JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

OTTO LARA RESENDE

Nasceu em São João del-Rei, Minas Gerais (01/05/1922). Era o quarto filho, em 20, de Maria Julieta de Oliveira e Antônio de Lara Rezende. Advogado formado pela Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas, começou a trabalhar desde antes. Quando, com só 18 anos, passou a escrever n’O Diário de Belo Horizonte; e, em seguida, no Diário de Minas. Até que, em 1945, mudou-se para o Rio. Em 1960, junto com Rubem Braga, Fernando Sabino e Walter Acosta, fundou a Editora do Autor (depois, Sabiá). E seguiu escrevendo para Diário de Notícias, Diário Carioca, Correio da Manhã, Última Hora, Jornal do Brasil, revistas Manchete e Fatos e Fotos, O Globo, além da TV Globo. Em Bruxelas (1957), chegou a ser Adido na Embaixada do Brasil. Mas, estava em seu Destino, seria mesmo jornalista. E dos grandes.

Para entender famoso grupo do qual fez parte Otto, é preciso voltar no tempo. Então veremos que, no Portugal do século XIX, escritores da Geração de 70 se reuniam no Café Tavares ou no Hotel Bragança ‒ Carlos Félix, o Conde de Sabugosa, Guerra Junqueiro, José Duarte Ortega. Eram os Vencidos da Vida, liderados por Eça de Queiroz. Unidos, todos, na esperança de algum sopro de modernização na vida portuguesa. Até que o rei D. Carlos foi assassinado no terreiro do Paço (01/02/1908), os sonhos de todos se frustraram e a vida os venceu. Mais tarde, a partir de 1914, era o Grupo da (Revista) Orpheu ‒ Almada Negreiros, António Ferro, Armando Côrtes-Rodrigues, Boavida Portugal, sob inspiração do poeta Fernando Pessoa. Inconformados com o saudosismo das letras portuguesas, queriam o novo a qualquer custo. Dispostos a viver a vida no limite; e, mesmo, abrindo mão dela. Até que, aos poucos, o grupo de dissipou. Sá Carneiro tomou cinco frascos de arseniato de estricnina, em Paris. Ainda escreveu um derradeiro bilhete, para o amigo Pessoa, “Um grande, grande adeus, do seu pobre Mário de Sá Carneiro”, e acabou. Cunha Dias foi internado em hospício, no Porto, de onde escrevia cartas diárias para Pessoa. Raul Leal tentou dar fim à existência se jogando nas rodas de um elétrico (bonde). Mas, incompetente em tudo, não teve sucesso. E cada um tomou seu caminho.

Já com esses mineiros seria diferente. O grupo se inspirou nos Quatro Cavaleiros do Apocalipse, personagens descritos na terceira visão profética do Apóstolo João, está no livro bíblico da Revelação ‒ fome, guerra, morte, peste, que acontecerão antes do fim dos tempos. Agora seriam os Quatro Cavaleiros de um Íntimo Apocalipse, juntando belo conjunto de amigos. Fernando Sabino, filho de um imigrante italiano com mineira, abandonou a advocacia para ser escritor, famoso por Encontro marcado. Hélio Pellegrino, psicanalista, poeta, autor de A ditadura da tortura; seu apartamento, no Jardim Botânico (Rio), virou ponto de encontro de intelectuais e artistas. Paulo Mendes Campos, autor de A palavra escrita, traduziu entre outros Borges, Dickens, Flaubert, Jane Austin, Joyce, Júlio Verne, Keats, Maupassant, Neruda, Shakespeare, Wilde. Mais, completando o grupo, Otto. Cavaleiros, todos, em uma nova espécie de Apocalipse. E usando apetrechos diferentes daqueles da cavalgada bíblica (arco, balança, espada, jarra). Com eles, seriam a obsessão por construir um país melhor, o compromisso de sonhar sonhos impossíveis ou, apenas, o prazer de estar juntos.

Humberto Werneck reconhece “É um caso raro de cronista tardio”, o que se deu só 20 meses antes de sua morte. E ainda teve tempo de escrever mais de 200 crônicas para a Folha de São Paulo, três por semana. Em 1º de maio (1991), dia de seu aniversário, a primeira foi publicada. Começava dizendo “Bom dia para nascer” e “não por ser o Dia do Trabalho, mas por ser feriado”. Segundo Nelson Rodrigues, sua grande obra é a conversa. “Deviam por um taquígrafo andando atrás dele e vender suas anotações em uma loja”. Por isso, definiu o estilo de suas crônicas como uma “loja de frases”. Seguem, sempre espirituosas, algumas:

• “Pensar não dói”.

• “Não tenho direito de enjoar a bordo do Brasil”.

• “Não faça biscoitos, faça pirâmides”.

• “Vamos ler os poetas e esperar: o Brasil não vai acabar”.

• “O homem é um animal gratuito”.

• “Depois dos 50, a vida precisa de um anestésico”.

• “Para mim, é absolutamente fundamental que o espetáculo não termine aqui embaixo, na Terra”.

• “A morte é, de tudo na vida, a única coisa absolutamente insubornável”.

Curiosamente, Otto sempre negou ser o autor da frase “Mineiro só é solidário no câncer”, a mais famosa de todas; que, segundo ele, teria sido escrita por Nelson Rodrigues. Está na peça do pernambucano Bonitinha, mas ordinária, ou Otto Lara Resende. Com seu nome no título! Uma “homenagem ao amigo”, segundo Nelson. Como se diz na minha terra, quem tem amigos assim… Otto é pai do economista André Lara Resende. Em 03/06/1979, foi eleito para a ABL e faleceu no Rio (28/12/1992).

P.S. Trecho do Discurso de Posse lido, em 10/06/2022, na Academia Brasileira de Letras.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

CONVERSAS DE ½ MINUTO (21)

Estão em livro que estou escrevendo (título da coluna). Hoje, apenas com histórias relacionadas à posse na Cadeira 39 da Academia Brasileira de Letras.

* * *

JOÃO VEIGA, médico. Encontrou, na festa, o imortal Geraldinho Carneiro e perguntou

– O senhor é Gerald Thomas?

– Sou.

Achei graça e disse baixinho, a Veiga,

– Você está falando é com o jornalista Zuenir Ventura.

– O senhor é Zuenir?

– Sou.

– Afinal, quem é o senhor?

– Sou quem você quiser que eu seja, doutor.

* * *

MARCELO NAVARRO RIBEIRO DANTAS, ministro do STJ. Na cerimônia de entrega do Relatório Final da Comissão Nacional da Verdade (em 2014), disse Marcelo da gravata que usei

– É a mais bonita que já vi.

– É sua.

Entreguei. Ele

– Vou guardar para usar em sua posse na Academia Brasileira de Letras.

E usou mesmo, 8 anos depois. É um vidente.

* * *

MARCOS VILAÇA. Não pôde fazer o Discurso de Recepção, em razão de problemas médicos. E lembrei na hora um bilhete de aniversário que lhe mandei, no passado que passou:

– Vilaça amigo/ Ouve o que digo
Tô com saudade/ Da mocidade
Da vida rude/ Da juventude
Da vida boa/ De andar à toa
E da maçada/ De fazer nada
Com a indolência/ A competência
A imprudência/ E a impertinência
Dos desenganos / Dos verdes anos.

Ao fim, reconheci que os verdes anos já se foram e fiz votos de que muitos anos maduros ainda nos esperam.

* * *

MARIA LECTÍCIA. Para ela, no disco Cantorias de Pé de Parede, escrevi esses versos no gênero As Coisas que eu Gosto de Fazer, que recitei na cerimônia:

– Eu ficava querendo um dia ver-te
Quando um dia te vendo eu me perdi
Em teu rosto afinal compreendi
Que a vida só vale para ter-te.
E o pecado tão doce de querer-te
Não permite que eu possa te esquecer
Em teus braços me entrego por saber
Que tu’alma será um dia minha
Para sempre serás minha rainha
São as coisas que eu gosto de fazer.

Na manhã radiosa desse dia
Pelo qual sem saber sempre esperei
Pressenti que te tendo eu não terei
A tristeza que o peito pressentia.
E que eras tu mesmo eu já sabia
Sem que fosse preciso nem dizer
Porque sempre sonhei que iria ver
Teu sorriso sorrindo para mim
E eu sorrindo a teu lado até o fim
São as coisas que eu gosto de fazer.

E ao fim declarei, aos agora confrades, Maria Lectícia essa cadeira é sua.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

VIVA GENINHA

Geninha Rosa Borges, a Primeira Dama do teatro pernambucano, comemorou 100 anos bem vividos terça passada. Amiga de dona Maria Lia (que teria 96), até atuaram juntas em Princesa Rosalinda (minha mãe como dançarina), peça dirigida por Waldemar de Oliveira. Galã era o querido Reinaldo, mas essa é outra história. Certo é que decido, aqui, comemorar esse aniversário lembrando um causo que aconteceu conosco. Convidou para contracenar com ela no auditório da Cultura Francesa. Tratava-se de um monólogo em francês (já nem lembro qual), dramático, e meu papel era simples. Sem falas. Na mesinha, tomando chá, ela falaria de suas mágoas. E, eu, só escutando. Quando fizesse um sinal, lhe serviria chá. Depois, vestiria uma capa, sairia do palco e a deixaria sozinha. Não tinha como dar errado. Só que, novato no ramo, fiquei encantado com seu talento. E não prestei atenção no tal sinal. Ela parou de falar, fez mil sinais e nada. Foi quando pegou a xícara, levantou até a altura dos olhos e entregou na minha mão. Surpreso disse, em português mesmo,

– Desculpe, Geninha, esqueci.

A plateia passou cinco minutos rindo. E, eu, constrangidíssimo. Servi o tal chá e levantei, para desaparecer da cena. A indumentária foi providenciada por Maria Lectícia. Uma capa de chuva Burberry, com 28 botões. Só que estavam atacados, todos. Tive que ir desabotoando, um por um. O tempo correndo e Geninha esperando minha saída. Só que o público desatou a rir, de novo, agora por conta da minha angústia. E senti que deveria me justificar.

– Os senhores por favor desculpem, mas a culpa é de dona Lectícia (apontei), que deveria ter me entregue essa capa já pronta.

Foi pior. A plateia trocou risos discretos por gargalhadas. Até que vesti, me despedi da atriz com uma reverência e saí de cena. Para que Geninha pudesse continuar sua trágica história. No fim do espetáculo, fui falar com ela.

– Geninha, desculpe. Não subo de novo, num palco, até o fim da vida.

– Faz bem, Zé Paulo. Faz muito bem.

E, agora, quem começou a rir foi ela. Por tudo então, pelo que representa para o teatro brasileiro, e para nosso orgulho enorme, viva Geninha. Para sempre. Viva Geninha! Viva, Geninha!

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

OLIVEIRA LIMA

Nasceu no Recife (25/12/1867). Filho mais novo de mãe pernambucana, Maria Benedita de Oliveira Lima, e um portugês da Cidade Invicta, Luís de Oliveira Lima. Entrou na carreira diplomática, como Varnhagen, Patrono da Cadeira 39. E representou nosso país em numerosos países. Era um homem especial, antecipando-se a temas que não eram do seu tempo. Segundo ele, “quando as mulheres dispuserem algum dia da maioria parlamentar e do governo, a organização política será muito mais dotada de justiça social… e a legislação poderá, então, merecer a designação humana”.Manuel de Oliveira Lima – Wikipédia, a enciclopédia livre

Entre os que não gostavam dele, as razões não são claras, talvez apenas por conta do temperamento belicoso de OL, estava Emílio de Menezes. Por exemplo, quando à tarde saía para passear, braços dados com a mulher Flora, Emílio ficava repetindo “ali vão a flora e a fauna da literatura brasileira”. E dedicado a ele ainda escreveu soneto, O plenipotenciário da facúndia, da eloquência pois, que começa por verso pouco respeitoso criticando sua gordura, “De carne mole e pele bobalhona”, e finda com esse terceto lastimável: “Eis, em resumo, essa figura estranha:/ Tem mil léguas quadradas de vaidade/ Por milímetro cúbico de banha”.

De outro lado, entre seus mais leais admiradores, estava Gilberto Freyre, para quem seria um “Dom Quixote gordo”. Imagem na linha do que evoca o poeta português António Gedeão (Impressão digital) “Inútil seguir sozinhos/ Querer ser depois ou antes/ Cada qual com seus caminhos/ Onde Sancho vê moinhos/ Dom Quixote vê gigantes./ Vê moinhos?, são moinhos/ Vê gigantes?, são gigantes”. Assim era Oliveira Lima, seguindo sozinho e sempre sonhando em derrotar seus gigantes. E nem será dele, talvez, a tão conhecida frase, que lhe é atribuída, “Na geografia dos defeitos, Recife é capital da inveja e da maledicência”. A frase como assim redigida, não. Mas o conteúdo, com certeza sim.

Depois de se aposentar, foi para os Estados Unidos, onde viveu seu resto de vida, como professor visitante, em Harvard, e na Universidade Católica da América (Washington). Morreu nesta cidade (24/03/1928), onde está enterrado no cemitério Mont Olivet. Na lápide, não consta um nome. Apenas seu epitáfio, que ele próprio escreveu, Hic jacet amicus librorum (Aqui jaz um amigo dos livros).

P.S. Trecho do Discurso de Posse na Academia Brasileira de Letras (10/06/2022).

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

DISCURSO DE POSSE

“Academia nova é como religião sem mistérios, falta-lhe solenidade”, lembrava Joaquim Nabuco em seu Discurso de Posse nesta Academia Brasileira de Letras. E concluiu “As Academias precisam de antiguidade”. Precisam mesmo. De antiguidade, tradição e memória. “O povo há de elevar-se pelas tradições” (Alexandre Herculano, Carta a Magesai Tavares) e “sem memória não existimos” (Saramago, Cadernos de Lanzarote). Mais que esforço de uma geração, a partir de conhecimentos que, com o passar dos anos, vão se acumulando. Somos “anões nos ombros de gigantes”, como na célebre imagem de Bernard de Chartres, depois aproveitada por tantos escritores – desde Montaigne até Monteiro Lobato. O futuro nos ombros do passado. Desde o início dessa caminhada entendendo, junto com Orwell (1984), que “quem controla o futuro controla o presente e quem controla o passado controla o futuro”. Como se tudo fosse prenúncio de algo maior que já se pode pressentir e permanece, entranhado em nossas carnes. “Esse pó que fica nos livros, o pó do tempo” (Eduardo Lourenço, entrevista à Agência Lusa). Um culto que é importante, sobretudo, por ser parte de quem somos, o muito feito e o tanto ainda por fazer.

A obra do homem nasce na solidão. “Sem solidão escrever não se produz”, dizia Marguerite Duras (Escrever). Proust sentiu isso (À sombra das raparigas em flor), a “reclusão é mais forte que qualquer outro sentimento”. Só que, uma vez no mundo, essa obra deixa de pertencer ao autor. Passa a ser de todos. E é nessa aparente oposição, entre gestos solitários e ações coletivas, que as academias vão sendo construídas. Por não se fazer com pessoas isoladas, ainda que preparadas e especiais. Fernando Pessoa definiu, com precisão, “Um barco parece ser um objeto cujo fim é navegar; mas o seu fim não é navegar, senão chegar a um porto” (Bernardo Soares, Livro do desassossego). E lembro dessa metáfora dos navegadores antigos ao refletir sobre nossa Academia. Que seu fim, em palavras de Merval Pereira quando assumiu a presidência da Casa este ano, sobretudo seria “distribuir conhecimento”. É nosso melhor Destino. E se faz em comunhão. Todos juntos. A própria razão de haver determinado, o art. 22 do Regimento Interno, que, nos discursos de posse, o novo Acadêmico “apreciará a personalidade e a obra dos patronos e dos antecessores”. Não pretendo me afastar dessa liturgia. Aqui estão, pois, alguns companheiros de ontem.

P.S. Início do Discurso de Posse na Cadeira 39 da Academia Brasileira de Letras – que li no último dia 10, sexta-feira, às 21:00 hs. Nas colunas seguintes, seguem umas poucas lembranças sobre anteriores ocupantes da Cadeira 39.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

CONVERSAS DE ½ MINUTO (20)

Mais conversas em livro que estou escrevendo (título da coluna).

* * *

GILBERTO FREYRE, escritor. No solar de Santo Antônio dos Apipucos, era usual receber pessoas ilustres. De Jânio Quadros a Carlos Lacerda. Do cineasta Roberto Rosselini a sir John Russel. Servindo sempre, a todos, seu famoso Conhaque de Pitanga. Preparado por ele mesmo com pitangas vermelhíssimas, colhidas em seu pomar e colocadas em garrafas de cachaça de cabeça. Mais canela da casa e um licor de rosas fabricado por freiras do Convento do Bom Pastor (Garanhuns), que exigia fossem virgens. Quanto ao sabor, não há consenso. Segundo lenda, o romancista John dos Passos bebeu uma garrafa inteira sem reclamar. Enquanto Rubem Braga provou só meio cálice, fez muxoxo e disse “prefiro uísque”. Naquela tarde a liturgia e a pompa, na sala, eram as mesmas. Só que sua mulher interrompeu a conversa mostrando, a todos, um envelope fechado.

– Amor, correspondência para Gilberto Freire sem ipslon. Que faço?

– Devolva, querida. Destinatário desconhecido.

Admitindo fosse algo importante, ou mesmo alguma conta para pagar, insistiu

– Mas não seria bom abrir, antes, para saber do que se trata?

– Magdalena, é crime violar correspondência alheia.

* * *

HEBE, irmã. Armazém Ferreira Costa, na loucura dessa pandemia da Covid. A caixa olha para Hebe

‒ Testou?

Hebe revirou a bolsa, tirou de dentro um monte de papéis,

‒ Claro, aqui está o certificado da vacina.

‒ Testou as lâmpadas?, senhora.

‒ Ahhh…

* * *

MARIA LECTÍCIA, a quem obedeço faz mais de 50 anos. Esqueci algumas cédulas no bolso da bermuda e foi tudo parar na máquina de lavar. Ao vê-las boiando, na água, Maria Lectícia desligou, tirou, pôs para secar e disse

– Você fica reclamando com ministros, em Brasília, mas essa é que eu chamo a verdadeira lavagem de dinheiro.

* * *

SOGRAS. JORNAL O PODER, edição de 27/04/2022, deu manchete sobre Francisco

– O Papa elogia as sogras.

Mais, por baixo, esse comentário

– É porque ele nunca teve uma.

O que faz lembrar Cantoria de Pé de Parede que assisti, em que o grande Louro Branco recebeu mote, Na casa que sogra mora/ Não tem um genro feliz, e cantou assim

Minha sogra sem respaldo
Diz nos pensamentos seus
Que meus filhos não são meus
Que tem um do Lourinaldo.
Que o primeiro é de Geraldo
E o segundo é de Diniz.
Será meu Deus que eu não fiz
Um menino até agora?
Na casa que sogra mora
Não tem um genro feliz!

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

SÍMBOLOS DA DEMOCRACIA

Juscelino Kubitschek era candidato a uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. E precisava do voto de José Américo de… Paro aqui, pois falar o nome completo do cidadão traz 7 anos de azar. Por isso melhor dizer, como toda gente, só “Zé 3 Pancadas” – reproduzindo o bater 3 vezes, na madeira, para tirar mau-olhado. Agosto de 1975 e foi encontrar o paraibano. Problema é que, naquele tempo, não havia vôos diretos para João Pessoa. E teve que aterrissar no aeroporto dos Guararapes. Como era nosso padrinho de casamento, fomos buscá-lo. Quase meia noite, já passando por Goiana, ele comentou

– Havia um restaurante do guaiamum, nesta cidade.

Era o Buraco da Gia, claro. Batemos na porta, semi-aberta, e o dono gritou

– Está fechado, lamento.

– Pena, o homem vai ficar sem jantar.

– Quem?

– O presidente JK.

– Está aberto.

E nos serviu um jantar esplêndido. Ao chegar, a cidade estava às escuras. E ainda não havia internet. Mas, por mistérios insondáveis, 15 minutos depois acordou, com multidão na porta do restaurante. Sem entrar, em uma espécie de reverência. No fim, ao sair, perguntaram onde iríamos.

– João Pessoa.

– É perigoso. Pode haver um atentado. Vamos acompanhar vocês, para garantir a segurança do presidente.

E seguimos, em comitiva. Era bonito de ver. Nosso carro, na frente; e, seguindo, uma fila com centenas de luzes dos faróis a perder de vista, como se fosse o rabo de um cometa. Até que chegamos. Fomos à recepção do hotel. Menos JK; que ficou na calçada, para agradecer, acenando a todos os carros. Fez isso por quase uma hora e, só depois que o último voltou para Goiana, entrou.

Na eleição, em 23/10/1975, perdeu (20 x 18) para o escritor goiano Bernardo Élis. Em seu diário, anotou “Estou pulverizado por dentro. Desejava, ardentemente, o prestígio que compensaria os imensos dissabores de 1964”. Não deu. Pena. Mas essa é outra história.

Lembro o episódio apenas porque JK era, na época da Ditadura, símbolo de uma Democracia despedaçada. E comparo, desalentado, com os símbolos de hoje. Pobres símbolos. Com receio da reação dos eleitores. Alguns sem conseguir voar em aviões de carreira, como JK. Ou jantar em restaurantes, como JK. Ou ficar no meio da rua, longe de apoiadores, como JK. Naquele tempo, os símbolos eram amados. Venerados. Respeitados. Hoje serão?

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

CONVERSAS DE ½ MINUTO (19)

Mais conversas da terrinha, em livro que estou escrevendo (título da coluna).

* * *

CRAVEIRO LOPES, presidente de Portugal. Em 24/06/1957, visitando o Recife, o general e sua mulher, Berta Lopes, foram recebidos, em jantar, no Palácio do Campo das Princesas. Entre convidados o presidente do Brasil, Juscelino Kubitschek. E Cid Feijó Sampaio, que poucos meses depois seria eleito governador de Pernambuco. Dando-se então diálogo que fez sucesso, nos jornais locais. Quando sua mulher, dona Dulce, impressionada com o belo colar da portuguesa, e só por querer ser simpática, perguntou

– Diamante?

E dona Berta

– De amante? Não, senhora, de Craveiro.

* * *

RENATINHO MAIA, empresário. Ligou para o restaurante–Café Inn, no estuário do Tejo,

– Presumo que estejam abertos, hoje.

– Claro. Se não estivéssemos, ninguém atenderia o telefone.

* * *

SILVIO MEIRA, gênio. Queria conhecer o Metro de Lisboa. Primeiro mundo, todos sabem. Não se diz Metrô, como o da França. Mas Metro, mesma pronúncia da medida de distância. História curiosa se deu quando ia ser inaugurado, em 1959. A direção contratou o grande poeta português Alexandre O’Neil para fazer seu slogan. Acertaram o preço, que foi pago. E O’Neil escreveu – Vá de Metro, Satanás. Que nunca foi usado, claro. Voltando a Silvio, na Praça Camões, precisava saber como poderia chegar lá. E perguntou, a um patrício que passava,

– Sabes onde fica o Metro?

– Sei, lá embaixo.

E foi embora.

* * *

MARCOS BORGES, professor titular de computação (no Rio). Saiu do Hotel do Chiado e perguntou, ao motorista de taxi,

– Podemos ir à Fundação Calouste Gulbenkian?

– Vamos.

Não disseram mais nada, o taxi logo chegou na Fundação e não havia ninguém por lá.

– Está fechada, o senhor sabia disso?

– Claro, hoje é terça-feira.

– E por que não disse antes?

– Porque o senhor não perguntou.

* * *

ONÉSIMO TEOTÓNIO ALMEIDA, da Universidade de Brown (Estados Unidos). Num restaurante da Madeira, famílias reunidas, perguntou ao escritor Baptista Bastos

– Dá-me licença que tire uma foto do casal?

– Claro, mas deixe-me pôr um ar inteligente na face.

– Não se preocupe, eu depois retoco a foto.

* * *

ZIRA DE SANTIAGO, baronesa. Por ocasião da morte de dona do Carmo

– Pêsames, Lectícia.

– Obrigado.

– Soube que sua mãe foi incinerada (no Brasil seria cremada).

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

PORTUGAL É AQUI

Duas histórias.

1. Uma se passou em Castro Verde, no Alentejo (sul de Portugal). Dando-se que rico doutor atropelou velho lavrador que trafegava, em estrada de barro, montado no seu burrinho de estimação. Mais tarde o velho tentou, no tribunal, indenização pela perda do animal que morreu. E por ter passado um mês, no hospital, até se recuperar. Na audiência o advogado do atropelador, amigo de Ministros, argumentou:

– Tenho em mãos declaração de um policial que esteve no local do acidente. E ele relatou que, quando o doutor perguntou “como está”, o senhor respondeu “Estou optimo”. O senhor nega isso?

– Não. É verdade.

– E como pretende, agora, ser indenizado?

– Porque falta um detalhe, nessa história. É que o doutor, depois de nos atropelar, perguntou à minha burrinha se ela estava bem. Claro que a coitada não disse nada. E ele, sob alegação de que estava fingindo, lhe deu 3 tiros.

Calou-se. O juiz pediu que continuasse.

– Depois virou-se para mim, pôs na minha cara o mesmo revólver, e repetiu a pergunta “E o senhor, está bem?”. Foi quando respondi “Estou optimo, estou optimo”.

E, por não ter o pobre como provar o alegado, foi o rico doutor absolvido pelo juiz.

* * *

2. Outra é um conto de Tomás Ribeiro (Lobos famintos), em diálogos que resumo:

– O senhor D. Martinho de Aguilar?

– Eu sou (lhe diz o ancião). A quem me cabe a honra de falar?

– A Justiça de Castela (queria que lhe entregasse filho, que com palavras ofendeu o Rei).

– Bem vinda seja ela.

– Em nome d’El-Rei/ Como Pai de D. Jaime de Aguilar,/ Que é réu de alta traição/ Tendes a vossa fortuna confiscada!…/ Podei-la resgatar,/ Se, vassalo fiel e obediente/ O entregardes à justa punição.

– El-rei de Castela é nobre! Não manda insultar um velho!/ Pode mandá-lo ser pobre,/ Matá-lo à míngua de pão.

– Mais conta em vós, D. Martinho,/ Que estais em casa d’El-Rei!

– Na vossa, lobos famintos,/ Bandidos sem fé nem lei;/ Lobos famintos, comei!…

Inúteis as queixas de D. Martinho. A quem se pediu o que jamais poderia fazer, que era entregar o filho. Sendo sua fortuna confiscada por El-Rei.

* * *

3. É só literatura, leitor amigo. Sem nenhuma relação com o que se passa hoje em Brasília, claro. Mas não custa lembrar um autor português, Ruy Guerra (Fado tropical), que chorou por nós: “Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal/ Ainda vai tornar-se um imenso Portugal!”.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

O DIREITO DE CRITICAR

O cidadão tem direito de criticar seu Poder Judiciário? Aqui, a resposta seria “não”. Com muitos, hoje, processados ou na prisão em razão do que disseram. Por ser a crítica hoje, no Brasil, entendida como um “ato antidemocrático”. É que todos os nossos juízes, especialmente ministros do Supremo, consideram estar acima de qualquer suspeita. Mas estarão mesmo?, eis a questão.

Caso interessante acaba de ocorrer na terrinha. Em 2013, os juízes conselheiros do Supremo Tribunal de Justiça (assim são nomeados os ministros do Tribunal Constitucional, equivalente a nosso Supremo), decisão de Artur Rodrigues da Costa e Armênio Sottomayor, condenaram o jornalista Emídio Rangel a pagar 25 mil euros à Associação Sindical dos Juízes Portugueses. E outros 25 mil ao Sindicato dos Magistrados do Ministério Público. No total, mais de 300 mil reais. O caso começou, em 2010, quando Emídio, na Comissão de Ética, Sociedade e Cultura da Assembleia da República (a Câmara dos Deputados de lá, em Portugal não há senadores), fez uma declaração prévia: As “duas centrais operam a gestão de informação processual através de promiscuidade com os jornalistas que obtém documentos de processos para publicar. Trocam esses documentos em cafés, às escondidas”. E completou: “De onde sai a matéria que está em segredo de justiça?” Tratava-se de estabelecer limites à Liberdade de Expressão.

As associações de magistrados bateram à porta de sua própria casa. E os juízes conselheiros ao julgar o caso, era mesmo de esperar, entenderam que o jornalista “ofendeu gravemente imagem, credibilidade, prestígio, confiança e bom nome” de todos os juízes. E deveria ser severamente punido. Condenado por “abuso da Liberdade de Imprensa”, o jornalista morreu no ano seguinte. Mas, antes, recorreu ao Tribunal Europeu dos Direitos Humanos. E a decisão dessa Corte acaba de ser publicada. Com sua sentença considerando que “os tribunais portugueses só se tinham preocupado com direitos/interesses” das associações sindicais. Sem “ponderar devidamente a importância da Liberdade de Expressão num debate de tanta relevância”. Fim do caso. Emídio, onde estiver, deve estar feliz. E suas filhas mais ainda; que irão receber, do governo português, 51 mil euros. Pena que não possamos, aqui, recorrer a um tribunal como esse. Está cada vez mais difícil ter esperanças, no Brasil.