MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

DE ARMAS EM PUNHO

Nos velhos filmes de faroeste, uma das cenas mais comuns eram os grandes duelos. As divergências eram resolvidas na hora e o mais rápido no gatilho, o vencedor. Os duelos, atualmente, deveriam ser mais intensos no campo das ideias e não das armas porque é complicado quando uma pessoa busca defender uma ideia, de forma clara, democrática, e se depara com uma arma na mão de outra pessoa que tem divergência. Ter divergência não significa, necessariamente, ter razão.

Nos Estados Unidos é bastante comum o uso de armas para calar ideais. Lincoln (1865), por exemplo, foi assassinado por John Booths tendo por motivação o extremismo sulista após a guerra civil americana. James Garfield (1881) foi assassinado por Charles Guiteau por conta das suas frustações com sistema de patronagem, ou seja, o homem – um advogado medíocre, fracassado – escreveu um discurso em apoio à candidatura de Garfield e esperava, com isso, obter algum cargo na administração e por não conseguir, tomou a decisão de assassinar o presidente em 1901.

O caso de Kennedy (1963) vive cercado de controvérsias com um forte enredo de conspiração, dentre algumas, a que o próprio governo acobertou o assassinato, que havia mais de um atirador, que era por conta da invasão da Baía dos Porcos e que havia ligação entre Lee Oswald e Fidel Castro etc. Mais recentemente, uma bala de fuzil passou zunindo a orelha de Trump.

Outros casos envolvendo atentados, mas que as vítimas sobreviveram também são encontrados nos Estados Unidos. Há alguns bem esquisitos como o caso de Andrew Jackson (1835) que a arma falhou duas vezes e Gerald Ford que foi ameaçado por duas mulheres. Theodore Roosevelt (1912) e Ronald Reagan (1981) foram atingidos por armas de fogo. O primeiro, apesar de baleado, continuou o discurso.

No Brasil, os casos mais notórios envolvem Arnon de Mello que foi atirar num adversário, no senado, e atingiu outro que “pagou o pato” e, evidentemente, o caso de Bolsonaro que levou uma facada durante a campanha. Há, certamente, outros casos conhecidos, mas fiquemos com estes que foram citados. A questão dessas citações, está associada com o assassinato de um jovem de 31 anos que defendia o ideal de direita americana. Na Colômbia, durante a campanha presidente, um candidato da direita morreu em consequência dos tiros disparados um por jovem de 14 anos.

É sabido que a esquerda, de um modo amplo o socialismo, tem regras bem nítidas de implantação do seu sistema mundo a fora. Milhões de pessoas morreram sob o domínio de Lênin, não se sabe quantos se calam pelo regime da Coreia do Norte, mas é sabido as atrocidades cometidas por Che Guevara na, chamada, revolução cubana. O medo é uma forma natural de imposição. É por conta do medo que acontecem muitos abusos sexuais de crianças, por exemplo. Parece algo, infinitamente, paradoxal se falar de democracia, mas não se permitir que pensamentos contrários sejam ditos, defendidos ou pronunciados.

Não se pode calar um pensamento contrário à bala. A tentativa de silenciar pela força o que diverge de nossas crenças é não apenas um erro ético, mas uma afronta direta à ideia mais fundamental da democracia: a convivência entre os diferentes. A bala é a negação da palavra. Quando se abandona o argumento e se opta pela arma, decreta-se o fracasso do diálogo.

A democracia não é um lugar de unanimidades forçadas, mas um palco de debates vigorosos, onde o dissenso é não só permitido, mas necessário. É na pluralidade de vozes que se constrói o bem comum. E nenhuma sociedade pode dizer-se justa se não for capaz de proteger aqueles que pensam diferente. A história está repleta de exemplos de regimes que tentaram apagar pensamentos com pólvora. Mas ideias não sangram, não morrem, ao contrário: quando reprimidas, tendem a crescer com ainda mais força. Quem deseja calar o outro com violência, revela não apenas intolerância, mas medo. Medo da palavra, medo da mudança, medo do confronto civilizado.

Respeitar o pensamento contrário é um ato de coragem democrática. Significa aceitar que a verdade pode ter várias faces, que não somos donos do mundo nem da razão. E é justamente esse respeito que diferencia uma sociedade autoritária de uma sociedade livre. Portanto, que nunca se normalize o silêncio imposto pela violência. Que nunca se tolere o discurso que legitima o ódio contra quem discorda. Que nunca se esqueça: numa democracia, o embate se dá com ideias, não com balas. E é no ruído saudável dos argumentos, e não no estrondo de tiros, que se constrói um futuro verdadeiramente humano.

O abuso político pode levar a consequências extremas como o que acontece atualmente no Nepal. Confesso que não se o Brasil tem um termômetro que mostre a real temperatura. Ao que parece, não.

MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

DENÚNCIA VAZIA?

As prioridades no Brasil são extremamente seletivas. Atendem única, e exclusivamente, determinados grupos de pessoas e hoje, pessoas ligadas a ideologia da esquerda que governa esse país. Há muitos juristas que criticam a condução de Alexandre de Morais num inquérito onde ele figura como investigador, juiz e vítima. Um inquérito onde o papel do Ministério Público foi relegado à milésima ordem e o inquérito foi aberto “de ofício”.

Não obstante alguns absurdos que a gente vê e não pode se opor, um dos assessores de Alexandre de Moraes, Eduardo Tagliaferro, que foi, nada mais nada menos, chefe da Assessoria Especial de Enfrentamento à Desinformação no TSE, revelou, publicamente, questões impactantes numa audiência no Senado, mais precisamente na Comissão de Segurança Pública, que foi realizada agora no dia 2 passado. Esse cidadão, simplesmente, acusa o todo poderoso ministro do STF de ter praticado fraudes em documentos e manipulado investigações num flagrante viés político de modo a alcançar figuras ligadas à direita.

A produção de inquéritos era feita com base em postagens, comentários ou publicações feitas em redes sociais que incluíam tudo que se tem disponível com Facebook, Instagram, Twitter, Telegram, TikTok, YouTube e, quiçá, sinais de fumaça largamente utilizada pelos indígenas. Tudo isso era considerado como objetos de denúncia formais, muito embora o valor jurídico seja absolutamente nulo. Não custa lembrar que o todo-poderoso também autorizava essa façanha via mensagens de whatsapp e por e-mail pessoais, ou seja, não se tratava de um procedimento feito à luz dos canais oficiais.

Tudo que era conseguido por esse tipo de mecanismo, era destinado ao gabinete do ministro e utilizado como fundamento para ações que envolviam bloqueio das redes sociais, quebra de sigilo bancário e telemático, apreensão de passaporte e outras sanções definidas a bel prazer do ministro. Não havia uma ação sequer contra pessoas de esquerda, o alvo predileto é, sempre, pessoas designadas como bolsonaristas, aqui incluído, qualquer pessoa que não concorde com o pensamento da esquerda.

De acordo com o que foi dito por Eduardo Tagliaferro, há uma série de documentos que serviram de base para operações importantes e, salvo engano, há uma referência a uma petição que tinha sido assinada em 28/08/2022, mas que foi inserida no processo com data retroativa de 22/08/2022. Dá para entender? Um documento que sustenta uma operação foi assinado numa data, mas incluída num processo com data retroativa! Tagliaferro ainda relata que houve contatos não oficiais entre o gabinete de Moraes e a PGR, além de um aparente conluio com militantes.

Diante de tudo isso, espera-se que os famosos órgãos de comissão de ética atuassem para esclarecer, que o senado abrisse uma sindicância para investigar e tomar medidas cabíveis, mas o ministro Alexandre de Moraes, por sua vez, negou irregularidades e sustentou que todos os procedimentos foram realizados “de forma regular”, com requisições legítimas ao TSE e pronta disponibilização nos autos. Recentemente, ele deu uma declaração pública sobre isso e, pronto, basta. Todos os outros precisam provar que são inocentes, ele não. Basta dizer que foi tudo regular e pronto, encerre-se o assunto e revogue-se as disposições em contrário.

Enquanto a água corre sob a ponte, a impressa joga sua lente para o espaço infinito, mostrando como é lindo o azul do céu. Vamos falar de coisas que interessam: julgamento de Bolsonaro, tarifaço de Trump, carnaval de 2026, jogos da seleção brasileira. As revelações de Tagliaferro, embora, apresentem um potencial altíssimo para abalar a credibilidade de investigações conduzidas sob o comando de Alexandre de Moraes, principalmente porque envolvem manipulação de documentos e atuação política disfarçada de técnica, não são objetos de interesse da imprensa.

Não faz muito tempo, a Folha de São Paulo, fez um editorial comentando que as provas contra Bolsonaro são frágeis, mas todos nós sabemos que ele será condenado e pronto. Nesse sentido, cabe fazer um paralelo: havia mais de 3 mil provas contra Lula e todas as denúncias de corrupção que o envolviam. Marcelo Odebrecht disse, em juízo, que a havia na empresa a diretoria de “operações estruturadas” cuja finalidade era pagar propina a Amante, ao amigo do meu pai, ao amigo do amigo do meu pai, Ferrari, avião, viagra etc. Tudo isso foi anulado e Moro foi declarado parcial.

Você acha, sinceramente, que Alexandre de Morais é imparcial?

MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

CRIME ORGANIZADO NO BRASIL

Não vejo mais argumentos para gente se surpreender com o que acontece nesse país. Vivemos, literalmente, num estado de incongruências de tal sorte que as ilegalidades passaram a ser tratadas como atenuantes legais. O cara é preso e sua ficha tem 87 anotações de crimes cometidos, mas o juiz entende que é um julgamento de valor acreditar que ele cometeria um crime a mais. Esse digníssimo magistrado, cujo salário é pago com os nossos impostos, nunca estudou nada que envolvesse cálculo de probabilidades.

No Brasil, o chefe do PCC – Marcola – tem mais poder do que qualquer outra pessoa pública, pois, como um “deus”, ele tem o poder sobre a vida/morte de quem quer que seja. Basta desagradá-lo ou agir de forma diferente do que reza a cartilha do crime. No estado do Ceará, algumas notícias – se verdadeiras – são de arrepiar até os cabelos do relógio. Esta semana, particularmente, uma pessoa da equipe de um projeto comentou comigo o quanto é “alucinada” por Fortaleza, mas não voltaria a morar lá com medo da violência. Vi, há uns 10 dias, um vídeo de uma pessoa dizendo que o coco vendido nas praias deve ser comprado a quem os criminosos ordenam. Li que mataram um homem que vendia espetinhos porque a aluguel do “ponto” passou para R$ 1.000,00 e ele reclamou.

O que se diz é que no estado do Ceará, a situação atingiu um patamar alarmante, pois o estado é palco de uma disputa intensa entre facções rivais, com consequências de brutalidade exacerbada envolvendo decapitação de pessoas, ou seja, o requinte de perversidade mostra que alguns humanos não conseguiram se desvencilhar dos institos primitivos.

O fato é que se você for olhar, de forma imparcial, o que acontece nesse país, verá que a realidade aponta para um Brasil dominado pelo crime organizado e isso não se refere à comunidades periféricas porque, nitidamente, setores preponderantes da economia estão sendo afetados e não é por exclusividade porque no sistema político tem também fortes laços com tudo isso. apenas domina comunidades periféricas, mas também se infiltra em setores formais da economia e até no sistema político, como apontam outras investigações recentes sobre emendas parlamentares com possível desvio de finalidade.

Essa semana, a principal notícia foi sobre uma das maiores operações já realizadas no Brasil contra o crime organizado que externou, “sem cuspe”, a capacidade de infiltração das facções criminosas em setores estratégicos da economia nacional. A tal operação, designada como “Operação Carbono Oculto”, mostrou que PCC movimentou mais de R$ 46 bilhões por meio de fintechs e postos de combustíveis, ou seja, uma belíssima máquina de lavar tão eficiente que, na sua aparência legal, adquiria, no todo ou em parte, frações do capital social de empresas e botava dinheiro em fundos de investimento, também.

Para especialistas, o Estado brasileiro vive um momento crucial. “Estamos diante de uma transformação do crime. Ele já não é mais apenas violento. É corporativo, estratégico, sofisticado. E está se institucionalizando”, afirma o sociólogo Luiz Werneck Vianna.

Seja nas ruas de Fortaleza, nos postos de gasolina de São Paulo ou nas plataformas digitais de fintechs da Faria Lima, o crime organizado encontrou brechas para prosperar. A resposta do Estado, agora, não pode ser pontual. Exige reformas estruturais, controle fiscal, ação de inteligência e presença institucional nos territórios vulneráveis.

De acordo com as investigações, as fintechs serviam como “bancos paralelos”, burlando o controle das instituições tradicionais, mas havia também uma rede envolvendo mais de mil postos de combustíveis em 10 estados, que vendiam gasolina adulterada e sonegavam bilhões de reais em impostos. As empresas ligadas à facção declaravam um lucro ínfimo, apesar de operarem volumes bilionários.

Essa operação, Carbono Oculto, pode ser apenas a ponta do iceberg porque aqui tem aquele espírito de caixa de lenço de papel, que você puxa um e vem dois ou três. O problema é que seria necessário ações mais enérgicas das autoridades, mas é aqui que começa a descrença, pelo menos de minha parte: até o momento, ninguém que roubou os velhinhos do INSS foi denunciado ou preso e da mesma forma, como os grandes setores econômicos envolvem questões políticas e políticos, meu prezado, entregue a Deus porque a justiça humana tem outras preocupações.

MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

AMEAÇA AO SISTEMA FINACEIRO BRASILEIRO

Atualmente, um dos assuntos mais comentados no Brasil é o impacto das sanções americanas a Alexandre de Morais mediante seu enquadramento na lei Magnitsky, que teve sua aplicação nos Estados Unidos e depois se estendeu para outros países em versões inerentes a cada nação, mas com o objetivo de punir entidades envolvidas em corrupção, lavagem de dinheiro, violação de direitos humanos e coisas afins.

Não me recordo precisamente se foi através dessa lei, mas Osama Bin Laden teve seus recursos financeiros congelados em diversos países e os motivos inerentes eram a suspeição de que a sua riqueza era oriunda da venda de ópio e que ele financiava o terrorismo no mundo. De modo igual, indivíduos sancionados pela Magnitsky enfrentam restrições financeiras e, por seu alcance extraterritorial, o Brasil não está imune como pensa o Dino da Silva Sauro.

O engraçado é que o brasileiro como sua verve carnavalesca e esportiva, famoso por levar tudo na valsa, acredita piamente que os bancos brasileiros, por ordem e graça do STF – a quer dizer – de um ministro do STF, não cumprirão os bloqueios, inclusive, os banqueiros encontraram uma solução simples para um problema tão complexo, a saber: eles fazem o bloqueio das contas dos sancionados e o STF, através de liminar, manda desbloquear. Então, os bancos dirão que cumprirão a lei, mas por decisão do STF, tiveram que desbloquear. Eu tentei achar uma expressão que representasse essa situação, mas a única que achei foi: “ideia de jerico da porra!”. Problemas complexos, não são resolvidos com soluções simples.

Aqui no Brasil, o Bradesco já se posicionou dizendo que vai cumprir e pronto. A presidente do Banco do Brasil deu uma sugestão digna de análise: pagar os sancionados através de cooperativas de crédito e isso emputeceu o STF. O fato é que o desempenho financeiro dos bancos será, duramente, afetado e o mercado sabe disso, o banqueiro sabe disso, mas ao que parece prefere colocar em risco uma instituição, apenas em defesa de um cara que, notoriamente, quer comandar o país com mão de ferro.

É sabido a divisão interna no STF. Barroso, “coitadinho” está desesperado, sinalizando que deixará o STF após sair da presidência. O cara tem filhos nos Estados Unidos, um apartamento avaliado em R$ 22 milhões e não quer que o patrimônio seja afetado. Eu acho fantástico esse modelo de comunista/socialista: impõe um regime socialista no Brasil, mas compra um apartamento em Paris, New York, em Cuba (ops! Cuba, não!)

O pessoal está esquecendo que banco apoia a economia através de empréstimos e financiamento para dinamizar o consumo e o investimento. O pessoal esquece que, apesar do nosso grau de desenvolvimento tecnológico no setor bancário, a gente depende de tecnologia americana. O problema pode ser visto no curto prazo, onde haverá redução da margem de lucros, queda no preço das ações, desconfiança de investidores e, eu estou rezando para que não saques em massa. A longo prazo, bem…. considerando o longo prazo como um exercício fiscal, eu diria que os bancos não suportarão.

Um banco, como o Banco do Brasil, tem uma importância fundamental para a economia brasileira. A conta única do tesouro é no Banco do Brasil, então ele é, simplesmente, o caixa do país. Embora o governo tenha a maioria das ações, não se pode esquecer que há investidores que compram as ações em função do lucro. O valor de mercado do banco, ou de uma empresa com ações na bolsa, é calculado em função do preço da ação e, como já aconteceu no governo FHC, o Banco do Brasil pode ter necessidade de aporte de capital para se sustentar em pé. Isso aconteceu em 1994 com a implantação do Plano Real. O BB não quebrou por conta de um aporte de capital de R$ 8 bilhões que o governo fez.

Se você pesquisar, vai encontrar casos de bancos que sofreram restrições por não observar compliance e outras coisas como lavagem de dinheiro. No Brasil, há registros de bancos que sofreram intervenção extrajudicial por parte do Banco Central por conta de corrupção. O BANDEPE, quando Eduardo Campos era secretário da fazenda do governo do avô, envolveu-se na emissão de títulos públicos para pagamento de precatórios. Eduardo foi proibido, juntamente com dois outros diretores, a ocupar cargos em empresas sob a égide do Banco Central. Acabou sendo governador, citado por Paulo Costa da Petrobras em desvios da refinaria Abreu e Lima, mas estamos no Brasil.

Seria muito bom que os gestores do sistema financeiro entendessem que o caso é grave. Sabe aquele papo do “boi de piranha”? Ele tem nome: Alexandre de Morais.

MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

LIBERDADE DE EXPRESSÃO

Tem sido palco de discussão, por aqui, a questão da liberdade de expressão. Os gestos do governo atual apontam para o controle da mídia, inclusive, tem textos circulando por aí no qual o presidente atual concorda com a suspensão, por dois meses, de big techs que não removerem conteúdo tipificados como crime. O bom de tudo isso é que tal suspensão poderia ser feita sem a necessidade de ordem judicial. Então, bastaria que o conteúdo fosse considerado uma violação legal e alguém, provavelmente, uma agência reguladora iria lá e suspendia.

Minha preocupação é que, para o governo atual, o crime é chamar o presidente de ladrão. Durante a campanha eleitoral, a quantidade de ações impostas pelo STF a favor dele, ficaram registradas. Era proibido associar seu nome ao aborto, era proibido chamá-lo de ladrão, era proibido dizer que ele tem simpatia por regimes ditatoriais como o de Cuba, Venezuela ou até mesmo os “defensores explosivos” da Palestina. A métrica usada pelo STF que, em tese, tem visão constitucional, ou pelo menos deveria ter, foi nitidamente tendenciosa, então o que podemos esperar de um funcionário do governo, indicado pelo presidente para ocupar uma diretoria qualquer, poderia fazer?

É senso comum que a liberdade de expressão deve ser tratada como um dos pilares fundamentais de qualquer da democracia, principalmente porque este conceito de democracia deve envolver a pluralidade de pensamentos, não se eximindo aqui, os pensamentos discordantes. A liberdade de expressão deveria garantir que, qualquer pessoa possa se manifestar publicamente, externar suas opiniões, seus credos e suas críticas sem correr risco de ser censurado ou vítima de qualquer repressão promovida pelo estado. O problema é que o entendimento de juristas é que esse direito não é absoluto, ou seja, para alguns não se pode, simplesmente, descascar o verbo e falar o que quiser. É aqui onde entrar meu ponto de discórdia: se temos crimes de calúnia, injúria e difamação, devidamente tipificados, por que não fazer uso deles quando se sentir atingindo na sua honra?

Eu creio que o Brasil vai na contramão dos direitos individuais. Enquanto nos Estados Unidos, a liberdade de expressão é fortalecida pela 1ª Emenda à Constituição (coisa proposta lá por volta dos idos de 1791, ou seja, há 234 anos, somente) que estabelece que o Congresso não pode criar leis que restritivas à liberdade de religião, de imprensa, de reunião e, mais que tudo, de expressão. A extensão da lei é clara: o congresso não pode criar mecanismos que ameacem essa liberdade e quando isso acontece, o caso é resolvido nos tribunais, com lisura e não com determinadas proteções ao interessado.

Veja que liberdade de expressão, no entendimento que pretendo dar aqui, é o direito do cidadão falar, abertamente, o que pensa. Para mim, isso está longe de incitação a um ato criminoso. Ato criminoso deve ser punido de acordo com a lei e ponto final. Tem um tratado filosófico sobre isso que é conhecido como paradoxo de Popper ou paradoxo da tolerância. A coisa é mais ou menos assim: se houver tolerância ilimitada, então a democracia pode estar em risco, ou em outras palavras: ao se tolerar discursos que pregam ódio, exclusão ou violência, isso poderia afetar a convivência democrática. É uma tese e como tal pode ser refutada ou não.

Sob esse ângulo, parece haver um choque entre o que reza a 1ª emenda à constituição americana e esse alerta de Popper porque, ao que parece, o sistema jurídico lá, entende que uma forma de combater uma fala ofensiva é dando espaço para o debate, ou seja, permitir que surjam outros posicionamentos até mais rude do que o que foi dito. O dilema é grande porque, querendo ou não, as mídias sociais propagam com extrema rapidez qualquer forma de pensamento. Acredito que o limite deve ser a lei, isto é, diga o que você quiser, agora no momento que desenvolver uma ideia agressiva, caluniosa etc. responda criminalmente. Então, acredito que seria mais eficiente aumentar a dosimetria das penas desses crimes, inclusive com imputação de multas para que o debate seja de ideias.

Querendo ou não, esse paradoxo da tolerância, impõe reflexão sobre até que ponto a liberdade de expressão deve ser garantida sem restrições. Até que ponto é democrático impor limites a expressões que não sejam apologias ao crime? O Brasil não tem maturidade para fazer algo sério nesse campo graças ao aparelhamento do estado. Aqui, um corrupto pode ter sua candidatura a qualquer cargo público, homologada, enquanto um trabalhador que foi negativado no SPC ou na SERASA, não pode ter acesso ao crédito.

MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

UM PAÍS DOENTE

Já trago alguns bons anos nas costas como professor, tanto em escola estadual quanto na educação superior. Comecei a dar aula de Matemática uns 10 anos após ter concluído a 8ª série, equivalente, hoje, ao 9º ano. Quando o colégio começou com o ensino médio, passei a ensinar Física também. Peço perdão aos colegas da época, mas meus professores tinham mais qualidade que meus colegas. A educação é base para qualquer modelo de desenvolvimento econômico e social de qualquer nação, exceto para aqueles malucos dos talibãs que não permitem mulheres nas escolas.

No Brasil, o sistema educacional enfrenta uma crise prolongada e os gestores insistem em manter essa estrutura deficiente, professores insatisfeitos, mal remunerados e, em alguns casos, poucos comprometidos em melhorar a qualidade de ensino. Uma questão que vejo sempre é a responsabilidade sobre o método Paulo Freire e eu sempre pensava que, talvez, o ângulo de estivesse errado, posto que Paulo Freire desenvolveu um método para alfabetizar adultos. Então, em tese, ele não seria responsável pelo fracasso do ensino. Mas, a gente entende que o fracasso não foi propriamente por ensinar às crianças, mas por tentar adaptar para as crianças, um método politizado que era destinado a adultos. Os professores compraram essa ideia e a consequência foi a prática doutrinária.

A realidade do Brasil é chocante porque somos marcados por deficiências estruturais, baixa qualidade de ensino e desigualdade de acesso. Essa situação compromete não apenas o futuro das novas gerações, mas também a capacidade do país de competir em um cenário global cada vez mais pautado pelo conhecimento e pela inovação, fato, facilmente comprovado pelos resultados dos nossos estudantes no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA) que é coordenado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

O desempenho do Brasil revela, de forma contundente essa fragilidade. Basta procurar na internet os nossos resultados e, tenha certeza, você não vai se chocar com isso. Vai, simplesmente, constatar que estamos, geralmente, nas últimas posições do ranking mundial, com desempenho muito abaixo da média da OCDE em leitura, matemática e ciências. A distância entre o Brasil e países líderes, como Singapura, Japão e Coreia do Sul, equivale a vários anos de escolaridade. Vamos fazer uma analogia: o que os alunos do Japão, Singapura e Coreia do Sul, aprendem nos primeiros anos, o aluno brasileiro leva uns 8 anos para “desconfiar”.

Buscar causas para essa situação calamitosa, irá aparecer inúmeros argumentos, por exemplo, falta de recursos para educação, falta de investimento em educação, subfinanciamento e vai por aí. Eu sempre desconfio quando dizem que “faltam” recursos e acho isso ridículo. O pessoal quer fixar o gasto em educação como fração PIB, algo como 12% do PIB seria destinado à educação. Agora pergunte em que esse dinheiro seria aplicado?

Eu citei as condições dos professores, mas acho que isso pode ter um peso diferente do desvio de finalidade na educação. Se o professor ensinasse o que se exigem nos planos, tranquilo, mas o que hoje se ensina são coisas pontuais relacionadas com a dominação de classes, socialização etc. Não restam dúvidas de que professores brasileiros recebem salários significativamente menores do que seus pares em países desenvolvidos e, em muitos casos, trabalham em condições adversas, com turmas superlotadas e falta de apoio pedagógico, de tecnologia necessária para uma boa aula. Isso dificulta a atração e retenção de profissionais qualificados e impacta diretamente a qualidade do ensino.

A desigualdade social agrava ainda mais o cenário. Alunos de escolas públicas, especialmente nas regiões mais pobres, têm acesso muito limitado a materiais didáticos de qualidade, programas de reforço e atividades extracurriculares. Essa disparidade se traduz em diferenças profundas no desempenho escolar, perpetuando o ciclo da pobreza. E não pense que isso incomoda gestores de escolas ou o governo. Na verdade, a manutenção dessas falhas é importante para os gestores políticos. O presidente atual, já disse que quando uma pessoa passa a ganhar um determinado valor ou conseguir uma formação profissional, então dele deixa de votar no PT.

Além disso, a gestão educacional sofre com problemas de coordenação entre União, Estados e Municípios, gerando sobreposição de políticas, falta de continuidade e desperdício de recursos. Planos e programas muitas vezes são descontinuados a cada mudança de governo, impedindo avanços consistentes. Junte a isso, o currículo escolar, que é, absurdamente, desconectado da realidade contemporânea e das demandas do mercado de trabalho. No ensino superior, o sentimento que eu tenho é que não estamos preparando jovens para o mercado.

O fracasso educacional brasileiro não é inevitável. Países que já enfrentaram desafios semelhantes, como Portugal e Vietnã, conseguiram reverter trajetórias negativas por meio de reformas abrangentes e persistentes. O Brasil precisa seguir esse caminho, com compromisso político, participação social e visão estratégica.

Se a educação é a chave para o desenvolvimento, a atual situação representa um obstáculo que precisamos remover com urgência. Sem isso, continuaremos condenando gerações ao subemprego, à baixa produtividade e à exclusão social — um preço alto demais para qualquer nação que almeje um futuro digno e próspero.

MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

MANIPULAÇÃO DE DADOS

Eu acredito que Paulo Maluf, até mesmo por sua formação em engenharia, era um dos políticos que conseguia atrair a atenção da plateia quando discursava pela capacidade que ele tinha de dizer quanto de asfalto foi concluído, quais os gastos com determinados obras etc. verdadeiros ou não, Maluf passava isso como uma capacidade natural de um gestor, de um bom gestor. Ciro Gomes copiou esse modelo malufista, mas com uma diferença gritante: Ciro Gomes se acha o suprassumo da inteligência humana, arrota arrogância e fala um monte der merda. Enquanto Maluf se baseava na sua capacidade de engenheiro, Ciro se cerca de dados, alguns corretos, para deturpar determinados cenários.

Manipular dados estatísticos não é uma coisa nova. Mostrar apenas o que interessa politicamente é praxe para quem precisa de votos. Todos devem se lembrar da famosa entrevista de Rubens Ricupero, ministro do governo do governo Itamar Franco, que foi pego pelas “parabólicas” dizendo a Carlos Monfort que “o que é bom a gente mostra e o que é ruim a gente esconde”. A intenção era eleger FHC, presidente e ele, por isso, também ganhou uma boquinha no governo FHC. Usar esse tipo de expediente, traz impacto direto na formulação de políticas públicas e, principalmente, na manutenção absurda de pessoas no poder. Não preciso lembrar que o atual presidente mentia sobre o número de crianças abandonadas, em estado de miséria etc.

A manipulação de dados causa impactos importantes na população, influencia a opinião pública, principalmente quando se apoia em coisas que são ditas pelos grandes canais de televisão e o efeito é sentido nas diretrizes da nação. Em termos práticos, a manipulação de dados consiste na distorção, omissão ou interpretação dos resultados de forma viesada ou tendenciosa – para usar um termo estatístico coerente – na tentativa de validar, sustentar ou legitimar decisões políticas ou cientificas, não importa.

Tome como exemplo as pesquisas eleitorais. Falando de forma rigoroso, matemática, a intenção de votos de um candidato é baseada no percentual de votos foram declarados a eles e a esta proporção soma-se e subtrai-se o erro padrão. O tamanho, mínimo, de uma amostra para dar garantir uma determinada margem de erro (2% pontos percentuais para mais ou para menos) e confiabilidade, são critérios bem disseminados na literatura, no entanto, diante das últimas pesquisas feitas no Brasil, eu prefiro acreditar em horóscopo, tarô, numerologia e búzios. Lula por exemplo, teve 51,90% dos votos, mas não consegue andar na rua livremente.

Em diversos países já forma observados casos de manipulação “braba” de dados. Na antiga União Soviética, as estatísticas oficiais eram manipuladas para demonstrar que o comunismo era melhor do que o capitalismo. Lá se pegavam, cuidadosamente, dados da produção agrícola e industrial, pegavam o índice de qualidade de vida e inflavam esses indicadores com o intuito de reforçar essa narrativa. Os dados eram, meticulosamente, selecionados. Dessa forma, destaca-se a imagem de sucesso do regime, mas as falhas estruturais, as reais condições de vida, eram omitidas. Esse tipo de comportamento, dificulta até mesmo o próprio sistema na correção de problemas internos.

Não custa lembrar que durante anos e anos, eu diria até desde quando Fidel Castro implantou a revolução em Cuba, que todos nós sabemos que lá existe a taxa de mortalidade infantil do mundo. Eu era um profundo admirador dessa política, no entanto, o país não registra óbitos de crianças com idade inferior a 6 anos. Assim, é muito bom vender uma imagem salutar de bem-estar, de avanço econômico e social, quando os fatos mostram um país à beira de uma falência generalizada.

Esse tipo de atitude também se faz presente no campo científico. Durante a Covid-19, diversos países, os dados epidemiológicos de diversos países foram apresentados de forma seletiva. Sempre se desconfiou muito dos dados da China nos que diz respeito a denúncia de subnotificação de casos e de mortes. Situações semelhantes foram observadas, também, no Irã e na Coreia do Norte, onde as estatísticas oficiais não batiam com relatos independentes. A coisa foi tão feia que o laboratório Lancet, um dos mais renomados do mundo, teve que “despublicar” um artigo científico pela falsidade dos dados.

Na Argentina, o governo passou a intervir no Instituto Nacional de Estatística e Censos (INDEC) por conta da inflação oficial que era, sistematicamente, menor do que sentida pela população, ou seja, a imagem de estabilidade econômica era uma grande farsa que impactou na desconfiança do mercado e chegou, inclusive, a elevar a taxa de juros por conta o risco-país.

Com Hitler, a Alemanha também divulgou números seletivos emprego, produção e crescimento econômico etc. tudo com o objetivo de dar uma conotação de prosperidade ao regime, mas dados sobre perseguições aos judeus, corrupção desenfreada dos generais da gestapo, por exemplo, eram omitidos ou completamente falsificados, servindo ao projeto ideológico do Terceiro Reich.

Atualmente, a prática continua vigente e envolvem governos e partidos políticos que, muito comumente, selecionam indicadores que reforçam suas propostas e deixam de lado dados que apontam para falhas ou ineficiências. Esse procedimento é tratado como cherry picking (colher cerejas) e é, infinitamente, aplicado em períodos eleitorais, quando as disputas se intensificam. Narrativa. Vale tudo.

Em resumo, a manipulação de dados estatísticos é um problema global e atemporal, que compromete qualquer área do conhecimento e está duramente presente na política. É extremamente difícil, mas cabe à sociedade denunciar essas práticas para fortalecer a questão da transparência, a accountability reforça a confiança nas instituições. A regra vigente deve ser: acesso irrestrito a dados independentes e a liberdade de imprensa. Sem ela, a nação é apenas um protótipo.

MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

ATÉ TU MADURO?

A Venezuela, antes do Chavismo, tinha uma economia sustentável apoiada na exploração de Petróleo. A década de 1970, talvez tenha sido o melhor período para o país, dado os bons indicadores econômicos que geraram prosperidade e qualidade de vida. Nesse período, a Venezuela teve o maior PIB da América Latina, havia relevantes projetos de infraestrutura e, teve início a implantação de programas sociais. O país registrava uma taxa de consumo de bens duráveis elevada, fato que dinamizava a economia, programas sociais foram implementados, e experimentou um aumento substancial no turismo internacional. O hoje comentarista de futebol, Neto, jogou uma temporada na Venezuela.

Entre 1980 e 1990, o país entrou na crise do empobrecimento. A crise do petróleo de 1973, produziu efeitos tardios na Venezuela e uma terrível combinação de má gestão, corrupção, dívida externa crescente (qualquer semelhança com o Brasil pode não ser mera coincidência), gerou uma crise fiscal intensa que se refletiu em inflação alta e desemprego, fato que contraria, por exemplo, a chamada curva de Phillips na Economia que sugere uma relação contrária entre inflação e desemprego. Para se ter ideia, já no início dos anos 1990 quase 60% da população vivia abaixo da linha da pobreza. Obviamente, pobreza gera reação popular, violência e afins.

A reserva construída nos anos 1970, acabou não sendo suficiente para superar os problemas e o país entrou num processo de degradação acelerado com infraestrutura precária, saúde pública ineficiente com limitações graves para atender demandas por serviços de saúde, falta de equipamentos hospitalares e falta de medicamentos. Registrou-se, também, altos índices de evasão escolar, notadamente no ensino médio, porque, naturalmente, a opção era buscar alguma atividade remuneratória, não falo nem emprego porque isso era complicado.

Com tudo isso, instala-se uma crise institucional porque a confiança nas instituições políticas caiu diante de tantos, e sucessivos, escândalos de corrupção. Politicamente, o bipartidarismo entre os partidos Ação Democrática (AD) e COPEI já sinalizava esgotamento e isso foi um tapete estendido para o discurso, ou narrativa como queira, de Hugo Chávez.

A relação entre Brasil e Venezuela, para além das transações comerciais, foi bastante intensa, principalmente após a chegada de Lula ao poder. Ao longo da primeira década desse século, que coincide com o governo petista, essa relação passou a ser “parede e meia” como se diz no interior do Nordeste. Incontestavelmente, a Venezuela era um dos grandes parceiros comerciais do Brasil na América do Sul. Mas, se em termos de divisas, esse vínculo ficou meio enfraquecido pela conjuntura econômica, política e humanitária venezuelana, em termos políticos não foi bem assim. O Brasil, com Lula na presidência, apoiou inquestionavelmente as eleições fantasiosas de Hugo Chávez, esteve lá várias vezes para dar sustentação a isso e foi com a Venezuela que foi acordada a construção da Refinaria Abreu e Lima, em Suape-PE, fruto de um dos maiores escândalos de corrupção do mundo. Um projeto de US$ 2,1 bilhões, terminou em US$ 19 bilhões e a refinaria não foi concluída.

A decisão de Maduro de taxar produtos brasileiros com taxas que variam de 15% a 77%, vai afetar setores como alimentos (como carnes bovina e de frango, arroz, leite em pó, açúcar), medicamentos e produtos químicos, além de máquinas, tratores, equipamentos agrícolas, autopeças, calçados e têxteis. Durante o período de maior aproximação política entre os governos de Hugo Chávez e Luiz Inácio Lula da Silva, o comércio bilateral ultrapassou US$ 5 bilhões por ano.

No início da segunda década desse século, Brasil entrou numa derrocada econômica intensa, além de viver uma crise política que culminou com o impeachment de Dilma. Não foi diferente na Venezuela. A morte de Chávez e a assunção de Maduro com interesse nítido de se perpetuar no cargo, levou à Venezuela a este retrato degradante que é hoje. Isso piorou com o rompimento diplomático do governo Bolsonaro e, para o Brasil, os setores acima citados foram, ainda mais, impactados.

De fato, houve perda de mercado, inadimplência nos pagamentos e interrupções, não apenas suspensões, logísticas. Apesar disso, a construção civil não reclamou muito porque a Odebrecht realizou muitas obras de infraestrutura na Venezuela, destacando-se: o metrô de Caracas, o sistema ferroviário Los Teques e outras intervenções urbanas, mas o detalhe é que tais investimentos foram financiados com recursos do BNDES, ou seja, algo da ordem de US$ 1 bilhão, foi repassado pelo BNDES para tais construções na Venezuela. Os recursos do BNDES decorrem do lucro das suas operações e a utilização de recursos do FAT – Fundo de Amparo ao Trabalhador.

Cabe lembrar que no que concerne à matriz de importação brasileira com a Venezuela, destacavam-se os principais produtos envolviam petróleo bruto e derivados (como gasolina e diesel) e insumos petroquímicos (resinas, plásticos). A partir de 2016, estas importações praticamente zeraram tanto devido a queda de produção da Venezuela quanto por sanções econômicas impostas por diversos países ao regime de Maduro.

O Brasil precisa buscar alternativas para seus produtos, posto que, em linhas gerais se trata de produtos prioritários que podem ser comercializados em outros mercados. Mas, não deixa de ser surpreendente a atitude Maduro. Isso pode ser retaliação ao posicionamento de Lula em não reconhecer sua eleição fraudulenta. Demorou muito para ser isso, mas quem sabe? Também pode ser que maduro esteja querendo agradar Trump.

MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

INSTABILIDADE POLÍTICA

Pedro Malan, ex-ministro da Fazenda de FHC, disse que “no Brasil, até o passado é incerto”, numa clara alusão ao fato da instabilidade que pode ser expressa de diversas formas, dentre as quais a instabilidade econômica, instabilidade política, social, ambiental. Todas são desastrosas para qualquer nação e nenhuma delas parece sobrepujar a outra. A instabilidade, em geral, não tem uma regra clara para se configurar, porque tanto pode ser fruto de uma ação repentina quanto de um processo com questões mal resolvidas que acumulam tensões e isso afeta tudo que vem pela frente como governabilidade, desenvolvimento econômico e o bem-estar social da população.

Entendemos que a instabilidade surge com a falta de previsibilidade, confiança e equilíbrio. No âmbito econômico, altos índices de inflação, desequilíbrio fiscal, desemprego, desvalorização cambial e baixa produtividade costumam ser sintomas e causas desse processo, de modo que os sinais de incapacidade de equilibrar contas públicas, acabam gerando desconfiança do mercado. O Brasil viveu isso intensamente durante o governo Sarney, quando cinco planos econômicos tentaram controlar a inflação e fazer o país crescer.

Do ponto de vista social, as desigualdades estruturais, bem como o colapso nos serviços públicos e o crescimento da criminalidade contribuem para um ambiente de tensão e descrença nas instituições. algumas decisões jurídicas tendem a intensificar um estado de insatisfação muito forte em setores da sociedade criando arestas e resistência a determinadas medidas apaziguadoras. No caso ambiental, eventos extremos como secas prolongadas e inundações devastadoras, que desestabilizam comunidades e colocam em risco a segurança alimentar e energética.

Em termos políticos, geralmente, ela está associada à fragilidade institucional, corrupção desenfreada, conflitos entre os poderes e/ou falta de representatividade democrática. As consequências da instabilidade, seja ela de que ordem for, são profundas e podem durar mais tempo do que deveriam.

No Brasil, a instabilidade tem raízes históricas, mas talvez o retrato mais nítido tenha sido o governo de Dilma porque não se revelou apenas a falta de credibilidade, mas estourou a onda de escândalos de corrupção que foram trazidos com a descoberta dos desvios de recursos da Petrobras e que criou, sim, uma polarização intensa nesse pais, todavia, ao contrário do que se pretende convencer, esta polarização não se refere a lulista x bolsonarista, mas a quem não suporta corrupção e quem tolera corrupção.

O fato é que, diante de todo arcabouço de instabilidade política instalada no país e com o impeachment de Dilma, o Brasil passou experimentar a instabilidade jurídica, o desrespeito às normas constitucionais, externados pelo, então, presidente do STF quando não cassou os direitos públicos de Dilma, como reza a constituição. Atribuir a polarização ideológica à Operação Lava Jato, com a suspeição do Moro e a consequente anulação da operação, só intensificou o sentimento daqueles que não suportam corrupção. O Brasil se afastou do OCDE migrando, novamente, para o ranking de aumento da percepção da corrupção.

Do ponto de vista econômico, embora se divulgue indicadores de economias de primeiro mundo, o país convive com altos índices de informalidade, crescimento ameaçado pelo descumprimento da meta inflacionária, endividamento das famílias crescente e, agora, um problema fiscal sem chance de ser resolvido no curto prazo. O pior é que a decisão de Alexandre de Morais, favorável ao aumento do IOF, escancara a sobrepujança do poder judiciário sobre o legislativo, ou seja, basta uma canetada de um ministro do STF para anular a decisão dos representantes eleitos pelo povo.

É preciso ter consciência de que os ambientes instáveis afastam investimentos estrangeiros. Instabilidade, deixa o crédito mais caro afetando investimento internos e as empresas desistem de suas propostas de expansão. Uma das consequências disso é a redução na arrecadação fiscal decorrente da queda da atividade econômica e isso impacta a questão social que carece de recursos dos chamados projetos sociais do governo. A redução na arrecadação fiscal, compromete contas públicas, compromete políticas públicas gera, indubitavelmente, desigualdades sociais. A instabilidade cria um ciclo vicioso: a crise econômica aumenta o descontentamento social, que por sua vez pressiona o sistema político e desorganiza ainda mais as bases da economia.

Se do ponto de vista interno, a instabilidade gera perda de confiança dos agentes econômicos — empresários, investidores, consumidores — o que reduz o consumo, o investimento produtivo e a geração de empregos, externamente, pode provocar fuga de capitais, desvalorizar a moeda e, com isso, perder competitividade no comércio internacional. As agências de análise de risco sempre levam em conta esse tipo de variável para orientar, ou não, investimentos. Também não se descarta, os impactos nas relações diplomáticas e comerciais: parceiros internacionais tendem a adotar uma postura mais cautelosa e até restritiva, afetando exportações, acordos bilaterais e a participação do país em blocos econômicos e fóruns multilaterais. Ou impondo tarifas.

O Brasil abraçou de livre e espontânea vontade (será?) a instabilidade política, motivada pela instabilidade jurídicas. Decisões do STF são controversas e só aumentam a polarização porque a maioria delas são notórias em beneficiar apenas um lado.

A dúvida é se o Brasil consegue sair disso. Certamente, alguns dirão que tudo se faz em defesa do estado democrático de direito (seja lá o que porra isso quer dizer), mas superar a instabilidade requer vontade política, reformas estruturais, fortalecimento institucional e políticas sociais integradas. Estabilidade não é apenas a ausência de crises — é a construção contínua de confiança entre Estado, mercado e sociedade. Estabilidade requer renovação e se não formos capazes de mudar a configuração do congresso nacional elegendo pessoas sintonizadas com o objetivo primário de reverter esse quadro caótico, teremos apenas um pensamento político vigente no país.

MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

NOVAS TARIFAS SOBRE O BRASIL

Desde que assumiu o governo nos Estados Unidos, Donald Trump vem impondo uma política de tarifas comerciais, afetando países como o Brasil e o México. Tomando por base o ano de 2024, o volume de importações americanas foi US$ 3,30 trilhões, algo da ordem de 1,5 vezes o PIB do Brasil no mesmo ano. A balança comercial entre Brasil e EUA é, ligeiramente, favorável a eles, pois nós importamos US$ 40,6 milhões e exportamos US$ 40,3 milhões. Embora os números sejam próximos, a natureza dos produtos comercializados diz muita coisa: nós importamos tecnologia, produtos químicos, remédios etc. e exportamos produtos agrícolas.

A notícia recente é de uma tarifa de 50% sobre os produtos brasileiros e num contexto bem amplo, as teorias mais esdrúxulas surgem desde o mais ignorante cidadão até um renomado economista, dono de um prêmio Nobel. Para este, a motivação de Trump é favorecer um ditador como Bolsonaro e, nesse contexto, o presidente brasileiro declarou, semana passada, que isso é decorrente da atuação de Eduardo Bolsonaro. Hoje, foi noticiado que haverá tarifas sobre os produtos mexicanos (segundo maior exportador) e União Europeia. Aqui morre a teoria de conspiração: o que tem a ver Bolsonaro com o México ou com a União Europeia? Se o motivo é ele, por que essa tarifa para o México e União Europeia?

A imputação de tarifas americanas sobre produtos brasileiros não é uma coisa nova. No ano 2000, por exemplo, George Bush aumentou a tarifa sobre o aço de 8% para 30% e o intuito era proteger a indústria nacional, ou seja, a justificativa era conter o excesso de produção global e proteger indústria local. O governo americano alegou que a indústria siderúrgica nacional precisava ser resguardada da concorrência estrangeira, especialmente de países que subsidiam suas exportações. Apesar de não termos o mesmo tamanho de importância na matriz de comercio exterior que a China tem, o Brasil foi incluído no pacote de medidas por pressão de grupos industriais americanos e pela busca de maior equilíbrio comercial

Confesso que tenho muitas dúvidas de motivação política, mas não se pode deixar de lembrar que questões ambientais e agrícolas contribuem para a disputa. Do ponto de vista ambiental, os Estados Unidos, e outros países, se tensionam com a questão do desmatamento na Amazônia, mas a outros fatores envolvidos nisso, que nós não estamos captando, ainda, por conta do apoio das big techs, a esta política.

Atribuir tudo isso apenas a um apoio de Trump a Bolsonaro, talvez não seja correto. Não quero dizer que isso não pode ser retaliação, porque pode ser, sim! mas se for, acredito que se deve aos infelizes comentários do presidente brasileiro, pincipalmente quando propôs a criação de uma moeda que substituísse o dólar nas transações internacionais. Naquela ocasião, Trump avisou que taxaria os produtos brasileiros em 100%. Além disso, o governo brasileiro tem se aliado a inimigos declarados do governo americano e cada movimento feito nessa direção, abre a oportunidade de mais punição. Até quando? Não sabemos, mas o que se sabe é que os efeitos dessa taxação vão impactar negativamente a economia brasileira.

No caso da União Europeia, a questão é mais complexa e envolve alguns setores cruciais como aviação, tecnologia, vinhos e queijos. Quem não lembra do quebra pau entre Boeing (EUA) e Airbus (UE) que gerou sanções recíprocas e com tarifas bilionárias, devidamente autorizadas pela OMC. Além disso, os EUA têm criticado fortemente os subsídios agrícolas europeus e as regulamentações sobre serviços digitais, que afetam diretamente empresas americanas como Google, Apple, Amazon e Facebook.

Em relação ao México, a política tarifária dos EUA tem sido utilizada como ferramenta de contenção migratória e como instrumento de renegociação de acordos comerciais. Durante a transição do NAFTA para o USMCA, os EUA impuseram tarifas a produtos mexicanos para forçar concessões em temas como propriedade intelectual, direitos trabalhistas e regras de origem automotiva. Também houve ameaças tarifárias vinculadas ao controle da imigração ilegal, o que mostra o uso político das tarifas em contextos não diretamente econômicos. Só para lembrar um detalhe: uma das regras no NAFTA era qualquer empresa americana, ou canadense, poderia comprar qualquer empresa mexicana, mas a recíproca não era verdadeira.

Qualquer tarifa onera significativamente as cadeias produtivas, dado o alto grau de integração entre as economias envolvidas. As tarifas não apenas elevam os preços para os consumidores, mas também dificultam a operação de empresas multinacionais que dependem de insumos importados.

Antes de qualquer coisa, os Estados Unidos utilizam as tarifas como uma forma de reequilibrar sua balança comercial e reforçar sua posição hegemônica no sistema internacional. Trata-se de um protecionismo seletivo que visa preservar setores considerados estratégicos, como o aço, a tecnologia e a agricultura, frente à crescente concorrência global. Entretanto, isso tem limites e um deles é a incerteza do mercado.

Finalmente, por enquanto eu prefiro acreditar que as tarifas impostas pelos Estados Unidos ao Brasil, à União Europeia e ao México, refletem uma política comercial cada vez mais instrumentalizada por objetivos estratégicos, mas não sou inocente de pai e mãe para não acreditar que esse tipo de medida de proteção econômica, também serve como instrumentos de poder e barganha política.