MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

Não vejo mais argumentos para gente se surpreender com o que acontece nesse país. Vivemos, literalmente, num estado de incongruências de tal sorte que as ilegalidades passaram a ser tratadas como atenuantes legais. O cara é preso e sua ficha tem 87 anotações de crimes cometidos, mas o juiz entende que é um julgamento de valor acreditar que ele cometeria um crime a mais. Esse digníssimo magistrado, cujo salário é pago com os nossos impostos, nunca estudou nada que envolvesse cálculo de probabilidades.

No Brasil, o chefe do PCC – Marcola – tem mais poder do que qualquer outra pessoa pública, pois, como um “deus”, ele tem o poder sobre a vida/morte de quem quer que seja. Basta desagradá-lo ou agir de forma diferente do que reza a cartilha do crime. No estado do Ceará, algumas notícias – se verdadeiras – são de arrepiar até os cabelos do relógio. Esta semana, particularmente, uma pessoa da equipe de um projeto comentou comigo o quanto é “alucinada” por Fortaleza, mas não voltaria a morar lá com medo da violência. Vi, há uns 10 dias, um vídeo de uma pessoa dizendo que o coco vendido nas praias deve ser comprado a quem os criminosos ordenam. Li que mataram um homem que vendia espetinhos porque a aluguel do “ponto” passou para R$ 1.000,00 e ele reclamou.

O que se diz é que no estado do Ceará, a situação atingiu um patamar alarmante, pois o estado é palco de uma disputa intensa entre facções rivais, com consequências de brutalidade exacerbada envolvendo decapitação de pessoas, ou seja, o requinte de perversidade mostra que alguns humanos não conseguiram se desvencilhar dos institos primitivos.

O fato é que se você for olhar, de forma imparcial, o que acontece nesse país, verá que a realidade aponta para um Brasil dominado pelo crime organizado e isso não se refere à comunidades periféricas porque, nitidamente, setores preponderantes da economia estão sendo afetados e não é por exclusividade porque no sistema político tem também fortes laços com tudo isso. apenas domina comunidades periféricas, mas também se infiltra em setores formais da economia e até no sistema político, como apontam outras investigações recentes sobre emendas parlamentares com possível desvio de finalidade.

Essa semana, a principal notícia foi sobre uma das maiores operações já realizadas no Brasil contra o crime organizado que externou, “sem cuspe”, a capacidade de infiltração das facções criminosas em setores estratégicos da economia nacional. A tal operação, designada como “Operação Carbono Oculto”, mostrou que PCC movimentou mais de R$ 46 bilhões por meio de fintechs e postos de combustíveis, ou seja, uma belíssima máquina de lavar tão eficiente que, na sua aparência legal, adquiria, no todo ou em parte, frações do capital social de empresas e botava dinheiro em fundos de investimento, também.

Para especialistas, o Estado brasileiro vive um momento crucial. “Estamos diante de uma transformação do crime. Ele já não é mais apenas violento. É corporativo, estratégico, sofisticado. E está se institucionalizando”, afirma o sociólogo Luiz Werneck Vianna.

Seja nas ruas de Fortaleza, nos postos de gasolina de São Paulo ou nas plataformas digitais de fintechs da Faria Lima, o crime organizado encontrou brechas para prosperar. A resposta do Estado, agora, não pode ser pontual. Exige reformas estruturais, controle fiscal, ação de inteligência e presença institucional nos territórios vulneráveis.

De acordo com as investigações, as fintechs serviam como “bancos paralelos”, burlando o controle das instituições tradicionais, mas havia também uma rede envolvendo mais de mil postos de combustíveis em 10 estados, que vendiam gasolina adulterada e sonegavam bilhões de reais em impostos. As empresas ligadas à facção declaravam um lucro ínfimo, apesar de operarem volumes bilionários.

Essa operação, Carbono Oculto, pode ser apenas a ponta do iceberg porque aqui tem aquele espírito de caixa de lenço de papel, que você puxa um e vem dois ou três. O problema é que seria necessário ações mais enérgicas das autoridades, mas é aqui que começa a descrença, pelo menos de minha parte: até o momento, ninguém que roubou os velhinhos do INSS foi denunciado ou preso e da mesma forma, como os grandes setores econômicos envolvem questões políticas e políticos, meu prezado, entregue a Deus porque a justiça humana tem outras preocupações.

4 pensou em “CRIME ORGANIZADO NO BRASIL

  1. Caro Assuero, uma radiografia perfeita esse seu texto, de um país onde à desonestidade impera até em pensamento. Já pensou se nossa justiça tratasse o crime como se trata a política? Éramos exemplo para o mundo.

    • Meu querido, geralmente, a gente faz radiografia quando quer ver o que não está no sistema, não é mesmo? A realidade é pior do que isso. Não há interesse em divulgar números reais da violência no Brasil

  2. Se, e se somente se, se aprofundarem mais nas investigações, virá uma ordem para que parem.
    E pararão.
    Depois quem foi preso será solto, receberá uma indenização, os bens de volta, sairá candidato, se elegerá e o Brasil seguirá à frente sendo “a terra onde o crime compensa”.
    Lava-jato que o diga.

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