PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

A grande dupla de poetas repentistas Ivanildo Vilanova e Valdir Teles (1956-2020)

* * *

Valdir Teles e Ivanildo Vilanova glosando o mote:

Não conheço esquerdista que não mude,
quando pega nas rédeas do poder.

Valdir Teles

Logo após ser eleito está mudado,
cada um tem direito a secretária,
segurança, assessor, estagiária,
gabinete com ar condicionado,
vai lembrar-se do proletariado,
com favela e cortiço pra viver,
ou será que não vai se aborrecer,
com esgoto, favela, lodo e grude.
Não conheço esquerdista que não mude,
quando pega nas rédeas do poder.

Ivanildo Vilanova

Pode ser um sujeito agitador,
boia-fria, sem terra, piqueteiro,
camarada, comuna, companheiro,
se um dia tornar-se senador,
vindo até se eleger governador,
qual será o seu novo proceder,
vai mudar, vai mentir ou vai manter
as promessas que fez de forma rude.
Não conheço esquerdista que não mude,
quando pega nas rédeas do poder.

Valdir Teles

No período que um adolescente,
quer mudar o planeta e o país,
através dos arroubos juvenis,
vira líder, orador e dirigente,
mas se um dia ele sair presidente,
o que foi nunca mais poderá ser,
aí diz que o remédio é esquecer
as loucuras que fez na juventude.
Não conheço esquerdista que não mude,
quando pega nas rédeas do poder.

Ivanildo Vilanova

Todo jovem, a princípio é sectário,
atuante, grevista, condutor,
antagônico, exaltado, pregador,
um perfeito revolucionário,
cresce, casa e se torna secretário,
veja aí o que trata de fazer,
leva logo a família a conhecer
Disneylândia, Washington e Hollywood.
Não conheço esquerdista que não mude,
quando pega nas rédeas do poder.

Valdir Teles

Quem vivia de luta e de vigília,
invasão, pichamento e barricada,
através disso aí fez a escada,
pra chegar aos tapetes de Brasília,
vai pensar no progresso da família,
no que faz pra do posto não descer,
nunca falta quem queira se vender,
sempre acha covarde que lhe ajude.
Não conheço esquerdista que não mude,
quando pega nas rédeas do poder.

* * *

DISCUSSÃO DE JOÃO FORMIGA COM FRANCISCO PARAFUSO – Severino Borges da Silva

Estava João Formiga
Versejando alegremente
Nas terras do Ceará
Quando chegou de repente
Um cantor do Mato Grosso
Quase tonto de aguardente

Chegou na sala e saudou
A todo o povo primeiro
E disse a João Formiga:
– Vá sabendo cavalheiro
Sou Francisco Parafuso
Dou certo em todo tempero

O dono da casa disse:
– Pois então, meu camarada
Você canta com Formiga
Uma discussão pesada
Se ganhar leva o dinheiro
Se perder não leva nada

– Porém eu vou dar um tema
Com estilos naturais
Para Formiga dizer
Com bases fundamentais
Sem errar nem dar um tombo
Nem bebo, nem fumo mais

E Parafuso responde
Para se ouvir e ver
Defendendo a aguardente
Durante enquanto viver
E dizer no fim do verso
Bebo e fumo até morrer

Formiga

Meu amigo Parafuso
Agora vou lhe dizer
Deus me livre de beber
Fumar eu também não uso
Do fumo eu tomei abuso
Porque nada bom não traz
Pois quando eu era rapaz
Quase o fumo me liquida
Enquanto Deus der-me vida
Nem bebo, nem fumo mais

Parafuso

Você é um inocente
Fumar é uma beleza
O fumo tira a tristeza
Fica a pessoa contente
O suco da aguardente
Ao homem dá bom prazer
Portanto posso dizer
Com pensamento profundo
Enquanto eu viver no mundo
Bebo e fumo até morrer

Formiga

Fumar, beber, não convém
Quem é bom não se acostuma
Pois a pessoa que fuma
Queima o dinheiro que tem
O homem que pensa bem
Essas misérias não faz
Pois eu nos tempos atrás
Fui um homem ignorante
Porém d’agora por diante
Nem bebo, nem fumo mais

Parafuso

Pois eu fumo todo dia
E bebo aguardente boa
Minha goela não enjoa
Quando tomo “dela fria”
Depois faço a poesia
Torno de novo beber
Faço desaparecer
A tristeza da matéria
Nesta vida de miséria
Bebo e fumo até morrer

Formiga

Mas você se desmantela
Pensando nesta tolice
O fumo traz a tontice
E um entalo na goela
Deixa uma nódoa amarela
Nas partes intestinais
Eis aí meu bom rapaz
Do fumo os produtos seus
Eu como acredito em Deus
Não bebo, nem fumo mais

Parafuso

Porém Deus mesmo é quem cria
O fumo e a aguardente
Na terra nasce a semente
Que todo povo aprecia
Quem não bebe hoje em dia
Na vida não tem prazer
Eu para desaparecer
As mágoas do coração
Vou me encostar no balcão
Bebo e fumo até morrer

Formiga

Eu de fumar não preciso
Fumo ataca o coração
A cana acaba o pulmão
O fumo tira o juízo
O homem fica indeciso
Nem pra diante nem pra trás
Não sabe nem o que faz
Quem só vive embriagado
Eu como sou preparado
Nem bebo, nem fumo mais

Parafuso

Pois colega eu não relaxo
De beber num copo fino
Hoje só não bebe o sino
Por ter a boca pra baixo
E por isso quando eu acho
Na rua com quem beber
Mando o caixeiro descer
Aguardente brasileira
Faço farra a noite inteira
Bebo e fumo até morrer

Formiga

Você assim vai errado
No caminho da perdição
Não obedece a lição
Do mandamento sagrado
No caminho do pecado
Dando gosto a satanás
Perde as forças divinais
E toda vitalidade
Eu que conheço a verdade
Nem bebo, nem fumo mais

Parafuso

Hoje já é conhecido
Bebe o sábio e o vagabundo
Quem não bebe neste mundo
No outro será bebido
Eu como sou prevenido
Antes da morte descer
Todo dia hei de beber
Fazer minha carraspana
Enquanto existir cana
Bebo e fumo até morrer

Formiga

Jesus explicou aos seus
Naquele tempo passado
Que o homem viciado
Não vê o reino de Deus
Depois disso São Mateus
Deu outras provas legais
O fumo a cana o que faz
Relembrando a Jesus Cristo
E eu conhecendo disto
Nem bebo, nem fumo mais

Parafuso

Diz o novo testamento
Que Jesus meu amiguinho
Mudou a água no vinho
Na festa dum casamento
Todos do divertimento
Tiveram então que beber
Do vinho com bel-prazer
Que foi milagre de Cristo
Bebo e fumo até morrer

Formiga

Falaste perfeitamente
Pelo caminho da luz
Mas o vinho de Jesus
Do de hoje e diferente
Porque é álcool somente
O bem a ninguém não faz
O de Jesus, meu rapaz
Foi seu sangue verdadeiro
Eu conheço este roteiro
Nem bebo, nem fumo mais

Parafuso

Você não conhece bem
Do verdadeiro caminho
Porque o suco do vinho
É o mais forte que tem
Relembre a Noé também
Depois do vinho beber
Viu o mundo escurecer
E caiu no chão sem fé
Eu faço igual a Noé
Bebo e fumo até morrer

Formiga

Quem bebe faz ação feia
E vive se consumindo
E passa a noite dormindo
No cimento da cadeia
Leva uma surra de peia
Das mãos dos policiais
Os meninos vão atrás
Com ele fazendo festa
Eu vendo uma coisa desta
Nem bebo, nem fumo mais

Parafuso

Porém o homem decente
Bebe e não se embriaga
Acende o cigarro e traga
Fica logo alegremente
Conversa com toda gente
Sem nunca se aborrecer
Fica cheio de prazer
Canta como uma cigarra
Eu como gosto da farra
Bebo e fumo até morrer

Formiga

Porém quem vive bebendo
Satanás nele se monta
A cabeça fica tonta
E a vista escurecendo
O corpo fica tremendo
Devido aos vícios banais
Digo ao homem capaz
Não cala no preconceito
Como sou quase perfeito
Nem bebo, nem fumo mais

Parafuso

Eu bebo, eu fumo, eu proso
Eu danço, eu canto, eu versejo
Eu compro, eu canto, eu traquejo
Eu troço, eu farro, e eu gozo
Eu escrevo, eu verso, eu gloso
Comigo tudo é prazer
Ouça a negrada dizer:
— Faça bonzinho, Parafuso
Eu que tudo isto uso
Bebo e fumo até morrer

Formiga

Pois eu nem bebo, nem fumo
Nem danço, nem faço farra
Nem canto como cigarra
Nem caio, nem desaprumo
Nem ajeito, nem aprumo
Nem sou velho, nem rapaz
Nem santo, nem satanás
Nem sou princípio, nem fim
Nem sou bom, nem sou ruim
Nem bebo, nem fumo mais

Aí o dono da casa
Disse: — Está muito boa a porfia
Nem um nem outro perdeu
Vou repartir a quantia
Porém vocês cantem mais
Até amanhecer o dia

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