JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

a cada um dos amigos. Pelos gestos. Pela torcida, no coração. Pelas rezas, tantas. Pelas promessas, a começar pelas de dona Lectícia. Para mim foram todos eleitos, imagino sintam isso por dentro. E devo mais diretamente aos agora confrades, Marcos Vilaça à frente, a honra enorme de pertencer à Academia Brasileira de Letras. Único pernambucano eleito na história da Academia, que morava no Recife, foi Mauro Mota. Só que, desde 22/11/1984, já não havia mais ninguém por lá. Uma escolha que é, também, homenagem a Pernambuco. Numa cadeira que tem nossa cara. Desde seu fundador, o pernambucano Oliveira Lima, para Gilberto Freyre o Quixote Gordo. Até o último ocupante, o também pernambucano Marco Maciel, para Gustavo Krause o menos imperfeito ser humano que conheci. Primeira pessoa com quem conversei, depois da eleição, foi Ana Maria. E fiquei tocado pela alegria (muita) que percebi, nas suas palavras generosas, ao me ver ocupando o lugar que um dia foi do marido.

Mas o que seria, exatamente, pertencer à Academia Brasileira de Letras?, eis a questão. A resposta vem dos seus próprios estatutos (art. 1º), redigidos por Machado de Assis, “Defesa da língua portuguesa e da cultura”. Um belo compromisso. Mas é preciso retraduzir essas palavras, para dar-lhes maior atualidade. Nessa nova ótica, defender a “língua” não é se limitar a seu caráter de realidade virtual, conjunto de símbolos articulados para produzir uma ideia. Mas ir além. É compreender as diferenças entre o vocabulário mais amplo de uma como que língua oficial, com as limitações impostas pela circunstância aos indeterminados cidadãos comuns; e não se conformar com esse destino. É compreender que expressa uma visão específica da realidade, quem somos, talvez até sem dar conta disso; e preservar a memória dos importantes legados da civilização. É compreender novas formas de expressão em permanente processo de mudança, como as de toda uma geração que vai se internetizando em um netspeach, subvertendo as regras tradicionais de ortografia; e aceitá-las, sem maiores questionamentos, como decorrência natural da evolução dos tempos. É compreender a própria linguagem como fator de unidade nacional e assumir o dever ético de integração permanente entre os tantos brasis. É compreender, para além dos seus papéis de instrumentos de comunicação, que nada pode ser mais urgente, revolucionário, transformador e democrático, no Brasil de hoje, que educação popular. Tudo sugerindo o enorme dever da Academia em perseverar no esforço coletivo e contínuo de produzir cidadãos.

Já “cultura” exige visão mais ampla. Como um objeto em si, transformando aquilo que o homem faz dentro de uma continuidade histórica; mas, para além, tudo o que faz agregando valor. Aceitar o passado, como sentimento de uma época; mas, também, reafirmar a crença de que somos capazes de construir um futuro melhor, como ato de inconformismo. Questionar os verdadeiros limites da globalização, como fundamento de nosso modelo de organização social; mas, também, integrar visões – o abstrato e o concreto, o pessoal e universal, o barro trágico das circunstâncias e o brilho mágico das estrelas. Respeitando a diversidade que conforma nossa existência; mas sentindo que podemos nos enriquecer com ela. Somos melhores porque somos diferentes. Seremos ainda melhores, se formos capazes de prestigiar essas diferenças. É sobretudo, por fim, dar sentido a nossa identidade como povo – conceitos, preceitos, preconceitos, práticas morais, danças, cantos, sabores, o grito de gol, o espanto, rezas, mitos, saudades, esperanças.

6 pensou em “OBRIGADO

  1. A ABL agradece sua entrada no seu seleto grupo. So foi feita a justiça , os melhores escritores devem estar na ABL. A vaga para o Papa é uma questão de tempo.

  2. Caro Dr. José Paulo,

    Maia uma vez, parabéns! É difícil de descrever a alegria que a sua eleição nos provocou.

    Faço votos que o senhor venha a ser, a partir desta tribuna privilegiada, um defensor ferrenho da nossa querida “Última flor do Lascio”, ultimamente estuprada a céu aberto e em plena luz do dia.

    Pelo amor de Deus, não transija com as sucessivas mudanças ortográficas malucas que deformaram a nossa escrita a ponto de tornar a nossa língua uma representação cada vez mais pobre da nossa fonética e da nossa prosódia. Coisas malucas como a eliminação do trema e dos acentos diferenciais.

    Muito menos ainda, a adoção de imbecilidades galopantes, como o gênero neutro, invenção maluca a serviço de uma ideologia aberrante e esquizofrênica.

    Um grande abraço e votos de muito sucesso.

  3. O amigo e colega José Paulo Cavalcanti

    não “dorme no ponto”, é ligeiro, pertinaz, relevante, oportuno….
    Apresenta no seu agradecimento, o discurso de posse.

  4. Dr. José Paulo Cavalcanti.
    Nossas saudações com orgulho e honra, por sua eleição, mais do que merecida, para Academia Brasileira de Letras..

    Academia esta, que foi, por mais de trinta anos. Presidida por outro proeminente pernambucano, defensor “da língua portuguesa e da cultura”.
    O mestre Austregésilo de Athayde.

    Nosso estado e o nordeste como um todo. No momento da Criação Divina, teve um toque mais generoso e especial das Mãos de Deus.Terra de natureza privilegiada e de homens ilustres.

    O senhor, agora, na condição de “Imortal”. Será mais um patrimônio para todos nós pernambucanos.
    Como bem o são, nossa Bandeira e nosso Hino. Principalmente no trecho que entoamos com entusiasmo e determinação: “Pernambuco imortal, imortal!”

    Que sua posse seja tão brilhante e importante, como o senhor e as pessoas e os amigos à sua volta.

  5. Dona Maria Lectícia dessa vez disse o contrário de quando da titularização do genial FERNANDO PESSOA – Uma Quase Autobiografia.

    “Se você mantiver esse título, que foi o primeiro pensado por José Paulo, os amigos vão ficar chocados, não compreender nada.

    Dessa vez José Paulo teve a aprovação dela, a quem obedece há mais de 50 anos.

    O discurso – ou parte dele – já está escrito para a posse,

    Parabéns com o coração.

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