OS BRASILEIROS: Graciliano Ramos

Graciliano Ramos de Oliveira nasceu em Quebrangulo (AL), em 27/10/1892. Escritor, jornalista e tradutor. Aos 2 anos, a família mudou-se para Buíque (PE), onde realizou os primeiros estudos. Em 1904, muda-se para Viçosa (AL), continua os estudos e cria um jornalzinho “O Díluculo”, dedicado às crianças. Em seguida passa a redigir outro jornal “Echo Viçosense”. Depois a família mudou-se para Maceió e, em 1909, passou a colaborar no “Jornal de Alagoas” usando pseudônimos diferentes para poesia e prosa. Em 1910, mudou-se para Palmeira dos Índios (AL) e continua suas colaborações com o “Correio de Maceió” e a revista “O Malho”, do Rio de Janeiro.

Concluído o 2º grau, em 1914, mudou-se para o Rio de Janeiro, e passa a trabalhar como revisor nos jornais “Correio da Manhã”, “A Tarde” e “O Século”, enquanto mantém a colaboração com o “Jornal de Alagoas”. Em setembro de 1915, ocorreu uma epidemia de peste bubônica em Palmeira dos Índios e vitimou 3 de seus irmãos e um sobrinho. O fato fez com que voltasse àquela cidade, onde passou a viver como jornalista e comerciante junto com o pai. No mesmo ano casou-se com Maria Augusta de Barros, que veio a falecer 5 anos depois, deixando-lhe 4 filhos.

Passou a ficar conhecido na cidade; entrou para a Política; foi eleito prefeito em 1927 e exerceu o cargo até abril de 1930. Realizou uma grande reforma no ensino público e soltava os presos para construírem estradas. Tendo que prestar contas ao governador Álvaro Paes, enviou um “Resumo dos trabalhos realizados pela Prefeitura de Palmeira dos Índios em 1928”, que foi publicado pela Imprensa Oficial de Alagoas. O texto do relatório revela a verve do escritor ao abordar assuntos rotineiros. No ano seguinte, envia outro relatório com texto mais apurado. Os relatórios chamaram a atenção de Augusto Frederico Schmidt, editor carioca que o animou a publicar seu primeiro romance, Caetés (1933), um livro que vinha escrevendo desde 1925. Em seguida, renunciou ao cargo e passou a viver em Maceió, nomeado diretor da Imprensa Oficial. Aí encontrou mais tempo para se dedicar a literatura e também para namorar e casar com Heloisa Medeiros.

O “Mestre Graça”, como era conhecido, não era de “esquentar cadeira”. Logo após o casamento, pediu demissão e voltou a morar em Palmeira dos índios. Criou uma escola na sacristia da Igreja Matriz e iniciou os primeiros capítulos do segundo romance – São Bernardo -, publicado em 1934. Quando estava para sair o terceiro romance, foi preso em março de 1936, acusado de participar da “Intentona Comunista de 1935”. A prisão durou 10 meses e foi profícua em termos literários. Ali foram gestados o livro Angústia, seu romance mais profundo; o conto Baleia, que daria origem ao romance Vidas Secas, seu livro mais conhecido e sua obra autobiográfica Memórias do Cárcere, publicado postumamente em outubro de 1953. Trata-se do mais contundente relato das violências ocorridas nas prisões da ditadura Vargas.

Nelson Pereira dos Santos, que já havia filmado Vidas Secas em 1963, fez um levantamento de nada menos que 237 personagens, com os quais ele dividiu celas no navio-prisão “Manaus”, com destino ao Rio de Janeiro; na Colônia Correcional de Ilha Grande e na Casa de Detenção. O levantamento foi utilizado para a filmagem de Memórias do Cárcere, em 1984, uma das obras primas do cineasta. São 237 nomes de presos políticos e comuns retirados do anonimato. O livro chegou a causar problemas com a cúpula do Partido Comunista, cujo relato expunha alguns procedimentos não recomendados praticados pelo “partidão” e teve a interferência da família para manter a obra tal como foi escrita pelo autor.

Solto em 1937, passou a viver no Rio de Janeiro, publicou Vidas Secas (1938) e voltou ao magistério como inspetor federal de ensino. Trabalhou também como copidesque em alguns jornais do Rio de Janeiro. Em maio a “Revista Acadêmica” dedicou-lhe uma em edição especial (ano 3, nº 27) com 13 artigos. No mesmo ano recebeu o prêmio “Literatura Infantil”, do Ministério da Educação, com o livro A terra dos meninos pelados. Em 1940, entrou em contato com o Partido Comunista, através da revista “Diretrizes”, junto com Álvaro Moreira, Joel Silveira e José Lins do Rego. Em 1942, o romance Brandão entre o mar e o amor, escrito em parceria com Jorge Amado, José Lins do Rego, Aníbal Machado e Rachel de Queiroz, foi publicado pela Livraria Martins. No mesmo ano, reaparece o memorialista com o lançamento do livro Infância. Por essa época, Antônio Cândido publicou uma série de 5 artigos sobre sua obra no jornal “Diário de São Paulo”, obtendo uma resposta do autor. O material transformou-se no livro Ficção e confissão: ensaios sobre Graciliano Ramos.

Em 1951 foi eleito presidente da UBE-União Brasileira de Escritores e, no ano seguinte, junto com a esposa, empreende uma viagem pela Europa, que se estende até a Rússia. Tais viagens foram relatadas no livro de crônicas: Viagem, publicação póstuma da Ed. José Olympio em 1954. Em seguida viajou até Buenos Aires, onde foi submetido a um tratamento de pulmão. Foi operado, mas os médicos não ficaram otimistas com o resultado. O aniversário de 60 anos foi lembrado em sessão solene da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, onde foi representado por sua filha Clara Ramos. Em janeiro de 1953, foi hospitalizado e veio a falecer em 20 de março. Mestre Graça recebeu muitas homenagens e prêmios postumamente. Vale destacar: Prêmio da Fundação William Faulkner (EUA), tendo Vidas Secas, como livro representativo da literatura brasileira contemporânea (1962); Prêmios “Catholique International du Cinema” (Paris) e “Ciudad de Valladolid (Espanha), concedidos a Nelson Pereira dos Santos, pela adaptação do romance (1964); Personalidade Alagoana do Século XX (2000); Prêmio Nossa Gente, Nossas Letras (2003) e em 2013 foi escolhido pelo Governo Federal para O PNBE-Programa Nacional Biblioteca da Escola, com o livro Memórias do Cárcere.

Ainda em 2013, em comemoração os 120 anos de nascimento, a Editora Record publicou toda sua obra e um livro inédito: Garranchos, com mais de 80 textos produzidos entre 1910-1950. Ao mesmo tempo, a editora realizou, em São Paulo, Belo Horizonte e Recife, seminários sobre o autor. No ano seguinte, a mesma editora publicou o livro Conversas, com 45 entrevistas, enquetes, ”causos” e depoimentos do autor, permitindo uma visão de outro Graciliano Ramos, para além da imagem de um homem sisudo e avesso ao convívio social. No mesmo ano, foi o autor homenageado na FLIP-Festa Literária Internacional de Parati

11 pensou em “OS BRASILEIROS: Graciliano Ramos

  1. Mestre “Graça” é o autor mais representativo da nossa Literatura. Fico grato ao colunista por me proporcionar esta bela lembrança neste triste domingo coronoviário

  2. Caro Brito:

    Onde estiver, nesse universo de Carl Sagan, o cientista americano que popularizou a física, Graciliano Ramos está fazendo festa com as estrelas, comemorando essa belíssima homenagem que o nobre colunista o fez nesse belo domingo silencioso.

    Palmeira dos Índios deveria ter feito um estátua maior do que a dos Cristo Redentor homenageando esse jornalista, escritor, romancista, cronista, memorialista, militante comunista, e autor de um dos mais belo romance da Literatura Brasileira: VIDAS SECAS, um painel sem retoque da seca nordestina.

    Valeu, grande memorialista pela belíssima homenagem!

    Aprendi mais sobre esse gênio do regionalismo brasileiro!

    • Caro Cícero

      Uma estátua com a estatura de Graciliano em Palmeira dos Índios. Boa ideia. Vou sugerir ao seu neto Ricardo Ramos Filho, meu amigo aqui em São Paulo (3º geração dos Ramos na presidência da UBE-União Brasileira dos Escritores, onde sou bibliotecário, para providenciar a empreitada junto.ao prefeito daquela cidade

  3. Naqueles velhos tempos que o cão era menino estudei dois anos na cidade de Palmeira dos Índios(AL), quando cursei o 1 e 2º ano científico. Já na década de 90, certa vez cheguei na Praça do centro da cidade por nome de Independência e perguntei a um cidadão ali presente em que local ficava a casa/museu de Graciliano Ramos e a resposta que recebi foi: Nunca vi falar nessa casa nem muito menos nesse nome…

    • Pois é meu Caro Pinheiro

      Tiveste a triste constatação o quanto valorizamos nossa história, nossas pessoas, nossa riqueza, valores, exemplos….etc. e bota etc. nisto

  4. E triste! Muito triste mesmo essa constatação, Mestre Altamir Pinheiro!

    Se o Mestre Graciliano Ramos tivesse comigo a mulher do vice prefeito que por sua vez estivesse sendo comida pelo padre da paroquia local, a cidade inteira e o interior sabiam!

    Triste Brasil que as coisas boas são jogadas para debaixo do tapete!

  5. Bravos caríssimo mestre Brito.
    Tomei conhecimento da biografia do famoso escritor, do qual
    sabia somente ser o autor de duas grandes obras brasileiras, Memórias do cárcere e o dramático relato de VIDAS SECAS, Ambas estorias foram filmadas
    de modo bem honestos, ressaltando que o filme VIDAS SECAS fez grande sucesso quando exibido no festival de Canes na França, tendo os jurados
    exigidos a presença da cadela BALEIA, para confirmar que ela não tinha sido
    sacrificada durante as filmagens, devido a cruesa e realismo da cena em
    que ela participa. O filme vidas secas fez tanto sucesso no festival, como também o fez o filme O CANGACEIRO , também exibido em CANNES,.

    É importante ressaltar um FATO RARO, bem demonstrado na sua ótima
    cronica, o fato é QUE PELA PRIMEIRA VEZ, TOMO CONHECIMENTO DE
    UM PERSONAGEM, CULTO, INTELIGENTE, TRABALHADOR, que simplesmente foi UM IDEALISTA COMUNISTA.
    Fato raríssimo associar um idealista comunista com inteligência,
    e caráter, haja vista que em seus escritos ele não faz apologia da
    burrice, estupidez, ignorância e outras “virtudes ” esquerdistas,
    apenas expõe os seus ideais de maneira culta, honesta e
    que aceitamos sem contestar, pois é e sempre foi um direito de
    qualquer cidadão expor os seus pensamentos politicos, de esquerda
    ou de direita.

    Parabéns professor pelo belo texto.

    Seu aluno. d.matt

    • CAro Matt

      Você, como sempre, vem enquecendo meus relatos biográficos concisos. É como eu digo, leitor qualificado enobrece a coluna.
      Quanto ao comunismo de Graciliano, vale lembrar que essa ideologia naquela época não é a mesma de agora. Além dele havia outros bons escritores comunistas. Rachel de Queiroz, por exemplo, foi expulsa do PCB por ser mais radcal, era trotskista.

  6. Quem vai aplaudi-lo sou eu, D.Matt., pela belíssima análise graciliana. Completou do mestre Brito.

    É raríssimo encontrar nesse mundo de meus Deus um esquerdista inteligente que pensa com a Razão feito o romancista Graciliano Ramos. O que temos são esquerdopatas oportunistas e felos da puta como o chefe da ORCRIN petralha que arruinou o país!

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