhos do poder público, que, mesmo disponibilizando diversos veículos de fiscalização, são desrespeitados pelos invasores. Ao serem avistados, impõem aos infratores apenas a diminuição do volume dos sons. Ao se afastarem, a barulheira volta a imperar.

Acorda, Barra do Cunhaú!

Os administradores estão se deixando dominar pelos forasteiros, e enxotando os veranistas e proprietários de imóveis. Permitem que os baderneiros invadam a praia, fazendo com que os veranistas e moradores batam em retirada, à procura de outros lugares, onde possam preservar a saúde.

* * *

Marcha de Quarta-Feira de Cinzas – Vinicius de Moraes

Acabou nosso carnaval
Ninguém ouve cantar canções
Ninguém passa mais brincando feliz
E nos corações, saudades e cinzas
Foi o que restou

Pelas ruas, o que se vê
É uma gente que nem se vê, que nem se sorri
Se beija e se abraça, e sai caminhando
Dançando e cantando cantigas de amor

E no entanto, é preciso cantar
Mais que nunca é preciso cantar
É preciso cantar e alegrar a cidade

A tristeza que a gente tem
Qualquer dia, vai se acabar, todos vão sorrir
Voltou a esperança, é o povo que dança
Contente da vida, feliz a cantar

Porque são tantas coisas azuis
Há tão grandes promessas de luz
Tanto amor para amar de que a gente nem sabe

Quem me dera viver pra ver
E brincar outros carnavais
Com a beleza dos velhos carnavais

Que marchas tão lindas
E o povo cantando seu canto de paz
Seu canto de paz, seu canto de paz
Seu canto…

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O CARNAVAL

Alguns estudiosos entendem o Carnaval como uma festa cristã, pois sua origem, na forma como entendemos a festa atualmente, tem relação direta com o jejum quaresmal.

Durante a Idade Média, as festas de Carnaval consistiam, principalmente, em bailes ao ar livre, nas praças públicas, e de serenatas feitas pelas pessoas mais importantes da cidade.

Os mascarados usavam uma espécie de capuz com duas orelhas bem compridas, que tinham em cada ponta um guiso.

Nem sempre os músicos se saíam bem nessas serenatas, pois se de algumas casas recebiam dinheiro e víveres, de outras, como nas dos comerciantes e pessoas ricas e avarentas, recebiam lixo, água suja e até estopa em chamas. Em represália, os músicos atiravam pedras nas casas, onde eram mal recebidos, sendo, por sua vez revidados, estabelecendo-se, assim, violentos combates.

Como acontecia quase sempre, resultarem vários feridos, a polícia proibiu essas festas. Também os mascarados e blocos grotescos terminavam quase sempre em pauladas, com grande alegria dos espectadores.

Até bem pouco tempo, o Carnaval de Nice (França) era muito afamado, pelos cortejos e carros artisticamente enfeitados. Os desenhos e “maquetes” para esses préstimos eram obras de dois pintores: pai e filho de nome Mossa, pouco conhecidos. Em 1874, Mossa teve a ideia de preparar um cortejo humorístico que tivesse, numa carroça, uma figura que seria proclamada como o rei do Carnaval.

Esta inovação foi muito aplaudida, tanto que nos anos seguintes foram muitos os imitadores, mas nenhum a suplantou.

Nas grandes oficinas de Mossa, quatro ou cinco meses antes do Carnaval, era intenso o trabalho e havia mais de sessenta pessoas trabalhando na confecção dos carros carnavalescos. As figuras eram feitas de papelão ou de armação de arame e depois vestidas. As cabeças eram verdadeiras obras de arte.

Os povos antigos do Oriente costumavam usar máscaras nas cerimônias. Na fabricação dessas máscaras, eles empregavam os materiais mais diversos.

No Museu de Londres ainda se encontra uma máscara feita de mosaico e malaquita, que foi usada pelos grandes sacerdotes. A malaquita é um carbonato básico de cobre que contém também cromo, cálcio e zinco e se forma em áreas de oxidação superficial em depósitos do mineral. Os egípcios faziam as máscaras de lâminas de ouro, de vidro, de uma espécie de cera, cujo segredo de fabricação possuíam, e até de madeira. Essas máscaras de madeira, porém, só serviam para cobrir os rostos das múmias.

Entre os gregos e romanos as máscaras tiveram utilidade menos fúnebre. Durante o espetáculo, cada ator aparecia com uma máscara que caracterizava seu papel na cena. Para cada idade, cada ramo social , desde o rei, o herói ou o escravo, havia uma máscara diferente, de modo que qualquer pessoa, por menos inteligente que fosse, que assistisse a um espetáculo, logo reconhecia em cada ator o personagem que representava.

Em Veneza, o Dooge – o supremo magistrado – oferecia, durante as festas do Carnaval, grandes bailes no Palácio do Governo. A “Ridotta” (assim se chamava a festa), reunia toda a nobreza veneziana.

Damas e Cavalheiros ostentavam luxuosas fantasias e exibiam caríssimas joias. Nos jardins, muito bem iluminados por lanternas de cores, também se dançava.

Os mascarados se disfarçavam com meias-máscaras de veludo preto, que tiveram sua origem na cidade de Veneza, e assim, irreconhecíveis, podiam fazer brincadeiras espirituosas e interessantes, sem correr o risco de serem descobertos.

Durante o baile, os criados percorriam os salões e jardins com bandejas cheias de guloseimas de toda espécie. Porém, algumas dessas gulodices eram recheadas com substâncias amargas, picantes ou então bem azedas, e aqueles que as recebiam faziam caretas, que muito divertiam os outros convivas. Mas, havia alguns que engoliam depressa o doce, sem dar a perceber aos outros o logro em que haviam caído, enquanto seus companheiros esperavam atentamente o menor sinal de repugnância, para estourarem em gostosas gargalhadas.

Repisando, o Carnaval teve sua origem na Antiguidade, onde se celebravam os deuses, e quando se permitia uma alteração na ordem social.

Desta maneira, os escravos e servos assumiam os lugares dos senhores e a população aproveitava para se divertir.

Embora seja conhecido como o país do Carnaval, o Brasil não é o único a comemorá-lo de forma intensa.

Cidades como Veneza (Itália), Nice (França), Nova Orleans (EUA), Ilhas Canárias (Espanha), Oruro (Bolívia) e Barranquilla (Colômbia), também celebram a festa de forma bem animada.

Na Babilônia, se realizava a comemoração das Saceias, onde era permitido que um prisioneiro assumisse a identidade do rei por alguns dias, sendo morto ao fim da comemoração. Igualmente havia uma celebração, no templo do deus Marduk, quando o rei era agredido e humilhado, confirmando a sua inferioridade diante da figura divina.

Já na Grécia Antiga, havia festas para se comemorar a chegada da primavera onde estava permitido que toda população, sem distinção de nascimento, participasse do evento. Celebração semelhante ocorria no Império Romano, na Saturnália, quando as pessoas se mascaravam e passavam dias a brincar, comer e beber.

Com a ascensão do Cristianismo, as festas pagãs ganharam novos significados. Assim, o Carnaval tornou-se a oportunidade dos fiéis despedirem-se de se alimentarem de carne. Inclusive, a palavra carnaval vem do latim carnis levale, que significa “retirar a carne”.

Para a Igreja Católica, o Carnaval antecede a Quaresma, o período de quarenta dias antes da Páscoa, onde se recorda o momento no qual Jesus esteve no deserto e foi tentado pelo demônio. O carnaval de Veneza se caracterizava pelos bailes e trajes ricamente elaborados.

Desde o início da sua comemoração, no Carnaval, as pessoas podiam esconder ou trocar de identidade.

Assim, tinham maior liberdade para se divertir, ao mesmo tempo que podiam adquirir características ou funções diferentes do que eram verdadeiramente: pobres podiam ser ricos, homens podiam ser mulheres, entre outros.

Em Veneza, Máscaras de Carnaval eram usadas pelos nobres, para esconder sua identidade e para que desfrutassem da festa junto ao povo, na clandestinidade.

Esta é a origem do uso da máscara, que é uma característica marcante desta celebração.

No Brasil, o Carnaval surgiu com o entrudo trazido pelos portugueses. Este consistia numa brincadeira quando as pessoas atiravam água, farinha, ovos e tinta uma nas outras.

Por sua parte, os africanos escravizados se divertiam nestes dias ao som de batuques e ritmos trazidos da África e que se mesclariam com os gêneros musicais portugueses. Esta mistura seria a origem da marchinha de carnaval e do samba, entre muitos outros ritmos musicais.

No começo do século XX, com o objetivo de civilizar a festa, a prática de lançar farinha e água foi proibida. Por isso, as pessoas começaram a importar dos carnavais de Paris e Nice o costume de jogar confetes, serpentinas e buquês de flores.

Com a popularização dos automóveis, as famílias mais abastadas do Rio de Janeiro, Salvador ou Recife, saíam com os carros e jogavam confetes e serpentinas nos passantes.

Esta tradição se manteve até a década de 30, quando se registrou o fim da fabricação dos automóveis descapotáveis e também pelo barateamento dos veículos que permitiam as classes populares entrarem na festa.

O Carnaval de rua era animado pelas marchinhas, um gênero musical parecido com as marchas militares, porém mais rápidas e com letras de duplo sentido. Desta maneira, criticam a sociedade, a classe política e a situação do país de maneira geral.

Considera-se que a primeira marchinha de Carnaval tenha sido “Ò Abre Alas”, escrita em 1899 pela compositora carioca Chiquinha Gonzaga.

Surgem os “ranchos”, as “sociedades carnavalescas” e os “cordões”, agrupações de foliões que saíam pelas ruas da cidade tocando as marchinhas e fazendo todos dançarem.

Com a popularização do rádio, as marchinhas caíram no gosto popular. Vários cantores registraram estas composições, mas cabe destacar os nomes de Carmem Miranda e Francisco Alves como os maiores intérpretes do gênero.

Na década de 60, a marchinha deu lugar ao samba-enredo das escolas de samba.

Começaram a surgir as escolas de samba. A primeira agremiação que surgiu no Rio de Janeiro se chamava “Deixa Falar”, hoje “Estácio de Sá”, em 1928. A origem do nome “escola” se dá ao fato de que os fundadores da “Deixa Falar” estavam num bar em frente a uma escola.

Hoje em dia, elas recebem o nome oficial de “Grêmio Recreativo Escola de Samba”, pois têm o compromisso de difundir a cultura na comunidade onde estão inseridas.

O Carnaval de rua no Rio de Janeiro sofreu um golpe com a construção do “Sambódromo”, que confinava os desfiles a este espaço. A festa passou a ser transmitida pela TV e os ingressos ficaram cada vez mais caros.

Os desfiles das escolas de samba, no Rio de Janeiro, acontecem na marquês de Sapucaí e terminam na Praça da Apoteose.

O Carnaval de rua sobrevivia nos subúrbios com grupos como o “Cacique de Ramos”, no centro da cidade, através de blocos como o “Cordão do Bola Preta” e os “Carmelitas”. Na Zona Sul carioca, havia a “Banda de Ipanema” e mesmo o “Imprensa que eu Gamo”, formado por profissionais da comunicação.

Parecia que a festa carioca mais popular estaria destinada aos turistas, mas um grupo de teatro amador, o Boitatá, ressurgiu com o costume de arrastar os foliões pela rua. Atualmente, quase 500 blocos desfilam pelas ruas cariocas.

Por ser um país de dimensões continentais, cada região do Brasil comemora o Carnaval de uma maneira diferente.

Duas capitais nordestinas, Salvador e Recife, destacam-se pela beleza de sua festa, a diversidade cultural e musical.

Em Salvador, os trios elétricos fazem a alegria dos foliões. Sua origem está ligada às batalhas de flores e aos corsos.

O primeiro trio elétrico foi inventado pelos músicos Dodô e Osmar, em 1950, quando utilizaram amplificação elétrica para seus instrumentos musicais. A partir daí, os demais carros fizeram o mesmo.

Dodô e Osmar animaram o carnaval baiano em 1952.

Se no Rio de Janeiro as marchinhas deram a tônica da festa, na Bahia o samba, a batucada, o axé, a timbalada e os grandes grupos de percussão como os “Filhos de Gandhi” são a marca da festa baiana.

A festa carnavalesca da capital de Pernambuco e da cidade de Olinda é animada pelo frevo. Igualmente, os recifenses utilizam os bonecos gigantes nos seus desfiles.

Estes bonecos vieram da Europa, pois em países como a Espanha, são confeccionados enormes figuras de reis, rainha e da corte, que passeiam pela cidade em certas festas religiosas.

A cada ano, as agremiações lançam novos rostos como jogadores de futebol, atores, personalidades que faleceram, heróis dos quadrinhos, etc.

Igualmente, os bonecos são usados para fazer crítica social e é comum ver políticos retratados por estes artistas.

Ao longo dos anos, o carnaval brasileiro se reinventou, adaptando-se aos tempos modernos sem perder sua essência.

Desfiles de escolas de samba, blocos de rua, bailes de máscaras e festas populares são apenas algumas das formas pelas quais essa festividade se manifesta Brasil afora.

Cada região do país imprime sua marca peculiar no carnaval, refletindo as múltiplas facetas de uma nação tão vasta e diversificada.

Pescando lirismo na grande obra “Lira de Poti” – Versos – 1949, do grande poeta Norte-riograndense ANTÔNIO SOARES (1847 a 1947), da Academia Norte-riograndense de Letras, trago o soneto “Carnaval” (1949)

CARNAVAL – Antônio Soares – 1949

Carnaval! Pelas praças e avenidas,
Sons de clarins e tilintar de guizos;
Verbos galantes, frases atrevidas,
Na confusão dos gestos e dos risos.

Carnaval! Pensamentos indecisos,
Intenções e palavras mal contidas;
Lábios em festa e corações incisos,
Olhos contentes e almas doloridas.

Carnaval! Sob a máscara esquisita,
Quantas vezes, cruel, barbaramente,
Um mundo de misérias não se agita!

Carnaval! Uns instantes de ventura
Trocados, muita vez, levianamente,
Por uma vida inteira de amargura!

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O LOBO MAU

As histórias do Lobo Mau nasceram na Europa, onde o lobo sempre foi um animal incompreendido e temido.

O Lobo Mau é um personagem que aparece em inúmeras fábulas folclóricas, incluindo as Fábulas de Esopo, e nas histórias dos Irmãos Grimm. É a personificação de um lobo mal-intencionado, famoso pelo seu apetite.

Pois bem. Um lobo mau estava pondo olhos grandes sobre um rebanho de carneirinhos que descansava à sombra amiga das grandes árvores. Como o lobo é feroz, os carneirinhos o temem.

O lobo preparou um plano para se aproximar dos mansos cordeiros, sem intimidá-los. Assim, envolveu-se com um manto e pôs um bastão às costas, querendo passar por um pastor que bem apascenta as suas ovelhas. Para completar o disfarce, colocou um chapéu na cabeça, onde escreveu uma mensagem para os cordeirinhos:

Tão astucioso era o lobo, que passou a usar um manto e um chapéu, onde escreveu: “Meus carneirinhos, eu sou Pedro, o pastor de vocês todos.” O lobo era mesmo muito sabido.

Pé ante pé, o falso Pedro foi se aproximando do rebanho, até chegar bem perto. Todos os carneirinhos estavam dormindo profundamente.

O lobo preparou o “bote”, tentando falar imitando a voz de um pastor. Foi aí que se perdeu.

A voz do lobo saiu horrenda e cavernosa. Voz de lobo mau mesmo. Uma voz que apavora o mundo todo.

O pastor e os carneirinhos acordaram todos, aterrorizados.

Descoberto no seu plano macabro, o lobo malvado não pôde fugir, nem se defender, atrapalhado pelos disfarces que estava usando.

O rebanho escapou ileso e o lobo mau.

Há sempre um pequeno imprevisto que põe a perder os planos de um malfeitor.

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“Ó ABRE ALAS”

O Carnaval de antigamente era um encanto, um bálsamo, um deslumbramento, e fazia bem à alma das pessoas, exceto aquelas que se reuniam em seus retiros espirituais, levadas pela religiosidade.

No tempo em que o rádio era o maior sucesso da tecnologia, o carnaval era caseiro e toda a família se divertia ao som dos rádios.

As marchinhas de carnaval estrondavam nas rádios brasileiras e a criatividade do pensamento projetava nas mentes saudáveis a beleza do carnaval que acontecia nas principais capitais do País, principalmente o carnaval Pernambucano e o da Cidade Maravilhosa.

Mesmo com a pobreza própria de cada cidade, o povo nordestino também sempre comemorou o carnaval.

O sentido do carnaval, bem diferente do sentido natalino, traz alegria ao povo, independente de classe social. Enquanto o Natal é festa dos ricos, o Carnaval traz alegria a todas as camadas sociais, trazendo ao povo euforia, alegria e também confraternização. No meu entender, o Carnaval embriaga a tristeza, e os pobres se contagiam com o glamour dos ricos. Durante o carnaval, o normal é haver uma prega na tristeza. É festa de ricos e pobres, não se falando em presentes natalinos, “perus do natal” ou bebidas caras.

Por isso, sou fã do carnaval.

Carnaval é uma festa popular marcada pelos exageros. Tem forte ligação com o catolicismo e possui relações com festivais realizados na Antiguidade.

O Carnaval chegou ao Brasil durante a colonização e transformou-se na maior festa popular do país.

Apesar do forte secularismo presente no Carnaval, a festa é tradicionalmente ligada ao catolicismo, uma vez que sua celebração antecede a Quaresma. O Carnaval não é uma invenção brasileira, pois sua origem remonta à Antiguidade. O secularismo é a separação entre o Estado e as instituições religiosas, que garante a liberdade de crença e a igualdade de tratamento para todas as religiões.

A palavra Carnaval é originária do latim, carnis levale, cujo significado é “retirar a carne”. Esse sentido está relacionado ao jejum que deveria ser realizado durante a Quaresma e também ao controle dos prazeres mundanos. Isso demonstra uma tentativa da Igreja Católica de controlar os desejos dos fiéis.

A história do Carnaval no Brasil iniciou-se no período colonial. Uma das primeiras manifestações carnavalescas foi o entrudo, uma brincadeira de origem portuguesa que, na colônia, era praticada pelos escravos. Nela, as pessoas saíam às ruas sujando umas às outras, jogando lama, urina etc. O entrudo foi proibido em 1841, mas continuou até meados do século XX.

Depois, surgiram os cordões e ranchos, as festas de salão, os corsos, e as escolas de samba. Afoxés, frevos e maracatus também passaram a fazer parte da tradição cultural carnavalesca brasileira. Marchinhas, sambas e outros gêneros musicais foram incorporados, posteriormente, à maior manifestação cultural do Brasil.

A primeira marchinha de carnaval brasileira, Ó Abre Alas, foi composta por Chiquinha Gonzaga em 1899. A marcha-rancho Ó Abre Alas foi criada para embalar o desfile do cordão Rosa de Ouro, no Rio de Janeiro.

Ó Abre Alas é a composição mais conhecida de Chiquinha Gonzaga e aquela de maior sucesso.

Repetindo, a canção foi feita para o Cordão Carnavalesco Rosa de Ouro, citado na letra. O sucesso é considerado a primeira marcha carnavalesca da história.

Na época, Chiquinha Gonzaga morava no Andaraí, já era compositora consagrada, quando integrantes do Cordão a procuraram com o pedido de um “hino” para as folias momescas daquele ano, como registrou o historiador Geysa Boscoli, seu parente. Apesar de sua posição, não refutou o pleito que resultou na vitória do Cordão no carnaval. Era comum, naquele tempo, os cordões entoarem versos que anunciavam sua passagem, e a marcha de Chiquinha antecipou um gênero que só veio a se firmar duas décadas após.

Entre os anos 1901 e 1910, “Ó Abre Alas” foi grande sucesso nos carnavais, tornando-se símbolo do carnaval carioca, até os dias atuais.

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O ANJO

Mais uma vez, o Carnaval se aproxima, trazendo à nossa memória as mais remotas lembranças de uma infância e juventude felizes, e de um passado feito de encanto, pureza, candura e divertimentos saudáveis. Uma época em que a maldade nem tinha nascido. Um passado de décadas atrás.

Em Nova-Cruz (RN), minha terra natal, o Carnaval era esperado com alegria e os blocos carnavalescos eram organizados com criatividade e arte. Não havia luxo, mas havia euforia, respeito e muita amizade consolidada entre as famílias, incluindo jovens e adultos.

As fantasias que enchiam de brilho os olhares esperançosos, pareciam ungidas da mais pura água, que lavava a alma da juventude e dos adultos, unindo os corações e transformando em intensa alegria o período carnavalesco. Não havia brigas nem excessos de bebidas.

O Carnaval era esperado com ansiedade e alegria.

Pois bem. Morava em Nova Cruz (RN) um rapaz de nome José Teixeira, filho de uma viúva, pertencente a uma ramificação de tradicional família daquela cidade.

Dizem que, desde criança, sempre demonstrou tendência feminina nos gestos, preferindo os brinquedos das meninas e desprezando carrinhos e bolas com que os meninos brincavam. Cresceu assim, e, dessa forma, tornou-se rapaz, passando a se dedicar às prendas domésticas.

Revelou-se um verdadeiro artista, aprendendo a bordar, pintar, confeccionar flores e chapéus femininos ornamentados.

Com o passar do tempo, José Teixeira dedicou-se completamente à decoração de ambientes e preparação de festas, difundindo cada vez mais suas habilidades artísticas. Com elas, passou a ganhar dinheiro, ajudando no sustento da mãe, viúva pobre, e suas duas irmãs.

Era religioso, educado, e sabia respeitar as pessoas, sendo por isso também respeitado. Nenhuma festa acontecia na cidade, sem que estivessem presentes a sua arte e o seu bom gosto. O preparo de altares na Matriz da Imaculada Conceição, Padroeira da cidade, os andores para as procissões, festas de casamento, aniversários, enfim, quaisquer acontecimentos festivos contavam com a sua indispensável participação.

Tornou-se o decorador oficial da cidade, nos eventos públicos ou privados, inclusive nas festas religiosas do final do ano, onde havia uma Quermesse para angariar fundos para a Igreja.

Eram frequentes os jantares, os saraus, os bailes, as procissões e novenas, como manifestações da realidade artística, religiosa e social da cidade. Em tudo, estava a presença marcante desse filho de Nova-Cruz.

Merece destaque o fato de José Teixeira nunca ter escondido sua tendência feminina, mantendo, entretanto, uma conduta discreta e digna. Vivia para o trabalho, e nunca se meteu em fofocas. Seu excelente círculo de amizade incluía moças, senhoras casadas, senhores e rapazes. Até o Padre da Paróquia de Nova-Cruz lhe fazia elogios publicamente, em agradecimento pelo seu trabalho de embelezador e colaborador das festas e procissões.

Nessa época remota, o distúrbio genético apresentado por José Teixeira era raro, e a cidade que o viu nascer o aceitava como era.

Sua presença tornou-se indispensável nas festas de aniversários, casamentos e bailes. Também ocupava lugar de honra na vida familiar da cidade, sendo sempre convidado para almoços e jantares, e ainda para padrinho de crianças. Tornou-se amigo e confidente de todos.

A cidade se desenvolveu e passou a ter mais festas, aumentando também o prestígio de José Teixeira. Era um verdadeiro “patrimônio” artístico de Nova-Cruz.

Surgiu o primeiro bloco de carnaval da cidade, tendo José Teixeira como organizador, decorador e figurinista. Esse bloco saía às ruas de Nova-Cruz no tríduo carnavalesco, “assaltando” as residências de pessoas da cidade, onde era recebido com bebidas e salgadinhos, à vontade.

As calçadas e ruas transformavam-se em salões de festa e a alegria era imensa.

O nosso Tio Paulo, uma figura inesquecível, era um dos maiores incentivadores do bloco, e o “assalto” à sua casa era indispensável! Irmão do nosso pai, Francisco, as casas eram vizinhas, e o “assalto” era aproveitado por nós, ainda crianças. Dançávamos no meio da rua, jogando confetes e serpentinas, presenteadas por ele, num clima de felicidade sem igual.

Tio Paulo distribuía lança-perfumes para os seus amigos, compradas em Natal, que eram usadas para perfumar o cangote das moças. E o cheiro se espalhava pelo ar. Não havia porre, loló nem brigas. O carnaval era só alegria e higiene mental.

O Rei Momo e a Rainha do Carnaval eram eleitos, uma semana antes, por uma comissão apontada por José Teixeira, da qual fazia parte.

José Teixeira confeccionava as alegorias, porta-estandartes e as fantasias para o carnaval.

Pierrôs, Colombinas, Arlequins, Odaliscas (vem Odalisca do meu harém vem, vem vem… ) e Piratas eram as principais fantasias.

A tarde entrava pela noite, com trombones, tamborins e outros instrumentos, executando os mais belos e tradicionais frevos e marchinhas de carnaval. A cidade era calma e o povo todo era conhecido.

Não havia o carnaval sensual/sexual de hoje, e os seios e nádegas eram guardados com recato.

As marchinha e frevos não tinham maldade. Tinham beleza e poesia.

Podemos dizer que, em Nova-Cruz, foi José Teixeira quem inventou o carnaval, o bloco, a alegoria e o estandarte, quando a maldade não tinha nascido.

Assim era José Teixeira. Totalmente feminino, amado, respeitado, e aceito por todos, sem sofrer exclusão pelo seu modo involuntário de ser.

Para mim, ele era um Anjo. E Anjo não tem sexo…

Hoje, desapareceu a pureza. Os Pierrôs, Colombinas, Arlequins, Odaliscas e Piratas se desnudaram. Restaram expostos, em abundância, seios, nádegas e tatuagens. A irreverência tomou conta da festa de momo.

A modernidade nos deixou apenas o direito de nos fantasiar de PALHAÇOS!!!Palhaços das nossas ilusões! E é a fantasia de palhaço, com seu nariz de bola vermelha, a que mais se adapta ao povo brasileiro, com seu riso sardônico, sem razão ser.

Decepcionados, abafamos no peito a saudade dos velhos carnavais.

O cheiro de lança-perfumes sumiu! Roubaram as fantasias do nosso povo!

Roubaram o sorriso de felicidade, que existia nos rostos nos dias de carnaval.

Ó, ABRE ALAS, QUE EU QUERO PASSAR!

Salve José Teixeira, o Eterno Anjo de Nova-Cruz!

VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

AS PROPAROXÍTONAS

A dupla caipira “Alvarenga e Ranchinho”, formada em 1929 por Murilo Alvarenga, mineiro de Itaúna, e Diésis dos Anjos Gaia, paulista de Jacareí, iniciou sua carreira apresentando-se em circos no interior de São Paulo.

Em 1934, Murilo e Diésis foram contratados pelo maestro Breno Rossi e passaram a se apresentar na Rádio São Paulo.

A carreira da dupla se consolidou, após a mudança para o Rio de Janeiro, onde os dois gravaram o seu primeiro disco, em 1936, e passaram a integrar o grupo de atrações do Cassino da Urca. Foi aí que trabalharam durante dez anos e aprimoraram o talento para a sátira política, uma das suas principais características. Por causa dessas sátiras, participaram de dezenas de campanhas eleitorais e também acabaram presos diversas vezes.

A dupla participou do primeiro filme falado feito em São Paulo, “Fazendo Fita”, (1935), levada por Ariovaldo Pires, o Capitão Furtado. Fizeram participações em mais de 30 filmes.

Em 1949, a dupla “Alvarenga e Ranchinho” lançou a composição “O Drama de Angélica”, na qual, cada verso termina com uma palavra proparoxítona, ou seja, a sílaba tônica cai na antepenúltima sílaba. Essa música foi o seu maior sucesso.

Ao que parece, essa dupla foi a precursora das composições com versos terminados em palavra proparoxítona.

O Drama de Angélica” nos remete àqueles “causos” que ouvíamos de nossos antepassados, histórias das quais ansiávamos pelo final, mesmo que fosse trágico. Uma verdadeira novela, arrebatadora, com idas e vindas, em uma interpretação perfeita da dupla. Ao final, não há como não sorrir, em face do modo satírico, como é contado “O Drama de Angélica”.

A formação original da dupla se desfez em 1965, quando Diésis a abandonou definitivamente. Sumiços anteriores já haviam ocorrido, quando, então, havia sido substituído por Delamare de Abreu, irmão por parte de mãe de Murilo Alvarenga.

Com o rompimento definitivo, um “terceiro” Ranchinho surgiu, Homero de Souza Campos, conhecido também como Ranchinho da Viola e como “Ranchinho II” (apesar de ter sido o “terceiro”). Homero cantou com Alvarenga de 1965 até o falecimento deste, em 1978.

Pois bem. Em 1971, cerca de vinte anos depois do lançamento de “O Drama de Angélica”, de “Alvarenga e Ranchinho”, foi lançado o LP “CONSTRUÇÃO”, de Chico Buarque de Holanda, com dez músicas belíssimas, onde se destaca “Construção”, que dá nome ao disco, com estrondoso sucesso no cenário da MPB.

Por coincidência, “Construção” de Chico Buarque e “O Drama de Angélica”, da dupla caipira “Alvarenga e Ranchinho”, tem em comum, versos cuja última palavra é proparoxítona. Além disso, “Construção” também retrata um drama do cotidiano, tal qual a música “O Drama de Angélica”, com a diferença de que esta última tem conotação satírica.

Para muitos admiradores, somente Chico Buarque, com a sua inteligência privilegiada, seria capaz de usar essa peculiaridade, numa composição musical.

Indiscutivelmente, Chico Buarque é genial. Mas, em relação às proparoxítonas ao final dos versos, a dupla caipira, “Alvarenga e Ranchinho”, já tinha feito o mesmo, há mais de vinte anos (1949), com a música “O Drama de Angélica”.

A coincidência de versos, finalizando com uma palavra proparoxítona, feitos por compositores de mundos e épocas diferentes, chamou a atenção da crítica.

Na verdade, a genialidade é universal. Não existe regra geral para se nascer gênio, pessoa com grande capacidade mental. Ela pode se manifestar por um intelecto de primeira grandeza, ou um talento criativo fora do comum.

Chico Buarque, intelectual com ótima formação cultural, e a dupla “Alvarenga e Ranchinho”, de origem humilde, que iniciou a carreira artística em circo, tiveram inspirações parecidas, ao escrever um drama, com versos terminados com uma palavra proparoxítona.

Ainda hoje, o LP “CONSTRUÇÃO”, de Chico Buarque, lançado no início de 1971, é considerado um dos grandes discos da história da MPB, com versos alexandrinos (o que contém doze sílabas poéticas) e uma palavra proparoxítona no final de cada verso.

O primeiro poeta brasileiro a usar versos alexandrinos foi Machado de Assis, ainda no período do Romantismo, movimento artístico caracterizado pelo sentimentalismo, subjetivismo e fuga da realidade.

Esse movimento surgiu no século XVIII na Europa, durante a revolução industrial, e logo se espalhou por diversos países, como: França, Alemanha, Inglaterra, Brasil e Portugal. Durou até meados do século XIX, quando surgiu o Realismo.

A coincidência que há nas duas canções, “O Drama de Angélica (1949 – Alvarenga e Ranchinho) e “Construção” (1971 – Chico Buarque) não está relacionada somente à presença de uma palavra proparoxítona no final de cada verso. As duas canções descrevem, respectivamente, um drama do cotidiano.

Chico Buarque descreve, em “Construção”, o dia a dia de um operário da construção civil, com todos os riscos e desencantos, usando versos alexandrinos ( o que contém doze sílabas poéticas) e uma palavra proparoxítona no final de cada verso. No caso, as proparoxítonas funcionam como tijolos em uma construção mágica e trágica, em uma tensão crescente, embalada pelo bonito arranjo do maestro Rogério Duprat (1932 – 2006).

Chico Buarque é um intelectual, com sólida formação cultural. Tornou-se um ícone da Música Popular Brasileira.

Por sua vez, a dupla “Alvarenga e Ranchinho”, de origem humilde, iniciou a carreira artística em circo e tornou-se um ícone da música caipira, hoje chamada “Música Sertaneja”.

Salve a genialidade do Compositor Brasileiro!

Drama de Angélica (1949) – Murilo Alvarenga e M.G. Barreto (Letra completa no final da postagem)

* * *

Construção, de Chico Buarque

* * *

Drama de Angélica

Ouve meu cântico
quase sem ritmo
Que a voz de um tísico
magro esquelética

Poesia épica
em forma esdrúxula
Feita sem métrica
com rima rápida

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VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

RECORDANDO UM SONHO LINDO

O passado sempre nos volta em sonhos. E nada mais gratificante do que passarmos a noite revivendo momentos felizes dos tempos idos e vividos, quando no sonho estão presentes figuras queridas e inesquecíveis.

Tenho por hábito pôr em prática o que Freud ensina, em “Além da Alma.” Quando o sonho é bom, ao acordar, registro-o num caderno que trago sempre ao lado da minha cama.

Hoje, sonhei com minha mãe, cantarolando “Garoto da Rua”, uma das suas músicas preferidas (1947 – composição de Renê Bittencourt e gravação de Augusto Calheiros).

Ao acordar, ouvi a música mais de uma vez e de repente me veio à memória a beleza de “Nós, os Meninos de Palmares”, primeiro capítulo do livro “A Prisão de São Benedito e Outras Histórias”, obra prima do consagrado escritor Luiz Berto.

O livro é belíssimo desde a capa, as orelhas escritas pelo autor, e a fabulosa apresentação do poeta Orlando Tejo.

Sobre a Prisão de São Benedito e Outras Histórias, escreveu o poeta Orlando Tejo, em artigo publicado na Revista A REGIÃO, Recife, 1983:

“Há alguns meses, porém, A Prisão de São Benedito e outras histórias”, o mais opulento livro que já li em seu gênero, possibilitou-me a visão clara e geral do universo palmarense.

Nunca os tipos populares de nenhum lugar mereceram perfis literários mais precisos. Nenhum deles é caricaturado. São todos fotografados com a exatidão da arte que se pode exigir de um mestre. Luiz Berto os faz desfilar em assombrosa passarela universal, cada um deles com seus cacoetes humanos e suas características congênitas, fundo do riquíssimo cotidiano local que, em verdade, não é diferente do dia a dia de nenhuma outra cidade interiorana. Todas as cidades possuem os mesmos doidos, os mesmos boêmios, os mesmos aleijados, as mesmas prostitutas, as mesmas presepadas; e os bares, o cabaré, a noite, o clima de vida, o folclore, enfim, são clichês.

Tipos populares, portanto, não são privilégios de lugar nenhum. Ocorre, todavia, que somente Palmares deu um Luiz Berto. E isso explica o fenômeno. É o mesmo que pensarmos o que seria a Bahia sem Jorge Amado.”

Diz o Escritor Luiz Berto que não é poeta. “Nós, os meninos dos Palmares”, entretanto, é poesia pura; puro lirismo, característica dos poetas. Os meninos de Palmares eram “apontadores de estrelas”, “gáveas ao vento’, e “bebiam até a última gota naquele pote de felicidade.” Colocações poéticas lindíssimas!

Teimo em dizer, que o Escritor Luiz Berto é um dos maiores poetas que eu conheço. Seus escritos são poemas em prosa.

O garoto da rua, de que fala a composição de Renê Bittencourt, tinha a mesma alma dos meninos de Palmares, os mesmos sonhos, a mesma liberdade e as mesmas aspirações. Era um craque na bola de meia e andava com o bolso pesado de bolas de gude.

Nós, os meninos de Palmares” é o retrato de uma infância feliz, que marcou uma época em que a maldade não tinha nascido.

Augusto Calheiros – GAROTO DA RUA

VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

ACONTECÊNCIAS DA FEIRA DE NOVA-CRUZ (RN)

Décadas atrás, entrando pelo século passado, a pequena cidade de Nova – Cruz (RN) era paupérrima. Sem água e sem luz, também não dispunha de consultórios médicos, ambulatórios nem hospitais.

A mortalidade infantil era absurda. A criança adoecia à tarde e antes de amanhecer o dia estava morta. Lá, não havia assistência médica nenhuma, e, consequentemente, não havia plantão médico.

Chá de canela era o “remédio” que os curiosos indicavam para os bebês, quando de repente ficavam febris, pálidos e choramingando. Foi assim que vi um irmãozinho meu, Galdino, morrer, no dia em que completou sete meses de idade, ao sofrer uma convulsão pela madrugada. Tinha amolecido à noitinha, ficou febril e foi “medicado” por um conhecido charlatão da cidade, que, em sua casa, consultava o povo da roça, dia de feira. O remédio por ele indicado foi chá de canela, achando que deveria ser uma gripezinha.

Nunca esqueci o desespero da minha mãe naquela madrugada, gritando desolada, sem querer acreditar que a criança estava morta. Meu pai, também desesperado, tentava acalmá-la, mas era em vão. Eu tinha pouco mais de quatro anos. Nunca esqueci essa terrível cena, numa madrugada escura e fria.

Pela manhã, a casa se encheu de gente. À tarde, houve o enterro de Galdininho (como minha mãe o chamava), com a presença de familiares da minha mãe, que moravam em Natal. Essas coisas tristes da vida, a gente nunca esquece…

Pois bem. A feira municipal de Nova – Cruz (RN) acontecia na segunda – feira. Era considerada a maior feira da região agreste. Começava pela madrugada e se estendia até o final da tarde.

Do balcão da venda do nosso pai, assistíamos a um verdadeiro espetáculo de cultura popular: As cantigas dos cegos, pedindo esmolas, e insultando uns aos outros, defendendo seus direitos àquele ponto. Era uma verdadeira festa do Cordel. Os desafios eram hilários e maliciosos.

A feira era um verdadeiro encontro ou reencontro de almas. Era um dia divertido, com meu pai, minha mãe e quase todos os filhos no balcão da venda. Em frente, havia duas barracas que vendiam cocorotes (de coco), bolo branco (hoje chamado “bolo da moça”) e doce americano (geleia de coco). Nunca me esqueci do gosto dos cocorotes. Tudo era uma gostosura.

Mais adiante, chegava um vendedor ambulante, com uma mala cheia de óculos de grau para vender, e formava-se uma fila de pretensos “clientes”, para comprar óculos, cujo grau lhes permitisse ler as letrinhas da caixinha de fósforo “OLHO”. Esse era o teste para aprovação do grau.

A precariedade da vida em Nova – Cruz forçava o povo a dar preferência aos óculos vendidos pelo ambulante. Além do mais, se o problema fosse apenas “vista curta”, seria mais cômodo e mais em conta comprar os óculos já prontos na feira, do que ter que viajar a Natal, somente para esse fim. Os compradores de óculos ficavam satisfeitos quando enxergavam perfeitamente as letrinhas da caixinha de fósforos “OLHO”. Era o sinal de que o grau era aquele.

De Nova – Cruz a Natal são 110km. Entretanto, naquela época (60/70), em estrada de barro, a viagem de ônibus levava de 4 a 5 horas. Durante o inverno, o atoleiro era grande. Por isso, os feirantes da zona rural eram acostumados a comprar óculos de grau na feira, já prontos. A aprovação dos óculos era 100%, e ninguém reclamava. Meu saudoso tio Paulo Bezerra, por comodidade, também só comprava óculos de grau na feira, e se dava muito bem.

Também na feira de Nova – Cruz, costumava estar presente um homem vestido com uma bata branca, com pose de doutor, que ali armava uma pequena banca e sobre ela mantinha uma garrafada, que continha um ácido para “tirar” sinais da pele. Nessa época, não se falava em carcinoma. A fila de pessoas que pagavam para tirar sinais era grande. Nunca se soube de um insucesso de um desses “procedimentos cirúrgicos”. Hoje, esse homem seria preso por charlatanismo. Meus tios Paulo Bezerra e Eulina Bezerra chegaram a tirar alguns sinais com ele e os “procedimentos” foram muito bem sucedidos.

Essas lembranças fazem parte da minha saudade. Volto à minha infância e juventude. Essa feira, na minha vida, foi muito mais do que uma simples feira.