JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

Achillina Bo nasceu em Roma, em 5/12/1914. Arquiteta, designer, cenógrafa, editora, ilustradora e projetista do Museu de Arte de São Paulo-MASP. Ainda jovem estudou no Liceu Artístico e em 1940 formou-se na Faculdade de Arquitetura da Universidade de Roma. Veio para o Brasil em 1946, naturalizou-se em 1951 e se empenhou com afinco no projeto e construção de destacadas obras da arquitetura brasileira. “Eu não nasci aqui, escolhi esse lugar para viver. Por isso, o Brasil é meu país duas vezes, é minha pátria de escolha”, declarou.

Na faculdade recebeu orientação tradicionalista, privilegiando, segundo ela, uma “nostalgia estilístico-áulica”, ao gosto do fascismo. Discordando dessa tendência, mudou-se para Milão e foi trabalhar com Gió Ponti, líder do movimento de valorização do artesanato italiano, diretor das Trienais de Milão e da Revista “Domus”. Em seguida, passou a dirigir a revista e pouco depois fundou, junto com Bruno Zevi, o semanário “A Cultura dela Vita”. Filiou-se ao Partido Comunista Italiano; integrou a resistência à ocupação alemã durante a II Guerra Mundial e teve seu escritório bombardeado em 1943.

Em 1946 casou-se com o crítico e historiador da arte Pietro Maria Bardi. Ao organizar a “Exposição de pintura italiana moderna”, Bardi conheceu Assis Chateaubriand, que o convidou para fundar um museu de arte em São Paulo. O casal alugou um porão de navio, encheram de obras de arte e uma boa biblioteca e partem para o Brasil. Chegaram no Rio de Janeiro e ela ficou encantada com o lugar e as possibilidades oferecidas com a arquitetura que ali se desenvolvia com o jovem Lucio Costa e o moderno Edifício Gustavo Capanema. Por ela, o casal viveria no Rio, mas tiveram que mudar para São Paulo.

Em São Paulo foram morar no bairro do Morumbi, na “Casa de Vidro” (1951), que se tornou um marco da arquitetura moderna brasileira e mais tarde na sede do “Instituto Lina Bo e Pietro Maria Bardi”. Enquanto o MASP é burilado, fundou em 1948, junto com Giancarlo Palanti, o Studio d’Arte Palma, voltado à produção de móveis de madeira compensada e produtos do artesanato popular, utilizando o couro e o tecido “chita”. Sua inserção no meio intelectual e arquitetônico nacional se dá com a criação da revista “Habitat”, em 1950. O projeto do MASP foi impulsionado a partir de seu empenho pessoal no contato com pessoas poderosas para convence-las de sua competência em arquitetar o edifício. “Aproveitei uma viagem de Pietro… fui falar diretamente com (o governador) Adhemar de Barros e mostrei meu projeto”.

Iniciou o trabalho em 1957 e o prédio foi inaugurado em 1968. O resultado foi surpreendente e o arrojo da obra ganhou fama internacional. O museu manteve a praça-belvedere no piso térreo, suspendendo o edifício num vão de 70 metros. “Eu nunca quis fazer o maior vão-livre do mundo, mas a doação do terreno impunha como condição criar um belvedere com vista para a cidade”. Em 1958 foi convidada pelo governador Juracy Magalhães para dirigir o Museu de Arte Moderna da Bahia. Residindo em Salvador, projetou a restauração do “Solar do Unhão”, um conjunto arquitetônico do século XVI, tombado na década de 1940. Passou a conviver com os artistas de vanguarda: Pierre Verger, Glauber Rocha e o casal Jorge Amado/Zélia Gattai entre outros. Viajou pelo Nordeste e projetou a “Casa de Cultura” do Recife (1963), antiga casa de detenção. Mais tarde declarou: “importante na minha vida foi a Bahia, o Nordeste. Lá eu conheci a liberdade”.

Após o Golpe Militar de 1964, voltou a São Paulo e passou a incorporar a seus trabalhos certa influência nordestina, uma “simplificação da linguagem” ou “arquitetura pobre”, conforme se dizia. Exemplos dessa fase encontram-se na exposição “A Mão do Povo Brasileiro” (1969), o edifício do SESC Pompeia (1977), Teatro Oficina (1984). Em meados da década de 1980, voltou a Salvador para elaborar alguns projetos, como o plano de recuperação do centro histórico da cidade, projeto da “Casa do Benin”, no Pelourinho, e recuperação das encostas da Ladeira da Misericórdia.

Realizou o sonho de morrer trabalhando, em 20/3/1992, e não concluiu a reforma do “Palácio das Indústrias”, para abrigar a Prefeitura de São Paulo. Hoje todos os documentos, fotos, desenhos, maquetes, croquis, objetos, e filmes de projetos construídos e não construídos encontram-se no acervo do Instituto Lina Bo e P. M. Bardi e podem ser acessados pela Internet clicando aqui. Seu amigo Bruno Zevi definiu-a de forma concisa: “Lina foi uma herética em vestes aristocráticas, uma esfarrapada elegante, uma subversiva circulando em ambientes luxuosos”.

Ela também se definiu como arquiteta: “Eu tenho projetado algumas casas, mas só para pessoas que eu conheço. Tenho horror em projetar casas para madames, onde entra aquela conversa insípida em torno da discussão de como vai ser a piscina, as cortinas… Gostaria muito de fazer casas populares”. Existem alguns ensaios biográficos sobre a arquiteta e artista, com destaque para: Lina Bo Bardi: sutis substâncias da arquitetura (2006) e Lina Bo Bardi: obra construída/Built work (2014), ambos publicados por Olivia de Oliveira pela Editora Gustavo Gill, e o belo trabalho editorial organizado por Silvana Rubino e Marina Grinover – Lina por escrito: textos escolhidos de Lina Bo Bardi -, publicado pela Cosac Naify, em 2009.

6 pensou em “AS BRASILEIRAS: Lina Bo Bardi

  1. São Paulo deve um dos seus mais expressivos pontos turístico a esta mulher e não vejo rua, praça ou um beco sequer com seu nome. Os paulistas são ingratos ou sem memória?

    • Não . Os políticos são, uns filhos da puta- não das,muito bem definidas pelo editor que dão e levam duro -, que dão nome de parentes a vias e complexo viários , reservando o nome de artistas brasileiros a vielas e becos sem esgoto e sem asfalto .

      • É verdade, Airton.
        Eu devia dizer os políticos paulistas, mas como não disse, peço desculpas à você e à todos os paulistas e paulistanos ~

  2. O “maior vão livre do mundo”, é uma praça no meio da Av. Paulista, uma das maiores do muno, que sustenta o MASP e sua projetista gostaria e vê-la como um lugar aberto ao público para ver arte, cinema, festa, e brincar com as crianças, . conforme disse no vídeo abaixo.

    Seu sonho foi realizado em parte, bem específica. Realmente ali pode-se ver muitas artes na “Feira de Antiguidade do MASP! aos domingos. Mas não é para todo os bolsos. O público mais modesto $$ frequenta as feiras de antiguidades de Pinheiros e do Bixiga. Mas, a grande praça do MASP tem sido palco de algumas manifestações politicas, artísticas, musicais… de vez em quando.

    Pode-se dizer que é um espaço extraordinário pouco utilizado. Não é o caso de estimular isso agora em tempos de isolamento pandemiológico..Quem sabe após a erradicação dessa moléstia, que Deus sendo brasileiro, nos ajude nessa mpreitada dolorosa.
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