MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

AINDA SOBRE A LIBERDADE

Diz uma velha piada que existem dois tipos de pessoas: aquelas que dividem as pessoas em dois tipos, e as que não dividem. Piadas à parte, existem (obviamente) infinitas características humanas que podem ser medidas para classificar as pessoas em dois ou mais grupos. No mundo de hoje, eu vejo como muito importante uma distinção de caráter político e econômico: as pessoas que defendem a liberdade e as pessoas que defendem o governo.

Muitos podem dizer que essas posições não são opostas, e podem até mesmo afirmar que o governo é necessário para garantir a liberdade. Seria verdade no mundo teórico das boas intenções, não na prática. É justo afirmar que é da natureza humana viver em sociedade, e toda sociedade tem líderes. Mas existe uma grande diferença entre a liderança e o governo: a liderança surge espontaneamente, e se baseia na confiança dos liderados. Já os governos, assim que surgem, se atribuem o monopólio da força e montam grupos armados para garantir esse monopólio; e daí em diante, apoiados nesta força armada, se atribuem o monopólio de todos os outros poderes, extinguindo direito por direito até que o cidadão seja reduzido a um mero pagador de impostos.

Nenhum governo na história reduziu seu tamanho ou seu poder por vontade própria. Ao contrário, todo governo cresce continuamente, através de novas leis, novos departamentos, ministérios, secretarias e agências, tudo sustentado por novos impostos. Um governo só diminui quando desmorona sob seu próprio peso (levando o país junto) ou quando é derrotado por outro governo mais forte, geralmente em uma guerra.

Quem defende a liberdade individual não deve acreditar que existam governos bonzinhos. A existência de um governo, seja “ditatorial” ou “democrático”, sempre será uma ameaça para a liberdade, e aqueles cujas idéias e ações se tornarem inconvenientes serão perseguidos, processados, presos e até mesmo mortos. Os demais verão sua liberdade sendo tolhida migalha por migalha, com cada pequeno detalhe da vida particular sendo regulamentado, controlado, fiscalizado e taxado pelo governo, até o ponto em que o mundo real e o mundo das leis e decretos se confundam como uma coisa só.

Não se trata de acreditar que poderemos ter a extinção do governo em curto prazo. É mais uma questão de postura: lembrar sempre que o governo é apenas um funcionário do povo; lembrar sempre que um governo não detém poderes, e sim atribuições, e que seus integrantes devem ser responsabilizados quando estas atribuições não são cumpridas.

Infelizmente o poder excessivo que os governos conquistaram ao longo do tempo lhes permitiu moldar a sociedade e as instituições a seu favor, de modo que hoje em dia ser subserviente ao governo é algo que é introduzido na mente das pessoas desde a tenra infância, e com grande sucesso (“dê-nos a criança em seus primeiros anos de vida, e ela será nossa por toda a vida”, diziam os jesuítas). Em muitos casos, essa subserviência é quase inconsciente, mas em outros casos ela se manifesta como uma forma específica de pensar. As mais comuns são:

– O humanitário: é aquele que acredita que o governo é “bonzinho” e ajuda os mais necessitados com saúde, educação, segurança, justiça, etc, etc, etc – tudo de graça. (Não é de graça, óbvio, pelo contrário; tudo que o governo fornece é pior e mais caro do que se fosse fornecido pela iniciativa privada.)

– O igualitário: é aquele que se incomoda com a idéia de alguns terem mais que outros. Para “corrigir” isso, ele deseja um governo que está permanentemente tirando dos mais ricos para supostamente dar aos mais pobres. (Todos sabemos que governos distribuem o que tomam dos ricos para si mesmos, e os mais pobres ficam apenas com os restos.)

– O paternalista: é aquele que não gosta de ver as pessoas sendo adultas, tomando decisões por si mesmas, e prefere que o governo trate todos como crianças e decida por eles. (Claro que é uma péssima idéia, até mesmo porque em uma sociedade que infantiliza as pessoas, em pouco tempo o governo também será formado por pessoas infantis.)

– O privilegiado: é aquele que quer um governo forte para garantir para si privilégios que acredita ter por fazer parte de algum grupo especial. Idade, sexo, cor, tudo é motivo para se considerar “especial”, para não falar dos ciclistas, vegetarianos, pais e mães de pet, ecologistas, moradores de comunidade, artistas da TV, ex-participantes do Big Brother e muitos outros.

– O utilitarista: é aquele que considera o estado útil para “consertar” as supostas falhas que a liberdade traria. (A prática, porém, demonstra que cada suposta “solução” imposta pelo estado gera três ou quatro novos problemas.)

– O teocrata: é aquele que deseja um governo forte que transforme a sua religião – e muitas vezes a sua interpretação pessoal da religião – em lei e que imponha as suas regras a todos. (Não é, obviamente, uma boa idéia, mas as pessoas que defendem essa idéia tendem a ser completamente surdas e cegas a qualquer argumento. Pior ainda: quando um grupo teocrata consegue chegar ao poder, costuma se fragmentar em pequenos sub-grupos que lutam entre si pelo poder e promovem discussões ásperas sobre pequenas divergências de interpretação das supostas regras sagradas.)

– O resignado: é aquele que acha que ter um governo mandando em todos é inevitável, e portanto não vale a pena se preocupar com o assunto. (É importante ter em mente que governos não são sempre iguais, e sempre é possível trocar um governo péssimo por outro um pouco melhor.)

Conscientes ou não, o fato é que o número dos subservientes ao estado vêm crescendo, e a liberdade, juntamente com os direitos fundamentais, corre o risco de novamente ser reduzida a um conceito semi-esquecido, em uma nova idade das trevas.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

BALANÇO

Ano acabando, outro ano começando. Hora de fazer um balanço geral da situação.

Nos Estados Unidos, maior economia do mundo, a coisa está assim: 33 TRILHÕES de dívida (120% do PIB), que causa uma despesa anual de mais de um trilhão só de juros. A renda média está caindo e o mercado de trabalho está bem ruim, mas os noticiários continuam divulgando estatísticas que são produzidas pelo próprio governo com a finalidade específica de mostrar que tudo vai bem.

O governo precisa de dinheiro para pagar suas contas, só que: Não tem coragem de aumentar impostos. Não pode imprimir dinheiro mais rápido do que já está fazendo para a inflação não sair de controle de vez. Sobra pedir emprestado, só que isso faz aumentar os juros e virar uma bola de neve. Para complicar, é ano de eleição e nenhum político fala a verdade em ano de eleição.

Previsão: sombria, possivelmente com uma severa depressão em 2024 (ou 2025 se eles conseguirem empurrar até depois da eleição).

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Na Europa, todos se esforçam ao máximo para não ver que o modelo de “estado de bem-estar social” está falido e sem chance de recuperação. Enquanto as dívidas e a inflação aumentam, os políticos brincam de mudar o nome dos impostos na esperança de conseguir arrecadar um pouquinho mais e empurrar o problema até depois da próxima eleição. Enquanto isso, os imigrantes continuam chegando e formando famílias cada vez maiores e cada vez mais isoladas do restante da população.

Há dois tipos de países na Europa: os que já admitiram que estão quebrados, como Grécia, Espanha, Itália e Portugal, e os que ainda têm esperanças de achar uma saída, como França, Alemanha, Suécia, Finlândia e vários outros. Salvam-se alguns poucos que devem conseguir escapar da quebradeira, pelo menos por um tempo, como Noruega, pela sua produção de petróleo, e Suíça, com sua moeda forte e governo pequeno.

Previsão: um lento declínio, esperando para saber se a falência completa chegará ou se antes disso os imigrantes terão votos suficientes para eleger os seus políticos e transformar a Europa em um califado islâmico.

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Na Ucrânia, a guerra vai continuar até que os políticos e os fabricantes de armas do ocidente estejam satisfeitos. A posição de Joe Biden repete uma fala do filme “Shrek”: “Nós queremos fortalecer a OTAN e enfraquecer a Rússia. Muitos ucranianos irão morrer, mas esse é um sacrifício que eu estou disposto a fazer”.

A Rússia se enfiou em um atoleiro. Se desistir, perde tudo. As chances de ganhar são mínimas, mas vai permanecer lutando para tentar salvar alguma coisa. Enquanto isso, perdeu o acesso ao comércio internacional e passou a depender da China para vender seu petróleo, que é sua maior fonte de renda.

Previsão: a guerra irá sumir aos poucos dos noticiários e vai acabar também aos poucos, por exaustão de ambos os lados. Ninguém sairá ganhando, exceto, talvez, o Zelenski.

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A China está tranquila, aguardando com paciência chinesa os resultados do seu planejamento de longo prazo. Graças à OTAN e sua guerra, ganhou a Rússia como aliada e está comprando petróleo barato. Tornou-se parceira estratégica de quase todo o mundo – ninguém hoje pode se dar ao luxo de cortar relações com a China. Tem os problemas que toda ditadura tem, mas tem conseguido manter as coisas sob controle. Sua economia tem alguns números preocupantes, mas até agora o governo tem mostrado competência para administrá-los.

Previsão: será a próxima superpotência mundial. Não será nos próximos anos, mas eles não têm pressa.

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E o Brasil? Ora, o Brasil vai continuar sendo o que sempre foi: pobre, improdutivo, inculto, colecionando maus resultados em todos os rankings (o último PISA saiu esse mês: pioramos em relação ao anterior, claro). Continuaremos a ser um conjunto de panelinhas onde cada panelinha só pensa em obter vantagens à custa das outras panelinhas. Continuaremos a acreditar com todas as forças que a culpa é sempre dos outros. Continuaremos a praticar o paradoxo de Garschagen: não confiamos nos políticos mas achamos que o governo é a solução para tudo. E nossa política e nossa economia continuarão em avançado processo de futebolização.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

DOIS DOMINGOS

Em apenas uma semana, a América do Sul assistirá dois eventos que terão enorme influência em seu destino. Hoje, a posse de Javier Milei como presidente da Argentina. No próximo domingo, o Chile realizará um plebiscito para aprovar ou rejeitar o segundo projeto de uma nova constituição.

Os desafios que aguardam o presidente Milei são muitos, e ele certamente precisará mostrar resultados em pouco tempo. Uma parte de seus eleitores não votou por afinidade política ou ideológica, mas simplesmente por vontade de mudar e por rejeição ao governo atual. Esse tipo de eleitor não está disposto a um período de sacrifício em nome da reconstrução do país: ele quer um milagre, e logo.

O maior problema argentino é seu enorme déficit, causado por décadas de estatismo excessivo e uso generalizado do “cabide de emprego”. A fonte básica de recursos para cobrir esse déficit sempre foi a emissão de dinheiro, o que fez a Argentina conviver com crises periódicas de hiper-inflação. Milei precisa achar um caminho político para zerar esse déficit e interromper a emissão de dinheiro, de forma a conseguir uma moeda forte. Esse é o passo mais importante, e o mais difícil. Como ele será realizado (ou não), veremos a partir de amanhã. Em caso de sucesso, será um exemplo gigantesco para o mundo. Em caso de fracasso, será um argumento poderoso para os amantes do governo e inimigos da liberdade.

Nos últimos anos, enquanto a Argentina penava, seu vizinho Chile se meteu em uma novela constitucional. Em outubro de 2020 foi realizado um plebiscito que perguntou ao povo “Deseja uma nova constituição?”. O “sim” obteve 78% dos votos, mas apenas 51% dos eleitores compareceram. Como quem cala consente, no ano seguinte uma eleição escolheu 155 representantes encarregados de escrever a nova constituição. Depois de um ano, surgiu uma proposta com 387 artigos, que pretendia cobrir todos os temas da moda: igualdade de gênero, proteção ao meio ambiente, direitos dos povos indígenas, e naturalmente as promessas de que quase tudo (saúde, educação, moradia, segurança, etc) seria um “direito” fornecido gratuitamente pelo estado – mais especificamente, são enumerados 59 “direitos fundamentais”. Em setembro de 2022, a nova constituição foi rejeitada por 62% dos eleitores.

No início deste ano teve início a segunda tentativa. O congresso nomeou uma comissão de “especialistas” para elaborar um rascunho. Fez-se uma nova eleição para formar uma nova comissão para escrever, com base no tal rascunho, uma nova constituição. Ao contrário da primeira tentativa, onde os eleitores votavam diretamente nos candidatos, sem participação dos partidos, nesta nova eleição o voto era por lista fechada dos partidos. Os partidos de direita conquistaram mais de dois terços das cadeiras e em consequência fizeram tudo do seu jeito. Tendo sido feita por políticos, a nova proposta cria mais de vinte novos órgãos dentro do estado.

No próximo domingo o Chile colocará em plebiscito a nova proposta. As pesquisas indicam que será rejeitada como foi a primeira. Será um grande vexame, mas também poderá ser o começo de uma nova mentalidade. Alguns jornalistas já se atrevem a dizer que “uma parte do povo está começando a achar que mudar a constituição pode não ser o mais importante a fazer para resolver os problemas”. Daí a pensar que possa haver uma constituição que se limite a definir a estrutura do estado, sem ser uma lista de promessas mágicas, é um longo caminho. Mas talvez, porém, contudo, oxalá, quem sabe, a Argentina de Milei possa ser um bom exemplo.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

FANÁTICOS

Eric Hoffer foi um filósofo e escritor, premiado com a Medalha Presidencial da Liberdade. Em 1951 Hoffer publicou seu primeiro livro, “O Verdadeiro Crente: Pensamentos sobre a Natureza dos Movimentos de Massa”, onde analisa a questão do fanatismo. As citações destacadas ao longo do texto são dele.

Segundo Hoffer, os movimentos de massa surgem de um sentimento coletivo de frustração. O desespero ou a revolta levam a ações imediatas, ainda que improdutivas; a frustração, por outro lado, acumula-se aos poucos e faz surgir o fanatismo, que não é uma ação em si, mas uma postura ou uma atitude.

“O fanático não é realmente um defensor de princípios. Ele abraça uma causa não por causa de sua justiça ou santidade, mas por causa de sua necessidade desesperada de algo para se apegar.”

“É surpreendente ver como os oprimidos quase invariavelmente se moldam à imagem de seus odiados opressores.”

“É pela sua promessa de um senso de poder que o mal freqüentemente atrai os fracos.”

Embora o livro tenha foco na Europa durante a primeira metade do século 20, as suas conclusões servem como uma luva ao Brasil de hoje; se há coisa que não falta por aqui são motivos para alguém se sentir frustrado. Nunca fomos um país de grandes catástrofes: nem naturais, como terremotos, vulcões ou furacões, nem humanas, como guerras e revoluções. E mesmo sem catástrofes, paira sempre aquela sensação de derrota, de inferioridade, de problemas não solucionados, de situações que não deveriam existir mas existem. Em outras palavras, frustração.

“As pessoas assombradas pela falta de propósito de suas vidas tentam encontrar um novo conteúdo não apenas dedicando-se a uma causa santa, mas também nutrindo uma queixa fanática. Um movimento de massa oferece oportunidades ilimitadas para ambos.”

“A paixão pela igualdade é, em parte, uma paixão pelo anonimato: ser um fio dos muitos que formam uma túnica; um fio não distinguível dos outros. Ninguém pode nos apontar, nos medir contra os outros e expor nossa inferioridade.”

O irônico aqui é que o fanatismo que nasce do sentimento de frustração se torna rapidamente mais uma causa para ela. Como Hoffer explica, o fanático não deseja resolver nenhum problema; deseja apenas transferir a culpa para os outros e livrar-se das responsabilidades e das escolhas. Quanto mais fanáticos na sociedade, menos espaço existe para solucionar qualquer coisa, porque o fanático prefere viver com o problema do que aceitar uma solução que não seja exatamente a que ele defende.

“Fé em uma causa é em grande parte um substituto para a fé perdida em nós mesmos.”

“É mais fácil amar a humanidade como um todo do que amar o próximo. Algumas das piores tiranias de nossos dias se dizem a serviço da humanidade, mas podem funcionar apenas colocando o vizinho contra o vizinho.”

Os vários tipos de fanatismo tendem a se misturar e a se igualar. A religião, por exemplo, cada vez mais é vista como um buffet, onde cada um se serve apenas do que gosta e ignora o resto. A consequência é que as igrejas se transformam em um clubinho de fanáticos, onde não se cultivam a sabedoria e a virtude, mas apenas os sentimentos básicos do fanatismo. Na política, o debate intelectual dá lugar a uma briga de torcida, onde cada lado cultiva o ódio ao adversário acima de tudo. O resultado é sempre o mesmo: o fanático se vê como parte de um grupo que é superior ao restante da humanidade, e se arroga o direito e a sabedoria para “consertar o mundo”.

“A qualidade das idéias parece desempenhar um papel menor na liderança do movimento de massa. O que conta é o gesto arrogante, a total desconsideração da opinião dos outros, o desafio individual do mundo.”

“Para os frustrados, a liberdade da responsabilidade é mais atraente do que a liberdade da restrição. Eles negociam sua independência para aliviar os fardos da vontade, de decidir e ser responsáveis pelo inevitável fracasso. Eles voluntariamente abdicam do direcionamento de suas vidas para aqueles que querem planejar, comandar e arcar com toda a responsabilidade.”

“É duvidoso que os oprimidos lutem pela liberdade. Eles lutam por orgulho e poder – poder para oprimir os outros. Os oprimidos querem acima de tudo imitar seus opressores; eles querem retaliar.”

Segundo Hoffer, o fanatismo nasce com “homens de palavra”, mas se consolida com “homens de ação”. Explicando: os movimentos de massa nascem a partir da retórica de algum bom orador (às vezes até involuntariamente), mas à medida em que crescem, serão usados por líderes que os usarão como instrumentos de poder. Pode-se dizer que a maior parte da história humana foi escrita por pessoas que souberam colocar as massas a seu serviço na busca pelo poder.

“Ao observar os homens de poder em ação, deve-se ter sempre em mente que, quer eles saibam ou não, seu objetivo principal é a eliminação ou neutralização do indivíduo independente – o eleitor independente, consumidor, trabalhador, proprietário, pensador – e que todo dispositivo que eles empregam tem como objetivo transformar os homens em um instrumento de animação manipulável, que é a definição de Aristóteles para um escravo.”

“O líder personifica a certeza do credo e o desafio e a grandeza do poder. Ele articula e justifica o ressentimento condenado nas almas dos frustrados. Ele acende a visão de um futuro de tirar o fôlego, de modo a justificar o sacrifício de um presente transitório. Ele encena um mundo de faz de conta tão indispensável para a realização do auto-sacrifício e da ação unida.”

“O salvador que quer transformar os homens em anjos é tão inimigo da natureza humana quanto o déspota totalitário que quer transformá-los em marionetes.”

Os elementos fundamentais em qualquer movimento de massa são as certezas absolutas e o inimigo absoluto. Estes elementos tiram dos ombros do fanático o peso de pensar por si mesmo. É muito mais fácil ser adepto de um grupo onde as verdades já estão prontas para serem simplesmente aceitas. É mais fácil odiar alguém do que assumir responsabilidades.

“Todos os movimentos de massa se esforçam para interpor uma tela à prova de fatos entre os fiéis e as realidades do mundo. Eles fazem isso alegando que a verdade absoluta e suprema já está incorporada em sua doutrina e que não há verdade nem certeza fora dela. Os fatos sobre os quais o verdadeiro crente baseia suas conclusões não devem ser derivados de sua experiência ou observação, mas do ato sagrado.”

“O fanático se recusa a acreditar em qualquer notícia desfavorável, e não ficará desiludido ao vê-la com seus próprios olhos. A capacidade do verdadeiro crente de fechar os olhos e tapar os ouvidos aos fatos é a fonte de sua inigualável fortaleza e constância. Ele não se assusta com o perigo, não desanima com obstáculos nem é confundido por contradições, porque nega sua existência.”

“Dê orgulho às pessoas e elas viverão de pão e água, abençoarão seus exploradores e até morrerão por eles.”

“O orgulho nacionalista, como outras variantes de orgulho, pode ser um substituto para o respeito próprio.”

“Os absurdos grosseiros e as verdades sublimes são igualmente potentes em preparar as pessoas para o auto-sacrifício, se forem aceitas como a única e eterna verdade.”

“Movimentos de massa podem se elevar e se espalhar sem um deus, mas nunca sem um demônio.”

“Estamos prontos para morrer por uma opinião, mas não por um fato”

“Há muitos que têm sérios escrúpulos em enganar os outros, mas não se importam em enganar a si mesmos.”

Como combater o fanatismo? Com conhecimento e liberdade. O conhecimento substitui as idéias prontas e o pensamento de manada. A liberdade substitui o medo de pensar por si mesmo e de encarar as consequências das próprias decisões.

“Não pode haver liberdade sem liberdade para errar.”

“A aspiração à liberdade é a mais essencialmente humana de todas as manifestações humanas.”

“Uma minoria dissidente só se sente livre quando pode impor sua vontade à maioria: o que mais abomina é a dissensão da maioria.”

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

HERÓIS, MÁRTIRES E MITOS

Todo povo tem os seus heróis. Heróis de guerra, heróis mitológicos, heróis políticos, o tipo varia. O Brasil não parece gostar de heróis vencedores: prefere os heróis derrotados, os mártires, e gosta dos mitos, em que a fantasia é mais relevante que a realidade.

O herói maior das aulas de Educação Moral e Cívica é Tiradentes, participante (e suposto líder, segundo alguns) de um movimento que acabou antes de começar e sobre o qual não sabemos quase nada, a Inconfidência Mineira. A ausência de documentos e de fontes é útil, permite construir o mito da forma mais conveniente. Na vida real, historiadores parecem concordar que Joaquim José da Silva Xavier era um mero participante entusiasmado da Inconfidência. Quando a monarquia foi substituída pela república, em 1889, Tiradentes era um bom candidato à mártir, e assim foi construído um personagem, que incluía pinturas em que Tiradentes aparece como um sósia de Jesus, de barba longa e túnica branca.

Um segundo mito, quase do mesmo escalão, é Zumbi dos Palmares. Como no caso de Tiradentes, não há nenhum documento confiável sobre ele. Sua história é um conjunto de lendas que se tornaram “fato” após aparecerem em ensaios acadêmicos e livros de escritores importantes. Essa história condensa praticamente todos os clichês que costumam acompanhar os mitos: a origem nobre (Zumbi e seu tio Ganga Zumba seriam descendentes do rei do Congo), a superioridade precoce (Aos vinte anos Zumbi era reconhecido como grande comandante e estrategista militar, além de ser “muito forte” e “excelente guerreiro”), os ideais puros e incorruptíveis (teria assassinado seu tio Ganga Zumba que defendia uma política “pragmática” com Portugal). A história de Zumbi tem um traidor (Antônio Soares), assim como Tiradentes, e um final heróico, resistindo até a morte contra forças muito superiores (as tropas comandadas por Domingos Jorge Velho e Bernardo Vieira de Melo).

Pode-se ter uma boa visão do conceito brasileiro de “herói” na lista oficial: o “Livro de Aço dos Heróis e Heroínas da Pátria”, mantido no Panteão Tancredo Neves em Brasília. Nos primeiros nomes, destacam-se dois tipos: Em primeiro lugar, os políticos, que na visão deles mesmos são sempre merecedores de honrarias. Em segundo, os mártires, aquelas personalidades muito conhecidas mas que pouca gente sabe explicar por quê, exceto pelo fato de terem morrido ou, de preferência, terem sido assassinados. Fazendo companhia a estes, algumas celebridades aleatórias. O livro se inicia justamente com Tiradentes, seguindo com o Marechal Deodoro da Fonseca, Zumbi dos Palmares e D. Pedro I. A lei diz que uma pessoa só pode ser homenageada dez anos após a sua morte, mas nossos deputados ignoram isso e adiantam as indicações: Pelé e Olavo de Carvalho já têm seus nomes tramitando pela burocracia do congresso. Nos nomes já inscritos, existem 15 políticos, 5 militares da Guerra do Paraguai e ao menos 25 mártires, pessoas “famosas por terem morrido”, se me perdoam o cinismo.

Aliás, quem buscar alguma lógica ou coerência no tal livro vai se decepcionar. D. Pedro II está lá, herói da pátria. Deodoro da Fonseca, que liderou um golpe militar que depôs e expulsou do país este herói da pátria? É herói da pátria também. Frei Caneca, executado por liderar a Confederação do Equador? Herói da pátria. D. Pedro I, que mandou executá-lo? Herói da pátria também. Anita Garibaldi, que participou de uma guerra que buscava a independência de uma parte do país? Heroína da Pátria. Duque de Caxias, que lutou do lado oposto? Herói da Pátria também. Para alguém ser herói no Brasil não importa o que fez, o que pensava ou o que defendia: basta ser uma “celebridade” conhecida ou político influente, ou ter carteirinha de “vítima”.

Outra característica forte do “heroísmo” brasileiro é o antagonismo: um bom herói deve ter um bom inimigo. Assim como Tiradentes teve seu Joaquim Silvério dos Reis e Zumbi teve seu Antônio Soares, é difícil achar um fã de Ayrton Senna que não se empolgue ao xingar Nelson Piquet.

Um dos casos mais típicos desse raciocínio envolve Santos Dumont (inscrito no Livro de Aço desde 2006): praticamente todo brasileiro o considera um herói, um gênio, um grande vulto da humanidade. Mas pouquíssimos são capazes de dizer mais de duas sentenças sobre ele sem desviar o assunto para os irmãos Wright e recitar as três ou quatro frases-feitas contra eles que se repetem milhares de vezes pela internet brasileira. Santos Dumont como tema de redação no ENEM seria reprovação certa para quase todos, porque as suas realizações (e são muitas) são ignoradas pela mídia, pelo povo e até mesmo pelas escolas. O que entusiasma, o que inflama o ego do brasileiro é enaltecer o pobre Alberto apenas por aquilo que ele não fez: ser o primeiro a voar em um aparelho mais pesado do que o ar.

Existem casos internacionais, que são aceitos com entusiasmo pelos brasileiros. É o caso de Nikola Tesla, um cientista que combinava erudição e excentricidade em grandes doses. Após uma juventude produtiva, Tesla morreu na miséria depois de passar várias décadas envolvido em idéias cada vez mais confusas e impraticáveis. Após anos de quase esquecimento, foi redescoberto recentemente, mas não por suas boas idéias: Tesla foi declarado “mártir” em oposição a Thomas Edison, empresário e inventor que, a despeito de suas grandes contribuições para a ciência, foi declarado “do mal”. Edison teria “explorado” ou “roubado as idéias” de Tesla, que por isso foi alçado à categoria de herói. É uma tarefa dificílima encontrar um brasileiro que saiba citar corretamente uma só descoberta de Tesla, mas é fácil encontrar quem se refira a ele como o gênio que inventou a roda, descobriu o fogo e colocou anéis em Saturno.

Para uma visão completa desse apego dos brasileiros aos mártires e aos mitos, faltaria observar como isso se reflete na política, mas nessa areia movediça eu não vou pisar. Encerro por aqui.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

DOLARIZAÇÃO

Já escrevi sobre o assunto antes, mas com a eleição na Argentina a questão ganhou visibilidade. Vamos destrinchar o assunto um pouquinho.

O que é dolarização?

É quando um país deixa de ter moeda própria e adota o dólar como moeda legal. Atualmente 11 países do mundo, além dos EUA, usam o dólar como moeda. Na América Latina, temos os exemplos do Equador, Panamá e El Salvador. Vale também lembrar que os países da União Européia também não têm controle direto sobre o Euro, que é emitido pelo Banco Central Europeu.

Qual a vantagem da dolarização?

Gastar mais do que têm é algo que está no DNA de todo político. Para cobrir a diferença, existem três saídas: aumento de impostos, empréstimos ou inflação. A inflação é a mais perversa e ao mesmo tempo a mais fácil de implementar. A grande vantagem da dolarização é justamente tirar esse recurso das mãos dos políticos.

Quando o povo percebe as vantagens de uma moeda estável, fica muito difícil para os políticos voltarem atrás. O Brasil levou vinte anos para se recuperar das políticas inflacionárias do “milagre brasileiro” dos anos 70, e lá para cá nenhum governo se arriscou a repetir a dose, contentando-se com uma inflação “controlada”.

O Equador, que é um país pequeno e de economia relativamente fraca, atravessou o governo populista de Correa (aliado de Hugo Chávez), a crise global de 2008, o terremoto de 2016 e a pandemia de 2020-2022, e nenhum governo mostrou coragem para substituir o dólar por uma moeda própria. O Equador sofreu muito menos que seus vizinhos sul-americanos na crise de 2008 e na pandemia.

Qual a diferença entre dolarização e conversibilidade?

O sistema de conversibilidade consiste em criar uma moeda que tem um valor fixo em relação a outra moeda (ou metal precioso). Era o sistema mais comum no século 19, quando era chamado “padrão-ouro”. Para implantar o sistema, o país cria uma entidade independente do governo e transfere a ela as reservas que formarão o “lastro” da moeda, que pode ser dólar, euro ou ouro. Essa entidade, a “caixa de conversão”, é responsável por emitir as notas na moeda do país, e têm a obrigação de trocá-las pela moeda-lastro para qualquer pessoa que deseje. Como a moeda não é fabricada pelo governo, este perde o poder de inflacionar a moeda – ao menos teoricamente.

A principal vantagem é logística, já que na dolarização é necessário obter as notas (e trocar as desgastadas) com o país emissor, o que pode ser complicado para países grandes. A medida também pode ser mais agradável para o eleitorado nacionalista que se preocupa com “soberania” e “independência”.

A maior desvantagem é que a caixa de conversão sempre estará vulnerável a ações políticas, como aconteceu na Argentina nos anos Menem. E depois que o governo perde a confiança da população, pode levar décadas para recuperar.

Não é ruim o governo não ter o controle da política monetária?

Tanto Argentina quanto Brasil são excelentes exemplos do perigo que é o governo ter o controle da política monetária. Na prática, o que o governo chama de “política monetária” é simplesmente alternar entre inflacionar muito e inflacionar pouco, mas inflacionar sempre.

Qual a melhor opção para a Argentina?

A Argentina tentou o regime de conversibilidade nos anos 90 mas o governo não cumpriu a promessa e emitiu moeda sem lastro. Desde então, os argentinos se acostumaram a guardar dólares em casa e dificilmente irão acreditar em uma promessa semelhante. Em resumo, só a dolarização direta é viável para a Argentina, hoje.

E para o Brasil?

O Brasil nunca experimentou câmbio fixo, e portanto não têm a “desconfiança” que os argentinos têm. Isso facilita o uso da caixa de conversão. Vale lembrar que a base monetária do Brasil hoje, de 400 bilhões de reais (equivalentes a 80 bilhões de dólares), é quatro vezes maior que a argentina. Obter estes 80 bilhões em cédulas de dólar não é simples do ponto de vista operacional.

A moeda dos BRICS pode tornar a dolarização inviável?

Pelo contrário. A hegemonia do dólar hoje permite que os EUA inflacionem o dólar e “exportem” essa inflação para o mundo. Se a China (que é quem manda nos BRICS) conseguir criar uma moeda que faça concorrência ao dólar nas transações internacionais, isso vai obrigar os EUA a adotar uma política mais cautelosa, o que acaba sendo positivo para os países dolarizados.

Vai acontecer?

Eu não arrisco palpite nas eleições argentinas. Mesmo se Milei ganhar, não terá vida fácil para implantar suas idéias, dolarização incluída. É mais provável que ao invés disso o que venha a acontecer seja a extinção do dinheiro físico e a completa digitalização financeira, sonho dos políticos e dos bancos centrais – e pesadelo nosso.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

ESSE LOUCO MUNDO EM QUE VIVEMOS

A maioria das pessoas já deve ter percebido que o mundo em que vivemos está louco. Na maioria do tempo, tenta-se disfarçar, fazer de conta que tudo continua como antes. De vez em quando, um acontecimento prova que há algo de errado. Quando acontece, é bom vermos logo, porque as provas costumam “sumir” de uma hora para outra.

No dia 22 de setembro, o parlamento do Canadá, com a presença do primeiro-ministro Trudeau e de diversas autoridades estrangeiras, incluindo o presidente da Ucrânia Volodymyr Zelensky e o embaixador da Alemanha, realizou uma homenagem a Yaroslav Hunka. Assista no vídeo abaixo:

Yaroslav, hoje com 98 anos, é um ucraniano que emigrou para o Canadá nos anos 50. Sabe-se que no mundo de hoje, ser ucraniano é motivo suficiente para receber homenagens, inclusive com a presença do festejado arroz-de-festa Zelensky.

Só há um pequeno “problema” nessa história: Yaroslav foi membro da SS durante a 2ª guerra. SS, para quem não sabe, é a sigla de Schutzstaffel, uma organização militar (ou paramilitar, segundo alguns) ligada ao partido nazista. Yaroslav se alistou como voluntário na 14ª divisão da Waffen-SS em 1943.

Se tivesse acontecido em um país que não faz parte da turminha, os céus desabariam e soariam as trombetas do apocalipse. Sendo o Canadá, tudo foi rapidamente empurrado para baixo do tapete, com as desculpas mais bizarras. Quem quiser uma descrição mais completa do vexame e das bobagens ditas pelos envolvidos, pode consultar este artigo de C.J.Hopkins clicando aqui.

De minha parte, destaco um tema que não está sendo debatido mas que sempre me interessou. Yaroslav nasceu em 1925 na cidade de Urman, em uma região conhecida como Halychyna ou Galícia Oriental. Urman fez parte do império austríaco até 1918, quando passou a pertencer à Polônia. Ou seja, quando Yaroslav nasceu em uma cidade que nunca havia sido Ucrânia, e que só viria a sê-lo em 1945 quando a 2ª Guerra terminou. Cito tudo isso porque após o “incidente” surgiram muitas explicações falando em “motivações patrióticas” e que os membros da 14ª divisão da SS não eram nazistas, eram apenas patriotas que queriam libertar sua pátria.

Mas que pátria? A terra onde Yaroslav nasceu era parte da Polônia há meros 7 anos, depois de ser parte do império austríaco por mais de um século. A Ucrânia da época ficava centenas de quilômetros à leste de sua cidade natal. Será que funciona como na ideologia de gênero? Ele nasceu na Polônia mas se identificava como ucraniano?

Arrisco um palpite: o que muitos chamam de “amar a sua terra” é apenas um pretexto para amar algum político ou algum partido da sua terra ou de alguma terra próxima.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

DISCRIMINAÇÃO

Considere as seguintes afirmações:

– Uma empresa tem o direito de contratar os funcionários que quiser.
– Uma empresa tem o direito de contratar os funcionários que quiser, desde que sejam negros.
– Uma empresa tem o direito de contratar os funcionários que quiser, desde que sejam brancos.
– Uma empresa tem o direito de contratar os funcionários que quiser, desde que não sejam gays.
– Uma empresa tem o direito de contratar os funcionários que quiser, desde que sejam gays.

Quem concorda com todas as afirmações acima, pensa como eu: somos a favor da liberdade de discriminar. Sim, porque “discriminar”, segundo o Aurélio, significa “distinguir, discernir, separar”, e “discriminação”, segundo o enorme dicionário do Prof. Dr. Francisco da Silveira Bueno, significa “discernimento”. E discernimento, ou discriminação, é o que separa o ser humano dos animais irracionais, que são desprovidos de vontade própria e agem apenas segundo seus instintos. Nós, humanos, temos a capacidade de decidir se gostamos de carne ou de peixe, de maçã ou de banana, de bolero ou de samba, de praia ou de piscina. E temos a capacidade de formar opinião sobre tudo que nos rodeia, incluindo outras pessoas. Não somos obrigados a gostar ou a não gostar de alguém, temos a liberdade de formar nossa opinião.

Um emprego é um contrato de trabalho, e o direito ensina que contrato é “um acordo voluntário entre duas partes”. Um acordo voluntário significa que existe liberdade para definir os critérios que serão usados para avaliar a conveniência ou não do acordo – e estes critérios podem ser objetivos ou subjetivos. Nesta ótica, as quatro últimas frases são desnecessárias e redundantes: a primeira já diz tudo. Claro que também vale para o outro lado, uma pessoa também tem o direito de escolher com quem vai ou não firmar um contrato de trabalho, e tem o direito de usar os critérios que bem entender para isso.

Quem não concorda com nenhuma das frases acima, tem opiniões diferentes da minha sobre liberdade.

Agora, naquelas pessoas que concordam com algumas das afirmações e discordam de outras é que mora o problema. Sim, porque, sendo todas elas uma consequência lógica do conceito de liberdade, aceitar só algumas implica em dizer que existem liberdades certas e liberdades erradas. Ou de outra forma, implica em negar o direito de cada um estabelecer seus critérios, e definir que deve existir um critério único para todos. Isso é muito perigoso.

Todas as pessoas que acreditam que existem verdades absolutas também acreditam que esta verdade absoluta é a dela. Nunca vi alguém dizer “eu creio que existe uma maneira incontestavelmente certa de pensar, mas não é a minha”. Essas pessoas que acreditam conhecer a verdade absoluta geralmente são completamente incapazes de aceitar a idéia de que podem não estar tão certos assim, ou mesmo que para outras pessoas e outras situações a verdade possa ser diferente.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

PORQUE SOU LIBERTÁRIO

Machado de Assis disse certa vez em uma crônica: “Acredito na liberdade, então sou liberal. Também acredito que essa liberdade deve ser conservada, então sou conservador.” Naturalmente era uma piada, um jogo de palavras. Na época de Machado, os políticos brasileiros se dividiam entre o Partido Conservador e o Partido Liberal. Proclamar-se um “liberal conservador” seria o mesmo que um norte-americano de hoje dizer-se “republicano democrata” ou “democrata republicano”.

Mas a brincadeira de Machado de Assis aponta para um problema que já causou muita discussão: a prática de tomar um adjetivo genérico e transformá-lo no nome de um grupo, movimento ou mesmo de um partido político. Nesse processo, geralmente o tal grupo se atribui a exclusividade da virtude relacionada ao adjetivo e rotula todos os seus adversários como inimigos dessa virtude. Ou seja, um grupo adota o nome “Liberal” (com maiúscula porque é nome próprio) e a partir daí declara que todos os demais são “anti-liberais” e portanto contra a liberdade.

Isso é obviamente uma falácia, uma distorção intencional. O progressista proclama que quer o progresso, e o conservador proclama que quer conservar o que há de bom. Mas e se eu discordar do conceito de progresso do progressista ou do critério do conservador sobre o que deve ser conservado? Como Machado de Assis, eu posso ser a favor da liberdade sem ser filiado ao Partido Liberal, e posso ser a favor de conservar a liberdade sem ser membro do Partido Conservador.

Nem é preciso dizer que tudo fica ainda mais complicado com os termos “esquerda” e “direita”. São palavras que não definem nada e são usadas baseando-se na divisão da Convenção Nacional que governou a França no final do século 18. Era uma realidade totalmente diferente com problemas totalmente diferentes, e as diferenças ideológicas entre girondinos e jacobinos não significam nada na política de hoje. Assim, “direita” e “esquerda” se tornaram simples nomes de grupos opostos, cada um acreditando ter o monopólio da virtude.

Uma “expansão” desse conceito, defendida por muita gente, identifica cinco grupos, que seriam centro, direita, esquerda, extrema-direita e extrema-esquerda, com a esquerda dizendo que não tem nenhuma relação com a extrema-esquerda e a direita dizendo o mesmo em relação à extrema-direita. Também é inútil porque a definição destes grupos não se baseia em fatos, mas em opiniões – opiniões estas emitidas por quem não tem a menor intenção de ser imparcial.

Nesta confusão de auto-elogios, uma das poucas coisas que permanecem claras é o conceito de liberdade individual, e o critério básico para classificar ideologias e correntes políticas é a postura em relação a ela. Segundo o dicionário inglês Oxford, “o liberalismo defende que os objetivos da política devem ser a preservação dos direitos individuais e a maximização da liberdade de escolha”. Infelizmente o termo “liberalismo” ou “liberal” foi tão abusado que tornou-se praticamente inútil para definir alguma coisa. No passado, nomes como John Locke, Adam Smith, James Madison e Montesquieu criaram uma sólida base filosófica para o liberalismo; hoje em dia, porém, o termo foi totalmente deturpado.

Na Europa, políticos de várias inclinações falam em “liberalismo” sem mostrar muita consideração pelos seus princípios. Quando querem falar mal uns dos outros, usam o termo “neo-liberal” que foi inventado como xingamento e não quer dizer nada de concreto. Nos EUA, o termo “liberal” é usado pela esquerda e considerado pejorativo pela direita. No Brasil, ao contrário, a esquerda nutre ódio por tudo que lembre a palavra “liberal”, enquanto a direita a usa com uma intimidade forçada (lê-se com frequência a expressão “nós conservadores e liberais”).

Por causa disso, os verdadeiros defensores dos ideais liberais acabaram por abdicar do termo, substituindo-o por “libertário” e “libertarianismo”. Não são palavras bonitas, com certeza, mas foi o que se pôde conseguir.

Para explicar melhor como as principais correntes se posicionam, vou usar as palavras de Friedrich Hayek, economista ganhador do prêmio Nobel, em sua obra “A Constituição da Liberdade” de 1960 (e que permanece extremamente atual):

“Habitualmente, representam-se as posições diferentes numa linha imaginária, com os socialistas à esquerda, os conservadores à direita e os liberais mais ou menos ao centro. Nada mais errôneo. Se utilizássemos um diagrama, a figura mais apropriada seria a de um triângulo, com os conservadores ocupando um ângulo, os socialistas o segundo e os liberais o terceiro. Contudo, como os socialistas há muito tempo exercem maior pressão, o que ocorreu foi que os conservadores tenderam a ser arrastados pelo pólo socialista mais que pelo pólo liberal.”

Ou seja, o triângulo não é equilátero. Esquerda e direita se aproximam, enquanto os liberais mantém-se afastados de ambos. Continuando com Hayek:

“Penso que o atributo mais marcante do liberalismo, que o distingue tanto do conservadorismo quanto do socialismo, é a idéia de que convicções morais quanto a questões de conduta não justificam a coerção dos demais.”

“Como o socialista, o conservador preocupa-se pouco em manter limitados os poderes do governo, e preocupa-se muito sobre quem irá exercê-los; e, como o socialista, também se acha no direito de impor às outras pessoas os valores nos quais acredita.”

A esquerda socialista/progressista nunca teve nada em comum com os liberais. Nos EUA, os seguidores do Partido Democrata falam em liberdade mas esta liberdade não significa que alguém possa escolher o que comer, que roupa vestir, que marcas comprar e que tipo de lâmpada usar em sua casa. A liberdade deles é a liberdade de seguir o politicamente correto e fazer aquilo que se difunde como sendo “bom para a sociedade”.

O conservadorismo como movimento político organizado surgiu na Inglaterra com o nome de Tory, tendo Edmund Burke e David Hume entre seus nomes mais significativos. O partido Tory surgiu como oposição ao Whig, que era o partido dos liberais. Ao longo da história, conservadores e liberais quase sempre foram partidos opostos, com os liberais defendendo a supremacia do indivíduo sobre o estado e os conservadores defendendo um estado forte que se oponha à pluralidade de idéias e de opiniões.

De forma resumida, pode-se dizer que a esquerda progressista e a direita conservadora de hoje estão do lado oposto ao dos liberais/libertários porque compartilham uma idéia que foi mostrada pelo filósofo Baruch Espinoza no século 17:

“Todo homem almeja conseguir que todos sejam obrigados a gostar do que ele gosta, e proibidos de gostar do que ele não gosta.”

Dizem que uma vez um homem pediu ao rabino Hillel, um sábio da época de Cristo, que lhe explicasse a Torah de forma rápida. Hillel respondeu: “Não faça aos outros o que você não gostaria que fizessem a você. Esta é a lei, o resto é comentário.”

Isso para mim resolve tudo: Eu não quero impôr minhas idéias ou preferências aos outros porque não gostaria que fizessem o mesmo comigo. Eu não quero determinar como os outros devem viver suas vidas, porque não gostaria que o fizessem comigo. E, com certeza, não quero calar ninguém porque não gostaria de ser calado. Por isso me considero libertário.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

TEXTOS ALHEIOS – A REALIDADE NA UCRÂNIA

No ano passado, a Ucrânia foi o “assunto do momento” por alguns meses. Quando as coisas começaram a não acontecer do jeito que a midia dizia que ia acontecer, o assunto foi jogado para baixo do tapete. Mas a guerra continua, porque esse danado do bicho-homem que se acha o animal mais inteligente de todos não sabe viver sem guerra. Vamos ver como estão as coisas por lá:

* * *

A realidade na Ucrânia – Por Chuck Baldwin

Aqui está a realidade na Ucrânia: a guerra é um desastre completo, e os neocons americanos que começaram e prolongaram esta guerra para seus próprios propósitos egoístas (do mesmo modo que eles começam todas as guerras dos EUA para seus próprios propósitos egoístas) destruíram ainda outro país e mostraram-se (para quem está prestando atenção) sedentos por sangue, ambições tirânicas e corações sem alma.

Fontes da Ucrânia (não da Rússia), têm alertado que o país está à beira do colapso. Não há absolutamente nenhuma maneira de a Ucrânia ganhar alguma coisa. É por isso que Zelensky está tão desesperado para arrastar a OTAN para a guerra; ele sabe que eles não podem retomar o Donbass nem derrotar a Rússia. Os neoconservadores americanos esperavam enfraquecer a Rússia para que pudessem arquitetar algum esquema para justificar o ataque.

Há rumores por trás da cortina agora que um acordo de paz deve ser fechado ou a Ucrânia entrará em colapso, se suas próprias tropas não se rebelarem e assassinarem Zelensky por sua especulação e massacre de seu próprio povo.

O Wall Street Journal em 23 de julho escreveu: “Oficiais militares ocidentais sabiam que Kiev não tinha todo o treinamento ou armas – de projéteis a aviões de guerra – necessários para desalojar as forças russas. Mas eles esperavam que a coragem e a desenvoltura ucranianas levassem a melhor”.

O fato de isso ter aparecido na imprensa mostra que há descontentamento por trás da cortina. Tudo o que ouvimos até agora são mentiras sobre como a Rússia é fraca e perdedora. Isso é precisamente o oposto da verdade e isso é informação vinda da Ucrânia – NÃO da Rússia. Zelensky manteve uma falsa imagem de vitória apenas para manter o dinheiro fluindo para a Ucrânia. A população da Ucrânia era de cerca de 36 milhões antes da guerra. Pelo menos 500.000 estão mortos e o número real de ucranianos que fugiram de suas casas pode agora ultrapassar 10 milhões. Zelensky destruiu seu país por causa do Donbass, que nunca foi território ucraniano nem ocupado por ucranianos.

A tentativa de Zelensky de fazer a OTAN iniciar outra guerra europeia pela Ucrânia sempre foi pura fantasia. A verdade é: a OTAN é uma casca vazia. A única razão pela qual ainda existe é fornecer uma plataforma para os Estados Unidos travarem suas guerras por procuração na Europa. Sem a ajuda dos dólares dos contribuintes americanos e do equipamento e munições militares dos EUA, a OTAN desapareceria – e é exatamente isso o que deveria acontecer.

Um pequeno punhado de republicanos no Congresso está lutando bravamente para retirar o financiamento dos EUA à guerra na Ucrânia. Eles estão lutando uma batalha perdida, no entanto (pelo menos agora), porque a grande maioria dos republicanos é controlada pelos neoconservadores sedentos de guerra – ou devo dizer famintos por dinheiro, porque nada fornece mais riquezas aos incitadores de guerras do que, bem, a guerra.

E aqueles nos EUA que pensam que a guerra na Ucrânia está prejudicando Moscou, eles também estão vivendo em um mundo de fantasia. A economia russa cresceu desde que os EUA se enfiaram neste conflito. O rublo atingiu seu nível mais forte em sete anos em 2022, e os parceiros comerciais da Rússia se multiplicaram exponencialmente, assim como suas alianças políticas.

Eu sei que a propaganda da mídia ocidental não vai te dizer isso, mas o fato é que a maioria das nações do mundo apoia a Rússia no conflito ucraniano. O envolvimento dos Estados Unidos na guerra na Ucrânia levou milhões de pessoas e dezenas de países à órbita de influência da Rússia.

A Ucrânia é outro exemplo trágico do que acontece com os países quando eles tolamente permitem que egocêntricos e loucos pelo poder assumam o controle de uma nação. Com o tempo, todos esses líderes, se permanecerem no poder, transformarão seus próprios países em desastres completos – ao custo de um número incontável de mortes de seus próprios cidadãos.

É exatamente onde a Ucrânia se encontra hoje.

Lembre-se, também, que tudo isso foi facilitado (e planejado) pelos incitadores de guerras neocons / neoprogressistas em Washington, DC

Sem mencionar que Joe Biden está obcecado em garantir que a guerra na Ucrânia não acabe, porque ele provavelmente sabe que Zelensky tem segredos escondidos contra os Bidens que Joe não pode deixar serem revelados.

“Desastre completo” não se aplica apenas à Ucrânia, mas também à presidência de Joe Biden.