MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

Já escrevi sobre o assunto antes, mas com a eleição na Argentina a questão ganhou visibilidade. Vamos destrinchar o assunto um pouquinho.

O que é dolarização?

É quando um país deixa de ter moeda própria e adota o dólar como moeda legal. Atualmente 11 países do mundo, além dos EUA, usam o dólar como moeda. Na América Latina, temos os exemplos do Equador, Panamá e El Salvador. Vale também lembrar que os países da União Européia também não têm controle direto sobre o Euro, que é emitido pelo Banco Central Europeu.

Qual a vantagem da dolarização?

Gastar mais do que têm é algo que está no DNA de todo político. Para cobrir a diferença, existem três saídas: aumento de impostos, empréstimos ou inflação. A inflação é a mais perversa e ao mesmo tempo a mais fácil de implementar. A grande vantagem da dolarização é justamente tirar esse recurso das mãos dos políticos.

Quando o povo percebe as vantagens de uma moeda estável, fica muito difícil para os políticos voltarem atrás. O Brasil levou vinte anos para se recuperar das políticas inflacionárias do “milagre brasileiro” dos anos 70, e lá para cá nenhum governo se arriscou a repetir a dose, contentando-se com uma inflação “controlada”.

O Equador, que é um país pequeno e de economia relativamente fraca, atravessou o governo populista de Correa (aliado de Hugo Chávez), a crise global de 2008, o terremoto de 2016 e a pandemia de 2020-2022, e nenhum governo mostrou coragem para substituir o dólar por uma moeda própria. O Equador sofreu muito menos que seus vizinhos sul-americanos na crise de 2008 e na pandemia.

Qual a diferença entre dolarização e conversibilidade?

O sistema de conversibilidade consiste em criar uma moeda que tem um valor fixo em relação a outra moeda (ou metal precioso). Era o sistema mais comum no século 19, quando era chamado “padrão-ouro”. Para implantar o sistema, o país cria uma entidade independente do governo e transfere a ela as reservas que formarão o “lastro” da moeda, que pode ser dólar, euro ou ouro. Essa entidade, a “caixa de conversão”, é responsável por emitir as notas na moeda do país, e têm a obrigação de trocá-las pela moeda-lastro para qualquer pessoa que deseje. Como a moeda não é fabricada pelo governo, este perde o poder de inflacionar a moeda – ao menos teoricamente.

A principal vantagem é logística, já que na dolarização é necessário obter as notas (e trocar as desgastadas) com o país emissor, o que pode ser complicado para países grandes. A medida também pode ser mais agradável para o eleitorado nacionalista que se preocupa com “soberania” e “independência”.

A maior desvantagem é que a caixa de conversão sempre estará vulnerável a ações políticas, como aconteceu na Argentina nos anos Menem. E depois que o governo perde a confiança da população, pode levar décadas para recuperar.

Não é ruim o governo não ter o controle da política monetária?

Tanto Argentina quanto Brasil são excelentes exemplos do perigo que é o governo ter o controle da política monetária. Na prática, o que o governo chama de “política monetária” é simplesmente alternar entre inflacionar muito e inflacionar pouco, mas inflacionar sempre.

Qual a melhor opção para a Argentina?

A Argentina tentou o regime de conversibilidade nos anos 90 mas o governo não cumpriu a promessa e emitiu moeda sem lastro. Desde então, os argentinos se acostumaram a guardar dólares em casa e dificilmente irão acreditar em uma promessa semelhante. Em resumo, só a dolarização direta é viável para a Argentina, hoje.

E para o Brasil?

O Brasil nunca experimentou câmbio fixo, e portanto não têm a “desconfiança” que os argentinos têm. Isso facilita o uso da caixa de conversão. Vale lembrar que a base monetária do Brasil hoje, de 400 bilhões de reais (equivalentes a 80 bilhões de dólares), é quatro vezes maior que a argentina. Obter estes 80 bilhões em cédulas de dólar não é simples do ponto de vista operacional.

A moeda dos BRICS pode tornar a dolarização inviável?

Pelo contrário. A hegemonia do dólar hoje permite que os EUA inflacionem o dólar e “exportem” essa inflação para o mundo. Se a China (que é quem manda nos BRICS) conseguir criar uma moeda que faça concorrência ao dólar nas transações internacionais, isso vai obrigar os EUA a adotar uma política mais cautelosa, o que acaba sendo positivo para os países dolarizados.

Vai acontecer?

Eu não arrisco palpite nas eleições argentinas. Mesmo se Milei ganhar, não terá vida fácil para implantar suas idéias, dolarização incluída. É mais provável que ao invés disso o que venha a acontecer seja a extinção do dinheiro físico e a completa digitalização financeira, sonho dos políticos e dos bancos centrais – e pesadelo nosso.

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