VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

EVOCANDO “O BOBO DA CORTE”

“Bobo da Corte” era o nome que se dava ao “funcionário” contratado pelas cortes europeias, na Idade Média, com a finalidade de divertir o rei, a rainha e seu séquito.

Comparado a um palhaço, o bobo, muitas vezes, contrariava a Corte, com brincadeiras abusivas, que apontavam de forma grosseira os defeitos da sociedade.

Esse “funcionário” era o único que podia fazer críticas irônicas ao rei, sem correr o risco de ser punido. Também participava dos banquetes do reino. Usava uniformes coloridos, espalhafatosos, e chapéus bizarros, com pontas e alguns chocalhos amarrados.

Além de fazer a corte rir com palhaçadas, o “Bobo da Corte” também declamava poesias, tocava algum instrumento, dançava, cantava, fazia mímicas e malabarismos. Era o cerimonialista das festas. Sua característica principal era o exibicionismo e o exagero, tanto nos trajes usados, como nos gestos e palavras.

Esses plebeus, pagos para divertir a nobreza e a realeza, não eram loucos nem tinham deformidades físicas. Também não faziam parte do grupo de corcundas e anões, que muitas cortes adotavam como circo particular.

Para alguns estudiosos, o “Bobo da Corte” era um sabidão, e de bobo só tinha o nome.

Na opinião do grande filósofo do século XVI, Erasmo de Rotterdan, o “Bobo da Corte” tinha, paralelamente, um papel principal, oculto, na Corte: Era ele quem contava ao rei o que ninguém queria que o rei ficasse sabendo. Era o espelho de todo o grotesco dos hábitos da Corte. Era uma espécie de “dedo duro” ou informante, com livre acesso ao rei. Era o fuxiqueiro da Corte.

A figura do Bobo da Corte sempre esteve associada ao divertimento, palhaçadas, e ao prazer que davam ao rei suas piadas e brincadeiras.

Usando-se a caracterização do “Bobo da Corte”, foi criada a décima terceira carta do baralho, o Curinga, a carta que pode alterar o jogo completamente.

Entre as habilidades do “Bobo da Corte”, estava ainda a de imitar ou “arremedar” as atitudes e gestos faciais e corporais das pessoas do reino. Também contava histórias por ele criadas, cheias de disparates e indiretas, incitando a reflexão das pessoas para a incoerência do comportamento dos poderosos.

O gênio do teatro inglês, William Shakespeare (1564-1616), deu destaque à figura dos bobos, dando a eles papeis de grande importância em sua obra. Nas suas peças “Rei Lear” e “A Noite de Reis”, o autor elevou a posição do bobo junto aos poderosos, com interpretações de papeis de grande importância e destaque. O bobo, nessas peças, é o personagem que se sobressai pela esperteza e inteligência. Pode fazer críticas aos próprios reis, com comentários picantes, mas com os quais o público vai às gargalhadas.

No baralho, o Bobo da Corte é representado pelo Curinga, a carta que pode alterar o jogo completamente.

A figura do “Bobo da Corte” existiu até o século XVII.

O vocábulo “bobo” consta no MINIDICIONÁRIO DA LÍNGUA PORTUGUESA, de Ruth Rocha, como “Palhaço que divertia os nobres”.

Nos tempos atuais, a expressão “bobo da corte” é usada de forma pejorativa. Caracteriza alguém, sem conteúdo ou sem seriedade, uma figura tola e hilária, que não pode ser levada a sério.

Há vários “Bobos da Corte” na política atual. Verdadeiros palhaços, que fazem do povo brasileiro gato e sapato, e atropelam os preceitos constitucionais.

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FALANDO EM CARNAVAL

Hoje, o assunto é Carnaval, coisa muito importante nos dias de hoje, quando, no nosso País, vivemos um clima de vulgaridade e ofensas.

O Carnaval é considerado reminiscência das festas pagãs Greco-romanas, que ocorriam entre dezembro e fevereiro.

No Brasil, o Carnaval chegou com os portugueses, na comemoração do entrudo, que festejava a entrada da primavera e abria as solenidades litúrgicas da Quaresma, período da abstinência de carne – palavra que designa o nome carnaval.

O entrudo era uma festa barulhenta, suja, e por vezes, violenta.

Foi a partir da segunda metade do séc. XIX, que o entrudo passou a conviver com bailes de máscara em teatros e clubes, à moda europeia.

A primeira música carnavalesca composta no Brasil foi “Ô Abre-alas”, composta por Chiquinha Gonzaga em 1899. Sinhô, compositor da época, também é considerado o pioneiro da mistura de classes sociais no carnaval. Primeiro passo, rumo à concepção atual dos desfiles das grandes escolas de samba.

Aos poucos, o carnaval foi se transformando na expressão que mais representa a identidade cultural do brasileiro, reflexo de sua formação, de sua história, de suas venturas e desventuras.

O Carnaval reúne samba, frevo, festa de rua, com muita gente suada, corpos bronzeados, beleza, erotismo, e, acima de tudo, uma explosão de alegria. No carnaval, há uma mistura de classes sociais. Não se sabe, ao certo, se a explosão de alegria do Carnaval representa felicidade ou desespero.

As grandes escolas de samba aproveitam o Carnaval para fazer denúncias sociais e protestar contra a política.

Nos dias de Carnaval, não me canso de evocar Nova-Cruz (RN), minha terra Natal.

Olho pelo retrovisor do tempo e me vejo menina, num clima de alegria, com confete, serpentina e cheiro de lança-perfume, numa época em que ninguém tinha morrido, nem a maldade havia nascido.

Pois bem. Morava em Nova Cruz (RN) um rapaz de nome José Teixeira, filho de uma viúva, pertencente a uma ramificação de tradicional família daquela cidade. Dizem que, desde criança, sempre demonstrou tendência feminina nos gestos, preferindo os brinquedos das meninas e desprezando carrinhos e bolas com que os meninos brincavam. Cresceu assim, e, dessa forma, tornou-se rapaz, passando a se dedicar às prendas domésticas. Revelou-se um verdadeiro artista, aprendendo a bordar, pintar, confeccionar flores e chapéus femininos ornamentados.

Com o passar do tempo, José Teixeira dedicou-se completamente à decoração de ambientes e preparação de festas, difundindo cada vez mais suas habilidades artísticas. Com elas, passou a ganhar dinheiro, ajudando no sustento da mãe, viúva pobre, e suas duas irmãs.

Era religioso, educado, e sabia respeitar as pessoas, sendo por isso também respeitado. Nenhuma festa acontecia na cidade, sem que estivessem presentes a sua arte e o seu bom gosto. O preparo de altares na Matriz da Imaculada Conceição, Padroeira da cidade, os andores para as procissões, festas de casamento, aniversários, enfim, quaisquer acontecimentos festivos contavam com a sua indispensável participação.

Tornou-se o decorador oficial da cidade, nos eventos públicos ou privados, inclusive nas festas religiosas do final do ano, onde havia uma Quermesse para angariar fundos para a Igreja. Eram frequentes os jantares, os saraus, os bailes, as procissões e novenas, como manifestações da realidade artística, religiosa e social da cidade. Em tudo, estava a presença marcante desse filho de Nova-Cruz.

Merece destaque o fato de José Teixeira nunca ter escondido sua tendência feminina, mantendo, entretanto, uma conduta discreta e digna. Vivia para o trabalho, e nunca se meteu em fofocas. Seu excelente círculo de amizade incluía moças, senhoras casadas, senhores e rapazes. Até o Padre da Paróquia de Nova-Cruz lhe fazia elogios publicamente, em agradecimento pelo seu trabalho de embelezador e colaborador das festas e procissões. Nessa época remota, o distúrbio genético apresentado por José Teixeira era raro, e a cidade que o viu nascer o aceitava como era.

Sua presença tornou-se indispensável nas festas de aniversários, casamentos e bailes. Também ocupava lugar de honra na vida familiar da cidade, sendo sempre convidado para almoços e jantares, e ainda para padrinho de crianças. Tornou-se amigo e confidente de todos. A cidade se desenvolveu e passou a ter mais festas, aumentando também o prestígio de José Teixeira. Era um verdadeiro “patrimônio” artístico de Nova-Cruz.

Surgiu o primeiro bloco de carnaval da cidade, tendo José Teixeira como organizador, decorador e figurinista. Esse bloco saía às ruas de Nova-Cruz no tríduo carnavalesco, “assaltando” as residências de pessoas da cidade, onde era recebido com bebidas e salgadinhos, à vontade. As calçadas e ruas transformavam-se em salões de festa e a alegria era imensa.

O nosso Tio Paulo, uma figura inesquecível, era um dos maiores incentivadores do bloco, e o “assalto” à sua casa era indispensável! Irmão do nosso pai, Francisco, as casas eram vizinhas, e o “assalto” era aproveitado por nós, ainda crianças. Dançávamos no meio da rua, jogando confetes e serpentinas, presenteadas por ele, num clima de felicidade sem igual.

Tio Paulo distribuía lança-perfumes para os seus amigos, compradas em Natal, que eram usadas para perfumar o cangote das moças. E o cheiro se espalhava pelo ar. Não havia porre, loló nem brigas. O carnaval era só alegria e higiene mental. O Rei Momo e a Rainha do Carnaval eram eleitos, uma semana antes, por uma comissão apontada por José Teixeira, da qual fazia parte.

José Teixeira confeccionava a alegoria, porta-estandartes e as fantasias para o carnaval. Pierrôs, Colombinas, Arlequins, Odaliscas (vem Odalisca do meu harém vem, vem vem… ) e Piratas eram as principais fantasias. A tarde entrava pela noite, com trombones, tamborins e outros instrumentos, executando os mais belos e tradicionais frevos e marchinhas de carnaval. A cidade era calma e o povo todo era conhecido. Não havia o carnaval sensual/sexual de hoje, e os seios e nádegas eram guardados com recato. As marchinha e frevos não tinham maldade. Tinham beleza e poesia.

Podemos dizer que, em Nova-Cruz, foi José Teixeira quem inventou o Carnaval, o bloco, a alegoria e o estandarte, numa época em que a maldade nem pensava em nascer. Assim era José Teixeira. Totalmente feminino, amado, respeitado, e aceito por todos, sem sofrer exclusão pelo seu modo involuntário de ser. Para mim, ele era um Anjo. E Anjo não tem sexo…

Hoje, desapareceram a pureza e o lirismo das músicas de carnaval! Roubaram as fantasias do nosso povo. Os Pierrôs, Colombinas, Arlequins, Odaliscas e Piratas se desnudaram. Restaram expostos, em abundância, seios, nádegas e tatuagens. A modernidade nos deixou apenas o direito de nos fantasiarmos de PALHAÇOS!!!Palhaços das nossas ilusões! Decepcionados, abafamos no peito a saudade dos velhos carnavais!

Ó, abre alas, que eu quero passar!

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O PALHAÇO

Em um pequeno povoado, moravam Bento, palhaço do seu próprio circo, e uma neta de dez anos, Ritinha, orfã de pai e mãe.

O Circo de Bento era pobre, mas teve sempre boa afluência. Todos os números eram muito aplaudidos. Mas, com o tempo, a imaginação e os poucos recursos do palhaço foram minguando, e ele, aos poucos, foi se convencendo de que o circo iria se acabar.

O pobre palhaço, como não tinha aprendido outra coisa a não ser fazer piruetas e dar cambalhotas, se viu fracassado.

O pouco que ganhava mal dava para a alimentação dele e da neta. Privava-se de muita coisa, para esconder da menina a dificuldade por que estava passando. Mas, não lhe era possível esconder mais. E numa tarde de domingo, quando se esforçava para fazer rir os espectadores, caiu de bruços, pesadamente, no palco, desfalecido pela fome e pelo cansaço.

E o mais triste é que o público desatou a rir, diante da posição grotesca do infeliz, sem imaginar que o palhaço houvesse desmaiado de fome. Só quando viram que ele não se mexia é que começaram a ficar sérios. Mas quem mais se assustou foi Ritinha, sua neta, que saiu correndo em seu auxílio.

Assim, o palhaço viu-se obrigado a contar à menina que a sua profissão não rendia o bastante para sustentá-los. E, nessa situação, só via uma saída: Procurar a madrinha dela, que vivia em boas condições, e pedir que a acolhesse.

Ritinha não aceitou a ideia de se separar do avô. Depois de ouvi-lo com calma, disse-lhe:

– Vamos continuar juntos. Se o seu trabalho já não agrada no Circo, procuraremos outro.

– Mas eu não sei fazer outra coisa, Ritinha.- disse ele com os olhos cheios d’água.

– Podemos variar o espetáculo. Eu vou dizer como: O sábio Tristão pode lhe ajudar. Ele é seu amigo e gosta do senhor..

– Mas, o Tristão não passa de um mágico ruim…Não poderá fazer nada por nós.
É capaz de nos receber e tratar-nos como a qualquer um dos seus animais!

Ao ouvir a última palavra, Ritinha deu um grito de alegria e disse:

– Os animais!!! Isso mesmo!!! – Se ele nos emprestar um dos seus maravilhosos sapos, estaremos salvos. Faz-se o que se quer com eles. São ensinados!…

Satisfeito com a ideia da neta, Bento pensou um instante que, se o sábio quisesse ceder um dos seus animais, tudo estaria resolvido. E, em seguida, os dois foram à casa do velho Tristão, a quem Bento contou toda a sua história.

O sábio, depois de ouvi-lo sem dar muita atenção, falou:

– Estás certo de que só desejas ganhar para o teu sustento e o da menina?

– Nada mais desejo! – respondeu o palhaço. E se me impões alguma condição para limitar o meu pedido, estou pronto a atendê-lo.

– Para que? Tua própria conduta será uma garantia. Segue-me.

E em companhia de Bento e Ritinha, foi o sábio até uma espécie de gruta sombria, onde inúmeros sapos pularam satisfeitos, ao vê-lo.

O homem olhou-os um momento e depois fez sinal a um deles para que se aproximasse. O sapo, o maior de todos, era barbado e da cor de ouro. Avançou obediente e parou aos seus pés. Então, Tristão falou calmamente e logo conseguiu o que desejava:

– Este senhor é um palhaço que não ganha nem para comer. E penso que se algum de vocês trabalhasse com ele, teria maiores resultados. Por isso achei que você, como o mais velho de todos, poderia ajudá-lo. Mas a minha decisão depende de você. Concorda?

O sapo barbado acenou com a cabeça afirmativamente e escreveu, no chão, com uma das patas, a palavra “Sim”.

Era um sapo muito inteligente..

– Está bem – disse o sábio – e agora mostre o que você sabe fazer. E tirando uma pequena flauta do bolso, começou a tocar.

Ao som da música, o sapo se pôs a dançar, graciosamente. Depois, exibiu diversos números de saltos mortais, andou de cabeça para baixo e equilibrou-se sobre um arame finíssimo. Terminou a exibição, escrevendo com palitos, números romano que lhe foram ditados pelo sábio.

– Maravilhoso! – exclamou o palhaço – Farei uma fortuna com ele!

E, notando o olhar de censura do sábio, retificou: – Perdão. Eu não pensei no que disse. Ficarei satisfeito em ganhar para nos mantermos…

– Não duvido – disse o sábio – mas ainda preciso lhe dizer uma coisa: este sapo só se alimenta com as flores de uma árvore que só há no meu jardim. Todos os dias, você terá que vir buscar uma. E, mais outra coisa: a cada flor que você levar para o sapo, terá que colocar uma moeda em um cofre. Não é um pagamento, pois em qualquer ocasião que desejar, pode vir buscar as moedas. Mas não se esqueça de que o sapo precisa alimentar-se, diariamente, com estas flores.

Sem esperar que o sábio desse ordem para que se retirassem, Bento foi saindo com a neta, levando o extraordinário sapo.

Nessa mesma noite, Bento apresentou ao público o animalzinho e o entusiasmo causado foi tão grande que o palhaço teve logo a certeza de que a sua subsistência e a de Ritinha estavam garantidas.

O sapo tornou-se popular entre a gente da terra, e a cada noite mais o pequeno Circo se enchia. Mas os espectadores eram pobres e a renda arrecadada nas entradas dava apenas para uma vida modesta, e para colocar no cofre, em troca de cada flor, uma moeda.

Um dia, o palhaço, depois de muito pensar, disse a Ritinha que era mais vantajoso irem para uma cidade mais populosa. Depois, não era nada demais desejar-se um pouco de conforto…

A menina disse que não era direito o que ele queria fazer, e lembrou-lhe a dificuldade em apanhar todos os dias, no jardim do sábio, a flor para alimentar o sapo.

– Não te aflijas por isso – respondeu o avô – Ficaremos em uma cidade perto daqui e terei tempo para vir buscar a flor alimentícia.

A mudança deu resultado, mas o palhaço não se satisfez e tempos depois falava assim à neta:

– Há duas léguas daqui, há uma importante cidade. E amanhã mesmo partiremos para lá…

– Mas – retrucou a menina – e as flores? Assim não lhe sobrará tempo para vir buscá-las todos os dias.

– Este assunto já está resolvido. Acabo de comprar um cavalo. Terei tempo de ir e voltar.

E realmente, a ideia do palhaço teria sido boa, se a sua ambição não aumentasse dia a dia. Graças à ligeireza do animal, trazia diariamente a alimentação do sapo.

O palhaço passou, então, a desfrutar de uma vida de luxo e desperdício e como gastava mais do que ganhava, chegou o dia em que teve de mudar, novamente, de cidade, porque as habilidades do sapo já não produziam para os seus gastos.

– O cavalo pode dar mais do que tem dado – pensava ele.

E assim fez. Exigiu do pobre animal, à custa de chicotadas, o dobro do esforço, até que sucedeu que, certa vez, quando voltava com as flores, o cavalo caiu de cansaço. O palhaço ficou muito aflito e se pôs a correr, para ver se conseguia vencer a distância que ainda lhe faltava, para chegar em casa.

Assim que chegou, viu que Ritinha estava muito triste e percebeu que alguma coisa grave tinha acontecido. O sapo tinha morrido por falta do alimento.

Dessa maneira, ficaram em pior situação do que antes.

Bento não tinha coragem de pedir auxílio ao sábio. Mas Ritinha achou que deviam recorrer novamente a ele. Ela tinha certeza de que ele os ajudaria.

E assim aconteceu… Quando Tristão viu Bento chegar muito triste, trazendo

Ritinha pela mão, falou-lhe com ironia:

– Voltaste antes do que eu esperava! Já sabia que não te conformarias em ganhar só para o teu sustento. Mas não te culpo. Não és melhor, nem pior do que os outros. Esta experiência te fará compreender que cada um deve viver com o que tem e se sentir feliz tendo o necessário. Mereces este castigo, mas a menina não tem culpa da tua ambição. Aqui está o cofre. Quando te pedi que, em troca de cada flor que levasses deixasse uma moeda aqui, era porque queria reunir, para Ritinha, uma pequena fortuna, pois tinha certeza de que voltarias a me pedir auxílio. Não tem grande coisa, mas até que a sorte se lembre de ti novamente, dará para os dois.

O palhaço, ao sair da casa de Tristão, reconheceu que a sabedoria do sábio lhe havia dado uma boa lição. E assim, resignado, percebeu que não havia outro remédio se não voltar ao seu primitivo Circo.

E quando voltou foi muito bem sucedido, porque todos já tinham esquecido seus números, suas graças e piruetas e cambalhotas, e o aplaudiram como se fosse a primeira vez que o vissem.

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OS DOZE MESES DO ANO

Com o aparecimento do Cristianismo, a crença em divindades pagãs desapareceu. Mas, apesar disso, a memória dos deuses e deusas ainda permanece viva em muitas tradições.

O calendário que usamos foi uma evolução do antigo calendário romano e os nomes utilizados vieram dos deuses.

Estando estreitamente ligados os seus nomes aos costumes e instituições romanas, o nosso calendário, para contagem do tempo, permanece o mesmo estabelecido pelo imperador romano Júlio César.

Escrevendo a história dos nomes dos doze meses do ano, é como se estivéssemos assistindo a um desfile dos meses romanos.

JANEIRO – Primeiro, aparece uma figura estranha, um deus com duas caras, um deus que olha para diante e para trás, e que segura na mão esquerda uma chave. É JANO.

Os romanos adoravam Jano, num templo que estava aberto durante as guerras e que se fechava quando havia paz. Era o deus dos princípios e dos fins. Esse deus era também considerado o porteiro do céu, e os romanos o tinham como protetor das suas portas e portões. Como o ano tem doze meses, o templo de JANO tinha 12 portas.

FEVEREIRO – Segue-se ao deus JANO, uma majestosa dama romana. Era FEBRUA, a deusa das purificações. Celebravam-se no segundo mês do ano festas especiais em honra a Juno e Plutão, rei dos infernos e havia sítios especiais para aplacar as almas dos defuntos. Essas festas eram também de expiação para o povo, e chamavam-se “februais”. O termo vem da palavra februum que significa purificar; neste mês acontecia um ritual de purificação romana.

Fevereiro é o mês mais curto do ano, pois tem 28 dias nos anos comuns, e 29 nos anos bissextos. Constando o ano, aproximadamente, de 365 dias e 6 horas, ao cabo de quatro anos essas 6 horas formam um dia, que se agrega a Fevereiro. Essa inovação é do tempo de Júlio César, o qual, vendo os inconvenientes que resultavam de não serem levadas em conta aquelas 6 horas, chamou a Roma o astrônomo Sosígenes, de Alexandria, o qual propôs que de quatro em quatro anos se acrescentasse um dia a Fevereiro; daí ficou o mês, a cada quatro anos, com mais um dia, passando a ser chamado de “bissexto”.

MARÇO – Nome originado de Marte, o deus da guerra. No desfile imaginário, ele passa num carro puxado por dois cavalos, cujos nomes eram Terror e Fuga. É uma figura de guerreiro ameaçador, manejando uma comprida lança, levantando para o céu um escudo luzidio e erguendo a sua cabeça altiva, sendo iluminado pelos raios e pelo capacete. Para os romanos, Marte era mais do que um guerreiro. Era um deus que podia conseguir tudo pela sua grande força. Pediam-lhe chuva, consultavam-no sobre casos particulares, sacrificando no seu altar um cavalo, carneiro, pega ou abutre.

ABRIL – Depois de Marte (Março), aparece ABRIL. Não é nem deus nem deusa. É o Anjo da primavera. Gracioso, delicado, meigo e bom. Chega espalhando pela terra lindas flores e fazendo nascer nos sulcos feitos pelas rodas do carro do guerreiro, flores tão pequeninas, tão bonitas e tão delicadas, que comove vê-las. “Abril é o que abre.”

MAIO – Nome em homenagem à deusa MAIA, que desfila sentada num trono de luz. Seu pai chamava-se Atlas e sobre os seus ombros pesava o mundo inteiro. Ele tinha sete filhas, das quais a mais célebre foi Maia, cujo filho era Mercúrio, que levava as ordens dos deuses para a terra.

Júpiter, o pai de todos os deuses, levou Maia e as irmãs e colocou-as como estrelas no firmamento. Eram elas que formavam o grupo de estrelas chamadas plêiadas. A sétima estrela do grupo é invisível. Representa uma das irmãs que casou com um homem chamado Sisypho, e, desde então, como o pobre Sisypho foi condenado a rolar eternamente uma pedra por um monte acima, ela, envergonhada, escondeu a cara.

JUNHO- Seguem no cortejo duas figuras disputando o sexto lugar. Uma é a deusa Juno e a outra é um homem de nome JUNIO. Mas a deusa Juno deu nome ao mês de Junho. Juno era a rainha do céu e esposa de Júpiter. Seu trono de ouro estava junto de seu marido. Todos os deuses lhe prestavam homenagem, quando se apresentavam no palácio de Júpiter; tinha poderes superiores e exercia domínio sobre os fenômenos celestes; produzia o trovão nas alturas, desencadeava os ventos e mandava nos astros. Gostava de passear pelos bosques sagrados, num carro puxado por pavões.

JULHO – Em honra ao guerreiro e imperador Júlio César, surgiu o nome do mês de Julho. Júlio César não só conquistou nações, fez leis célebres e escreveu livros imortais, como também emendou o calendário, que estava em estado deplorável. O tempo e os meses já não se correspondiam como antigamente; a primavera vinha em janeiro e o inverno nos meses que deviam corresponder à primavera. O mês “quintilius’ foi eliminado em sua honra, tomando o seu nome Júlio.

AGOSTO – Nome derivado de Augusto, o primeiro imperador romano, última personagem da procissão pagã imaginária a que assistimos. A princípio, Augusto chamava-se Octávio e governou os romanos, com Marco Antônio e Lépido. Por fim, foi imperador, e fez muito pela glória e engrandecimento do seu magnífico império. O povo, na intenção de lhe agradar, mudou o seu nome de Octávio para Augusto, que significa “nobre”.

O oitavo mês foi escolhido para ter o nome de Agosto, porque era nessa ocasião que o imperador Augusto celebrava os principais acontecimentos da sua vida. Foi em Agosto que ele foi nomeado Cônsul, que acabaram as suas guerras e que conquistou o Egito. Augusto ficou na história como uma grande personagem. O seu reinado recebeu o nome de Idade de Ouro, porque ele não só trouxe paz ao mundo, farto e cansado de guerras, como também fez florescer a arte e a literatura.

Foi no reinado desse imperador poderoso que, longe, na Síria, nasceu a Criança, cujo reinado ainda não acabou e cujo nascimento criou uma época. Nunca o imperador orgulhoso pensou, quando se gabava no seu palácio, de ter encontrado Roma feita de tijolo e tê-la deixado de mármore, que existia já uma Criança que dividiria as épocas da terra e poria uma Cruz entre o reinado de Augusto e o começo de uma nova religião.

Os poetas imortais, Horácio e Virgílio, viveram nessa época. Fundaram-se, então, livrarias e construíram-se templos por toda a parte.

SETEMBRO – Os outros meses aparecem disfarçados, com nomes enigmáticos. Para compreendermos o nome do mês de setembro é necessário recordar que o primitivo calendário romano constava de dez meses e que começava em Março, sendo, portanto, Setembro, o sétimo mês. Por isso, é representado pelo número sete, em algarismos romanos, VII. Este número lia-se em latim “septen”, de onde se derivou Setembro.

OUTUBRO – Para os romanos, como hoje é para os povos que lhes sucederam no continente europeu, Outubro era o mês das colheitas e vindimas. O nome provém de “octos”, que em latim é oito. Com efeito, era o oitavo mês do antigo calendário romano, passando a ser o décimo, quando Nuna, rei de Roma, fixou o princípio do ano no dia primeiro de Janeiro.

Celebravam neste mês, tanto os romanos como os gregos, muitas festividades. Em uma dessas festas era costume atirar aos poços e fontes coroas tecidas de flores e ervas, como tributo às ninfas, a quem tais festas eram consagradas. Era também o mês da colheita das frutas, cujas primícias se ofereciam às divindades.

NOVEMBRO – Era o nono mês, no primeiro calendário romano, e por isso lhe chamavam “November”. Contava-se que, entre as festividades e ritos religiosos mais importantes, estava o consagrado a Diana, deusa das montanhas e dos bosques. Começava com um banquete dedicado a Júpiter e com os jogos circenses, chamados assim, porque se realizavam no circo. No mesmo mês se celebravam os jogos “plebeus”, instituídos para comemorar a reconciliação de patrícios, nobres e plebeus. Eram oferecidos sacrifícios a Netuno, deus dos mares; e se faziam as festas abrumais ou do inverno, por começar na Itália o tempo chuvoso, nevoento e frio.

DEZEMBRO – do latim “December” de “decem”, dez – o décimo e último mês do antigo calendário romano. É representado hoje por um velho de barbas brancas, que traz brinquedos para dar às crianças no dia de Natal, 25 de dezembro.

Para algumas pessoas, esse velho representa São Nicolau, que viveu no século IV e é considerado o patrono das crianças. Essa ideia teve origem numa lenda, segundo a qual São Nicolau teria feito ressuscitar três crianças que haviam sido assassinadas por um carniceiro. Dezembro é um mês característico do frio inverno nos países da Europa, e por isso o representam numa paisagem desolada, com os caminhos cobertos de neve.

Atualmente, muitas pessoas se sentem desconfortáveis, temerosas, envoltas em emoções, como se estivessem remando “contra a corrente”, e esperando o “milagre brasileiro”.

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VIVA O CIRCO!

Atualmente, somos plateia de um circo diferente, onde há malabaristas, mágicos, palhaços, trapaceiros e verdadeiros ilusionistas. Um circo de horrores e incertezas.

O mundo parece estar de cabeça pra baixo. A cegueira provocada pelo fanatismo político tomou conta da metade do povo brasileiro, que não enxerga nada errado…

“A banda decente do país” está de crucifixo na mão, orando, pela expulsão do anjo do mal…

Saudade dos antigos circos, cujos espetáculos começavam com a tradicional saudação:

– RESPEITÁVEL PÚBLICO!

Aí estava englobada toda a plateia, onde todos eram iguais perante a lei, como dispõe a Constituição Federal.

A tradicional abertura do espetáculo circense respeita o português vernáculo. Todo o público presente se sente generosamente cumprimentado, sem inovações ridículas que ferem, hoje, a tradição da nossa língua.

O Circo é sábio, até em manter a tradicional saudação: “RESPEITÁVEL PÚBLICO!”

Modismos atuais induzem oradores e comunicadores a citar, no início de seus discursos, saudações como:

“Bom dia, boa tarde ou boa noite” a todos e todas. Agora piorou: E a “todes”.

Na Câmara Municipal de Natal, esta é a linguagem usada.

A campanha do feminismo é responsável por estas aberrações da nossa língua. As mulheres querem ser citadas pessoalmente, e não incluídas genericamente no masculino tradicional. O Ex-Presidente José Sarney foi o precursor dessa “benesse” às mulheres, ao começar seus discursos, com “Brasileiros e Brasileiras”. A supremacia do gênero masculino que aprendemos no Curso Primário passou a ser ofuscada gramaticalmente.

Atualmente, nas reuniões especializadas, os discursos começam com as saudações:

“Doutoras e Doutores, Acadêmicos e Acadêmicas, Professores e Professoras, Eleitores e Eleitoras etc.”

Durante séculos, no Cristianismo, as mulheres nunca se sentiram depreciadas, diante da expressão aceita universalmente: “Jesus Salvador dos Homens”.

Quando Bach compôs a famosa peça “Jesus, Alegria dos Homens”, as mulheres não reagiram. Parece que, antigamente, a inteligência das mulheres era mais aguçada.

Nos Circos, onde predomina a sabedoria da tradição, a forma ambígua do “Respeitável Público” engloba todo o público presente, sem distinção ou prioridade. Ninguém se sente ofendido, pois todos se sentem respeitáveis.

A distinção de gênero introduzida pelo modismo atual, dá a impressão de que a humanidade é composta de dois seres especiais e estanques, quando na realidade a própria palavra “humanidade” lembra a raiz comum a todos nós, a condição humana e feminina.

Bach – Cantata 147 – Jesus alegria dos homens

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AVENIDA “INDEPENDÊNCIA OU MORTE”

Antigamente, quem descia a Rua Padre Pinto, em Natal, bairro da Cidade Alta, no sentido do bairro do Alecrim, se deparava com duas bifurcações: uma passava pelo famoso Cabaré de Maria Boa e a outra ia dar no Cemitério do Alecrim. Por isso, essa rua foi apelidada, pelos “patriotas” cachaceiros, de Avenida “Independência ou Morte”. Assim, ouvi contar o meu saudoso tio Arsênio Pimentel, homem muito inteligente e espirituoso.

A bifurcação que passa pelo Cemitério do Alecrim é a chamada Avenida Rafael Fernandes. Essa Avenida se popularizou como Avenida do “Traque Eterno”, tendo em vista beirar o canal do Baldo, onde desembocam os dejetos e esgotos de alguns bairros de Natal. Sempre exalou um terrível fedor. Ninguém aguentava passar por lá, sem tapar o nariz, fosse a pé, de carro ou de ônibus.

Nesse tempo, não se falava em Covid, e máscaras eram produtos de uso hospitalar ou de festas à fantasia. As máscaras eram muito usadas e ornamentadas, somente para os bailes de carnaval.

Os natalenses mais antigos sempre se referiam à Avenida Rafael Fernandes, como Avenida do Traque Eterno”.

Para o pedestre que precisasse se deslocar do centro da Cidade Alta para os bairros do Alecrim e das Quintas, esse caminho era um suplício, mas a única opção. Precisavam respirar profundamente, tapar o nariz com a mão e ir adiante, marchando como um soldado e apressando o passo.

A Avenida Rafael Fernandes (Avenida do P. Eterno ou “Traque Eterno”) saía da Rua Padre Pinto (“Independência ou Morte”).

Zé do Fuxico, natalense e boêmio, quando tomava uma, coisa que fazia todos os dias, só falava rimando. Amante de mesa de bar, e sempre liso, era um cordelista nato e ninguém notava. Uns gostavam, outros não, pois às vezes sentiam-se ridicularizados por ele.

Por causa dessa inofensiva peculiaridade, uma vez por outra, algum colega de copo batia de frente com ele, por não ter gostado da rima de que fora a inspiração. Quanto mais Zé do Fuxico bebia, mais falava rimando.

Certa manhã de sábado, estava ele com amigos, bebendo no Bar de Mário, puxando o fogo e falando em rimas:

“Ai, meu Santo Antão! Chegou o demônio Sansão…
Quebrai a caneta dele junto com a terrível mão!”

Sansão, um cachacista que acabara de chegar, avançou para Zé do Fuxico , mas a turma do “deixa disso” acalmou os ânimos.

A presença de Zé do Fuxico em mesa de bar era sempre uma alegria. Mas, depois do 3º copo, pegava brabo por tudo. Era briguento.

Misturava toda qualidade de bebida e bebia até ficar “embalsamado” e adormecer na mesa. Os amigos iam levá-lo em casa, onde Conceição, sua santa esposa, o esperava, com ar de reprovação.

Certa manhã, enquanto Zé do Fuxico dormia, curtindo uma carraspana fenomenal, sua esposa o deixou dormindo e saiu para o mercado, deixando-o trancado. Por precaução, levou as chaves. Quis evitar que ele “ganhasse o mundo”, se por acaso acordasse antes dela voltar.

Não deu outra. Uma hora depois, Zé do Fuxico acordou com sede de bêbado e quando se viu trancado, ligou para a polícia pedindo socorro. Um conhecido dele prontamente o atendeu e foi lá arrombar a porta, cuja fechadura “havia se quebrado”.

Pra se vingar da esposa, passou a noite toda na rua, e só voltou no dia seguinte, “cheio de razão”.

Mais um batente, para a ameaça da separação, que nunca houve.

VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

AS GAIOLAS

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O Brasil não quer perder sua posição de grande vendedor de gaiolas do mundo. Já está famoso

O que se deve fazer agora é fabricar mais e melhores gaiolas, para manter esse mercado internacional, sem entregá-lo nas mãos – ou nos bicos – dos que nos suplantavam em quantidade e qualidade.

Segundo os gaiolistas especializados, parece que a Suiça, com a sua inacreditável habilidade para lidar com arames, cordéis, pêndulos e espirais nos seus relógios, é um dos nossos maiores concorrentes. Outro concorrente, dizem, é o Japão, com sua capacidade de tirar do nada o tudo, diminuir o microscópio e imitar o inimitável. Chegam a fazer gaiolas maiores por dentro do que por fora. Não é fantástico???

Herdei da minha mãe, Dona Lia, repulsa por gaiolas e pássaros engaiolados. Pessoalmente, acho que mais vale um pássaro voando do que dois na mão, ao invés do antigo dito popular “mais vale um pássaro na mão do que dois voando”.

Meu irmão caçula, aos 10/12 anos, queria que nossa mãe lhe desse de presente um passarinho engaiolado. Ela o fez desistir da ideia, ensinando-lhe a recitar o emocionante poema “O Pássaro Cativo”, de Olavo Bilac.

O mercado internacional de engaioladores só aceita gaiolas que, em caso de perigo, como grandes ventanias, incêndio, enchentes etc, possam ser abertas pela parte de dentro, e pelos próprios pássaros. Não é fantástico???

Minha mãe adorava rosas nas roseiras. O seu jardim era florido e ela não gostava que se tirassem as flores para ornamentar a casa. Ela queria o jardim florido, para admirar e sentir o cheiro das flores vivas..

A tempestade tomou conta do nosso País, na hora em que houve uma Insurreição, comprovadamente , com infiltração de apoiadores e servidores do próprio Presidente da República. O movimento que seria pacífico foi invadido por baderneiros e traidores do próprio Governo Federal, culminando num ato de dilapidação do patrimônio Público, praticado pelos próprios lulistas.

Evoco um antigo Apólogo:

Viúvo da Razão, que havia morrido no hospício, abandonou o Coração, um dia, a sua fazenda no interior do país, trazendo para uma grande cidade do litoral, em sua companhia, a fim, de esquecerem o golpe recente, os seus filhos e filhas. Estes eram, ao todo, nove , sendo três homens – o Amor, o Pudor e o Orgulho, e seis mulheres – A Fé, a Esperança, a Amizade, a Coragem, a Caridade e a Hipocrisia.

Chefe de família descuidado, o Coração esqueceu-se, na cidade, de fechar solidamente as portas da casa, exercendo sobre os filhos uma vigilância constante e rigorosa. Jovens e ambiciosos, era possível que os rapazes e, mesmo, as jovens, gostassem de se divertir, passear. E o resultado dessa liberalidade paterna foi imediato: os filhos e filhas passavam a noite fora de casa, atentando contra os bons costumes, com grande escândalo do ancião , que nunca pensara em sua vida, em semelhante vergonha para sua velhice.

Horrorizado com tudo aquilo, resolveu o velho remediar o mal, regressando, com a família, para as suas propriedades, no alto sertão. E na hora da partida, reuniu os filhos, chamando-os, um por um:

– Esperança! Coragem! Amor!

– Pronto! – responderam as jovens..

E assim chamou, obtendo resposta, e metendo no trem, a Fé, a Amizade, a Caridade, e o Pudor.

Chegada a vez dos dois mais velhos, gritou:

– Orgulho!

Ninguém respondeu.

– Hipocrisia!

O mesmo silêncio.

Aflito, o pobre pai procurou-os em torno, chamando-os aos gritos. E foi debalde.

Nesse instante, o trem apitou, anunciando a saída.

Momentos depois o trem partiu, levando para o interior do país a Esperança, a Amizade, o Amor, a Coragem, a Fé, a Caridade e o Pudor, e deixando na cidade, apenas, o Orgulho e a Hipocrisia.

Voltando às gaiolas, segue o poema O Pássaro Cativo, de Olavo Bilac, que minha mãe adorava:

O PÁSSARO CATIVO

Armas, num galho de árvore, o alçapão;
E, em breve, uma avezinha descuidada,
Batendo as asas cai na escravidão.

Dás-lhe então, por esplêndida morada,
A gaiola dourada;
Dás-lhe alpiste, e água fresca, e ovos, e tudo:
Porque é que, tendo tudo, há de ficar
O passarinho mudo,
Arrepiado e triste, sem cantar?
É que, criança, os pássaros não falam.
Só gorjeando a sua dor exalam,
Sem que os homens os possam entender;
Se os pássaros falassem,
Talvez os teus ouvidos escutassem
Este cativo pássaro dizer:

“Não quero o teu alpiste!
Gosto mais do alimento que procuro
Na mata livre em que a voar me viste;
Tenho água fresca num recanto escuro
Da selva em que nasci;
Da mata entre os verdores,
Tenho frutos e flores,
Sem precisar de ti!
Não quero a tua esplêndida gaiola!
Pois nenhuma riqueza me consola
De haver perdido aquilo que perdi…
Prefiro o ninho humilde, construído
De folhas secas, plácido, e escondido
Entre os galhos das árvores amigas…
Solta-me ao vento e ao sol!
Com que direito à escravidão me obrigas?
Quero saudar as pompas do arrebol!

Quero, ao cair da tarde,
Entoar minhas tristíssimas cantigas!
Por que me prendes? Solta-me covarde!
Deus me deu por gaiola a imensidade:
Não me roubes a minha liberdade…
Quero voar! voar!…”

Estas cousas o pássaro diria,
Se pudesse falar.
E a tua alma, criança, tremeria,
Vendo tanta aflição:
E a tua mão tremendo, lhe abriria
A porta da prisão…

Olavo Bilac – Poesias Infantis

VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

FALANDO SÉRIO

Não é difícil notar um quê de tristeza, no semblante de uma grande parte do povo brasileiro, decepcionado com o desfecho que tomou a cena política do nosso País.

Desde os tempos coloniais, impera no Brasil o hábito da falsa dádiva. A bondade, exercida com o dinheiro público, dá a impressão de que a produção da riqueza não pertence ao povo brasileiro. O poder público é obrigado a fazer o bem à sociedade. O que não pode é distribuir migalhas ao povo, como se estivesse dando esmolas.

A riqueza do País pertence ao povo. Os ladrões de colarinho branco não podem abocanhar o dinheiro público, como ratos famintos abocanham o queijo.

É comum, nas bocas e mãos dos que manipulam as vantagens dos cargos, funções e mandatos, a benevolência cômoda, como meio de promoções pessoais, para que aparentem grandes governantes.

Se hoje precisam ser mais cuidadosos, com as faturas controladas por lei, ainda restam os detritos de uma civilização, nutrida pelo estado, com o uso e abuso de artifícios, que promovem o culto pessoal e transformam o que é dever constitucional em falsa bondade.

Quantas vezes, os homens públicos são benevolentes com o povo, como se estivessem fazendo favor ou dando-lhe esmola! Na realidade, não fazem mais do que sua obrigação. Afinal, na hora solene da investidura ou posse, nos cargos que a sociedade lhes concede por voto ou nomeação, os políticos prestam compromissos legais, prometendo o bem comum ao povo.

Há muito tempo, a aspiração política abandonou o espírito público e foi substituída pela vaidade e ganância. O exercício do mandato, que deveria ser um bem à sociedade, deixou de ser atributo de transparência e equilíbrio, O dever de bem servir ao povo passou a ser meta e não compromisso. É como se o governante não tivesse obrigação nenhuma com o povo, e pudesse usar os cofres públicos ao seu bel prazer, ignorando a obrigatoriedade legal da transparência e usando o poder como um instrumento de culto à personalidade.

A sociedade passou a ter líderes artificialmente nutridos nos seus egos, com faturas para os cofres públicos. A vaidade faz com que os políticos, ditos representantes do povo, projetem a imagem de si mesmos, nas horas mais importantes do sistema político. E tudo diante de uma sociedade que somente agora parece dar os primeiros sinais de uma impaciência, que chega às ruas na forma de desabafos ideológicos ou sinais de revolta.

É difícil calar a boca dos revoltados, vestidos de verde-amarelo. E a crise que queimava em fogo brando, agora ferve.

* * *

Mudando o rumo dessa prosa, e rememorando o recentemente falecido Edson Arantes do Nascimento, hoje chamado “Rei Pelé”, que tantas alegrias proporcionou ao Brasil, segue um fato verídico, ocorrido com ele, no auge de sua brilhante carreira de jogador de Futebol:

“EXPULSO O JUIZ QUE EXPULSOU PELÉ

No jogo entre o Santos F.C. e a seleção Olímpica da Colômbia, realizada em 17.7.68, em Bogotá, que foi repleto de incidentes, o árbitro Guillermo Velasquez expulsou Pelé no primeiro tempo. A torcida colombiana reagiu e exigiu a expulsão do juiz, o que foi feito depois de 15 minutos de interrupção, sendo ele substituído pelo bandeirinha Omar Delgado.

Em seguida, a massa presente ao estádio exigiu a volta de Pelé, medida que foi determinada pelo novo árbitro, ainda no primeiro tempo. Em retribuição, Pelé teve uma atuação de gala e o Santos venceu por 4 X 2..

(Em “FUTEBOL TEM CADA UMA” – Armando M. Graça – Editora GOL- 1968).

VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

REMINISCÊNCIAS

Nossa memória guarda todas as perdas e todos os ganhos, na mesma intensidade, mas sempre falta alguma coisa guardada nas gavetas do passado, que temos dificuldade em relembrar.

Há dias em que nos sentimos, como se a nossa alma fosse assaltada, pelos mais puros desejos de viver, e quase todas as lembranças vem à tona. Entretanto, o que passou jamais voltará. Se a vida é como um rio e as águas não voltam, cada dia é um novo dia.

“Rio caminho que anda, que vai resmungando, talvez uma dor…Ai, quanta pedra levaste, quanta pedra deixaste, sem vida e amor……..” – Eu e o Rio – Miltinho (Veja vídeo no final da postagem)

“Aguas passadas não movem moinho”, diz o dito popular. Entretanto, as recordações estão impregnadas, no âmago da nossa alma.

Passam anos e mais anos, e cada vez mais o universo dos nossos amores vai ficando menor. As perdas…Ah, as perdas!!! Como a nossa alma fica empobrecida, cada vez que perdemos um ente querido! À medida que os anos passam, a certeza da finitude da vida tolhe, a cada dia, a nossa alegria de viver e o ambiente feliz em que fomos criados cada vez mais se distancia de nós.

O Novo Ano de 2023 está prestes a raiar, e dele esperamos boas surpresas, mesmo sabendo que as surpresas perniciosas e indesejáveis, que advirão dos maus gestores, no âmbito da política, serão sempre mais fortes. Somente Deus punirá, pra valer, os carrascos da nossa sociedade.

Pesa nas nossas costas o pesado fardo dos asseclas de Nero, que usam a lei para oprimir e humilhar cidadãos de bem. A volúpia do poder, os sacos de dinheiro e uma caneta na mão são capazes de dilacerar a alma humana.

Os homens públicos, nossos algozes, nos tiram a tranquilidade, a paz de espírito e a calma que tanto pedimos a Deus. A força dos maus gestores predomina sobre o bem-estar da Nação.

O amanhã não quer ver ninguém bem. Por isso, o dia é hoje. E que Deus nos proteja da maldade humana ou da desumanidade dos homens, descendentes de Caim.

Evocando Fernando Pessoa.

Aniversário 

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui…
Ai, que distância!…
(Nem o acho…)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes…
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio…

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim…
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui…
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça,
com mais copos,
O aparador com muitas coisas – doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado…
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa, No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!…

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!…

Álvaro de Campos, 15-10-1929

Não consigo mais festejar o dia dos meus anos

O ano de 2022 está acabando. Cai a tarde tristonha e serena e caem os sonhos que, durante o ano, acalentamos. 2023 está se aproximando, sobrecarregado de medidas previamente tomadas pelo chamado Governo de Transição, numa exorbitância monetária, antes, nunca vista neste País. Abriram-se as portas de todas as prisões onde se encontravam presos os grandes ladrões.

Enterramos castelos ruídos e os amores sonhados se foram. A saudade pungente maltrata o nosso peito. É hora de perdoar e é hora de pedir perdão. Discurso de ódio deveria dar cadeia.

Violência gera violência. E a vida se acaba mais ligeiro.

Eu me pergunto:

– Ano Novo, que trazes pra mim? Já não posso conter o meu pranto…As lembranças estão no jardim, e a saudade sufoca o meu canto.

Quando a vida sorria pra mim, minha alegria transformou-se em dor, transformando em tristeza uma linda história de amor.

De repente, as lembranças afloram:

É Lia, é Francisco, é a luz! São os dias felizes da minha infância em minha querida Nova-Cruz, quando ninguém tinha morrido. E a saudade faz sangrar meu peito.

A barraca, a Banda de Música, a festa da Padroeira, Nossa Senhora da Conceição…

A cidade toda em festa. O Parque São Luiz, as paqueras, o leilão; alfenim enchendo as cestinhas; a pescaria com suas prendas baratas, que, na minha saudade, ressurgem num lampejo de amor e carinho, como mimos de ouro e prata.

O Parque São Luiz fazia parte da festa de final de Ano em Nova-Cruz. A alegria das crianças e adultos, com a amplificadora do Parque a exibir as mais lindas e dolentes melodias, “de José para Dorinha, com o peito explodindo de amor.“ E soava a voz do amor nos corações.

A alegria da noite de Ano Novo inebriava a todos que se encontravam naquela festa popular, que se realizava na frente da Matriz da Imaculada Conceição.

O Hino Nacional, executado pela Banda de Música da Polícia Militar, anunciava a passagem do Ano, num momento de magia e emoção. Entre abraços, sorrisos e lágrimas, era chegado o Novo Ano, que todos desejavam que trouxesse a Paz sempre sonhada, Saúde e comida para o povo. E todos desejavam:

“FELIZ ANO NOVO!!!”

Era um tempo feliz, em que a maldade nem tinha nascido!!!

Bem diferente dos dias de hoje, em que muita gente se comunica através da secura das redes sociais, sem o abraço caloroso ao vivo e a cores.
Estamos vivendo a era dos robôs, quando a tecnologia superou o homem. E o texto frio da lei superou a carne e o sangue.

Um Feliz 2023 para os queridos Editores do JBF, Luiz Berto e Aline Berto, respectivamente, Papa e Papisa da ICAS (Igreja Católica Sertaneja), como também para os queridos colunistas e leitores do nosso querido Jornal!

Muita Saúde e Paz!

VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

ENTÃO, É NATAL…

Então, mais uma vez, é Natal. O que os homens ditos “poderosos” tem feito pelo bem-estar da humanidade, não se vê.

E o que os homens ditos “poderosos” do nosso País terão a dizer nesta data? Pedirão perdão ao povo pelo dinheiro roubado, e dirão “Feliz Natal”? A demagogia é grande.

As suas mesas estarão repletas de comidas finas e vinhos caríssimos, às custas do dinheiro público. E o pobre ficará somente com o cheiro do peru de Natal e as doações das pessoas de boa vontade.

Assaltaram, ininterruptamente, o erário público, e continuam crucificando Jesus Cristo, a cada dia. A sensação é de que o mundo mudou para pior.

Então, é Natal, para o enfermo, o são, o rico, o pobre ,o branco, o negro, com a pulsação de um só coração.

Infelizmente, a Paz sonhada pela humanidade ainda não chegou. Que seja feliz, quem só pratica o Bem!…

Há dois mil e vinte e dois anos, tarde da noite, guiado pela estrela-guia, um casal chegou a Belém da Judéia. Estavam cansados da viagem, com a mulher gravida montada num jumento, puxado pelo marido. Muito cansada, da viagem, a mulher, prestes a dar à luz, não se sentia bem e precisava descansar. Tentaram fazer pouso numa hospedaria, mas foi em vão. O aspecto de pobreza do casal fez com que o dono lhe negasse hospedagem. Em tom de deboche, lhes indicou uma manjedoura que encontrariam ao longo do caminho, onde eles não precisariam e de dinheiro. O marido, José, acolheu a informação e levou Maria ao lugar indicado. Ali estava o casal mais santo e importante da humanidade.

E foi nessa manjedoura, que nasceu o Menino Jesus! Logo chegaram os três Reis Magos para o adorar, e lhe trouxeram de presente o incenso, o ouro e a mirra.

Abrindo as torrentes do coração. -Tive uma infância e uma adolescência maravilhosas, e todos estavam vivos na noite de Natal. Hoje, na idade madura, ao comprar os presentes de Natal, sinto um aperto no peito, sob a forma de saudade, das pessoas queridas, que já não se encontram entre nós.

A pureza do Natal de antigamente já não existe. Mas, a Esperança de melhores dias permanece dentro de nós.

A chegada do Natal nos inspira os sentimentos de solidariedade, gratidão, amor e fraternidade, e nós temos obrigação de proporcionar alegria às pessoas queridas que nos cercam e com as quais temos a felicidade de conviver.

Elevemos nosso pensamento a Deus e oremos pelos amigos e entes queridos que já se encantaram, deixando em seu lugar uma imensa saudade.

No Natal, se festeja o nascimento do Menino Jesus, o mesmo menino que se fez homem e morreu crucificado, para salvar a humanidade!

A Noite de Natal é sagrada para todos os lares. Noite de encanto e mistério para as crianças, e noite de ternura e carinho para os pais. No silêncio da noite, quando tudo dorme, as crianças sonham com os possíveis presentes que receberão nos seus sapatinhos, postos ao lado de suas camas. Surge a imagem de Papai Noel, mostrando-lhes os mais variados presentes.

Numa manhã do Natal, um menino de oito anos, nascido na pobreza, levantou-se cedinho da cama, para matar a curiosidade e ver se, dessa vez, Papai Noel teria atendido o seu pedido e lhe daria um presente. Encontrou duas grossas moedas de dez tostões. O seu desapontamento foi terrível. Por que razão Papai Noel teria feito isso com ele?

Desde esse dia, o menino teve seu peito invadido pelo veneno da dúvida, e deixou de pedir presente a Papai Noel. Achou que aquilo era obra do seu pai, no intuito de desvanecer a sua fé em tal lenda, e colocando no seu sapatinho o seu repugnante dinheiro. Seu pai teve seu desejo realizado.

Conta uma antiga lenda que, numa véspera de Natal, dois mendigos caminhavam pela escuridão da noite. De repente, tropeçaram num gato abandonado, que miava timidamente, aparentando estar faminto. Sentiram que o gato era tão pobre quanto eles. Os pobres são bons para os pobres e ajudam-se uns aos outros, dividindo entre si o pouco que conseguem para comer.

Os dois mendigos, compadecidos com o estado do gato, levaram-no com eles, e lhe deram para comer um pouco do pão que haviam recebido de esmola. O gato, depois de comer, ficou mais forte e saiu caminhando, miando alto, como se estivesse guiando os dois através das trevas, até uma cabana abandonada. Na cabana, havia dois bancos e uma lareira, visíveis através do clarão da lua. Os dois mendigos sentaram- se em frente à lareira.

De repente, o gato desapareceu. Como por milagre, as duas brasas se acenderam e tornaram-se enormes. A claridade tomou conta da cabana, e os dois sentiram seus corpos aquecidos. Os pobres acreditaram que era o Menino Jesus quem mandara aquelas duas brasas para os aquecer. Adormeceram profundamente. As brasas brilharam até amanhecer o dia.

Os dois mendigos acordaram, como se estivessem despertando de um lindo sonho. Tinham recebido de presente de Natal um verdadeiro tesouro. Mesmo por uma única noite, dormiram sob o teto de uma cabana abandonada, aquecidos por uma misteriosa lareira. Olharam em sua volta e viram o gato dormindo. Pobre igual a eles, o gato lhes retribuiu o pão que lhe deram, levando-os até aquela cabana encantada.

Pelo menos, naquela noite de Natal, eles dormiram sob um teto, abrigados contra o frio e o vento.

Está provado que o grande tesouro dos pobres é a fantasia.

Desejo a todos um Natal cheio de Alegria e Paz, e que o espírito de confraternização permaneça no decorrer de todos os nossos dias!

Que a humanidade consiga viver em PAZ!