MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDEIS

CRÔNICA DE SEGUNDA-FEIRA: ENTRE COPACABANA E A PRAÇA DOS TRÊS PODERES

Na primeira segunda-feira de 2023, fiz o que muita gente faz: tentei pôr em prática coisas que estive planejando nos últimos dias do ano anterior.

Por isso, acordei relativamente cedo, fiz minha prática respiratória, pus uma roupa leve, calcei os tênis e fui caminhar na rua. Não ainda na distância ou no ritmo pretendido, mas apenas uma caminhada leve, de uns 20 minutos. Incluído na caminhada o recomendado banho de sol, que adquiriu um upgrade de importância nos tempos mais severos da pandemia do corona vírus.

E assim fui iniciar o ano cuidando da saúde! Ciente de que a atividade física pretendida não era lá grandes coisas, mas capaz de cumprir o mais importante: quebrar a inércia dos últimos meses, recheados de sedentarismo.

Missão dada, missão cumprida! Disse eu para mim, ao final do percurso, repetindo a frase que saiu das telas do cinema para a boca do povo, graças à popularidade do Capitão Nascimento. E que voltou a ter atenção no último mês de 2022, dita por uma autoridade da vida real.

O certo é que, como atividade física, a caminhada não foi mesmo grande coisa – como previsto – mas foi ótima como atividade intelectual. A favor disso, o fato de não ter sido feita dentro de um condomínio fechado, em Brasília, mas nas ruas do bairro de Copacabana, no Rio de Janeiro, graças aos dias de recesso forense.

Foi bom andar em meio àquele mundo de gente, por aquelas calçadas irregulares, ouvindo buzinas de carros e motocicletas que disputavam espaço na rua. Ver gente com “roupa de trabalhar” saindo da estação do metrô ao lado de gente com “roupa de praia”. Gente andando de bicicleta, levando o cachorro para passear, juntando o cocô do cachorro da calçada, tomando café em boteco de esquina… gente.

Em meio ao movimento da rua, pensei no quanto Brasília é um lugar distante daquela realidade. As avenidas largas da capital federal, muitas vezes sem calçada, parece que foram mesmo feitas apenas para a circulação de carros. Entre eles, carros pretos, com o vidro das janelas escuro e fechado.

Agora, enquanto escrevo, lembro que um professor de história me disse, certa vez, que as grandes catedrais foram construídas com a intenção de ressaltar a pequenez do homem diante do poder de Deus.

Nunca procurei saber se o que aquele professor disse tinha fundamento científico, mas faz algum sentido. O suficiente para dar certo respaldo aos que dizem que a arquitetura de Brasília foi pensada para fazer o cidadão se sentir pequeno diante do poder do Estado.

As catedrais nos diminuindo no plano espiritual. Os grandes espaços de Brasília nos fazendo pequenos no plano político. A César o que é de César; a Deus o que é de Deus. Não necessariamente nessa ordem.

Mas, assim como a Igreja com tempo perdeu força, notadamente para o Estado, as amplitudes brasilienses parecem não ser mais suficientes para proteger os detentores do poder estatal da pressão popular. Bem o demonstram as grades de ferro que há aproximadamente dez anos enfeiam a Praça dos Três Poderes.

Não há erro de digitação aí. Escrevi “enfeiam” mesmo. Apesar da insistência do corretor ortográfico para substituir a palavra por “enfeitam”, o que me levaria ao perigoso caminho das ironias.

Independentemente do que aconteça nos espaços físicos, boa parte da atenção tem se deslocado atualmente para os espaços virtuais da internet, especialmente das redes sociais. Mas isso é assunto para outra crônica.

De volta à caminhada pelas ruas de Copacabana, acabei chegando à Avenida Atlântica. Do calçadão, olhando o mar, lembrei de uma canção do Lulu Santos:

Nada do que foi será
De novo do jeito que já foi um dia
Tudo passa, tudo sempre passará
A vida vem em ondas, como o mar,
Num indo e vindo infinito.

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UM MOMENTO DE LUZ

Foi um momento de luz,
De muita iluminação,
O que aconteceu comigo
Numa certa ocasião,
Quando o dia terminava
E eu sozinho viajava
Pela estrada no sertão.

Estacionei na estrada
Para trocar um pneu
Que furou quando o meu carro
Em um buraco bateu,
Mas, logo que estacionei,
E as ferramentas peguei,
Algo estranho aconteceu.

Eu olhei à minha volta,
Para ver se via alguém.
Mas, naquele lugar ermo,
Não apareceu ninguém.
Só algumas avoantes
Sobrevoaram, rasantes,
E pousaram mais além.

Mas na hora em que olhei
Para onde o bando pousou
Algo na minha visão
De repente se alterou,
Pois vi cada passarinho
Tão de perto, tão pertinho,
Que isso até me assustou.

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EVANGELHO EM CEARÊS: O NASCIMENTO DE JESUS (Lucas 2:1-20)

Naquele tempo, o manda chuva dos romanos era um tal de César Augusto, e ele mandou fazer um apurado de todo filho de Deus que fizesse sombra nas terras do império.

Como José era aparentado com o Rei Davi, tinha que fazer a ficha em Belém, que era a terra da família dele. Por conta disso, José e Maria, que moravam em Nazaré, tiveram que juntar os mulambo e se mandar pra Belém.

Só que Maria já tava com o bucho pelas goela, por isso perigava do menino nascer no meio da viagem. E foi só o que deu: quando foram chegando em Belém, Maria já tava se vendo de dor.

Aí foi que deu o maior bode, porque a cidade tava lotada desse povo que foi fazer a ficha que o imperador tinha mandado. Porque naquele tempo era assim, quando o imperador mandava, não queria nem saber quem foi que envernizou barata. Era a língua ou o beiço. Ou o cabra cumpria a ordem ou a chibata comia.

José foi em tudo quanto era hotel, pousada e casa de família, pedindo um canto pra se ajeitar com Maria, mas foi o mesmo que dar um tiro n’água. O povo dizia que não tinha lugar nem pra um cibite fastioso.

Naquele aperreio, com Maria em tempo de parir no meio da rua, o jeito foi passarem a noite numa palhoça onde dormiam uns bichos de criação. Vaca, jumento, Carneiro, essas coisas.

E foi ali mesmo que o menino Jesus nasceu. Aí Maria pegou o bichim e deitou ele na gamela que botavam comida pros bichos.

Nisso, uns pastores que tavam numa capoeira ali perto levaram um susto lascado, porque apareceu lá um anjo dando o serviço do nascimento de Jesus:

– Ei, magote de macho mole, deixe de froxura! Vocês tão vendo é um anjo, não é uma moto com dois vagabundo em cima não! Vim aqui só passar o bizu pra vocês que em Belém, nasceu agorinha o cabra mais pedra noventa que esse mundo já viu ou vai ver. O menino é liso! É o Salvador! É o Cristo! Tá lá numa palhoça, deitadinho numa gamela de dar ração pros bicho, todo enroladinho nuns mulambo.

O anjo tava nessa conversa, quando outros anjos chegaram botando moral:

– Bora, macho! Termina esse leriado aí. Tu conversa muito!

E os anjos pegaram o beco. Depois, os pastores tomaram cada um uma garapa de açúcar, pra passar o nervoso, e meteram o pé no rumo de Belém.

Os pastores ficaram abismados quando viram o menino Jesus dormindo na gamela do boi. Mas acreditaram no que os anjos tinham dito e ficaram ali rezando.

Depois teve a visita dos reis magos. Uns cabra que vieram lá da baixa da égua com uns agrado pro menino Jesus. Mas aí já é outra parte da história.

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NATAL LIMEIRIZADO

Não sei por quais cargas d’água, quando pensei em escrever a mensagem de natal deste ano, para ler na ceia, com a família, só imaginei Zé Limeira glosando o mote “Viva o menino Jesus!”.

Longe de mim a pretensão de alcançar o nível do mito Zé Limeira. Mas imitar não é pecado.

Então escrevi essas estrofes:

Numa noite de natal,
O sol brilhava no céu,
Um justo virava réu,
Um são ia pro hospital.
Um famoso marginal
Bebia um chá de cuscuz,
Alguém acendeu a luz,
O sujeito foi-se embora
E gritou Nossa Senhora:
Viva o menino Jesus!

Quando eu vi Papai Noel
Montado numa galinha,
Logo vi que ele não tinha
Escrito nada em cordel.
Veio vindo um coronel
Chupando um pé de mastruz.
Uma nuvem de urubus
Pelo terreiro ciscava,
Enquanto o povo gritava:
Viva o menino Jesus!

Já comi peru assado,
Mas joguei fora o caroço
São Tomé, quando era moço,
Jogou muito carteado.
São João foi atropelado
Por duzentos cururus.
Deu três tiros de obus
E fez a maior zoada,
Gritando, de madrugada:
Viva o menino Jesus!

Jesus nasceu num domingo,
Segunda-feira falou,
Terça, de tarde, pegou
Um nó d’água e deu um pingo.
João e seu amigo Ringo
Foram nos maracatus,
Pegaram a dançar nus,
Sem o menor sobressalto.
E o povo cantando alto:
Viva o menino Jesus!

Vou chegando aos finalmente,
Falando dos três reis magos
Que foram muito bem pagos
Pelo Coronel Prudente.
Cada um trouxe um presente,
E um ovo de avestruz.
José, que usava um capuz,
E tocava uma corneta,
Escreveu na caderneta:
Viva o menino Jesus!

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ABSURDOS

Absurdo é uma ave grande e desajeitada, cuja principal característica é seu grito, alto e estridente, capaz de desnortear outros animais que estejam por perto, inclusive seres humanos.

Seu nome vem exatamente dessa característica. Do latim “absurdus”, unindo a partícula “ab” (desde; a partir de) a “surdus” (o que não escuta), adquirindo, pelo uso coloquial, o significado de dissonante, fora do tom, desafinado.

Não se pode dizer que seja um animal raro, porque os absurdos proliferam em todo o planeta, sendo comuns na América do Sul. No Brasil, parecem encontrar condições muito favoráveis à sua reprodução. Estudos comprovam que grandes absurdos, oriundos dos Estados Unidos, às vezes migram para o sul, tornando-se ainda maiores quando chegam a terras brasileiras.

Há registros de absurdos na Amazônia, na caatinga, no cerrado, na mata atlântica e nos pampas. Mas é uma ave misteriosa, que consegue se manter oculta onde deveria facilmente ser vista, aparecendo inesperadamente em ocasiões e lugares improváveis.

Um dos maiores mistérios dos absurdos é a diversidade de formas com que são descritos. Ao que tudo indica, ninguém tem certeza quanto a sua aparência, mas todo mundo nota quando um absurdo chega. Ou quase todo mundo, porque sempre há os distraídos, que não percebem a presença do absurdo, mesmo quando ele está diante de seus olhos.

E tem também aquela turma que finge só perceber os absurdos que prejudicam seus interesses. Quando o absurdo os favorece, parecem mais distraídos que os distraídos de verdade:

– Olha o tamanho desse absurdo, gente!

– Onde?

– Aí! Na sua frente!

– Aqui? Não vejo absurdo nenhum.

E a vida segue. No fundo, a presença de um absurdo sempre causa certa surpresa, perplexidade e até medo. Especialistas dizem que mesmo quem é responsável pela criação de um absurdo se abala com sua presença. Mas certamente há quem se divirta criando absurdos.

Como diz o poeta Jessier Quirino, nesse mundo existe gente pra tudo, e ainda sobra dois pra tocar gaita!

O certo é que às vezes o absurdo é fugaz: surge, mas logo desaparece. Outras vezes permanece por longos períodos junto a agrupamentos de seres humanos. Vai ficando por ali, fingindo normalidade, até que as pessoas acabam se adaptando à sua presença. Continua sendo um absurdo, mas não incomoda mais ninguém. Ou quem se incomoda não diz nada, com receio de ser tratado como intolerante.

Sim! Porque às vezes o absurdo ganha a proteção de defensores, ONGs e ativistas, de modo que quem o trata como tal, ou seja, como absurdo, passa a sofrer represálias de toda sorte.

E ainda tem os absurdos que fazem seus ninhos no alto dos prédios públicos, em palácios, ministérios e tribunais. Esses costumam ser grandes, apesar do esforço de algumas autoridades para os fazer parecer pequenos. O simples ato de expor publicamente a existência desses absurdos pode levar alguém a sofrer sanções jurídicas, com a perda de bens e até da liberdade.

Mas, o fato é que os absurdos seguem alheios a tudo isso, e não deixam de ser o que são: absurdos. Podemos fingir que os ignoramos, podemos simular indiferença quando os vemos, ou negar a sua presença. Ainda assim eles continuarão lá.

E quem conhece a sua natureza sempre sentirá a esperança pulsar em seu coração quando ouvir alguém dizer, em tom de alerta:

– Mas isso é um absurdo!

P.S.: Como não consegui a foto de nenhum absurdo, a imagem ilustrativa é de um urutau, ave também conhecida como mãe-da-lua.

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COLHEITA

Escuta agora, atento, o que te digo,
Escuta, ouve bem, presta atenção.
Escuta-me de todo coração,
Pois falo o que diria a um amigo.

Se hoje vives grande frustração,
Ela é simplesmente o resultado,
De condutas que tu tens adotado,
De passos dados nessa direção.

De inúmeros atritos que criaste,
De rancores que outrora cultivaste.
A colheita viria, veio agora.

Digo, assim, com total convicção,
Que tiveste a vitória em tua mão,
Mas tu mesmo, com a mão, jogaste fora.

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AS MACAQUICES DE PODER NO REINO DA BAZÓFIA

Escrevi pela primeira vez sobre o Reino da Bazófia em 2020, estimulado por uma crônica de José Paulo Cavalcanti, titular da cadeira de número 39 na Academia Brasileira de Letras, a quem tenho a honra de chamar de amigo.

Então, se antes de prosseguir nesta leitura, o leitor quiser obter algumas informações preliminares sobre o Reino da Bazófia, deve clicar AQUI.

Caso resolva prosseguir sem visitar aquele texto, deve apenas ter em mente que o Reino da Bazófia existiu na Europa, entre meados da Idade Média e a época em que se formaram as primeiras monarquias. Depois desapareceu do mapa, deixando quase nenhum vestígio.

Mesmo assim, fragmentos de documentos encontrados em velhos mosteiros permitem resgatar fatos ocorridos no Reino da Bazófia, os quais revelam curiosos traços da organização política daquele reino.

Feitos esses esclarecimentos, vamos aos fatos.

Conta-se que, certa vez, apareceu no Palácio Real do Reino da Bazófia um pequeno macaco. Servidores do palácio tentaram pegar o bichinho, mas ninguém conseguiu fazer a captura. Bem se sabe que os macacos são animais ágeis, mas aquele parecia mesmo acima da média dos de sua espécie. Comparado com os gordos assessores do rei, a diferença era absurdamente desproporcional.

Para surpresa de todos, depois de deixar os funcionários reais exaustos o bichinho foi-se acomodar espontaneamente sobre os ombros do rei.

O monarca ficou muito feliz com aquela inesperada atitude do macaquinho, e o adotou como bicho de estimação. Deu ao animalzinho o nome de Poder:

– Porque muitos queriam alcançá-lo, mas ele veio para quem o merece – explicou o rei aos assessores, o que fez por pura zombaria, já que não devia explicações a ninguém ali.

Passavam-se os dias e, para gáudio do rei bazófio, Poder continuava a transitar pelo palácio real, como se aquele lugar fosse mesmo o seu lar, desde o início dos tempos. Tornou-se comum nobres, servidores e outros súditos menos importantes verem o macaco Poder junto ao rei.

Apesar da aparente docilidade do símio, ninguém conseguia tocar nele, tal qual ocorrera na primeira vez que fora visto no palácio. Mesmo quando brincava no salão real, com algum dos seus vários brinquedos – sim, o macaquinho Poder frequentemente ganhava brinquedos do próprio rei ou de membros da nobreza que visitavam o palácio – mesmo nesses momentos, se alguém se aproximava, Poder saltava rapidamente para o lustre, o alto de um armário ou outra posição onde se mantivesse a salvo de mãos humanas.

O próprio rei, único que eventualmente podia sentir Poder sobre seus ombros, precisava esperar que o macaco viesse até ele, pois, toda vez que tentava segurar o animalzinho em suas mãos, Poder saltava para longe dele.

O rei não se incomodava com aquele comportamento de Poder. Ao contrário, ria daquilo. Com o tempo, afeiçoou-se tanto ao bichinho, que volta e meia saía em passeios pelas ruas de Bazófia para que o povo visse Poder em seus ombros.

Nessas ocasiões, a população se aglomerava nas calçadas e nas margens das estradas para aplaudir a comitiva. Já não se sabia se os aplausos eram para o rei ou para o macaco, mas o fato é que, com Poder junto de si, o rei havia aumentado muita sua popularidade.

Como era de se esperar, toda aquela popularidade passou a gerar insatisfação entre os nobres, especialmente aqueles que compunham o Conselho Real, uma espécie de parlamento de Bazófia.

Sentindo que estavam perdendo importância junto ao povo, os conselheiros reais tramaram um plano para tirar Poder do rei: em um dos passeios reais, o presidente do Conselho de Nobres, que tinha lugar na carruagem real, tentaria tirar Poder dos ombros do rei; como o bichinho era muito arisco, certamente se assustaria, saltando da carruagem, o que causaria tumulto, deixando o rei desmoralizado, em uma situação até mesmo ridícula; com o rei ridicularizado, a nobreza, insuflada pelo conselheiros, passaria a boicotar o rei em todos os seus atos de governo, até enfraquecê-lo e derrubá-lo.

E assim foi feito. Quando a carruagem real, com a capota aberta, atravessava a praça principal da capital do Reino da Bazófia, o Presidente do Conselho Real tentou repentinamente agarrar Poder, que estava acomodado em um dos ombros do rei. O bichinho assustou-se, como previsto, mas, ao invés de fugir, saltou para a cabeça do conselheiro.

Surpreso com a reação do macaquinho, o conselheiro real continuou tentando pegar Poder, que, sobre sua cabeça, puxava-lhe as orelhas e enfiava-lhe os dedos nos olhos. Ao tentar se segurar nos cabelos do conselheiro, acabou arrancando-lhe peruca, deixando à mostra a avançada calvície do membro da nobreza de Bazófia.

A essa altura, o próprio rei tentava tirar Poder da cabeça do conselheiro, também sem sucesso. Enquanto isso, as pessoas aglomeradas na praça invadiam a rua, misturando gargalhadas a impropérios e gritos de protesto. Em instantes, a carruagem real estava cercada pela multidão, com alguns jovens mais afoitos tentando subir no veículo, mas sendo repelidos pela guarda real.

Não se tem certeza sobre o que houve depois disso. A versão mais aceita é que, em sua luta por Poder, o rei e o presidente do Conselho Real caíram da carruagem e foram pisoteados pela multidão que os cercava. O povo, que no início aplaudia a comitiva, passou a atacar a guarda real, com paus e pedras. Formaram-se inúmeros grupos, que brigavam entre si, sem saber exatamente por qual motivo estavam brigando. Instalado o caos, não se sabe com quem ficou Poder.

Os fragmentos de jornais rudimentares que circulavam à época são estudados até hoje. Há certo consenso entre estudiosos do assunto no sentido de que, a partir daquele dia, o Reino da Bazófia entrou em um longo período de anarquia e decadência econômica.

Mas historiadores continuam a debater sobre o tema. Uns dizem que as coisas começaram a dar errado no Reino da Bazófia quando o rei passou a se exibir com o Poder, sem ter controle sobre ele. Outros sustentam que o plano do conselheiro não deu certo porque o Poder lhe subiu à cabeça. Outros ainda acreditam que a revolta em Bazófia teria sido evitada se o Poder tivesse sido mantido longe do povo.

Aparentemente, as teses aqui referidas não são excludentes umas das outras.

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A FÉ NO ESTADO E AS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS

Já que se aproximam mais uma vez as eleições presidenciais; que mais uma vez as pessoas se enchem de esperança por um país melhor para se viver; e de temor, pela possibilidade de seu candidato ser derrotado, porque estão convencidas de que a vitória do outro levará o país inevitavelmente à desgraça; decidi propor aos leitores (e eleitores) a reafirmação da crença de que o Estado há de resolver todos os nossos problemas.

Então, lembrei de uma oração que certa vez ouvi de alguém que dirigia sua fé, não a Deus, mas a esse ente que, embora abstrato, faz parte deste mundo material: o Estado.

Esse ser que comanda as nossas vidas, comparado por Thomas Hobbes a um peixe monstruoso, capaz de a todos os outros devorar, impedindo assim que os peixes menores se devorassem entre si: o Leviatã.

Não lembro se as palavras são exatamente as que reproduzo a seguir, mas acredito que o essencial esteja aí.

Claro que é possível acrescentar algo mais à oração. Desde, é claro, que o acréscimo não seja ofensivo ao destinatário da nossa fé.

Afinal, não faltam atributos edificantes que se possa reconhecer ao Estado, nosso dirigente, controlador e supridor de tudo (ou quase tudo, o que nos remete à canção “Aí eu bebo”, de Maiara e Maraísa).

O que não é admissível é que se façam críticas ao Estado. Ou melhor, que se dirijam ataques às suas instituições (para usar uma linguagem mais conforme os tempos atuais). Menos ainda, que se cogite de sua extinção.

Dito isto, e sem mais delongas, oremos ao Estado:

Creio no Estado, todo poderoso,
Que controla a nós, viventes desta terra.
Creio nos poderes Legislativo, Executivo e Judiciário,
Que foram concebidos no Espírito das Leis,
Sistematizados por Montesquieu, depois positivados.
E juntos compõem esse ser abstrato, forte e soberano.
Que nos submete inexoravelmente a cada dia.
Cujo poder paira sobre nós, todo poderoso,
E tem o monopólio de nos julgar, vivos ou mortos.
Creio no respeito aos nossos direitos fundamentais
E nas liberdades individuais.
Creio na harmonia entre os poderes;
No princípio democrático e no sistema representativo;
Creio que todo poder emana do povo;
No sagrado direito ao voto;
No funcionamento das instituições;
Creio nos princípios da legalidade e da igualdade.
E que só o Estado pode garantir a paz e a Justiça
nessa terra.
Amém!

Em tempo, reconheço que o leitor pode entender que o presente texto usa de ironia, pelo menos até esta parte.

Nessa hipótese, esclareço que esse suposto tom irônico não teria qualquer intenção de desqualificar ou desmerecer o Estado. Não é um ataque aos seus poderes, seus princípios, suas instituições ou à democracia.

O objetivo dessa alegada ironia seria apenas induzir o (e)leitor a uma reflexão sobre a responsabilidade que cada um de nós tem de, mesmo sob o poder e a proteção do Estado, buscar, por nossos próprios meios, a felicidade e a construção de um mundo melhor.

As eleições que se aproximam são muito importantes. Mas, como diria Geraldo Vandré, “a vida não se resume em festivais”.

Digo eu: nem tampouco em eleições presidenciais.

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INDEPENDÊNCIA E LIBERDADE

O Hino Nacional Brasileiro fala de liberdade já em seus primeiros versos: “o sol da liberdade, em raios fúlgidos, brilhou no céu da pátria”. Assim também o Hino da Independência do nosso país: “já raiou a liberdade no horizonte do Brasil”.

É como se independência e liberdade fossem a mesma coisa. Ou pelo menos andassem juntas, de modo que um povo independente seria o mesmo que um povo livre.

Mas… um povo se torna livre pelo simples fato de deixar de estar submetido ao poder de um Estado, passando a se submeter a outro?

Certamente que não. E a história mostra inúmeros casos em que o povo simplesmente mudou de senhor. Casos em que líderes de movimentos por liberdade logo se mostraram novos tiranos.

Assim, ao simbolizar a liberdade por meio de raios de sol, o Hino Nacional e o Hino da Independência do Brasil nos trazem, em seus inspirados versos, mais que uma bela imagem. Propositalmente ou não, eles nos lembram que o sentimento de liberdade deve ser renovado a cada dia. Como os raios de sol, que nos chegam após a escuridão de cada noite.

E não devemos ter dúvida que a escuridão da tirania está sempre a ameaçar a luz da nossa liberdade.

A tirania não se anuncia como tal, porque sabe que não é bem vinda. Mas é hábil em se esconder atrás de promessas sedutoras.

“É para sua segurança!”. “É pela sua saúde!”. “É pela ciência!”. “É pela defesa da democracia!”. “É pelo fortalecimento das nossas instituições!”.

E assim vamos entregando nossa liberdade.

Aos poucos vamos sendo impedidos de fazer o que queremos, ou obrigados a fazer o que não queremos. Isso inclui o ato de pensar e de expressar o que pensamos.

É evidente que a vida em sociedade nos impõe limitações, imprescindíveis a uma convivência pacífica. A questão é até onde vão essas limitações, e o quanto de liberdade resta ao indivíduo, se até o ato de dizer o que pensa pode lhe acarretar penalidades.

Seria fácil citar aqui exemplos de ataques recentes às nossas liberdades. No mundo inteiro e, particularmente, no Brasil.

Não citarei nenhum desses exemplos. Talvez por desejar que cada leitor exerça sua liberdade de pensamento, refletindo sobre situações nas quais tenha se sentido tolhido em suas liberdades individuais. Talvez por não me sentir com liberdade suficiente para falar de casos específicos em que nossa liberdade tem sido agredida.

Finalizo registrando que escrevo no dia 5 de setembro de 2022. Daqui a dois dias, nós, brasileiros, celebraremos os 200 anos de independência do nosso país.

Que, a cada novo dia, o sol da liberdade, em raios fúlgidos, brilhe no céu da nossa pátria!

Que, a cada novo dia, os filhos desta pátria vejam raiar a liberdade no horizonte do Brasil!

MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDEIS

A ESTÁTUA DO DITADOR

No meio da praça principal da capital daquele país minúsculo estava fixada a estátua do seu ditador.

Como uma boa estátua de ditador, o monumento não o retratava muito fielmente. Havia nela um pouco menos de barriga e um pouco mais de tórax que no original humano; um pouco menos de largura e um pouco mais de altura, por assim dizer.

O rosto inclinado para cima, junto com o olhar apontado para baixo, esses sim, lembravam mais a figura que lhe serviu de modelo.

Mas o fato é que esses detalhes não faziam muita diferença para as pessoas que todos os dias aplaudiam calorosamente a estátua.

É que vigorava naquele país uma lei segundo a qual, todos os dias, às 17 horas, todas as pessoas que estivessem na praça da capital deveriam se dirigir à estátua e aplaudi-la. Uma salva de palmas de dez minutos, era o que exigia a lei.

Claro que a manifestação às vezes durava mais que o tempo regulamentar. Afinal, não era raro haver alguém ali disposto a prolongar a salva de palmas por dois ou três minutos extras.

Um dia, porém, aconteceu algo inusitado.

No momento em que todos se agrupavam diante da imagem do ditador, para aplaudi-la, um pombo pousou na cabeça da estátua e defecou abundantemente em sua testa. As fezes melequentas do pombo escorreram por entre as sobrancelhas e deslizaram pelo nariz da estátua, deixando-o um pouco mais pontiagudo. Uma ponta voltada para baixo, como a dos narizes das bruxas dos livros ilustrados de histórias para crianças.

Por um instante, fez-se um silêncio tão eloquente que a praça mais parecia um cemitério à noite.

Até que duas pessoas se entreolharam, e, percebendo um esboço de riso no rosto uma da outra, começaram a bater palmas com grande entusiasmo.

A multidão seguiu seu exemplo e a praça explodiu em aplausos. Uma salva de palmas contagiante, acrescida de gritos e assobios, que durou muito mais que os dez minutos regulamentares.

Na verdade, mais de vinte minutos em uma verdadeira festa, como há muito não se via ali.

Os policiais que vigiavam diuturnamente a praça – e seus frequentadores – acharam tudo aquilo muito estranho, mas nada puderam fazer, pois as pessoas estavam apenas cumprindo rigorosamente a lei.

Não obstante, ficou claro que, naquele dia, os aplausos eram para o pombo.