JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

CONVERSAS DE ½ MINUTO (24)

LISBOA. Lembro conversas de livro que estou escrevendo (título da coluna). Hoje, apenas com jornalistas.

* * *

ÁLVARO MAIA, chefe da secção Estrangeiro no Diário de Notícia, de Lisboa. Em 18/11/1922 morreu, na distante Paris, Marcel Proust, consagrado autor de À la recherche du temps perdu (Em busca do tempo perdido). De pneumonia, com só 51 anos, e logo enterrado no Père Lachaise. Dia seguinte, à noitinha, chega no jornal informação suscinta da agência Havas

– Morreu o romancista Marcel Proust, que obteve o prêmio Goncourt em 1919 (não constava da notícia, mas foi por seu romance À sombra das raparigas em flor).

Ocorre que Proust era, na época, um desconhecido em Portugal. E o jornalista Acúrcio Pereira, famoso por seu “temperamento irascível” (palavras do mestre António Valdemar, no artigo Proust em Portugal), acreditou tratar-se de Marcel Prévost (autor de Demi-vierges et les anges gardiens). Decidindo os dois, ele e Maia, noticiar a morte de Prévost. Para isso, transcreveram o texto da agência com um complemento

– Onde se lê Proust, deve-se ler Prévost. Se assim é, a França perde um dos seus romancistas mais estimados.

Na manhã seguinte, os telégrafos confirmaram a morte de Proust. Notícia boa, para Prévost, que morreria só em 1941. E Álvaro Maia consertou a rata da véspera dando, em primeira página, essa manchete

– Marcel Prévost não morreu.

Mais, no meio do jornal, modesta referência ao pobre do Proust.

– O falecido romancista tem um estilo que se embrulha e ninguém entende.

• Por essas e outras dizia Fernando Pessoa (Álvaro de Campos, Manifesto), da imprensa de sua época,

– Ora porra!
Então a imprensa portuguesa é
que é a imprensa portuguesa?
Então é esta merda que temos
que beber com os olhos?
Filhos da puta! Não, que nem
há puta que os parisse.

* * *

BARBOSA LIMA SOBRINHO, presidente da ABI. Sempre que nos encontrávamos

– Como vai?, dr. Barbosa.

E ele, invariavelmente,

– Como um velho (morreu com 103 anos), meu filho, desejando que todos os órgãos envelheçam ao mesmo tempo.

* * *

CARLOS ALBERTO SARDENBERG, jornalista. No Clube dos Ingleses, depois do tênis, os jogadores conversavam. Ele

– O homem precisa de mulher para tudo.

E Betina, do grupo, completou

– Até pra ser corno.

* * *

DUDA GUENNES, filósofo. Inauguração do supermercado Pingo Doce, no Rato, pertinho de seu apartamento na Rua da Alegria. Foi cobrir o evento, como jornalista de A Bola, e o diretor do estabelecimento

– O que está a achar?

– Muito bom. Porque tem tudo que não preciso.

* * *

JOÃO ALBERTO SOBRAL, cronista. O fotógrafo Pedro Luiz, por sugestão de João Alberto, bateu retrato de certa dama. Quando foi entregar, dia seguinte, soube que havia morrido na noite anterior. A história passou a ser conhecida, nos jornais. Certo dia, chega cidadão e pede

– Quero lhe contratar para tirar uma foto de minha sogra.

• Por falar em sogras o jornal PODER, edição de 27/04/2022, deu manchete sobre Francisco

– O Papa elogia as sogras.

Mais, por baixo, esse comentário

– É porque ele nunca teve uma.

• O que faz lembrar Cantoria de Pé de Parede em que o grande Louro Branco recebeu mote, Na casa que sogra mora/ Não tem um genro feliz, e cantou assim

– Minha sogra sem respaldo
Diz nos pensamentos seus
Que meus filhos não são meus
Que tem um do Lourinaldo.
Que o primeiro é de Geraldo
E o segundo é de Diniz.
Será meu Deus que eu não fiz
Um menino até agora?
Na casa que sogra mora
Não tem um genro feliz!

* * *

JOSÉ NÊUMANNE PINTO, jornalista. Chegou para conversar com o paraibano (como ele) José Amer… Aqui um problema, que todos se referem a esse grande escritor apenas como Zé 3 Pancadas. Dado que pronunciar seu nome completo é prenúncio de catástrofe. Toda gente conhece a praga. Se o amigo leitor ainda não sabe de quem se trata basta procurar, na internet, quem seria o autor de A bagaceira. Nêumanne

‒ Como nasceu essa relação entre você e o azar?

‒ Acho até graça. O avião caiu no mar e eu já quase cego, e aleijado, fiquei sentadinho na asa. Enquanto Antenor Navarro, campeão de natação, afundou. E dizem, ainda, que sou azarado…

‒ Não, Zé, dizem que você dá é azar nos outros.

‒ Aí pode ser.

* * *

MARIA LUIZA BORGES, jornalista. No Vaticano, sala Paulo VI, ela e a mãe, a grande Mariêta Borges (em cadeira de rodas). Tudo para ver Francisco. Um camerlengo informou que os cadeirantes iriam para a primeira fila; e seus acompanhantes, que receberiam laços vermelhos, ficariam ao lado. Dando-se que notório Deputado Estadual de Pernambuco, então presidente da Assembleia Legislativa, apossou-se da cadeira de Mariêta e disparou, até lá, na esperança de bater foto com o papa. Foi quando Maria Luiza saiu correndo atrás dele, aos berros,

– Devolva minha mãe!, devolva minha mãe!.

* * *

NELSON CUNHA, jornalista. No teatro Aliança Francesa, Raul Cortez interpretava um vip de São Paulo. Sentado em poltrona, o ator pegou o Estadão e disse

– Vou ver quem morreu.

Foi quando alguém junto de Nelson, na plateia, gritou

– Hoje não morreu ninguém.

* * *

OLBIANO SILVEIRA, jornalista e editor. Seu avô, Vicente Januário, tinha uma bodega na periferia de Mossoró (RGN), especializada em fumo de rolo. Certo dia chegou por lá dona Etelvina, cliente antiga,

– Seu Vicente, o sinhô tem fumo dos forte?

O velho entregou uma nasca, para ela provar.

– Descurpe, tem mais forte?

Só que, depois de mastigar, soltou um pum daqueles históricos, monumentais. Como se não fosse a responsável, continuou

– Será que tem ainda mais forte?

– Não, senhora, o de cagar já acabou.

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A REVOLUÇÃO PERNAMBUCANA

Na próxima segunda, 6 de março, celebramos nossa Data Magna. A da Revolução Pernambucana de 1817. Para entender isso melhor, voltemos ao passado. Para lembrar que aqui se deram os primeiros movimentos pela independência do Brasil. A reação, contra a Coroa Portuguesa, ocorreu a partir de ideias iluministas propagadas no Seminário de Olinda (por isso também chamada Revolta dos Padres) e pelas sociedades maçônicas, logo disseminando-se pela sociedade. A insurreição, projetada para ocorrer um mês depois, na Semana Santa (junto com Bahia e Rio), foi antecipada pela tomada do Forte do Brum. E se deu quando o capitão José de Barros Lima, conhecido como Leão Coroado (por conta de sua calvície, em forma de coroa, com longos cabelos nos lados, mais parecendo uma juba), sacou de sua espada e varou, de um lado a outro, a barriga (o buxo, assim está nos livros) do comandante português Manuel Joaquim Barbosa de Castro, que lhe havia dado voz de prisão, cumprindo ordens do governador Caetano Pinto Montenegro – desse Caetano que o povo dizia ser pinto na coragem, monte na altura e negro nos sentimentos.

Durante 74 dias (75, para outros), Pernambuco viveu a sina de ser independente. Livre. Um governo provisório chegou a ser instalado. Tinha bandeira (a mesma de hoje, com três estrelas em vez de uma), Constituição e forte regionalismo; passando-se, nas missas, a usar hóstias de mandioca e cachaça em lugar do vinho. Seguindo-se uma repressão sangrenta. Nove líderes, em Pernambuco (entre eles, o Vigário Tenório e o Leão Coroado) acabaram condenados pelo crime de lesa-majestade. Em 10/07/1817 foram enforcados, sendo seus corpos esquartejados e arrastados, por cavalos, pelas ruas do Recife, como sinal de que insurreições não seriam toleradas pela Coroa portuguesa.

Mas não ficou só nesse episódio, nosso irredentismo. Em 1821, com a Convenção de Beberibe, Pernambuco veio a ser a primeira província brasileira a formalmente se separar do Reino de Portugal, 11 meses antes da Proclamação da Independência. Fosse pouco, em 1824, tivemos a Confederação do Equador. Um movimento republicano que questionou a Constituição de 1824. Seus líderes foram enforcados ou fuzilados. Entre eles Frei (Joaquim do Amor Divino) Caneca. Condenado à forca, todos os carrascos se recusaram a cumprir sua execução; mas, ordens são ordens, e acabou fuzilado em patíbulo armado no Forte das 5 Pontas.

Por fim, em 1848, mais um evento federalista, a Revolução Praieira, com os revolucionários presos sendo anistiados mais tarde, em 1851. Marco Maciel, a quem tive o privilégio enorme de suceder na Cadeira 39 da Academia Brasileira de Letras, em seu discurso de Posse na Câmara dos Deputados, afirmou: “Espero finalmente, nesta Casa, continuar honrando as tradições de Pernambuco, que irrigou com o sangue de heróis e mártires as virtudes cívicas de nossa gente”. Honrou, com certeza. Viva Pernambuco.

P.S. Só para lembrar, uma historinha (não sei de quem é) que começa no Vaticano. Quando um turista daqui viu, na Catedral de São Pedro, telefone dourado com a placa “Ligação direta com o Paraíso, preço 100 dólares”. Voltando ao Recife, na Igreja do Carmo, estavam o mesmo telefone, a mesma placa e uma só diferença – o preço, agora de 25 centavos. Então perguntou, a um padre,

‒ Qual a razão.

E a resposta foi

‒ Lá tem DDI, que é caro; e aqui, em Pernambuco, é ligação local.

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A MESA DE DEUS

Natal é tempo de pensar, mais ainda que em outros momentos da vida, no que vai bem dentro de cada um de nós. No mais profundo e no mais alto. Aproveito essa data, então, para falar de um livro que vi nascer. Já lançado no Brasil, este fim de ano, pela Ed. Record. Em 2023, será com a Bertrand (Portugal). E, a partir de 2024, no resto da Europa. Importante, sobretudo, porque fala nos começos do homem, “com a violência dos primeiros tempos convertida em justiça, compaixão, misericórdia, perdão”. O que tem tudo a ver com esse tempo do Natal, especialmente por ser um modelo de fraternidade. A partir, e nisso é original, dos alimentos que estão na Bíblia. Por mais de 10 anos, todos os dias (incluindo finais de semana), já às 5 da manhã, Maria Lectícia estava trabalhando nele. Na busca (infrutífera, por sermos humanos) pela perfeição. E o resultado foi compensador, por favor acreditem. Pretendia hoje, véspera do Natal, falar desse livro, A mesa de Deus. Mas prefiro transferir essa tarefa ao Cardeal Dom José Tolentino Mendonça. Que o conhece tão bem quanto eu. São dele as palavras que se seguem, tiradas de apresentação do dito livro (uma pequena parte dessa apresentação, apenas). Passo a palavra, então, ao Cardeal.

“Na arquitetura de muitas casas há duas portas: aquela principal, a mais utilizada, por onde circulam os hóspedes com quem fazemos cerimônia; e a porta de serviço que, normalmente, dá acesso direto à cozinha, por onde passam apenas aquelas pessoas que têm grande familiaridade com a casa. Num primeiro relance, poderá parecer estranho um livro que se ocupa dos alimentos e da cozinha da Bíblia: Não é essa a entrada de acesso principal, diríamos todos. A verdade é que sendo, incontestavelmente, o livro mais conhecido e frequentado do mundo, uma parte significativa dos seus leitores ainda faz muita cerimônia. Isto é, ainda não se acentuou numa imersão total na Escritura, aliás, como a própria Bíblia reclama que façamos. Não é por acaso que, para construir este fascinante volume, Maria Lectícia Monteiro Cavalcanti precisou de mais de uma década. É preciso colar-se à letra do livro, pele com pele, valorizá-lo com aquela atenção intransigente, humilde e interminável que nos dá o amor.

“A cozinha é um aspecto da casa. A sua grandeza vem de se colocar ao serviço, está na arte de secundar. Inesquecível e elegante arte, devemos dizer. Este livro não compete com os dicionários, as concordâncias, os comentários que fazem habitualmente a riqueza da biblioteca que suporta a hermenêutica bíblica. Junta-se a eles como mais um instrumento, como mapa para o prazer de ler. Este livro participa desse esforço coral de pesquisa. Que uma mesa não é só uma mesa. Também por isso, para os leitores da Bíblia, o livro de Maria Lectícia oferecerá estratos complementares de conhecimento: constitui uma espécie de micro-história da Bíblia.

“A cozinha é uma máquina de suscitar desejo. Não nos devemos admirar que uma das últimas palavras de Jesus tenha sido: Desejei ardentemente comer esta Páscoa convosco (Lc 22, 15), associando sabiamente a refeição do desejo. A cozinha e a mesa não reduzem o mundo: ampliam-no supreendentemente. Para quem quiser ver, a alimentação é um tema particularmente denso, onde avultam e se colhem alguns dos códigos mais intrínsecos das culturas. Quando se chega a perceber o conteúdo e a lógica da alimentação, a ordem que regula a cozinha e a mesa (o que se come, como se come, com quem se come, o significado dos diversos lugares e funções à mesa…), alcança-se um saber antropológico determinante, dos outros e de nós próprios. Maria Lectícia escreveu este livro também para que nós pudéssemos ler.

“Por outro lado, se atendermos à massa impressionante de prescrições culinárias presentes na Bíblia, não nos parecerá despropositado e excêntrico que se fale de uma autêntica teologia alimentar ou se identifique no texto sagrado judaico e cristão um esplêndido catálogo de receitas. De certeza que a escrita deste livro alterou a percepção que a sua autora tinha da Bíblia, e poderá alterar a dos leitores. Mas no melhor dos sentidos. Tornando de casa o leitor, ajudando-o a perceber a articulação entre saber e sabor, convocando-o para uma familiaridade com este texto inesgotável, desconstruindo o automatismo das leituras abstratas e gnósticas que olham para a Bíblia como um livro de verdades, onde a letra é relativizada e desconhecida.

“A torrente de passagens bíblicas referentes a alimentos e à mesa que Maria Lectícia Monteiro Cavalcanti, com mão informada, com mão pacientíssima e brilhante, aqui revisita não são, portanto, uma marginalia destinada a ser etiquetada sob a categoria de curiosidades ociosas. Entrar na Bíblia pela porta da cozinha é um argumento mais sério do que se possa supor. E também é espiritual. O título escolhido para esta obra está certo. E o livro dá a provar o que promete. Maria Lectícia Monteiro Cavalcanti oferece-nos aqui uma daquelas experiências que não vamos querer esquecer”.

PS. A todos e cada um desejo, com o coração, um Natal que seja esplendoroso. Feliz Natal, pois.

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FUNÇÃO SOCIAL?, EIS A QUESTÃO

O Estatuto da Cidade (de 2001) permitiu, ao Poder Público, determinar “parcelamento, edificação ou utilização compulsória do solo urbano, sub-utilizado ou não”. E, por mais de 20 anos, governos de Estado e Prefeituras nunca editaram nenhuma regra para lhe dar efetividade. Até que o governo petista do Rio Grande do Norte fez lei, neste sentido, e muitos decidiram imitar. Aqui foi a Prefeitura do Recife, com a Lei 18.966 (de 26/06/22). Melhor explicar. Com essa lei, por decisão da Prefeitura, inclusive usando um IPTU progressivo no tempo, o proprietário pode perder o direito de propriedade sobre seu bem. Ocorre que há dois problemas sem solução, nessa invenção – mais uma rima sem solução, com licença de Drummond.

Primeiro Problema é que isso ocorreria quando o imóvel não estivesse cumprindo a “função social da propriedade”. O que nos leva a examinar a questão jurídica da utilização dessa tão falada, e pouco entendida, “função social”. O conceito de uma “função social”, que daria fundamento ético ao exercício do direito de propriedade, tem origem no pensamento católico do início do século 20. Sobretudo com os dois Jacques, Maritain e Mounier. Entendida essa função, à época, como “compromisso” baseado na consciência individual. Um “serviço” em função do bem comum. Reverenciada como importante novidade jurídica, acabou incorporada à Constituição alemã de Weimar (1919) – fortemente influenciada pela prática social-democrata de então.

Apesar do interesse teórico despertado, na Alemanha, acabou tendo nenhum significado prático. Por serem, as objeções técnicas que recebeu, fortes demais. E logo foi reconhecida, pelo judiciário do país, apenas como um simples critério de interpretação. E aplicável, somente, aos meios de produção. Sendo esse conceito, mesmo aqui, insuficiente: porque, segundo o renegado Kautsky (The economic doctrines), “a teoria marxista distingue meios de produção e terra”.

Entre as correntes teóricas que foram a partir de então se formando, no mundo, chegou a ganhar força a ideia de um “direito-função”, em que a propriedade mereceria garantia só quando exercida em proveito da coletividade. Contra a tradição liberal dos direitos subjetivos, que reconhece esse direito independente de qualquer controle de valor. Mas também essa ideia foi, em pouco tempo, abandonada. Basicamente, por conta da ausência de consensos mínimos em relação ao conteúdo que poderia configurar uma “função” dita “social”. Sendo o conceito, na literatura jurídica, definido como “vago”, “fluido”, “apenas um princípio”, “causador de embaraços tortuosos aos juristas”.

Talvez por conta dessas dificuldades técnicas é que seu reconhecimento acabou sendo limitadíssimo. Na Itália por exemplo, apesar de debates candentes (por quase 2 anos, basta ver as atas das reuniões preparatórias), não foi incorporado ao Código Civil de 1941. Constando, sem que se entenda, na Constituição de 1947. Talvez porque, aliada da Alemanha na Segunda Guerra, decidiu o governo italiano copiar a Constituição do país amigo. Em solitário enunciado, sem nenhuma regra de aplicação. Dando-se que logo depois, numa espécie de ironia, a nova Constituição alemã de 1949 acabou substituindo esse conceito de “função social” pela ideia de uma propriedade vinculada apenas “ao bem comum”. Mas já era tarde; e ficou, na italiana, sem nenhuma função. Não está na Constituição portuguesa, de 1976. Mas sim na espanhola, de 1978, por conta da influência da Constituição Italiana em sua redação. Novamente aqui, como antes, só um enunciado. Sem uma única regra de aplicação. E, mesmo quando reconhecida nestes dois países, é só um mero princípio. Sem que lhe deem qualquer substância, seus ordenamentos jurídicos.

Pela Constituição brasileira de 1946, a propriedade deveria servir ao “bem estar social”. Passando a ter, na Constituição de 1967, fundamento na tal “função social de propriedade”. A redação foi mantida, na Constituição de 1988. Ocorre que dita expressão “social”, em nossa nova Constituição, tem conceito não unívoco. Basta ver que, nos seus 7 primeiros artigos, aparece com 8 significações muito diferenciadas. Sem que seja generalizada, sua aplicação. E nosso judiciário, a partir daí, vem reconhecendo inclusive possa, uma simples preservação da natureza, cumprir a “função social da propriedade rural”. Mesmo quando não lhe dê, o proprietário, qualquer uso. Sobram dúvidas. Se referência dessa função social for o tamanho do bem, uma grande propriedade poderia ser sempre expropriada. Mesmo quando produtiva. Mas também o seria um edifício, uma fábrica, um shopping center. Se for produtividade, pequenos espaços estariam também em risco. No campo e nas cidades. Se for qualidade no uso, então, o dissenso seria amplíssimo. Havendo casos, inclusive, em que uma dessas referências poderia ser atendida, enquanto outras não o serão. Sem caminhos seguros a seguir, pois, no tema.

No mais, em nosso ordenamento jurídico, vai tendo um tratamento caótico. Surge no Estatuto da Cidade (2001). Mas é abandonada no Código Civil (2002), substituída por uma “finalidade social”. Decididamente não há unidade, no tema. Assim, para dar mínimos de dignidade ao conceito, é preciso produzir previamente algum tipo de consenso em relação ao seu conteúdo. Se fosse possível, bom lembrar. E não é.

O segundo problema é o instituto da Retrocessão (Código Civil, art. 519). Quando o Poder Público “não der, ao bem, o destino declarado no ato expropriatório” (Hely Lopes Meirelles, Direito Administrativo Brasileiro). Regra que tem uma única exclusão, o Decreto-Lei 3.365/41 (art. 5º), destinado a loteamento populares. Em bom português, o Poder Público pode apenas fazer, nos referidos imóveis expropriados, ditos loteamentos. Só isso. Nem conjunto populares, nem Casa Verde Amarela (Minha Casa/Minha Vida), nem outros projetos, nada. O que significa uma escassíssima utilização possível do bem arrancado ao seu proprietário. Porque, em qualquer outra situação pensada, o imóvel vai acabar voltando ao anterior proprietário. Em razão da já dita Retrocessão.

Por tudo, então, deveria nossa Prefeitura ver esse tema com mais atenção. E esquecer. Como dizia o ministro vice-presidente (em 1937) do Supremo, Eduardo Spíndola, “quando se vai demasiado longe, o progresso consiste em regredir”. Até porque já se prevê o que vai acontecer. Será só mais uma Lei que não vai funcionar. Salvo servir como propaganda política para render alguns votos, aos gestores públicos, nas próximas eleições. É pouco, escusas. Não vale a pena.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

TODOS JUNTOS, VAMOS

31.05.1970, Santiago do Chile. Era o que não faltava por lá, exilados brasileiros tinha para todos os gostos. De Pernambuco, também. Como o engenheiro João Baltar (filho de Antônio Baltar, funcionário da ONU), o estatístico Ricardo Tavares, o economista Sérgio Buarque (irmão de Cristovam) ou minha irmã Maria Lia, depois diretora da Comunidade Econômica Europeia (e, hoje, casada com Jean Paul, administrador de hospitais em Paris). Não só eles. Também o almirante Aragão e antigos militares, sobretudo cabos e sargentos da Marinha. Líderes estudantis como Cezar Maia, Darcy Ribeiro, José Serra, o presidente da UNE Luiz Travassos (e sua mulher Marijane) além de Ferreira, líder dos ferroviários e diretor da Caixinha – formada por parte dos salários de todos os companheiros, que servia para garantir aluguel e supermercado aos muitos que continuavam chegando por lá. Ocorre que ia começar, no México, a Copa do Mundo. E os exilados (parte desses acima referidos) estavam em dúvida. Se deveriam naquele dia torcer pela seleção, como sempre aconteceu antes. Ou, ao contrário, melhor seria dar preferência aos interesses da Democracia, pisoteados pela Ditadura de 1964?, eis a questão. E acertaram que a questão seria decidida em Assembleia Geral, claro, era o estilo daquela gente. E daquele tempo. A decisão do grupo, então, foi torcer contra. Seja. Dá para entender.

Primeiro jogo, logo contra a Tchecoslováquia (que, hoje, nem existe mais, desde 1993 passando a ser dois países, República Tcheca e República de Eslováquia). Um governo socialista, o que ajudou muito a decisão da Assembleia. Na hora de começar o jogo, todos colados no radinho. E veio o primeiro gol dos inimigos, aos 11 minutos, de Ladislav Petrás. Com grande comemoração. Problema é que logo depois, aos 24, veio gol de Rivelino, 1 x 1. E alguns vivas perdidos se ouviram, entre os exilados. Até que logo em seguida, aos 59, veio o de Pelé, matou no peito e rede. Além, aos 61 e aos 81 minutos, mais dois de Jairzinho, 4 x 1. Festa retumbante, no local. Todos, em lágrimas, comemorando a pátria distante, saudades do Brasil, da fraternidade, do estar juntos como era em todos os jogos por aqui.

Ocorre que aquela festa estava em desacordo com a decisão da Assembleia Geral. Solução foi fazer outra, na hora, para decidir o que fazer para os próximos jogos. E a decisão, por unanimidade, foi esquecer a Ditadura e torcer pela seleção. O que se deu até os 4 x 1 contra a Itália, na partida final. Brasil, mais uma vez, campeão do mundo.

Lembro esse episódio ao ver o que acontece, hoje, com a seleção. Ainda com dois grupos nas ruas, se digladiando, como se a eleição não tivesse existido. Há os que veem, no mar de camisas amarelas que estão por toda parte – nos estádios do Qatar como em nossas ruas – o símbolo de partido que concorreu nas últimas eleições. O que, perdão, não faz sentido, por serem as cores do Brasil. Não é patrimônio de ninguém. São os mesmos que xingaram o querido Gilberto Gil, e sua mulher Flora, num estádio da Copa. Falta de educação. Ou, apenas, sectarismo. E há, de outro lado, os que torcem contra. Sobretudo porque Neymar, nosso melhor jogador, votou em Bolsonaro. Um amigo querido me confessou isso, inúteis os argumentos que tentei para demovê-lo. E até a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, em berros desvairados ao vê-lo machucado, ficou gritando, enlouquecida, “já vai tarde”, “já vai tarde”. Prova, inclusive, de que essa louca (futebolisticamente falando, claro) não entende nada do jogo. Basta ver a falta que Neymar fez ao time, segunda passada.

Lembro texto de Miguel Torga que vale como um prenúncio “Ontem eram ideias contra ideias. Hoje é este fraterno abraço a afirmar que acima das ideias estão os homens” (Diário Íntimo). Nessa linha, por mim, vejo essa Copa como uma benção. A chance de que os brasileiros voltem a estar mais juntos. Esquecendo a política. Imitando aqueles exilados confinados em Santiago do Chile. É uma oportunidade única, senhores, definindo melhor nosso futuro. Por isso, completando o hino de Miguel Gustavo, mais tarde vou gritar “Pra frente Brasil, salve a seleção”.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

TRISTE DEMOCRACIA

1964. Em Santiago do Chile, Adão Pereira Nunes, Fernando Gasparian. Fernando Henrique Cardoso, Tiago de Mello, entre outros exilados. Alguns já então condenados, outros quase. E, naquela reunião tensa, Darcy Ribeiro contou como, no fim do Governo Jango, se sentiu com “poderes imperiais”. É que o presidente da República voara para o sul do País, acompanhado pelo chefe da Casa Militar, o general Assis Brasil. O ministro da Marinha pediu demissão. O ministro da Guerra, Jair Dantas Ribeiro, gravemente enfermo, estava no hospital. O que fazia de Darcy, chefe adjunto da Casa Militar, o comandante supremo das Forças Armadas. Ao grupo, declarou

– Foi quando tive a agradável sensação do poder absoluto.

Após o que Celso Furtado concluiu

– Agora está explicado porque estamos aqui.

Penso no episódio ao perceber que são outros, hoje, os detentores desse “Poder Imperial”. Como o Supremo; que, segundo a Constituição (art. 102), pode “I. Processar e julgar ações de inconstitucionalidade; II. Julgar, em recurso ordinário, habeas corpus e crimes políticos; III. Julgar, em recurso extraordinário, causas em única e última instância”. Só julgar. O que não o impede de ir muito além, eis a questão.

Agora, por exemplo, temos um caso de corrupção na Fundação Getúlio Vargas. A Polícia Federal apurou desvio de 4,7 milhões, beneficiando seus gestores. E o ministro Gilmar Mendes, em decisão monocrática (única Corte do mundo em que isso corre), simplesmente proibiu qualquer investigação. Como pode? O Supremo apenas julga, segundo a Constituição. Nem pode investigar (como no ilegal inquérito de A. Moraes), nem pode impedir investigação de polícia ou MP. É um escândalo, senhores. Mais um. A sagração de impunidade. Isso não é Democracia. Saudades de Darcy.

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MANIAS DE ESCRITORES (2)

Lisboa. Seguem mais algumas, nesta breve série. Começando pelos charutos, que tiveram sempre seus devotos. Como Cabrera Infante, Carrol, Chandler, Conan Doyle, Conrad, Dafoe, Dickens, Freud, Hemingway, Lorca, Mallarmé, Mark Twain, Pessoa, Poe, Stefan Zweig, Stevenson, os irmãos Max. O café da manhã de Churchill era charuto e uma taça de champanhe. Cabrera Infante (Tristes tigres) falou dos momentos em que se sentia feliz, “É quando fumo meu charuto em paz, tranquilo, na escuridão. O que antes era uma guerra, transformando-se agora em brasas civilizadas que brilham na noite como o farol da alma”. Machado de Assis os sauda (Linha reta e linha curva), “O charuto é um verdadeiro Memento Homo: convertendo-se pouco a pouco em cinzas vai lembrando, ao homem, o fim real e infalível de todas as coisas: é o aviso filosófico, é a sentença fúnebre que nos acompanha em toda parte”.

Kipling escreveu poema, The betrothed (O comprometido), que começa com ameaça da mulher “Você terá que escolher: ou seus charutos ou eu”. E ele mesmo respondeu com o famoso verso A woman is only a woman, but a good cigar is a smoke. Após o que, bom dizer, preferiu ficar com os puros. George Burns, quando completou 100 anos, disse que se tivesse obedecido as ordens para deixar de fumar e talvez não tivesse vivido o bastante para comparecer ao funeral do seu médico. Sem esquecer que Hitler, por ser o primeiro chefe de Governo a proibir que se fumasse em sua frente, seria (segundo Cony) o Patrono do Antitabagismo de hoje. Só para lembrar também não fumavam Mussolini, Salazar e Kadafi.

James Joyce passava quase todas as noites nos bares; e, quando amanhecia, cantava canções irlandesas, com sua voz de tenor, para desespero da vizinhança. Já Nelson Rodrigues, o Anjo Pornográfico – segundo o confrade, na ABL, Ruy Castro ‒ por estranho que possa parecer era um pudico e nunca dizia palavrões. Pablo Neruda só escrevia com tinta verde. Goethe, Lewis Carroll, Victor Hugo e Virginia Wolf o faziam em pé. Vinicius de Moraes, como Agatha Christie e o dr. José Paulo (pai), em banheira com água morna. Proust, George Orwel e Truman Capote, deitados. O mesmo Capote, supersticioso, que jamais deixava no cinzeiro mais que três guimbas de cigarro; e, o que passasse desse número, punha no bolso do paletó.

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CONVERSAS DE ½ MINUTO (27)

Lisboa. Escrevo essa coluna como membro da Academia Pernambucana de Medicina (mesmo sendo só advogado), uma honra enorme. Hoje, conversas apenas com médicos.

* * *

ANTÔNIO MIRANDA, cardiologista. Chamaram para ver paciente com derrame. Fez todos os exames e deixou, como diagnóstico, um curto bilhete

– Irineu, bem. Mas Irene vai ficar viúva, logo.

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CARLOS ROBERTO MORAES, cirurgião cardíaco. No dia em que comemorou 80 anos, fez uma última operação e se aposentou como cirurgião, depois de carreira consagradora. Então lembrou do grande cirurgião canadense Pierre Grodin que um dia lhe disse

– Somos como bailarinos, amigo, e precisamos deixar o palco antes do primeiro tombo.

* * *

GAUDÊNCIO TORQUATO, jornalista. Contou que na cidade de Luís Gomes (RGN), onde nasceu, o médico João Izidro atendeu velhinha que se queixava de incômodos no corpo todo

– A senhora tosse?

– Às vezes sim, às vezes não.

– Tem dor de cabeça?

– Às vezes sim, às vezes não.

– Sente febre?

– Às vezes sim, às vezes não.

O médico, já irritado com as respostas, escreveu a receita. E a velhinha

– O que devo fazer?

– Tome o remédio às vezes sim, às vezes não.

* * *

GERALDINHO CARNEIRO, da ABL. Clínica Sorocaba, foi fazer exame da próstata. No consultório, só ele e o proctologista. Ana Paula Pedro, sua mulher, ficou numa saleta contígua. O doutor, no momento crucial, perguntou

‒ Está incomodando?

E Geraldinho, querendo ser simpático,

‒ Não, está ótimo.

Foi quando sua mulher, de onde estava, gritou

‒ Que história é essa de “está ótimo”???

* * *

GIOVANNI SCANDURA, publicitário. Viu duas irmãs suas conversando sobre a morte.

– Geórgia, eu quero morrer!

– Que nada!, Célia, tu vai aos médicos todos os dias… Como posso acreditar?

IARA, dentista. Chega, no consultório, uma jovem com dentes lindos. Apesar disso, pede

– Por favor arranque todos.

– Não posso, minha senhora, que seus dentes são perfeitos.

– Ainda assim tire, por favor.

– Mas por quê?

– Eles fedem.

Não era verdade. Só impressão. E Iara não resistiu

– Minha filha. Se não quiser ficar com nada que feda, no corpo, melhor começar jogando fora seu cu.

* * *

REINALDO OLIVEIRA, cirurgião. Batem no portão e Maroca, patrimônio da casa, vai ver quem é.

– Reinaldo está?

– Saiu prá operá.

– Pode me dar o telefone dele?

– Posso não, sinhô, que o dotô usa todos os dia.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

A BICICLETA

Lisboa. Já que domingo tivemos eleição, segue uma historinha das urnas. Em 1990, Homero Lacerda era já empresário de sucesso. E João Batista vigia de uma das suas empresas – a HSL Engenharia, aqui no Recife. Dando-se que Homero botou na cabeça que iria ser Senador ‒ sem perceber que “há distância entre intenção e gesto”, como dizia o português Ruy Guerra (em Roda Viva). E, engraçado, quase foi mesmo. Mas a Lei Eleitoral daquele tempo exigia que seu Partido, para ter candidato a Senador, também tivesse um a Governador. E, como foi disso informado só nas últimas horas do registro da chapa, já não havia ninguém, na sala, para assinar a ficha. E acabou sendo escolhido João Batista, que acabou candidato ao governo de Pernambuco. Dá pra acreditar?

Não tivemos o prazer de ver sua foto. Nem de ouvir sua voz. Por medo que algum jornalista o entrevistasse, e com receio do ridículo das declarações que daria, Homero deportou o pobre homem para São Paulo, onde permaneceu até a eleição. E voltou, só depois, à vidinha de sempre. Tudo parecia indicar que ninguém mais ouviria falar dele. E assim seria mesmo, não fosse a teimosia de Geraldo Freire. Para ele, Pernambuco tinha direito de ouvir a voz de quem quase foi seu governador. Razão pela qual ofereceu uma bicicleta ao ouvinte que conduzisse o ex-candidato até a Rádio Jornal, para ser entrevistado. Os eleitores de Pernambuco não sabiam quem era João Batista. Mas os vizinhos, de tanto sua mulher alardear o fato, sim. Afinal, em seus delírios, corria o risco de ser Primeira Dama. E formou-se um tumulto na porta de sua residência, em Santo Amaro, com todos querendo ganhar a tal bicicleta.

João Batista acordou com o alvoroço. Ao saber daquela oferta, vestiu-se apressado, pulou o muro por trás de casa e foi correndo até a Rádio. Entrou esbaforido no estúdio e pronunciou palavras com as quais ficou famoso, por aqui ‒ “Bons dia, dotô Geraldo, eu sô João Batista. E quem trouxe mim foi mim mesmo. Agora, mim dê a bicicreta”. Fugit irreparabile tempus, dizia Virgilio. E seguiu a vida. Na eleição seguinte, Homero acabou vereador do Recife. E João Batista continua seu vigia. Para ele, nada mudou. Na última vez que o vi, manhãzinha cedo, voltava para casa depois do trabalho. Pedalando a bendita bicicleta que ganhou na Rádio. Assobiando. Era um homem feliz. Viva a Democracia brasileira.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

QUE…

Porque amanhã será sábado, nesse finzinho de campanha eleitoral vamos ocupar as ruas. Democracia vive mais nelas que nos quartos escuros. Como disse em 1913 Louis Brandeis, justice da Suprema Corte Americana, “A luz do sol é o melhor desinfetante”. Vale a pena, então, discutir, tentar convencer os amigos, até brigar, dentro de limites razoáveis. Depois virá domingo. Lembrando Vinícius (Dia da Criação), quando “Bondes andam em cima dos trilhos/ E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na cruz para nos salvar”. Como todos os domingos, dia de almoçar com a família, do biriba, das maledicências, de descansar, “de vadiar” como ensinava Ascenso (Filosofia). Só que, diferente de tantos domingos, neste vamos votar. A favor ou contra, pouco importa. Só não entendo é votar nulo ou em branco, uma omissão imperdoável que ofende a Democracia. Mas dia seguinte será segunda. Foi sempre assim e sempre será, até o fim dos tempos. O dia da lua (lunes, lunedi, lundi, moonday). Um tempo de esquecer o passado que passou e olhar em frente, visando esse “futuro que eu sem conhecer adoro”, dizia Pessoa (Caeiro, no Guardador). Vênia, então, para profissão de fé a ser exercida, por todos, já nesta segunda:

Que o eleito, seja quem for, tenha consciência de que ganhou mas não ganhou, realmente. Que herdou um país dividido em dois, ao meio, fraturado. E compreenda que seu maior papel, bem mais que qualquer outro, será pacificar os brasileiros.

Que, de nossa parte, sejamos pacientes com o governo que for eleito, qualquer que seja, dando-lhe um pouco da tranquilidade. Ao menos por alguns meses. O Brasil precisa disso.

Que possamos exercitar o otimismo não como reflexão, mas como sentimento; que otimismo não é razão, mas emoção. A gente não está ou deixa de estar otimista; mas é ou não é. E seria bom que todos (ou quase todos) fossem.

Que possamos voltar a conversar com menos certeza e maior paciência, menos ressentimento e maior afeto, trocando nãos por sims, falando menos e ouvindo mais.

Que todas as velhas amizades, rompidas pela política, sejam retomadas.

Que o Náutico se prepare bem para ser campeão da série C, com a benção de Deus.

Que, sobretudo, possamos celebrar continuamente a epifania radiosa da vida em cada instante com trabalho, promessas, tristezas (poucas), alegrias muitas, incertezas, mistérios, sonhos generosos.