JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

CONVERSAS DE ½ MINUTO (18)

Mais conversas em livro que estou escrevendo (título da coluna).

* * *

General ADEODATTO MONTALVERNE, da Secretaria de Segurança Pública de Pernambuco. Convidou, para uma conversa, os 15 estudantes universitários que iriam ao Congresso da UNE em Salvador – preparatório do de Ibiúna (em São Paulo, 1968, onde alguns milhares acabaram presos). A sala reservada para esse encontro começava por mesa com quatro cadeiras e, ao fim, pequeno auditório. Todos entraram e foram para esse auditório. Fui o último. O general estava sentado, à mesa. E considerei deselegante ficasse sozinho. Ou ele poderia pensar que estávamos com medo. Então sentei numa cadeira, à sua frente. E ele, olhando para mim,

– Chamei porque estou precisando da opinião de vocês.

– Com todo prazer, general.

– É o seguinte. Como estão indo para o Congresso, não sei se prendo todos antes ou depois.

– Aceita sugestão?, general.

– Com prazer.

– Prenda só depois.

– Então está combinado. Vai ser na volta.

Procurou minha ficha, entre as que estavam na sua frente, e completou

– Vejo que volta dia tal, hora tal, num voo da Varig (disse o número). O senhor eu prendo no aeroporto, certo?

– Combinado, general. E muito obrigado pela deferência.

O engraçado, nessa história, é que ninguém foi preso. Era só uma brincadeira. Nos anos de chumbo, os generais gostavam de se divertir.

* * *

PADRE EDWALDO, da paróquia de Casa Forte. Fez bela homilia sobre a Virgem Maria. Pouco depois, mandei para ele esse bilhete

– Meu caro amigo pastor
Este pobre pecador
Vem lhe pedir um favor
Pra quem vive andando ao léu
O de falar com Maria
Para ver se ela podia
Num gesto de cortesia
Me fazer entrar no céu.

* * *

LUIS FERNANDO VERISSIMO, escritor. Entrando no Beijupirá, em Porto de Galinhas. Grupo grande, com gente de fora, Millôr e outros. Um famoso político do interior pernambucano, então presidente da Câmara dos Deputados, gritou no fim do restaurante

– Luiz Fernando Verissimo, amigo velho, o que há de novo?

Silêncio absoluto. Todas as mesas pararam suas conversas, na espera da resposta. Dava para ouvir as moscas. E ele, que não gosta de falar, respondeu apenas

– O que há de novo, deputado, é essa nossa amizade.

O restaurante bateu palmas.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

HIROSHIMA, MEU AMOR

O risco de explosões nucleares, nessa guerra da Ucrânia, volta nossos olhos para o passado. E começo por lembrar que Robert Oppenheimer passava horas vendo barcos navegar sem pressa, poeticamente, no Rio Potomac. Era uma pessoa sensível. Não só ele. O grupo do Projeto Manhattan gostava, especialmente, de ouvir música romântica – como o Fausto, de Gounoud. E de ver balé – como O Aprendiz de Feiticeiro, que assistiram um mês antes de explodir Hiroshima. Como se fosse premonição. Esse nome, Manhattan, foi escolhido em homenagem à enorme população de Nova York. Uma das bombas de Urânio 235 acabou batizada como Little Boy (rapazinho). A outra, de Plutônio Processado, como Fat Man (homem gordo). Tudo para lembrar que o objetivo daquelas pessoas delicadas era desintegrar outras pessoas. Como as milhões que habitam Manhattan. Não por acaso o barulho da explosão, no teste feito em Los Alamos, tinha o som quase perfeito de uma gargalhada humana. Em meio a elétrons e nêutrons se dilacerando, um estranho riso que vinha do coração da terra e subia na direção do céu, misturado a fogo, morte, fumaça, desalento e chumbo.

Fins de julho de 1945. A guerra estava decidida. Alemães, já rendidos. Japoneses tentavam, desesperadamente, apenas pedindo que seu imperador fosse poupado. Não sabiam é que outra guerra já tinha começado, por dentro daquela. Com Stalin se preparando para invadir o Japão. Seria uma afronta ao império americano. Sem contar que chegara o tempo de vingança contra aqueles que destruíram Peal Harbor e mataram 12 mil em Okinawa. Só na semana que precedeu Hiroshima, como aperitivo, foram 100.000 corpos no chão de Tóquio. Usando apenas bombas tradicionais. Sabor doce de sangue a serviço da democracia. E o melhor ainda estava por vir. Um B-29 da U.S. Air Force foi adaptado para acomodar aquele gigante de aço atômico. Além das duas bombas fabricadas houve uma terceira, de Plutônio como Fat Man – aquela testada, com êxito, no deserto de Alamogordo (Novo México). Para o Japão, primeiro, voou a de Urânio. Desse errado e ainda sobrava a restante, de Plutônio, com tecnologia já testada. Nos Estados Unidos, muitas vozes pediam clemência. O fim da matança. Não seriam ouvidas.

Depois tudo acabaria em filme da Nouvelle Vague, “Hiroshima, mon Amour”, de Alain Renais. A história de romance entre uma francesa (Emanuelle Riva) e um japonês (Eiji Okada), para Claude Chabrol “o mais belo filme que já vi”. A arte nem sempre imita a vida.

Segunda, 6 de agosto. Ao sol nascente das 9.15, Little Boy fez 120 mil vítimas em Hiroshima. Quase todas crianças, mulheres e velhos – que pais e maridos estavam nas frentes de batalha. A cidade foi escolhida por acaso, entre quatro. Sem que houvesse, por lá, um único objetivo militar. A explosão se deu a 570 metros acima do solo, produzindo um cogumelo de fumaça com 18 quilômetros de altura. E a temperatura, na terra, chegou a 300 graus. Fim de tarde, e relatório da Cruz Vermelha informou que naquele resto de tijolos e carnes já não havia o que queimar. Faltava decidir o que fazer com a última bomba. Nem mais havia guerra. Só que os burocratas certamente reclamariam que tanto dinheiro, a valor de hoje cerca de 50 bilhões de dólares, fosse desperdiçado em algo que nem teria sido usado. E o B-29 voou novamente.

Quinta, 9 de agosto. Às 11.02 da manhã, Fat Man faz mais 90.000 almas em Nagasaki. Novamente, uma cidade sem qualquer alvo militar. Novamente, só crianças, mulheres e velhos. Oppnheimer, depois, se recusou a fazer uma bomba mais potente ainda. O macartismo considerou imperdoável ingratidão para com país que o acolhera tão generosamente. Seu irmão e a mulher dele acabaram processados. Acusados de ser comunistas, foram proibidos de trabalhar para o governo ou de ensinar. A guerra fria começava a fazer vítimas, com menos sangue embora, também nos Estados Unidos. A humanidade vê com horror o passado, sonhando um futuro diferente. Melhor. E mais fraterno. Deus nos proteja.

P.S. Karl Marx Guimarães Coelho era dono de uma pequena oficina de reparos. Em 1964, no começo da Redentora, vinha da Conde da Boa Vista pela Rua do Hospício. Já na calçada do 4º Exército (em frente à Faculdade de Direito), um militar considerou suspeita sua bolsa e perguntou

‒ O que tem aí dentro?

‒ Nada.

‒ Quero ver.

E encontrou, lá, uma nota “comprar fios e bobinas para a bomba”. Perguntou o nome do cidadão

‒ Karl Marx.

Era demais. Com certeza, comunista. E uma bomba, com certeza terrorista. Foi preso. Sem ter tempo de explicar que se tratava de bomba compressora para um ar-condicionado que estava consertando. Apanhou tanto que passou três meses no hospital. Viva a Democracia.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

SAUDADES

O tempo histórico corre aos saltos, sem escolher datas. A década de 50, destinada à revanche liberal, por conta do sacrifício de Vargas começou apenas em 1964; a de 60 inaugurou a fase negra da Ditadura com o A1-5, em dezembro de 1968; a de 70, com a distensão, em abril de 1977; a de 80, destinada à transição democrática, com a posse que seria de Tancredo e acabou de Sarney, em março de 1985. E já que de datas falamos vale dizer que a Revolução, dita redentora e democrática, se deu em um primeiro de abril como hoje, 50 anos atrás. Mas acabou passando aos livros como se tivesse ocorrido em 31 de março, para evitar comparações com essa data incômoda.

Em fins de 1968, fui a um Congresso da UNE em Salvador. Hospedagem, ali, na casa do queridíssimo Eduardo Collier Filho – com quem, ainda no Recife, dividi boa parte da infância. Ele, já na clandestinidade. Conversamos horas; e, até onde pude sentir, estava consciente dos riscos que corria. Passaram-se 10 anos até que um dia, revendo velhos papéis, descobri, em meio a documentos desse congresso, um grosso conjunto de papéis com versos redigidos por ele, de próprio punho (que logo transferi à família). Só não sei é se, ante o risco de perder todos os textos, preferiu ele mesmo esconder em meu saco de viagem. Para preservá-los. Ou se os papéis acabaram misturados, sem que nos déssemos conta, com outros papéis (e nunca ninguém saberá, exatamente, o que aconteceu). Tendo cada um de nós o direito de comemorar a data de hoje à sua maneira, escolho a lembrança de um pedaço desses versos, ainda inéditos:

Do soldado após guerra nada mais resta
Só o fogo da terra e ninguém parte
Do soldado em destroço sobe leve aceno
O que tudo posso sem tomar veneno

(O soldado) ante a espada se prepara
Para ver se algo falta
Posto que se assim é
Falta também a sua Fé

(O soldado) frente à guerra
Nada pressente
Se é abismo o que ele vê
Ou se ilusão o que ele sente

Feito espera se recorda
Do bom tempo da engorda
E não chora só porque
Morto foi em boa hora

PS. Duda, e o jovem estudante pernambucano Fernando Santa Cruz, desapareceram pouco tempo depois em mãos de uma patrulha militar sediada no Quartel de Rezende (Rio). E nunca mais foram vistos. Era manhã de carnaval.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

OTAN/ UCRÂNIA/ AMAZÔNIA

Com o fim do Pacto de Varsóvia, em 1955, era natural se seguisse também o da OTAN ‒ até por custar caro, 2% do orçamento de cada país membro. Só que a organização não apenas se manteve como, desde 1997, deu início a um programa de alargamento para o Leste ‒ Hungria, Polônia, República Checa. Apesar das promessas, a Gorbatchov, de que isso jamais ocorreria. George Kenan ‒ arquiteto, no governo americano, da política de contenção da URSS ‒ foi sempre contra. E chegou a prever (Le Monde Diplomatique) que “O alargamento da OTAN seria o erro mais fatal da política americana desde o fim da Guerra Fria. É de esperar que tal decisão… relance um ambiente de guerra fria nas relações Leste-Oeste”. Tanto tinha razão que a China preferiu (FolhaSP) um “alinhamento com a Rússia”, palavras da Casa Branca.

A Rússia vem pedindo (até já esboçou isso em dois projetos de tratado), para proteger sua integridade territorial, que seja fixado um congelamento nessa expansão da OTAN. Em resposta (08/06/2021), o Secretário de Estado americano, Antony Blinken, limitou-se a declarar “Nós apoiamos a adesão da Ucrânia à OTAN”. Não é posição de quem quer conversar. De quem precisa conversar. Como se fosse um diálogo de surdos. Para tornar tudo ainda mais complexo, em dezembro de 2001, os Estados Unidos se retiraram do tratado Antimísseis ‒ ABM, firmado em 1972. Algo impensável a quem quer paz. Com os Acordos de Minsk, assinados em setembro de 2014, a Rússia tentou ainda obter algum direito de vigilância, na Ucrânia. Aconteceu o contrário. E o presidente Zelensky, assim que assumiu, fez aprovar nova Constituição determinando que seu país faria parte da OTAN. Para agravar o cenário, Estados Unidos anunciaram a intenção de instalar um Escudo Antimísseis nessa Europa do Leste, em aberta violação ao Ato Fundador Russia–OTAN (assinado em 1997).

Ao entrar na guerra da Iugoslávia, e por suas últimas medidas, a OTAN já não é só um bloco defensivo. Passou a ser, sobretudo, uma aliança militar com vocação também para a agressão. Violando, até, regras do Direito Internacional. E já anunciou que, em 2.030, explicitará suas políticas em defesa da natureza. Temo que passem a entender ser, a Floresta Amazônica, um patrimônio internacional. Deles, portanto. Ou de que seria propriedade dos “povos indígenas”. Nesse caso como responderíamos?, eis a questão.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

CUBA / UCRÂNIA

Para Pessoa (O Marinheiro), “Falar no passado – isso deve ser belo, porque é inútil e faz tanta pena”. Só que talvez não seja tão inútil assim. Em 01/01/1959, os guerrilheiros de Fidel Castro desceram da Sierra Maestra e tomaram Havana. Os Estados Unidos, pelo apoio dado por décadas a Fulgêncio Batista, haviam perdido um aliado. Com o embargo comercial que promoveram, a ilha passou a depender da União Soviética para (quase) tudo. Era a Guerra Fria que começava. Em novembro de 1961, os Estados Unidos instalaram, na Turquia, 15 mísseis nucleares Jupiter. E mais 30, na Itália. Com alcance de 2.400km, podiam atingir Moscou, o que não era possível desde o território americano. A URSS vivia período hoje conhecido como “Desestalinização”. Entendeu ter direito a um troco. E, em 14/10/1962, aviões V2 americanos fotografaram, na região de São Cristóvão, a construção de bases para ogivas nucleares. Ameaça grave, que dali podiam facilmente atingir Nova Iorque. Como resposta, os americanos planejaram invadir Cuba. Que jamais permitiriam mísseis tão perto. E Kennedy, preventivamente, decretou um Bloqueio Naval nos mares próximos. Com apoio da OTAN. Contra todas as regras do Direito Internacional.

Os navios mercantes de Kruschev, com as primeiras ogivas nucleares, foram interceptados. Seriam afundados, caso não voltassem. Começaram as negociações. E um acordo foi feito. A URSS não instalaria os foguetes em Cuba. E os Estados Unidos prometiam não invadir a ilha. Fosse pouco, também retirariam seus foguetes nucleares da Turquia. O que foi feito, logo depois.

A guerra nuclear do futuro não se fará com espingardas ou tanques. Mas pelos ares, com o arsenal nuclear. Hoje, a Russia tem 5.977 ogivas, contra 5.550 dos Estados Unidos. Os dois países, juntos, representam mais de 90% do total de armas nucleares do planeta. Ocorre que, disparados a longas distâncias, podem ser interceptados. Por isso a Ucrânia ocupa um espaço físico estratégico, nesse jogo. Que os atuais foguetes nucleares americanos, Cruisse e Pershing II, estão longe – em Alemanha, Bélgica, Holanda, Itália e Turquia. E podem ser interceptados. Diferente do que se daria, caso estivessem na Ucrânia.

Não se pode, nem deve, apoiar qualquer guerra. É uma tragédia humanitária. E ninguém, aqui, defende Putin. Mas devemos reconhecer que sua posição estratégica, no cenário global, faz sentido. Como a de Kennedy fazia, naquele tempo. Diferente é que, na primeira crise, houve negociações. Os dois lados recuaram. E agora, não. Ao horror dessa guerra, ninguém é inocente. Como escreveu Miguel Souza Tavares (Jornal Expresso), “A coragem está na paz, não nos falsos heroísmos”. Que o bom senso prevaleça, esperamos. E, se comecei com Pessoa, vou também terminar com ele (Álvaro de Campos, Ode Marcial): “Tudo misturado com corpos, com sangue/ Tudo num só rio, uma só onda, um só arrastado horror”. Que o bom senso prevaleça, esperamos. Antes que seja tarde.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

CONVERSAS DE ½ MINUTO (17)

Mais uma história com nosso pai, que teria feito 100 anos em 2/2/2022. Saudades, como dói lembrar. Mas segue a vida. Cheguei em casa triste, perguntou a razão. Expliquei que, como ele sabia, não podia mais estudar no Brasil (depois, ainda me proibiriam de ensinar). Implicância da Ditadura. Por ser presidente do Diretório Acadêmico. E havia ganho bolsa para Harvard (Estados Unidos), com tudo pago. Meu problema era não ter como tirar passaporte, por não conseguir a Folha Corrida. Pedir democracia, naquele tempo, era crime. Ele não falou nada. Mas na manhã seguinte, cedinho, chegou na Rua da União. Onde ficava a Secretaria de Segurança Pública. Sorbonne, assim era conhecida. Para conversar com o secretário, sem nem saber quem era. Só chegaria às 8hs, informaram. Ficou esperando. Até quando apareceu, por lá, seu maior amigo de infância. Vizinho, de muro, na Rua Fernandes Vieira. Passaram a conversar sobre o passado. Até quando Môa perguntou

– Tás fazendo por essas bandas o quê?, amigo.

– Esperando o secretário, Môa.

– Então vamos entrar na sala.

– Ficou doido?, homem. Vou esperar aqui fora.

– Vamos entrar, Zé.

E levou meu pai, aos empurrões, para lá.

Chegando, sentou na cadeira do secretário.

– Sai daí, Môa, que você vai acabar preso.

– Acho que não, Zé. Olha aqui a placa, Moacir Sales – Secretário.

– O secretário é você?

– Está falando com ele, amigo. O que lhe trouxe aqui?

Meu pai explicou. Môa chamou, no fim da sala,

– Cabo, prepare aí um Nada Consta para o filho do meu amigo.

O cabo levantou e já ia saindo da sala quando Môa o interrompeu.

– Inda que mal lhe pergunte, Vossa Excelência está indo para onde?

– Buscar a Folha Corrida do rapaz.

– Ô doutor cabo, eu mandei o senhor buscar a Folha Corrida ou bater um Nada Consta?

– O doutor mandou bater um Nada Consta.

– Quem vai assinar é você ou eu?

– É o doutor, claro.

– Pois sente na porra dessa cadeira, prepare o porra do Nada Consta, ponha na porra de minha mesa e desapareça da minha frente.

Assinou, entregou a meu pai e ficaram conversando até o fim da manhã. Lembrando os bons tempos. A Ditadura brasileira, de vez em quando, tinha disso. O compadrio. As velhas amizades. E acabou tudo bem, que viajei sem problemas. No fim, deu tudo certo.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

CONVERSAS DE ½ MINUTO (16)

Meu pai faria 100 anos em 2/2/2022. Para celebrar, segue coluna só com histórias dele, em livro que estou escrevendo (título da coluna).

* * *

1. A brincadeira se repetiu, pelo menos, umas 15 vezes. Na mesa dr. José Paulo, como se fizesse discurso,

– Uma mulher inteligente tem o cérebro de uma galinha. Mas, quando é muito inteligente, o cérebro é de duas galinhas.

E calava. Ficávamos esperando, até que dona Maria Lia

– Lá vem você, de novo, com essa idiotice.

– Calma, Babaia. Calma. O seu cérebro é de três galinhas.

E os filhos ficavam ouvindo suas reclamações, por meia hora, todos rindo.

* * *

2. Concorrência, no BNDES, para modelar a privatização da Rede Ferroviária Nacional. Ganhou o consórcio que integrávamos, liderado pelas maiores ferrovias do mundo – uma do Canadá, outra da Austrália. Era preciso dois currículos de nosso escritório, para o julgamento. Pedi que preparasse o dele. Na hora de enviar, fui conferir. Escreveu

– José Paulo Cavalcanti, advogado no Recife.

– Pai, é uma concorrência, por favor diga mais.

– Meu filho, profissão e destino. É tudo.

E não acrescentou nada. Acrescentei, sem que soubesse, os 34 trabalhos jurídicos que escreveu. E juntei o meu, então com 77 páginas, hoje com apenas 6 linhas. Prova de que ainda não estou no ponto.

* * *

3. Professor de Direito Civil, na Universidade Católica, foi Paraninfo da turma de 1964 (o ano da Redentora). E pronunciou forte discurso, no Teatro Santa Isabel (11/12/1964), em defesa da Liberdade. Ensinar era, para ele, missão. Só que, no ano seguinte, informou à Universidade que não mais. Perguntei

– Mas pai, você gosta de dar aulas, e vai parar?

– Porque, meu filho, não faz sentido ensinar Direito em uma Ditadura. E assim se deu.

* * *

4. Quando fui ministro da Justiça, insisti fosse passar alguns dias conosco. Desejava que conhecesse rotina para ele nova. Assistir as reuniões que fazíamos. Se fosse o caso, iria comigo aos encontros com o presidente da República. E nunca aceitou. Então pedi

– Venha, nem que seja para conhecer Brasilia. É uma bela cidade.

– Vou.

– Quando?

– Quando você não for mais nada, por aí.

* * *

5. Duas frases que vivia repetindo:

– A mão aberta é um tapa, a mão fechada é um murro, e é a mesma mão.

– O homem é barro trágico, rareado de estrelas.

* * *

P.S. Agora os leitores vão descansar, que o mar me espera. Até depois do Carnaval, se Deus quiser.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

UM CONTO DE NATAL

Fernando Pessoa, no Cancioneiro, escreveu poema (Natal) em que dizia “Nasce um Deus. Outros morrem… Temos agora outra Eternidade, / E era sempre melhor o que passou”. Seguindo nessa trilha, recordo uma eternidade pessoal que se deu em Natal do passado. E começo dizendo que, também naquele ano, visitei lugares da infância. Com “Saudades de mim” (título do livro de António Ferro). Faço isso todo 24 de dezembro. E tinha realizado sonho antigo, que era ter órgão de 3 teclados, com pedais para os graves, comprado na Rua da Concórdia. Foi amor à primeira vista. Já voltando, reproduzi roteiro que fazia todos os dias. O ponto do casal ficava numa esquina da Av. Conselheiro Aguiar, por trás do Acaiaca. Onde parava para comprar milho assado. Assim foi, também, naquele Natal. Problema é que, junto ao fogareiro, estava só a mulher. E João, encostado no muro, chorava como um desesperado.

– Maria, que está acontecendo com seu marido?

– É que ele prometeu a nosso filho uma bicicleta usada, doutor. Foi ao Recife hoje, comprar. Só que, no ônibus, um ladrão levou seu dinheiro. Voltou a pé, sem ter nem como pagar a passagem de volta. E não sabe como vai dizer isso ao menino.

Pensei na vida. Eu, chegando em casa com um órgão. E, João, de mãos vazias. Algo, no mundo, estava fora do lugar. E fiz a única coisa que poderia fazer. Ou deveria. Abri a porta do carro e disse

– João, entre aqui.

– Vamos para onde?, doutor.

– Entre, por favor.

Adiante, chegamos nas Lojas Verão. Com um extenso mostruário de bicicletas, logo na entrada, embandeiradas para chamar a atenção dos compradores. Saltamos.

– A bicicleta que ia comprar era como?, amigo.

– Essa aqui.

– Então monte nela e vá embora.

João, assustado, pareceu não compreender a cena. E o vendedor da loja mais ainda, ante o risco de perder sua mercadoria.

– Suba na bicicleta e vá embora, homem.

Foi o que fez. O vendedor tentou impedir mas se conteve, ainda bem. Paguei e fui para casa. Ao chegar, satisfeito (dava para ver na cara), dona Lectícia perguntou

– Que aconteceu?

– Nada. Foi só um presente de Natal que acabei de ganhar.

Tudo certo. Que, no fundo, Natal é isso. Ou deveria ser. Mais dar, que receber. É, sobretudo, fraternidade. É permitir que o melhor de nós se revele. É ainda crer que o mundo, algum dia, vai ser mais justo. E melhor. Bom Natal para todos.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

CONVERSAS DE ½ MINUTO (15)

Mais conversas, em livro que estou escrevendo (título da coluna).

* * *

ADOLFO SUÁREZ (GONZÁLEZ), presidente da Espanha. Com o fim da ditadura do generalíssimo Francisco Franco, o país vivia o caos. Para retomar mínimos de estabilidade econômica e governabilidade, reuniram-se sob sua coordenação todos os partidos, sindicatos e entidades patronais. Até que, em 25/10/1977, nasceu o Pacto de Moncloa (o nome vem de ter sido firmado, o acordo, na sede do governo, o Palacio de La Moncloa). Em Brasilia, perguntei a ele

– Presidente. O que foi, exatamente, o Pacto de Moncloa?

– O pacto foi a negociação do pacto.

* * *

CHICO BUARQUE DE HOLANDA, músico. Entrou num barulho que não era dele. Tudo começou quando seu Luiz Murá, contador antigo, foi até a Receita Federal. Para tirar dúvida de cliente. Lá foi atendido por Carmem Pimentel, como sempre, Auditora Fiscal de Tributos Federais. Depois de lhe dar todas as orientações, e só para fazer graça, cantou um trecho de A Banda

– O velho fraco esqueceu o cansaço e pensou
Que ainda era moço pra sair no terraço e dançou…

Só não contava é que seu Luiz Murá respondesse à provocação na mesma toada, cantando um outro trecho da mesma música

– E a moça feia debruçou na janela
Pensando que a banda tocava pra ela.

* * *

EVALDO COSTA, servidor público. Clonaram seu celular. E soube disso quando recebeu mensagem, no zap,

– Favor mandar 500 reais, que estou precisando. Assinado, Gustavo Dubeux.

Respondeu

– Agora não posso, que acabei de emprestar 50 mil a João Carlos Paes Mendonça.

Para quem não conhece os personagens, Gustavo e João Carlos são multi-milionários. Enquanto Evaldo pena, todo mês, para sobreviver com seu salário.

Só os ladrões não acharam graça.

* * *

JOSÉ, filho. Mandei, pelo zap, foto de uma codorna assada, crocante, de dar água na boca. Ele

– Isso é codorna?

– Era.

* * *

JOSÉ MÚCIO MONTEIRO, ministro do TCU. Em 1986, foi candidato a governador de Pernambuco. Tendo, como adversário, Miguel Arraes. Em Petrolina, depois de comer buchada, precisou desesperadamente ir ao banheiro. Estava fechado. Um assessor bateu na porta. E ouviu, dentro, voz feminina

– Num tá vendo que tem gente?

– Saia logo que o governador precisa usar o sanitário.

– Dr. Arraia tá aí?

– É o governador José Múcio.

– Agora é que eu não saio mermo daqui.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

A PADROEIRA DO POVO

Santo Antônio foi o primeiro padroeiro do Recife. O Santo das raparigas, assim o chamava Fernando Pessoa. Santo Antoninho para as senhoritas de Lisboa, onde nasceu. Depois viveu vida aventureira, pregou aos sarracenos do Marrocos, foi eremita em Monte Paolo (Florença) e fez milagres muitos – como aquele em que, com um só sermão, converteu vinte ladrões. Pena que não ande, hoje, em Brasília e arredores, onde há tantos pecadores que se apresentam como Santos (o que não são). Já velhinho, e sofrendo de hidropisia (barriga d’água), disse às portas de Pádua “estou vendo o meu Senhor”; e as crianças gritaram pelas ruas “morreu o Santo, morreu o Santo”.

Para a Igreja, é o Santo Lutador. Desde quando enfrentou demônios que marcavam seu corpo com dentadas, chifradas e unhadas, até que um clarão os pôs a correr. Ao ver Cristo, falou “Por que não estavas aqui desde o começo, para me socorrer?” Respondendo, o Senhor, “Eu preferi vê-lo combater. Como lutou bem, tornarei seu nome célebre”. Tornou mesmo. Tanto que, na guerra da Restauração (1640-1669), foi nomeado praça por dom Pedro II, O Pacífico. O Pedro II português, bem entendido – que nosso Pedro II, filho de Pedro IV, O Rei Soldado (o Pedro I brasileiro) e da arquiduquesa dona Maria Leopoldina, não foi nunca Rei em Portugal. Depois, por tão patriótico serviço, acabou dito Santo Antônio elevado a Capitão de Regimento.

No Brasil é (ainda hoje) vereador em Igarassu (que tenta, na justiça, se livrar dos encargos financeiros que isso representa). E fez carreira militar, recebendo patente de Soldado na Paraíba e no Espírito Santo; Tenente, em Pernambuco; Capitão no Rio, em Goiás e na Bahia; Coronel, em São Paulo; até que, finalmente, acabou General do Exército brasileiro. Nomeado, em 1890, por ordem expressa do Marechal Deodoro da Fonseca. Passando, em seguida, à reserva remunerada.

Aqui reinou sozinho, como único padroeiro desta cidade a que primeiro chamaram Santo Antônio do Recife, até 1918. Quando o papa Bento XV nomeou, co-padroeira da cidade, Nossa Senhora do Carmo. Uma Nossa Senhora que começou a ser venerada na Palestina. Quando (segundo textos antigos) o deus dos judeus, Javé, enviou fogo do céu para queimar os altares do Monte Carmelo. Depois, em 1251, acabou aparecendo numa visão a São Simão Stok. 16 de julho é o dia dessa Senhora Nossa. Aquele em que, mais ainda que nos outros, deve ser louvada.

Mas é bom lembrar, também, a imaculada Nossa Senhora da Conceição. Reverenciada, no Candomblé, como Oxum. O nome vem de concepção – por ter sido, segundo dogma papal de 1854, “concebida sem pecado”. No Recife é mãe sobretudo das pessoas simples que, em ato de fé, sobem nossos morros todo 8 de dezembro – como nessa quarta. Seu culto nos veio como herança do colonizador português. Desde quando foi convertida por el-rei Dom João IV, O Restaurador, padroeira do Reino de Portugal. Hoje, por lá, são três padroeiros: São Vicente, Santo António e Nossa Senhora da Conceição. Para nossos irmãos portugueses um é pouco, dois é bom, três é ainda melhor. Deveria ser também assim, conosco. Faltando só, para que tenhamos três padroeiros, que Francisco imite aquele Bento e converta Conceição, oficialmente, em mais uma padroeira do Recife.