JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

CONVERSAS DE ½ MINUTO (29) ‒ CANTADORES

Mais conversas em livro que estou escrevendo (título da coluna). Como é São João, dia de festa no Nordeste, hoje só com nossos cantadores,

CÂMARA CASCUDO, escritor. No terraço de sua casa na Rua Junqueira Aires (bairro da Ribeira, Natal), próxima da Praça das Mães, dois cantadores esperavam para se apresentar. Foi quando um deles viu besouro cascudo pousar nos ombros do mestre e pegou na viola

– Estou vendo dois cascudos
Um do outro é diferente
Um não tem raciocínio
O outro é inteligente
No mato cascudo é bicho
Na praça Cascudo é gente.

GERALDO AMÂNCIO PEREIRA, cantador (de Cedro, Ceará). Pediram que cantasse as glórias da ciência e ele

‒ O mundo se encontra bastante avançado
A ciência alcança progresso sem soma
Na grande pesquisa que fez no genoma
Todo corpo humano já foi mapeado.
No mapeamento foi tudo contado
Oitenta mil genes se pode contar
A ciência faz chover e molhar
Faz clone de ovelha
Faz cópia completa
Duvido a ciência fazer um poeta
Cantando galopes na beira do mar.

IVANILDO VILANOVA, cantador (de Caruaru, Pernambuco). Com muita honra, para mim, sou padrinho de uma de suas duas filhas, Indira Essênia. É dele essa Cantiga de Conselho

‒ Você pode no muque arrebentar
Seja a porta da frente, ou da dispensa
Mas apenas pedindo com licença
Ela pode se abrir, você passar.
Me perdoe diga sempre quando errar
Não é feio ninguém ser educado
Nem humilde, gentil, ou delicado
O contrário é que é constrangedor
Por favor diga sempre por favor
E obrigado por dar muito obrigado.

JOÃO PARAIBANO (João Pereira da Luz), cantador (do Sítio Pinica-Pau em Princesa Isabel, Paraíba). Fazia cantoria com Rogério Menezes (de Imaculada, Paraíba, embora tenha desde menino vivido em Caruaru), quando um cidadão botou dinheiro na bandeja e pediu que falassem mal das esposas, um do outro. Com as próprias presentes! João não se fez de rogado e acabou sextilha dizendo

‒ Não sei como tu aguentas
Uma mulher brava e feia.

Rogério respondeu

‒ A minha mulher é feia
Porém digna e singela
Sua mulher é bonita
Entre todas a mais bela
Por isso que muitos ursos
Estão pulando a janela.

E João completou

‒ A minha mulher é bela
Estando vestida ou nua
Mais parece uma sereia
Quando desfila na rua
Melhor ser corno da minha
Do que marido da tua.

JOSÉ CARDOSO, cantador (de Encanto, Rio Grande do Norte). O amigo Sebastião Dias, cantador e prefeito de Tabira (Pernambuco), acabou uma décima dizendo que não iria perder tempo cantando com poeta analfabeto, “Afinal sou um Doutor”. E Zé Cardoso respondeu

‒ Aprendi a cantar sem professor,
Com a graça de Deus eu sou completo
Você vem me chamar de analfabeto
Exibindo diploma de Doutor.
No congresso que eu for competidor
Vou ganhar de você por 10 a 0
Bastião, eu vou ser muito sincero
Se eu deixar de cantar não sou feliz
Ser poeta eu sou porque Deus quis
Ser doutor eu não sou porque não quero.

LOURIVAL BATISTA (Louro do Pajeú), cantador (de São José do Egito, Pernambuco). Numa cantoria deram mote, mulher, e ele cantou assim

‒ Um cientista profundo
Me perguntou certa vez
Se eu conhecia os três
Desmantelos desse mundo.
Eu respondi num segundo
Doido, mulher e ladrão
E dou-lhe a explicação:
Doido não tem paciência,
Ladrão não tem consciência,
Mulher não tem coração.

OLIVEIRA DE PANELAS, o Pavarotti dos Cantadores, assim é conhecido (de Panelas, Pernambuco). No Bar Savoy, onde Carlos Pena Filho escreveu seu famoso poema Chope

– Por isso no bar Savoy
O refrão é sempre assim:
São trinta copos de chope,
São trinta homens sentados,
Trezentos desejos presos,
Trinta mil sonhos frustrados.

Cantoria com Otacílio Batista, irmão de Dimas e Lourival. Ali, fui testemunha de uma cena inacreditável. E, na hora, lhe mandei esse bilhete

– Meu amigo Oliveira
Pare, sinta, escute e veja
Otacílio pegou 20
Quero que Deus me proteja
Mas nunca vi cantador
Roubar a própria bandeja

Pois no calor da peleja
Como quem bebe aguardente
Comeu o teu queijo frio
Bebeu o teu café quente
E o que era teu e dele
Ficou foi dele somente.

SAUDADE. É tema recorrente nas cantorias. Seguem, aqui, três belos exemplos de sextilhas. A primeira de Severino Pinto (de Monteiro, Paraíba)

‒ Essa palavra saudade
Conheço desde criança
Saudade de amor ausente
Não é saudade, é lembrança
Saudade só é saudade
Quando morre a esperança.

E as duas restantes de Antônio Pereira (de Livramento, Paraíba), conhecido como O Poeta da Saudade

‒ Saudade é um parafuso
Que quando na rosca cai
Só entra se for torcendo
Porque batendo não vai
Depois que enferruja dentro
Nem distorcendo não sai.

‒ Quem quiser plantar saudade
Primeiro escalde a semente
Plante num lugar bem seco
Onde o sol bata mais quente
Que se plantar no molhado
Quando nascer mata a gente.

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O POETA É UM FINGIDOR?

Semana passada, o querido amigo João Humberto Martorelli citou verso do poeta Fernando Pessoa, “O poeta é um fingidor”. Continuo no tema e já digo que o poema foi escrito em 1º de abril de 1931. Com originais guardados, na Arca do autor, em maço com título Itinerário. Ao companheiro de noitadas e primeiro biógrafo João Gaspar Simões logo manda cópia e dois dias depois rabisca, num papel velho, “é por ser mais poeta que gente que sou louco?” (todos os textos aspeados, sem outras referências aqui, estão nos escritos de Pessoa).

Foi publicado no número 36 da revista Presença, em novembro de 1932. Irene Ramalho Santos constata ser “o poema de Pessoa mais citado e analisado”; e ainda observa que “ao contrário da grande maioria dos poemas de qualquer heterônimo, não é escrito na primeira pessoa do singular”. A dualidade começa no seu próprio título, Autopsicografia, que psicografia é descrição psicológica de uma pessoa e também escrito sugerido por um espírito desencarnado. Para quem (ainda) não conhece, é esse:

O Poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.

A ideia não é original. Na Grécia Antiga Arquíloco (712-664 a.C.), criador dos versos âmbicos (com duas sílabas, uma curta, outra longa), escrevera “seco de inspiração mas não de sentimento”; enquanto, em 1635, o militar e sacerdote espanhol (Pedro) Calderón de La Barca (1600-1681), no seu La vida es sueño y los sueños sueños son, disse “O poeta que em grã dor não teve sorte/ Chora fingindo, e toca-nos tão fundo”. São muitas as interpretações para tais versos.

Considerando que “fingir a qualidade de uma dor que deveras se sente é aquilo que se atinge quando o fingimento é mais completo” ‒ assim o tem Manuel Gusmão. Ou sugerindo que “não se trata de simular, mas de sublimar, que o leitor não sabe nada acerca do sentimento do poeta” ‒ segundo August Willemsen. Ou indicando “o reconhecimento da dor como base imprescindível da criação poética”, incorporando esse fingimento ao seu próprio estilo ‒ palavras de Gaspar Simões. Agora, o mestre Martorelli os acompanha sugerindo se tratar de “hipocrisia, cinismo, deslealdade”.

Todos considerando “fingir”, acabamos de ver, como o ato de falsear a realidade. A quem leia o poema com essa percepção, bom lembrar advertência do próprio Pessoa: “A essência da ironia consiste em não se poder descobrir o segundo sentido do texto por nenhuma palavra dele; deduzindo-se parecer, dito segundo sentido, do fato de ser impossível dever o texto dizer aquilo que diz”. Sigamos nessa trilha.

Para começar, já se pode perceber que o problema desse aparente equívoco pode ser pressentido em sua simples leitura. E está na primeira estrofe. Posto que se o poeta finge uma dor é porque não a sente “deveras”; ou, em sentido contrário, se a sente mesmo de verdade, então é que (ao menos) a partir desse momento não finge. Pouco importando que, no começo fingida, tenha mesmo a dor se convertido fisicamente em real; porque, a partir do momento em que passa a ser real, em que é sentida fisicamente, então deixa de ser fingida. Sendo impossível à frágil condição humana fingir, e ao mesmo tempo não fingir, uma única e mesma dor. A explicação estaria, portanto, não nos sentimentos do poeta; mas no fato de que, com enorme frequência, Pessoa escrevia por códigos. Brincando com o preciso, ou impreciso, sentido das palavras.

Dando-se que o verbo fingir teria no texto, diferentemente do seu significado hoje corrente, o sentido de exprimir. Ou ainda mais propriamente, e retomando seu significado arcaico, o de construir. Mário Sacramento, como os amigos Cleonice Berardinelli e Richard Zenith, também assim consideram. Fingir vem do latim fingere, equivalente a modelar em barro, esculpir, formar, construir.

Com este preciso sentido de construir está, inclusive, no provérbio latino Humus de qua finguntur pocula (Terra de que se fazem os corpos). Ou na bem conhecida expressão, própria da língua portuguesa, areia de fingir ‒ aquela de jazida, branca, que se usa para fazer argamassa. Areia de construir, portanto. E, no fundo, que seria o fingimento senão a construção de uma nova realidade? Sem contar que, segundo o próprio Pessoa, “a única arte verdadeira é a da construção”.

Não só isso. A explicação, como veremos, talvez seja mais simples ainda. Começemos por lembrar que a partir de fins do século XIX, e até os anos 1940, tivemos o apogeu da belle époque por toda a Europa. Em Portugal também. As casas eram decoradas, num estilo art nouveau, com paredes das salas pintadas à mão reproduzindo cenas de natureza ou caça. Tetos ornados com arabescos em gesso. Por fora, fachadas tinham requintes elaborados imitando esculturas em pedra. Sem que se pudesse usar gesso, nessas obras externas, dada sua fragilidade ante as intempéries do tempo. Para isso, usava-se uma argamassa feita com cimento e aquela areia finamente crivada (de fingir), à qual se misturava cal em pó.

Essas fachadas em pedra eram trabalhadas com instrumentos conhecidos como colheres (ou colherinhas) de fingir, algumas com apenas cinco a sete centímetros de comprimento, ainda hoje encontradas no mercado. Tenho uma, em casa, para quem quiser saber como era. Os artistas que se especializaram nesse tipo de ornamentos acabaram conhecidos, em Lisboa, como fingidores. Assim foi até que, dado o custo de manter tanto luxo, ditos adereços foram aos poucos desaparecendo. E a profissão perdendo adeptos. Só que Pessoa, com absoluta certeza, ao tempo em que escreveu seu poema, conhecia bem ditos profissionais. E, por isso, terá usado uma metáfora ‒ a de ser, o poeta, só um fingidor. Um construtor. Como aqueles artesões. Até construindo ele próprio, como poeta, as dores que sentia.

Em carta a Francisco Costa (10.08.1925), resume esse processo: “A arte é expressão de um pensamento através de uma emoção. Pouco importa que sintamos o que exprimimos; basta que, tendo-o pensado, saibamos fingir sem tê-lo sentido” ‒ aqui usada, essa palavra, em seu significado hoje atual. Algo mesmo natural em quem proclama que “toda sinceridade é uma intolerância” e se diverte inventando “novos tipos de fingir”. Por ser “uma criatura de sentimentos vários e fictícios”, já não lhe bastam as angústias do mundo. Ou estas não têm a delicadeza, a generosidade ou a amplidão pelas quais seu incandescente coração anseia. O poeta, então, nada finge (no sentido atual da expressão), apenas constrói as dores que depois sente de verdade.

Pensando no Brasil, para terminar, poderíamos dizer que boa parte de nossos homens públicos fingem no sentido hoje corrente e vulgar da palavra; enquanto os poetas, iluminados e predestinados, esses fingem em outro sentido, aquele usado por Pessoa (como aqui expresso); o de construir, com seus versos, uma nova realidade ‒ diferente, espantosa e bela. É isso.

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NOTÍCIAS DE PORTUGAL

Lisboa. Novas notícias dos jornais portugueses, para sentir diferenças entre as culturas da terrinha de nosso Brasil.

AULAS MAIS CEDO. Estudo publicado na revista Nature Communicatios com quase 40 mil alunos, em Singapura, prova: aulas mais cedo significam piores notas. Confirmando estudos anteriores publicados na Science Advances e na Frontiers in Human Neuroscience. A sugestão, pois, é começar aulas às 10:00 horas. E por aqui, no Brasil, como seria?

CASAS. Má notícia para quem queria comprar uma. Primeira página de O Público ‒ OP diz “Portugal está entre os 10 países da zona do euro onde rendas e preços das casas mais sobem”. Quem não aproveitou a crise, por aqui, hoje deve estar chorando.

CHARGE. Num bar, cidadão diz “O principal princípio ético é ter vergonha”; e, o outro, “Isso de vergonha compra-se onde?”. Considerando o número de condenados (ou processados) hoje em cargos importantes no Brasil, ou passeando livres em Copacabana, essa graça parece ter sido feita para nós.

CLUBE DE MULHERES. Surge o primeiro clube de futebol dirigido só por mulheres, em Portugal. A notícia parece piada pronta. Que a cidade em que está é a Vila Baixa da Banheira, na margem do Tejo. E o time, não podia ser outro, é o Banheirense.

CORRUPÇÃO. No Onefootball disse Diamantino Miranda, ex-jogador e hoje comentarista da CMTV, sobre desmandos no Benfica: “Se cada corrupto andasse com uma lâmpada no cu, Portugal hoje parecia Las Vegas”.

DESTINO. A revista Visão conta uma história incrível. A de Bruce Hollywood, que nasceu no Japão mas foi adotado, ainda bem jovem, por um casal americano ‒ que, antes de viajar de volta a seu país, contou à mãe biológica o nome que a criança teria. Mais tarde, já Coronel da Força Aérea dos Estados Unidos, esse filho quis encontrar sua mãe biológica. Mas, dela, sabia só o nome, Nobue Ouchi. E a cidade em que morava, Shizuoca. Pediu ajuda e o governo japonês respondeu indicando que nada poderia fazer. Decidiu ir até lá, confiando que a sorte ajudasse nesse encontro. Começou a passear, pelas ruas da cidade, sem sequer saber direito como começar. Até que viu, num letreiro, seu próprio nome, Restaurante Bruce Hollywood. Perguntou, a um garçom, o nome do proprietário. Era ela. Sua mãe. O Destino é um Deus sem nome.

EDUCAÇÃO. Em Tel Aviv (Israel), na escola Aron Singalovsky, só 1/3 dos alunos fazem faculdade. Os demais vão para cursos profissionais, sobretudo nas áreas de robótica e informática. E com salários bastante altos. Seria um bom caminho também no Brasil?, eis a questão.

ESTÁTUA DE MIQUELÂNGELO. Mais conhecida estátua do mundo, com 5 metros de altura, é David de Michelangelo (di Lodovico Buonarroti Simoni). Está hoje, depois de 350 anos exposta ao relento, na Galleria Degli Uffizi (Florença, Itália). É aquela do “Parla”. Agora o jornal Povo anuncia que, numa escola de Tallahassee (USA), pais protestaram pela exibição, aos alunos, de um homem nú. “David pornográfico”, segundo O Sol. Com possíveis perturbações nos alunos. Citando o Daily Mail, o jornal informa que Hope Carrasquilha, professora há mais de 26 anos e diretora da escola, acabou demitida.

FACADAS. O Jornal de Notícias anuncia que “denunciado por assaltar assassina testemunha com 9 facadas”. É bom Moro começar a se preocupar, que a vingança corre solta. Por falar nisso, lembro Fernando Pessoa (Os Preceitos Práticos…): “É melhor matar com honra do que ameaçar de morte, porque os mortos já não pensam em vingar-se”.

IRAN. Polícia avisa às mulheres que o uso de hijab é obrigatório mesmo dentro dos automóveis. Já no cantão suíço de Saint-Gall, 67% dos habitantes, em plebiscito, votaram a favor da “proibição da burca em espaços públicos”. Imitando a região vizinha de Ticino. Só para lembrar não existe lei, na Suíça, regulando as formas de vestir. Devendo, esse assunto, ser decidido em cada cantão.

MARROCOS. Capa de OP dá “Casbahs, sentinelas do passado à procura de um lugar no futuro”. Porque as antigas construções, no local, são perfeitamente “adaptadas ao clima”. E, restauradas, “se convertem em belas pousadas”. O futuro, às vezes, é o passado.

MENDIGOS. O Congresso de Luxemburgo acaba de aprovar lei proibindo mendigos, nas ruas, entre 7:00 e 22:00 horas. Não é a primeira, na Europa. Alguns cantões da Suíça inovaram essa prática no ano passado. O Tribunal Europeu dos Direitos Humanos vai examinar o caso. A esperança é que declarem violar os direitos básicos da cidadania.

QUOTAS. A partir desse ano letivo (começa em setembro), segundo OP, “universidades e politécnicas terão vagas para alunos mais pobres”. Em vez das quotas raciais, como no Brasil, serão quotas sociais. Abrindo um debate que, breve, vamos ter que fazer também no Brasil.

SEXTA-FEIRA. Está em curso, por aqui, o projeto de uma semana de 4 dias. O Diário de Notícias anuncia projeto-piloto já com 99 empresas que encerram seus expedientes na quinta, para voltar a funcionar só na segunda seguinte. A Assembleia Nacional avisa que, se der mesmo certo, vira lei. Será que algo assim, no Brasil, daria certo?

TRABALHADORES DO SEXO. OP dá notícia em primeira página. O MTS (Movimento das Trabalhadores do Sexo) reage a Acórdão do Tribunal Constitucional que decidiu a “despenalização do latrocínio simples”. Em Portugal essa gente é muito organizada. Falta ver se algo assim pode ocorrer no Brasil.

TRÊS PAIS. OP anuncia que a Comissão de Ética do governo Costa (do PS) autorizou registros de nascimentos em que não constem o nome da mãe (caso das barrigas de aluguel); podendo, ao invés, ter o nome de até 3 pais. Sei não…

P.S. José dirigiu-se ao Pingo Doce (Porto). Para comprar azeite. Deixou carteira em casa e levou só uma cédula de 10 euros. Na hora de pagar, ela escapou da mão. E o cidadão que estava atrás, na fila, gentilmente pegou. Já se preparando para agradecer, José viu aquele estranho pôr o dinheiro no bolso da própria camisa.

– Perdão, mas a cédula é minha.

– O que está no chão é de quem pegar.

E não devolveu. Para indignação de José, da caixa, e de todos os funcionários e clientes que assistiram a cena. Depois de algum tempo, quando o cidadão já se dirigia para seu carro, decidiu ir atrás. Ele e uma pequena multidão que assistiu a cena. Para fazer nem sabia o quê. O tal senhor chegou na sua caminhonete de luxo, pôs as duas sacolas no chão, tirou do bolso a chave, tocou nela e a porta do bagageiro começou lentamente a subir. Foi quando José se abaixou e agarrou uma sacola em cada braço, com pronta reação do outro

– Elas são minhas.

– Correção, sr. dr., o que está no chão é de quem pegar.

E saiu correndo com suas compras.

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CONVERSAS DE ½ MINUTO (28)

Lisboa. Mais conversas, em livro que estou escrevendo (título da coluna). Como sexta passada foi o dia de Santo Ivo, padroeiro dos advogados, hoje só com eles. Com nós, melhor dizendo.

* * *

ADMALDO MATOS, advogado. Com caso para decidir, na Secretaria da Fazenda de Pernambuco, chamou o procurador João Pinheiro Lins e pediu parecer. Ele

‒ O que deseja?

‒ Só diga o que achar certo.

E João, balançando os dedos no rosto de Admaldo, sentenciou

‒ Está pensando o quê? Eu não estou aqui para obedecer nenhuma lei, meu papel é só dar fundamento jurídico às arbitrariedades da administração.

* * *

ANTÓNIO VALDEMAR, escritor. Lembrou casos reais ocorridos nos tribunais de Lisboa:

– Advogado: Qual foi a primeira coisa que disse o seu marido quando acordou, aquela manhã?

– Testemunha: Ele disse Onde estou?, Berta.

– Advogado: E por que é que se aborreceu?

– Testemunha: O meu nome é Célia.

* * *

– Advogado: Aqui no tribunal, para cada pergunta que eu lhe fizer, a sua resposta deve ser oral, está bem?

– Testemunha: Sim.

– Advogado: Que escola frequenta?

– Testemunha: Oral.

* * *

– Advogado: Doutor, antes de fazer a autópsia, o senhor verificou o pulso da vítima?

– Testemunha: Não.

– Advogado: O senhor verificou a pressão arterial?

– Testemunha: Não.

– Advogado: O senhor verificou a respiração?

– Testemunha: Não.

– Advogado: Então é possível que a vítima estivesse viva quando a autópsia começou?

– Testemunha: Não.

– Advogado: Como é que o senhor pode ter a certeza?

– Testemunha: Porque o cérebro do paciente estava num jarro sobre a mesa.

– Advogado: Mas ele ainda poderia estar vivo?

– Testemunha: Sim, é possível que estivesse vivo a tirar o curso de Direito em algum lugar!!!

* * *

FERNANDO LYRA, ministro da Justiça. Lyra me procura, feliz,

‒ A Câmara de Vereadores de Caruaru (Pernambuco) decidiu dar meu nome a um novo conjunto habitacional que vai ser inaugurado. Por favor, redija o parecer da Comissão de Justiça para fundamentar a votação.

‒ Má notícia, amigo. É que você vai precisar ir para o céu, antes. A Lei 6.454/77 só permite nome em “logradouros e monumentos públicos” depois que o cidadão morre. Infelizmente. Ou não, que você ainda está vivo.

Foi embora irritado. Um mês depois, mostrou lei criando o “Conjunto Habitacional Fernando Soares Lyra”. E parecer da Câmara firmado por um jurista/vereador. Dizia mais ou menos assim (resumo):

‒ Há homens mortais e aqueles eternos. Para os primeiros, o tempo conta. Já para os outros, não. Que, por tudo que fizeram, jamais serão esquecidos. A lei dos nomes vale só para mortais. E, nunca, para eternos ainda em vida. Como Fernando Lyra. Por isso, nada impede que se dê o nome do ministro a esse Conjunto Habitacional.

E Fernando completou

‒ Juristas bons são os de Caruaru.

* * *

GENTIL MENDONÇA FILHO, advogado trabalhista. Fomos colegas de classe no Colégio Nóbrega. E próximos, ao longo de nossas vidas. Começo de fevereiro, vésperas do Carnaval, estava num quarto de hospital e pediu para falar comigo. Foi a última conversa que tivemos. Vesti avental de papel, máscara no rosto, essas coisas de proteção para os pacientes e entrei. Ele, sem meias palavras,

– É danado, amigo Zé Paulo.

– Pare com isso, Gentilzinho, amanhã você já está bom.

– Levei os exames que o doutor pediu, perguntei o que é que eu tinha, e sabe o que ele respondeu?

– Não…

– Doutor Gentil, o senhor está apodrecendo.

Pouco depois acabou, no dia 11, quinta feira. Na véspera, foi quarta-feira de cinzas. Agora, as cinzas eram ele. Vida injusta. “E para ti, ó Morte, vá a nossa alma e a nossa crença, a nossa esperança e a nossa saudação!”, palavras de Fernando Pessoa (Bernardo Soares, no Livro Desassossego). Quando refiz o diálogo, escrevi “Você está morrendo”. Sua viúva, Paula, a quem pedi autorização para contar essa história, corrigiu

– Foi assim não, eu estava presente.

Riscou morrendo e escreveu, em seu lugar, a palavra correta, apodrecendo. Viva Gentil.

* * *

GIBRALDO MOURA COELHO, advogado penalista. Na Ditadura, quando Nilo Coelho foi nomeado governador de Pernambuco, a gente ficava dizendo ao velho comunista

– Agora você vai se apresentar, dando ênfase no sobrenome, como Gibraldo Coelho (assim era conhecido). Só para ter vantagens, nas delegacias, por pensarem que é parente do governador.

– Parem com isso, por favor, todos sabem que sempre fui oposição.

– Nada, Gibraldo, você quer mesmo é faturar.

E foi tanta brincadeira que tomou uma decisão drástica. Trocou de nome. Passando a ser, para todos os fins, Gibraldo Moura. Na placa do escritório, nos papéis, no catálogo telefônico, nos cartões de visita. Só não contava é que o governador que substituiu Nilo Coelho fosse José… Moura. Como ele, agora, Gibraldo Moura. E não perdi a oportunidade

– Bicho inteligente, virou Moura só para se aproveitar do sobrenome.

– Aqui para nós, amigo, Ele não foi justo.

– Ele quem?, Gibraldo.

– Deus, Zé Paulo. Deus.

* * *

(MARCELO NAVARRO) RIBEIRO DANTAS, ministro do STJ. Em 14/07/2022, mandou mensagem

– Viva os 107 anos do glorioso América Futebol Clube, de Natal.

Após o que completou

– Outro evento, de menor importância, são os 233 anos da Revolução Francesa.

* * *

Mandou foto de placa em barzinho que frequenta, na Praia de Pirangi (RGN),

‒ Pão na chapa:
Com manteiga, 2,50.
Com margarina, 2,00.
Sem manteiga, 1,50.
Sem margarina, 1,00.

* * *

Ao pensar nas dores da alma, escreveu

– Amargura?
Amar cura.
Solidariedade?
Só lhe dar a idade.
Morri?
Amar, ri.
Sentimento?
Sem ti minto.
Jamais?
Já, mas…

* * *

ROBERTO ROSAS, advogado. Lembrou que perguntaram ao Ministro Orozimbo Nonato, do Supremo,

– O senhor foi juiz?

– Fui.

– E quando largou o apito?

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AQUI JAZZ

Domingo foi o Dia Internacional do Jazz. Criado pela Unesco e anunciado, ao público, por Herbie Hancock ‒ um mago do piano, quem já ouviu sabe por quê. Volto ao passado (de vez em quando faço isso, espero não seja por conta da idade). Tudo começou em 1969, tinha 20 anos e cursava o quarto ano de Direito na Católica. Foi quando a Ditadura decidiu que não podia mais estudar no Brasil, e em nenhum outro lugar se possível (depois, ainda me proibiriam de ensinar). Não em razão das notas, aqui para nós. Mas por ser presidente do Diretório Acadêmico, imagino. Que pedir democracia, naquele tempo, era crime. Manda quem pode, obedece quem tem juízo ‒ ou pensa que tem, o que dá no mesmo. E acabei nos Estados Unidos.

Estávamos em Nova Iorque, na Universidade de Columbia (no subway, uma parada antes da 114 st. e do Harlem ‒ no tempo em que o Harlem era o Harlem, senhores) e íamos, todas as noites, ao Village Gate. Pagando só 5 dólares para ouvir semideuses da música e o mais puro jazz. Primeiro entrava Thelonious Monk, negro enorme que mal cabia no piano, dedos que mal cabiam nas teclas, e tocava como se fosse um predestinado. Só para ele e os anjos. Depois subia no palco outro negro, magro e elegante, com um pistom dourado – primeiro assim que vi, na vida. Era o grande Miles Davis. E ficavam tocando, os dois juntos, até muito depois de todas as horas razoáveis – para estudantes como nós, claro.

Já em Harvard, na cidadezinha de Cambridge (onde fica a universidade, separada de Boston pelo Charles River), o programa nos fins de semana era ir a Tanglewood ‒ pequena propriedade rural entre Lenox e Stockbridge. Seu gramado bem verde ia descendo, sem pressa, até um lago. Dentro do terreno, pequeno palco para orquestra. Ouvíamos a famosa Sinfônica de Boston, então regida por William Steinberg. Na entrada, recebíamos dois cobertores: um para forrar a grama, húmida, outro para proteger do frio. Mais uma caixa com sanduiches. E lá ficávamos algumas horas, de olhos fechados, ouvindo a orquestra. Talvez fosse o paraíso e não soubéssemos disso.

Anos depois, estava dando um curso em Harvard (por conta da UNESCO) e pretendi voltar a Tanglewood. O maestro, agora, era o consagrado japonês Seiji Ozawa, maravilha. Ocorre que, quando fui comprar as entradas, a mocinha da bilheteria disse, com ar de tristeza, “a temporada de sinfônica já acabou”. Para não perder a viagem perguntei se haveria, por lá, algum evento. E ela, como se fosse pouco, “Tony Bennett com a orquestra de Tommy Dorsey” ‒ apenas a orquestra, que seu inspirador morreu em 1956. E ficamos, deliciados, ouvindo esse que só não era o maior cantor do mundo por ter tido o azar de nascer na mesma época de Francis Albert (Frank) Sinatra. Em resumo, uma tarde inesquecível.

Agora circula, na internet, um vídeo com esse cantor de Nova Iorque, Anthony Dominick Benedetto. Quase 97 anos e com Alzheimer, iria ser apresentado ao público apenas para receber homenagens. Ocorre que, ao subir no palco, ele como que se iluminou. Ganhou vida. Cantou cerca de 15 músicas e saudou, sorrindo, Lady Gaga que entrava em cena para o acompanhar. A mesma que, apesar de encontros frequentes, havia tempos não sabia mais quem era. Até que, findo o espetáculo, voltou para seu mundo de sombras.

Volto ao presente. O Village Gate não existe mais; é apenas uma velha casa, agora vazia, com placa desbotada por cima. Tanglewood já não tem aquele ar de campo, mudou, é um anfiteatro enorme. E Tony Bennett nem sabe mais quem é. Seja como for, viva o jazz. Sugiro duas rádios, na internet, para quem se interesse: a Kjazz, de Los Angeles; e a Jazz Radio, de Paris. Se preferir música clássica, tem a BBC de Londres, com 5 canais ‒ um deles só para sinfonia, outro só para ópera. Proust (A fugitiva) recomendava saborear o passado “não de uma vez, mas grão a grão”. Assim seja, também, nas lembranças. Penso num poema de Pessoa (Há quase um ano não escrevo) e repito, com suas palavras, que ando com “saudades de mim”.

P.S. Para despedida, e sem sair do tema, lembro historinha do advogado (quem diria?) Ary (Evangelista) Barroso. Morreu de tanto beber. Em pleno carnaval, e ao perceber que a cirrose hepática o iria vencer, escreveu seu epitáfio num papel e pediu à mulher, Ivone, que pusesse no seu túmulo:

‒ Aqui jaz um homem que odiava jazz.

Ary embirrava mesmo com tudo. Segue uma prova disso. Já no hospital, os amigos convenceram (o recifense) Antônio Maria que não poderia ver Barroso morrer sem se reconciliar com ele. Maria concordou. Se abraçaram, emocionados. E Ary, com voz fraca, pede que Maria cante uma música dele, Ary. Maria, então, cantou Aquarela do Brasil. Ary aplaudiu, emocionado, e implorou que Maria lhe pedisse para cantar uma música do próprio Maria (Ninguém me ama, Manhã de Carnaval, tantas).

‒ Não precisa, Ary,

Preocupado com o fato de que não teria forças para cantar. Mas concordou.

‒ Tá certo. Ary Barroso, por favor cante uma música minha.

‒ Não posso, Maria, que não conheço nenhuma.

‒ Porque é um canalha.

‒ E você um cafetão.

E morreram brigados. No caso do túmulo só não entendo é que a mulher de Ary, por pirraça (deve ter tido lá suas razões), não atendeu seu último desejo (salve Noel). Acontece.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

VIVA PERNAMBUCO

Em um dia como o de amanhã (22 de abril), a data é oficial, o Brasil foi descoberto. Mas seria bom voltar no tempo e ver isso com mais vagar, seja para precisar melhor a data, seja para situar o papel de Pernambuco nesse descobrimento. Em seu Discurso de Posse na Cadeira 39 da Academia Brasileira de Letras, Marco Maciel declarou que “Pernambuco é um sol a brilhar no infinito”. Referia-se ao hino de nosso Estado, claro. Mas, também, a uma história que vem de longe e nos orgulha. Em nossa terra, permitam dizer com modéstia bem pernambucana, o Brasil nasceu. Quando, em 26/01/1500, Vicente Yáñez Pinzón (por esse feito condecorado pelo rei Fernando II, de Aragão) desembarcou no hoje Cabo de Santo Agostinho, por sua expedição então logo denominado Cabo de Santa Maria da la Consolación. Um ancoradouro natural, onde está o Porto de Suape. Assim que chegou, pronunciou frase que entrou para os livros “Esse é o lugar de mais luz da terra”. E tudo bem antes do tal 21 de abril.

Trata-se da mais antiga viagem, documentalmente comprovada, ao território nacional. Desde quando a esquadra de suas quatro caravelas partiu de Palos de la Frontera, em 19/11/1499. Tudo como bem descrito pelos cronistas (historiadores) da época, Pietro Martire D’Anghiera e Bartolomeu de las Casas. Não sendo reivindicada pela Espanha, sua posse, apenas por caberem essas terras a Portugal ‒ em razão do Tratado de Tordesilhas. Dando-se que por ele, de 1494, restaram divididas as terras “descobertas e por descobrir” a partir de meridiano 370 léguas a oeste da ilha de Santo Antão, no arquipélago de Cabo Verde. A oeste, caberia ao reino de Castela (Espanha). E, a leste, Portugal. Onde estava Pernambuco, descoberto por Pinzon.

Só que nem sempre a descoberta do Brasil foi comemorada nesse 22 de abril. Até 1817, de dava em 3 de maio. Tudo culpa do historiador Gaspar Correia (1495-1561); que imaginava ser, a data, homenagem ao próprio nome dessas terras ‒ então Ilha de Vera Cruz (e, logo depois, terra de Santa Cruz). Celebrando-se, em dito 3 de maio, o Dia da Santa Cruz. Até quando aqui veio dar a família real, tangida por Junot, general preferido por Napoleão, O filho dileto das vitórias. E, com essa família, veio também a Carta de Pero Vaz de Caminha. Aquela em que pedia ao Rei D. Manuel, O Venturoso, um emprego para seu genro Jorge d’Osoiro. Morrendo Caminha, em Calicute, sem saber que seu pedido, em favor do destrambelhado genro, foi afinal atendido. Sendo, tal carta, lida com atenção pelo padre Manuel Aires de Casal; sabendo-se então, por ela, que o Monte Pascoal foi afinal avistado num 22 de abril. Fosse pouco, a data chegou a ser um feriado nacional. Em boa hora revogado por Getúlio Vargas, junto com outras datas comemorativas, por achar demais tanta folga para os brasileiros.

Mas outras dúvidas persistem. Para o escritor potiguar Lenine Pinto, por exemplo, Cabral chegou ao Brasil em 1500, mas não na Bahia; e, sim, no Rio Grande do Norte. Indicando, com argumentos convincentes, que o Monte Pascoal, primeiro ponto de terras que teria sido avistado por Cabral, simplesmente não é visível a partir do mar. O que viu Cabral, na verdade, teria sido o Pico do Cabugi ‒ no interior, hoje a uma hora de automóvel do litoral. Um monte que atende perfeitamente, esse Cabugi, à descrição de Cabral. Por ser visto com destaque, ainda hoje, pelos marinheiros. E muitos acreditam nisso. Entre eles, o ministro do STJ Marcelo Navarro.

Em Portugal, também se diz que primeiro descobridor dessas terras teria sido, na verdade, Duarte Pacheco Pereira, navegador luso que Camões definia como “Aquiles Lusitano”. Duarte escreveu, em 1505, o livro Esmeraldo de Situ Orbis; indicando que ele próprio teria chegado em algum ponto da costa entre o Maranhão e o Pará, entre novembro e dezembro de 1498; daí se dirigindo ao norte, alcançando a foz do Amazonas e a ilha de Marajó. No livro está que “É achado nela (na terra descoberta) muito e fino Brasil. Com outras muitas coisas de que os navios nestes reinos vêm grandemente povoados”. Não sendo tornada pública, dita viagem, por saber Portugal que caberiam, as terras, ao Reino de Castela, em razão do Tratado de Tordesilhas (como vimos, de 1494). Sem qualquer outra prova, tudo se baseia somente nesse relato. E muitos, hoje, acreditam que assim aconteceu mesmo. Como o escritor português Miguel Souza Tavares. Fique o registro.

Seja como for, hoje como sempre, é prova de bom gosto e de sabedoria sempre dar vivas a Pernambuco.

P.S. Vênia para louvar nosso estado em uma pequena história. Tudo começou com dona Celina Pina, mulher do doutor Sizenando Carneiro Leão. Antônio, seu filho querido, iria ser doutor pela Sorbonne. A realização de um sonho. No dia da viagem, o Aeroporto dos Guararapes estava cheio com família, empregados, amigos, vizinhos, o mundo inteiro para dar adeus a Toinho. Na hora do embarque, a mãe o chamou para conversar.

‒ Queria lhe dar três conselhos, filho. Um, estude muito para ser o primeiro aluno da classe. Dois, de noite, não saia para beber nem raparigar. Três, e nunca diga a ninguém que nasceu em Pernambuco.

Toinho estranhou.

‒ Minha mãe, os dois primeiros conselhos até entendo, mas esse terceiro?

E ela completou

‒ É por ser muita falta de educação contar vantagem.

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PRESENTES…

Fernando Pessoa começa poema (O marinheiro) dizendo “Falar no passado ‒ isso deve ser belo, porque é inútil e faz tanta pena…”. Seja como for, e mesmo inútil, esse caso do presente das joias me leva a dois momentos de um passado que passou. A eles, pois, recordar é viver.

1. A Câmara dos Deputados decidiu providenciar um novo Regimento Interno. E o secretário da mesa diretora, deputado Waldir Pires ‒ depois seria ministro da Previdência no governo Sarney e governador da Bahia (1987/1989) ‒ pediu que redigisse minuta para ser votada. Em razão só de nossa amizade. Sem nenhuma remuneração pelo trabalho, não custa lembrar. Fiz isso a partir de regimentos entre si muito semelhantes, nos países do Primeiro Mundo. Sem inventar novidades. Apenas escolhendo as melhores regras, nas boas democracias. Sobretudo em relação à moralidade no exercício da função pública. Inclusive proibindo que parlamentares pudessem ter emissoras de rádio e televisão. Já é assim, na Constituição; só que no mundo real, por interpretação muito discutível do próprio Congresso Nacional, acabaram esses parlamentares apenas sem poder ocupar cargos de direção nas empresas. E quem quiser saber quantas estações foram deferidas a parlamentares, pelos governos (de direita ou de esquerda, civis ou militares, tanto faz), vai se assustar. Ali vale a Regra de São Francisco, é dando que se recebe.

Outra providência foi também vedar que parlamentares (como empresas controladas por eles ou familiares) pudessem firmar contratos com o governo. Especialmente tomando grana em bancos públicos. Outra farra. Até perceber, nas conversas tidas, que Deputados estavam querendo outra coisa, um Regimento de Etiquetas. Não pode falar alto, dizer palavrões, distratar colegas, por aí. Foi o que disse ao dep. Waldir Pires. E completei indicando que, se assim fosse, bastaria cortar os 18 primeiros artigos e começar o Regimento pelo art. 19. Respondeu que iria votar como entreguei. Até hoje. Palavras ao vento.

Ocorre que um dos artigos que redigi era, precisamente, o dos presentes. E o que vale (valia, naquele tempo, não deve ter mudado), nos países democráticos, é não poder exceder 10%, no valor, dos salários dos Deputados. O mesmo com almoços, jantares, viagens, lembranças. Exceção apenas com presentes de natureza claramente pessoal, como um quadro retratando o deputado. Mas, mesmo assim, apenas quando não houvesse interesse, de quem oferece o presente, em nenhum projeto que estivesse em votação na Câmara. Era (é) uma boa regra. E deveria valer não só para Deputados Federais. Além deles também para Vereadores, Deputados Estaduais, Prefeitos, Governadores, Senadores, Ministros e, sobretudo, Presidentes da República.

2. Agora o outro caso. Chegam, na minha sala, dois velhinhos. O caso era simples. Adotaram uma criança de meses, nascida em Portugal. E este filho, já homem feito, agora os sustentava. Mas cometeu dois pequenos delitos (já nem lembro quais). Foi então definido, em interpretação fria dos regulamentares, que deveria ser deportado. O desespero dos dois decorria do fato de que o rapaz estava sendo devolvido à terra natal, onde não conhecia ninguém. Quando sua vida estava já estruturada por aqui. Até empresas tinha. E, sem seu filho perto, como sobreviveriam esses velhos? Pedi que o caso fosse reestudado com atenção; e a recomendação que depois recebi, no ministério, foi que melhor seria não extraditar. Devendo por aqui mesmo cumprir pena. E permanecer no Brasil, depois. Aceitei a decisão (com alívio) e disse aos velhos, que logo comunicaram essa boa nova ao filho.

Por conta de algum problema nas comunicações, essa decisão não chegou à Polícia Federal. E no avião da TAP estavam já o extraditado, algemado, tendo ao lado um policial federal que o acompanharia para que fosse entregue às autoridades portuguesas. Só que o jovem, surpresa para todos, subiu na poltrona e começou discurso dirigido aos outros passageiros: “Absurdo, a extradição foi revogada e a polícia não quer respeitar a decisão”, por aí. Resultado, o avião todo ficou ao lado do rapaz, exigindo que a Polícia Federal confirmasse aquilo que havia dito. Verificado o erro, permaneceu mesmo no Brasil.

Dias depois, os velhos foram de novo à minha sala. Para agradecer. A mulher havia bordado, ela própria, uma toalha de mesa. Era presente. Renda fina. Foi a forma deles de dizer obrigado. E tomei uma decisão lamentável. Respondi que não poderia receber, pois o valor excedia os 10% de meu salário (ainda tinha na memória aquele Regimento da Câmara dos Deputados que redigi). E o olhar de frustração, ou lamento, ou só tristeza enorme da velha dói em mim, até hoje, como flecha. Pudesse voltar o passado e, perdão, teria aceito o presente. Claro. Mesmo que, depois, entregasse ao ministério para por em alguma mesa de lá. E seguiu a vida. E cada qual no seu caminho. E não eram joias. E era só uma toalha. E nem era tão cara.

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PRIMEIRO DE ABRIL

Sábado passado foi 1º de abril. E talvez seja bom lembrar quando passou, esse, a ser considerado o Dia da Mentira. Segundo versão mais aceita, é preciso voltar no tempo. Até quando começava, o ano civil, em 21 de março (data do início da primavera europeia). Com celebrações que tinham seu clímax, precisamente, no tal 1º de abril. Em Roma, era a Festa da Primavera. Isso até fins de 1564. Quando o rei Carlos IX da França, atendendo recomendação do Concílio de Trento (1545 a 1563), fez coincidir o início do Ano Novo com a data da circuncisão de Jesus (assim se acredita), 1º de janeiro. Aposentando o calendário Juliano, até então vigente. Com o Papa Gregório XIII logo depois, em 1582, editando a bula Inter Gravissima, institucionalizando o novo sistema para todos os países católicos. Em sua homenagem, a partir daí, esse calendário passou a ser conhecido como Gregoriano. Convertendo 1º de abril, segue-se, no Dia do Ano Falso. Mas só bem depois, na França, começou a sua má fama. Desde aquela época um trouxa, por lá, é chamado Poisson d’Avril (peixe de abril). Tanto que Napoleão, ao casar com Maria Luísa da Áustria num 1º de abril (de 1810), ganhou precisamente esse apelido ‒ Poisson d’Avril. O nome é o mesmo em muitos outros países. Na Inglaterra, April Fool. Polônia, Prima Arrives. Escócia, Gowk (cuco). E por aí vai.

As brincadeiras ganharam, também, os meios de comunicação. Em um primeiro de abril de 1848, por exemplo, começou a circular em Pernambuco um jornalzinho chamado, não por acaso, A Mentira. Sua primeira manchete foi a morte do Imperador Pedro II. Só que Pedro II, como sabemos, morreu muito depois ‒ em 1891, na distante França. Mas essa é outra história. Os casos mais conhecidos de notícias mentirosas correm mundo. A BBC noticiou, em 1957, ter descoberto uma árvore de espaguetes. Em 1999 foi anunciado, no Rio Grande de Sul, que a grande Fernanda Montenegro havia ganhado o Oscar. Não era verdade mas deveria, pois ela merece. Em 1º de abril de 2000 o Google disponibilizou, ao público, uma página de buscas chamada Mentalplex, capaz de ler a mente das pessoas. Com ela, não seria mais necessário digitar o que se quer saber teclando na barra de busca. Bastaria olhar fixamente uma bolinha de cristal colorida, disponível na página. Com multidões de usuários tentando por dias conseguir operar o novo sistema, sem sucesso, até saberem ter sido só uma peça. Em 2008, o site de relacionamentos Orkut anunciou que mudaria seu nome para Iogurt. Sem contar o Jornal do Commercio (do Recife) que em 01/04/2018, na segunda capa da primeira página, deu manchetes como essas:

• País elimina corrupção.
• Políticos brasileiros são todos honestos.
• Brasil sem inflação vive a era de pleno emprego.
• Refinaria, um exemplo de boa gestão.
• Náutico, Sport e Santa nas semifinais da Libertadores.
• Boa Viagem fica livre dos tubarões.

Na literatura, são muitos exemplos. Como o do maior matemático inglês do sec. 19, Charles Lutwidge Dodgson, autor (entre outros livros) de Tratado Elementar dos Determinantes. E só bem mais tarde, em 1856, escreveu Alice no País das Maravilhas. Romance assinado por um pseudônimo, Lewis Carroll. Sendo o L e C, na capa, um anagrama imperfeito e invertido de C e L, os dois primeiros nomes civis desse professor de Oxford. Assim também se deu com Charles Dickens, que escreveu David Copperfield. O autor, CD, convertido em seu personagem, DC. LC é também, em inglês, o próprio som (pronunciado naquela língua) do nome de seu personagem Alice. Por coincidência, também se chamava Alice (Liddell) uma jovem amiga do autor. São muito diferentes; mas, no fundo, são semelhantes. Alice era mulher, LC homem. Ela jovem, LC velho. Ela não acreditava em Deus, LC um luterano empedernido. Ela quase analfabeta, LC um mestre. Alice era LC ao contrário. Como sugere no título do livro que veio a seguir, ele próprio seria Alice Através do Espelho. Seja como for deu tão certo que seu livro é, depois da Bíblia, o mais citado na literatura universal. Nele, vemos de tudo. Inclusive, e aqui chegamos ao ponto que nos interessa, essa curiosa definição que nos remete a um dia como o de sábado passado, “As falsas tartarugas são aquilo de que são feitas as falsas sopas de tartarugas”. Uma mentira dentro de outra mentira.

Pensando bem, a verdade é o que menos importa, nesse mundo em que hoje vivemos. Hannah Arendt, no seu Entre o Passado e o Futuro (Debates), escreveu: “A busca desinteressada da verdade tem uma longa história; caracteristicamente, sua origem precede todas as nossas tradições teóricas e científicas, incluindo nossa tradição de pensamento filosófico e político”. Já o Padre António Vieira diz, nos Sermões (37): “Mentem as línguas, porque mentem as imaginações; mentem as línguas porque mentem os ouvidos; mentem as línguas porque mentem os olhos; e mentem as línguas, porque tudo mente e todos mentem. Como os ouvidos são dois e a boca uma, sucede que, entrando pelos ouvidos duas verdades, sai pela boca uma mentira”. Mas, já encerrando, é impossível deixar de falar em nosso Brasil. Que, num 1º de abril, deu-se o Golpe de 1964. Depois, para não ficar mal com a história, trocaram tudo. A data ‒ que voltou um dia para ser, oficialmente, 31 de março. E o nome do evento ‒ que, em vez de Golpe, virou Revolução. Numa espécie de alusão à Revolução Francesa. Como se os enfants de la patrie (meninos de rua) e todo o resto do povo estivesse, nas praças públicas, em favor do movimento. O que, sem dúvida, é uma mentira.

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“LEVE” ?

Janeiro de 2010. Lula, presidente da República, estava indo a Davos ‒ onde receberia, no dia 29, o prêmio Estadista Global do Fórum Econômico Mundial. Mas seu avião fez parada, no Recife, para que inaugurasse uma UPA. Dá para acreditar? Problema foi ter, aqui, passado mal. O médico da presidência, destacado para a caravana oficial, era ortopedista e não conseguia definir o que tinha. Razão pela qual o levaram ao Hospital Português. Eduardo Campos, então governador de Pernambuco, estava preocupado. Que a imprensa entendia ser, aquele mal-estar, decorrente de uma discussão que tivera com o presidente. Pediu, então, que fosse atendido pelo doutor Murilinho Guimarães. Esse diminutivo, no nome pelo qual é conhecido, se deve a ser filho do grande advogado, e Reitor da UFPE, Murilo Guimarães (o mesmo acontece comigo; que, para os mais velhos, continuo sendo Zé Paulinho).

Murilinho Guimarães é consagrado (internacionalmente) especialista em pulmão. E, só para constar, estava em uma degustação de vinhos (norte-americanos), outra de suas muitas especialidades. Foi, correndo, ver de que se tratava. E, depois dos exames, o diagnóstico que deu foi “pneumonia, associada a hipertensão e dispneia como manifestações de uma sepsis se instalando”. Os da comitiva afirmaram que teria que viajar, naquela mesma noite, para a Europa. E Murilinho “vai morrer”; por não ser capaz de suportar, naquele estado, as grandes altitudes de um voo sobre o Oceano Atlântico. Lula falou com o médico Roberto Kalil. Decidiram que melhor seria ir até São Paulo, onde ficaria sob os cuidados do Sírio Libanês. E que o avião voaria, para lá, abaixo dos mil metros. Evitando os riscos da pressurização. Assim deve ter se dado, que chegou a seu destino sem maiores problemas. E Celso Amorim foi designado para representá-lo, naquele prêmio.

Entram em cena Franklin Martins e Dilma Roussef, ponderando que a versão de uma hipertensão leve seria melhor, politicamente. “A verdade é um cachorro que tem que ficar preso num canil”, dizia Shakepeare (Rei Lear). Pediram que Murilinho desse, nas televisões, esse diagnóstico. “Perdão, mas o que ele tem é pneumonia”. E recusou se prestar a esse papel subalterno. O médico do presidente, mesmo não sendo especialista, foi encarregado de dar a versão falsa (enquanto Murilinho ficou retido, numa sala, até que o último repórter se fosse do local). Tudo correu bem. O público acreditou. E a história seguiu seu curso. Pouco depois Dilma acabou presidente(a); Lula condenado (por Juiz, TRF do RGS, STJ) e preso por corrupção, descondenado e solto pelo ministro Fachin (do Supremo), para em seguida voltar a ser presidente; e Franklin, ano passado, lançou um muito interessante (e grosso) livro sobre músicas de campanhas políticas.

“A história se repete”, dizia Maquiavel em O Principe. Enquanto Marx respondeu “só como farsa”, em 18 Brumário. No caso, vale considerar que “a prática é o critério da verdade”. Uma frase comumente atribuída ao dito Marx, quando está mais alinhada ao pensamento leninista ‒ ver Berger, Guérin, Korsch e Pannekoek (que, depois da Revolução Russa, rompeu com o leninismo). E se assim for basta ver o que aconteceu, agora, para definir qual dos dois pensadores tem razão. Lula, segundo Kalil, se apresentava com “pneumonia leve”. Ninguém perguntou a razão de não ter sido, esse diagnóstico, dado pelo médico que o atendeu em Brasília, cabendo isso a um amigo íntimo que sempre o acompanhou. Sem que se entenda como declarou ser “leve”, a tal pneumonia, sem ter sequer auscultado o pulmão do paciente. Pelo visto, Kalil é mais amigo de Lula do que da verdade ‒ perdão, caro leitor, trata-se apenas de uma brincadeira com a famosa frase de Aristóteles Amicus Plato (sed) magis amica veritas (Platão é amigo mas ainda mais amiga deve ser a verdade). Como a viagem à China foi cancelada, apesar de sua enorme importância, o cenário sugere não ter sido tão “leve”, assim, a tal “pneumonia”. O diagnóstico sugerido, pelo Palácio do Planalto, foi claramente falso. De novo. Como antes. Prova de ter mais razão o florentino, que o prussiano. A história se repetiu mesmo, e não como farsa.

Essa introdução, mais longa talvez de que deveria, tem só a intenção de questionar a Grande Mídia do Sul. O Globo estampou em primeira página (edição do sábado passado), o que os demais grandes jornais de lá também deram, “Com pneumonia leve Lula adia viagem à China em um dia”. Depois se veria ser (bem) mais que um dia. Quase dois meses. Só detalhe, para eles. E seguiram, no mesmo caminho, para conforto e alegria do Palácio do Planalto. Parecendo sócios em um projeto de poder. Mas essa notícia está jornalisticamente correta?, eis a questão. Pelos manuais de redação o certo seria dizer “Segundo o médico Roberto Kalil, tem pneumonia”. Ou “pneumonia leve” se quisessem. E jamais o que saiu. Caberia então perguntar, ao ministro Alexandre de Morais, não considera isso fake news? Se for mídia social, contra esse governo, o cidadão se arrisca a ser preso. Mas se forem grandes jornais do Sul, a favor desse governo, e mesmo sendo uma notícia claramente falsa, isso parece não incomodar o famoso ministro. Como se todos os envolvidos, inclusive o ministro, fossem jogadores de um mesmo time. Parceiros. Juntos. Só mesmo rindo.

Para encerrar, apenas lembrar que Deus deve ser brasileiro. Como dizia o pai de Fernando Sabino, “no fim tudo acaba bem”. A saúde de nosso presidente está em ordem e respiramos aliviados. A Grande Mídia, nos dias de hoje, continua se pautando por interesses (muito) discutíveis. E a única pergunta é: Será essa a imprensa que precisamos, e desejamos, em nossa pobre Democracia?

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NOTÍCIAS DA TERRINHA

Lisboa. Novas notícias dos jornais portugueses, para sentir diferenças entre as culturas da terrinha e de nosso Brasil.

* * *

ALIMENTOS. No hemisfério Norte, a primavera “está a chegar mais cedo” (primeira página de O Público‒OP). Em Almogia, na província espanhola de Málaga, as amendoeiras floriram mais cedo. O que vai ter grandes reflexos na agricultura. Em outra matéria no mesmo jornal, sobre o livro Eating Extinction, o jornalista Dan Saladino explica o desaparecimento de alguns alimentos, na face da terra. Logo pensei em nossa mangaba. Sobre ela, tenho até uma teoria. De que Deus começou o mundo fazendo a mangaba. Depois, já cansado com tanta perfeição, fez o homem. E deu no que deu. Se acabar mesmo, vai ser triste.

ALIMENTOS 2. Ainda nesse jornal, em outra edição, vemos projeto na Faculdade de Ciências do Porto, com financiamento europeu, de “editar grãos de arroz para suportar mais calor”. Deveríamos fazer o mesmo, aqui no Nordeste. Para “editar” grãos que produzissem milho, feijão e outras culturas nossas usando menos água. Os transgênicos, parece, vão ser o futuro dos alimentos.

BALEIAS. “Estudo liderado por economistas do FMI revela que se as baleias pudessem voltar aos números de antes, o planeta ganharia capacidade de fixação de CO2 equivalente à de quatro florestas como a Amazônia”. Seria bom dizer isso aos países que pescam esse mamífero e ainda reclamam de nós.

BRASIL. No Correio da Manhã–CM, o brasileiro Begoleã Fernandes foi preso, quando voltava a Belo Horizonte, por suspeita de canibalismo. E, na primeira página do Diário de Notícias‒DN, “PCC quer utilizar Portugal como porta de entrada de Cocaína na Europa”. O Brasil, triste Brasil, assim brilha na Europa.

CASAS. Governo pretende invadir casas vazias para alugar a quem precise. Isso não vai acabar bem.

CENTENÁRIOS. Em Portugal, o número de pessoas com mais de 100 anos duplicou na última década. Não só aqui, penso. Em toda parte estamos vivendo mais. Ainda bem. E, considerando meu caso, penso que 100 é ainda muito pouco.

CONTAS PÚBLICAS. Primeira página de OP diz que o “Conselho Estratégico de Defesa Nacional (CEDN)”, da Presidência da República, define que “para garantir a segurança nacional deve haver estabilidade nas contas públicas”. Vale para Portugal. Mas, parece, não para o Brasil. O que é pena.

CORRUPÇÃO. Primeira página de OP: “Número de condenados por corrupção é o mais baixo nos últimos 16 anos”. Não só em nosso Brasil. Roubar, para gente demais, vale muito a pena.

COVID. Surgem, agora, os primeiros estudos sobre as estratégias usadas, pelos países, para combater a pandemia. Com destaque, aqui, nas comparações entre Suécia e Portugal. Suécia, com “uma política sem confinamentos, por não serem sustentáveis a longo prazo”; e Portugal com um sistema que quase reproduz nosso modelo brasileiro. Os números mostram Portugal com 2.512 mortos por milhão de habitantes; enquanto Suécia, bem menos, apenas 2.069 mortes. Com a palavra, os cientistas.

EUTANÁSIA. O Tribunal Constitucional devolveu, à Assembleia Nacional, lei aprovada autorizando a morte piedosa. E vem, agora, a primeira pesquisa: “61% votam a favor da eutanásia no país”. No Brasil, qual seria o percentual?

HOSPITAIS. Primeira página do DN, “700 pessoas a viver em hospitais depois de alta”. Ficam boas das doenças e não tem para onde ir. Isso é que é tragédia.

LULA. Foi convidado pelo ministro João Gomes Cravinho, dos Negócios Estrangeiros do governo Costa, a discursar na Assembleia Nacional (o Congresso daqui, com apenas deputados, que Portugal não tem Senado) na sessão solene de 25 de abril. Só que a Assembleia não convidou ninguém. E não o queria receber, em respeito à separação de poderes. Com apoio, nessa recusa, do presidente da República, Marcelo Rebelo de Souza. Charge de Luis Afonso resume a situação: “1. Um amigo meu vai amanhã jantar em sua casa. 2. Um amigo seu? Mas eu não o convidei. 3. Ora, não vai me dizer que não”. Acabou tudo num jeitinho brasileiro. Vai falar, mas não na sessão comemorativa à Revolução dos Cravos. Em outro horário, menos nobre.

MÉDICOS. Duas curiosidades nas eleições para o Sindicato dos Médicos aqui de Portugal. Uma é nenhuma mulher ser candidata a Bastonário ou algum outro cargo de direção. A segunda é que todos os candidatos são contra o aumento de vagas nos cursos de medicina. Em um país com bem menos médicos do que deveria (ou poderia), é difícil entender.

MONÇÃO. Primeira página do JN fala em evento gastronômico que vai realizar-se na aldeia de Piais, de hoje até domingo, com essa manchete

‒ Monção quebra jejum de 3 anos e reedita Feira da Foda.

NOVO VIAGRA. Equipe liderada por Xuetao Smi, da Universidade de Cantão (China), descobriu tecido a partir de material conhecido como “Álcool Polivinílico”, que corrige a disfunção em porcos para reproduzir•. Com os animais logo voltando a ter ereções. O tecido, conhecido como “Túnica Albugínea”, também funciona em humanos. Se der mesmo certo, vai ser uma revolução.

PÂNCREAS. Já está sendo testado, com sucesso, um artificial. Nessa fase, em pacientes com diabetes. E funciona controlado por um celular. A notícia dá conta de experiências similares realizadas em Estados Unidos, Europa, Austrália e Nova Zelândia. Vamos rezar para que dê certo.

PÍLULAS PARA HOMENS. Depois da Pílula Feminina, surgida em 1960, desde então se estuda algo similar, para os homens. Experimentos agora, com a enzima SAC (aderilato cidose solúvel) são promissores. E já apresentam bons resultados em ratinhos. Se der certo mesmo, o mercado vai explodir.

ROBIN DOS BOSQUES. OP dá a notícia, em primeira página, “Provedor convoca Robin dos Bosques e Madre Teresa de Calcutá”. Por vezes, é preciso traduzir os nomes para o leitor brasileiro. Esse “Robin dos Bosques” é Robin Hood. Já “Papai Noel”, aqui, é Pai Natal. “Mickey Mouse” é o Rato Mickey. “Os 3 Patetas” são Os 3 Estarolas. “O Gordo e o Magro”, Bucha e Estica. E “camisinha” é durex.

* * *

P.S. Ontem, 16 de março, dona Maria Lia teria feito 97 anos. Para ela redigi, num Natal, esses versos:

– Me diga dona
Maria Lia
Luar da noite
Flor do meu dia
Se brilha ainda
A luz infinda
Que eu perseguia.

• Quando completou 40 anos, mandei para ela esse bilhete

‒ Minha mãe, não é por nada não mas a IDA começa aos 40.

Sem resposta. Quando fez 80 seu motorista chegou bem cedo, em nossa casa, com bilhete dela

‒ Meu filho, esperei 40 anos para lhe responder. A IDA pode ser que comece aos 40. Mas a VIDA começa, mesmo, é aos 80.

• Se assim for, nos deixou com só 13 anos. Pena, que lembro dela todos os dias. E como dói.