JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Maria Queiroz da Silva

Maria Queiroz da Silva nasceu em Grossos, RN, em 30/3/1929. Professora, economista, pedagoga, oradora e política na condição de deficiente física de nascença, desprovida das pernas e do braço direito. Pode parecer inacreditável que uma pessoa nestas condições pudesse realizar empreendimentos tais como ministrar aulas, fundar uma escola, construir uma igreja, viajar pelo mundo e assumir o cargo de vereadora na capital de seu Estado. No entanto, é tudo verdade e se constitui num dos casos de superação mais fabulosos em todo o mundo.

De origem humilde numa família de 9 irmãos, era uma criança alegre, comunicativa e dotada de uma inteligência privilegiada. Mas isto não impediu que sofresse preconceito em sua comunidade. Aprendeu a andar sozinha, utilizando joelheiras e queria estudar como fazia os irmãos e colegas, mas sua mãe não estimulava, temendo a discriminação que sofreria na escola. Passou a frequentar uma escola particular em Areia Branca e logo aprendeu a ler e escrever. Uma de suas brincadeiras era ler para as amigas e contar o que aprendeu na escola. Assim foi moldada sua vocação para o magistério. Era dotada de uma vivacidade incomum e rejeitava os sentimentos de preconceito ou compaixão diante de sua deficiência. Ao seu modo conseguiu relativa independência de mobilidade.

Aos 12 anos concluiu o Curso Primário no Educandário Padre Anchieta e decidiu ser professora quando crescesse. Como em Areia Branca não havia ginásio, a família mudou-se para Mossoró onde os filhos poderiam cursar o ginasial. Mas ela não foi aceita em nenhum ginásio, devido a deficiência e tiveram que se mudar para Natal na esperança de continuar os estudos. Passou no “Exame de admissão” ao ginásio, no Colégio Atheneu, mas foi impedida de se matricular. Não acatou a decisão da Diretoria e foi reclamar junto ao Secretário da Educação. Comovido com seu problema, o secretário determinou que sua matrícula fosse aceita.

Concluído o curso ginasial, entrou na Escola Normal do Estado para cursar pedagogia e se formar professora do curso primário. No 2º ano do curso, foi editada a Lei nº 2.889, de 11/1/1961, cujo artigo 21 dispunha: “Os candidatos a exame de seleção deverão apresentar diploma de conclusão de Curso Ginasial… bem como satisfazer os seguintes requisitos: a) Sanidade física e mental; b) Ausência de defeito físico ou distúrbio funcional que contraindique o exercício da função docente. Ou seja, a Lei exigia a sanidade física e reforçava, reiterava a necessidade de “ausência de defeito físico” para que não restassem dúvidas. Como se vê os legisladores da época eram muito “precisos” na sua função “social”.

Mas, como já estava no 2º ano, concluiu o curso em 1962 e foi escolhida como oradora da turma. Pouco antes da formatura, a diretora da escola entrou na classe e perguntou quem gostaria de receber o diploma com o nome escrito em letras góticas. Maria foi a primeira a aceitar. Mas para espanto das colegas, a diretora disse-lhe: “Você não, Maria! Você não receberá o diploma! A sua condição física não permite!” Ela retirou-se da sala em lágrimas e dirigiu-se ao Palácio do Governo. O governador, comovido com sua “via crucis”, revogou a decisão da diretora. O problema agora está em encontrar uma escola onde possa dar aulas. Não encontrou e para realizar sua vocação teve que fundar uma escola, o “Externato Santa Terezinha”, assumindo o cargo de professora e diretora.

Na administração de sua escola, passou a se interessar por economia e ingressou na UFRN-universidade Federal do Rio Grande do Norte. Diplomada em Ciências Econômicas, em 1967, passou a ficar conhecida em Natal como “Baía”. Era seu nome caseiro pronunciado pelos irmãos pequenos, que não sabiam falar Maria. Assim adquiriu popularidade, admiração e respeito na cidade. Em 1976 foi estimulada a candidatar-se a vereadora de Natal, pelo MDB, partido de oposição ao governo militar, e obteve 1636 votos, ficando na 1ª suplência e assumiu o mandato em 1978. Além destes trabalhos, manteve intenso trabalho social na Igreja ao lado do Padre Lucas Batista Neto em viagens internacionais. Comandou, na Praia de Areia Preta, uma campanha de arrecadação de fundos para a construção da Igreja de São Francisco.

Em 19/10/1981, após submeter-se a uma cirurgia cardíaca, veio a falecer. Como é nosso (mal) costume de se reconhecer os valores das pessoas somente após a morte, os políticos de Natal deram seu nome à uma escola pública, em maio de 1982, transformada num estabelecimento de ensino fundamental e ensino médio, em 2002. Mais uma homenagem póstuma lhe foi prestada pela Prefeitura com a inauguração da Rua Vereadora Maria Queiroz, no bairro de Lagoa Nova, bairro nobre de Natal. Em 2019 sua vida e legado foi registrado na biografia “Maria Queiroz BAÍA – Exemplo de superação e luta contra o preconceito”, escrita por Lúcia Eneida Ferreira Moreira, publicada pela Offset Editorial.

Obs.: Este relato biográfico foi realizado a partir da crônica de Violante Pimentel – “A superação” -, publicada neste jornal em 21/2/2020, e alguns dados e informações enviados posteriormente.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Vital Brasil

Vital Brazil Mineiro de Campanha nasceu em 28/4/1865, em Campanha, MG. Médico, cientista, sanitarista, descobridor do soro antiofídico e um dos pioneiros da medicina experimental no Brasil. Seu nome parece título geográfico e é. Foi dado por um costume do pai em denominar os filhos conforme o lugar onde nasceram. Ajudou a criar o Instituto Oswaldo Cruz; criou o Instituto Butantã e o Instituto Vital Brasil: 3 grandes instituições renomadas, necessárias e vitais nesta época subjugada pela pandemia do coronavírus.

Foi parente distante de Tiradentes e, mais próximo, do presidente Venceslau Brás e do mecenas Oscar Americano. No entanto, sua família era humilde e passou a infância no interior de Minas Gerais, trabalhando desde os 9 anos. Aos 15 a família mudou-se para São Paulo onde permanece até os 21. Ingressou na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro em 1886 e formou-se em 1891, com a tese “Funções do baço”. No ano seguinte foi estagiar no Instituto Pasteur, em Paris. Médico no interior de São Paulo, presenciou a morte de vários lavradores, vítimas de picadas de serpentes. Como sanitarista, participou das brigadas de combate a febre amarela e a peste bubônica junto com Oswaldo Cruz.

Deixou registro destas experiências publicado em 2 livros: O ofidismo no Brasil (1906) e A defesa contra o ofidismo (1911), traduzido para o francês em 1914. Viúvo em 1913, casou-se de novo em 1920 e constituiu uma família de 18 filhos, alguns destacados na medicina, farmacologia, veterinária, música, psicanálise, arquitetura, aviação. Convidado pelo governador de São Paulo, foi trabalhar no Instituto Bacteriológico, em 1897, dirigido por Adolfo Lutz. Realizou pesquisas científicas e trabalhou junto com Emílio Ribas, Carlos Chagas e Oswaldo Cruz no combate à peste bubônica, tifo, varíola e febre amarela.

Em 1901 recebeu do presidente Rodrigues Alves a Fazenda Butantã, para instalar uma “fabrica de soro”, tal como o Instituto Soroterápico Federal, instalado no Rio de Janeiro, em 1900. Em apenas 4 meses foram produzidos os primeiros tubos de soro antipestoso e antiofídico. Em 1925, o Instituto Soroterápico foi rebatizado como Instituto Butantã. Seu trabalho não se limitava a área científica, criou caixas de madeira para captura de cobras e manteve convênios com as ferrovias para o transporte até São Paulo. Realizou duas campanhas públicas simultâneas: numa trocava soro por cobras vivas e noutra esclarecia a população sobre as cobras venenosas.

Em 1903 conseguiu enunciar cientificamente o soro antiofídico, a partir de anticorpos produzidos no sangue dos cavalos, usando o veneno da própria cobra. Em seguida foram produzidas vacinas contra tifo, varíola, tétano etc. As picadas de aranhas venenosas, escorpião e lacraias deram origem a novos soros. Em 1913 voltou ao Instituto Pasteur para novos cursos e visitar outros países. Em 1915 participou do Congresso Científico Pan-Americano, nos EUA, adquirindo projeção internacional. No ano seguinte preparou a patente do soro antiofídico e ao recebê-la, fez sua doação ao governo brasileiro, pois considerava a ciência como um bem público.

Deixou a direção do Instituto Butantã, em 1919, e foi para o Rio de Janeiro criar mais um instituto, apesar de convidado por Carlos Chagas para trabalhar no Instituto Oswaldo Cruz. Dizia que o Brasil necessitava de mais instituições científicas. Assim, fundou em Niterói, com apoio do governador Raul de Moraes Vieira, o instituto que leva seu nome. As atuais instalações, uma joia da arquitetura moderna, foram projetadas por seu filho, o arquiteto Ãlvaro Vital Brasil. Ocupa uma área de 100 mil m² e edificação de 20 mil m², inauguradas em 1943 no bairro Vital Brasil. Por um breve período voltou a dirigir o Instituto Butantã (1924), mas logo reassumiu a direção do Instituto Vital Brasil (1927), onde permaneceu até o fim da vida.

Faleceu em 8/5/1950, vitimado por uma uremia, agravada por uma peste bubônica e febre amarela, as doenças que combateu em toda sua vida. Deixou um legado considerável e instituições solidas no estudo e combate das moléstias urbanas e doenças tropicais. Recebeu homenagens de todo tipo e figura no “Livro dos Heróís da Pátria”, além de denominar diversos logradouros e escolas em todo o País. Dois museus cuidam da preservação de sua memória e divulgação de seus trabalhos: um no Instituto Butantã, expondo seu laboratório, inaugurado em 1981, e outro na casa onde nasceu, inaugurado em 1988. Seu nome foi dado à aranha caranguejeira, Vitalius sorocabae. Em 2014 recebeu uma placa alusiva aos 120 anos da descoberta do soro antiofídico, no Museu Nacional de História Natural, em Paris.

Foi o primeiro cientista brasileiro a ter uma biografia dirigida às crianças, realizada por Nereide Schilaro Santa Rosa e publicada pela Duna Dueto Editora. O cientista foi biografado em vários livros, mas sua vida e obra completa recebeu justamente esse título: Vital Brazil: Obra Científica Completa (2002), organizada por André de Faria Pereira Neto e publicada pela FioCruz. Faleceu na época em que o Brasil passou a ser visto como o “Pais do Futuro”, e assim se mantém até hoje, quando enfrenta uma pandemia mundial e seus institutos são chamados a colaborar no enfretamento dessa moléstia que assola o mundo. Como se vê, temos pedigree para realizar esta proeza.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Imperatriz Leopoldina

Carolina Josefa Leopoldina nasceu em Viena, Áustria, em 22/1/1797. Esposa de D. Pedro I e Imperatriz do Brasil. Filha do imperador Francisco I da Áustria e Maria Teresa das Duas Sicílias, chegou no Brasil em 1817 para se unir ao marido, em cumprimento ao acordo familiar de seu pai com o rei D. João VI, resultado de uma aliança entre as monarquias de Portugal e Áustria. A Europa foi redesenhada com a queda de Napoleão Bonaparte, em 1814, e no ano seguinte deu-se o Congresso de Viena, criando uma nova ordem mundial, onde o Brasil entra como reino unido de Portugal.

Nesse contexto ela teve atuação destacada no processo de independência do Brasil. Porém, a história contada nos livros escolares desconhece completamente seu papel. Tal omissão foi denunciada pelo historiador Paulo Rezzutti, autor do livro D. Leopoldina – A história não contada: a mulher que arquitetou a Independência do Brasil (2017). Sua tese é que foi em grande parte graças a ela que o Brasil se tornou uma nação. Afirma que ela “abraçou o Brasil como seu país, os brasileiros como o seu povo e a Independência como a sua causa”. Devido ao fato de reger o País diversas vezes, enquanto o marido viajava pelas províncias, é considerada a primeira mulher chefe de estado de um país americano.

Pertencia à Casa de Habsburgo, uma das mais antigas e poderosas dinastias da Europa, que reinou sobre a Áustria de 1282 a 1918. Órfã de mãe aos 10 anos, foi educada pela madrasta Maria Luísa, musa e amiga pessoal do poeta Goethe. Sua infância foi marcada pela rigidez com os estudos, estímulos culturais diversos e aprendizado de línguas (falava 6 idiomas). O casamento se deu por procuração, em 13/5/1817 em Viena e recebeu a bênção nupcial em 6/11/1817, dia seguinte ao seu desembarque no Brasil. A viagem foi dificil e durou 86 dias com uma parada em Florença enquanto esperavam o restabelecimento da ordem monárquica, abalada pela Revolução Pernambucana de 1817. Ao chegar no Rio de Janeiro, o casal foi instalado numa casa de campo na Quinta da Boa Vista.

Ainda adolescente demonstrava interesse pelas ciências naturais, particularmente geologia e botânica. Assim, empenhou-se para que viesse junto com a comitiva uma grande expedição científica integrada por expressivos cientistas e artistas: Carl Friedrich Phillip von Martius, Johann Baptist von Spix, Jean Baptiste Debret, Thomas Ender entre outros. O interesse em conhecer o Brasil já havia despertado com a publicação do livro Viagem às regiões equinociais do novo continente feita de 1799 a 1804, por Alexnder von Humboldt. O processo de independência apresentava-se como fato concreto desde que os pernambucanos se rebelaram com esse intento e conseguiram, mesmo que por apenas 74 dias. Era preciso a independência antes que os brasileiros fizessem. A Revolução Liberal do Porto (1820), em Portugal, e o retorno forçado da Corte, em 1821, à Lisboa vieram acelerar o processo.

D. Pedro, aos 23 anos, ficou no Brasil como príncipe regente com amplos poderes e incapaz de dominar o caos instalado na colonia dominada pelas tropas portuguesas. A oposição entre portugueses e brasileiros tornou-se cada vez mais evidente. A partir daí Leopoldina, culta e escolada na diplomacia e politica, passa a interferir, junto com seu amigo José Bonifácio, decisivamente no processo de independência antes mesmo do marido. Quando foi exigido seu retorno à Lisboa, sua participação no ´Dia do Fico`, em 9/1/1822, foi decisiva. Neste dia ficou sentenciada sua permanência no Brasil e passou a agir nos bastidores, orientando uns e influenciando outros a aconselharem o marido, já que ele não lhe dava ouvidos. Pouco depois D. Pedro, enquanto viajava para São Paulo, é rebaixado a mero auxiliar da Corte Portuguesa. Ela, na condição de Princesa Regente do Imperio e aconselhada por José Bonifácio, reuniu, em 2/9/1822, o Conselho de Ministros e assina o decreto da Independência.

Ato contínuo, escreve uma carta ao marido: “É preciso que volte com a maior brevidade. Esteja persuadido de que não é só o amor que me faz desejar mais que nunca sua pronta presença, mas sim as circunstâncias em que se acha o amado Brasil. Só a sua presença, muita energia e rigor podem salvá-lo da ruína”. E adverte: “O pomo está maduro, colhe-o já, senão apodrece”. A carta chegou às maos de D, Pedro nas margens do riacho Ipiranja, em 7 de setembro, e a Independencia foi proclamada. Pouco antes, ela idealizou a bandeira do Brasil, misturando o verde, da família Brajança, e o amarelo ouro da família Habsbsburgo, com a ajuda do pontor Debret. Essa história que o verde representa nossas matas e o amarelo nosso ouro foi inventada depois. Por fim, se empenhou a fundo no reconhecimento do novo País pelas cortes europeias, escrevendo cartas ao pai, imperador da Áustria, e ao sogro, rei de Portugal.

Foi aclamada imperatriz, em 1/12/1822, na coroação e sagração de D. Pedro e apartir daí assistimos seu martírio conjugal junto ao marido e suas amantes. Passou por uns perrengues com a amante oficial –Domitila- tendo que aceitá-la como dama de companhia, promovida a Marqueza de Santos, e o reconhecimento público da filha bastarda, promovida a Duqueza de Goiás. Até viagens junto com o marido e a amante teve que suportar, como a realizada no inicio de 1826 à Bahia. Bem antes disso já se via o abatimento físico e psicológico a que ficou reduzida, devotada apenas a parir um herdeiro para o trono.

Em meados de 1826, com a saúde abalada, enfrentou mais uma gravidez e enviou carta à irmã Maria Luísa, mencionando um terrível atentado que sofrera de seu marido. Em seguida foi definhando rápido, agravado com o aborto da criança, poucos dias antes de falecer em 11/12/1826. Há controvérsia sobre a causa mortis. Para uns sua morte decorreu de uma septicemia puerperal. Mas foi muito difundida a versão que teria sido as agressões físicas que sofreu durante um acesso de raiva do marido, em 20/11/1826. Tal versão foi defendida por historiadores, como Gabriac, Carl Seidler, John Armitage e Isabel Lustosa. Sua morte causou grande comoção popular e paralizou o Rio de Janeiro. Carlos H. Oberacker Jr., seu biógrafo, afirma na obra A Imperatriz Leopoldina: sua vida e sua época (1973), que “raras vezes uma estrangeira foi tão querida e reconhecida por um povo como ela”. Além dessa biografia oficial, muitas outras reconhecem seu papel e importância na História do Brasil, tais como os livros de Glória Kaiser, Dona Leopoldina, uma Habsburg no trono brasileiro (1997) e Johanna Prantner com Imperatriz Leopoldina do Brasil (1998).

Clique aqui para assistir ao domentário IMPERATRIZ D.LEOPOLDINA DO BRASIL

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Oswaldo Cruz

Oswaldo Gonçalves Cruz nasceu em São Luiz do Paraitinga (SP), em 5/8/1872. Médico, cientista, sanitarista, fundador da medicina experimental no Brasil e pioneiro no estudo e combate das moléstias tropicais. No curso de medicina não demonstrou interesse pela clínica, mas ficou fascinado pelo mundo microscópico que surgia com a “revolução pasteuriana”, conduzida por Louis Pasteur, Robert Koch entre outros, que transformou a medicina.

Foi criado numa família de cariocas, que retornou ao Rio de Janeiro em 1877. Ingressou na Faculdade de Medicina aos 14 anos e formou-se médico, em 1892, com a tese A vehiculação microbiana pelas águas. Ainda estudante, publicou artigos na revista “Brasil Médico”. No ano seguinte casou-se com Emília Fonseca, com quem teve 6 filhos, e foi trabalhar na Policlínica Geral. Em meados de 1896, foi estagiar no Instituto Pasteur, em Paris, tendo como orientador o Dr. Émile Roux, e na Alemanha. De volta ao Brasil, em 1899 enfrentou um surto de peste bubônica em Santos e noutras cidades portuárias. Junto com Vital Brasil, Adolfo Lutz, Emilio Ribas e Carlos Chagas concluiu-se que a epidemia não podia ser controlada sem um soro adequado. Diante da grave situação foi proposto ao Governo a criação de uma “fábrica” de soro. Assim, foi criado o “Instituto Soroterápico Federal”, em 1900, e 6 meses depois o “Instituto Butantan”, em São Paulo, dirigido por Vital Brasil. Oswaldo Cruz assumiu a direção do Soroterápico em 1902.

Neste ano foi empossado o presidente Rodrigues Alves, que encontrou o Rio de Janeiro na condição de uma das cidades mais sujas do mundo e infestada de doenças tropicais, como a varíola, febre amarela e peste bubônica. Naquela época não era a “cidade maravilhosa”. Era conhecida como o “túmulo dos imigrantes”. O Governo federal Implementou uma série de reformas urbanas e sanitárias, que mudaram a geografia da cidade e a vida da população. Para isso designou Pereira Passos, como prefeito do Distrito Federal e Oswaldo Cruz, que assumiu a Diretoria Geral de Saúde Pública, em 1903. Daí em diante deu-se uma “revolução” urbana no Rio de Janeiro, com a derrubada de morros na área central; construção de grandes avenidas e parques; demolição de sobrados antigos e cortiços etc.. No plano do saneamento a mudança também foi radical, com a lei de vacinação obrigatória, isolamento de doentes e as famosas “brigadas de matamosquiros”.

O saneamento urbano empurrou os pobres para os morros, consolidando as favelas, e para longe do centro, criando a baixada fluminense. Tal politica junto com a vacinação obrigatória deu na “Revolta da vacina”, triste capitulo da nossa História. Durante uma semana (10 a 16 de novembro de 1904), o Rio de Janeiro se viu diante de uma guerra, com bondes, virados, postes derrubados e prédios incendiados pela multidão rebelada. A oposição à vacina contava com apoio dos militares, que viram ali uma chance de derrubar o governo; de políticos oportunistas e da imprensa que massacrava Oswaldo Cruz através de artigos e chacotas em charges nos jornais. Ele suportou tudo sem retroceder, graças ao apoio do presidente Rodrigues Alves.

A rebelião foi contida e em 1906 foi registrado apenas 39 casos de febre amarela; 4 casos em 1907 e nenhum caso em 1908. Outras epidemias surgiram, como a varíola em 1907, mas a povo procurou os postos de vacinação e logo foi debelada. O Governo empreendeu uma expedição, sob seu comando, a 30 portos marítimos e fluviais em todo o País, afim de estabelecer um código sanitário. A luta contra as doenças tropicais foi reconhecida em nível mundial e ele recebeu a “Medalha de Ouro” no 14º Congresso Internacional de Higiene e Demografia, realizado em Berlim, em 1907. Além da implantação do “Código Sanitário”, ele reestruturou todos os órgãos de saúde e higiene do País. No ano seguinte já era reconhecido como herói nacional e o Instituto Soroterápico foi reinaugurado com modernas instalações e jovens pesquisadores e rebatizado com seu nome em 1909.

Em 1912 viajou pela região norte no combate de epidemias em Rondônia, Manaus e Belém. Junto com Carlos Chagas, trabalhou no saneamento do vale amazônico, No ano seguinte foi Indicado para a Academia Brasileira de Letras-ABL e foi recebido por Afrânio Peixoto, que discursou na posse: “Vós sois como os grandes poetas que não fazem versos; nem sempre estes têm poesia, e ela sobeja na vossa vida e na vossa obra.” Com a saúde precária, mudou-se para Petrópolis em busca de ares mais amenos, mas sem deixar a atividade científica. Em 1916, junto com os amigos cientistas, se empenhou na criação da Academia Brasileira de Ciências e no mesmo ano foi eleito prefeito. Traçou vasto plano de urbanização da cidade, que não pode ver concluído, pois cada vez mais doente, renunciou em janeiro de 1917.

Abatido por uma crise de insuficiência renal, faleceu em 11/2/1917, Seu legado foi reconhecido com homenagens ainda em vida, como o nome dado ao instituto que dirigiu; ao protozoário causador da “Doença de Chagas”: Trypanosoma cruzi, em 1909; e ao Centro Acadêmico da Faculdade de Medicina da USP, em 1913. Após a morte inúmeros logradouros, uma cidade e diversas instituições receberam seu nome. Sua vida foi retratada em diversas biografias, romances e filmes, como Sonhos tropicais, do medico e escritor Moacyr Scliar, e o documentário “Oswaldo Cruz: o médico do Brasil”, realizado por Silvio Tendler, em 2003. Entre as biografias, temos Oswald Cruz (1940), de Egídio Sales Guerra; Oswaldo Cruz: a construção de um mito na ciência brasileira, (1995), de Nara Britto; e o excelente Oswaldo Cruz – o médico do Brasil (2003), editado pela Fiocruz. Trata-se de amplo painel do “Projeto Memória” em homenagem ao cientista. Um “almanaque” ilustrado, fonte de pesquisa segura, completa e agradável, disponível gratuitamente na Internet clicando aqui, cujo resumo pode ser visto no vídeo abaixo.

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AS BRASILEIRAS: Lina Bo Bardi

Achillina Bo nasceu em Roma, em 5/12/1914. Arquiteta, designer, cenógrafa, editora, ilustradora e projetista do Museu de Arte de São Paulo-MASP. Ainda jovem estudou no Liceu Artístico e em 1940 formou-se na Faculdade de Arquitetura da Universidade de Roma. Veio para o Brasil em 1946, naturalizou-se em 1951 e se empenhou com afinco no projeto e construção de destacadas obras da arquitetura brasileira. “Eu não nasci aqui, escolhi esse lugar para viver. Por isso, o Brasil é meu país duas vezes, é minha pátria de escolha”, declarou.

Na faculdade recebeu orientação tradicionalista, privilegiando, segundo ela, uma “nostalgia estilístico-áulica”, ao gosto do fascismo. Discordando dessa tendência, mudou-se para Milão e foi trabalhar com Gió Ponti, líder do movimento de valorização do artesanato italiano, diretor das Trienais de Milão e da Revista “Domus”. Em seguida, passou a dirigir a revista e pouco depois fundou, junto com Bruno Zevi, o semanário “A Cultura dela Vita”. Filiou-se ao Partido Comunista Italiano; integrou a resistência à ocupação alemã durante a II Guerra Mundial e teve seu escritório bombardeado em 1943.

Em 1946 casou-se com o crítico e historiador da arte Pietro Maria Bardi. Ao organizar a “Exposição de pintura italiana moderna”, Bardi conheceu Assis Chateaubriand, que o convidou para fundar um museu de arte em São Paulo. O casal alugou um porão de navio, encheram de obras de arte e uma boa biblioteca e partem para o Brasil. Chegaram no Rio de Janeiro e ela ficou encantada com o lugar e as possibilidades oferecidas com a arquitetura que ali se desenvolvia com o jovem Lucio Costa e o moderno Edifício Gustavo Capanema. Por ela, o casal viveria no Rio, mas tiveram que mudar para São Paulo.

Em São Paulo foram morar no bairro do Morumbi, na “Casa de Vidro” (1951), que se tornou um marco da arquitetura moderna brasileira e mais tarde na sede do “Instituto Lina Bo e Pietro Maria Bardi”. Enquanto o MASP é burilado, fundou em 1948, junto com Giancarlo Palanti, o Studio d’Arte Palma, voltado à produção de móveis de madeira compensada e produtos do artesanato popular, utilizando o couro e o tecido “chita”. Sua inserção no meio intelectual e arquitetônico nacional se dá com a criação da revista “Habitat”, em 1950. O projeto do MASP foi impulsionado a partir de seu empenho pessoal no contato com pessoas poderosas para convence-las de sua competência em arquitetar o edifício. “Aproveitei uma viagem de Pietro… fui falar diretamente com (o governador) Adhemar de Barros e mostrei meu projeto”.

Iniciou o trabalho em 1957 e o prédio foi inaugurado em 1968. O resultado foi surpreendente e o arrojo da obra ganhou fama internacional. O museu manteve a praça-belvedere no piso térreo, suspendendo o edifício num vão de 70 metros. “Eu nunca quis fazer o maior vão-livre do mundo, mas a doação do terreno impunha como condição criar um belvedere com vista para a cidade”. Em 1958 foi convidada pelo governador Juracy Magalhães para dirigir o Museu de Arte Moderna da Bahia. Residindo em Salvador, projetou a restauração do “Solar do Unhão”, um conjunto arquitetônico do século XVI, tombado na década de 1940. Passou a conviver com os artistas de vanguarda: Pierre Verger, Glauber Rocha e o casal Jorge Amado/Zélia Gattai entre outros. Viajou pelo Nordeste e projetou a “Casa de Cultura” do Recife (1963), antiga casa de detenção. Mais tarde declarou: “importante na minha vida foi a Bahia, o Nordeste. Lá eu conheci a liberdade”.

Após o Golpe Militar de 1964, voltou a São Paulo e passou a incorporar a seus trabalhos certa influência nordestina, uma “simplificação da linguagem” ou “arquitetura pobre”, conforme se dizia. Exemplos dessa fase encontram-se na exposição “A Mão do Povo Brasileiro” (1969), o edifício do SESC Pompeia (1977), Teatro Oficina (1984). Em meados da década de 1980, voltou a Salvador para elaborar alguns projetos, como o plano de recuperação do centro histórico da cidade, projeto da “Casa do Benin”, no Pelourinho, e recuperação das encostas da Ladeira da Misericórdia.

Realizou o sonho de morrer trabalhando, em 20/3/1992, e não concluiu a reforma do “Palácio das Indústrias”, para abrigar a Prefeitura de São Paulo. Hoje todos os documentos, fotos, desenhos, maquetes, croquis, objetos, e filmes de projetos construídos e não construídos encontram-se no acervo do Instituto Lina Bo e P. M. Bardi e podem ser acessados pela Internet clicando aqui. Seu amigo Bruno Zevi definiu-a de forma concisa: “Lina foi uma herética em vestes aristocráticas, uma esfarrapada elegante, uma subversiva circulando em ambientes luxuosos”.

Ela também se definiu como arquiteta: “Eu tenho projetado algumas casas, mas só para pessoas que eu conheço. Tenho horror em projetar casas para madames, onde entra aquela conversa insípida em torno da discussão de como vai ser a piscina, as cortinas… Gostaria muito de fazer casas populares”. Existem alguns ensaios biográficos sobre a arquiteta e artista, com destaque para: Lina Bo Bardi: sutis substâncias da arquitetura (2006) e Lina Bo Bardi: obra construída/Built work (2014), ambos publicados por Olivia de Oliveira pela Editora Gustavo Gill, e o belo trabalho editorial organizado por Silvana Rubino e Marina Grinover – Lina por escrito: textos escolhidos de Lina Bo Bardi -, publicado pela Cosac Naify, em 2009.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Graciliano Ramos

Graciliano Ramos de Oliveira nasceu em Quebrangulo (AL), em 27/10/1892. Escritor, jornalista e tradutor. Aos 2 anos, a família mudou-se para Buíque (PE), onde realizou os primeiros estudos. Em 1904, muda-se para Viçosa (AL), continua os estudos e cria um jornalzinho “O Díluculo”, dedicado às crianças. Em seguida passa a redigir outro jornal “Echo Viçosense”. Depois a família mudou-se para Maceió e, em 1909, passou a colaborar no “Jornal de Alagoas” usando pseudônimos diferentes para poesia e prosa. Em 1910, mudou-se para Palmeira dos Índios (AL) e continua suas colaborações com o “Correio de Maceió” e a revista “O Malho”, do Rio de Janeiro.

Concluído o 2º grau, em 1914, mudou-se para o Rio de Janeiro, e passa a trabalhar como revisor nos jornais “Correio da Manhã”, “A Tarde” e “O Século”, enquanto mantém a colaboração com o “Jornal de Alagoas”. Em setembro de 1915, ocorreu uma epidemia de peste bubônica em Palmeira dos Índios e vitimou 3 de seus irmãos e um sobrinho. O fato fez com que voltasse àquela cidade, onde passou a viver como jornalista e comerciante junto com o pai. No mesmo ano casou-se com Maria Augusta de Barros, que veio a falecer 5 anos depois, deixando-lhe 4 filhos.

Passou a ficar conhecido na cidade; entrou para a Política; foi eleito prefeito em 1927 e exerceu o cargo até abril de 1930. Realizou uma grande reforma no ensino público e soltava os presos para construírem estradas. Tendo que prestar contas ao governador Álvaro Paes, enviou um “Resumo dos trabalhos realizados pela Prefeitura de Palmeira dos Índios em 1928”, que foi publicado pela Imprensa Oficial de Alagoas. O texto do relatório revela a verve do escritor ao abordar assuntos rotineiros. No ano seguinte, envia outro relatório com texto mais apurado. Os relatórios chamaram a atenção de Augusto Frederico Schmidt, editor carioca que o animou a publicar seu primeiro romance, Caetés (1933), um livro que vinha escrevendo desde 1925. Em seguida, renunciou ao cargo e passou a viver em Maceió, nomeado diretor da Imprensa Oficial. Aí encontrou mais tempo para se dedicar a literatura e também para namorar e casar com Heloisa Medeiros.

O “Mestre Graça”, como era conhecido, não era de “esquentar cadeira”. Logo após o casamento, pediu demissão e voltou a morar em Palmeira dos índios. Criou uma escola na sacristia da Igreja Matriz e iniciou os primeiros capítulos do segundo romance – São Bernardo -, publicado em 1934. Quando estava para sair o terceiro romance, foi preso em março de 1936, acusado de participar da “Intentona Comunista de 1935”. A prisão durou 10 meses e foi profícua em termos literários. Ali foram gestados o livro Angústia, seu romance mais profundo; o conto Baleia, que daria origem ao romance Vidas Secas, seu livro mais conhecido e sua obra autobiográfica Memórias do Cárcere, publicado postumamente em outubro de 1953. Trata-se do mais contundente relato das violências ocorridas nas prisões da ditadura Vargas.

Nelson Pereira dos Santos, que já havia filmado Vidas Secas em 1963, fez um levantamento de nada menos que 237 personagens, com os quais ele dividiu celas no navio-prisão “Manaus”, com destino ao Rio de Janeiro; na Colônia Correcional de Ilha Grande e na Casa de Detenção. O levantamento foi utilizado para a filmagem de Memórias do Cárcere, em 1984, uma das obras primas do cineasta. São 237 nomes de presos políticos e comuns retirados do anonimato. O livro chegou a causar problemas com a cúpula do Partido Comunista, cujo relato expunha alguns procedimentos não recomendados praticados pelo “partidão” e teve a interferência da família para manter a obra tal como foi escrita pelo autor.

Solto em 1937, passou a viver no Rio de Janeiro, publicou Vidas Secas (1938) e voltou ao magistério como inspetor federal de ensino. Trabalhou também como copidesque em alguns jornais do Rio de Janeiro. Em maio a “Revista Acadêmica” dedicou-lhe uma em edição especial (ano 3, nº 27) com 13 artigos. No mesmo ano recebeu o prêmio “Literatura Infantil”, do Ministério da Educação, com o livro A terra dos meninos pelados. Em 1940, entrou em contato com o Partido Comunista, através da revista “Diretrizes”, junto com Álvaro Moreira, Joel Silveira e José Lins do Rego. Em 1942, o romance Brandão entre o mar e o amor, escrito em parceria com Jorge Amado, José Lins do Rego, Aníbal Machado e Rachel de Queiroz, foi publicado pela Livraria Martins. No mesmo ano, reaparece o memorialista com o lançamento do livro Infância. Por essa época, Antônio Cândido publicou uma série de 5 artigos sobre sua obra no jornal “Diário de São Paulo”, obtendo uma resposta do autor. O material transformou-se no livro Ficção e confissão: ensaios sobre Graciliano Ramos.

Em 1951 foi eleito presidente da UBE-União Brasileira de Escritores e, no ano seguinte, junto com a esposa, empreende uma viagem pela Europa, que se estende até a Rússia. Tais viagens foram relatadas no livro de crônicas: Viagem, publicação póstuma da Ed. José Olympio em 1954. Em seguida viajou até Buenos Aires, onde foi submetido a um tratamento de pulmão. Foi operado, mas os médicos não ficaram otimistas com o resultado. O aniversário de 60 anos foi lembrado em sessão solene da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, onde foi representado por sua filha Clara Ramos. Em janeiro de 1953, foi hospitalizado e veio a falecer em 20 de março. Mestre Graça recebeu muitas homenagens e prêmios postumamente. Vale destacar: Prêmio da Fundação William Faulkner (EUA), tendo Vidas Secas, como livro representativo da literatura brasileira contemporânea (1962); Prêmios “Catholique International du Cinema” (Paris) e “Ciudad de Valladolid (Espanha), concedidos a Nelson Pereira dos Santos, pela adaptação do romance (1964); Personalidade Alagoana do Século XX (2000); Prêmio Nossa Gente, Nossas Letras (2003) e em 2013 foi escolhido pelo Governo Federal para O PNBE-Programa Nacional Biblioteca da Escola, com o livro Memórias do Cárcere.

Ainda em 2013, em comemoração os 120 anos de nascimento, a Editora Record publicou toda sua obra e um livro inédito: Garranchos, com mais de 80 textos produzidos entre 1910-1950. Ao mesmo tempo, a editora realizou, em São Paulo, Belo Horizonte e Recife, seminários sobre o autor. No ano seguinte, a mesma editora publicou o livro Conversas, com 45 entrevistas, enquetes, ”causos” e depoimentos do autor, permitindo uma visão de outro Graciliano Ramos, para além da imagem de um homem sisudo e avesso ao convívio social. No mesmo ano, foi o autor homenageado na FLIP-Festa Literária Internacional de Parati

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Catarina Paraguaçu

Catarina Álvares Paraguaçu nasceu na Bahia, supõe-se, em 1503. Indígena Tupinambá, esposa do português Diogo Álvares Correia, o ´´Caramuru´´ e primeira mulher a constituir família, em termos de civilização cristã ocidental, no Brasil. Confome certidão de batismo, realizado em 30/7/1528, na França, seu nome verdadeiro era “Guaibimpará“, segundo registro de Frei Santa Rita Durão em seu poema Caramuru. Neste sentido, exerceu papel fundamental na integração dos povos que formaram o povo brasileiro, constituindo-se no esteio e origem da família no País.

Ao naufragar na Bahia, Caramuru adquiriu proeminência entre os Tupinambás e recebeu-a como esposa oferecida pelo seu pai, o cacique Taparica. A história de sua vida é repleta de lendas, mas conta com documentos e um testamento existente até hoje no Mosteiro de São Bento da Bahia, no qual seus bens foram doados aos monges beneditinos e seus restos mortais encontram-se na Abadia de Nossa Senhora da Graça, em Salvador. Seu marido prosperou no negócio da troca de pau-brasil por utensilios de ferro com os navegantes, expandindo a aldeia com índios de outras tribos vizinhas.

Os negócios de Caramuru progridem ao ponto de permitir uma viagem do casal para conhecer a França, no navio comandado por Jacques Cartier (futuro descobridor do Canadá). Na cidade de Rouen, a esposa do comandante, Catherine des Granches, foi sua madrinha de batismo, cujo registro na certidão recebeu o nome de Cararina do Brasil. Pouco depois adotou o nome Catarina Paraguaçu, pelo qual ficou conhecida e famosa em sua terra. A viagen permitiu-lhe não apenas o conhecinebto de outra cultura tão diferenciada da sua. Aprendeu também a lidar com os conceitos de família e negocios dos ocidentais. De volta ao Brasil, bem estabelecidos, criam filhos e ela passa a ajudar o marido nos negócios da colônia.

Em 1536 surge o português Francisco Pereira Coutinho com uma carta do rei de Portugal designando-o senhor das terras ali existentes. Conta a história (ou lenda) que o cacique Taparica comandou sua expulsão de volta a Portugal. Mais tarde, em 1548, o rei Dom João III reconhece Caramuru como autoridade naquelas plagas e pede-lhe apoio na instalação do governo-geral. Assim, Tomé de Souza vem para cá já instruido de manter boas relações com a familia Caramuru. Os filhos homens são alçados a postos de comando na organização do governo e as filhas são encaminhadas por Catarina a se casarem com os portugues recém chegados, indicados pelo governador.

A familia Caramuru passa a ter certa importância no, digamos, métier social da colônia. Uma das filhas, casada com o português Afonso Rodrigues, ficou conhecida por deununciar práticas de violência contra os índios e propor a criação de uma escola para as crianças. Chegou a escrever uma carta dirigida ao Padre Manoel da Nóbrega, pedindo que as crianças indígenas escravizadas, “sem conhecerem Deus, sem falarem a nossa língua e reduzidas a esqueletos“, fossem tratadas com dignidade.

O padre ficou comovido com o pedido e intercedeu junto a Coroa pedindo permissão para a criação de escolas para crianças indígenas. Mas a rainha Catarina de Bragança indeferiu o pedido. Desse modo, entrou para a história, junto com a mãe, como precursora na defesa dos direitos humanos. Seu nome -Madalena Caramuru- foi lembrado séculos depois (em 2001), em homenagem prestada pelos Correios num selo de R$ 0,55.

Em 1557, com o falecimento de Caramuru, Catarina herdou não apenas a fortuna, mas o poder adquirido pela família desde os primórdios da organização do governo colonial. Com sua habilidade aprendida de seu povo Tupinambá e diplomacia aprendida com os europeus, passou a gerir os negócios da família, tiornando-se figura central na já afluente sociedade baiana. Sua atuação foi relevante no finanancimento de obras sociais e na fundação da Igreja da Graça. O casamento do neto de Catarina com o filho da família Garcia D’Avila resultou na construção da Casa do Castelo Garcia D’Avila, na Praia do Forte, considerado a primeira edificação portuguesa de arquitetura residencial militar no Brasil. Lá se encontra a Capela de São Pedro dos Rates, chamada hoje de Capela de Todos os Santos.

Catarina faleceu em 1583 e deixou um legado pouco reconhecido entre os brasileiros. Segundo Jorge Caldeira, em seu livro 101 brasileiros que fizeram história (2016), o reconhecimmento do “grande empreedimentio dessa mulher Tupinambá“ pelos historiadores, deve-se a méritos apenas ocidentais, desonhecendo sua origem indígena. E conclui seu verbete com uma denúncia: “Até que os modos de ser Tupinambá fossem estudados, apagou-se da história o papel essencial das mulheres nativas na construção de uma sociedade nova.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Gregório de Mattos

Gregório de Mattos e Guerra nasceu em 23/12/1636, em Salvador (BA). Advogado e poeta conhecido como “Boca do Inferno”, devido ao caráter satírico e sarcástico de seus poemas. É considerado um dos maiores poetas do barroco em Portugal e no Brasil. Foi criado numa família de proprietários rurais, donos de engenhos e funcionários da administração da colônia. Seus primeiros estudos se deram no Colégio dos Jesuítas, em Salvador (1642) e complementados em Lisboa (1650).

Entrou na Universidade de Coimbra em 1652, formando-se em Direito em 1661 e no mesmo ano casou com Michaela de Andrade. 2 anos após, foi nomeado Juiz de Fora de Alcácer do Sal, ao ser atestado como “puro sangue”. No período 1665-66 foi provedor da Santa Casa de Misericórdia, em Alentejo. Em 1668, representou a Bahia na Cortes de Lisboa, seguido do cargo de Procurador da Bahia. Em 1674 foi novamente representante da Bahia nas cortes. Em 1678 faleceu sua esposa, com a qual teve um filho.. Em 1679 retornou à Salvador e foi nomeado Desembargador da Relação Eclesiástica da Bahia, pelo arcebispo Gaspar Barata de Mendonça.

Em 1683, o Rei de Portugal, Dom Pedro II, nomeou-o tesoureiro-mor da Sé, logo após receber as Ordens Menores, tornando-se clérigo tonsurado. No Brasil já se sabia de sua reputação como poeta satírico e improvisador, adquirida em Portugal. No ano seguinte foi destituído dos cargos pelo novo arcebispo, frei João Madre de Deus, por não querer usar batina nem aceitar as imposições eclesiásticas. Por essa época surge o poeta satírico, cronista impiedoso dos costumes, ridicularizando as autoridades civis e religiosas. Satirizava todas as classes sociais chamando-as de “canalha infernal” e apelidando os nobres de “caramurus”. Sua poesia é corrosiva, erótica e até pornográfica, não obstante escrever, também, poemas líricos e até sagrados.

Em 1685, foi denunciado à Inquisição por seus hábitos e modos pouco cristãos. Mas a denúncia não prosperou. O que prosperou foi sua produção poética eivada de críticas e ironias contra os poderosos da colônia. Assim, as inimizades foram crescendo até atingir o governador Antonio Luis Gonçalves da Câmara Coutinho. Correndo o risco de ser assassinado, seus amigos conseguem uma condenação mais leve: a deportação para Angola, em 1694. Lá manteve um relacionamento amigável com o governo local, chegando a colaborar no combate a uma conspiração militar. Como recompensa, seu exílio durou apenas um ano, recebendo o benefício de retornar ao Brasil, porém longe de seus desafetos em Salvador. A partir de 1695 passou a residir no Recife, onde veio a falecer em 26/11/1696.

Em 1831, o historiador Francisco Adolfo de Varnhagen publicou 39 dos seus poemas na coletânea Florilégio da Poesia Brasileira. A obra restante foi publicada por Afrânio Peixoto de 1923 a 1933, em seis volumes a cargo da Academia Brasileira de Letras, reunidos nos códices existentes na Biblioteca Nacional e na Biblioteca Varnhagem, do Ministério das Relações Exteriores, exceto a parte pornográfica que aparecerá publicada, por fim, em 1968, por James Amado. Em 1972, Caetano Veloso gravou a música “Triste Bahia”, na qual as duas primeiras estrofes são extraídas de um soneto de Gregório de Mattos:

Triste Bahia, oh, quão dessemelhante
Estás e estou do nosso antigo estado
Pobre te vejo a ti, tu a mim empenhado
Rico te vejo eu, já tu a mim abundante

Triste Bahia, oh, quão dessemelhante
A ti tocou-te a máquina mercante
Quem tua larga barra tem entrado
A mim vem me trocando e tem trocado
Tanto negócio e tanto negociante

Em 1986, foi criada em Salvador a Fundação Gregório de Mattos, instituição municipal responsável pela administração de espaços culturais soteropolitanos, como o Museu da Cidade, a Casa do Benin, o Arquivo Histórico Municipal e o Espaço Cultural da Barroquinha.. Em 1990, a escritora Ana Miranda publicou o romance Boca do Inferno, pela editora Cia. das Letras, e ganhou o Prêmio Jabuti de Revelação no mesmo ano e a inclusão do livro na lista dos 100 melhores romances em língua portuguesa do século XX. Além da obra ter sido traduzida para diversos países, foi apontada como uma boa fonte de pesquisa para estudos sobre o Barroco no Brasil. Em 2002, Ana Carolina realizou o filme “Gregório de Mattos”, uma cinebiografia tendo Waly Salomão no papel principal, que pode ser visto na íntegra clicando aqui.

Finalmente, temos em 2014 sua obra completa publicada em 5 volumes pela Editora Autêntica. Trata-se de um conjunto de poemas coletados no Códice Asensio-Cunha que circularam em Salvador nas últimas décadas do século XVII e na primeira metade do século XVIII sob o nome “Gregório de Mattos e Guerra”, então a mais importante autoridade poética local.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Branca Dias

Branca Dias nasceu em Viana da Foz do Lima, Portugal, em 1515. Considerada uma das heroínas do Brasil colonial, foi pioneira em diversas áreas: primeira “Senhora de Engenho”, primeira mulher a manter uma “esnoga” (sinagoga clandestina) nas américas e primeira professora de meninas no Brasil. Não obstante sua existência no Brasil encontrar-se mesclada entre lenda e história, consta no Processo nº 5736 do Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Lisboa, que ela foi presa acusada de judaísmo e condenada a dois anos de prisão, em 12/9/1543.

Vivia com os 7 filhos e era casada com Diogo Fernandes, que se encontrava no Brasil cuidando da sesmaria que recebeu na Capitania de Pernambuco. Ao sair da prisão, embarcou para o Brasil encontrar-se com o marido, passando a viver numa região entre Camaragibe e Olinda. Com a morte do marido, em 1565, ela passou a comandar o engenho de açúcar, ampliando suas atividades. Criou uma escola para meninas, aconselhada por Bento Teixeira, autor da Prosopopeia; criou uma “esnoga”; reformou a “casa grande” de Camaragibe e construiu sua casa urbana na Rua dos Palhares, em Olinda, ainda hoje existentes. Certamente manteve contatos com Brites de Albuquerque, esposa de Duarte Coelho e “capitoa” de Pernambuco.

Os anos seguintes são carentes de dados precisos sobre sua vida, sendo preenchidos pelas lendas e histórias que chegaram ao século XX. Mas, fato é que passado mais de 50 anos, em fins do século XVI, na primeira visitação do Santo Ofício ao Brasil, a Inquisição voltou a investigar sua família. Conta-se, não sabemos se é lenda ou história, que ao saber que seria presa, de novo, e que teria seus bens confiscados, ela jogou toda sua prataria num afluente do Rio Camaragibe, hoje conhecido como Riacho da Prata. Os dados sobre esta prisão são difusos, mas consta que suas filhas e neta foram presas acusadas pela prática do judaísmo em Olinda. No processo nº 4580 (de 25/8/1595), do Tribunal do Santo Ofício, sua filha Beatriz Fernandes foi presa.

Em 31/1/1599 foi presa outra filha, Andresa, junto com a neta Brites de Souza. Ambas foram sentenciadas nos processos nº 4273 e 6321, tiveram seus bens confiscados e ficaram presas por 3 anos. Sua vida foi e tem sido tema de inspiração para romances, teatro e canções No teatro, a peça O Santo inquérito, de Dias Gomes (em 1966), recria sua história perseguida pela Inquisição, numa alegoria sobre a ditadura militar instalada no Brasil em 1964. Outra peça sobre seu martírio, apresentada no Recife foi Senhora de Engenho: entre a cruz e a torá, Na canção foi homenageada por Nana Caymmi e Fortuna Safdie com duas músicas, sucessos de público e crítica. No universo das histórias em quadrinhos, ela aparece como personagem na obra Assombrações do Recife antigo, da roteirista Roberta Cirne e na HQ A máscara da morte branca, do roteirista e filósofo Alexey Dodsworth.

Consta que deixou vasta descendência no Brasil, conforme decreto (nº 30-A) de Portugal, em 2015, que concede naturalização portuguesa aos judeus sefarditas. Em decorrência deste decreto, vários brasileiros foram reconhecidos como portugueses, após certificação da Comunidade Israelita de Lisboa de que descendiam de Branca Dias. Dentre alguns descendentes ilustres destacam-se os políticos João Felipe de Saboia Ribeiro, Ciro Gomes, o escritor Alexey Dodsworth e a cantora Marisa Monte.

Segundo o Instituto Morashá de Cultura (São Paulo) não se deve confundir esta Branca Dias com duas outras homônimas. Em princípios do século XVIII houve um personagem com este nome retratado no romance Branca Dias de Apipucos, publicado por Joana Maria de Freitas Gamboa, em 1879, e descrita como protagonista na Guerra dos Mascates, em 1710. Outra Branca Dias na Paraíba, também judia, em meados do século XIX, foi perseguida por um clérigo local e foi queimada pela Inquisição. O mesmo instituto diz que esta foi a Branca Dias retratada na peça de Dias Gomes e talvez seja a mesma que dá nome a uma Loja Maçônica em João Pessoa. Isto só faz aumentar o caráter lendário dessa história.

Mas há um consenso quando se fala em Branca Dias como sendo aquela portuguesa que viveu em Pernambuco de 1543 a 1589, quando faleceu em Olinda, segundo o Instituto Morashá. A Wikipedia assinala a data de seu falecimento em 1558, o que não parece razoável, pois em apenas 15 anos seria impossível realizar todos seus empreendimentos na capitania de Pernambuco.

Sua biografia foi esboçada em diversos textos, incluindo um livro psicografado em 1905 e publicado por José Joaquim de Abreu, intitulado Livro de Branca Dias. Em 2002 Miguel Real, pseudônimo de Luis Martins, publicou o romance histórico Memorias de Branca Dias, baseado em vasta documentação biográfica. Este livro foi reeditado em 2009 pela Editora Quidnovi. Outro livro bastante documentado foi publicado por José Joffily, pela Editora Pé Vermelho, de Londrina (PR), em 1993, intitulado Nos tempos de Branca Dias. É impressionante, e até paradoxal, que com tantas encenações em teatro, histórias em quadrinhos e vasta documentação, os cineastas brasileiros não tenham se interessado na filmografia dessa mulher. Isto é fruto do nosso descaso com a memória e a nossa história, que mesmo em Pernambuco não consta um busto, rua ou praça com seu nome. Existe em Duque de Caxias (RJ) uma avenida Branca Dias, mas certamente ninguém sabe de quem se trata.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Clóvis Beviláqua

Clóvis Beviláqua nasceu em Viçosa do Ceará, em 4/10/1859. Jurista, filósofo, escritor, crítico literário, jornalista, historiador e autor do projeto do Código Civil Brasileiro, que vigorou de 1916 a 2002. Filho do padre e político José Beviláqua e Martiniana Maria de Jesus, teve os primeiros estudos em sua cidade natal. Em seguida, estudou em Sobral e Fortaleza, onde concluiu os estudos no Liceu do Ceará.

Em 1876 mudou-se para o Rio de Janeiro, e passa estudar no Mosteiro de São Bento. Aos 17 anos, junto com Silva Jardim e Paula Ney, fundou o jornal “Laborum Literarium”, dando início a carreia literária. Dois anos após, mudou-se para o Recife e ingressa na Faculdade de Direito, passando a integrar a famosa “Escola do Recife”, seleto grupo de filósofos e intelectuais da época, destacada na filosofia do direito. Em 1882, ao receber o diploma de advogado, foi escolhido como orador da turma. Atuou com desenvoltura entre os filósofos positivistas ao lado de Tobias Barreto, Farias Brito, Capistrano de Abreu, Silvio Romero e Rocha Lima entre outros. Em 1889 passou num concurso público para lecionar Filosofia e pouco depois assumiu a cátedra de Legislação Comparada na Faculdade de Direito do Recife.

Em 1883 publicou A filosofia positivista no Brasil, onde manifesta sua adesão ao “monismo evolucionista”, uma corrente científica do positivismo contrária a tendência mística. Assim, torna-se partidário do “evolucionismo”, inspirado mais em Spencer e Haeckel do que em Auguste Comte, que prevalecia no sul do País. Por essa época colaborou com artigos publicados na “Revista de Estudos Livres”, dirigida por Teófilo Braga, divulgador do positivismo em Portugal. Casou-se, aos 25 anos (1884), com Amélia de Freitas e passou a colaborar com diversos jornais e revistas: “Revista Contemporânea”, “Revista Brasileira”, “Vigílias Literárias”, “A Ideia Nova”, “O Pão”, publicação do movimento literário “Padaria Espiritual”, do Ceará.

Com a proclamação da República, em 1889, foi eleito deputado da Assembleia Constituinte. Mudou-se para Fortaleza e participou na elaboração da Constituição do Ceará. Foi o único mandato político que exerceu não obstante os convites para a Câmara dos Deputados e para o Senado. Foi indicado para governador do Ceará, mas declinou do convite. Segundo Hermes Lima “A política não o seduziu. Não o seduziu a advocacia. Desde moço ocupa-se de questões gerais de filosofia, de sociologia, de direito e de literatura”. Em 1894 incursionou pela ficção mesclada com filosofia e publicou o livro Frases e fantasia.

Com esta incursão, foi convidado como sócio fundador da Academia Brasileira de Letras-ABL, em 1897. Sem abandonar a literatura, atuou em diversas áreas jurídicas e politicas: promotor público, membro da Assembleia Constituinte do Ceará e do Instituto Histórico e Geográfico, secretário de Estado (Piauí). Em 1899 foi convidado pelo Ministro da Justiça, Epitácio Pessoa, para redigir o projeto do Código Civil Brasileiro. No ano seguinte, mudou-se definitivamente para o Rio de Janeiro e concluiu o trabalho de próprio punho em 6 meses. Mas, o Congresso Nacional precisou de mais 15 anos para análises e emendas, sendo promulgado em 1916. Na tramitação, o projeto recebeu críticas de Rui Barbosa quanto a linguagem apresentada, mas foi rebatido pelo filólogo Carneiro Ribeiro.

Ente os mais de 30 livros publicado, esta foi a obra que deixou-o imortalizado no cenário jurídico nacional. Em 1906, o Barão do Rio Branco convidou-o para dar consultoria jurídico do Ministério das Relações Exteriores, cargo exercido por 28 anos. Convidado, em 1920, para integrar o Comitê dos Juristas no Conselho da Sociedade das Nações, não pode comparecer, mas enviou um projeto de organização da Corte de Justiça Internacional. Continuou publicando na área literária e no Direito, sobretudo os Comentários ao Código Civil, em 6 volumes. Além disso, deu uma substancial contribuição ao estudo do Direito da Família, das Obrigações e das Coisas. Conta, também, com uma sólida contribuição, principalmente em livros de Direito Civil e Legislação Comparada.

O jurista adorava animais e sua casa era repleta de gato, cachorro, aves, tartaruga etc., que viviam em harmonia com uma biblioteca de mais de 20 mil livros espalhados em todos os quartos. Era um “epicentro do saber jurídico” na cidade. Sua neta conta que às vezes alguém se dirigia à sua casa para pegar algum parecer e ele pedia para aguardar porque um gato estava dormindo sobre a pilha de papéis: “Vamos esperar o gatinho acordar”. Sua vida foi modesta e se manteve em relativo conforto devido a receita provinda dos diversos pareceres que elaborava para o público em geral. Em 1930, sua mulher também escritora, candidatou-se a uma vaga na ABL, mas foi recusada pelo fato de ser mulher. O casal ficou ressentido com o fato e ele nunca mais retornou à ABL.

Em 26/7/1944, sua filha encontrou-o caído em seu escritório sobre a mesa de trabalho cheia de folhas de papel com textos manuscritos e incompletos. Faleceu em plena atividade e deixou um legado precioso ao estudo e aplicação do Direito. Seu nome e estátua passou a constar em diversos logradouros públicos, particularmente nas praças de sua cidade natal, Fortaleza e São Paulo, onde se encontra o Palácio da Justiça, no centro da cidade, contigua a Praça da Sé.