MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

Considere as seguintes afirmações:

– Uma empresa tem o direito de contratar os funcionários que quiser.
– Uma empresa tem o direito de contratar os funcionários que quiser, desde que sejam negros.
– Uma empresa tem o direito de contratar os funcionários que quiser, desde que sejam brancos.
– Uma empresa tem o direito de contratar os funcionários que quiser, desde que não sejam gays.
– Uma empresa tem o direito de contratar os funcionários que quiser, desde que sejam gays.

Quem concorda com todas as afirmações acima, pensa como eu: somos a favor da liberdade de discriminar. Sim, porque “discriminar”, segundo o Aurélio, significa “distinguir, discernir, separar”, e “discriminação”, segundo o enorme dicionário do Prof. Dr. Francisco da Silveira Bueno, significa “discernimento”. E discernimento, ou discriminação, é o que separa o ser humano dos animais irracionais, que são desprovidos de vontade própria e agem apenas segundo seus instintos. Nós, humanos, temos a capacidade de decidir se gostamos de carne ou de peixe, de maçã ou de banana, de bolero ou de samba, de praia ou de piscina. E temos a capacidade de formar opinião sobre tudo que nos rodeia, incluindo outras pessoas. Não somos obrigados a gostar ou a não gostar de alguém, temos a liberdade de formar nossa opinião.

Um emprego é um contrato de trabalho, e o direito ensina que contrato é “um acordo voluntário entre duas partes”. Um acordo voluntário significa que existe liberdade para definir os critérios que serão usados para avaliar a conveniência ou não do acordo – e estes critérios podem ser objetivos ou subjetivos. Nesta ótica, as quatro últimas frases são desnecessárias e redundantes: a primeira já diz tudo. Claro que também vale para o outro lado, uma pessoa também tem o direito de escolher com quem vai ou não firmar um contrato de trabalho, e tem o direito de usar os critérios que bem entender para isso.

Quem não concorda com nenhuma das frases acima, tem opiniões diferentes da minha sobre liberdade.

Agora, naquelas pessoas que concordam com algumas das afirmações e discordam de outras é que mora o problema. Sim, porque, sendo todas elas uma consequência lógica do conceito de liberdade, aceitar só algumas implica em dizer que existem liberdades certas e liberdades erradas. Ou de outra forma, implica em negar o direito de cada um estabelecer seus critérios, e definir que deve existir um critério único para todos. Isso é muito perigoso.

Todas as pessoas que acreditam que existem verdades absolutas também acreditam que esta verdade absoluta é a dela. Nunca vi alguém dizer “eu creio que existe uma maneira incontestavelmente certa de pensar, mas não é a minha”. Essas pessoas que acreditam conhecer a verdade absoluta geralmente são completamente incapazes de aceitar a idéia de que podem não estar tão certos assim, ou mesmo que para outras pessoas e outras situações a verdade possa ser diferente.

4 pensou em “DISCRIMINAÇÃO

  1. Eu tenho uma verdade que considero absoluta: “- Um dia todos nós morreremos.”

    Ninguém ate hoje me provou o contrário.

    Outra: quando vivemos em sociedade, pagar impostos é inevitável. Não encontrei nenhum exemplo da humanidade que conteste isso.

    Posso estar errado? Acho difícil.

  2. Marcelo, bom dia!
    As coisas por essas plagas andam de tal sorte que pensar ou escrever o que você escreveu – e concordo integralmente com o seu texto – daqui a pouco vira crime por interpretração judicial.

    • Eu sei do risco, Nonato, mas me consolo com a idéia de ser um pitaqueiro insignificante demais para chamar a atenção de alguma Excelência ou algum Meritíssimo.

      Bom dia e bom fim de semana para vc.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *