Não sei por quais cargas d’água, quando pensei em escrever a mensagem de natal deste ano, para ler na ceia, com a família, só imaginei Zé Limeira glosando o mote “Viva o menino Jesus!”.
Longe de mim a pretensão de alcançar o nível do mito Zé Limeira. Mas imitar não é pecado.
Então escrevi essas estrofes:
Numa noite de natal, O sol brilhava no céu, Um justo virava réu, Um são ia pro hospital. Um famoso marginal Bebia um chá de cuscuz, Alguém acendeu a luz, O sujeito foi-se embora E gritou Nossa Senhora: Viva o menino Jesus!
Quando eu vi Papai Noel Montado numa galinha, Logo vi que ele não tinha Escrito nada em cordel. Veio vindo um coronel Chupando um pé de mastruz. Uma nuvem de urubus Pelo terreiro ciscava, Enquanto o povo gritava: Viva o menino Jesus!
Já comi peru assado, Mas joguei fora o caroço São Tomé, quando era moço, Jogou muito carteado. São João foi atropelado Por duzentos cururus. Deu três tiros de obus E fez a maior zoada, Gritando, de madrugada: Viva o menino Jesus!
Jesus nasceu num domingo, Segunda-feira falou, Terça, de tarde, pegou Um nó d’água e deu um pingo. João e seu amigo Ringo Foram nos maracatus, Pegaram a dançar nus, Sem o menor sobressalto. E o povo cantando alto: Viva o menino Jesus!
Vou chegando aos finalmente, Falando dos três reis magos Que foram muito bem pagos Pelo Coronel Prudente. Cada um trouxe um presente, E um ovo de avestruz. José, que usava um capuz, E tocava uma corneta, Escreveu na caderneta: Viva o menino Jesus!
Absurdo é uma ave grande e desajeitada, cuja principal característica é seu grito, alto e estridente, capaz de desnortear outros animais que estejam por perto, inclusive seres humanos.
Seu nome vem exatamente dessa característica. Do latim “absurdus”, unindo a partícula “ab” (desde; a partir de) a “surdus” (o que não escuta), adquirindo, pelo uso coloquial, o significado de dissonante, fora do tom, desafinado.
Não se pode dizer que seja um animal raro, porque os absurdos proliferam em todo o planeta, sendo comuns na América do Sul. No Brasil, parecem encontrar condições muito favoráveis à sua reprodução. Estudos comprovam que grandes absurdos, oriundos dos Estados Unidos, às vezes migram para o sul, tornando-se ainda maiores quando chegam a terras brasileiras.
Há registros de absurdos na Amazônia, na caatinga, no cerrado, na mata atlântica e nos pampas. Mas é uma ave misteriosa, que consegue se manter oculta onde deveria facilmente ser vista, aparecendo inesperadamente em ocasiões e lugares improváveis.
Um dos maiores mistérios dos absurdos é a diversidade de formas com que são descritos. Ao que tudo indica, ninguém tem certeza quanto a sua aparência, mas todo mundo nota quando um absurdo chega. Ou quase todo mundo, porque sempre há os distraídos, que não percebem a presença do absurdo, mesmo quando ele está diante de seus olhos.
E tem também aquela turma que finge só perceber os absurdos que prejudicam seus interesses. Quando o absurdo os favorece, parecem mais distraídos que os distraídos de verdade:
– Olha o tamanho desse absurdo, gente!
– Onde?
– Aí! Na sua frente!
– Aqui? Não vejo absurdo nenhum.
E a vida segue. No fundo, a presença de um absurdo sempre causa certa surpresa, perplexidade e até medo. Especialistas dizem que mesmo quem é responsável pela criação de um absurdo se abala com sua presença. Mas certamente há quem se divirta criando absurdos.
Como diz o poeta Jessier Quirino, nesse mundo existe gente pra tudo, e ainda sobra dois pra tocar gaita!
O certo é que às vezes o absurdo é fugaz: surge, mas logo desaparece. Outras vezes permanece por longos períodos junto a agrupamentos de seres humanos. Vai ficando por ali, fingindo normalidade, até que as pessoas acabam se adaptando à sua presença. Continua sendo um absurdo, mas não incomoda mais ninguém. Ou quem se incomoda não diz nada, com receio de ser tratado como intolerante.
Sim! Porque às vezes o absurdo ganha a proteção de defensores, ONGs e ativistas, de modo que quem o trata como tal, ou seja, como absurdo, passa a sofrer represálias de toda sorte.
E ainda tem os absurdos que fazem seus ninhos no alto dos prédios públicos, em palácios, ministérios e tribunais. Esses costumam ser grandes, apesar do esforço de algumas autoridades para os fazer parecer pequenos. O simples ato de expor publicamente a existência desses absurdos pode levar alguém a sofrer sanções jurídicas, com a perda de bens e até da liberdade.
Mas, o fato é que os absurdos seguem alheios a tudo isso, e não deixam de ser o que são: absurdos. Podemos fingir que os ignoramos, podemos simular indiferença quando os vemos, ou negar a sua presença. Ainda assim eles continuarão lá.
E quem conhece a sua natureza sempre sentirá a esperança pulsar em seu coração quando ouvir alguém dizer, em tom de alerta:
– Mas isso é um absurdo!
P.S.: Como não consegui a foto de nenhum absurdo, a imagem ilustrativa é de um urutau, ave também conhecida como mãe-da-lua.
Escrevi pela primeira vez sobre o Reino da Bazófia em 2020, estimulado por uma crônica de José Paulo Cavalcanti, titular da cadeira de número 39 na Academia Brasileira de Letras, a quem tenho a honra de chamar de amigo.
Então, se antes de prosseguir nesta leitura, o leitor quiser obter algumas informações preliminares sobre o Reino da Bazófia, deve clicar AQUI.
Caso resolva prosseguir sem visitar aquele texto, deve apenas ter em mente que o Reino da Bazófia existiu na Europa, entre meados da Idade Média e a época em que se formaram as primeiras monarquias. Depois desapareceu do mapa, deixando quase nenhum vestígio.
Mesmo assim, fragmentos de documentos encontrados em velhos mosteiros permitem resgatar fatos ocorridos no Reino da Bazófia, os quais revelam curiosos traços da organização política daquele reino.
Feitos esses esclarecimentos, vamos aos fatos.
Conta-se que, certa vez, apareceu no Palácio Real do Reino da Bazófia um pequeno macaco. Servidores do palácio tentaram pegar o bichinho, mas ninguém conseguiu fazer a captura. Bem se sabe que os macacos são animais ágeis, mas aquele parecia mesmo acima da média dos de sua espécie. Comparado com os gordos assessores do rei, a diferença era absurdamente desproporcional.
Para surpresa de todos, depois de deixar os funcionários reais exaustos o bichinho foi-se acomodar espontaneamente sobre os ombros do rei.
O monarca ficou muito feliz com aquela inesperada atitude do macaquinho, e o adotou como bicho de estimação. Deu ao animalzinho o nome de Poder:
– Porque muitos queriam alcançá-lo, mas ele veio para quem o merece – explicou o rei aos assessores, o que fez por pura zombaria, já que não devia explicações a ninguém ali.
Passavam-se os dias e, para gáudio do rei bazófio, Poder continuava a transitar pelo palácio real, como se aquele lugar fosse mesmo o seu lar, desde o início dos tempos. Tornou-se comum nobres, servidores e outros súditos menos importantes verem o macaco Poder junto ao rei.
Apesar da aparente docilidade do símio, ninguém conseguia tocar nele, tal qual ocorrera na primeira vez que fora visto no palácio. Mesmo quando brincava no salão real, com algum dos seus vários brinquedos – sim, o macaquinho Poder frequentemente ganhava brinquedos do próprio rei ou de membros da nobreza que visitavam o palácio – mesmo nesses momentos, se alguém se aproximava, Poder saltava rapidamente para o lustre, o alto de um armário ou outra posição onde se mantivesse a salvo de mãos humanas.
O próprio rei, único que eventualmente podia sentir Poder sobre seus ombros, precisava esperar que o macaco viesse até ele, pois, toda vez que tentava segurar o animalzinho em suas mãos, Poder saltava para longe dele.
O rei não se incomodava com aquele comportamento de Poder. Ao contrário, ria daquilo. Com o tempo, afeiçoou-se tanto ao bichinho, que volta e meia saía em passeios pelas ruas de Bazófia para que o povo visse Poder em seus ombros.
Nessas ocasiões, a população se aglomerava nas calçadas e nas margens das estradas para aplaudir a comitiva. Já não se sabia se os aplausos eram para o rei ou para o macaco, mas o fato é que, com Poder junto de si, o rei havia aumentado muita sua popularidade.
Como era de se esperar, toda aquela popularidade passou a gerar insatisfação entre os nobres, especialmente aqueles que compunham o Conselho Real, uma espécie de parlamento de Bazófia.
Sentindo que estavam perdendo importância junto ao povo, os conselheiros reais tramaram um plano para tirar Poder do rei: em um dos passeios reais, o presidente do Conselho de Nobres, que tinha lugar na carruagem real, tentaria tirar Poder dos ombros do rei; como o bichinho era muito arisco, certamente se assustaria, saltando da carruagem, o que causaria tumulto, deixando o rei desmoralizado, em uma situação até mesmo ridícula; com o rei ridicularizado, a nobreza, insuflada pelo conselheiros, passaria a boicotar o rei em todos os seus atos de governo, até enfraquecê-lo e derrubá-lo.
E assim foi feito. Quando a carruagem real, com a capota aberta, atravessava a praça principal da capital do Reino da Bazófia, o Presidente do Conselho Real tentou repentinamente agarrar Poder, que estava acomodado em um dos ombros do rei. O bichinho assustou-se, como previsto, mas, ao invés de fugir, saltou para a cabeça do conselheiro.
Surpreso com a reação do macaquinho, o conselheiro real continuou tentando pegar Poder, que, sobre sua cabeça, puxava-lhe as orelhas e enfiava-lhe os dedos nos olhos. Ao tentar se segurar nos cabelos do conselheiro, acabou arrancando-lhe peruca, deixando à mostra a avançada calvície do membro da nobreza de Bazófia.
A essa altura, o próprio rei tentava tirar Poder da cabeça do conselheiro, também sem sucesso. Enquanto isso, as pessoas aglomeradas na praça invadiam a rua, misturando gargalhadas a impropérios e gritos de protesto. Em instantes, a carruagem real estava cercada pela multidão, com alguns jovens mais afoitos tentando subir no veículo, mas sendo repelidos pela guarda real.
Não se tem certeza sobre o que houve depois disso. A versão mais aceita é que, em sua luta por Poder, o rei e o presidente do Conselho Real caíram da carruagem e foram pisoteados pela multidão que os cercava. O povo, que no início aplaudia a comitiva, passou a atacar a guarda real, com paus e pedras. Formaram-se inúmeros grupos, que brigavam entre si, sem saber exatamente por qual motivo estavam brigando. Instalado o caos, não se sabe com quem ficou Poder.
Os fragmentos de jornais rudimentares que circulavam à época são estudados até hoje. Há certo consenso entre estudiosos do assunto no sentido de que, a partir daquele dia, o Reino da Bazófia entrou em um longo período de anarquia e decadência econômica.
Mas historiadores continuam a debater sobre o tema. Uns dizem que as coisas começaram a dar errado no Reino da Bazófia quando o rei passou a se exibir com o Poder, sem ter controle sobre ele. Outros sustentam que o plano do conselheiro não deu certo porque o Poder lhe subiu à cabeça. Outros ainda acreditam que a revolta em Bazófia teria sido evitada se o Poder tivesse sido mantido longe do povo.
Aparentemente, as teses aqui referidas não são excludentes umas das outras.
Já que se aproximam mais uma vez as eleições presidenciais; que mais uma vez as pessoas se enchem de esperança por um país melhor para se viver; e de temor, pela possibilidade de seu candidato ser derrotado, porque estão convencidas de que a vitória do outro levará o país inevitavelmente à desgraça; decidi propor aos leitores (e eleitores) a reafirmação da crença de que o Estado há de resolver todos os nossos problemas.
Então, lembrei de uma oração que certa vez ouvi de alguém que dirigia sua fé, não a Deus, mas a esse ente que, embora abstrato, faz parte deste mundo material: o Estado.
Esse ser que comanda as nossas vidas, comparado por Thomas Hobbes a um peixe monstruoso, capaz de a todos os outros devorar, impedindo assim que os peixes menores se devorassem entre si: o Leviatã.
Não lembro se as palavras são exatamente as que reproduzo a seguir, mas acredito que o essencial esteja aí.
Claro que é possível acrescentar algo mais à oração. Desde, é claro, que o acréscimo não seja ofensivo ao destinatário da nossa fé.
Afinal, não faltam atributos edificantes que se possa reconhecer ao Estado, nosso dirigente, controlador e supridor de tudo (ou quase tudo, o que nos remete à canção “Aí eu bebo”, de Maiara e Maraísa).
O que não é admissível é que se façam críticas ao Estado. Ou melhor, que se dirijam ataques às suas instituições (para usar uma linguagem mais conforme os tempos atuais). Menos ainda, que se cogite de sua extinção.
Dito isto, e sem mais delongas, oremos ao Estado:
Creio no Estado, todo poderoso, Que controla a nós, viventes desta terra. Creio nos poderes Legislativo, Executivo e Judiciário, Que foram concebidos no Espírito das Leis, Sistematizados por Montesquieu, depois positivados. E juntos compõem esse ser abstrato, forte e soberano. Que nos submete inexoravelmente a cada dia. Cujo poder paira sobre nós, todo poderoso, E tem o monopólio de nos julgar, vivos ou mortos. Creio no respeito aos nossos direitos fundamentais E nas liberdades individuais. Creio na harmonia entre os poderes; No princípio democrático e no sistema representativo; Creio que todo poder emana do povo; No sagrado direito ao voto; No funcionamento das instituições; Creio nos princípios da legalidade e da igualdade. E que só o Estado pode garantir a paz e a Justiça nessa terra. Amém!
Em tempo, reconheço que o leitor pode entender que o presente texto usa de ironia, pelo menos até esta parte.
Nessa hipótese, esclareço que esse suposto tom irônico não teria qualquer intenção de desqualificar ou desmerecer o Estado. Não é um ataque aos seus poderes, seus princípios, suas instituições ou à democracia.
O objetivo dessa alegada ironia seria apenas induzir o (e)leitor a uma reflexão sobre a responsabilidade que cada um de nós tem de, mesmo sob o poder e a proteção do Estado, buscar, por nossos próprios meios, a felicidade e a construção de um mundo melhor.
As eleições que se aproximam são muito importantes. Mas, como diria Geraldo Vandré, “a vida não se resume em festivais”.
O Hino Nacional Brasileiro fala de liberdade já em seus primeiros versos: “o sol da liberdade, em raios fúlgidos, brilhou no céu da pátria”. Assim também o Hino da Independência do nosso país: “já raiou a liberdade no horizonte do Brasil”.
É como se independência e liberdade fossem a mesma coisa. Ou pelo menos andassem juntas, de modo que um povo independente seria o mesmo que um povo livre.
Mas… um povo se torna livre pelo simples fato de deixar de estar submetido ao poder de um Estado, passando a se submeter a outro?
Certamente que não. E a história mostra inúmeros casos em que o povo simplesmente mudou de senhor. Casos em que líderes de movimentos por liberdade logo se mostraram novos tiranos.
Assim, ao simbolizar a liberdade por meio de raios de sol, o Hino Nacional e o Hino da Independência do Brasil nos trazem, em seus inspirados versos, mais que uma bela imagem. Propositalmente ou não, eles nos lembram que o sentimento de liberdade deve ser renovado a cada dia. Como os raios de sol, que nos chegam após a escuridão de cada noite.
E não devemos ter dúvida que a escuridão da tirania está sempre a ameaçar a luz da nossa liberdade.
A tirania não se anuncia como tal, porque sabe que não é bem vinda. Mas é hábil em se esconder atrás de promessas sedutoras.
“É para sua segurança!”. “É pela sua saúde!”. “É pela ciência!”. “É pela defesa da democracia!”. “É pelo fortalecimento das nossas instituições!”.
E assim vamos entregando nossa liberdade.
Aos poucos vamos sendo impedidos de fazer o que queremos, ou obrigados a fazer o que não queremos. Isso inclui o ato de pensar e de expressar o que pensamos.
É evidente que a vida em sociedade nos impõe limitações, imprescindíveis a uma convivência pacífica. A questão é até onde vão essas limitações, e o quanto de liberdade resta ao indivíduo, se até o ato de dizer o que pensa pode lhe acarretar penalidades.
Seria fácil citar aqui exemplos de ataques recentes às nossas liberdades. No mundo inteiro e, particularmente, no Brasil.
Não citarei nenhum desses exemplos. Talvez por desejar que cada leitor exerça sua liberdade de pensamento, refletindo sobre situações nas quais tenha se sentido tolhido em suas liberdades individuais. Talvez por não me sentir com liberdade suficiente para falar de casos específicos em que nossa liberdade tem sido agredida.
Finalizo registrando que escrevo no dia 5 de setembro de 2022. Daqui a dois dias, nós, brasileiros, celebraremos os 200 anos de independência do nosso país.
Que, a cada novo dia, o sol da liberdade, em raios fúlgidos, brilhe no céu da nossa pátria!
Que, a cada novo dia, os filhos desta pátria vejam raiar a liberdade no horizonte do Brasil!
No meio da praça principal da capital daquele país minúsculo estava fixada a estátua do seu ditador.
Como uma boa estátua de ditador, o monumento não o retratava muito fielmente. Havia nela um pouco menos de barriga e um pouco mais de tórax que no original humano; um pouco menos de largura e um pouco mais de altura, por assim dizer.
O rosto inclinado para cima, junto com o olhar apontado para baixo, esses sim, lembravam mais a figura que lhe serviu de modelo.
Mas o fato é que esses detalhes não faziam muita diferença para as pessoas que todos os dias aplaudiam calorosamente a estátua.
É que vigorava naquele país uma lei segundo a qual, todos os dias, às 17 horas, todas as pessoas que estivessem na praça da capital deveriam se dirigir à estátua e aplaudi-la. Uma salva de palmas de dez minutos, era o que exigia a lei.
Claro que a manifestação às vezes durava mais que o tempo regulamentar. Afinal, não era raro haver alguém ali disposto a prolongar a salva de palmas por dois ou três minutos extras.
Um dia, porém, aconteceu algo inusitado.
No momento em que todos se agrupavam diante da imagem do ditador, para aplaudi-la, um pombo pousou na cabeça da estátua e defecou abundantemente em sua testa. As fezes melequentas do pombo escorreram por entre as sobrancelhas e deslizaram pelo nariz da estátua, deixando-o um pouco mais pontiagudo. Uma ponta voltada para baixo, como a dos narizes das bruxas dos livros ilustrados de histórias para crianças.
Por um instante, fez-se um silêncio tão eloquente que a praça mais parecia um cemitério à noite.
Até que duas pessoas se entreolharam, e, percebendo um esboço de riso no rosto uma da outra, começaram a bater palmas com grande entusiasmo.
A multidão seguiu seu exemplo e a praça explodiu em aplausos. Uma salva de palmas contagiante, acrescida de gritos e assobios, que durou muito mais que os dez minutos regulamentares.
Na verdade, mais de vinte minutos em uma verdadeira festa, como há muito não se via ali.
Os policiais que vigiavam diuturnamente a praça – e seus frequentadores – acharam tudo aquilo muito estranho, mas nada puderam fazer, pois as pessoas estavam apenas cumprindo rigorosamente a lei.
Não obstante, ficou claro que, naquele dia, os aplausos eram para o pombo.
Eleição é um evento que sempre traz novidades. A criatividade das pessoas que se dedicam às campanhas é grande. Desde os políticos até os hoje chamados genericamente de apoiadores, passando por marqueteiros e cabos eleitorais, todo mundo participa da elaboração e execução de estratégias para atrair a atenção – e, se possível, o voto – dos eleitores.
Foi assim com os showmícios; as carreatas (um neologismo criado a partir da palavra passeata, com os participantes comparecendo, não a pé, mas de carro); e a alocação de militantes nas esquinas das avenidas, portanto bandeiras de partidos e candidatos, dentre outras manobras.
Mas essas iniciativas foram ficando para trás.
Os showmícios acabaram proibidos pela legislação eleitoral. Os agitadores de bandeiras foram perdendo a graça, à medida que militantes de verdade foram sendo substituídos por pessoas remuneradas para esse trabalho.
Somente as carreatas ainda têm alguma relevância, especialmente no interior, onde candidatos costumam encerrar a campanha com uma espécie de desfile que demonstraria sua popularidade. Estas, porém, têm sido superadas este ano pelas motociatas, até agora praticadas exclusivamente pelo Presidente da República que tenta a reeleição.
Hoje, o campo da batalha pelos votos deslocou-se quase totalmente para o universo virtual da internet, especialmente das redes sociais.
Basta ver a preocupação da Justiça Eleitoral com uma prática chamada “disparos em massa pelo WhatsApp”. Segundo se verifica em reportagens e comentários de jornalistas sobre o tema, o envio de mensagens com conteúdo eleitoral a uma grande quantidade de pessoas foi decisivo nas eleições mais recentes.
Há quem diga que o verdadeiro mal dessa massificação do envio de conteúdo político por meio de aplicativos de mensagens é a difusão de notícias falsas ou indutoras ao erro, no que tem sido chamado de fake news. Tenho minhas reservas quanto a essa afirmação, mas não quero fugir do tema que escolhi para hoje.
Nas redes sociais, candidatos tentam contar com maior número possível de seguidores, a ponto de existir gente especializada em arrebanhar esses seguidores, mediante pagamento, é claro. O que não significa que algumas lideranças tenham efetivamente muitos seguidores, o que é fundamental para a propagação de suas ideias.
Mas o que me motivou a tocar neste assunto hoje foi a constatação de algo que me parece novo, senão inédito: uma disputa de manifestos.
Qualquer pessoa que tenha acompanhado o noticiário brasileiro na última semana sabe que no dia 26 de julho foi lançado um documento intitulado “CARTA EM DEFESA DA DEMOCRACIA E DO PROCESSO ELEITORAL”. Por meio desse documento, juristas, professores e artistas, dentre outras figuras de destaque, manifestam sua preocupação com as instituições democráticas, em especial o processo eleitoral, do qual fazem parte as urnas eletrônicas, cuja credibilidade vem sendo motivo de acirrados debates ultimamente.
Com os recursos de difusão de informações que a internet proporciona, o documento logo passou a receber o apoio de milhares de pessoas, com os sites de notícias destacando sua grande repercussão.
Não tardou para aliados e apoiadores do movimento pela reeleição do Presidente da República identificarem o documento como uma ação político-eleitoral, cujo objetivo seria, de uma só vez, tachar o Presidente de antidemocrático e demonstrar o grande apoio popular dos que se posicionam contra ele.
De fato, o documento não cita nominalmente o Presidente da República, mas é fácil extrair do seu texto referências a condutas que lhe são atribuídas.
Veio então a resposta, dois dias depois, 28 de julho, por meio de um documento com o seguinte título: MANIFESTO EM DEFESA DAS LIBERDADES. Este, além de defender a premissa de que “sem liberdade não há democracia”, cita nominalmente o apoio ao Presidente da República.
Formou-se assim o embate entre os dois manifestos.
Obviamente que o embate não é entre a LIBERDADE e a DEMOCRACIA, pois se tratam de dois valores que tendem a conviver com imensa facilidade. Não seria absurdo afirmar que a LIBERDADE tem melhor possibilidade de florescer na DEMOCRACIA, e que a DEMOCRACIA somente se desenvolve onde prevalece a LIBERDADE.
O que se observa é que cada polo da nossa polarizada política (desculpem a redundância) escolheu, como símbolo para sua posição, um valor que seja caro ao cidadão comum, de modo a disputar seus corações e mentes não a partir de pessoas, mas desses valores (embora o grupo que apoia o Presidente mencione seu nome em seu manifesto).
Aparentemente, a escolha desses valores foi baseada – ou, no mínimo, inspirada – em questões ligadas à realidade dos cidadãos. Ou seja: a DEMOCRACIA, relacionada ao processo eleitoral e às urnas eletrônicas; a LIBERDADE, relacionada às medidas restritivas adotadas durante a pandemia da COVID19, em contrariedade à posição defendida pelo Presidente da República, e às restrições à liberdade de expressão recentemente impostas pelo Poder Judiciário, notadamente o STF e o TSE.
O fato é que agora, com a GUERRA DOS MANIFESTOS deflagrada, esses detalhes a respeito de como ela foi iniciada pouco importam.
Os lados do embate estão definidos. O que interessa agora é qual deles conseguirá reunir o maior número de adeptos. Não é uma antecipação da eleição presidencial, que ocorrerá em breve, mas imagino que o sentimento dos que compõem cada um dos lados seja parecido.
Uma verdadeira corrida por assinaturas digitais está acontecendo. Vejamos onde isso vai dar.
Na última consulta que fiz aos sites que recebem assinaturas, às 16 horas do dia 30 de julho, ontem, o placar estava assim:
No dia 25 de fevereiro de 2022, uma sexta-feira, almocei com um amigo em um restaurante que fica na margem do Lago Paranoá, na Vila Planalto, em Brasília.
Lembro bem a data porque foi no dia seguinte ao início da invasão russa à Ucrânia.
Ao sair do local, testemunhei um fato da natureza que muito me impressionou.
Aconteceu em um terreno baldio, próximo ao restaurante. Havia no local algum lixo acumulado. Um bando de pombos se alimentava ali.
A rua estava praticamente sem movimento. Eu dirigia meu carro bem lentamente, quando percebi que um daqueles pombos estava com problemas. Aparentemente, ele havia pisado em um saco plástico que continha alguma substância pegajosa. Ao tentar voar novamente, arrastou o saco grudado em seu pé.
Vendo que o pombo conseguia voar apenas por alguns metros, mas acabava arrastado novamente para o chão, pelo peso do saco de lixo preso a sua perna, parei o carro e fiquei observando, como se pressentisse que algo aconteceria ali.
E aconteceu mesmo. De repente, surgiram dois carcarás.
Pela maneira como surgiram, desde o alto, voando em círculos até se aproximar do solo, parece que passavam por ali e perceberam — assim como eu percebi — a dificuldade de locomoção do pombo.
Segundos depois, um dos carcarás já estava pousado no chão, com a cabeça do pombo sob suas garras. O outro pousou em seguida. Mais alguns segundos e as duas aves de rapina já estraçalhavam o pombo com seus bicos poderosos.
Demorei ainda alguns minutos com o carro parado, assistindo àquela cena selvagem. Literalmente, selvagem, em plena paisagem urbana.
Depois, enquanto dirigia a caminho de casa, fui refletindo sobre como a nossa vida de humanos têm situações como aquela.
Porque nós, seres humanos, temos a peculiaridade de, durante milhares (talvez milhões) de anos, termos sido presas, mas depois nos tornado grandes predadores. Talvez por isso, tanto na natureza como nas relações sociais, algumas vezes nos comportemos como presas, outras vezes como predadores.
Certamente influenciado pela invasão da Rússia contra a Ucrânia – iniciada no dia anterior àquele episódio, como já referi – pensei no quanto é perigoso um país abrir mão de sua defesa militar, ficando sem condições de reagir adequadamente a um ataque externo.
Refiro-me ao acordo feito pela Ucrânia, em 1990, em razão do qual o país abriu mão das armas nucleares então instaladas em seu território, em troca de segurança e reconhecimento como país independente.
Mas também pensei no assaltante, que, tendo a certeza de que o cidadão não tem uma arma em sua residência, entra nela e anuncia o assalto, seguro de que não haverá resistência.
Nessa segunda hipótese, alguns dirão que nossa defesa cabe à polícia. Que o Estado deve prover a segurança coletiva.
Realmente. Mas, se nossa segurança compete exclusivamente à polícia, por que existem empresas de segurança armada? Deve a lei permitir a uns que contratem seguranças armados mas a outros (exatamente aqueles que não podem pagar seguranças armados) proibir a posse de uma arma de fogo?
Aqui, é preciso diferenciar a segurança pública, coletiva, do direito à autodefesa.
É evidente que o Estado deve cuidar da segurança coletiva. Mas não se deve por isso privar o cidadão de sua defesa individual. É direito de cada indivíduo defender a si mesmo. E defender outra pessoa também, conforme as circunstâncias. A Constituição Brasileira prevê o direito à vida (art. 5º, caput), enquanto o nosso Código Penal exclui do rol de condutas criminosas a conduta praticada em legítima defesa, de si e de terceiros (arts. 23 e 25).
É justo a lei reconhecer o direito de defender a própria vida, e, ao mesmo tempo, tirar do cidadão os meios para exercê-lo? Penso que não.
A esse pensamento costuma-se opor o argumento, de ordem prática, de que armas, munição e treinamento também são caros, logo, inacessíveis a boa parte da população. Mas entre os que podem contratar empresas de segurança e os que não terão condições financeiras de comprar e manter uma arma existe muita gente, não? Deve-se negar a esses o acesso a uma arma? Responder positivamente é aceitar que o direito à autodefesa seria um privilégio de pessoas ricas.
Alega-se ainda que assaltantes sempre poderão estar mais bem armados que o cidadão, além de contar com o elemento surpresa. É verdade. Mas, se formos por esse caminho, deveremos considerar que, estando o cidadão desarmado, a superioridade bélica do assaltante já não será uma dúvida, e sim uma certeza. Com tal superioridade, sequer precisará do elemento surpresa.
Dito isto, volto ao pombo cuja única defesa contra os carcarás seria voar mais rápido que eles. Sem meios para se defender, virou presa fácil de seus algozes.
Os que discordam do meu ponto de vista aproveitarão esse encerramento para lembrar que voar rápido é uma característica natural dos pombos. Ao contrário das armas de fogo, construídas pela mão humana.
Meus amigos! Facas, martelos, bicicletas e automóveis também são construídos pela mão humana, e fazem parte das nossas vidas! A única característica que diferencia esses objetos das armas de fogo é que eles apenas acidentalmente nos causam ferimentos. Já as armas de fogo são feitas para isso.
Mas é exatamente pela possibilidade de causar ferimentos que as armas têm o poder de inibir – ou mesmo interromper – ataques injustos. Às vezes isso é necessário.
Em tempo: ao mesmo tempo em que considero justo que todo cidadão tenha direito à posse de uma arma de fogo, para sua defesa, reconheço que o seu uso exige habilidade, cautela e treinamento.
Foi difícil reconhecer, mas ultimamente tenho tido dificuldade para escrever.
Não que me tenham escasseado as ideias. Ou que eu tenha perdido a capacidade de expressá-las. Não é isso, tenho certeza.
Também não posso dizer que me falta tempo livre. Porque tempo livre é algo que há muito tempo não tenho. Sempre me encontro tratando de alguma questão relacionada ao trabalho ou à minha vida pessoal. Isso nunca me impediu de escrever meus contos, crônicas e cordéis. Nem de compor e gravar minhas canções. As madrugadas existem também para essa finalidade.
Na verdade, por doloroso que me seja admitir, o que me tem freado a capacidade de escrever é o receio de falar o que não devo.
Porque tem muita coisa acontecendo em nosso país – dessas que dá uma vontade danada de comentar – e a vontade de escrever vem todo dia. Mas sempre vem junto aquele receio de entrar em polêmica. E ser chamado de fascista, de comunista, de bolsonarista, de lulista, de incompetente, de burro e outras coisas que não quero citar aqui.
Outro dia, lancei uma pergunta aos meus seguidores no Twitter: “Será que, se eu disser que achei a visita do Elon Musk positiva, estarei declarando automaticamente apoio ao governo?”.
Várias pessoas responderam que sim. Só uma respondeu que não.
De certa forma, foi uma pergunta retórica. Eu mesmo já sabia, de antemão, que avaliar positivamente a vinda de Elon Musk ao Brasil significaria ser visto por muitos frequentadores das redes sociais como bolsonarista.
Porque é assim que temos vivido no Brasil.
Se você é a favor do direito de o cidadão ter a posse de uma arma de fogo, você é fascista; se é contra é comunista. Se é contra a obrigatoriedade de vacinas contra a COVID, é negacionista; se é a favor, é globalista. Se diz que confia nas urnas eletrônicas, é golpista; se não confia, também.
É como se as pessoas não pudessem mais ter opinião própria. Todo mundo está seguindo uma manada. Ou um rebanho. A questão é apenas definir: qual? qual das manadas essa pessoa segue?
Tudo isso me faz lembrar a canção do saudoso Belchior: “Saia do meu caminho. Eu prefiro andar sozinho. Deixe que eu decida minha vida”.
Eu também prefiro andar sozinho. E, se for para errar, prefiro errar sozinho. Mas isso não tem sido fácil ultimamente.
De todo modo, espero que, admitindo publicamente a razão da dificuldade que tenho tido para escrever, eu consiga superar esse bloqueio.
Claro que continuarei atento aos impedimentos legais aos quais estou submetido, mas espero me incomodar menos com eventuais enquadramentos nas caixinhas ideológicas disponíveis.
A propósito, gostei muito da visita do Elon Musk ao Brasil. Esse cidadão parece ser mais que o homem mais rico do mundo no momento. Parece estar interessado em algo grande, revolucionário, que o faça entrar para a história.
Imagino que muitas pessoas vejam isso como egocentrismo, e talvez seja mesmo. Mas os ucranianos que estão utilizando a internet em plena guerra, com a ajuda do StarLink, certamente não estão preocupados com isso.
Aqui, em nosso país, espero que a conjunção de esforços de empresas de Elon Musk com empresas ou entidades governamentais brasileiras possam gerar bons frutos para o nosso povo.
Parece-me evidente que essa seja uma expectativa legítima, independentemente de quem seja o presidente da República. Mas também me parece claro que pouca gente está interessada nisso. Pelo menos nos dias atuais.
Hoje, para alguém se posicionar sobre algo, geralmente é necessário levar em consideração fatores político-ideológicos, digamos, mais complexos.