JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

CONVERSAS DE ½ MINUTO (31) ‒ MÉDICOS

Mais conversas, hoje só com médicos, em livro que estou escrevendo (título da coluna).

* * *

ANA VASCONCELOS, advogada. O médico olhou para ela com olhos de pena

‒ Você tem câncer, Ana.

‒ Qual o tratamento?

‒ Nenhum, infelizmente.

Decidiu ir a São Paulo e junta, com mais quatro médicos, confirmou esse diagnóstico. Melhor voltar e morrer no Recife. Só que não conseguia suportar essa espera e decidiu abreviar sua história. Melhor o fim do espanto que um espanto sem fim. Como não tinha coragem para se jogar de um edifício, ou dar tiro na cabeça, escolheu fazer isso dentro de seu carro. Entre segunda e terça, madrugada (sem ninguém na rua para ser atropelado), em reta que começava na Ponte Giratória e findava em muro de concreto, grosso, da Marinha, no Porto do Recife. Lugar perfeito para um acidente automobilístico. Acelerou o velho Gol até chegar a velocidade máxima. Os braços, ao segurar o volante que tremia, estavam já dormentes (foi quando percebeu que morreria sem dores). E viu aquele muro se aproximar. Faltava pouco. Só que um pneu voou e o carro começou a dar voltas. Sem capotar, sorte dela. Até que parou. Saiu, era inacreditável, estava de frente para o tal muro. A menos de um palmo. Então pensou

‒ É coisa de Deus. Ele não quer que eu morra e me trouxe aqui para dizer qual missão reservou para mim.

Olhou em volta e viu que, ali, havia só marinheiros e mulheres tentando sobreviver. Seu público não seriam aqueles marinheiros, com certeza. Decidiu criar uma instituição memorável, a Casa de Passagem – dedicada a abrigar, proteger e ensinar ofícios dignos a prostitutas que eram depois colocadas no mercado de trabalho. E Ana bem, sem mais notícias do tal câncer. Enquanto começaram a morrer os médicos que deram aquele diagnóstico. Na última vez que a vi disse, brincando,

‒ Ainda não morreu?, amiga.

‒ Que nada, Zé Paulo, e já decidi, só morro depois de enterrar os cinco médicos que me condenaram.

‒ Até agora…

‒ Quatro já foram. Só falta um.

CARLOS ROBERTO MORAES, cirurgião cardíaco. Pierre Gondim, em Londres, lembrou

‒ Há dois tipos de cirurgiões: os que bebem e os que já beberam o suficiente.

* * *

Me perguntou

– Quantos charutos você fuma?, por dia.

– Só um. Mas todo charuteiro mente muito.

ELIAS SULTANUM, santeiro. Comprou casa velha junto ao Mercado da Ribeira (Olinda). Já morando nela, começou uma reforma. Só que passou a ouvir uma barulheira que não tinha fim. Na quarta noite sem dormir, foi até o meio da escada e anunciou

– Atenção, senhores fantasmas, acabaram as reformas. A casa fica do jeito que está.

Em seguida, foi para o quarto e dormiu bem. Fim das reformas, fim dos barulhos. E ninguém, até hoje, conseguiu explicar o que aconteceu.

Dona JOANINHA, doméstica. Quinta-feira. Maria Lectícia informou que acabou bem uma operação de minha mãe. No ombro, sem riscos. Disse que estava no quarto 405 do Hospital Santa Joana e completou lembrando que já recebia visitas. Tradução, era para ir. Logo. Manda quem pode (ela), obedece quem tem juízo (eu). Ou pensa que tem, o que dá no mesmo. Não sei como, entendi Hospital Português. Errado, claro. Parei longe, calor danado, enfrentei fila no elevador, até que cheguei no quarto andar. Quando abri a porta do 405 lá estava mulher, com certeza cliente do SUS, que me olhou assustada. Ao perceber o endereço errado, e para não perder a viagem, disse

– Mamãe!!!

– Eu não sou sua mãe, não.

– Mãe desnaturada, que não reconhece o filho.

– Tenha calma, senhor. Vamos conversar. O que lhe faz acreditar que sou sua mãe?

– É simples. Minha mulher disse que mamãe estava no quarto 405. É esse. Logo, a senhora é minha mãe.

– Está errado. Pode acreditar que não sou sua mãe.

Ficamos conversando por bom tempo. Disse que podia lhe chamar de Joaninha. Contou sua vida simples, sem eventos notáveis, igual à de tantas. No fim, desejei melhoras e fui saindo. Quase na porta, ela gritou

– Meu filho!!!

Achei graça e respondi

– O que é?, mamãe.

– Volte amanhã para conversar que vivo aqui tão sozinha.

Dia seguinte, sexta-feira, mandei uma cesta com frutas. E, segunda, retornei ao hospital. Para conversar, como pediu. Abri a porta, o quarto estava já vazio. Não tive coragem de perguntar o que havia acontecido com ela e fui embora, rezando que estivesse em casa. Beijos, dona Joaninha.

JOEL DATZ, um dos “irmãos eventos” – conhecidos, no Recife, por irem a todas as recepções, de batizados a conferências. Vinha caminhando pela Manuel Borba quando sentiu dores típicas de um enfarte. Como estava bem perto de unidade do SAMU, em frente ao antigo Cine Boa Vista, foi andando até lá

– Estou tendo um enfarte e preciso que me levem, de ambulância, para o Procape (onde acabaria morrendo, só que muitos anos depois).

– Impossível, senhor. Que, segundo nossos regulamentos, só podemos atender casos por telefone. E fica tudo gravado.

– Mas vou morrer aqui, na sua frente?

– Infelizmente, vai.
Foi quando viu, do outro lado da rua, um orelhão. E seus bolsos viviam cheios de fichas (num tempo em que ainda não havia celulares). Foi até lá e ligou.

– É do SAMU?

– Sim.

– Estou tendo um enfarte. Podem me levar para o Procape?

– Claro, senhor, onde está?

– Bem na sua frente.

LUZILÁ GONÇALVES, escritora. Madrugada, ligou amiga pedindo ajuda que o marido estava quase morto. Luzilá teve que ir a colégio de freiras que acolhiam padres. Encontrou um, já bem velhinho, e disse que precisava dele para dar a Unção dos Enfermos. Tudo acertado, inclusive o preço. Mas o velho quis tomar café, antes de partir. A freirinha que lhe atendeu, com toda paz do mundo, preparou tapioca e cuscuz que ele comia com prazer. Sem pressa. E o tempo ia passando.

– Padre, queria lembrar que o homem está se acabando.

– Tenha calma, filha, Deus é paciente.

– Deus eu sei que é, padre. Só não estou certa é que o doente queira esperar tanto tempo.

Afinal, chegaram no apartamento. O padre leu Breviário e belo Ofício aos Mortos. Diante de um paciente largado na cama, lívido, com os olhos fechados. E todos rezando. Ocorre que, de repente, o quase defunto deu um pulo

– Que merda é essa?! A gente nem pode mais dormir em paz?!!, porra!!!

Em resumo, o homem estava era de porre. Coma alcoólico. Foi só engano da quase viúva.

MARIA DE JESUS ALVES, cirurgiã. Começou a operar, no Hospital Getúlio Vargas, criança com a perna quebrada por conta de um atropelamento. A avó chegou apreensiva, na portaria, e pediu informações de como estava seu neto William. O médico Octávio (filho de Geninha e Baby) Rosa Borges respondeu

– Está lá em cima (no quinto andar, onde ficava o bloco cirúrgico), nas mãos de (Maria de) Jesus.

E a velha quase morreu do susto.

MIGUEL SOUZA TAVARES, escritor. Seu bisavô, Thomás de Mello Breyner, 4º Conde de Mafra, Catedrático de Medicina e médico pessoal do rei, era diretor do Hospital São José. E, lá, enfermeiras formalizaram uma reclamação

‒ Os estudantes ficam passando a mão em nossas bundas. Exigimos providências.

‒ Perdão, mas não vejo solução possível para o problema, enquanto os estudantes tiverem mão e vocês tiverem bunda.

OSCAR COUTINHO, clínico geral. Provocando, me disse

– Está pensando que Medicina é fácil como Direito?

– Pode até não ser, amigo. Mas tem uma vantagem, e grande. Erro de advogado fica no processo; enquanto, o do médico, a terra come.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

NOTÍCIAS DE PORTUGAL

Lisboa. Notícias que, penso, interessarão aos brasileiros.

ALIMENTOS BIOLÓGICOS. Em O Publico ‒ OP, manchete na capa com título “Os alimentos biológicos estão em moda, mas muito não passa de um mito”. Dentro, em longa matéria, outras manchetes com destaque: “Maior riqueza nutricional é só um dos mitos à volta dos alimentos biológicos”; ou “Comer biológico é uma decisão, não uma recomendação de saúde”. Em resumo, “os alimentos biológicos não são mais nutritivos, nem evitam doenças”. É tempo de abrir esse debate agora, no Brasil.

ANIMAIS. A revista Visão dá notícia de que, no aeroporto de São Francisco (Estados Unidos), estão à disposição dos passageiros animais, para alugar, destinados a acalmar os passageiros ‒ dois cães, um coelho e um porco. Falta mais nada.

CANIBAIS. Tudo começou com o bispo português Dom Pedro Fernandes Sardinha que foi devorado, em Salvador por índios Caetés. Depois, já na terrinha, foram Ucranianos comendo portugueses. E, agora, um português comendo brasileiros. Uma ironia. Que não faz sentido comer carne humana, por lá, que Portugal tem (depois do Brasil), a melhor culinária do mundo.

CHARGES. De Luís Afonso, em OP; que valem para Portugal e também, talvez, para o Brasil. Uma sobre o mundial de futebol feminino. 1. Homem do bar “O presidente da República disse que é possível fazer o impossível”. 2. O amigo “É possível fazer o impossível?”. 3. Homem do bar “No futebol”. 4. O amigo, “No desenvolvimento do país é impossível fazer o possível”. Outra: 1. Homem do Bar: “2 anos após os talibãs terem tomado Cabul…”. 2. “O Afeganistão vive um pesadelo humanitário”. 3. Cliente: “A comunidade internacional não faz nada?” 4. Homem do Bar. “Infelizmente, não há por lá grandes oportunidades de negócios”. Poderia completar dizendo nem índios, nem florestas…

CIGARROS E CHARUTOS. O Ministério da Saúde quer proibir o fumo, em todos os lugares. Mesmo, como diz manchete de OP, reconhecendo que “Portugueses estão a consumir mais tabaco e menos sedativos”. Conclusão, é bom calmante. Um deputado, na Assembleia da República (equivalente a nosso Congresso, que Portugal não tem Senado), perguntou ao representante do ministro da Saúde a razão, “Para proteger a vida do próprio fumante”. Em seguida, o mesmo deputado perguntou se iriam também proibir o álcool, “Não”. E o deputado “Quer dizer que o cidadão deixa de fumar, para não morrer; mas pode tomar aguardente e dirigir um carro que vai matar os outros?”. “Infelizmente, sim”. Para piorar, o ministro Manuel Pizarro declarou, à revista Visão, “Talvez fume uns 10 cigarros e uns 10 charutos por ano, recreativamente, em casamentos ou situações do gênero”. Quer dizer quem for do governo, pode. E, os outros, que se lixem. Pelo tumulto que se viu, na Assembleia e nos jornais, não vai ser fácil aprovar uma lei assim.

COVID. Primeira página do Diário de Notícias ‒ DN diz “Covid 19, nova variante parece escapar das vacinas”. A seguir, em página inteira, “EG.5 ou ERIS, o que se sabe sobre a nova variante da Omicron?”. Mais longa matéria, com gráficos. Prepare-se, amigo leitor, para fortes emoções.

CREMES CAROS. Miguel Esteves Cardoso, em sua coluna de OP, informou já estar à venda, em Portugal, o Platinum Rose Haute-Rejuvenation Protocol, que promete devolver juventude à pele. Um vidrinho que cabe na mão, com só 24 milímetros, ao custo de 1.796 euros cada unidade. Traduzindo, mais de 11 mil reais. Quem quiser meio litro vai pagar 37.375 euros. Bem mais que 200 mil reais. Sem acreditar procuramos, nas casas de Lisboa, para ver se era verdade. E a resposta em todas as lojas, espantosa, foi “já acabou”. “Chegam e logo são vendidos”, dizem os balconistas. Dá pra acreditar?

EMPREGOS. A revista Visão informa que, na Alemanha, há 773.087 vagas disponíveis. E o governo de Olaf Scholz já anuncia que está aceitando estrangeiros. Quem quiser se habilitar, a hora é essa.

IA. A revista Visão anuncia que “14 milhões de empregos desaparecerão nos próximos 5 anos”. Culpa da Inteligência Artificial, que “pode implicar na eliminação de profissões”. E, na primeira página de OP, “Universidades: multiplicam-se os cursos de Inteligência Artificial”. Dentro, na matéria, “cursos atraem cada vez mais alunos”. Enquanto isso, pelo Brasil, nada.

JUROS. Continuam subindo, na Europa. Primeira página de OP: “BCE (Banco Central Europeu) volta hoje a subir juros”. No mesmo dia que o FED (Federal Reserve, o Banco Central dos Estados Unidos) elevou, o de lá, para 5.5% ao ano. O maior das últimas 2 décadas. É bom, por aqui, não esperar grandes novidades nessa matéria.

LINDA‒A‒VELHA. Manchete do jornal Olhar Eiras chama atenção, ao referir o local onde se vai construir uma linha férrea, “Linda‒a‒Velha”. Um nome poético. Lembro Manoel Bandeira, no seu Evocação ao Recife, “Nomes das ruas de minha infância, Rua do Sol… da Saudade… da Aurora”. Cumpre dizer, agora, como é belo o nome desse lugar que não conheço, Linda‒a‒Velha.

MÉDICOS BRASILEIROS. Primeira página de OP: “Governo quer até 300 médicos da América Latina para centros de saúde”. Quem quiser, a hora é essa.

MUDANÇA DE GÊNERO. Manchete de OP diz “Num ano, mais de 500 pessoas mudaram de gênero e nome no Cartão Cidadão” (nossa Carteira de Identidade). Em 2022 foram, exatamente, 519 pessoas. Entre os pedidos, 146 feitos por menores de idade. Nos últimos 12 anos, 2.312 pedidos. Explicando-se a estatística porque só a partir de 2010 passou a ser a prática permitida. Sem informação de se foram mais homens que passaram a ser mulheres ou o contrário. Seia bom saber os números aqui, no Brasil.

NOMES NEUTROS. OP informa que a Assembleia da República discute o art. 103 do Código do Registro Civil ‒ segundo o qual os nomes próprios não devem “suscitar dúvidas sobre o sexo do registrado”. Darci, Galba, por aí. E, ainda, um Cartão do Cidadão em que não conste sexo. É meio complicado.

PLANTAS ELÉTRICAS. OP dá a notícia de um projeto da empresa Bioo, de Viladecans (Baracelona, Espanha), que pretende enterrar baterias no solo “para produzir energia a partir de microrganismos no solo”. Se der certo, vai ser uma festa.

POLÍTICA. A TV Sucesso, de Moçambique, exibe discurso de Deputado com expressão que poderia valer hoje, no Brasil, o “lambebotismo”. Com seus operadores, os “lambelotistas” ou “lambedores”. E os do governo, com seu poder, que seriam os “lambidos”. A expressão, que vem da subserviência às botas militares, vale hoje para populistas em geral que gostam de serem adulados. E que existem no Brasil, em Moçambique e no mundo todo.

RELIGIÃO. Mais da metade dos jovens portugueses entre 14 e 30 anos, diz OP, são “crentes”. Gostaria de ver essa estatística, no Brasil.

RIO AMAZONAS. Na primeira página do DN está “Descer os 3.500km do Amazonas foi a grande aventura de minha vida”, diz António Carrelhos, que se define como “jurista, gestor e aventureiro”. Um estrangeiro ensinando, aos brasileiros, que precisamos conhecer nosso país.

SALVA VIDAS. Alguns nomes portugueses continuam a nos assustar. Como essa manchete de OP, “Faltam quase mil nadadores-salvadores para vigiar as praias portuguesas”. Nossos salva-vidas. Outra manchete de OP diz “todos os anos são liberados 20 mil furos em Portugal”. Furos aqui, antes que se leia com maldade, são poços artesianos. Sei não… O “canhão de Nazaré” anda longe de pólvoras ou balas. É só um canyon, no mar de Nazaret, que permite as mais altas ondas do mundo para o surf (fui lá, experimentar, a prudência recomendou deixar para outro dia). A Baronesa de Santiago perguntou, a dona Lectícia, se a mãe dela havia sido “incinerada”. Foi cremada, mas soa esquisito. X-acto é estilete. Esferovit é isopor. Atacador é cadaço. Dióspiros é caqui. Alperci é damasco. Pensorápido é band-aid. Gravador é grampeador. No mais, a gente se acostuma. Robim dos Bosques é Robin Hood. O rato Mickey é Mickey Mouse. Os 3 Estarolas são os 3 Patetas. Bucha e Estica são o Gordo e o Magro. Para completar sugiro que nenhum brasileiro, em Portugal, peça “ladrilho com durex”. Que “durex” é camisinha; e, “ladrilho”, um boquete. P.S. Antes que me esqueça, se quiser durex mesmo, peça na loja fita-cola. E isso.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

A TABACARIA DA TABACARIA

Lisboa. “É o mais belo poema do mundo”, segundo Hemy Hourcade. No início dos anos 2000 o jornal parisiense Liberátion fez enquete, com 100 poetas, para saber qual teria sido o maior poema do Século XX. Ganhou a Tabacaria, de Fernando Pessoa; e, em seguida, The wasted land (esse título tem 5 traduções diferentes, no Brasil, prefiro Terra devastada), de T.S. Elliot. Mas haveria mesmo uma tabacaria da Tabacaria? Isso sempre desejei saber. Como nenhum especialista quis perder tempo na pesquisa, para responder, tive que procurar eu mesmo.

Para tanto é preciso, antes de tudo, lembrar que nosso poeta só escrevia sobre o que estava de seu lado ‒ amigos, família, geografia da cidade, admirações literárias, mitologia, por aí. Nada, nele, era por acaso. Em outros escritores poderia ser algo secundário ‒ a tabacaria, o café, a praça, uma loja qualquer em que a cena se passasse. Algum espaço, banal, escolhido sem maiores preocupações. Já com Pessoa, não. Vênia para confessar que o livro que escrevi sobre ele (Fernando Pessoa, uma quase autobiografia, Ed. Record, depois também publicado em mais 12 países) começou, de verdade, no momento mágico em que descobri isso.

Então reli as 27.543 páginas que deixou na sua Arca, mais os muitos esparsos, no total quase 30 mil; e sabia quando escreveu cada uma delas, qual a razão que o levou a fazer isso, em quem pensava. Como se Pessoa deixasse, em tudo que escrevia, rastros de sua própria vida. Sabia então, sem dúvida possível, que existia mesmo essa tabacaria da Tabacaria. Mas qual seria?, eis a questão.

Para alguns biógrafos, tratava-se da Tabacaria Costa, ainda hoje funcionando na Rua Áurea, 295 ‒ por lá, quase sempre, comprar tabacos. Segundo outros, seria a Casa Havaneza do Chiado, na Rua Garrett, 124-134, dedicada ao comércio de cigarros por miúdo, outros artigos para fumadores, jornais, lotaria. O que faz sentido por ser vizinha, parede com parede, da Brasileira (do Chiado, não a do Rossio), onde ia (quase) todos os dias para encontrar seu grupo de amigos.

Para outros, ainda, seria a Leitaria Acadêmica, destinada a comércio e venda de leite, laticínios, pastelarias, vinhos, engarrafados e a miúdo, frutaria, águas minerais etc. Neste caso, uma impossibilidade absoluta, por ter sido inaugurada só em 1º de janeiro de 1938, quando Pessoa já estava morto. Opiniões dadas, todas, sem nenhuma forte histórica.

Versão mais comum, entre autores, é que seria A Morgadinha, situada em Campo do Ourique, na Rua Silva Carvalho 13/15, esquina com Coelho da Rocha ‒ a rua em que morava Pessoa, no número 16, quando foi escrito a Tabacaria. Por se tratar do único local, próximo a seu edifício, em que se podia comprar tabacos. A ideia de que tenha sido mesmo ela se baseia no próprio poema, situando a tabacaria em frente a suas janelas.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo
que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?).

Mas também essa hipótese não se sustenta. Primeiro porque o quarto de Pessoa, à época em que escreveu esses versos, não tinha janela nenhuma. Sendo único assim, com vista para a rua, o destinado aos sobrinhos. Uma informação que me foi dada pela própria Manuela Nogueira, com toda a autoridade de ser uma das duas crianças (a outra era seu irmão João Miguel) que dormia nesse quarto da frente. E também por António Manuel Rodrigues de Seixas, filho do barbeiro Manassés, que (quase sempre) acompanhava o pai quando ia fazer diariamente a barba de Pessoa, no seu quarto.

O apartamento foi mais tarde inteiramente destruído, por dentro, nas reformas para a ambientação da hoje Casa Fernando Pessoa. Sem mais registros do passado, pois. Mas a planta que desenhou esse filho do barbeiro Manassés, em minha frente, começava com a sala de jantar e o quarto destinado às crianças, ambos com janelas; depois, em um corredor, o quarto da irmã Teca, bem espaçoso; e, só então, o de Pessoa. Pequeno, como de um empregado, escuro, quente, deprimente, segundo seu testemunho. E sem janela nenhuma.

Também porque A Morgadinha ficava numa esquina, em local mais recuado que os demais imóveis da Rua Coelho da Rocha ‒ entre eles, o edifício de Pessoa. Do mesmo lado da rua. E ainda quando se projetasse o corpo para fora da janela do apartamento, olhando para o lado esquerdo (como fiz), não se poderia vê-la da janela daquele quarto da frente. Razão pela qual jamais poderia ser essa a “Tabacaria de defronte” ou “do outro lado da rua, como coisa real por fora”, assim lembra nos versos ‒ em que se vê a cena descrita no fim do poema, com dois amigos conversando (“Esteves” e o “dono da Tabacaria”).

Segundo os muitos depoimentos que me foram dados por vizinhos daquele tempo, especialmente António (filho do barbeiro Manassés) e Carlos Bate Chapa, seus proprietários seriam Oliveira e Trindade; e por uma porta do estabelecimento, na Rua Silva Carvalho, era guardado o automóvel Ford de um dos seus proprietários. Não terá sido bem assim.

Oliveira, com certeza, é Manuel Santana de Oliveira, solteiro, maior, empregado do comércio, que residia na Avenida Padre Manuel da Nóbrega 19-4º esquerdo. Um dos sócios que criaram essa A Morgadinha. Enquanto o restante seria um empregado, Júlio Trindade, que morava na Rua Saraiva de Carvalho 114, bem próximo àquele endereço. Era ele o “rechonchudo Trindade” de que falava Bernardo Soares, no Desassossego.

Já a marca do carro, Ford, era praticamente inexistente na Lisboa dos tempos de Pessoa. Assim, mais certamente, se tem que o dito Oliveira guardava, ali, seu automóvel (de marca ignorada); traída, pelo tempo, a memória desses velhos vizinhos com quem conversei.

De certo apenas se tendo que à época do poema, no endereço daquela esquina, havia mesmo um (outro) estabelecimento que vendia vinhos e chocolates; além, segundo a sobrinha Manuela Nogueira, de jornais, tabacos e artigos de papelaria. Sem mais registros, nas Conservatórias, de qual seria.

Não só por isso. Também, e sobretudo, pela circunstância de nem existir essa A Morgadinha, naquele tempo. Só isto bastaria. Segundo a Conservatória do Registro Comercial (Junta Comercial) de Lisboa foi constituída (registro número 32.082) só em 3 de junho de 1958, dedicada ao comércio de leiteria, pastelaria, vinhos e frutas; dissolvida essa Morgadinha, pouco depois, segundo escritura de 17 de outubro de 1971 registrada no 15º Cartório Notarial de Lisboa.

Seguindo na busca de qual seria a tabacaria da Tabacaria bom lembrar que, em fins do Século XIX e começo do Século XX, Lisboa tinha 80 tabacarias explorando o mercado de cigarros, cigarrilhas e charutos, por vezes também vendendo jornais e loterias (algumas ainda fazendo câmbio de moedas). Começava, ali, a era das Havanezas, um símbolo da belle époque na Lisboa de então.

E entre essas havanezas, fundada ao final do Século XIX, estava a Havaneza dos Retroseiros. Ficava bem em frente ao escritório da Casa Moitinho de Almeida, na esquina da então Rua dos Retroseiros, 63/65 com a Rua da Prata, 65 (até pouco antes, Rua Bela da Rainha). “Do outro lado da rua, como coisa real por fora”, como lembra nos versos. Retroses são fios de seda ou algodão, para costura ou bordado; tendo esse nome, a serventia, por reunir todas as retroserias da parte baixa da cidade. Ainda hoje assim se dá. Antes, se chamava d’El-Rei; em sequência, da Madalena; e, finalmente, o nome que hoje tem, dos Retrozeiros.

No mesmo imóvel, presentemente, está a Pelaria Pampas ‒ estabelecimento dedicado ao comércio de peles, sobretudo da Argentina. Por conta de mudanças na geografia da cidade a pelaria, que ocupa hoje o imóvel, já não se volta em um dos lados para a Rua da Prata; recebendo, sua única porta, o número 63 da Rua da Conceição.

Segundo o Almanaque Palhares de 1900, a Havaneza dos Retroseiros é definida como um depósito de tabacos medicinais e estrangeiros, jornais, loterias e outros artigos próprios para fumadores; com telefone 21.004, assim constava da Lista dos Assinantes da Companhia, de 1930. Seu proprietário, no começo do século, era Manuel Alves Rodrigues ‒ um cavalheiro magro, com bigodes retorcidos de volta inteira, barbicha no queixo (desde então conhecida como pera) e cabelo (bem à moda da época) apartado ao meio. Usava colarinho gomado, de pontas redondas, e laço caindo à Lavalière como um colar.

Na Casa Moutinho de Almeida, Pessoa datilografava seus poemas à noite, depois de findos os trabalhos de tradução, e ali foi escrito a Tabacaria ‒ usando a máquina de datilografar do patrão, então demasiado cara para seus poucos recursos. Essa informação é do poeta Luís Pedro Moitinho de Almeida, filho do proprietário da casa, que pela manhã comentava os versos com seu autor. No térreo do escritório ficavam os funcionários. No primeiro andar, a sala do patrão. E, um andar acima, estava sua mansarda. “Mas sou e talvez serei sempre o da mansarda, ainda que não more nela”, diz no poema; posto morar, como vimos, na Rua Coelho da Rocha 16, em Campo de Ourique.

E da janela do escritório, como pude comprovar, dá mesmo para ver bem em frente o imóvel em que estava dita Havaneza dos Retroseiros. Sendo prova definitiva de ser mesmo essa, a tabacaria, dada pelo próprio Pessoa, em poema sem título (de 14/10/1930) que começa com esses versos:

Cruz na porta da tabacaria!
Quem morreu? O próprio Alves? Dou
Ao diabo o bem-estar que trazia.
Desde ontem a cidade mudou.

O Alves dos versos, como vimos, é Manuel Alves Rodrigues, antigo proprietário do estabelecimento. “O dono pálido da tabacaria”, como diz Pessoa no Desassossego (Bernardo Soares). Trata-se da única tabacaria, na Lisboa daquele tempo, que tinha um Alves como proprietário. Tudo resumido, amigo leitor, afinal chegávamos à Havaneza dos Retrozeiros. Sem dúvida possível, era essa a tabacaria da Tabacaria.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

O HINO

Lisboa. Encerro, aqui, essa pequena série sobre histórias da redemocratização do Brasil, naqueles distantes anos. Vamos a elas:

PODER ABSOLUTO. Começo por quando tudo começou, nos tempos da Redentora. Em Santiago do Chile, Adão Pereira Nunes, Fernando Gasparian (que contou essa história), Fernando Henrique Cardoso, Tiago de Mello, entre outros exilados. Alguns já então condenados, outros quase. Darcy Ribeiro contou como, no fim do Governo Jango, se sentiu com “poderes imperiais”. É que o presidente da República voara para o sul do País ‒ acompanhado pelo chefe da Casa Militar, o general Assis Brasil. O ministro da Marinha, Pedro Paulo de Araújo Suzano, pediu demissão. O ministro da Guerra, Jair Dantas Ribeiro, gravemente enfermo, estava no hospital. O que fazia de Darcy, chefe da Casa Civil, o comandante supremo das Forças Armadas. E, ao grupo, declarou

‒ Foi quando tive a agradável sensação do poder absoluto.

Após o que Celso Furtado concluiu

‒ Agora está explicado porque estamos aqui.

Dado o Golpe Militar, em 01/04, o bravo Darcy ainda ficou três dias sozinho dentro do Palácio, para resistir, até de lá ser retirado por Waldir Pires.

A BOMBA. Nesse mesmo 1964 vinha caminhando tranquilo, pela Rua do Hospício, Karl Marx Guimarães Coelho. Já na calçada do 4º Exército (em frente à Faculdade de Direito do Recife), um militar considerou suspeita sua bolsa e perguntou

‒ O que tem aí dentro?

¬‒ Nada.

‒ Quero ver.

E encontrou, lá, uma nota – “comprar fios e bobinas para a bomba”. Perguntou o nome do cidadão

¬‒ Karl Marx.

Era demais. Com certeza, comunista. E uma bomba, com certeza terrorista. Foi preso. Sem ter tempo de explicar que se tratava de bomba compressora para um ar-condicionado que estava consertando. Apanhou tanto que passou três meses no hospital. Viva a Democracia.

UM ESTUPROZINHO. Passa o tempo, vem a Transição, e o país se preparava para a posse que seria de Tancredo e acabou de Sarney. Estávamos todos juntos, nessa reunião com ele. O ministro da Justiça da Ditadura, Ibrahim Abi-Ackel, tentava ser simpático. Até chamou seu sucessor, Fernando Lyra, de jurista. E Lyra confirmou, todo prosa,

– Sou mesmo e de Caruaru!

Vendo Ruth (Maria Rita, de nascença) Escobar chegar, quiz fazer as pazes com ela.

– Dona Ruth, preciso explicar. Nunca lhe deixei representar peças de teatro, nas prisões, pensando em sua segurança.

– Como?

– É que os presos, lhe vendo, iriam ficar com alguma fixação sexual. E nas ruas, daqui a dez anos, poderiam querer lhe estuprar.

– Agora é que não lhe desculpo mesmo, ministro. Pois um estuprozinho, comigo dez anos mais velha, seria muito bom.

O HINO. 21 de abril de 1985. Tancredo morto e Fafá de Belém cantou, nas tvs, o Hino Nacional sem nenhum instrumento acompanhando. Com muita emoção. E queria fazer o mesmo num disco. Ocorre que não podia, segundo a gravadora, a partir de interpretação equivocada da Lei 5.700/71.

Assinei parecer autorizando. Porque a exigência de “andamento metronômico de uma semínima igual a 120, em tonalidade si bemol” (art. 24), era só para “Sessões Cívicas” (art. 25). E o disco saiu. Dedicado a mim, beijos Maria de Fátima.

Fevereiro de 1986. Transmissão do cargo de ministro da Justiça. Tomaria posse Paulo Brossard, para Brizola um “Rui Barbosa em compota”. Lyra, o ministro da Justiça que partia, gostava muito daquela gravação. E deu ordem

– Na hora da posse, bota o disco de Fafá.

Entrei na conversa

– Perdão, ministro. Mas seu último ato, no ministério, não pode ser uma ilegalidade, que a transmissão do cargo é uma Sessão Cívica.

– Lá vem você, de novo, botando gosto ruim.

– Desculpe.

– Mas Sarney e Brossard vão ficar putos.

– Será ruim, para você.

Pensou um pouco e disse

– Deixe comigo.

– Fernando…

– Confie.

Todos em seus lugares, no auditório, e o locutor convocou autoridades para a mesa: Presidente da República, ministro que sai, ministro que entra, outros ministros, Procurador Geral da República. Só então anunciou

– Formada a mesa, e ANTES de se iniciar esta Sessão Cívica, vamos ouvir o Hino Nacional cantado por Fafá de Belém.

Todos de pé. Ouve-se o Hino, em disco, e o povo chorando. Em seguida,

– Começa, AGORA, a Sessão Cívica da transmissão de posse.

E Lyra, rindo,

– Viu como é?

Saudades de um tempo em que política se fazia com graça, engenho e arte.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

MILLOR É TERNO

Nesta quarta, 16/08/23, Millor Fernandes teria feito 100 anos. Uma data memorável. Por ser gênio e único. O primeiro cidadão a nascer Milton e ser enterrado como Millor, culpa do tabelião que trocou, um “T” pelo “L”. Acontece.

Nossa relação, bom lembrar, começou nos tempos do ministério da Justiça. E foi tumultuada. No restaurante do hotel Ouro Verde (Avenida Atlântica, Rio) se daria, num almoço, homenagem que a classe artística me prestaria. Pelo fim da censura, tão presente nos tempos da Ditadura Militar. Coordenada por Grande Otelo e Ziraldo, orador seria Millôr Fernandes – que, na hora do evento, mandou esse bilhete (guardei)

– Ziraldo. Pensei melhor e não vejo razão para prestar homenagem a uma pessoa jurídica (?). Faça você mesmo a saudação. Além do mais, esse amigo seu deve ser um chato e não perco nada em não o conhecer.

Correu tudo bem. Ziraldo fez belo discurso e agradeci a presença de todos. Dia seguinte, mandei carta para Millôr (naquele tempo, não havia internet).

– Caro Millôr. A gente se engana. Pensei que você era inteligente, erudito, gênio, agradável, e que seria muito bom lhe conhecer. Nada. É só um chato!, convencido!, presunçoso!, pernóstico!, idiota!. Você disse que não perderia nada em não me conhecer? Pois menos ainda perderei eu em não lhe conhecer.

Alguns dias mais, bilhete de Millôr

– Caro José Paulo, a gente às vezes se excede. Parece que foi meu caso. Peço perdão pela grosseria. Proponho um jantar, para que façamos as pazes. E, como o agressor fui eu, pago a conta.

Respondi com outro bilhete

– Caro Millôr, de você quero apenas uma coisa. Por favor, vá para o inferno.

Sem resposta. Pouco depois, o querido Técio Lins e Silva convidou Maria Lectícia e a mim para jantar. No Arlecchino, se a memória não falha. À entrada do restaurante, ele e Millôr. Explicou

– É para vocês fazerem as pazes.

Correu tudo bem. Nesse encontro, Millôr explicou haver dois tipos de pessoas. Os iguais e os diferentes. Iguais, para ele, seriam os que vão a botecos baratos, sexta de noite, falar mal do governo e de todo mundo. Enquanto diferentes são… diferentes. E esses grupos não se dão. Como estávamos os dois nessa última categoria (segundo ele), dos diferentes (claro), nascemos para andar juntos. E acabou sendo mesmo um dos grandes amigos que tive, pela vida. Tanto que, todos os janeiros, passava temporadas em nossa casa de praia na Lagoa Azul.

* * *

Seguem alguns casos dele.

Todos os 16/08 nos reuníamos. Naquele ano também, seu aniversário dos 70 anos, com festa no apartamento de Eliana e Chico Caruso. Lá, gente de todas as tribos: de João Ubaldo Ribeiro a Geraldinho Carneiro, de Paulo Francis (NY) ao embaixador José Aparecido (então morando em Lisboa), de José Lewgoy a nós (Recife). Quando foi apagar velas, Millôr pediu a palavra

– Estou emocionado. Trata-se de um momento único. Que, é a lei da vida, isso não vai se repetir por muito tempo mais.

Baixou a cabeça, como se fosse chorar. E era mesmo natural. Por ser, provavelmente, o mais velho no recinto. Protestos gerais. Que é isso?, Millôr. Quando se fez silêncio, completou

– A vida é breve, sei bem. Não há como alterar o Destino. Mas quero só dizer uma coisa, meus amigos. Quando o último de vocês morrer, e eu tiver de comemorar aniversário sozinho, vou sentir muitas saudades.

* * *

No mar da Lagoa Azul estavam Ariano Suassuna, Millôr e este que aqui escreve. Todos, falantes empedernidos. Mais Luis Fernando Verissimo (que não fala, mas sabe escutar como ninguém). Cora Rónai queria entrar na conversa, não conseguia e disse com raiva

– Cuidado comigo, Millôr, que sou uma mulher cara.

– Querida, na minha idade, ou é cara ou é coroa.

* * *

Na mesma Lagoa Azul, de vez em quando, tem andada dos siris. Põem os ovos, partem do mangue e vem se lavar no mar; depois, usando palavras de Pessoa (Caeiro, no Guardador…), “para de onde vieram, voltam depois”. No trajeto, com frequência, passam por dentro de nossa casa. Com recomendação, aos funcionários, para não serem incomodados. Noite dessas, grito pavoroso. De Guga, mulher do arquiteto Paulo Casé, que saiu do quarto com um siri pendurado na orelha. Dei um tapa e ele voou. Millôr, espectador da cena, completou

‒ Siri melhor quem siri por último.

* * *

Quando um dos amigos dizia

– Vou fazer aniversário amanhã

ele respondia, sempre,

– Tomara.

* * *

Pouco antes de ir para o céu, se existir mesmo um céu, pediu gravador e deixou essa mensagem

‒ Se me acontecer alguma coisa, tenho certeza que darei tristeza grande a 5 ou 6 pessoas; razoável, a mais 10 pessoas; e alegria, para muita gente. Agora, a grande vantagem de alguma coisa me acontecer é que nenhum filho da puta mais vai me pedir para escrever um prefácio.

* * *

Nesta segunda ligou Ricardo Cravo Alvim, presidente do PENN CLUB do Brasil (importante entidade de escritores). Anunciando cerimônia para entregar, à família, diploma de Sócio Póstumo Bertrand Russel a Millor. E pedindo a alguns membros, mais próximos dele, que dessem um breve depoimento para ser lido na sessão em sua homenagem. Mandei essas palavras:

Millor era amigo certo de amigos incertos.
Homem reto, apesar do empeno da coluna.
Que sentia dores e quase todos o seus derivativos ‒ sobretudo amores, andores e ardores.
Apreciador de bolo de rolo; e, para ser justo, de outros bolos e outros rolos.
Alguém que acreditava na bolsa dos valores e nas boas ações.
Que não gostava de roubar nem o tempo dos outros.
Magro, no corpo.
E gordo, nos sentimentos.
Pobre, mas não de espírito.
E rico, até de ilusões perdidas.
Homem justo, em uma vida injusta, onde os dias passam tão devagar e os anos passam tão depressa.
Dizem que Millor morreu? Impossível. Que Millor é terno. Eterno. Viva Millor.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

CONVERSAS DE ½ MINUTO (30) ‒ ADVOGADOS

Mais conversas, em livro que estou escrevendo (título da coluna). Como hoje, 11 de agosto, é o Dia dos Advogados, só com eles (nós).

* * *

ANTÓNIO VALDEMAR, escritor. Lembrou casos reais ocorridos nos tribunais de Lisboa:

– Advogado: Essa doença, a miastenia grave, afeta sua memória?
– Testemunha: Sim
– Advogado: E de que modo ela afeta a sua memória?
– Testemunha: Eu esqueço-me das coisas.
– Advogado: Esquece-se… Pode nos dar um exemplo de algo que tenha esquecido?

* * *

– Advogado: Doutor, o senhor lembra-se da hora em que começou a examinar o corpo da vítima?
– Testemunha: Sim, a autópsia começou às 20:30h.
– Advogado: E o sr. Décio já estava morto a essa hora?
– Testemunha: Não… Ele estava sentado, na maca, questionando-se por que razão eu estava a fazer-lhe aquela autópsia.

* * *

FERNANDO LYRA, ministro da Justiça. Na Câmara dos Deputados, começou discurso dizendo

– Falo como advogado.

Seu colega José Mendonça, de Belo Jardim, aparteou

– Diga isso com menos pompa, Fernando. Que, nas provas, você filava de mim que sou um analfabeto.

* * *

Por falar no deputado José Mendonça, ficou famosa uma briga deles, nos jornais. Fernando

– Você é uma lagartixa verde.

– E você escreve pipoca com 3 Ps e jumento com H.

* * *

ISAAC PEREIRA DA SILVA, advogado. Convidou para sua defesa de tese de mestrado, na Faculdade de Direito do Recife. Ao entrar na sala um dos examinadores, o professor Gláucio Veiga, se dirigiu a ele

– Brilhante, Isaac. Brilhante.

Isaac nos confessou estar aliviado, por ser Gláucio o mais imprevisível membro da banca. Na inquisição, o mesmo Gláucio

– Dr. Isaac. Quando comecei a ler sua tese pensei que estava louco. Ao acabar, tive certeza, o louco é o senhor.

Isaac, furioso, quase teve um enfarte.

* * *

JOSÉ CARLOS DE VASCONCELOS, jornalista e advogado. No antigo Tribunal da Boa Hora (depois, da Relação), hoje um velho convento situado na Rua Nova do Almada (Lisboa), o juiz dormia seu sono tranquilo. O dos justos. Cumprindo regra de Fernando Pessoa (Boa é a vida), “bom é o vinho, mas melhor é o sono”. E o julgamento que presidia seguia sem problemas. Ocorre que Cunha Leal, advogado das antigas, deu tantos berros na defesa do seu cliente que o pobre juiz acordou “meio estremunhado” (mal acordado, palavras de José Carlos). E, quase sem querer, disse

– Oh, senhor doutor, não é bem assim…

– É assim mesmo, Excelência. O nosso problema é que aqui os juízes sabem mais, a dormir, que todos os advogados de Portugal acordados.

* * *

NILO BATISTA, catedrático de Direito Penal. À época, presidente da OAB-Rio. Dando-se que Silvio Viola, e outros amigos, prepararam essa peça. Uma denúncia, ao Conselho Seccional da Ordem, por propaganda ilegal da profissão. Apresentando, como prova, esse jingle gravado por Lucinha Lins.

– Habeas-corpus na hora
Revisão Criminal
Quem está dentro sai fora
Ele é sensacional
Dotô Nilo Batista
É melhor que ninguém
Nem Heleno Fragoso
Tem o jeito que ele tem.

Mesmo em fins de semana
Sempre à disposição
Ele é bamba no crime
E na contravenção
Dotô Nilo Batista
Não existe outro igual
Data vênia é um artista
No Direito Penal.

Nilo quase morreu. De raiva. E só (muito) depois achou graça.

* * *

SILVIO NEVES BAPTISTA. Advogado e Professor de Direito Civil na Faculdade de Direito do Recife. Em seu escritório, mulher para tratar de seu divórcio. Contou que, no desespero de ser agredida pelo marido, preferiu o suicídio e se jogou do seu apartamento. Situado no décimo andar. Ocorre que a queda foi amortecida por andaimes de obras em curso no edifício. E teve a sorte de cair sobre um monte de lixo. Resultado, apenas uma perna quebrada e arranhões no braço. Foi quando alguém entrou na sala e cumprimentou Sílvio por ter sido eleito para a Academia Pernambucana de Letras. Acadêmicos, todos sabem, são chamados de imortais. O poeta Olavo Bilac, fundador da Academia Brasileira de Letras, até definiu com graça

‒ Imortal é quem não tem onde cair morto.

Certo é que, ouvindo aquela informação, a cliente perguntou

‒ O senhor é imortal?

E Sílvio, considerando ser incomum alguém sobreviver a uma queda do décimo andar, respondeu

‒ Imortal é a senhora.

* * *

No restaurante do Hotel Tropical (Manaus), o garçom anotava pedidos para o jantar. Depois foi conferindo, com cada um dos presentes,

‒ O senhor é filé?

Por aí. Quando chegou em Silvio, apontou para ele com a caneta na mão e perguntou

‒ O senhor é frango?

Não resisti

‒ E como foi que o senhor descobriu?

Todos riram. Mas ele passou dois dias sem falar comigo.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

ÉTICA E DIREITO

Ontem, a Faculdade de Direito do Recife homenageou um de seus professores eméritos; com fixação de quadro, pintado pelo grande Roberto Ploeg (pronuncia-se Plur), na Sala dos Professores. Das suas muitas qualidades, tantos já falaram. Do papel relevante, para a Democracia, que desempenhou como presidente da OAB de Pernambuco, nos negros anos da Ditadura Militar. De seu gosto por ser professor, na cadeira de Direito Comercial, especializado em Falências e Recuperação Judicial. De sua especial qualidade no convier. Tudo muito justo e merecido. Mas prefiro, aqui, citar um traço, nele, que muito apreciava ‒ o compromisso com a ética.

Não a “ética das responsabilidades”, de Max Weber, aquela dos homens públicos; equivalente, numa linguagem sindical (se é que isso existe), a uma ética de resultados. Não uma ética onde os fins (o sucesso) justifiquem os meios (as condutas). Não uma ética de aparências, que corresponderia à constatação do amigo Eduardo Galeano ‒ para quem únicos meios que justificam seus fins são “os meios de comunicação”.

Retraduzindo o conceito, para dar-lhe atualidade, essa ética seria aquela em que ser correto se justificaria por não poder deixar de ser assim. Uma ética que remonte aos seus primórdios. No começo dos tempos, sabemos todos, a vida social era dominada pelas crenças. Sem distinção objetiva entre religião, moral e direito. Até que, entre VII e II AC, veio o que Jaspers definiu como “período axial”. Surgem os primeiros grandes filósofos: Pitágoras, na Grécia; Zaratustra, na Pérsia; Buda, na Índia; Lao-Tsé e Confúcio, na China.

Com esse “período axial”, veio também o questionamento dos mitos religiosos. E a compreensão de que nenhum poder político está acima do povo. Era uma ética, em consequência, fundada no bem comum. Por isso, a observação é de Toynbee, não foi casual terem sido contemporâneos o nascimento, na Grécia, da tragédia, da filosofia e da Democracia. Essa ética em que todos devem acreditar, portanto, é aquela que retoma seu verdadeiro significado histórico. E que, valendo no passado, possa valer também no futuro.

Ocorre ser o homenageado, também, advogado. O que nos remete ao passado. Num Discurso de Paraninfo que fez em 11 de dezembro do negro ano de 1964, louvando Democracia e Liberdade, disse José Paulo Cavalcanti (meu pai): “Os que forem advogados verão a justiça com suas incertezas, suas alegrias, suas desilusões, seu desespero com a inevitável lentidão do processo. Mas do advogado sobretudo importa dizer que ninguém vê tão de perto o homem, no seu trágico barro, rareado de estrelas”.

Há duas maneiras de entender esta frase. Uma primeira, universal e mais abrangente, referindo que a maioria dos homens é barro trágico e apenas uns poucos são estrelas pela vida. Outra, particular e mais íntima, segundo a qual cada um de nós é quase o tempo todo barro, com raros momentos de estrela. E o amigo ainda hoje chorado, por sua trajetória, estaria em ambas as versões. Por ter muitos momentos de estrela, em sua trajetória; e por se sobressair do barro trágico que contamina o indeterminado cidadão comum. Como o “caminhante que faz seus caminhos ao andar”, usando palavras de Antonio Machado, ele era uma reluzente “estrela no mar”.

Por tudo, então, saibam todos e cada um que reverencio essa figura importante, para o Brasil, o professor Octávio de Oliveira Lobo ‒ como herói, símbolo e exemplo de um futuro feito com ética cidadã e fé no Direito. Moldado no barro especial de que são feitas as estrelas. Razão porque ter sido amigo de alguém como ele é razão de orgulho, honra e privilégio. Viva Octávio Lobo!

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

A VANGUARDA DO ATRASO

Fernando Pessoa (em O marinheiro) dizia “Falar no passado – isso deve ser belo, porque é inútil e faz tanta pena”. Talvez seja mas, ainda assim, volto a reminiscências da transição democrática, em 1985. Para lembrar três histórias envolvendo Fernando Lyra. A ver

1. VOU SER MINISTRO. Todos sabiam que Fernando seria ministro, provavelmente da Casa Civil. Só que o lugar ficou com o mineiro, como como Tancredo Neves, José Hugo Castelo Branco. E nada. Sobrava só o ministério da Justiça. Sem nenhum convite (história contada por José Sarney, que ouviu esse relato do próprio Tancredo). No Riacho Torto, belo dia, Fernando chegou para ver Tancredo e disse

‒ Presidente, os jornalistas aí fora perguntaram qual seria o ministério que me caberia e respondi Eu vou ser ministro da Justiça. Algum problema?

Nenhum, pelo visto.

2. PAI DE SANTO. Sarney também contou quando, Tancredo morrendo em São Paulo, Fernando chegou

‒ Notícia boa. Fui, com a Polícia Federal, a terreiro onde se fez um feitiço contra Tancredo.

‒ Como é?

‒ Levamos lá um Pai de Santo que encontrou o lugar certo e desenterramos uma boneca cheia de alfinetes. Acabamos com essa magia negra.

Talvez não, que Tancredo morreu dois dias depois.

3. A VANGUARDA DO ATRASO. Teatro Casa-Grande (Rio), lotado. Ato para celebrar o fim da censura. Naquele dia, liberamos os últimos livros ainda proibidos: Aracelli meu amor, de José Louzeiro; Feliz ano velho, de Marcelo Rubens Paiva; e Zero, de Ignácio de Loyola Brandão. Além de um caminhão de músicas de duplo sentido, quase todas feitas para o público do Nordeste brasileiro. Depois de 20 anos de governos autoritários, afinal, o ministério da Justiça se limitava a indicar a faixa etária dos filmes. Sem mais censurar músicas, peças teatrais ou livros. Todos fizemos discursos. Chegou a vez do ministro Lyra. Foi ele falar no presidente Sarney e se ouvir uma vaia grande. Injusta, em meu olhar. Por estar conduzindo bem sua missão principal – que era operar sem traumas, numa quadra histórica complicada, a transição. Da ditadura para uma Democracia florescente. As manifestações eram ainda reflexo de quando foi presidente da Arena; e, depois, do PDS. Lyra, então, começou a defender Sarney

– Minha gente, vocês não o conhecem. Ele é do Maranhão, verdade. Mas tem uma boa visão do mundo. Esteve junto aos militares, também verdade. Mas, agora, está conosco.

E o público indócil. Fernando aumentou a voz.

– Ele foi da Banda de Música da UDN. Sei que a UDN é o atraso. Mas Sarney tem consciência do futuro e está muito à frente disso tudo. É a Vanguarda do Atraso. Foi assim que aconteceu.

O teatro veio abaixo com aplausos ensurdecedores. A fala era um elogio. Para dizer que Sarney seria um avanço, em relação ao passado. Mas acabou recebida como crítica. E, até o fim do seu governo, virou mantra ‒ A Vanguarda do Atraso.

P.S. Vênia para comentário que não tem a ver com o restante da coluna. Para dizer que, nesta segunda, o pernambucano de Taperoá (Paraíba, terra também de Ariano) Silvio Meira, criador do CESAR e do Porto Digital, foi entrevistado no programa Roda Viva, da TV Cultura. Para não ir longe demais, três conclusões que se deve tirar:

1. Silvio Meira é gênio absoluto.

2. Os perguntadores chegaram no programa se achando iluminados, dava para ver nos rostos; e saíram de cabeças baixas, deprimidos, com a certeza de que ainda precisam estudar muito.

3. Difícil entender como o Brasil, que tem tanto a fazer para construir seu futuro, ainda se dê ao luxo de nomear representantes da velha política para ministérios importantes como da Educação ou da Ciência e Tecnologia, esquecendo quadros relevantes como Silvio Meira. Algo está errado, nessa lógica. E fica explicado porque estamos condenados a permanecer presos no passado, pobres de nós.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

A POSSE

Faz pouco falei sobre como se deu a posse de Sarney, eleito vice e que passou a ser, definitivamente, presidente da República. Sacramentando o fim da Ditadura Militar. Leitores pediram que seguisse nessa conversa lembrando nosso passado. Manda quem pode (eles), obedece quem tem juízo, ou pensa que tem (o que dá no mesmo). E volto àquele tempo, alguns dias antes, para contar como Sarney assumiu como presidente interino; posto que Tancredo Neves estava em um hospital e ninguém sabia se poderia mais tarde, depois de recuperado, ser presidente. Véspera da posse que seria de Tancredo. Chegamos, no aeroporto de Brasília, preparados para a grande festa da redemocratização. Mas não correu tudo como se acreditava; que, fora da programação, a Polícia Federal me esperava.

– O ministro Fernando Lyra pediu para ir direto ao gabinete de Dornelles.

Maria Lectícia e os pais dela, dona do Carmo e o dr. Armando Monteiro Filho, foram para o hotel; e, eu, para a Esplanada. Francisco Dornelles era sobrinho de Tancredo, futuro ministro da Fazenda e homem forte do seu governo. Perplexidade no ar, pelas incertezas do momento. Na sala de espera se amontoavam assessores, militares, quase todos os futuros ministros. O baiano Carlos Santana (da Saúde) ficava olhando só para o alto, imóvel, como se estivesse congelado. O gaúcho Pedro Simon (da Agricultura) rodava em volta dele mesmo, como um peru, sem parar. Fernando, ministro da Justiça, disse

– Vai assumir (a presidência da República) Ulysses (Guimarães), como presidente da Câmara dos Deputados.

– Não pode, Fernando (como a doença de Tancredo era pública, já tinha examinado as questões jurídicas). O vice (Sarney) presta compromisso, perante o Congresso. Tancredo não, que está no hospital e tem 10 dias para isso. Ainda mais, por haver “motivo de força maior” (Constituição da época, art. 78). O Congresso declara momentaneamente vago, seu cargo, e assume o vice. Esse o caminho.

– Mas assume Ulysses.

– Então pode escolher outro para meu lugar, amigo. Que nosso primeiro gesto, no Ministério, seria uma ilegalidade. E não farei parte disso.

Algum tempo depois, Dornelles chamou cinco ou seis para reunião na sala dele (já com muitos outros personagens, por lá). O resto ficou onde estava. Na saída, Fernando contou como foi. Dorneles

– Affonso Arinos disse haver um antecedente, com Rodrigo Alves; que, doente, assumiu seu vice Delfim Moreira. Brossard e Saulo Ramos defendem a mesma tese. Fosse pouco, o próprio Ulysses prefere Sarney, repetindo sempre “é isso que a Constituição manda”. E Leitão de Abreu (que coordenava a transição por João Figueiredo, último presidente militar) garante que Sarney assumirá sem contestações.

O futuro ministro do Exército, Leônidas Pires Gonçalves, pediu a palavra. Era comandante do 3º Exército e contava com apoio de parte expressiva das Forças Armadas. Mostrou uma Constituição cinza, edição de bolso (quem viveu em Brasília, naquele tempo, sabe qual era) e falou

– Devemos seguir o que diz esse livrinho.

Fernando

– Meu Secretário Geral (eu) também diz que assume Sarney, como vice. E nem vai ficar no cargo, se a gente escolher Ulysses.

Muitos outros confirmaram esse entendimento. E Leônidas, depois de dar um tapa forte na mesa,

– Então está resolvido. Assume Sarney. Alguém é contra?

Silêncio na sala.

– E não se fala mais nisso.

Ninguém teve disposição, ou coragem, para contradizer. A palavra das forças armadas, numa hora dessas, é forte. E mais tarde, já na casa de Sarney, a transição seria sacramentada em ata por todos assinada. Foi assim.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

CONVERSAS DE ½ MINUTO (30) ‒ PELEJAS

MALA DE ROMANCES: O DIABO NUMA PELEJA

Mais conversas, hoje novamente só com cantadores, em livro que estou escrevendo (título da coluna). E já lembro que assim, como Pelejas, são conhecidos os grandes desafios entre cantadores famosos. Desde o século XIX, começando com os dois maiores daquela época, Romano Teixeira e o negro cativo (ele próprio assim se definia) Ignácio da Catingueira. Só para lembrar, cantadores cantam sempre acompanhados com suas violas. Menos o dito Ignácio da Catingueira e Fabião das Queimadas, que usavam pandeiros. E o Cego Aderaldo, já no século XX, com sua rabeca. Vamos às mais célebres, dessas Pelejas.

PELEJA de MANOEL RIACHÃO (de Araruna, Paraíba) com NÊGO (O Diabo, origem desconhecida). Nas primeiras cantorias, ainda nos tempos da escravidão, começaram a se ver negros cantando. Como um, conhecido como Diabo. Em peleja com Manoel Riachão, tema recorrente era a cor da pele. Seguem alguns versos, como prova.

R (Riachão) – Riachão disse eu não canto
Com negro desconhecido
Porque pode ser escravo
E andar aqui fugido
Isso é dar cauda a lambú
E entrada a negro enxerido

N (Negro) – Eu sou livre como vento
E minha linhagem é nobre
Sou um dos mais ilustrados
Que o sol nesse mundo cobre
Nasci dentro da grandeza
Não sai de raça pobre.

R – Não tenho superior
Sou filho da liberdade
E não conto a minha vida
Pois não há necessidade
Porque não sou foragido
Nem você autoridade.

N – Riachão amas a Deus
Sendo mal recompensado
Deus fez de Paulo um monarca
De Pedro simples soldado
Fez um com tanta saúde
Outro cego e aleijado.

Lourival Batista e Pinto de Monteiro

PINTO DO MONTEIRO (de Monteiro, Paraíba) e LOURIVAL BATISTA (Louro do Pajeú, de São José do Egito, Pernambuco), dois gênios. Em mais uma peleja, Pinto preparou armadilha para Louro

‒ Eu saí de Caicó
E fui bater em Tabira
De Tabira prá Penedo
De Penedo a Guarabira
Chegando lá eu comi
O mocotó de traíra.

Como traíra é peixe, Pinto jamais poderia ter comido seu mocotó. Então, certo de ter ganho a peleja, Louro respondeu

‒ Eu já vi muita mentira
De Adão até Aló
De Aló até Isac
De Isac até Jacó
Mas nunca houve quem visse
Traíra com mocotó.

Só para ver, desolado, Pinto cantar

‒ Pois eu vim de Caicó
E fui até Guarabira
Lá vi uma vaca velha
A quem chamavam Traíra
E agora você me diga
Se é verdade ou se é mentira.

Cego Aderaldo: Biografia

Cego Aderaldo

PELEJA DO CEGO ADERALDO (de Crato, Ceará) com ZÉ PRETINHO (de Tucum, Paraná). Mais famosa dessas Pelejas é a do referido Cego Aderaldo contra Zé Pretinho. Com o desafio já ganho, e para encerrar com brilho, o Cego tripudiou

Cego – Amigo José Pretinho
Eu não sei o que será
De você no fim da luta
Porque vencido já está
Quem a paca cara compra
Paca cara pagará

E o outro ficou sem entender esse trava-língua, piorando sua desgraça

Zé Pretinho – Cego, estou apertado
Que só um pinto no ovo
Estás cantando aprumado
E satisfazendo ao povo
Este seu lema de paca
Por favor cante de novo

A partir daí, foi um desassossego

Cego – Digo uma e digo dez
No cantar não tenho pompa
Presentemente não acho
Quem esse meu mapa rompa
Paca cara pagará
Quem a paca cara compra

Zé P. – Cego, teu peito é de aço
Foi bom ferreiro que fez
Pensei que o cego não tinha
No verso tal rapidez
Cego, se não for massada
Repita a paca outra vez

Cego – Arre com tanta pergunta
Deste negro capivara
Não há quem cuspa pra cima
Que não lhe caia na cara
– quem a paca cara compra
Pagará a paca cara

Zé P. – Agora cego me ouça
Cantarei a paca já
Tema assim é um borrego
No bico de um carcará
Quem a cara cara compra
Caca caca Cacará

Após o que Zé Pretinho colocou sua viola na bandeja (com o dinheiro dos ouvintes, um prêmio pra o vencedor), sinal de que reconheceu a derrota.

Patativa do Assaré (Repente) - Esquina Musical

Patativa do Assaré

PATATIVA DO ASSARÉ, cantador e cordelista (de Assaré, Ceará). Para encerrar, esse causo. A casa de Patativa ficava a 18 quilômetros da cidade de Assaré e ele precisava falar com o prefeito. Só que foi várias vezes à Prefeitura e o homem nunca estava. Por isso deixou, na sua mesa, esse recado

‒ Ainda que alguém me diga
Que viu o mudo falando
Um elefante dançando
No lombo de uma formiga.
Não me causará intriga
Escutarei com respeito
Não mentiu esse sujeito
Muito mais barbaridade
É haver numa cidade
Prefeitura sem prefeito.

Resultado, acabou preso. Na cela, encontrou gaiola com uma patativa – que é ave de belo canto. Então escreveu esses versos que ganharam o mundo

‒ Linda vizinha pequena
Temos o mesmo desgosto
Sofremos da mesma pena
Embora em sentido oposto

Meu sofrer e teu penar
Clamam a divina lei
Tu presa para cantar
E eu preso porque cantei.