MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDEIS

SEU MANSUETO E A PIADA DO PATRÃO

Dia dos pais é dia de lembrar das histórias do Seu Mansueto. E esse é um tema no qual não falta assunto quando estamos reunidos, eu e meu irmão Materson (a quem chamamos carinhosamente de Bat, em referência ao famoso xerife americano dos tempos do velho oeste, que virou série de TV no final dos anos 1950 e inspirou seu nome: Bat Masterson).

Pois bem. Lembrando agora das histórias do Seu Mansueto, recordo que uma de suas muitas peculiaridades era sua reação a piadas e anedotas.

Pra começo de conversa, Mansueto era bem humorado, mas nunca dava uma gargalhada. Tinha um riso tranquilo, alegre, deixando aparecer o dente de ouro, mas ria em silêncio, como se reservasse o riso apenas para quem estivesse mais próximo.

Nosso Tio Detinho é que dava umas gargalhadas sonoras. Às vezes, quando isso acontecia, Mansueto olhava para Detinho admirado e dizia:

– Eu tenho vontade de saber como é dar uma gargalhada dessas…

De fato, eu e Bat concordamos que nunca vimos nosso pai rindo alto. Quando alguém começava a contar uma piada, já ficávamos na expectativa, para ver se o piadista conseguiria arrancar-lhe uma gargalhada. Mas isso nunca aconteceu.

Aliás, Mansueto tinha uma exigência para quem fosse lhe contar uma piada ou anedota: se, durante a narrativa, o piadista começasse a rir, Mansueto o interrompia.

– Peraí, rapaz! O contador de piadas não pode rir.

– Como assim, Seu Mansueto?

– Não pode! Porque tira a graça da piada. Se você vai contar uma piada pra mim, quem tem que rir sou eu. Se você, que tá contando a história, já tá rindo, não tem mais necessidade de eu rir.

– Mas a história é engraçada, Seu Mansueto…

– Eu acredito que seja mesmo, mas você tem que me deixar à vontade, pra eu rir quando a parte engraçada acontecer. Se você ficar rindo desde o começo, quando chegar a parte que é pra rir não vai ter mais graça…

A discussão seguia nisso e a piada estava perdida. O piadista teria que tentar outro dia. E tratasse de apresentar uma piada que Mansueto não conhecesse, porque piada velha não fazia ele rir, nem quando era o patrão quem contava.

Certo dia, estando Mansueto com vários colegas, no refeitório da empresa onde trabalhava, Doutor Antônio, dono do negócio, entrou no recinto e passou a conversar com eles. Conversa vai, conversa vem, o patrão resolveu contar uma piada.

Claro que todos fizeram silêncio para prestar atenção.

Ao final da narrativa, gargalhadas explodiram no ambiente. Alguns choravam de rir. Só Mansueto observava tudo com um sorriso contido. Um colega percebeu e perguntou:

– Gostou da piada do patrão não, Mansueto?

– A piada é boa, mas eu já conhecia. Eu que contei pra ele. Num foi Doutor Antônio?

– Foi – confirmou o patrão. E, dirigindo-se aos outros empregados, prosseguiu. – Ele me contou essa ontem. O Mansueto é exigente com piadas, mas ele pode, porque sabe contar bem contado.

– Pois é, Doutor Antônio – emendou Mansueto. – O senhor diz que eu sei contar piada, mas essa mesma piada, que lhe contei ontem, eu contei aqui pra eles, faz uma meia hora. Ninguém riu. Agora, como foi o senhor que contou, foi esse sucesso. Teve um ali que parece que se urinou de rir.

Agora foi a vez do patrão explodir numa gargalhada. Os empregados o acompanharam, cada um rindo mais alto que o outro. Menos Mansueto, que também ria, mas silenciosamente, como de costume.

Era assim o Velho Mansueto. Autêntico, verdadeiro e respeitado. Até quando fazia graça.

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JOGANDO VERDE

Estava recentemente em uma mesa com amigos, comendo, bebendo e conversando, quando um deles pronunciou a frase que me inspirou a escrever hoje:

– Aí ele jogou uma verde, né?

Não lembro qual assunto levou àquela afirmação por um dos comensais, mas isso agora já não importa. O que importa é que todos ali entenderam do que se tratava. Embora nosso amigo tenha usado apenas a forma abreviada da expressão – “jogar uma verde” – todos ali sabiam que sua forma completa é “jogar uma verde pra colher maduras”, sujeita a variações que não lhe alteram o sentido.

Ou seja, falávamos de uma situação na qual alguém, manipulando dados escassos ou pouco relevantes dos quais tinha conhecimento, tentava obter de outrem as informações que realmente interessavam.

Ultimamente, outra expressão, de significado semelhante, tem ganhado espaço nos noticiários e nas redes sociais: fishing expedition. Há registro inclusive de que a frase em inglês correspondente a “ele está jogando verde” seria “He’s just fishing”.

Deve-se, no entanto, lembrar, que a prática conhecida como fishing expedition trata de algo mais específico que um simples “jogar verde”. Nela, autoridades com poderes investigativos utilizam-se de indícios frágeis de práticas supostamente criminosas para obter dados amplos e sigilosos sobre alguém que de antemão pretendem punir. Assim, a investigação é aberta a pretexto de se elucidar um crime, mas o verdadeiro objetivo é tentar descobrir crimes outros, de preferência mais graves.

No fim das contas, acaba havendo mesmo semelhança com o ato de “jogar uma verde para colher maduras”, na medida em que a investigação parte de dados superficiais ou pouco relevantes em busca de fatos capazes de incriminar alguém.

Nada obstante essa breve divagação jurídica, nossa crônica não é sobre investigações, crimes ou autoridades. Aqui, nossa atenção se volta para situações cotidianas, até mesmo banais, dignas de serem tratadas em mesas de bar. Então, prossigamos!

Naquele dia, enquanto estava com meus amigos, a própria expressão usada na conversa tornou-se o assunto em pauta, quando alguém perguntou:

– De onde surgiu essa história de “jogar verde”, hein?

Era a deixa que eu precisava para exibir meus conhecimentos sobre a origem das coisas.

Deixando o celular sobre a mesa, para não pensarem que eu expunha conhecimentos extraídos em tempo real do Google, expliquei tudo:

Essa expressão vem de uma história ocorrida no tempo do Brasil Imperial, quando um estudante que morava na cidade, mas era filho de um fazendeiro, descansava à sombra de uma das muitas mangueiras que havia na propriedade do seu pai.

Recuperava-se de uma forte ressaca, causada pelo vinho em excesso, consumido na noite anterior, em uma casa de prostituição. Enquanto descansava, observou um menino, filho de escravos, nascido já na vigência da Lei do Ventre Livre, usando uma vara para colher mangas.

Estavam nisto, quando o menino pegou uma manga verde, encontrada no chão, e a arremessou contra o cacho de mangas maduras de um galho mais alto, além do alcance da sua vara. Com o impacto da manga verde, as maduras logo vieram abaixo, sendo imediatamente recolhidas pela criança.

Mais tarde, o estudante foi à casa da noiva, para lhe fazer a corte, mas esta conversava de modo estranho, dando a entender que havia sido informada das peripécias do rapaz na noite anterior. E ele, percebendo que a noiva o cercava com perguntas e insinuações, vaticinou:

– Vejo que você está me jogando uma verde para ver se colhe maduras!

A moça surpreendeu-se com a maneira de falar do noivo, mas, percebendo que sua estratégia para tentar obter uma confissão havia sido descoberta, mudou de assunto.

A partir daquele dia, a frase foi passando de boca em boca, chegando aos dias de hoje com o significado que se lhe atribui.

Fui aplaudido. Nenhum dos presentes conhecia essa história. Nem eu. Mas, como sempre digo, o importante de uma história não é ser verdadeira; é ser bem contada!

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UM NOVO DIA VIRÁ

Outro dia, em Brasília, fui a um show do grupo vocal IL VOLO. Com o auditório do Centro de Convenções Ulisses Guimarães lotado, assisti a uma das melhores apresentações musicais dos cinquenta e poucos anos que tenho vivido.

Uma música melhor que a outra. Uma interpretação melhor que a outra. Das muitas canções apresentadas, em mais de duas horas de show, uma que, além de me emocionar, sempre me faz refletir sobre a vida: IL MONDO, de Jimmy Fontana. Em português, O MUNDO.

Costumo dizer que IL MONDO me chama a atenção especialmente porque parte de uma mentira particular do amor romântico para chegar a uma verdade geral do amor pela humanidade. Uma mensagem de esperança.

“No, stanotte amore non ho più pensato a te”, diz o primeiro verso: Não, esta noite, amor, não pensei mais em você. Uma das mais óbvias mentiras de quem vive o luto por um amor que acabou. Ou, se não acabou o amor, a vida em comum tornou-se inviável. Acontece todo dia, com muita gente.

O certo é que o anúncio de que não se pensou na pessoa amada nada mais é que uma confissão de que se pensou muito em tal pessoa.

Mas a canção não pára aí. No verso seguinte vem o passo por meio do qual o autor começa a superar aquele luto, saindo do sofrimento particular para perceber o que acontece à sua volta: Abri os olhos para olhar ao meu redor; e ao meu redor girava o mundo, como sempre (Ho aperto gli occhi per guardare intorno a me; E intorno a me girava il mondo come sempre).

Parece que, naquele momento, nosso personagem cometeu um erro de avaliação, raciocinando como se o mundo girasse em volta dele, o que revela certo egocentrismo. Mas como reprovar isso em alguém que está tentando se libertar de um pensamento fixo, verdadeira obsessão por alguém que já não mais faz parte da sua vida? Tem gente que age como se fosse o centro do universo por razões menos aceitáveis, como o fato de ocupar um importante cargo público, por exemplo. Se começa a dar ordens absurdas e vê-las cumpridas então, sente-se o dono de um país. Ou até do mundo.

Mas, voltemos ao nosso herói, que, longe de querer ser o dono do mundo, apenas o observa, para ver que o mundo gira no espaço infinito, com os amores que acabaram de nascer e os que já terminaram. Com os prazeres e as dores de gente como ele próprio.

E é neste ponto que nosso protagonista se dá conta da pequenez de seu sofrimento diante da grandeza do mundo: Ó, mundo! Somente agora eu te vejo! Me perco no teu silêncio, e sou nada perto de você.

E assim nosso herói acorda para a vida. Percebe que o mundo não pára um só instante. Que depois de cada noite sempre vem um novo dia. E – o mais importante – que um novo dia virá:

Il mondo
Non si è fermato mai un momento
La notte insegue sempre il giorno
Ed il giorno verrà

Sim, virá. Não apenas para o nosso herói da canção IL MONDO, mas para todos nós. Por mais que o momento seja difícil, que nosso país atravesse tempos sombrios, que o planeta inteiro esteja novamente sob risco de uma catástrofe nuclear, um novo dia virá.

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NINGUÉM VAI ME OUVIR

As coisas tão ficando complicadas na minha cabeça.
E tudo que aprendi eu já começo a desaprender.
E o pouco que ainda lembro tenho medo que eu agora esqueça.
E aquilo que eu fazia, a cada dia deixo de fazer.

Até o meu violão
Eu quase não toco mais
Por causa do tempo que passo em redes sociais.

Se quero saber das notícias,
Eu já não procuro jornais.
Verdades, versões e mentiras estão quase iguais.

Escrevo canções mas sempre acho que ninguém me entende.
Pois até lá em casa já não tão me entendendo também.
Parece que as coisas que eu falo ninguém compreende,
Mas tá tudo certo, eu também não entendo ninguém.

Eu ligo o computador
Pensando em me distrair.
Como quem procura um bar, um lugar para ir.

Escrevo umas frases e clico
Num certo botão de enviar
Mas sinto que o que eu disser ninguém vai escutar.

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A DANÇA DA VERDADE(*)

Outro dia estava eu a refletir sobre a quantidade de mentiras que se espalham pelo mundo. Fazia isso sentado em uma cadeira de balanço, na varanda de minha casa, quando Shayeubad apareceu no portão.

Convidei-o a entrar e nos pusemos a conversar sobre o assunto.

Até que, a certa altura da conversa, ele me fez um convite inusitado:

– Se você deixar seu corpo dormindo aí, posso lhe levar para ver a dança das versões. É uma performance bem interessante sobre essas suas reflexões.

Mesmo sem entender direito o que ele quis dizer com “deixar meu corpo dormindo”, minha sempre aguçada curiosidade levou-me a concordar imediatamente.

Shayeubad pediu que eu fechasse os olhos. Fechei e o ouvi contar regressivamente de três a um.

No instante seguinte estávamos em um grande salão, onde um tablado oval, de uns 100 metros quadrados, era contornado por cadeiras confortáveis. A maioria delas estava ocupada por pessoas que, aparentemente, esperavam o início de uma apresentação.

Shayeubad me orientou a ocupar um dos lugares disponíveis e esperar também.

Minutos depois, começou a tocar uma música instrumental, um tanto épica.

Em seguida, surgiu no meio do tablado uma espécie de luz, em formato feminino. Mais precisamente, a imagem de uma bela mulher, feita de luz violeta.

Mas aquela figura luminosa esteve diante dos nossos olhos apenas por alguns instantes.

Um ou dois segundos depois surgiram magicamente, em volta dela, de quatro a seis mulheres. Eram em tudo semelhantes ao ser de luz: na cor, na forma e nos movimentos. Mas, aparentemente, eram feitas de matéria consistente, como a de nossos corpos humanos.

Dançavam de modo a seduzir os olhares dos presentes, enquanto o ser de luz desaparecia por trás de seus corpos.

No momento seguinte brotaram do chão outras dançarinas.

Estavam em maior quantidade e não eram tão parecidas com o ser de luz, como o eram as primeiras, apesar de algumas serem também muito belas. Outras, nem tanto.

Percebi então que havia entre todas aquelas dançarinas uma espécie de disputa pela atenção do público. À medida que desenvolviam suas performances, se alguma se destacava, as pessoas aplaudiam seus movimentos. Enquanto isso, aquelas que obtinham menos destaque aos poucos esmaeciam e sumiam diante dos nossos olhos.

Depois de alguns minutos, restou no salão apenas uma das dançarinas do primeiro grupo – uma daquelas quatro ou seis que haviam surgido em torno da figura luminosa.

O público a aplaudiu calorosamente. Ela agradeceu e deixou o tablado.

Era possível ouvir o rumor das pessoas comentando o desempenho das dançarinas. Alguns dos presentes pareciam não concordar com o resultado final. Esperavam que outra dentre elas houvesse chegado ao final.

Passados alguns minutos, novo espetáculo começou, semelhante ao primeiro.

Dessa vez, a figura feminina que surgiu no meio do tablado era feita de uma luz amarela, brilhante como ouro.

Rapidamente, sua luminosidade projetou-se para fora do corpo, dando forma a quatro dançarinas vestidas de amarelo, parecidíssimas com ela. Sua pele aparentava estar coberta por tinta dourada.

Dançavam freneticamente em torno do ser de luz, enquanto ele desaparecia.

Não tardou a brotarem do chão as outras dançarinas. Estavam em número bem maior que na apresentação anterior. Em sua disputa por atenção, às vezes duas ou três juntavam seus corpos e punham-se à frente de alguma das artistas performáticas que haviam surgido primeiro, impedindo que o público as visse.

Aos poucos, porém, cada uma das moças foi desaparecendo – como da primeira vez – restando somente uma dançarina de amarelo.

Novos aplausos do público. Dessa vez, de pé.

Não sei quanto tempo ficamos ali, mas foi o suficiente para assistirmos a várias daquelas apresentações, que se sucediam após breves intervalos.

Ao sairmos do salão, agradeci a Shayeubad por me levar a ver tão belo espetáculo. Mas, percebendo que ele esperava de mim algum comentário mais detalhado, acrescentei:

– Notei que na maioria das vezes a dançarina que ficava por último era uma das primeiras a surgir no tablado. Apesar do esforço das moças que brotavam do chão, poucas delas conseguiram se manter até o final.

– É assim mesmo – respondeu Shayeubad sorrindo. – Lembra de quando lhe falei que o espetáculo se chama “Dança das Versões”?

– Lembro.

– É isso. O ser de luz que surge no início de cada ato é a verdade. O brilho da verdade dá origem a algumas figuras semelhantes a ela: as versões. Mas logo surgem as mentiras, chamando para si a atenção. O resto você já entendeu.

– Sim, entendi. E embora me conforte saber que na maioria das vezes as mentiras se dissolvam, lamento que a verdade em sua forma original, seja uma luz que brilha apenas por poucos instantes. Depois, o que resta são versões. Mesmo que versões verdadeiras, versões.

– Não lamente. Para o público, uma boa versão da verdade é suficiente. Nem sei se estamos prontos para um mundo onde a verdadeira verdade prevaleça. Você está pronto? Eu estou?

– Não sei.

– Então feche os olhos e conte até três. Vamos voltar.

Obedeci e, ao abrir os olhos novamente, estava na varanda da minha casa, em minha cadeira de balanço.

Shayeubad havia sumido.

(*) Publiquei esse texto há alguns anos, aqui mesmo no JBF. Retirei a publicação quando o incluí em meu livro “Histórias para refletir, repensar e repassar”. Mas, diante do quanto o assunto “fakenews” tem estado presente na mídia e nas redes sociais, resolvi postá-lo novamente.

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MADRUGANDO NO AEROPORTO

São quatro e meia da madrugada e escrevo com o notebook apoiado em uma das mesas de um café, no aeroporto de Brasília.

Tive que acordar cedo para estar aqui a essa hora. Mas, fazer o quê? Sou um sujeito um tanto neurótico com essa história de perder voo. Prefiro uma hora de ociosidade na área de embarque a sair por aí correndo enquanto arrasto a bagagem de mão. Lembro, como se fosse ontem, das vezes mais assustadoras em que isso aconteceu, a primeira, no aeroporto de Lisboa, a segunda, no de Amsterdã. Talvez o risco de não conseguir voltar para o Brasil tenha me traumatizado.

Mas, duas semanas atrás, aconteceu de novo, desta feita em Brasília mesmo. A caminho do aeroporto, deparei-me com o pior engarrafamento que já vi na via L4 Sul. Quem conhece Brasília sabe que o limite de velocidade ali é de 80 Km/h, mas sabe também que entre seis e oito da noite o trânsito pode ficar complicado.

O certo é que, quando passei minha bagagem de mão pelo raio X, faltavam dois minutos para o início do embarque. Foi nessa hora que a funcionária disse, com toda a simpatia possível:

– O senhor foi sorteado para ter a bagagem submetida a uma inspeção visual.

Um palavrão quase escapou da minha boca, mas controlei a reação. Cheguei a argumentar que faltavam dois minutos para o início do embarque, mas ela disse gentilmente:

– Dá tempo. É rapidinho.

E só me restou esperar e engolir o choro. No final, acabou dando tudo certo.

Esse problema não terei hoje. Como disse na primeira linha desta crônica, às quatro e meia da madrugada eu já havia passado pelo raio X da bagagem de mão. Com o início do embarque previsto para 8:25 da manhã, estou tranquilo.

Escrevi o parágrafo anterior e pensei: o leitor que chegou até aqui deve estar achando que me atrapalhei com os horários; ou que enlouqueci de vez. Como assim, a pessoa chegar ao aeroporto às 4:30 da madrugada, para um voo que promete decolar às nove da manhã?

Admito, é estranho mesmo. Mas, é preciso considerar que escrevo no dia 30 de março de 2023.

Ontem à noite, enquanto arrumava a mala, vi a notícia que Jair Bolsonaro desembarcaria em Brasília hoje, às sete da manhã, depois de três meses fora do Brasil. E senti um frio na barriga.

Pensei nos bolsonaristas com saudade do seu líder, desejosos por mostrar a ele sua lealdade; pensei no próprio ex-presidente, sorrindo e acenando para a multidão; pensei na preocupação das autoridades responsáveis pela segurança do Distrito Federal, querendo evitar serem tachadas de omissas.

Vieram-me à mente imagens de barreiras policiais, mochilas sendo revistadas antes de entrar no saguão do aeroporto e um monte de gente em todos os espaços do aeroporto, gritando: “Mito! Mito! Mito!”.

Em meio a todo esse movimento, eu não conseguia chegar a tempo de pegar meu voo.

Estimulado por esses pensamentos, eu poderia ter feito várias reflexões sobre política, democracia, direito de manifestação e tantas coisas.

Mas fui dominado por uma preocupação, digamos, mais imediata, talvez trivial, quem sabe até egoista:

– Dessa vez não! – disse eu, em voz alta a mim mesmo. – Saio de casa de madrugada, mas, quando essa multidão se formar, já estarei dentro do aeroporto!

Separei a roupa para viajar, programei o despertador do celular para as três da madrugada e tentei dormir.

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CRÔNICA DE SEGUNDA-FEIRA: A SEGUNDA NA TERÇA E A MENTIRA DA LINGUAGEM NEUTRA

Nos últimos dias do ano de 2022, tracei minhas metas para 2023. Normal. Milhões de pessoas fazem isso no mundo inteiro. Mas desta vez me impus uma meta que soou como um desafio: escrever pelo uma vez por semana para minha coluna no Jornal da Besta Fubana.

Talvez isso não pareça muita coisa para grandes jornalistas, daqueles que têm colunas diárias, ou mesmo semanais, em grandes jornais, mas para mim, que não tenho a atividade de colunista do JBF como atividade principal, é.

Deu-se, porém, que o primeiro dia de 2023 caiu em um domingo. E, talvez pela educação religiosa que recebi, talvez por tradição, talvez pela preguiça que o domingo me inspira, escrever em um domingo não seria fácil. E teve a festa de réveillon, que havia durado até às sete da manhã daquele dia 1/1/2023 (na verdade, esse foi o verdadeiro motivo de eu não querer nem olhar para a tela do computador naquele dia).

Foi na noite daquele domingo que me veio a ideia da “Crônica de Segunda-Feira”. Recostei-me para dormir, no domingo à noite, sem a menor ideia do que escreveria no dia seguinte, mas com uma certeza: antes da meia-noite da segunda-feira teria um texto escrito para o JBF.

E assim fiz. Quem leu deve ter observado que o assunto da crônica foi minha caminhada matinal pelas ruas de Copacabana, onde havia passado a virada do ano. É óbvio. Por um lado, já acordei pensando na crônica; por outro, não faltavam fontes de inspiração naquele lugar incrível.

Repeti a fórmula nas duas segundas-feiras seguintes e – bingo! – texto concluído e enviado ao nosso patrão Luiz Berto com sucesso! Noutras palavras, a ideia da crônica de segunda-feira parece ter dado certo.

Acontece que Berto, observador como é, não poderia deixar passar um detalhe. E perguntou, via WhatsApp: “Por que danado você tá enviando crônicas de segunda-feira na terça?”.

Agora, vocês sabem o que o Berto já sabia: envio a crônica na terça porque escrevo na segunda. Como eu tenho mania de deixar o texto descansando algumas horas, antes de revisar, faço a revisão na terça-feira, bem cedinho, e só então envio para publicação.

E ficou assim: a crônica de segunda-feira sempre sai na terça-feira.

Hoje, por exemplo, eu aproveitei que não tinha acontecido nada de extraordinário durante o dia para passar essas explicações para vocês.

Aliás, não tinha nada quase até o final do dia, porque quando eu dava aquela última olhada no celular antes de me preparar para dormir, deparei-me com a seguinte manchete, em um site do governo brasileiro: PARLAMENTARES ELEITES REÚNEM-SE PELA PRIMEIRA VEZ EM BRASÍLIA.

É isso mesmo que vocês leram: ELEITES!

Eu já tinha visto uns vídeos que mostravam a posse de membros do governo que se instalou no Brasil neste ano, e neles a pessoa que ia discursar cumprimentava a “TODAS, TODOS E TODES”. Alguns invertiam, certamente para dar mais ênfase, pondo o TODES antes do TODOS.

Mas achei que era iniciativa da pessoa que discursava. Uma vontade de chamar a atenção, parecer inclusivo ou, como se diz nas redes sociais, simplesmente “lacrar”. Não imaginei que a comunicação oficial um dia viesse a maltratar a língua portuguesa dessa forma.

Diante da tal “vontade de lacrar”, imaginei se não seria o caso de ignorar o fato. Fazer de conta que não vi.

Mas não foi possível. A palavra TODOS já tem para mim um significado, e sempre foi suficientemente inclusivo. Bastava se dirigir a TODOS para ficar claro que todas as pessoas presentes eram destinatárias da nossa voz.

Antes de me tornar uma pessoa “de humanas”, a coisa funcionava para mim como um corolário da teoria dos conjuntos. TODOS significava a totalidade dos elementos de um conjunto. Assim, TODOS eram todos os seres humanos, todas as pessoas, todas as laranjas de um cesto, todos os planetas do universo.

Agora vem essa gente preconceituosa separar todo mundo (ou talvez eles prefiram “tode munde”).

Quer saber? Ainda que a intenção de vocês fosse se expressar de forma mais inclusiva, vocês estariam atentando contra a nossa língua portuguesa, e, consequentemente, contra a nossa cultura, contra a nossa história.

Acontece que vocês não estão sendo inclusivos. Vocês fingem que estão incluindo, mas estão, na verdade, dividindo as pessoas, como se, no fim das contas, não fosse todo mundo gente.

Fico triste ao ver o governo brasileiro apoiar esse tipo de coisa.

Enquanto não me ameaçarem de prisão por respeitar a língua portuguesa, esta crônica está disponível à leitura de TODOS.

MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDEIS

CRÔNICA DE SEGUNDA-FEIRA: QUEM NÃO DEVE, NÃO TEME?

Nesses tempos em que governos de muitos países anunciam a criação de instrumentos legais para (supostamente) combater as tais “fake news”, velhas mentiras continuam ocupando o imaginário popular como se verdades fossem.

Digo isso a propósito de uma frase que ouvi diversas vezes esta semana, tanto nas redes sociais como de viva voz: “Quem não deve, não teme”.

Como é possível que uma frase tão sem sentido venha sendo repetida ao longo dos anos, como se fosse um axioma, geralmente em tom de desafio ou provocação?

Se quem deve teme, mais motivos para temer tem aquele que não deve. Afinal, se um pode ser obrigado a pagar o que deve, o outro pode acabar sendo obrigado a pagar o que não deve. Terrível possibilidade!

Apesar disso, ainda ontem, vi alguém usar esse argumento, ao questionar o direito de um investigado ficar em silêncio:

– Se quis ficar em silêncio já é um sinal que tem alguma coisa a esconder. Quem não deve, não teme!

É fácil pensar assim, quando não se está sendo interrogado, sabendo que cada tentativa de explicar os fatos pode ser interpretada como uma autoincriminação. Nos tempos atuais, ainda há o risco (alto!) de que cada frase pronunciada esteja, no mesmo dia, sendo escrutinada por milhares de pessoas em redes sociais. Com a costumeira má vontade da maioria dos internautas.

Por coincidência, iniciei, neste fim de semana, a leitura do livro “Nos Campos de Concentração Soviéticos”, de Vladimir Tchernavim. Após narrar a prisão dos seus colegas de trabalho pelo GPU (polícia secreta da URSS), o autor desabafa:

Não tenho palavras para descrever o que senti depois da prisão dos meus colegas de trabalho. Eu sabia que estava em um beco sem saída e que não havia nada que eu pudesse fazer. Era por puro acaso que eu ainda continuava livre, e a única explicação para isso era a ineficiência por parte do GPU, que não tinha o meu nome em suas listas apenas porque eu havia acabado de chegar a Moscou vindo das províncias.

Vladimir Tchernavim acabou sendo preso dias depois, apesar da sua inocência.

Esse é um exemplo extremo. Porém real. De todo modo, é preciso reconhecer que mesmo o mais justo dos juízes corre o risco de condenar um inocente. Pode ser induzido a erro por argumentos falaciosos, por um processo mal instruído ou simplesmente pelo enviesamento ideológico da sua própria formação moral, cultural ou intelectual.

Quando se fala em “devido processo legal”, “ampla defesa” e coisas assim, a ideia é exatamente a de evitar que alguém seja condenado ou preso injustamente. Porque, como costumam dizer os juristas, é preferível absolver um culpado que condenar um inocente.

É por isso que existe a expressão latina “in dubio pro reo”, a nos lembrar que, na dúvida, o juiz deve decidir em favor do réu.

O certo é que, seja pelo risco da condenação injusta, seja pela possibilidade de, ainda que absolvido, ficar mal visto socialmente, quem deve tem motivos de sobra para temer.

Aliás, acredito que não seja por coincidência que, nos últimos dias, cada vez que ouvi a frase “quem não deve, não teme”, ela foi pronunciada por alguém que demonstrava interesse em condenações.

Considerado tom de voz e a expressão corporal, o sentimento manifestado era de vingança, e não de Justiça.

Tudo isso me leva à mesma conclusão: quem não deve é quem mais teme; ou deveria temer.

MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDEIS

UM LOUCO NO PODER

Um homem que enlouqueceu
É um homem perigoso.
Mas o perigo é maior
Se for também poderoso.
Faz coisas muito absurdas,
E as pessoas seguem surdas,
Fingindo não perceber
Os abusos perpetrados
E os prejuízos causados
Por um louco no poder.

MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDEIS

CRÔNICA DE SEGUNDA-FEIRA: VOLTA A BRASÍLIA EM UM DIA ESTRANHO

Estamos de volta a Brasília. Chegamos à Capital Federal na chuvosa manhã do dia nove de janeiro de 2023, a segunda segunda-feira do ano. Impossível escrever isso sem registrar que é o dia seguinte ao da invasão aos prédios do Congresso Nacional, do Palácio do Planalto e do Supremo Tribunal Federal.

Parentes e amigos chegaram a me telefonar – ainda no domingo – perguntando sobre os acontecimentos em curso na Praça dos Três Poderes. Alguns ficaram preocupados, porque eu não atendia o celular nem lia mensagens.

Mas meu sumiço não tinha qualquer relação com os fatos em Brasília. Estava eu em outra aventura, com o celular em modo “não perturbe”, dirigindo meu carro ao longo da BR-040, entre os Estados do Rio de Janeiro e Minas Gerais. Assim, só fiquei sabendo das invasões quando chegamos ao hotel em Paracatu, onde pernoitaríamos, para seguir em direção a Brasília na manhã seguinte.

Demoramos um pouco para entender o que havia ocorrido. Víamos os comentários e imagens recuperadas exibidos no único canal de notícias disponível da TV do hotel, mas era difícil crer no que estava sendo apresentado. Recorremos a canais do YouTube, redes sociais, mensagens de parentes e amigos, e fomos tomando pé da situação. Uma lástima!

Com as ideias já mais organizadas, lembrei de um parágrafo que havia escrito na crônica da semana anterior:

(…) as amplitudes brasilienses parecem não ser mais suficientes para proteger os detentores do poder estatal da pressão popular. Bem o demonstram as grades de ferro que há aproximadamente dez anos enfeiam a Praça dos Três Poderes.

Pensava eu, então, na pressão popular que seria natural haver neste ano e nos próximos, em face do governo atual, considerando o apertado resultado da eleição presidencial de 2022. Considerava também a possibilidade de protestos contra autoridades dos Poderes Legislativo e Judiciário, haja vista as notícias que nos chegam de insatisfações populares contra membros desses poderes.

Mas pensava sempre em protestos pacíficos, como outros que já haviam ocorrido. A invasão de prédios e a destruição do patrimônio público foi algo que me surpreendeu. E que me entristeceu e preocupou também.

Entristeceu, porque, vejo meu país enfrentando uma séria instabilidade política, que vem se arrastando há anos, causando sofrimento ao nosso povo. Preocupou, porque essa instabilidade política não parece arrefecer, mas, ao contrário, dá sinais de que pode se agravar mais ainda. Difícil, pra não dizer impossível, prever até onde iremos nesse processo.

Abstenho-me de fazer julgamentos – sejam morais ou jurídicos – das pessoas envolvidas nesses atos, bem como das autoridades responsáveis por prevê-los, evitá-los e combatê-los.

Escrevo aqui apenas como escritor. Não me compete julgar ninguém nesse caso. E, tendo já julgado e condenado muitas pessoas, em razão do meu ofício como magistrado, evito julgar casos que não me competem. Ao contrário disso, tento entender a atitude de cada um, para compreender o que ocorre à minha volta.

Encerro, assim, citando um tuíte que publiquei no dia 30 de outubro de 2022, pela manhã, ou seja, no dia do segundo turno da eleição para presidente, mas antes de saber o resultado.

Continuo pensando que o caminho seja esse. Cada indivíduo, cada líder, cada autoridade, cada membro de Poder reavaliar a própria conduta, no intuito de adequá-la a uma busca do equilíbrio, hoje tão necessário ao nosso país e ao nosso povo.

Penso, mas não creio que aconteça. Nesses dias difíceis, meu otimismo não é suficiente para tanto.