Em 02/10, dia do primeiro turno das eleições, o presidente do TSE não demonstrava particular interesse no tema das pesquisas eleitorais. Tanto que declarou “o TSE só registra as pesquisas”. Mesmo havendo escandalosas diferenças com o resultado das urnas, logo se veria. Por exemplo DataFolha, IPEC/Globo, Ipespe, Quaest/Genial davam em números quase iguais, para Presidente, vitória de certo candidato já no primeiro turno. Como se estivessem todos articulados. Valiosa contribuição, a esse candidato, por ser bem sabido que pesquisas interferem nos votos. O CADE decidiu investigar. Por ter esse papel, de combater cartéis. E para tentar desvendar o mistério de instituições financeiras (e não partidos, ou jornais) gastando milhões, nessas pesquisas. Lucram com os números, na Bolsa? É boa publicidade? Ou fazem isso, generosas que são, apenas por espírito público? A ver melhor.
Apesar de claramente algo não estar correto, nessas pesquisas, decidiu o presidente do TSE proibir qualquer investigação. Mesmo sem ter sido, para decidir assim, provocado por órgão nenhum ‒ como se daria caso cumprido o due process of law. Com base em um Poder de Polícia que não está em nenhuma lei, nem é explícito, mas apenas se presume em sua Resolução 23.650 (de 09/09/21, art. 1º). Foi o próprio TSE, pois, que se conferiu esse poder. Difícil entender tal proibição. Mais normal seria pedir que as investigações continuassem. Nada apurado, ótimo, teríamos provas de que as pesquisas foram limpas. E todos nós, cidadãos brasileiros, ficaríamos sabendo se tratar apenas de erros metodológicos. Mas caso ficasse comprovado ter havido fraude, movida por grana ou interesses ideológicos dos titulares desses institutos, caberia ao TSE decidir as providências a serem tomadas. E o que espanta nem é proibir investigações de terceiros. Mas não permitir que outros investiguem e o próprio TSE, ao mesmo tempo, se recusar a investigar. Pior é que, nos jornais, diz estar pensando em processar o CADE por “abuso de poder político e desvio de finalidade”. Em resumo, proíbe as investigações e ameaça processar quem quer investigar, quando tantos de nós continuamos acreditando que algo não está certo.
Fosse pouco, nosso presidente do TSE ainda aproveitou e quarta-feira, contra a Constituição ‒ art. 5º, IX (“É livre a expressão…, independentemente de censura”), censurou jornais (como o Gazeta do Povo), emissoras de tvs (como a Jovem Pan) e desmonetizou ou determinou a remoção de matérias dos blogues (como Brasil Paralelo), ainda com vasto conjunto de proibições ‒ inclusive se referir a um dos candidatos como “ladrão”, “ex-presidiário”, “chefe de ORCRIM (organizações criminosas)” e expressões equivalentes. Ainda proibiu a divulgação do parecer de seu ex-colega no Supremo, Marco Aurélio Mello, que entende não deva o mesmo candidato “ser considerado absolvido ou inocentado dos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, pelo qual foi condenado”. Tudo, como sempre, sob o silêncio cúmplice de tantos que se apresentam como Combatentes da Democracia (só mesmo rindo). Por essas e outras, o referido Marco Aurélio define este cenário como “Ditadura Judicial”. Não vou tão longe. Mas que tudo é muito estranho, lá isso é.
Domingo próximo é dia de eleição. E vale a pena refletir sobre nossa identidade. A resposta é que somos o que somos, um Brasil profundamente desigual. Sem que, desde a colonização, tenhamos verdadeiramente nos esforçado por integrar, os socialmente excluídos, a um consumo pelo menos decente. Nosso passado resulta das opções equivocadas que fizemos. De enriquecer as elites, em vez de apostar no conhecimento. De concentrar renda, em vez de criar mercado. De pretender apenas democracia formal, em vez de também menos distâncias econômicas. De repartir a nação em corporações, em vez de pensar no coletivo. De cultivar certezas, em vez de buscar convergências. Tudo levando a essa contradição cruel de ser, ao mesmo tempo, modernos e atrasados, ricos e carentes, auto-suficientes e limitados, ambiciosos e conformados.
Deitados em berço esplêndido, por tempo demais acalentamos a crença paralisante num fatalismo histórico que nos converteria, sem maiores esforços, em grande potência. Mas conseguimos apenas ver parte do país crescentemente integrado à economia e à cultura do primeiro mundo, em uma como que ética de sujeição; enquanto outra tenta escapar da fome, em uma como que ética de sobrevivência. Incapazes de perceber que só copiando experiências e padrões dos países ricos, conseguiremos apenas ser mais limitados, mais atrasados, mais dependentes e mais tristes que eles. Semelhantes nas aparências, devemos provar que ainda somos capazes de nos indignar. De assumir compromissos. Apostando, nessa trajetória, que a confiança vença o medo, a razão vença o preconceito, a luz do sol vença o desalento das sombras.
Para complicar, num cenário de crises superpostas, o discurso político tradicional parece obsoleto. Eleitores já não se consideram representados pelos eleitos. O que dizem não é o que deveríamos ouvir. O que fazem não é o que precisamos ver. O que prometem é só um prenúncio de catástrofes. E há, também, uma crise nas relações. Com esgotamento, hoje, de certas práticas sociais, reduzindo a coesão que deveria permear nosso povo. Só para lembrar, n’O Alienista, Machado de Assis relata que Simão Bacamarte internou 4/5 da população de Itaguaí na Casa Verde, até que ele próprio findou seus dias naquele hospital psiquiátrico. Não queremos isso. Intransigentes com os diferentes, nos últimos tempos somos generosos só com quem pensa como nós. Quase todas as expectativas de antes viraram pó. As relações pessoais se dissolvem, como gelatina, em um discurso de rancores. É de ódio que falo, amigos. Há dois Brasis apartados. Num Discurso da Abolição, pronunciado na Câmara dos Comuns da Inglaterra (em 1789), disse William Wilberforce “Não apelo às vossas paixões – peço apenas à vossa razão fria e imparcial”. Problema é que isso, entre nós, parece cada vez mais distantes. Há um rio que separa os brasileiros. E é preciso remar ao contrário desse rio, acompanhando Luiz Gonzaga, já a partir de domingo, para chegar ao Riacho do Navio de nosso futuro redentor.
Alfred Nobel ficou milionário com um de seus 355 inventos, o balistite – precursor de outros explosivos militares sem fumaça, como a dinamite. E no último testamento que fez, para redimir seu nome (sempre associado à morte), instituiu o Prêmio Nobel (em sua língua, tônica no “e”). Em 5 categorias – Física, Literatura, Medicina, Paz e Química. Olho para as eleições da próxima semana e lamento que Nobel não tenha criado alguns outros prêmios, já digo quais e meus favoritos a eles.
NOBEL DE MATEMÁTICA. Quase foi criado. Não se dando, segundo se diz, para não ter que premiar o amante de uma das suas amantes, o matemático Gösta Mittag-Leffler. Este, sem favoritos. Ao menos em relação aos institutos de pesquisas, basta ver. Segundo DataFolha Lula 45, Bolsonaro 32; IPEC (ex IBOPE) Lula 46, Bolsonaro 31. Já para GERP Bolsonaro 39, Lula 38; FUTURA Bolsonaro 42, Lula 36. Eles apenas escolhem a metodologia que mais lhes convenha, passaram (desavergonhadamente) a fazer política ou endoideceram?, cada leitor escolha sua versão.
NOBEL DE ARREPENDIMENTO. Sérgio Moro tinha um futuro tranquilo. Continuaria juiz, na próxima vaga do Supremo seria nomeado ministro e viveria sem problemas, amado pelos brasileiros, até o fim dos seus dias. Em vez disso, preferiu ser ministro da Justiça e fazer parte de um mundo que não era o seu. Deu no que deu. Começou candidato a presidente da República, acabou a Senador no Paraná, com pouca chance de vitória. Um fim melancólico. Será que tem consciência disso?
NOBEL DE CONSTRANGIMENTO. Há coisas que não se devem dizer. Mas, uma vez ditas, não podem ser esquecidas. Geraldo Alckmin vivia chamando Lula de “ladrão”, de “chefe da quadrilha”, de querer “voltar à cena do crime”. Ainda mais, “É preciso evitar que a corrupção e a roubalheira voltem a comandar o país” (frases de vídeos que circulam na internet). E, na convenção em que foi ungido vice desse mesmo de quem sempre falou tão mal, apareceu gritando, rouco e enlouquecido, como marionete, ou Diana de pastoril, ou animador de palanque, ou fã de Roberto Carlos, “Lula!, Lula!!, Lula!!! Não morre de vergonha? Como explica isso aos filhos? De noite, será que consegue dormir sem tranquilizantes?
No seu mais famoso poema, Tabacaria, Fernando Pessoa (Álvaro de Campos) disse “Em todos os manicômios/ Há doidos malucos com tantas certezas”. O que nos remete a Herman Kahn, fundador do Hudson Institut, para quem “Alguns assuntos são só para loucos e entendidos”. Como não estou em nenhuma dessas duas categorias (ou penso que não estou, o que dá no mesmo), em relação à política, melhor parar por aqui e deixar as eleições para entendidos (e loucos).
Mais conversas, hoje só com políticos, em livro que estou escrevendo (título da coluna).
* * *
AGAMENON MAGALHÃES, governador de Pernambuco. Tinha um jeito próprio de administrar, no Campo das Princesas. Primeiro, lia os processos que chegavam. Todos. E, depois, mandava à Procuradoria, sempre com um desses três despachos:
1. Para Parecer.
2. Defiro, de acordo com o Parecer.
3. Nego, de acordo com o Parecer.
E ai do procurador que não rezasse por sua cartilha.
Coronel CHICO HERÁCLIO, de Limoeiro (que nunca foi militar). Naquele tempo mandava, na sua terra, sem nenhum limite. Um dos protegidos que tinha foi se queixar
– Aluguei casa, coronel, o contrato acabou e o locatário não quer devolver.
– Deixe comigo.
Dia seguinte Minervino, pistoleiro com muitas mortes nas costas, bate na porta da tal casa.
– Estou sem ter onde morar e o coronel disse que podia ficar aqui.
Entrou, tirou a roupa e ficou, na sala, só de cuecas. Além do seu 38, na cintura. Quando tinha fome, ia na cozinha. Sem pagar nada, claro, tudo por conta do tal locatário. Dormia na sala, vendo televisão. E a família presa, nos quartos, com medo de levar tiro. Dois dias depois, acabaram todos indo embora. E o professor Vilaça (pai de Marcos), que era seu Primeiro Ministro, contou essa história feliz. Por não ter sido necessário usar de violência (assim entendeu), nesse caso.
CRAVEIRO LOPES, presidente de Portugal. O general Óscar Carmona, candidato único, foi eleito presidente em 16/11/1926. Com 100% dos votos – sem brancos, nulos ou abstenções, ditadura tem disso. Morto em 18/04/1951 acabou substituído, em 21/06 deste ano, pelo general Francisco Craveiro Lopes, que logo passou a conversar com a oposição na busca por convergências. O que desagradou Salazar. Tanto que não permitiu fosse candidato, na eleição seguinte (a do almirante Américo Thomáz). Até se contava, por lá, essa piada. Quando o presidente JK tossiu e perguntou, a Craveiro, se podia emprestar um lenço. Resposta, “Desculpe, mas esse lenço é o único lugar onde hoje em dia posso meter o nariz” (que Salazar não mais permitia interferisse no governo).
Era um homem sério. Que jamais aceitou vantagens. Presentes recebidos acabavam, todos, transferidos ao Estado ou doados a obras de caridade. Lembro apenas um caso, entre tantos, para o definir. Seu filho Nuno e a mulher sofreram acidente de trem no farol de Caxias, próximo a Lisboa. Ligou ao pai, dizendo que estavam bem e pedindo auxílio para voltar à casa. Craveiro disse que só faria isso caso pudesse mandar um veículo a cada passageiro. E sugeriu procurar taxi. Assim era. Visitou o Brasil e no Rio, em 09/06/1957, esteve na Academia Brasileira de Letras. O presidente da ABL, Austregéliso de Athayde, pediu a Manuel Bandeira que lhe fizesse a saudação. Sem avisar, era um hábito seu. Ocorre que Bandeira desprezava a Ditadura de Salazar. Até subscreveu, nos anos 1940, um Manifesto de intelectuais brasileiros contra ele. E lembrou, na hora, um poema de Pessoa (Salazar), firmado pelo heterônimo Um Sonhador Nostálgico do Abatimento e da Decadência – o nome vem de palavras pronunciadas por Salazar no discurso de saudação aos participantes do concurso literário de que participou Pessoa com Mensagem. Dizia:
Este senhor Salazar É feito de sal e azar. Se um dia chove, A água dissolve O sal, E sob o céu Fica só azar, é natural. Oh, com os diabos! Parece que já choveu…
E o saudou com essas duas quadrinhas:
– Craveiro dê-me uma rosa Mas não qualquer, general Que eu quero, Craveiro, a rosa Mais linda de Portugal
Não me dês rosas de sal, Nem me dês rosas de azar Não me dês Craveiro rosa Dos jardins de Salazar.
* * *
Na sequência da viagem, Craveiro visitou Manaus e Belém. Até chegar ao Recife, de onde voltou para Portugal. Aqui, em 24/06/1957, o general e sua mulher, Berta (da Costa Ribeiro Arthur) Lopes, foram recebidos em jantar no Palácio do Campo das Princesas. Entre convidados o presidente do Brasil, Juscelino Kubitschek. E Cid Feijó Sampaio; que, poucos meses depois, seria eleito governador de Pernambuco. Dando-se então diálogo que fez sucesso, nos jornais locais. Quando sua mulher, dona Dulce, impressionada com o belo colar da portuguesa, e só por querer ser simpática, perguntou
– Diamante?
E dona Berta
– De amante? Não, senhora, de Craveiro.
FERNANDO LYRA, ministro de Justiça. Véspera da posse que seria de Tancredo, chegamos no aeroporto de Brasília e a Polícia Federal me esperava (fora da programação).
– O ministro (Lyra) pediu para ir direto ao gabinete de Dorneles.
Maria Lectícia e os pais dela, dona do Carmo e dr. Armando, foram para o hotel; e, eu, para a Esplanada. Francisco Dorneles era sobrinho de Tancredo, futuro ministro da Economia e homem forte do seu governo. Perplexidade no ar, pelas incertezas do momento. Na sala de espera se amontoavam assessores, militares, quase todos os futuros ministros. O baiano Carlos Santana (da Saúde) ficava olhando só para o alto, imóvel, como se estivesse congelado. O gaúcho Pedro Simon (da Agricultura) rodava em volta dele mesmo, como um peru, sem parar. Fernando veio conversar
– Vai assumir Ulysses (Guimarães), como presidente da Câmara dos Deputados.
– Não pode, Fernando (como a doença de Tancredo era pública, já tinha examinado as questões jurídicas). O vice (Sarney) presta compromisso, perante o Congresso. Tancredo não, que está no hospital e tem 10 dias para isso. Ainda mais, por haver “motivo de força maior” (Constituição da época, art. 78). O Congresso declara momentaneamente vago, seu cargo, e assume o vice. Esse é o caminho.
– Mas assume Ulysses.
– Então pode escolher outro para meu lugar, amigo. Que nosso primeiro gesto, no ministério, seria uma ilegalidade. E não farei parte disso.
Algum tempo depois, Dorneles chamou cinco ou seis para reunião na sala dele (já com muitos outros personagens, por lá). O resto ficou onde estava. Na saída, Fernando contou como foi. Dorneles
– Afonso Arinos disse haver um antecedente, com Rodrigo Alves; que, doente, assumiu seu vice Delfim Moreira. Brossard e Saulo Ramos defendem a mesma tese. Fosse pouco, o próprio Ulisses prefere Sarney, repetindo sempre “é isso que a Constituição manda”. E Leitão de Abreu (que coordenava a transição por João Figueiredo, último presidente militar) garante que Sarney assumirá sem contestações.
O futuro ministro do Exército, Leônidas Pires Gonçalves, pediu a palavra. Era comandante do 3º Exército e contava com apoio de parte expressiva das Forças Armadas. Mostrou uma Constituição cinza, edição de bolso (quem viveu em Brasília, naquele tempo, sabe qual era) e falou
– Devemos seguir o que diz esse livrinho.
Fernando
– Meu Secretário Geral também diz que assume Sarney, como vice. E nem vai ficar no cargo, se a gente escolher Ulysses.
Muitos outros confirmaram esse entendimento. E Leônidas, depois de dar um tapa forte na mesa,
– Então está resolvido. Assume Sarney. Alguém é contra?
Silêncio na sala.
– E não se fala mais nisso.
Ninguém teve disposição, ou coragem, para contradizer. A palavra das forças armadas, numa hora dessas, é forte. Mais tarde, já na casa de Sarney, a transição seria sacramentada em ata por todos assinada. Foi assim.
JACOB TUMAJAN, campeão pernambucano de xadrez. Homem de bem, e liso, em 1958 decidiu começar carreira política por baixo. Como candidato a vereador. Sem dinheiro para propaganda, inventou de usar para isso a (antiga) ponte do Pina – que tinha um quilômetro, com postes plantados sobre 20 colunas, a cada 50 metros. Comprou tinta branca e pincel, disposto a pintar seu nome naquelas benditas 20 colunas. Para apresentar, ao povo do Recife, suas muitas qualificações. E já foi escrevendo, na primeira,
– Tumajan é trabalhador.
Na segunda
– Tumajan é honesto.
E por aí foi, numa tarefa penosa por falta de adjetivos disponíveis.
– Tumajan é honrado.
– Tumajan é probo.
– Tumajan é ínclito.
Assim ocorreu até as 4 da madrugada, quando acabaram tinta e paciência do candidato. Foi dormir, cansado e feliz. Faltavam só duas colunas. Manhãzinha, completaria o serviço. Não contava é que um opositor desalmado acabasse fazendo esse trabalho por ele. E dito ser malévolo escreveu, na penúltima,
– Enfim…
Com três pontinhos e tudo. Fechando a série com a conclusão lógica de tantos atributos,
– Tumajan é foda.
A maldade anda solta nesse mundão perverso, meus senhores. Nosso candidato, coitado, virou chacota. E acabou perdendo a eleição.
Segundo Fernando Pessoa, “O poeta é um fingidor/ Finge tão completamente/ Que chega a fingir que é dor/ A dor que deveras sente” (Autopsicografia”). Versos que recitamos sem perceber que, lidos como estão, não fazem nenhum sentido. Que nem o coitado desse poeta imaginário, nem ninguém, pode fingir que é dor uma dor que sente de verdade (deveras). Porque ou se finge uma dor que não se sente, ou verdadeiramente se sente uma dor que então já não é fingida. Tempos depois ouvi em obra um pedreiro pedir, a seu ajudante, “areia de fingir”; compreendendo afinal ser essa areia tirada dos leitos do rio, que se mistura ao cimento, não é de fingir – no sentido estrito em que hoje empregamos o termo, de esconder o pensamento. Mas de construir. E também compreendi que esse verso Pessoa destinou a iniciados ‒ o que fazia com freqüência. Pois fingir, em português arcaico, é também construir. Retomando o sentido, em latim, do verbo fingere. Sem contar que fingidor era profissão comum na belle époque portuguesa do século XIX, para designar artesões que esculpiam salas e telhados, em gesso e nessa areia, com colherinhas de fingir. No fundo, o próprio fingimento não é senão a construção de uma outra realidade – algo comum a poetas e outros seres ungidos com o dom de iludir. Gente que vaga pela vida vencendo batalhas misteriosas, sofrendo sofrimentos inauditos e amando amores implausíveis. Só que ditos sonhos lhes pertencem apenas enquanto guardados nas suas almas; porque, postos no papel, ganham vida própria e passam a ser de todos nós, indeterminados cidadãos comuns. Com os pintores acontece o mesmo. Até porque, segundo os dicionários, fingidor quer dizer também pintor.
Essa enfadonha e longa introdução tem somente o sentido de homenagear nosso grande pintor José Cláudio – que, amanhã, estará fazendo 90 anos. Viva Zé Cláudio!!! E faço isso contando essa historinha.
Ligou Caetano Veloso e marcaram encontro às três da tarde. Na casa do próprio Zé Cláudio, em Olinda. Dando-se que, como todo bom baiano, Caetano gosta de rede. Chegou tarde, já escuro. E encontrou na casa somente Cícera.
– Zé Cláudio está?
Aqui, parêntese para dizer quem é Cícera, personagem de romance. Soberana em sua cozinha, é a dona da casa. Tanto que se alguém chegar, e não for logo cumprimentá-la, está perdido. Zé Cláudio pede para servir cafezinho, ela traz só um e diz
– Esse é para o senhor. Seu amigo sirvo não, que ele é muito mal-educado.
Está explicado, pois. Mais ou menos. Voltando à pergunta de Caetano, Zé Cláudio está?, Cícera respondeu sem maiores preocupações
– No dentista.
– Posso esperar por ele aí dentro?
– Claro que não.
E voltou a se preocupar com sua sopa. Uma resposta natural, para ela. Pouco antes, por exemplo, não deixou entrar Chico Buarque. Só que Chico se conformou logo. Pedindo apenas o acesso, à casa, para uma amiga que precisava fazer suas necessidades.
– Ela que faça aí fora mesmo.
Nesse ponto da conversa bom dizer que a casa fica em Olinda, no alto de um morro. Depois da casa de Abel, é como ensina o caminho, sem que se saiba quem seria o tal Abel. A quase 10 minutos da rua em que passam taxis. E o músico teve a infeliz ideia de não ficar com aquele no qual chegou. Já se preparando para descer o ladeirão, com risco até de ser assaltado, insistiu
– A senhora, pelo menos, diz a ele que estive aqui?
– Digo sim.
Desconfiado, e sem certeza de que seu recado seria mesmo transmitido por aquela mulher tão estranha, fez uma última pergunta
– A senhora desculpe mas sabe quem sou?
– Sei. É Caetano Veloso. Mas eu prefiro Tarcísio Meira.
Pintor pernambucano José Cláudio da Silva, nascido em 27 de agosto de 1932
Escritores, e grandes personagens, tem suas manias. Ou vícios, como preferirem. E é sempre bom lembrar La Rochefoucauld (Reflexões), “o que impede de nos entregarmos a um único vício é ter vários”. Beethoven, por exemplo, tomava café enquanto compunha sua 9ª Sinfonia. Como tinha refluxo, separava 60 grãos. O suficiente para fazer uma única xícara que ia bebendo, aos poucos, até a noite. Já com Voltaire eram 80 xícaras. Dizia sempre “claro que é um veneno lento” (a frase está em todas as suas biografias), mas morreu só com 83 anos – para sua época, um feito notável. Balzac bebia mais de 50, por dia; e ainda mastigava os grãos, depois, como se fosse amendoim. Monteiro Lobato misturava tudo com farinha de milho e rapadura. Joyce preferia chocolate. E Alexandre Dumas (pai), maçã. Quando tinha prazo para finalizar um trabalho, pedia à empregada para sair de casa levando todas as suas roupas, dado que só nu podia se concentrar e escrever.
Pedro Nava prendia os móveis de sua casa no chão, com pregos, para que ninguém os tirasse do lugar. Dorival Caymmi, compositor que mais músicas fez sobre o mar e os pescadores, não sabia nadar. Nem jamais pescou um peixe, na vida. Igual a Millor Fernandes; que, mesmo assim, acabou no Canadá vice-campeão mundial na pesca do Marlin. Edgar Rice Burroughs, criador de Tarzan, nunca esteve na África. Enquanto Guimarães Rosa, imortal autor de Grandes sertões: veredas, conheceu o sertão uma única vez, montado num burro manso, e por apenas 15 minutos. Rosa se considerava um homem de sorte. Tanto que, na Segunda Guerra, saiu do apartamento e foi uma kaffestube, do outro lado da rua, para se reabastecer de cigarros. Foi quando caiu uma bomba e destruiu seu prédio. O vício lhe salvou. Eleito para Academia Brasileira de Letras, em 08/08/1963, passou quatro anos sem tomar posse com receio do vaticínio de uma vidente que previu sua morte caso assumisse a Cadeira 2. Até se convencer de que não precisaria se preocupar com previsões desse tipo. Erro grande. Que assumiu em 16/11/1967, com todos as pompas, para morrer três dias depois. Sorte no fumo, azar com a vidente. Rosa escreveu “viver vale sempre a pena” (Buriti), quase o mesmo que Pessoa, “tudo vale a pena” (Mar português). E ele próprio disse, na sua mais conhecida frase (em GSV), “a vida é um negócio muito perigoso”. É mesmo.
Mais conversas, em livro que estou escrevendo (título da coluna). Como hoje, 11 de agosto, é o Dia do Advogado, hoje só com eles.
* * *
ALBERTO TRABUCCHI, presidente do Círculo dos Juristas Católicos da Itália. Ao ver homens procurando comida, no lixo da feira de Jaboatão, me perguntou
– O Brasil é um país católico?
– Claro, professor, maior país católico do mundo.
E ele, sem alterar a voz,
– O Brasil é um país católico?
– Não.
* * *
GIBRALDO MOURA COELHO, advogado penalista. Na Ditadura, quando Nilo Coelho foi nomeado governador de Pernambuco, a gente ficava dizendo ao velho comunista
– Agora você vai se apresentar, dando ênfase no sobrenome, como Gibraldo Coelho (assim era conhecido). Só para ter vantagens, nas delegacias, por pensarem que é parente do governador.
– Parem com isso, por favor, todos sabem que sempre fui oposição.
– Nada, Gibraldo, você quer mesmo é faturar.
E foi tanta brincadeira que tomou uma decisão drástica. Trocou de nome. Passando a ser, para todos os fins, Gibraldo Moura. Na placa do escritório, nos papéis, no catálogo telefônico, nos cartões de visita. Só não contava é que o governador que substituiu Nilo Coelho fosse José… Moura. Como ele, agora, Gibraldo Moura. E não perdi a oportunidade
– Bicho inteligente, virou Moura só para se aproveitar do sobrenome.
– Aqui para nós, amigo, Ele não foi justo.
– Ele quem?, Gibraldo.
– Deus, Zé Paulo. Deus.
* * *
RAIMUNDO FAORO,presidente da OAB Federal. No seu escritório de advocacia (Rio). Com ele seu sucessor, na OAB, Eduardo Seabra Fagundes. Pouco antes uma carta, endereçada a Eduardo, foi por engano aberta por sua secretária, dona Lydia Monteiro da Silva. Que, bom lembrar, morreu na explosão de bomba posta dentro dela. Preocupado com a segurança da família, informou que vendeu todo seu patrimônio e depositou, o apurado, na Suíça. Se a violência aumentasse, iria morar fora. Faoro fechou a cara.
‒ Achou ruim?, Faoro.
‒ Achei péssimo, que você é símbolo dos advogados brasileiros. Vai parecer que todos nós estamos acovardados.
‒ Você só diz isso, Faoro, porque não tem o que eu tenho, que é dinheiro.
‒ Não, Eduardo, eu é que tenho o que você não tem, que é culhão.
Fim da relação. Faoro jamais o perdoou. Inúteis os esforços dos amigos comuns que, várias vezes, fomos a seu escritório para tentar fazer as pazes entre os dois.
O mexicano Octavio Paz (Nobel de Literatura em 1990) disse, de Fernando Pessoa, que “Os poetas não têm biografia. A sua obra é a sua biografia” (O desconhecido de si mesmo). A frase, com pequena variação, pode se aplicar a Marco Maciel. Passaria a ser, então, A obra do homem público é sua biografia. Se assim for, e creio que todos aqueles que o conheceram estarão de acordo, é uma obra grandiosa. Joaquim Nabuco, no Discurso de Posse aqui referido, complementa “Eu sei bem que a política, ou, tomando-a em sua forma a mais pura, o espírito público, é inseparável de todas as grandes obras; mas para a política pertencer à literatura e entrar na Academia é preciso que não seja o seu próprio objeto. Só assim não seríamos um parlamento”. Maciel, em discurso na Câmara dos Deputados, como que se referindo àquela frase de Paz, disse “O poeta não se faz, nasce, eu podia transpor isso para o político”, em alusão à “expressão latina Poeta non fit, sed nascitur”. Tinha razão, viu-se depois, e até confessou isso no próprio Discurso de Posse: “Sou exclusivamente um homem público e pretendo trazer a contribuição da atividade pública para a Academia, principalmente nas questões do governo e na discussão das reformas”. A vida pública, por isso, é sua obra e seu Destino. Fernando Henrique Cardoso, em bela definição, como que resume dizendo ter sido “um construtor de pontes”.
FORMAÇÃO
Marco Maciel nasceu no Recife, em 21/07/1940, filho de Carmem Sylvia e José do Rego Maciel. E dizia sempre que em casa aprendeu deva ser, a vida pública, feita de “intensidade e renúncia”. Seus primeiros estudos foram no Rio. Anna Maria, sua mulher, explica isso, lembrando “que o pai era Deputado Federal”. Mas, logo, voltou para sua terra. Já na universidade, foi presidente do Diretório Central dos Estudantes – DCE (1960, reeleito no ano seguinte). Uma eleição indireta, por representantes dos Diretórios Acadêmicos. E, em seguida, presidente da União dos Estudantes de Pernambuco – UEP (1962); eleito, agora, diretamente pelos estudantes, com 70% dos votos. Não pouca coisa, como se vê no depoimento de um adversário na política estudantil, Clemente Rosas (Eu e eles): “Nos anos 1961/62, só havia no Brasil uma UEE (União Estadual de Estudantes) em oposição à UNE: a de Pernambuco, presidida pelo liberal Marco Antônio Maciel. Todas as demais, controladas pela JUC (Juventude Universitária Católica), pelo PCB (Partido Comunista Brasileiro) ou por estudantes independentes, eram situacionistas. Marco Antônio, como o chamávamos, era católico. E derrotara José Geraldo Wanderley, outro católico apoiado pela JUC e pelo PCB, já em política de frente única esquerdista”. Uma presidência ocupada, também, por outros pernambucanos ilustres. Como Armando Monteiro Filho, eleito em 1947, e que chegou a ser ministro da Agricultura de João Goulart. Permitam, aqui, um depoimento. Dr. Armando era usineiro mas, na Ditadura, se filiou ao MDB (contra todos os seus interesses empresariais). Por acreditar na Democracia. E deu pela vida prova de que é possível ser homem público sem exercer cargos públicos e que é possível fazer política com ética.
Nesse cargo Maciel deu provas de que, para além das ideologias, pensava nos verdadeiros interesses do Brasil. O que se vê quando o plano de alfabetização do ministro da Educação, Darcy Ribeiro, baseado no método de Paulo Freire, passou a ser questionado. E ele, mesmo representando uma visão conservadora na sociedade, enviou, ao presidente João Goulart, mensagem expressando apoio irrestrito dos universitários de Pernambuco a essa iniciativa. Cristovam Buarque lembra “Quando entrei na escola de engenharia, ele ainda não era Marco Maciel. Mas nunca rompeu suas relações com o Partido Comunista. E manteve boas relações com Dom Helder, quando os militares o consideravam um inimigo visceral”. Sem esquecer que esteve com Miguel Arraes, em defesa do Movimento de Cultura Popular que começava na Prefeitura do Recife. Algo para ele natural; tanto que, mais tarde (Educação e liberalismo), explicitaria sua visão da cultura a partir de um conceito amplo, abrangente, que “considera tanto os bens móveis e imóveis plenos de valor histórico e artístico, quanto os bens de produção cultural”.
Assim os torcedores da Juventus (Turim, Itália), La Juve, chamam seu time – La Vecchia Signora. E agora (quarta da semana passada), quando a Academia Brasileira de Letras fez 125 anos, podemos também assim chamar, com carinho, nossa Casa. Aproveito para lembrar.
CABECEIRAS DAS MESAS. Ninguém mais senta nelas. Isso vem de quando, por deferência, lá ficavam só os mais velhos. Dando-se, com frequência, serem os próximos a morrer. A partir daí, virou regra. Dá um azar danado. Melhor mesmo é deixar as cabeceiras vagas e sentar nas outras cadeiras.
PANELINHA. Na criação da Academia, intelectuais se reuniram em torno de Machado de Assis, com almoços servidos em uma pequena panela de prata (que está, hoje, no Museu da Academia). O utensilio acabou dando nome ao grupo. E, depois, a expressão ganhou mundo.
MULHERES. Demoraram a entrar na Academia. Lúcia Lopes, cogitada para ser uma as fundadoras, acabou vetada. Por ser mulher. Primeira a ser admitida foi Raquel de Queiroz (autora de Memorial de Maria Moura), 80 anos depois da fundação. E, primeira presidente, ainda mais tarde – a consagrada Nélida Piñon, 99 anos depois.
MAIS LONGEVOS. O caruaruense Austregésilo de Athayde permaneceu, na presidência, por 35 anos. E, na cadeira, Magalhães de Azevedo ficou lá durante 66 anos (morreu aos 91 anos). Como ninguém mais é eleito com 25 anos (seu caso), não haverá outro.
SEM LIVROS. Apenas Graça Aranha foi eleito sem haver escrito um único livro (toda sua obra é posterior). Certo dia, enlouqueceu e começou discurso dizendo que o lugar era um “Túmulo de Múmias”, após o que proclamou “Morte à Academia”. A reação dos acadêmicos foi passear, pela sala, carregando Coelho Neto (o mais velho ali presente) nos ombros. Graça renunciou mas a eleição do substituto esperou, que vagas ali ocorrem só com a morte dos acadêmicos.
VAGAS. Getúlio Vargas ‒ à época todo poderoso no país ‒ queria pertencer à academia. Só que faltava lugar, que não morria nenhum confrade. Foi quando Ataulfo de Paiva se prontificou “Não seja por isso, Presidente, se quiser eu me suicídio”. Não precisou, graças a Deus. Sobre Jorge Amado consta lenda de ter feito promessa a sua mulher, Zélia Gattai, de que ela entraria. Mas, novamente, não havia vaga. E ela insistia. Foi quando Jorge, elegante como sempre foi, preferiu morrer para que a mulher acabasse eleita no lugar que era seu. Non è vero, ma…
EMILIO DE MENEZES. Eleito, a Academia não permitiu que assumisse a cadeira. Por conta de críticas, no seu Discurso de Posse, a muitos acadêmicos. E ele não aceitou alterar nada. Só para uma ideia, veja-se o que disse (trecho) do confrade Oliveira Lima, no soneto O Plenipotenciário da Facúndia (da eloquência, pois). Começou
– De carne mole e pele bobalhona Ante a própria vaidade se extasia Sendo Oliveira, não dá azeitona Sendo Lima, é quase melancia”.
E acabou
– Assim se conta essa figura estranha São mil léguas quadradas de vaidade Por centímetro cúbico de banha.
Percebendo a morte próxima, Emílio tomou posse na Secretaria da Academia. Sem discurso.
Nasceu no Rio de Janeiro (03/12/1904). O pai fundou, em 1911, o jornal A Noite. E, em 1925, O Globo. Morto poucos meses depois, em 21/08 deste mesmo ano, a empresa coube ao dr. Roberto. Por decisão da mãe, Francisca Pisani Barros. Em seu Discurso de Posse, reflete sobre esse tempo: “O mestre que iniciou a minha formação de jornalista foi Irineu Marinho, meu pai”. Mesmo tão jovem, com 20 anos apenas, compreendeu que não poderia ocupar o lugar do pai, naquele momento, como responsável pela edição do jornal. Razão pela qual nomeou, como Diretor Chefe, o experiente jornalista Euclydes de Mattos. Só com a morte deste em 1931, e já então com 26 anos, assumiu o posto que era por direito seu.
Dr. Roberto sempre tomou posição nos grandes problemas nacionais. Por exemplo apoiou Getúlio, em 1930. Ficou contra a tese da neutralidade, na Segunda Guerra, entendendo que o país deveria estar com os aliados. Apoiou a redemocratização do país. Em 1964, apoiou o Golpe militar. Só bem mais tarde, em 2013, as organizações Globo reconheceriam ter sido um erro acompanhar a Ditadura. Em 1985, a princípio, ignorou manifestações populares a favor das Diretas Já. Mas, desde o Comício da Candelária, passou a apoiar. E, bom lembrar, estava com Tancredo, e não Maluf.
Seu sistema de comunicação crescia. Em 1944, foi a criação da Rádio Globo. Em 1953, a TV Globo do Rio. E, em 1977, a Fundação Roberto Marinho, que proporcionou benemerências às artes, às ciências, às letras. Em 1952 representou o Brasil, como delegado, na VII Assembleia Geral da ONU, dedicada aos Direitos Humanos. Em 1983, recebeu o EMMY, como Personalidade do Ano em Televisão, concedido pela Academia Nacional de Televisão, Artes e Ciências dos Estados Unidos. E, em 1987, a Revista Forbes considerou ser “o homem mais poderoso do Brasil”.
A redação do jornal era seu templo. Um ambiente sagrado, à parte do mundo exterior. “E o que jurar pelo templo, jura por ele e por aquele que nele habita” (Mateus 23,21). Com dr. Roberto no papel de sumo-sacerdote, responsável por tudo que se passava por lá. A imagem talvez seja forçada. Mas espelha bem a especial relação que tinha com seus jornalistas, sobretudo nos negros tempos da Ditadura. Seguem alguns exemplos. Quando, no governo de Castelo Branco, o Redator-Chefe de O Globo foi pressionado a entregar nomes dos empregados ligados à esquerda, dr. Roberto interferiu, tomou para si as responsabilidades e mandou relação com nomes de todos os funcionários da empresa. Um general ligou de volta, “O senhor me mandou a folha de pagamento…”. E dr. Roberto “Quem tem que descobrir os comunistas não sou eu, são vocês”.
Juraci Magalhães, ministro da Justiça de Castelo Branco, enviou ao jornal relação com nomes dos que “não poderiam trabalhar em postos importantes da redação”. Dr. Roberto devolveu a lista com um bilhete, junto, que entrou para a história do jornalismo brasileiro: “Ministro, vocês cuidam dos seus comunistas, que dos meus comunistas cuido eu”.
Outra história envolve o Chefe de Redação Henrique Caban, em 1974. Os órgãos de informação deram ciência, a dr. Roberto, de que ele ajudava familiares de dois presos políticos, ligados ao Partido Comunista. Tudo comprovado por cheques, de Caban, depositados em suas contas bancárias. E pediram que fosse demitido. Dr. Roberto chamou Caban para conversar. “Você está ajudando esse pessoal do Partido Comunista?”. “Estou, dr. Roberto, eles me protegeram, no passado, quando eu precisei”. “Mas Caban, você tem que transferir os recursos usando cheque? Não pode ser dinheiro?”. Podia, claro. E assim passou a ser, depois dessa conversa. Valendo lembrar que dr. Roberto se esqueceu de dar notícia, aos militares, das providências que tomou. E tudo continuou como dantes, para usar o provérbio português, no Quartel-General em Abrantes.
Josué Montello, no Discurso de Recepção, confirma que ele “deu continuidade ao jornal que Irineu Marinho criou, sabendo que um jornal não constitui propriedade exclusiva de quem o comanda. Porque é, sobretudo, patrimônio de seu público. De quem o lê. De quem nele se louva. De quem diariamente se debruça sobre ele, e o interroga, e nele recolhe a opinião do jornal, transformando-a em opinião pública”. Dr. Roberto, no seu Discurso de Posse, completou lembrando “William Allen White, o editor de maior influência nos Estados Unidos, que punha de lado as hipóteses e as conjecturas. Poucos adjetivos. Poucos advérbios”. Franklin de Oliveira confirma, “Roberto Marinho tinha o domínio completo do fazer jornalístico. Chegava à redação às 4 horas da manhã e só a deixava à noite. Encarnava as três qualidades designadamente importantes, segundo Max Weber, para definir a personalidade do homem público: sentido de responsabilidade, senso de proporção e paixão”. Em seu único livro (1992), Uma trajetória liberal, disse da fé “que tinha no Brasil, um país de dimensões continentais, distribuído entre regiões distantes e distintas, ainda que indissoluvelmente ligadas por uma quase milagrosa unidade nacional”.
Poucos sabem mas dr. Roberto se dedicava, também, aos esportes. Em 1933, disputou prova automobilística na estrada de Petrópolis com um carro da marca Voisin. No final dos 1930, surpreendeu a todos com vitória no hipismo, conduzindo o cavalo Arisco. Não foi sua única. Também venceu, no Hipódromo da Gávea, com Plumazo, Tupã e Laborioso. Além de quebrar o recorde brasileiro de salto com Joá, em 1945. Sem contar que praticou caça submarina até os 80 anos. Por isso, nas conversas da redação, nunca dizia “quando eu morrer”. Era, sempre, “se eu vier a faltar”.
Em 1993, foi eleito membro nesta Academia de Letras. Até quando, traído pelo coração, morreu no Rio (06/08/2003) com 98 anos. Editorial de O Globo, no dia seguinte à sua morte, testemunhou: “Com ele, aprendemos a lição mais importante: a obra de Roberto Marinho partiu de um ideal dele, mas só pôde ser concretizada porque foi o resultado de uma aliança entre jornalistas, artistas, escritores, profissionais da cultura e o povo brasileiro. Não somente preservar, mas ampliar essa obra é o nosso compromisso. E ela será ampliada, não apenas porque este é o nosso desejo, mas porque pretendemos manter intacta esta aliança que a originou. Esta é a nossa intenção, esta é a nossa determinação, este é o nosso compromisso”.
P.S. Trecho do Discurso de Posse lido, em 10/06/2022, na Academia Brasileira de Letras.