Em um pequeno povoado, moravam Bento, palhaço do seu próprio circo, e uma neta de dez anos, Ritinha, orfã de pai e mãe.
O Circo de Bento era pobre, mas teve sempre boa afluência. Todos os números eram muito aplaudidos. Mas, com o tempo, a imaginação e os poucos recursos do palhaço foram minguando, e ele, aos poucos, foi se convencendo de que o circo iria se acabar.
O pobre palhaço, como não tinha aprendido outra coisa a não ser fazer piruetas e dar cambalhotas, se viu fracassado.
O pouco que ganhava mal dava para a alimentação dele e da neta. Privava-se de muita coisa, para esconder da menina a dificuldade por que estava passando. Mas, não lhe era possível esconder mais. E numa tarde de domingo, quando se esforçava para fazer rir os espectadores, caiu de bruços, pesadamente, no palco, desfalecido pela fome e pelo cansaço.
E o mais triste é que o público desatou a rir, diante da posição grotesca do infeliz, sem imaginar que o palhaço houvesse desmaiado de fome. Só quando viram que ele não se mexia é que começaram a ficar sérios. Mas quem mais se assustou foi Ritinha, sua neta, que saiu correndo em seu auxílio.
Assim, o palhaço viu-se obrigado a contar à menina que a sua profissão não rendia o bastante para sustentá-los. E, nessa situação, só via uma saída: Procurar a madrinha dela, que vivia em boas condições, e pedir que a acolhesse.
Ritinha não aceitou a ideia de se separar do avô. Depois de ouvi-lo com calma, disse-lhe:
– Vamos continuar juntos. Se o seu trabalho já não agrada no Circo, procuraremos outro.
– Mas eu não sei fazer outra coisa, Ritinha.- disse ele com os olhos cheios d’água.
– Podemos variar o espetáculo. Eu vou dizer como: O sábio Tristão pode lhe ajudar. Ele é seu amigo e gosta do senhor..
– Mas, o Tristão não passa de um mágico ruim…Não poderá fazer nada por nós.
É capaz de nos receber e tratar-nos como a qualquer um dos seus animais!
Ao ouvir a última palavra, Ritinha deu um grito de alegria e disse:
– Os animais!!! Isso mesmo!!! – Se ele nos emprestar um dos seus maravilhosos sapos, estaremos salvos. Faz-se o que se quer com eles. São ensinados!…
Satisfeito com a ideia da neta, Bento pensou um instante que, se o sábio quisesse ceder um dos seus animais, tudo estaria resolvido. E, em seguida, os dois foram à casa do velho Tristão, a quem Bento contou toda a sua história.
O sábio, depois de ouvi-lo sem dar muita atenção, falou:
– Estás certo de que só desejas ganhar para o teu sustento e o da menina?
– Nada mais desejo! – respondeu o palhaço. E se me impões alguma condição para limitar o meu pedido, estou pronto a atendê-lo.
– Para que? Tua própria conduta será uma garantia. Segue-me.
E em companhia de Bento e Ritinha, foi o sábio até uma espécie de gruta sombria, onde inúmeros sapos pularam satisfeitos, ao vê-lo.
O homem olhou-os um momento e depois fez sinal a um deles para que se aproximasse. O sapo, o maior de todos, era barbado e da cor de ouro. Avançou obediente e parou aos seus pés. Então, Tristão falou calmamente e logo conseguiu o que desejava:
– Este senhor é um palhaço que não ganha nem para comer. E penso que se algum de vocês trabalhasse com ele, teria maiores resultados. Por isso achei que você, como o mais velho de todos, poderia ajudá-lo. Mas a minha decisão depende de você. Concorda?
O sapo barbado acenou com a cabeça afirmativamente e escreveu, no chão, com uma das patas, a palavra “Sim”.
Era um sapo muito inteligente..
– Está bem – disse o sábio – e agora mostre o que você sabe fazer. E tirando uma pequena flauta do bolso, começou a tocar.
Ao som da música, o sapo se pôs a dançar, graciosamente. Depois, exibiu diversos números de saltos mortais, andou de cabeça para baixo e equilibrou-se sobre um arame finíssimo. Terminou a exibição, escrevendo com palitos, números romano que lhe foram ditados pelo sábio.
– Maravilhoso! – exclamou o palhaço – Farei uma fortuna com ele!
E, notando o olhar de censura do sábio, retificou: – Perdão. Eu não pensei no que disse. Ficarei satisfeito em ganhar para nos mantermos…
– Não duvido – disse o sábio – mas ainda preciso lhe dizer uma coisa: este sapo só se alimenta com as flores de uma árvore que só há no meu jardim. Todos os dias, você terá que vir buscar uma. E, mais outra coisa: a cada flor que você levar para o sapo, terá que colocar uma moeda em um cofre. Não é um pagamento, pois em qualquer ocasião que desejar, pode vir buscar as moedas. Mas não se esqueça de que o sapo precisa alimentar-se, diariamente, com estas flores.
Sem esperar que o sábio desse ordem para que se retirassem, Bento foi saindo com a neta, levando o extraordinário sapo.
Nessa mesma noite, Bento apresentou ao público o animalzinho e o entusiasmo causado foi tão grande que o palhaço teve logo a certeza de que a sua subsistência e a de Ritinha estavam garantidas.
O sapo tornou-se popular entre a gente da terra, e a cada noite mais o pequeno Circo se enchia. Mas os espectadores eram pobres e a renda arrecadada nas entradas dava apenas para uma vida modesta, e para colocar no cofre, em troca de cada flor, uma moeda.
Um dia, o palhaço, depois de muito pensar, disse a Ritinha que era mais vantajoso irem para uma cidade mais populosa. Depois, não era nada demais desejar-se um pouco de conforto…
A menina disse que não era direito o que ele queria fazer, e lembrou-lhe a dificuldade em apanhar todos os dias, no jardim do sábio, a flor para alimentar o sapo.
– Não te aflijas por isso – respondeu o avô – Ficaremos em uma cidade perto daqui e terei tempo para vir buscar a flor alimentícia.
A mudança deu resultado, mas o palhaço não se satisfez e tempos depois falava assim à neta:
– Há duas léguas daqui, há uma importante cidade. E amanhã mesmo partiremos para lá…
– Mas – retrucou a menina – e as flores? Assim não lhe sobrará tempo para vir buscá-las todos os dias.
– Este assunto já está resolvido. Acabo de comprar um cavalo. Terei tempo de ir e voltar.
E realmente, a ideia do palhaço teria sido boa, se a sua ambição não aumentasse dia a dia. Graças à ligeireza do animal, trazia diariamente a alimentação do sapo.
O palhaço passou, então, a desfrutar de uma vida de luxo e desperdício e como gastava mais do que ganhava, chegou o dia em que teve de mudar, novamente, de cidade, porque as habilidades do sapo já não produziam para os seus gastos.
– O cavalo pode dar mais do que tem dado – pensava ele.
E assim fez. Exigiu do pobre animal, à custa de chicotadas, o dobro do esforço, até que sucedeu que, certa vez, quando voltava com as flores, o cavalo caiu de cansaço. O palhaço ficou muito aflito e se pôs a correr, para ver se conseguia vencer a distância que ainda lhe faltava, para chegar em casa.
Assim que chegou, viu que Ritinha estava muito triste e percebeu que alguma coisa grave tinha acontecido. O sapo tinha morrido por falta do alimento.
Dessa maneira, ficaram em pior situação do que antes.
Bento não tinha coragem de pedir auxílio ao sábio. Mas Ritinha achou que deviam recorrer novamente a ele. Ela tinha certeza de que ele os ajudaria.
E assim aconteceu… Quando Tristão viu Bento chegar muito triste, trazendo
Ritinha pela mão, falou-lhe com ironia:
– Voltaste antes do que eu esperava! Já sabia que não te conformarias em ganhar só para o teu sustento. Mas não te culpo. Não és melhor, nem pior do que os outros. Esta experiência te fará compreender que cada um deve viver com o que tem e se sentir feliz tendo o necessário. Mereces este castigo, mas a menina não tem culpa da tua ambição. Aqui está o cofre. Quando te pedi que, em troca de cada flor que levasses deixasse uma moeda aqui, era porque queria reunir, para Ritinha, uma pequena fortuna, pois tinha certeza de que voltarias a me pedir auxílio. Não tem grande coisa, mas até que a sorte se lembre de ti novamente, dará para os dois.
O palhaço, ao sair da casa de Tristão, reconheceu que a sabedoria do sábio lhe havia dado uma boa lição. E assim, resignado, percebeu que não havia outro remédio se não voltar ao seu primitivo Circo.
E quando voltou foi muito bem sucedido, porque todos já tinham esquecido seus números, suas graças e piruetas e cambalhotas, e o aplaudiram como se fosse a primeira vez que o vissem.
Violante,
A sua crônica está excelente. Os leitores fubânicos ganharam um presente por aprender com este texto a lição que administrar o dinheiro, é fácil; difícil é administrar a falta dele.
Compartilho um poema singelo e encantador da poetisa mineira Dáguima Verônica de Oliveira com a prezada amiga:
ALMA DE PALHAÇO
Meu palhaço de memória
tem a cor da poesia,
no sabor de uma saudade
vou bebendo a nostalgia…
O sorriso vem ligeiro
e como um amor primeiro
o meu peito se extasia.
O meu pai punha seu lenço
sobre a velha arquibancada,
minha roupa era novinha,
não podia ser lavada:
sete dias de alegria
com o palhaço “Arrelia”
espalhando a gargalhada.
Quem carrega essa saudade
monta um circo em seu espaço:
Na corda bamba da vida
arranca a sorte no laço,
afoga a dor em seu riso
e num golpe bem preciso
se transforma num palhaço.
Quem tem alma de criança
faz tudo valer a pena.
Com pureza de palhaço
ganha Deus em sua arena,
traz um riso verdadeiro
encantando o picadeiro
da felicidade plena.
Desejo um final de semana pleno de paz, saúde e harmonia
Aristeu
Obrigada, prezado Aristeu, pelo generoso comentário e por compartilhar comigo este belo poema “ALMA DE PALHAÇO”, ,da poetisa mineira Dáguima Verônica de Oliveira!
Gostei imensamente!
As histórias sobre palhaço são sempre tristes. O palhaço demonstra uma alegria no rosto que vai de encontro ao que se passa em sua alma. Muitas vezes, o palhaço sorri, enquanto sua alma chora.
A você também,, desejo um final de semana, pleno de paz, saúde e harmonia!
Cara Violante, este texto me fez lembrar a história da galinha dos ovos de ouro.
Quando se é pobre, qualquer coisa serve para viver.
Quando se atinge o sucesso, nada é suficiente para satisfazer.
Um bom FDS
Obrigada pelo gratificante comentário, prezado João Francisco!
Realmente o texto lembra a história da galinha dos ovos de ouro..
Diz o ditado popular: “Quem tudo quer, tudo perde.”
É necessário alcançar um objetivo de cada vez..
Bom final de semana para você também!.