JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

Duas histórias.

1. Uma se passou em Castro Verde, no Alentejo (sul de Portugal). Dando-se que rico doutor atropelou velho lavrador que trafegava, em estrada de barro, montado no seu burrinho de estimação. Mais tarde o velho tentou, no tribunal, indenização pela perda do animal que morreu. E por ter passado um mês, no hospital, até se recuperar. Na audiência o advogado do atropelador, amigo de Ministros, argumentou:

– Tenho em mãos declaração de um policial que esteve no local do acidente. E ele relatou que, quando o doutor perguntou “como está”, o senhor respondeu “Estou optimo”. O senhor nega isso?

– Não. É verdade.

– E como pretende, agora, ser indenizado?

– Porque falta um detalhe, nessa história. É que o doutor, depois de nos atropelar, perguntou à minha burrinha se ela estava bem. Claro que a coitada não disse nada. E ele, sob alegação de que estava fingindo, lhe deu 3 tiros.

Calou-se. O juiz pediu que continuasse.

– Depois virou-se para mim, pôs na minha cara o mesmo revólver, e repetiu a pergunta “E o senhor, está bem?”. Foi quando respondi “Estou optimo, estou optimo”.

E, por não ter o pobre como provar o alegado, foi o rico doutor absolvido pelo juiz.

* * *

2. Outra é um conto de Tomás Ribeiro (Lobos famintos), em diálogos que resumo:

– O senhor D. Martinho de Aguilar?

– Eu sou (lhe diz o ancião). A quem me cabe a honra de falar?

– A Justiça de Castela (queria que lhe entregasse filho, que com palavras ofendeu o Rei).

– Bem vinda seja ela.

– Em nome d’El-Rei/ Como Pai de D. Jaime de Aguilar,/ Que é réu de alta traição/ Tendes a vossa fortuna confiscada!…/ Podei-la resgatar,/ Se, vassalo fiel e obediente/ O entregardes à justa punição.

– El-rei de Castela é nobre! Não manda insultar um velho!/ Pode mandá-lo ser pobre,/ Matá-lo à míngua de pão.

– Mais conta em vós, D. Martinho,/ Que estais em casa d’El-Rei!

– Na vossa, lobos famintos,/ Bandidos sem fé nem lei;/ Lobos famintos, comei!…

Inúteis as queixas de D. Martinho. A quem se pediu o que jamais poderia fazer, que era entregar o filho. Sendo sua fortuna confiscada por El-Rei.

* * *

3. É só literatura, leitor amigo. Sem nenhuma relação com o que se passa hoje em Brasília, claro. Mas não custa lembrar um autor português, Ruy Guerra (Fado tropical), que chorou por nós: “Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal/ Ainda vai tornar-se um imenso Portugal!”.

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