MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

A Venezuela, antes do Chavismo, tinha uma economia sustentável apoiada na exploração de Petróleo. A década de 1970, talvez tenha sido o melhor período para o país, dado os bons indicadores econômicos que geraram prosperidade e qualidade de vida. Nesse período, a Venezuela teve o maior PIB da América Latina, havia relevantes projetos de infraestrutura e, teve início a implantação de programas sociais. O país registrava uma taxa de consumo de bens duráveis elevada, fato que dinamizava a economia, programas sociais foram implementados, e experimentou um aumento substancial no turismo internacional. O hoje comentarista de futebol, Neto, jogou uma temporada na Venezuela.

Entre 1980 e 1990, o país entrou na crise do empobrecimento. A crise do petróleo de 1973, produziu efeitos tardios na Venezuela e uma terrível combinação de má gestão, corrupção, dívida externa crescente (qualquer semelhança com o Brasil pode não ser mera coincidência), gerou uma crise fiscal intensa que se refletiu em inflação alta e desemprego, fato que contraria, por exemplo, a chamada curva de Phillips na Economia que sugere uma relação contrária entre inflação e desemprego. Para se ter ideia, já no início dos anos 1990 quase 60% da população vivia abaixo da linha da pobreza. Obviamente, pobreza gera reação popular, violência e afins.

A reserva construída nos anos 1970, acabou não sendo suficiente para superar os problemas e o país entrou num processo de degradação acelerado com infraestrutura precária, saúde pública ineficiente com limitações graves para atender demandas por serviços de saúde, falta de equipamentos hospitalares e falta de medicamentos. Registrou-se, também, altos índices de evasão escolar, notadamente no ensino médio, porque, naturalmente, a opção era buscar alguma atividade remuneratória, não falo nem emprego porque isso era complicado.

Com tudo isso, instala-se uma crise institucional porque a confiança nas instituições políticas caiu diante de tantos, e sucessivos, escândalos de corrupção. Politicamente, o bipartidarismo entre os partidos Ação Democrática (AD) e COPEI já sinalizava esgotamento e isso foi um tapete estendido para o discurso, ou narrativa como queira, de Hugo Chávez.

A relação entre Brasil e Venezuela, para além das transações comerciais, foi bastante intensa, principalmente após a chegada de Lula ao poder. Ao longo da primeira década desse século, que coincide com o governo petista, essa relação passou a ser “parede e meia” como se diz no interior do Nordeste. Incontestavelmente, a Venezuela era um dos grandes parceiros comerciais do Brasil na América do Sul. Mas, se em termos de divisas, esse vínculo ficou meio enfraquecido pela conjuntura econômica, política e humanitária venezuelana, em termos políticos não foi bem assim. O Brasil, com Lula na presidência, apoiou inquestionavelmente as eleições fantasiosas de Hugo Chávez, esteve lá várias vezes para dar sustentação a isso e foi com a Venezuela que foi acordada a construção da Refinaria Abreu e Lima, em Suape-PE, fruto de um dos maiores escândalos de corrupção do mundo. Um projeto de US$ 2,1 bilhões, terminou em US$ 19 bilhões e a refinaria não foi concluída.

A decisão de Maduro de taxar produtos brasileiros com taxas que variam de 15% a 77%, vai afetar setores como alimentos (como carnes bovina e de frango, arroz, leite em pó, açúcar), medicamentos e produtos químicos, além de máquinas, tratores, equipamentos agrícolas, autopeças, calçados e têxteis. Durante o período de maior aproximação política entre os governos de Hugo Chávez e Luiz Inácio Lula da Silva, o comércio bilateral ultrapassou US$ 5 bilhões por ano.

No início da segunda década desse século, Brasil entrou numa derrocada econômica intensa, além de viver uma crise política que culminou com o impeachment de Dilma. Não foi diferente na Venezuela. A morte de Chávez e a assunção de Maduro com interesse nítido de se perpetuar no cargo, levou à Venezuela a este retrato degradante que é hoje. Isso piorou com o rompimento diplomático do governo Bolsonaro e, para o Brasil, os setores acima citados foram, ainda mais, impactados.

De fato, houve perda de mercado, inadimplência nos pagamentos e interrupções, não apenas suspensões, logísticas. Apesar disso, a construção civil não reclamou muito porque a Odebrecht realizou muitas obras de infraestrutura na Venezuela, destacando-se: o metrô de Caracas, o sistema ferroviário Los Teques e outras intervenções urbanas, mas o detalhe é que tais investimentos foram financiados com recursos do BNDES, ou seja, algo da ordem de US$ 1 bilhão, foi repassado pelo BNDES para tais construções na Venezuela. Os recursos do BNDES decorrem do lucro das suas operações e a utilização de recursos do FAT – Fundo de Amparo ao Trabalhador.

Cabe lembrar que no que concerne à matriz de importação brasileira com a Venezuela, destacavam-se os principais produtos envolviam petróleo bruto e derivados (como gasolina e diesel) e insumos petroquímicos (resinas, plásticos). A partir de 2016, estas importações praticamente zeraram tanto devido a queda de produção da Venezuela quanto por sanções econômicas impostas por diversos países ao regime de Maduro.

O Brasil precisa buscar alternativas para seus produtos, posto que, em linhas gerais se trata de produtos prioritários que podem ser comercializados em outros mercados. Mas, não deixa de ser surpreendente a atitude Maduro. Isso pode ser retaliação ao posicionamento de Lula em não reconhecer sua eleição fraudulenta. Demorou muito para ser isso, mas quem sabe? Também pode ser que maduro esteja querendo agradar Trump.

7 pensou em “ATÉ TU MADURO?

  1. Zé de Pereirinha, inteligentíssimo mas dado como louco por muitos de minha terrinha, era afeito às frases de efeito. Eu guardo algumas na lembrança.
    Entre uma chamada e outra de aguardente no balcão da bodega de Oscar de Beiê, numa tarde discutindo sobre guerras, Zé soltou essa: “quando o fogo é amigo, queima só as roupas de baixo.”
    Eu, em plena adolescência, não entendi muito bem.
    O que danado Zé de Pereirinha quis dizer? Até hoje eu não sei.

  2. Poeta, que maravilha. Tanto o seu resgate quanto a máxima de Zé de Pereirinha. Há coisa melhor para definir hipocrisia do que essa? Eu não conheço

  3. Caro Assuero, todo final de semana espero seus textos que são retratos da realidade que vivemos, sem tendência pra nenhum dos lados. Triste é ver que o amigo do nosso gestor, foi recebido com tapete vermelho, além de dever uma bolada pra o nosso país, ainda apronta mais essa pérola, mas pra quem muito se abaixa, um dia a bunda aparece. Abraços!

    • Xavier, seus comentários são muito gratificantes. Eu agradeço imensamente. De Fato, o ditador foi recebido aqui pelo democrático presidente com toda pompa de chefe de estado. Deu um troco bem dado.

  4. Meu Caro Assuero.
    Apesar de seu belo escrito, você está equivocado. Não precisamos buscar alternativas para o comércio. A alternativa mais sensata para esta nau de loucos é pedir os espelhinhos, as miçangas, os colares de pechisbeque de volta para os índios, montar novas caravelas e ir embora. Parodiando Benito Mussolini, governar o Brasil não é difícil. É inútil! Eu nunca vi um país se autossabotar tanto, em todos esses anos de história. Nosso futuro não está aqui, mas nos continentes originários. É deixar esta imensidão de terra para os bugres e ir embora. Não tem como esta nau de insensatos dar certo.

  5. Meu prezado Doutor, achei fantástico a sugestão e, principalmente, a alusão só nosso futuro. De um poesia magistral tal qual a sabedoria de Zé de Perereirinha, relatado pelo nosso poera Jesus de Ritinha de Miúdo

  6. Pingback: NAU DE INSENSATOS | JORNAL DA BESTA FUBANA

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