JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

OBRIGADO

a cada um dos amigos. Pelos gestos. Pela torcida, no coração. Pelas rezas, tantas. Pelas promessas, a começar pelas de dona Lectícia. Para mim foram todos eleitos, imagino sintam isso por dentro. E devo mais diretamente aos agora confrades, Marcos Vilaça à frente, a honra enorme de pertencer à Academia Brasileira de Letras. Único pernambucano eleito na história da Academia, que morava no Recife, foi Mauro Mota. Só que, desde 22/11/1984, já não havia mais ninguém por lá. Uma escolha que é, também, homenagem a Pernambuco. Numa cadeira que tem nossa cara. Desde seu fundador, o pernambucano Oliveira Lima, para Gilberto Freyre o Quixote Gordo. Até o último ocupante, o também pernambucano Marco Maciel, para Gustavo Krause o menos imperfeito ser humano que conheci. Primeira pessoa com quem conversei, depois da eleição, foi Ana Maria. E fiquei tocado pela alegria (muita) que percebi, nas suas palavras generosas, ao me ver ocupando o lugar que um dia foi do marido.

Mas o que seria, exatamente, pertencer à Academia Brasileira de Letras?, eis a questão. A resposta vem dos seus próprios estatutos (art. 1º), redigidos por Machado de Assis, “Defesa da língua portuguesa e da cultura”. Um belo compromisso. Mas é preciso retraduzir essas palavras, para dar-lhes maior atualidade. Nessa nova ótica, defender a “língua” não é se limitar a seu caráter de realidade virtual, conjunto de símbolos articulados para produzir uma ideia. Mas ir além. É compreender as diferenças entre o vocabulário mais amplo de uma como que língua oficial, com as limitações impostas pela circunstância aos indeterminados cidadãos comuns; e não se conformar com esse destino. É compreender que expressa uma visão específica da realidade, quem somos, talvez até sem dar conta disso; e preservar a memória dos importantes legados da civilização. É compreender novas formas de expressão em permanente processo de mudança, como as de toda uma geração que vai se internetizando em um netspeach, subvertendo as regras tradicionais de ortografia; e aceitá-las, sem maiores questionamentos, como decorrência natural da evolução dos tempos. É compreender a própria linguagem como fator de unidade nacional e assumir o dever ético de integração permanente entre os tantos brasis. É compreender, para além dos seus papéis de instrumentos de comunicação, que nada pode ser mais urgente, revolucionário, transformador e democrático, no Brasil de hoje, que educação popular. Tudo sugerindo o enorme dever da Academia em perseverar no esforço coletivo e contínuo de produzir cidadãos.

Já “cultura” exige visão mais ampla. Como um objeto em si, transformando aquilo que o homem faz dentro de uma continuidade histórica; mas, para além, tudo o que faz agregando valor. Aceitar o passado, como sentimento de uma época; mas, também, reafirmar a crença de que somos capazes de construir um futuro melhor, como ato de inconformismo. Questionar os verdadeiros limites da globalização, como fundamento de nosso modelo de organização social; mas, também, integrar visões – o abstrato e o concreto, o pessoal e universal, o barro trágico das circunstâncias e o brilho mágico das estrelas. Respeitando a diversidade que conforma nossa existência; mas sentindo que podemos nos enriquecer com ela. Somos melhores porque somos diferentes. Seremos ainda melhores, se formos capazes de prestigiar essas diferenças. É sobretudo, por fim, dar sentido a nossa identidade como povo – conceitos, preceitos, preconceitos, práticas morais, danças, cantos, sabores, o grito de gol, o espanto, rezas, mitos, saudades, esperanças.

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O PAÍS DO FUTURO?

O Brasil já nasceu sob o signo dos privilégios. Na expedição de Pedro Álvares Cabral apenas três, dos 13 comandantes de naus, eram navegadores experientes – Bartolomeu Dias, seu irmão Diogo e Nicolau Coelho. Sendo escolhidos, a partir de uma complexa teia de relações sanguíneas, os restantes. A começar pelo próprio Cabral. Que nunca havia navegado antes e nunca mais comandaria um navio. Merecendo esse posto em razão dos vínculos que a família mantinha com a Coroa. Fosse pouco e, desde Alvará de 06 de maio de 1536, a pena para velhacos, em Portugal, passou a ser o “desterro para o Brasil”.

Exemplo dessa cultura de privilégios deu inclusive Caminha, ao encerrar sua famosa carta: “Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida, e a Ela peço que, por me fazer singular mercê, mande vir da ilha de São Tomé Jorge d’Osoiro, meu genro, e o que d’Ela receberei em muita mercê. Beijo as mãos de Vossa Alteza, hoje, sexta-feira, 01/05/1500”. Não tendo tido entretanto a chance de ver que sua bajulação acabou atendida (em 1501) – dado ter morrido antes, em Calicute, pelas mãos de árabes e hindus. Azar o dele, sorte de seu destrambelhado genro.

Engraçado é que Caminha, sem querer, foi responsável pelo mito do bom selvagem, que tanto impressionou os pensadores da época. Ao falar da terra “na qual as gentes viviam nuas, como na primeira inocência, mansas e pacíficas”. Visão que se prolongaria até Montaigne e Rousseau, ardorosos defensores da tese da superioridade do homem natural sobre o civilizado. Faltando só dizer que foi inspirado na história de 24 homens simples – deixados por Américo Vespúcio, em Cabo Frio, para ser levados a Fernando de Noronha – que Thomas Morus pensou a sua ilha de Utopia. Não tendo o desafortunado Morus jamais sabido que ditos 24 exilados sequer chegaram a sair da feitoria onde estavam. Todos mortos, que foram, pelos maus selvagens de Arariboia (Martim Afonso de Sousa), chefe da tribo dos Temimimós. Sem falar que, pouco depois, iria perder a cabeça. Literalmente. Mas essa é outra história.

Conhecido provérbio do Brasil colônia dizia “Os gentios do Brasil não pronunciam as letras R, L e F; porque não possuem nem Rei, nem Lei, nem Fé”. Mas isso, hoje, está já em desuso. Que Rei temos, o maior de todos, Pelé. Lei também temos, até demais, embora só valham aquelas que o Supremo quiser. E sobretudo temos fé. Uma fé generosa e implausível em nosso futuro que, ao menos até agora, ainda sobrevive. No caminho que as coisas vão, até quando?

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CANTORIAS

Leandro Gomes de Barros (1865-1918)

Em um 19 de novembro (de 1865), como hoje, nasceu o primeiro cantador/cordelista do Brasil, Leandro Gomes de Barros. Em Pombal, Paraíba (falecido aqui no Recife, em 04.03.1918, por conta da gripe espanhola). Autor de 240 obras, e até hoje considerado Maior Poeta Popular do Brasil, inspirou numerosos escritores. Entre eles Ariano Suassuna que, no Auto da Compadecida, aproveitou dois de seus folhetos: O Testamento do Cachorro e O Cavalo que Defecava Dinheiro. Em sua homenagem, 19 de novembro é considerado como Dia do Cordelista. Sem esquecer que a cantoria, desde a semana passada, é Patrimônio Oral e Imaterial do Brasil.

Aproveito a data para dizer que nenhum personagem representa melhor o Nordeste. Para Câmara Cascudo, “O cantador é a voz da multidão silenciosa, a presença do passado, o vestígio das emoções anteriores, a história sonora e humilde dos que não têm história”. E o grande Silvio Romero, fundador da Academia Brasileira de Letras, foi mais longe. Comparando a poesia clássica de seu tempo a “banho morno em bacia com sabonete simples e esponja”. Enquanto a dos cantadores é “água farta, rio que corre, mar que estronda”.

Cantador anda sempre acompanhado por sua viola. Menos o negro Inácio de Catingueira e Fabião das Queimadas, no século XIX (que usavam pandeiros). E até se encantar, não faz tanto tempo, o cego Aderaldo (rabeca). A viola surgiu depois da rabeca medieval. E antes da atual família de violinos. Diniz Vitorino, cantador de Monteiro (Paraíba), falou dela em versos:

Viola adorada, instrumento tão rude,
Divino alaúde de sons encantados,
Tu gemes no peito, escutando os gemidos
Dos risos feridos, dos sonhos frustrados…

Cantai, cantadores, fazei vossa festa!
A vida só presta com cantos assim.
Se fordes expulsos por gênios perversos,
Cantai vossos versos somente pra mim.

Trata-se, provavelmente, do primeiro instrumento de cordas que o Brasil conheceu. Importada pelos Jesuítas, de Portugal, para seus trabalhos de catequese. Junto com pandeiro, tamborim e flauta de madeira. Nossa viola de arame veio da guitarra espanhola. Tinha, então, 5 ou 6 cordas duplas. Ganhando outras, por aqui, ao longo do tempo. A mais usada, hoje, tem 10 cordas duplas – divididas em canotilha (bordão), toeira, turina, requinte e prima. Por simplificação, é cada vez mais frequente o uso de violões comuns de 6 cordas. Sem o bordão. Subindo, as 5 outras cordas, uma cravelha. E acrescentando-se mais uma, fina, em lugar da última.

Cantador canta sempre em dupla. São raríssimos os que aceitam se apresentar sozinhos. Como Manuel Gaudino Bandeira ou Oliveira de Panelas. No início, em quase todos os gêneros, o último pé da estrofe anterior (penúltimo, em alguns casos), cantado por um cantador, era repetido por seu companheiro no começo da seguinte. Uma antiga regra de deixa-preu, ou deixa e torna, ainda hoje usada no Rio Grande do Sul, depois aprimorada em uma deixa brasileira. Sobretudo no Nordeste. Com os cantadores aqui, ao invés de repetir aquele último verso, construindo um novo. Com a mesma rima do anterior.

A cantoria segue em gêneros. São quase 100, os que conseguimos listar. Mais importante, sem dúvida, é a sextilha – seis versos de sete sílabas, rimando o segundo, o quarto e o sexto. Com o primeiro rimando com o último verso cantado pelo parceiro, a deixa. Sextilhas cantam-se por grupos, denominados baiões, sempre sobre um tema específico (em torno de 10 minutos, cada). E o público manifesta, com palmas e outros ruídos, sua aprovação, ou desaprovação, aos cantadores.

Antigamente, depois de cada cantoria, os cantadores amarravam uma fita colorida no braço da viola. Mas esse costume, hoje em dia, é cada vez mais raro. Por tudo, então, salve a sabedoria, a erudição, a simplicidade, a resistência, a cultura (levemente inculta), a língua certa do povo, astúcia, futuro prometido, miséria e opulência, realidade e ilusão, o pecado e o paraíso da voz iluminada dos cantadores nordestinos.

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CONVERSAS DE ½ MINUTO (14)

Mais conversas da terrinha, em livro que estou escrevendo (título da coluna).

* * *

ANTONIO CEZAR PELUSO, ministro do Supremo. No Tavares Rico (criado, em 1784, pelos irmãos Tavares – Manoel e Joaquim, claro), o restaurante preferido por Eça de Queiroz. Com ele, o desembargador (de São Paulo) Luiz Carlos Azevedo. Recebe cardápio e, querendo agilizar os pedidos, pergunta ao maître

– O senhor teria outro?

– Não.

Apontou um, em mesa próxima,

– Estou vendo aquele ali.

– Pois é o mesmo.

* * *

GLEIDE BEIRÓ, artista plástica. Entrou numa cabine telefônica, em Lisboa, e anotou as instruções do cartaz:

1. Tire o fone do gancho.

2. Ponha no ouvido.

3. Disque um número de cada vez.

E ficou sem entender como poderia discar 9 números ao mesmo tempo.

* * *

INSULTOS. O amigo Manuel Fonseca lembra (O Pequeno Livro dos Grandes Insultos) uma boa coleção dos que se dizem, por lá. Segue, aqui, só um exemplo.

– A cagar fiz um cigarro,
A cagar o acendi,
A cagar o fumei todo,
A fumar caguei para ti.

* * *

JOSÉ BRANDÃO, arquiteto no Porto. Chegou em casa encharcado, por conta de uma tempestade. E a empregada, assim que o viu, informou

– Está a chover lá fora.

Com desejos de esganar a coitada, se conteve e respondeu apenas

– Muito.

* * *

Dom JOSÉ TOLENTINO (CALAÇA DE) MENDONÇA, cardeal. A mãe teve Covid, na Madeira. Liguei

– Como está sua mãe?

– Muito bem, o Homem lá de cima gosta dela.

– Também, com um procurador como o senhor…

* * *

ONÉSIMO TEOTÓNIO ALMEIDA, da Universidade de Brown (Estados Unidos). O professor Aníbal Pinto de Castro, catedrático da Universidade de Coimbra, pergunta se leu um livro qualquer.

– Não.

– Pois é, Onésimo. Você só lê obras de alto gabarito intelectual!

– Ó Aníbal, não diga isso, você sabe que já li toda sua obra!

* * *

RENATINHO MAIA, empresário. Ana, sua mulher, na Padaria Portuguesa.

– Um café médio, por favor.

– Senhora, médio não há. Temos pequeno e grande.

– Grande.

– A senhora quer cheio ou meio cheio?

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SAUDADES

Virgulino Ferreira da Silva usava patente de capitão, isso todo mundo sabe. Segundo lenda, outorgada pelo Padre Cícero do Juazeiro. Em 1926. E não por acaso, dado já ser então um estrategista respeitado. Capaz de infundir tanta confiança nos que com ele estavam que seu pessoal pelejava cantando. Duas das táticas de guerrilha que usou ficaram, inclusive, famosas. Primeiro, nunca deixava mortos do cangaço no campo de batalha. Carregando seus corpos, durante dias, até enterrá-los em locais ermos. As volantes, depois dos tiroteios, encontravam no chão corpos apenas da polícia. Tendo a sensação de que combatiam fantasmas. Segundo, a novos membros do bando, ele dava nome dos que acabavam de morrer. Azulão foram cinco. Candeeiro, Chá Preto, Moderno e Mão de Gréia, pelo menos dois. Baliza dois (e mais um, no bando de José Padre). Quem duvidar pergunte a Fred Pernambucano, que é professor na matéria. Tudo fazendo com que se disseminasse, no imaginário coletivo, a lenda de que ele e seus homens tinham o corpo fechado. De serem imortais.

Pensei nele na data em que tradicionalmente trocamos as angústias do presente e as incertezas do futuro por lembranças do passado. Pode-se aproveitar o dia de finados, como o desse terça passada, para falar por exemplo de crendices e superstições portuguesas ainda tão presentes, sobretudo na gente simples do povo. Como a de que as almas dos afogados passeiam sobre as águas do mar e dos açudes em que se afogaram; ou visitam lugares em que viviam ou foram assassinados; ou de que, nas horas abertas, vagam pelos cemitérios.

Cadáver, para os romanos, era a carne dada aos vermes. Uma palavra formada pelas três sílabas iniciais da expressão romana caro data vermibus (carne dada aos vermes). Paulo Rónai diz que a versão é “fantasiosa”. Quem sabe? Segundo crendice popular, o cadáver passa à eternidade sem as riquezas terrestres. E, por isso, é ainda hoje usual arrancar do morto seus dentes de ouro (para que a alma não retorne, depois, impedida de subir aos céus).

Pela mesma razão, até a primeira Grande Guerra, militares tinham os botões dourados das fardas retirados, na hora do enterro. A tradição portuguesa, por outro lado, manda pôr na boca do morto uma moeda de prata, como que pagando algum tipo de pedágio para a eternidade. Caronte, barqueiro dos infernos, exigia óbolos que, quando não pagos, condenavam o morto a vagar, em suas barcas, por cem anos de solidão. Bom lembrar que mãos soltas atrapalham a subida, razão pela qual é conveniente amarrar pulsos com terços ou rosários. Já pés devem estar sempre voltados para a porta da rua, inclusive no percurso em direção ao túmulo, uma posição que é o inverso daquela com que se entra no mundo. Para dar sorte. Já os poetas, que segundo Pessoa “vêem em tudo o que lá não está” (Caeiro, Ficções de Interlúdio), conseguem enxergar beleza nisso. “Um cadáver não é trono demolido,/ Nem roto altar,/ Apenas prisão deserta” (Duelo), palavras de Salvador Diaz Miron.

Finados vem de fim, do latim finis; e, literalmente, quer dizer acabado, findo, finito. Mas está igualmente ligado ao sentido de perfeição; sendo, assim, também generalizadamente utilizado – finalidade, fino, refinamento. Com o que a ideia de perda acaba se convertendo, naturalmente, em saudade, impregnando-se de eternidade. Lembro mestre Drummond (Memória) dizendo que “As coisas tangíveis,/ Tornam-se insensíveis,/ Na palma da mão,/ Mas as coisas findas/ Muito mais que lindas,/ Essas ficarão”. Que finados é, sobretudo, um momento de confortadora intimidade. Das coisas que ficaram. Como se a mão misteriosa do destino preservasse, em nossas memórias, sobretudo os momentos bons de nossos mortos.

P.S. RELATÓRIOS. Aproveito e melhor explico meu pobre pensar sobre o dito na última coluna, quinta passada. Sobre duas questões, apenas. É o seguinte:

1. Tudo o que foi investigado, na CPI, cumpre apurar. Com zelo. Doa a quem doer. Para que todos assumam as responsabilidades que lhes cabem. Inclusive penais. Nenhuma dúvida, quanto a isso.

2. Entre as investigações que deveriam ser feitas pela CPI, havia episódios de corrupção. E a casa tem 81 senadores. Por isso, com tantos membros sobre os quais não pesa nenhuma suspeita, é (pelo menos) constrangedora a escolha de um réu por corrupção (ele, sua mulher e 3 irmãos), para ser Presidente. E quem é réu em quase 10 processos, também por corrupção, para ser relator. Como dizia Shakespeare (em O Mercador de Veneza), “Ah, se as propriedades, títulos e cargos/ Não fossem fruto da corrupção…/ Quantos, que comandam, não estariam entre os comandados?”. How many be commanded, that command? É isso.

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O RELATÓRIO

“Porque se derrubou a Bastilha, um telegrama; porque se deitou uma pedra na rua, um telegrama; porque o Deputado F. esticou as canelas, um telegrama. Dispêndio inútil. Toda a gente sabe que isto por aqui vai bem, que o deputado morreu, que nós choramos e que, em 1559, D. Pero Sardinha foi comido pelos caetés”. Com observações assim o prefeito eleito de Palmeira dos Índios, Graciliano Ramos, produzia relatórios ao Governador das Alagoas. O prazo de “3 meses para levar um tiro”, dado pelo populacho para que batesse as botas, não se cumpriria. Nenhuma espingarda funcionou. E a calma continuou a reinar, por ali.

São textos que falam dos “funcionários da administração anterior, que faziam política ou não faziam coisa nenhuma. Os atuais não se metem onde não são necessários, cumprem as suas obrigações e, sobretudo, não se enganam em contas”. Referem contas, minuciosamente anotadas, “724$000 foram-se para uniformizar as medidas pertencentes ao município, os litros aqui tinham mil e quatrocentas gramas, fui descaradamente roubado em compras de cal para os trabalhos políticos”; “2.886$180 foram gastos com instrução, mas não creio que os alunos aprendam ali grande coisa; obterão, contudo, a habilidade precisa para ler jornais e almanaques, discutir política e decorar sonetos”.

Temos um mosaico que se vai formando, aos poucos, a geografia física e a geografia humana. “O caminho que vai a Quebrangulo tem lugares que só podem ser transitados por automóvel Ford e por lagartixa”. Ou “a iluminação que temos, pérfida, dissimula nas ruas sérias ameaças à integridade das canelas imprudentes que por ali transitassem em noites de escuro”. Ou “uma senhora e uma criança, arrastadas por um dos rios que se formavam no centro da cidade, andavam rolando de cachoeira em cachoeira e danificaram na viagem braços, pernas, cabelos e outros órgãos apreciáveis”.

Só que os relatórios trazem, mais, o perfil desse grande escritor. Um crítico que respondia cumprimentos de “bom dia”, dizendo “por quê?” Um homem reto. De vida sem arranhões. Prefiro os Relatórios de Graciliano ao apresentado nessa quarta. Em que figuras muito conhecidas por seus passados controversos, réus por corrupção, se exibem como se fossem pessoas limpas. E se apresentam, agora, como se estivessem acima de qualquer suspeita. E não estão, esse o problema. De forma nenhuma estão.

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CAIPIRAS E CAIPORAS

Antiga farsa de Gil Vicente (Auto da Lusitânia) relata diferenças entre “um rico conhecido como Todo Mundo” e um “homem vestido como pobre, conhecido como Ninguém”. Primeiro, se apresenta o rico: “Eu hei nome Todo Mundo/ E meu tempo todo inteiro/ Sempre he buscar dinheiro/ E sempre nisto me fundo”. Em seguida, o homem vestido como pobre: “E eu hei nome Ninguém/ E busco a consciência/ Esta he boa esperança/ Dinato, escreve isto bem”. Encerrando-se, as apresentações dos personagens, “Que escreverei companheiro?/ Que Ninguém busca consciência/ E Todo Mundo dinheiro.”

A partir de nossa renda per capita, de um lado estão aqueles a quem sorriu a sorte e o patrimônio; do outro, condenados pela ausência de oportunidade e por um modelo econômico excludente. Complicado é que a convivência instável entre brasileiros desiguais começa a ser ameaçada pelos baixos teores de nossa democracia econômica. A atitude do indeterminado cidadão comum em relação à impunidade, por exemplo, mostra que ela é mais forte à medida em que nos aproximamos da base da pirâmide social. Motoristas de táxi, barbeiros ou feirantes sonegam suas receitas e não acham nada demais; mas querem que os grandes empresários vão para a cadeia, se deixarem de pagar imposto de renda. Revelando que destinatário da ira não é a sonegação, mas o sonegador. Não o que se faz, sobretudo quem faz.

Em relação aos sem terra, outro exemplo, temos o mesmo cenário. Direitos adquiridos, ardorosamente defendidos pelas organizações populares, valem para tudo, menos em relação às terras que invadem. Decisões da justiça são consideradas democráticas apenas quando a favor. Tudo revelando indícios claros de fragmentação que podem ser reproduzidos em muitas outras situações. Mostrando que, no fundo, talvez já estejamos vivendo como que um início de acerto de contas social.

Seja como for, amigo leitor, mantenho minha fé de que ainda veremos um Brasil em que, aproveitando os personagens de Gil Vicente, não falte trabalho a Ninguém, em que Todo Mundo trabalhe. E nada impediria que algum poeta de fim de semana se aventurasse, agora, na continuação dessa trama. Em versos que, por exemplo, dissessem: Pois Ninguém quer fazer força/ Todo Mundo aposentar/ Um tem renda garantida/ Outro o pão para ganhar/ Todo Mundo é boa vida/ Casa, cantiga e comida/ E Ninguém quer trabalhar.

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VIVA CARLOS MORAES

Fez 81 anos, ontem, Carlos Roberto Moraes. E, também ontem, lançou um grande livro, O Coração tem Razões (edição FacForm). Lembro Oscar Wilde (A Importância de ser Prudente), “a memória é um diário que todos carregamos conosco”. E começo por dizer que Moraes andou já pelo mundo todo, para falar em Congressos Médicos ou para operar: África (África do Sul, Cabo Verde), América Latina (quase toda), Ásia (China, Filipinas, Índia, Israel, Japão, Malásia, Singapura, Tailândia), Estados Unidos, Oceania, Europa ‒ com destaque para Alemanha, França, Inglaterra, Portugal. Lugares em que recebeu títulos sem conta. Amigo de Abert Pacífico, Christopher Lincold, DeBakey, Cooley, Dom Wukashi, John Kirklin, Lionel Bargeron, Pantpis Sakornpant, Thomas Burford e outros grandes nomes da cirurgia cardíaca mundial. Caberia falar, também, de técnicas revolucionárias que implantou. Como a endomiocardiofibrose. Mas isso fica para os jornais médicos.

Aqui, prefiro fazer outra louvação. E começo dizendo que Moraes é amigo certo de amigos incertos. Amigo incomum de amigos comuns. Homem rico, na Bolsa dos Valores. Invejado, por não ter inveja de ninguém. De corpo sarado, das (poucas) doenças que teve. Homem reto, apesar das hernias e das curvas na coluna. Dedicado a dores e todas as suas rimas, inclusive andores, ardores, credores, pecadores, amores, desamores. E, mais que ditas dores, dedicado ao coração e outras rimas como emoção, doação, dedicação, perfeição, perdão. E, também, a mão. Diferentemente da de Augusto dos Anjos (Versos Íntimos), a sua nem afaga, nem apedreja, apenas opera. E o grão. Como o desse “tempo de plantar e tempo de arrancar a planta”, segundo os Eclesiastes (Ecl. 3,2). E é o que está fazendo, agora, nessa colheita. Ao receber, de todos, expressivas homenagens.

Fernando Pessoa, em Mensagem (Ulisses), dizia que “O Mito é o nada que é tudo”. No caso de Moraes, não é bem assim. Melhor dizer que ele é mito por ser tudo que é. E lembro, também, outro Moraes. Filósofo. Que encerrou seu programa (Supremum Organorum), na Televisão Universitária, dizendo que “O Brasil precisa de Pessoa de Moraes”. A ele respondi, então, que o Brasil precisava mesmo era de Pessoas de moral. Mas reformulo, hoje. Para dizer que o que o Brasil precisa, verdadeiramente, é de mais pessoas como Carlos Roberto Moraes.

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CIRCOS

O Gran Circo Hong Kong estava armado numa favela, em Serrambi-PE. Entrada baratinha, 5 pratas, com direito a tudo que se tem direito em circos que lembram os da nossa infância. Menos o picadeiro. Antes, pó-de-serra; hoje, só uma lona velha. Nesse, trabalhavam 6 pessoas. Antes da sessão, um cuidava da bilheteria, outro das entradas, os demais vendiam pipoca, bombom, algodão-doce. Trabalho solidário. A noitada começou com Roberto, o equilibrista do arame. Apesar da malha preta rasgada, e do sapato roto, não caiu. Aplausos. Depois, se transformou no palhaço Biribala. E ainda teve fôlego para se exibir, no fim da sessão, como domador de animais. Só que, estando o custo de vida pela hora da morte, um circo desses não iria conseguir mesmo pagar nem um pedaço da carne exigida por animais de grande porte ‒ como tigre ou leão. E o pobre Roberto, domador de tantos dotes, teve que se contentar em trabalhar com um mero bode. O bodinho Edmundo, como berrava entusiasmado o locutor.

Depois veio Mister Carlos, o homem de gelo. Que engolia fogo rebolando de um jeito que sei não. E soltava labaredas, com o auxílio do querosene que guardava em uma latinha de Skol. De vez em quando, um gole d’água para limpar a boca. Atrapalhou-se e, em vez de água, bebeu foi o próprio querosene. E quase morreu. Melhor fez o palhaço Espoleta, bem novinho, 6 anos (por aí). Tinha olhos tristes. Dia seguinte o vi brincando, na areia, com um carrinho de plástico azul. Difícil imaginá-lo distante desse ofício de criança que é o de brincar sem receios do futuro. Joseane, a mulher dos cabelos de aço, entrou correndo e foi logo se jogando para plainar sobre as cadeiras de plástico da plateia. Divina e majestosa. Só que o locutor (um certo França), e mais Mister Carlos (o tal homem do gelo), deveriam ter puxado a corda presa em seus cabelos, garantindo a decolagem. Mas estavam conversando e nem prestaram atenção em Joseane, coitada. Deu tudo errado. E a pobre acabou se esborrachando em meio ao distinto público. Por fim apareceu Gardênia, a indefectível vedete que sempre anima circos de interior. Dublando música de duplo sentido. Dublando, aqui para nós, é exagero. Abrindo a boca, seria uma descrição mais fiel do seu número. Pena só que o tempo já de muito havia passado, para Vovó Gardênia.

Comparo tal circo aos que agora se exibem, no Planalto Central. Diferentes, embora. Que, num, gente humilde tenta sobreviver com seu trabalho digno. Enquanto, nos outros, sobra só a sanha de se exibir, a qualquer custo, nas TVs. A esperança de prescrição dos seus processos, no Supremo. A preocupação em proteger parceiros, acusados de corrupção, nos estados e municípios. E um exagero do sabe com quem estão falando? Sabemos, senhores. Sabemos.

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CONVERSAS DE 1/2 MINUTO (13)

Mais conversas, em livro que estou escrevendo (título da coluna).

* * *

ANTÔNIO HERMÍNIO DE MORAES, empresário. Na época, talvez, o mais rico do Brasil. Usava ternos surrados; um deles, seu preferido, por 30 anos. E o mesmo sapato, que jogava fora só quando furava. Na aparência, pois, classe média baixa. Certo dia, depois de almoçar, parou na Rua 24 de Maio para olhar os relógios finos ali expostos. Era de seus poucos vícios. Gostou de um e perguntou, ao balconista,

– Qual o preço?

– Vá andando, cidadão, que isso não é pra seu bico.

Dr. Antônio Hermínio agradeceu e foi embora, rindo.

* * *

ROBERTO CARLOS, cantor. Jerry Adriani contou que, depois da missa de Maria Rita, pediram fizesse companhia ao Rei. Até que seus admiradores fossem embora. Na pequena sala, reservada para eles, apenas sofá, mesinha e jarro de planta. Pensou consolar o amigo

– A vida continua, Roberto.

– Eu sei,

e virou-se para o jarro:

– Minha plantinha querida, vou lhe contar a história de minha vida. Foi assim. Eu nasci em Cachoeiro do Itapemirim…

Passou 15 minutos de costas para ele. E ainda estava na Jovem Guarda. Jerry foi embora e o amigo nem notou.

* * *

SALMEN GISKE, construtor. Fazia obra, na Dantas Barreto, para o Grupo João Santos. Problema é que a casa do lado, bem velha, começou a rachar. E ele ficava, de longe, só escorando as paredes. Certo dia, o vizinho lhe chama para conversar. E, na sala dele, dava para ver o tamanho das rachaduras, por onde passava um braço.

– Doutor engenheiro, essa casa vai cair?

– Se vai cair ou não é só com Deus. Mas poderíamos continuar essa conversa do lado de fora?

* * *

VANUSA SÁ LEITÃO, professora. Fim do biriba, no Prado, e descobriu que seu carro havia sido levado por um amigo do alheio. O filho foi buscar, para prestar queixa na delegacia e levá-la de volta. Passando pelo Shopping Center Recife, pediu para entrar:

– Vamos pra casa, mamãe.

– Depois. Agora, vamos passear pelo estacionamento.

– Por quê?

– Tem muito carro, por aqui.

Pode? Inútil argumentar com mãe obstinada. Ficaram andado e ela tocando na chave, até que ouviu um bip.

– Pode parar.

Procurou, encontrou, e foi embora guiando seu querido carrinho. Só não se sabe o que aconteceu com aquele pobre ladrão, ao descobrir que o carro foi roubado por algum colega desalmado. Pois é.