MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

Machado de Assis disse certa vez em uma crônica: “Acredito na liberdade, então sou liberal. Também acredito que essa liberdade deve ser conservada, então sou conservador.” Naturalmente era uma piada, um jogo de palavras. Na época de Machado, os políticos brasileiros se dividiam entre o Partido Conservador e o Partido Liberal. Proclamar-se um “liberal conservador” seria o mesmo que um norte-americano de hoje dizer-se “republicano democrata” ou “democrata republicano”.

Mas a brincadeira de Machado de Assis aponta para um problema que já causou muita discussão: a prática de tomar um adjetivo genérico e transformá-lo no nome de um grupo, movimento ou mesmo de um partido político. Nesse processo, geralmente o tal grupo se atribui a exclusividade da virtude relacionada ao adjetivo e rotula todos os seus adversários como inimigos dessa virtude. Ou seja, um grupo adota o nome “Liberal” (com maiúscula porque é nome próprio) e a partir daí declara que todos os demais são “anti-liberais” e portanto contra a liberdade.

Isso é obviamente uma falácia, uma distorção intencional. O progressista proclama que quer o progresso, e o conservador proclama que quer conservar o que há de bom. Mas e se eu discordar do conceito de progresso do progressista ou do critério do conservador sobre o que deve ser conservado? Como Machado de Assis, eu posso ser a favor da liberdade sem ser filiado ao Partido Liberal, e posso ser a favor de conservar a liberdade sem ser membro do Partido Conservador.

Nem é preciso dizer que tudo fica ainda mais complicado com os termos “esquerda” e “direita”. São palavras que não definem nada e são usadas baseando-se na divisão da Convenção Nacional que governou a França no final do século 18. Era uma realidade totalmente diferente com problemas totalmente diferentes, e as diferenças ideológicas entre girondinos e jacobinos não significam nada na política de hoje. Assim, “direita” e “esquerda” se tornaram simples nomes de grupos opostos, cada um acreditando ter o monopólio da virtude.

Uma “expansão” desse conceito, defendida por muita gente, identifica cinco grupos, que seriam centro, direita, esquerda, extrema-direita e extrema-esquerda, com a esquerda dizendo que não tem nenhuma relação com a extrema-esquerda e a direita dizendo o mesmo em relação à extrema-direita. Também é inútil porque a definição destes grupos não se baseia em fatos, mas em opiniões – opiniões estas emitidas por quem não tem a menor intenção de ser imparcial.

Nesta confusão de auto-elogios, uma das poucas coisas que permanecem claras é o conceito de liberdade individual, e o critério básico para classificar ideologias e correntes políticas é a postura em relação a ela. Segundo o dicionário inglês Oxford, “o liberalismo defende que os objetivos da política devem ser a preservação dos direitos individuais e a maximização da liberdade de escolha”. Infelizmente o termo “liberalismo” ou “liberal” foi tão abusado que tornou-se praticamente inútil para definir alguma coisa. No passado, nomes como John Locke, Adam Smith, James Madison e Montesquieu criaram uma sólida base filosófica para o liberalismo; hoje em dia, porém, o termo foi totalmente deturpado.

Na Europa, políticos de várias inclinações falam em “liberalismo” sem mostrar muita consideração pelos seus princípios. Quando querem falar mal uns dos outros, usam o termo “neo-liberal” que foi inventado como xingamento e não quer dizer nada de concreto. Nos EUA, o termo “liberal” é usado pela esquerda e considerado pejorativo pela direita. No Brasil, ao contrário, a esquerda nutre ódio por tudo que lembre a palavra “liberal”, enquanto a direita a usa com uma intimidade forçada (lê-se com frequência a expressão “nós conservadores e liberais”).

Por causa disso, os verdadeiros defensores dos ideais liberais acabaram por abdicar do termo, substituindo-o por “libertário” e “libertarianismo”. Não são palavras bonitas, com certeza, mas foi o que se pôde conseguir.

Para explicar melhor como as principais correntes se posicionam, vou usar as palavras de Friedrich Hayek, economista ganhador do prêmio Nobel, em sua obra “A Constituição da Liberdade” de 1960 (e que permanece extremamente atual):

“Habitualmente, representam-se as posições diferentes numa linha imaginária, com os socialistas à esquerda, os conservadores à direita e os liberais mais ou menos ao centro. Nada mais errôneo. Se utilizássemos um diagrama, a figura mais apropriada seria a de um triângulo, com os conservadores ocupando um ângulo, os socialistas o segundo e os liberais o terceiro. Contudo, como os socialistas há muito tempo exercem maior pressão, o que ocorreu foi que os conservadores tenderam a ser arrastados pelo pólo socialista mais que pelo pólo liberal.”

Ou seja, o triângulo não é equilátero. Esquerda e direita se aproximam, enquanto os liberais mantém-se afastados de ambos. Continuando com Hayek:

“Penso que o atributo mais marcante do liberalismo, que o distingue tanto do conservadorismo quanto do socialismo, é a idéia de que convicções morais quanto a questões de conduta não justificam a coerção dos demais.”

“Como o socialista, o conservador preocupa-se pouco em manter limitados os poderes do governo, e preocupa-se muito sobre quem irá exercê-los; e, como o socialista, também se acha no direito de impor às outras pessoas os valores nos quais acredita.”

A esquerda socialista/progressista nunca teve nada em comum com os liberais. Nos EUA, os seguidores do Partido Democrata falam em liberdade mas esta liberdade não significa que alguém possa escolher o que comer, que roupa vestir, que marcas comprar e que tipo de lâmpada usar em sua casa. A liberdade deles é a liberdade de seguir o politicamente correto e fazer aquilo que se difunde como sendo “bom para a sociedade”.

O conservadorismo como movimento político organizado surgiu na Inglaterra com o nome de Tory, tendo Edmund Burke e David Hume entre seus nomes mais significativos. O partido Tory surgiu como oposição ao Whig, que era o partido dos liberais. Ao longo da história, conservadores e liberais quase sempre foram partidos opostos, com os liberais defendendo a supremacia do indivíduo sobre o estado e os conservadores defendendo um estado forte que se oponha à pluralidade de idéias e de opiniões.

De forma resumida, pode-se dizer que a esquerda progressista e a direita conservadora de hoje estão do lado oposto ao dos liberais/libertários porque compartilham uma idéia que foi mostrada pelo filósofo Baruch Espinoza no século 17:

“Todo homem almeja conseguir que todos sejam obrigados a gostar do que ele gosta, e proibidos de gostar do que ele não gosta.”

Dizem que uma vez um homem pediu ao rabino Hillel, um sábio da época de Cristo, que lhe explicasse a Torah de forma rápida. Hillel respondeu: “Não faça aos outros o que você não gostaria que fizessem a você. Esta é a lei, o resto é comentário.”

Isso para mim resolve tudo: Eu não quero impôr minhas idéias ou preferências aos outros porque não gostaria que fizessem o mesmo comigo. Eu não quero determinar como os outros devem viver suas vidas, porque não gostaria que o fizessem comigo. E, com certeza, não quero calar ninguém porque não gostaria de ser calado. Por isso me considero libertário.

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