JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

Nasceu em São João del-Rei, Minas Gerais (01/05/1922). Era o quarto filho, em 20, de Maria Julieta de Oliveira e Antônio de Lara Rezende. Advogado formado pela Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas, começou a trabalhar desde antes. Quando, com só 18 anos, passou a escrever n’O Diário de Belo Horizonte; e, em seguida, no Diário de Minas. Até que, em 1945, mudou-se para o Rio. Em 1960, junto com Rubem Braga, Fernando Sabino e Walter Acosta, fundou a Editora do Autor (depois, Sabiá). E seguiu escrevendo para Diário de Notícias, Diário Carioca, Correio da Manhã, Última Hora, Jornal do Brasil, revistas Manchete e Fatos e Fotos, O Globo, além da TV Globo. Em Bruxelas (1957), chegou a ser Adido na Embaixada do Brasil. Mas, estava em seu Destino, seria mesmo jornalista. E dos grandes.

Para entender famoso grupo do qual fez parte Otto, é preciso voltar no tempo. Então veremos que, no Portugal do século XIX, escritores da Geração de 70 se reuniam no Café Tavares ou no Hotel Bragança ‒ Carlos Félix, o Conde de Sabugosa, Guerra Junqueiro, José Duarte Ortega. Eram os Vencidos da Vida, liderados por Eça de Queiroz. Unidos, todos, na esperança de algum sopro de modernização na vida portuguesa. Até que o rei D. Carlos foi assassinado no terreiro do Paço (01/02/1908), os sonhos de todos se frustraram e a vida os venceu. Mais tarde, a partir de 1914, era o Grupo da (Revista) Orpheu ‒ Almada Negreiros, António Ferro, Armando Côrtes-Rodrigues, Boavida Portugal, sob inspiração do poeta Fernando Pessoa. Inconformados com o saudosismo das letras portuguesas, queriam o novo a qualquer custo. Dispostos a viver a vida no limite; e, mesmo, abrindo mão dela. Até que, aos poucos, o grupo de dissipou. Sá Carneiro tomou cinco frascos de arseniato de estricnina, em Paris. Ainda escreveu um derradeiro bilhete, para o amigo Pessoa, “Um grande, grande adeus, do seu pobre Mário de Sá Carneiro”, e acabou. Cunha Dias foi internado em hospício, no Porto, de onde escrevia cartas diárias para Pessoa. Raul Leal tentou dar fim à existência se jogando nas rodas de um elétrico (bonde). Mas, incompetente em tudo, não teve sucesso. E cada um tomou seu caminho.

Já com esses mineiros seria diferente. O grupo se inspirou nos Quatro Cavaleiros do Apocalipse, personagens descritos na terceira visão profética do Apóstolo João, está no livro bíblico da Revelação ‒ fome, guerra, morte, peste, que acontecerão antes do fim dos tempos. Agora seriam os Quatro Cavaleiros de um Íntimo Apocalipse, juntando belo conjunto de amigos. Fernando Sabino, filho de um imigrante italiano com mineira, abandonou a advocacia para ser escritor, famoso por Encontro marcado. Hélio Pellegrino, psicanalista, poeta, autor de A ditadura da tortura; seu apartamento, no Jardim Botânico (Rio), virou ponto de encontro de intelectuais e artistas. Paulo Mendes Campos, autor de A palavra escrita, traduziu entre outros Borges, Dickens, Flaubert, Jane Austin, Joyce, Júlio Verne, Keats, Maupassant, Neruda, Shakespeare, Wilde. Mais, completando o grupo, Otto. Cavaleiros, todos, em uma nova espécie de Apocalipse. E usando apetrechos diferentes daqueles da cavalgada bíblica (arco, balança, espada, jarra). Com eles, seriam a obsessão por construir um país melhor, o compromisso de sonhar sonhos impossíveis ou, apenas, o prazer de estar juntos.

Humberto Werneck reconhece “É um caso raro de cronista tardio”, o que se deu só 20 meses antes de sua morte. E ainda teve tempo de escrever mais de 200 crônicas para a Folha de São Paulo, três por semana. Em 1º de maio (1991), dia de seu aniversário, a primeira foi publicada. Começava dizendo “Bom dia para nascer” e “não por ser o Dia do Trabalho, mas por ser feriado”. Segundo Nelson Rodrigues, sua grande obra é a conversa. “Deviam por um taquígrafo andando atrás dele e vender suas anotações em uma loja”. Por isso, definiu o estilo de suas crônicas como uma “loja de frases”. Seguem, sempre espirituosas, algumas:

• “Pensar não dói”.

• “Não tenho direito de enjoar a bordo do Brasil”.

• “Não faça biscoitos, faça pirâmides”.

• “Vamos ler os poetas e esperar: o Brasil não vai acabar”.

• “O homem é um animal gratuito”.

• “Depois dos 50, a vida precisa de um anestésico”.

• “Para mim, é absolutamente fundamental que o espetáculo não termine aqui embaixo, na Terra”.

• “A morte é, de tudo na vida, a única coisa absolutamente insubornável”.

Curiosamente, Otto sempre negou ser o autor da frase “Mineiro só é solidário no câncer”, a mais famosa de todas; que, segundo ele, teria sido escrita por Nelson Rodrigues. Está na peça do pernambucano Bonitinha, mas ordinária, ou Otto Lara Resende. Com seu nome no título! Uma “homenagem ao amigo”, segundo Nelson. Como se diz na minha terra, quem tem amigos assim… Otto é pai do economista André Lara Resende. Em 03/06/1979, foi eleito para a ABL e faleceu no Rio (28/12/1992).

P.S. Trecho do Discurso de Posse lido, em 10/06/2022, na Academia Brasileira de Letras.

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