CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

ÀS OITO DA MANHÃ

George foi convidado para trabalhar como Chefe de Gabinete de amigo eleito deputado federal em 1950. Viajou de malas e bagagens com esposa e as filhas, Karina 16 anos e Karla 14. Ele alugou um apartamento em Copacabana perto da residência do deputado. A família ficou encantada com o Rio de Janeiro, a capital do Brasil. As filhas logo ganharam amigas e amigos, gente bonita de Copacabana, o bairro de melhor qualidade de vida do país. O deputado foi reeleito mais três vezes. George e família se acostumaram na Cidade Maravilhosa. A esposa e as filhas, ao completarem 18 anos, ganharam emprego efetivo na Câmara de Deputados, com direito a frequentar faculdade e a vida social intensa, principalmente a noturna. Em plena época da bossa nova e no cinema novo, o Rio era a capital cultural do país. Poetas, artistas, escritores, atores, sonhavam morar no Rio, mostrar e viver de sua arte. As filhas de George e as do deputado frequentavam altas rodas.

Certa vez, um diplomata apaixonou-se por Karina na Boate Vogue, um templo da boemia do Rio que se incendiou, uma tragédia para a vida noturna da cidade. Pouco tempo depois, Vicente, o diplomata, casou-se com Karina, foram trabalhar em Roma. Karina morou dois anos na cidade eterna, vivia viajando com as amigas, conhecendo cidades da Europa. Até que num retorno de viagem encontrou seu lindo diplomata com um pareia em sua cama. Foi um trauma. Vicente tentou convencê-la que o relacionamento era só sexo, ele era bissexual, muitos casais modernos aceitavam aquela maneira de viver. Mas a alagoana não aceitou, deu-lhe maior desprezo e retornou ao Rio onde reassumiu seu bom emprego, comprou um apartamento em Ipanema e continuou fazendo o que mais gostava: a boemia; adorava as noitadas cariocas.

Karina estava há três anos sem ver sua terra, deu-lhe saudades. Nas férias de verão tomou um avião, pousou em Maceió e hospedou-se na casa do Tio Aderbal, construída em frente à praia de Ponta Verde. Fizeram uma festa em sua chegada. Karina encantou-se com a nova urbanização da cidade e com o jovem primo Aderbalzinho, bonito aos 17 anos, corpo de atleta, jogava voleibol no CRB. A prima tomou-o como acompanhante nos passeios na Lagoa Mundaú, Bica da Pedra, Catolé, nas praias, sempre havia uma programação. Aonde Karina chegava os homens ficavam fascinados pela carioca, moderna, usando biquíni, Ela fustigava fantasias na mente masculina. Altamente paquerada, recebeu muitas cantadas. Entretanto, o melhor programa era o mergulho na praia de Ponta Verde, água morna, um azul-esverdeado. Ao chegar à praia estendia a toalha, abria a sombrinha, deitava-se queimando a pele. Aderbalzinho jogava futebol com os amigos encantados com aquela figura feminina, depois se deliciavam homenageando o Deus Onã.

Na casa do Tio Aderbal havia sempre hóspedes no mês de janeiro, os quartos eram improvisados, Dona Milu tinha maior prazer em receber os parentes na casa nova da Ponta Verde. A hora do jantar era uma festa. Karina sempre ao lado dos primos se divertindo.

Certa noite Aderbalzinho acordou-se com vontade de fazer xixi, de pijama foi ao banheiro, atravessou o primeiro quarto onde jovens dormiam em colchões, ao atravessar o segundo quarto, tomou um susto, Karina deitada de bruços, apenas de calcinha preta. Ele diminuiu os passos apreciando a maravilha, foi ao banheiro, retornou mais devagar, deu vontade de cair sobre o corpo perfeito, iluminado pela fresta da janela. Foi difícil dormir.

Pela manhã, na hora do café, Karina cochichou no ouvido de Aderbalzinho: ela tinha visto o primo à noite, quando passou para o banheiro lhe olhando, lhe tarando. Ele ficou vermelho com a história. Naquele momento Karina convidou-o para um mergulho, adorava o mar logo cedo, a água morna. Desceram os dois à praia, correram e mergulharam, brincaram de jogar água um no outro. Karina se aproximou do primo, abraçou-o, passou a mão por baixo, ele já estava excitado. Ato contínuo, ela tirou o biquíni, colocou no ombro. Fizeram amor dentro d’água tendo apenas como testemunhas alguns peixinhos nadando entre o casal. Raras pessoas andavam pela praia àquela hora. No dia seguinte repetiram, Aderbalzinho levou uma boia para facilitar. Até o final das férias, Karina e o priminho não perderam uma manhã de amor nas águas tranquilas da praia de Ponta Verde.

Muitos anos se passaram. Hoje Aderbalzinho, oitentão, mora num edifício construído onde foi sua casa. Ele não se lembra do nome de sua primeira namorada, nem do primeiro beijo. Entretanto, nunca esqueceu os banhos de mar alucinantes com a priminha às oito da manhã.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

AS ESPANHOLAS DO ÚLTIMO VERÃO

Pietra e Letícia moram na bela cidade de Segóvia na Espanha, onde o inverno é rigorosíssimo, neva durante três meses. Amigas desde a infância, elas alimentavam o sonho de passar férias onde tivesse mar e sol tropical. Agora, quarentonas e divorciadas resolveram realizar o sonho, viajar ao Brasil. Pesquisaram sobre o país, a alegria de viver, noites tropicais e homens cativantes.

Compraram passagem de avião de Madri ao Rio de Janeiro, onde passaram três dias em excursões conhecendo os principais pontos turísticos da Cidade Maravilhosa. No quarto dia embarcaram num cruzeiro marítimo para o Nordeste Brasileiro, cheio de belas praias, no luxuoso transatlântico G Mistral. Desembarcaram na primeira cidade, Salvador, onde o guia levou-as ao candomblé, negros e mulatos dançando, o encantamento da religiosidade dentro de um pacote de turismo, entretanto, nada aconteceu em termos paqueras, até que tentaram. Ao sair de Salvador o navio fez escala em Maceió. Após o café da manhã as espanholas assistiram do tombadilho o atraque do navio, ficaram fascinadas com o azul do céu nunca visto, nem em sonho.

A luminosa manhã alegrou seus corações. Apreciaram, ao longe, o casario da orla da cidade. Ao desembarcarem no cais, uma Banda de Pífano, mulheres rendeiras e um grupo folclórico de Guerreiros fizeram a recepção. Quando tocou o frevo Vassourinhas, elas se assanharam num carnaval improvisado com outros turistas. Resolveram caminhar pelos arredores procurando praias, até que descortinou, Pajuçara, cenário jamais visto pelas espanholas, o mar azul turquesa com matizes verdes, uma linha de coqueiros verdes viçosos, pareciam sentinelas. Desceram à praia, areia alva, andaram descalças à beira-mar, a marola fazia carinho. De repente foram abordadas por um jovem moreno, alto, com foto na mão, oferecendo passeio de jangada às piscinas naturais bem perto, mar adentro. Acertaram o preço. Zé Hilton, o jangadeiro, gentilmente ajudou-as na subida da jangada. As duas estavam felizes com aquele momento inusitado. De biquíni, sentada à beira da jangada, Pietra colocou a mão dentro d’água e sentiu o massagear da correnteza da água. Letícia, do outro lado, encantava-se com o corpo seminu do jangadeiro. Zé Hilton, moreno, alto, bermuda rota ao joelho, sem camisa, dava rumo à vela. Tinha os músculos bem talhados do tempo que era pescador com seu pai. Agora ganhava mais com turista, de onde tirava seu sustento.

Ele navegou cerca de 300 metros, jogou a âncora, maré seca, a água batia abaixo do peito. Zé Hilton ajudou às espanholas a descerem da jangada. Na vez de Letícia houve um movimento da maré, seus corpos se juntaram. Deu um frio na espinha da espanhola. Mergulhando na piscina natural, ela ainda sentia a virilidade daquele moreno, deu-lhe um arrepio no corpo. As duas turistas conversavam, elas aproximaram da jangada, com um espanhol arrastado, conseguiriam se entender. Queriam ficar mais afastadas dos turistas. Zé Hilton em 10 minutos de velejo ancorou a jangada em um local distanciado, como se fosse um pedaço de paraíso particular. As espanholas surpreenderam, tiraram o biquíni, ficaram nuas, mergulharam. O jangadeiro estava fascinado com a beleza das gringas, também mergulhou. Elas se aproximaram do jangadeiro, Letícia puxou-o com as mãos e beijou-lhe na boca. O resto da tarde foi dedicada ao amor à três, tendo apenas o Sol, o Céu, o Sal como testemunha.

Eram dezesseis horas quando a jangada retornou à praia. As espanholas pagaram o preço acertado, incluindo tira-gosto e bebidinhas. O navio partiria para o Recife às vinte e uma horas. Depois do jantar, sentadas no convés conversando sobre a maravilhosa aventura nas águas salgadas e cristalinas entre as pedras, Letícia teve a ideia, e imediatamente correram ao camarote, arrumaram as malas, avisaram ao comandante, assinaram um termo de responsabilidade desistindo do resto da viagem, desembarcaram à noite, hospedaram-se numa pousada, onde ficaram mais 17 dias, só retornaram à Segóvia quando o surto de Pandemia chegou à Maceió. Zé Hilton está sem trabalho, mas não consegue esquecer as espanholas do último verão.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

RÁS GONGUILA

A história oficial conta a vida dos políticos, artistas, comerciantes, industriais e intelectuais que fazem a história de uma cidade. As figuras mais simples, os descamisados, os trabalhadores humildes, os boêmios, os desempregados, que têm igual importância na vida cultural, econômica e política da cidade, são anônimos coadjuvantes na história, quando aparecem.

No século passado, um negrão forte, alto, tornou-se uma figura importante e inesquecível, mas, não tem seu nome registrado na história oficial. Rás Gonguila era seu nome. Ele dizia ser príncipe africano, descendentes de Reis e Rainhas da Etiópia, seus antepassados foram trazidos escravos para o Brasil. Gonguila tinha maior orgulho de seus ancestrais, fazia questão de seu título nobiliárquico africano, Rás, príncipe etíope.

O Negão era bom engraxate e tinha um ponto na Rua do Comércio. Era cheio de cliente: funcionários, poetas, amigos; ficavam esperando sua vez, conversando potocas. A cadeira de graxa do Negão tornou-se ponto de encontro.

Gonguila tinha alma alegre, divertido, carnavalesco, criou e comandou o “Bloco Cavaleiros dos Montes”. Todo ano desfilava a frente do bloco arrastando multidão com uma orquestra tocando frevos e marchas vibrantes. A moçada caía no passo. Naquela época um bloco de carnaval nivelava a sociedade, pulavam e dançavam juntos: pedreiros, engenheiros, médicas, enfermeiras, desempregados, filhinhos de papai, puta, soldados, todo tipo de gente.

O Negão morava na Ponta Grossa, líder nato, respeitado. Na época não havia associação de moradores, nem interesse escuso por parte desses homens abnegados, eles queriam apenas a sobrevivência de sua comunidade.

Uma eleição, Theobaldo Barbosa, assessor de Arnon de Mello, falou com o chefe, candidato a governador, que havia feito contato com um cabo eleitoral, a maior liderança do bairro da Ponta Grossa e Vergel do Lago. Arnon pediu para visitá-lo. O encontro foi marcado para 20 h. de uma sexta-feira num galpão. Na noite marcada lotou de gente. Havia mais de 600 pessoas.

Arnon, Theobaldo, Zé Barbosa, desceram do carro ao lado do mal iluminado galpão, onde a turma estava esperando. Arnon admirou a estatura avantajada do líder, vestido de branco, negro de lábios grossos e nariz chato, Na hora Arnon esqueceu seu nome e perguntou em voz baixa para Theobaldo, o nome do Negão. Gonguila aproximava-se dos políticos, Theobaldo cochichou no ouvido de Arnon: o nome é Gonguila!

O Negão estendeu a mão a Arnon, dando “Boa Noite”. Arnon ofereceu sua mão respondendo: “Boa Noite, Seu GORILA”. Ao ouvir o nome GORILA, Gonguila ficou puto da vida, retrucou quase gritando: “ARNON, GORILA É O CARALHO! MEU NOME É GONGUILA, RÁS GONGUILA!” Apesar das caras amarradas, alguém soltou uma salvadora gargalhada, que quebrou o gelo. Arnon desculpou-se várias vezes, deu um abraço no Negão, conversou com os catadores de sururu, e catou os votos. Teve excelente votação no Vergel e Ponta Grossa, redutos do seu inimigo, o governador Silvestre Péricles, de quem ganhou a eleição.

Candidatos a vereador, prefeito, deputado, até presidente, disputavam o apoio do líder. Na campanha de presidente houve um comício na Ponta Grossa pró Getúlio Vargas perto do cine Lux. O comício foi organizado em cima de um caminhão, o som era um enorme microfone. Vários oradores, brilhantes políticos compareceram para discursar. Alguns candidatos a deputado buscavam os votos daquele populoso bairro. Em certo momento anunciaram o líder comunitário da Ponta Grossa, Rás Gonguila, entregaram o microfone ao Negão. Ele não se fez de rogado, arrochou a voz:

– “Amigos da Ponta Grossa, O Doutor Getúlio sempre foi um homem que trabalhou para o povo e para os trabalhadores do Brasil. Getúlio é o maior brasileiro vivo, e merece nosso voto…”

Um cachaceiro, colega de copo de Gonguila, assistia o comício embaixo do caminhão. Impressionado com tantos elogios ao Dr. Getúlio, do chão, ele gritou debochado, com voz de bêbado:

– Dá o cu a ele, Gonguila!!!!!!

Gonguila parou sua fala, olhou para baixo, apontou para o amigo e gritou no microfone:

– Como o seu, e o dele!!!!

O animador puxou o microfone de Gonguila, continuou o comício:

– Depois das brilhantes palavras de nosso Rás Gonguila, vamos ouvir agora o deputado Ari Pitombo!

Assim era o Negão: não tinha papa na língua, nem se intimidava com figurões. Apesar de analfabeto, preto, pobre, impunha respeito por sua liderança, honestidade, e amor à cidade, era organizador de festas populares. Os nomes dos figurões daquela época estão nas placas de ruas, colégios, praças. O nome de Gonguila ficou apenas na lembrança e nos corações dos seus amigos.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

ANJAS

Dioclécio era conhecido como unha de fome, idolatrava dinheiro, diariamente contabilizava suas aplicações na bolsa. Certa noite ele sentiu-se mal, suava frio, chamou o filho. Foi levado desfalecido à emergência do Hospital, diagnosticaram um enfarto e providenciaram operação de urgência. O caso de Dioclécio foi grave. Ficou em coma induzida pós-operatório durante uma semana.

Durante o coma teve sonhos constantes, repetidos, que ficaram gravados no inconsciente: eram dois enormes pássaros brancos revoando em círculo por sobre ele, em certo momento se transformavam em duas mulheres aladas, seminuas, com véus soltos envolvendo um corpo sensual. Voavam e se encostavam ao doente provocando agradável excitação. As visitas percebiam os efeitos desse sonho erótico sob o lençol do comatoso.

Dioclécio teve alta com rigorosa dieta, menos trabalho e evitar preocupação. Ele não abriu mão de visitar sua fazenda predileta em Penedo, à margem do Velho Chico. Era o prazer de sua vida.

Mês passado ele foi a Penedo dirigindo sozinho seu belo carro. Ao passar pela ponte por cima das águas verdes e cristalinas da Lagoa Mundaú, percebeu que duas jovens, uma morena, outra alourada, vestidas com shorts jeans, mochilas nas costas, pediam carona.

Ficou admirado com ele próprio quando freou o carro. As moças foram se chegando e perguntaram para onde ele ia e se podia dar carona.

– “Para Penedo, e vocês? Por acaso são assaltantes?”

As meninas entrando no carro sorriram:

– “E o senhor, por acaso é estuprador? Estamos também indo para Penedo!”

Dioclécio teve uma empatia instantânea com as jovens. Sorria e divertia-se com as conversas.

Na estrada de repente, um susto: um caminhão desgovernado vindo em sentido contrário passou rente ao carro, depois de atravessar o acostamento capotou em uma barreira. Ele parou o carro, respirou fundo, pelo susto, quase que o caminhão bate na frente. Foi socorrer o motorista. Não precisou, ele saiu da cabine, ileso, com um forte cheiro de cachaça. O cara estava bêbado.

Dioclécio prosseguiu a viajem, de repente encarou as jovens pelo espelho retrovisor. Elas comentaram, se ele não tivesse parado naquele momento da carona o carro teria sido esmagado pelo caminhão. As jovens salvaram Dioclécio de um grave acidente que iria acontecer.

Walquíria e Gabriela eram divertidas cantavam e contavam histórias. Na praia do Miaí, Deoclécio tirou o carro do asfalto, entrou na extensa praia de areia dura que serviu de estrada até a entrada para Penedo.

-“É a estrada mais bonita do mundo”, dizia. “De num lado um exuberante verde coqueiral e do outro o mar azul-esverdeado.” Nesse dia o céu estava limpo, azul. Parou para tirar fotos em um navio afundado à beira-mar. Elas pediram a um jangadeiro para fotografá-los imitando os personagens do filme Titanic. Dioclécio em pé na proa entre as duas jovens como recheio de um sanduíche, os três de braços abertos encostavam-se. Ele ficou excitado e veio-lhe a imagem do seu sonho no coma: os pássaros brancos.

Hospedaram-se no Hotel S. Francisco. Marcaram encontro à noite, foram jantar na Rocheira. Comeram jacaré, tomaram cerveja e uma boa cachacinha apreciando a bucólica paisagem noturna do Velho Chico refletindo as luzes da barroca, bela e velha Penedo.

No final da noitada retornaram hotel, andando e cantando pelas ruas estreitas da cidade. Ao chegar, dormiram no mesmo apartamento, fizeram amor, se amaram, amor a três, “ménage a trois”. Nos mais intensos momentos de prazer afloravam-lhe as imagens do sonho: duas mulheres aladas e nuas. Dormiu feliz entre as jovens e sonhou com os pássaros alados.

Ao acordar, as moças não estavam na cama. Na portaria lhe informaram que elas seguiram sem destino. Deixaram um bilhete: “Querido, cuide-se, ame a vida que é o maior bem de um ser humano. Beijos Walkíria e Gabriela.”

Dioclécio era um descrente das coisas do além. Hoje é convicto que aquelas jovens, eram anjos, walquírias nômades, andarilhas. Não foi por acaso que a carona aos anjos evitou sua morte embaixo do caminhão desgovernado.

Hoje Dioclécio olha o mundo com outra escala de valores. Deixou de ser unha de fome, ajuda aos menos favorecidos. Tornou-se um ser humano generoso.

Recentemente recebeu, via correio, um envelope pardo sem nome do remetente, selo carimbado de Campina Grande. Continha uma fotografia tirada no navio.

Dioclécio de braços abertos, sozinho, as duas jovens não aparecem na foto. Deu-lhe um arrepio no corpo, emocionou-se e chorou.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

O DEDO DURO

Bar do Chope, no fundo a Igreja do Livramento

O fato se deu no auge do regime militar quando acontecia a Guerra do Araguaia no campo e a Guerra Urbana na cidade. Alguns radicais resolveram pegar em armas para derrubar a ditadura militar e implantar a ditadura do proletariado. O Brasil vivia um clima de receio do chamado “dedo duro”, apelido dado a quem delatava os supostos inimigos do regime.

Nessa época apareceu no Bar do Chope, ponto boêmio de Maceió, Eleutério Villa Velha. Ninguém sabia sua procedência e nem certeza que era coronel. No início da tarde, ele chegava puxando de uma perna, com um jornal embaixo do braço, cumprimentava os frequentadores do bar, tomava uma cadeira, abria um jornal e danava-se a ler. Impressionava por ser jornal de grande circulação no sul: O Globo, Folha de São Paulo, Jornal do Brasil.

Com o tempo, Eleutério conseguiu plantar informações que o deixou muito respeitado entre os desocupados e boêmios. Certa vez conversando com um bêbado, ele insinuou ser informante do S.N.I. e das Forças Armadas. Isso era nitroglicerina pura, como diria depois de alguns anos um nosso Presidente.

Histórias misteriosas sobre o coronel cada vez mais circulavam entre os amigos de bar. Uns diziam que o coronel Vila Velha mancava por consequência da explosão de uma granada. Outros tinham certeza que ele era coronel da Aeronáutica, e mancava devido à queda de um avião. Todas as histórias convergiam em ele ser informante, gente importante naqueles tempos, também chamado de “dedo duro”. Os boêmios desavisados deviam tomar cuidado e não conversar sobre política. Meter o pau no presidente Médici, nem pensar. Seria cadeia certa.

Eleutério alimentava o mistério, ele adorava fazer aquele papel, às vezes exagerava nas histórias. Já fazia parte da roda de desocupados. Quando o coronel chegava, os companheiros perguntavam pelas novidades. Eleutério, sério, colocava o jornal sobre mesa, entrelaçava os dedos das mãos e iniciava suas invencionices em tom confidencial.

– Ontem jantei com o Paes (coronel comandante do 20º BC – quartel do Exército), infelizmente não posso revelar detalhes, mas digo uma coisa, meus amigos, aqui para nós, favor não vão dizer que fui eu que informei, confio em vocês. Lá pelo Amazonas para as bandas do Rio Araguaia está havendo maior guerra. Os guerrilheiros comunistas treinados em Cuba, China e Moscou, estão lutando contra soldados do Exército. A coisa está preta, muitos mortos e feridos dos dois lados. Nenhuma notícia pode sair nos jornais.

Os colegas de copo e mesa ficavam admirados, de fato, esse tipo de notícia não era publicada; o que dava maior credibilidade ao Coronel Vila Velha. Era coronel para cá, coronel para lá.

Na verdade Eleutério tinha uma boa fonte de informação. Seu sobrinho, sargento da S/2 secção de informações do 20º BC, passava-lhe algumas notícias por alto, o tio insistia. Depois ele desenvolvia com fanfarronice no Bar do Chope.

Certa tarde ele estava lendo O Globo da semana anterior, enquanto 10 ou 12 jovens bebiam e conversavam perto de sua mesa. Ele ficou escutando a conversa, maior atenção. Logo depois Eleutério se juntou aos amigos e começou sua história. Os bêbados ficavam emocionados.

– Estão vendo aqueles jovens sentados à mesa, tomando chope, são todos comunistas. O magro é o Bomfim, o galego é o Ronaldo Lessa, o outro é o Jurandir Bóia, ainda tem o Ênio, o Aldo Rebelo, o Roland Benamor, o Geraldo Majella, o Iremar Marinho. Estão tramando subversão. Serão presos nos próximos dias.

Os desocupados de plantão ficavam na maior excitação. Ele sabe de tudo! Que cara bem informado. Admiravam e se orgulhavam da amizade do coronel.

Até que num fim de tarde quando a “galera” puxava um chope, ouviu-se um tiro, dois tiros, vários tiros. Houve uma correria frenética na Rua do Livramento, gente se abaixando, outros se deitando. Foi Ivanildo Omena, irmão do famoso Cabo Henrique que havia assassinado, descarregado o revólver no seu inimigo Paulo Calheiros no meio da multidão em frente ao Bar do Chope.

Quando serenou um pouco, os bêbados gritaram: “Coronel prenda o assassino. Coronel prenda o assassino, ele ainda está lá de revolver na mão,” O coronel, de repente, despareceu. Encontraram Eleutério encolhido embaixo de uma mesa por trás de uma mureta. O colega de copo exigiu sua interferência naquele brutal assassinato, ele respondeu, gaguejando, tremendo, ainda acocorado.

“Não… não sou co..coronel não, nem informante, nem dedo duro, sou funcionário aposentado!”

Ao correr para o banheiro Eleutério não pode esconder: estava com a calça suja. Cagou-se de tanto medo. Depois desse acontecimento nunca mais, “coronel Vila Velha”, o dedo duro, apareceu no Bar do Chope, nem no Centro da cidade.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A VINGANÇA DA VIÚVA

Malaquias estava sentado trabalhando, conferindo os carimbos de certidões, de repente sentiu-se mal, suando frio, gritou para seus colegas:

– Socorro! Estou com dor no peito. Estou com…

Não terminou a frase, sua cabeça pendeu, caiu de bruços em cima do birô. Deitaram Malaquias no chão, afrouxaram a roupa, uma jovem fez respiração boca-a-boca. Quando a ambulância chegou, já estava morto.

Malaquias era um homem sério, austero, decente, funcionário exemplar da Rede Ferroviária. Tinha 48 anos, 26 dedicados ao serviço, nunca faltou um dia à repartição. Um homem formal, não bebia, nunca fumou. Tinha um físico magro de dar inveja aos amantes da malhação. Mas seu coração era fraco devido a uma picada do besouro barbeiro da época de sua bela e divertida infância na amada cidade de União dos Palmares.

Todos esses predicados enchiam de orgulho à esposa. Lúcia de Fátima afirmava convicta: -“Homem sério e decente é Malaquias, por ele ponho a mão no fogo”. Os amigos concordavam. Apenas algumas amigas mais íntimas, diziam para si mesma que Fátima poderia queimar as mãos. Malaquias tinha apenas um problema com a família: gostava de pescaria. Em fim de semana, muitas vezes, viajava com amigos para pescar no litoral das Alagoas.

O campo santo Parque das Flores estava cheio de amigos e curiosos. O defunto era popular, foi candidato a vereador por cinco vezes seguidas. Em uma eleição chegou a ter 456 votos. Ele se orgulhava quando deputados pediam seu apoio em época de eleição.

Lúcia de Fátima estava arrasada, muita comoção no cemitério. Os amigos abraçavam, consolavam. Por conta do estado emotivo, ela não percebeu que uma senhora desconhecida chorava além do normal. Muitos notaram quando uma mocinha de seus treze anos aproximou-se do caixão depositou uma rosa, teve acesso de choro e chamou Malaquias de pai. Essa senhora tirou a jovem discretamente.

Ao terminar a missa de sétimo dia, a viúva foi procurada Pela senhora, morena, bonita, cabelos escorridos, olhos irritados vermelhos.

– Dona Fátima, eu me chamo Berenice, preciso falar com a senhora, assunto de seu interesse, aliás, de nosso interesse.

A viúva, que estava abraçada à sua única filha, Rosilene, de treze anos, convidou-a para tomar café em sua casa com os amigos. Os parentes mais próximos tomaram o lauto café da manhã, lembrando Malaquias que deveria estar no céu àquela hora.

Depois que todos saíram, Fátima chamou a senhora para conversar na varanda. Berenice entrou no assunto, direta, sem preparar a viúva:

– Dona Fátima a senhora precisa saber agora, não se pode adiar. Eu e Malaquias há muito tempo temos uma relação amorosa. Tenho duas filhas com ele. A mais velha, Rosali, é essa que está na sala conversando com sua filha. São irmãs, incrível, nasceram quase no mesmo dia.

Fátima arregalou os olhos, desnorteada com a imprevisível notícia. Foi um choque como se tivesse levado um coice no estômago. Não admitiu. Não podia acreditar. Respondeu aos berros para Berenice.

– Mentirosa, ponha-se para fora! Não manche o nome de meu marido!

A amante sem fazer barulho disse apenas com firmeza:

– A Senhora precisava saber. Eu aceitei a relação de ser amante porque amava Malaquias. Ele não era um santo, como a senhora pensa. Tome meu cartão, telefone-me quando acalmar. Meu advogado vai procurar a senhora.

Saiu levando sua filha que havia adorado a nova amiga, sua meia irmã.

Pela tarde, Genilda, uma amiga, bateu à porta. Fátima atendeu se lamentando, chorando:

– Descobri a traição! Eu era corna e não sabia!

Genilda teve um choque. Começou a chorar e inesperadamente confessou com voz baixa.

– Desculpe Fátima! Agora que você descobriu, quero dizer que não tive culpa. Malaquias quando me via começava a falar aquelas coisas bonitas. Era um finório na lábia. Juro que dei a primeira vez porque prometeu parar com aquelas cantadas. Peço perdão, pelo amor de Deus.

Fátima ficou afônica, atônica e estarrecida com a nova descoberta. Botou Genilda para fora de casa. Chorou o resto do dia. Inconformada com as histórias amorosas do marido ficou reclusa em sua casa. Passou um tempo sem receber ninguém, com vergonha de ter sido uma idiota. Uma incontrolável raiva de Malaquias apoderou-se de sua alma. Rasgou todos seus retratos.

Na noite da missa do 30º dia, ela reapareceu, escandalizando. Entrou na Igreja com um vestido vermelho, bem decotado e justo, transparecendo suas bonitas pernas. Chocou mais ainda, quando, no final da missa, convidou as amigas para dar uma volta na noitada da cidade.

A partir dessa noite Fátima se liberou. Deu e dá para quem quer. Recusou um colega de trabalho, Julião, que fez uma chantagem entregando-lhe um bilhete discretamente. – “Eu vi ontem o Ronaldo entrando à noite em sua casa. Quero também uma noitada de amor. Senão conto para todo mundo. Assinado: Você já sabe”. Ao ler a chantagem procurou Julião, ao vê-lo, rodou a bolsa e tacou-lhe na cara. Falou alto para todos ouvirem.

– Eu dou para quem quiser. Menos para você seu babaca!

E saiu às gargalhadas.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A ILHA DA FITINHA

Noaldo Dantas, paraibano, jornalista e poeta, publicou o texto: “O DIA EM QUE DEUS CRIOU ALAGOAS”, que se tornou o poema das Alagoas.

“Escrevi certa vez que Deus, além de brasileiro era alagoano. Em verdade não se cria um Estado com tantas belezas, sem cumplicidade. Sou capaz de imaginar o dia da criação de Alagoas: “Ô São Pedro pegue o estoque de azul mais puro e jogue dentro das manhãs encharcadas de sol, faça do mar um espelho do céu, polvilhando de jangadas brancas; quero os entardeceres sangrentos no horizonte, e aquelas lagoas e rios que estávamos guardando para uso particular, coloque-as nesse paraíso…”

Um desses paraísos que Deus guardou para uso particular é o Rio São Francisco, caminho que anda por entre inúmeras ilhas, coqueirais, manguezais, água corrente entre matizes azuis e verdes e vai bater no meio do mar. É lá que Deus entra em férias, segundo o cineasta Cacá Diegues.

Tempos atrás em uma das ilhas do rio, aconteceu uma história de amor que se imortalizou na imaginação popular, passando de boca a boca até nossos dias. Na cidade de Penedo, à beira do Velho Chico, havia um rapaz chamado Pedro, trabalhador, alto e forte. Era tirador de coco de profissão, enrolava uma peia no corpo, subia o coqueiro que nem uma lagartixa. Com o facão dava cortes fazendo cair os cachos cocos que o cambiteiro recolhia ao depósito. Pedro era o melhor tirador de coco da região, alegre, gostava de uma sanfona e de uma festa. Certa vez foi tirar cocos na ilha do Coronel Antônio Bento. Juliana, filha do Coronel, estava na ilha ficou observando, admirada da destreza de Pedro subindo nos coqueiros.

Em certo momento ele pediu um copo d’água, Juliana trouxe água gelada, conversaram, olharam nos olhos, apaixonaram-se naquele momento. Havia um problema: o pai proibiu o namoro de sua filha com um tirador de coco. Pedro prometeu à amada mudar de vida, ganhar dinheiro para poder sustentar uma família. Danou-se a trabalhar, tirando e comercializando coco em toda região do baixo São Francisco. Depois de um ano, melhorou de vida, foi falar com o pai da moça para consentir o namoro. Coronel Antônio Bento recusou, e foi taxativo: sua única filha só se casaria com doutor de anel no dedo. Não havia gastado tanto dinheiro com a educação da menina para casar com um reles tirador de coco. A mãe, Dona Maroca, mulher sensível e inteligente, tinha simpatia pelo o amor de Juliana e seu primeiro amor, Pedro dos Cocos.

Em Penedo, Juliana arranjou uma maneira de encontrar-se com Pedro, com o discreto apoio de Dona Maroca. Certa noite ao chegar de viagem, o Coronel Antônio Bento flagrou sua filha abraçada com Pedro. “- Não admito”, gritou e mandou Juliana recolher-se. Dentro de casa fez a maior zoada, prometeu colocar a filha interna no Colégio Santíssimo Sacramento de Maceió. E como castigo, mãe e filha, acompanhadas da criadagem, iriam passar o restante do verão na casa da Ilha. Não queria ver na redondeza o pilantra sem eira nem beira que desmoralizou a família, tomando liberdade escandalosa com sua filha.

No dia seguinte, duas canoas partiram do porto de Penedo até a Ilha. As mulheres ficaram na casa grande com a proteção dos empregados, o coronel não tinha hora nem dia para chegar. Triste com os acontecimentos e pensando no seu amor, Juliana toda manhã vestia o maiô azul, ia à praia estreita da ilha entre o coqueiral e tomava banho de rio. Depois de uma semana, numa bela manhã de sol, ao mergulhar, Juliana ouviu um assovio, arrepiou-se, sentiu a presença de seu amado. Procurou pelos lados, só teve certeza que era Pedro quando avistou seu vulto entre os arbustos aquáticos. Abraçaram-se. Entre beijos prometeram juras de amor.

Com receio do pai, arquitetaram um plano: Pedro passaria toda manhã pela ilha, só atracaria sua canoa quando Juliana amarrasse uma fitinha vermelha na palha do coqueiro envergado para o rio, era sinal que o coronel não estava na ilha. Assim os namorados passaram o resto das férias. O coração de Pedro batia de emoção quando via a fitinha na palha. Encostava a canoa nos arbustos, Juliana vinha encontrá-lo, eles namoravam sozinhos nas águas transparentes e correntes do Rio São Francisco. Certo dia as águas transparentes tornaram-se turvas, vermelhas, sangue e sêmen se diluíram na correnteza do Velho Chico.

As férias acabaram, houve choro, Juliana viajou para o colégio em Maceió, interna, pensando um dia fugir com Pedro. No mês de abril ela adoeceu, vomitando, o médico experiente, diagnosticou: é menino. Não se pôde esconder a gravidez, quando o pai soube da verdade, cobriu-se de ódio queria matar Pedro. Depois da ira, do desabafo e a conversa apaziguadora de Dona Maroca, o Coronel baixou a brabeza. Mandou chamar o tirador de coco para uma conversa. Pedro enfrentou com dignidade e coragem a situação. E não é que o sogro começou a simpatizar com o genro! Fizesse logo o casamento para barriga não aparecer. Foram três dias de festa na Ilha, Coronel Antônio Bento trouxe até músico do Rio de Janeiro para tocar. O mais animado era Pedro tocando sanfona e dançando com a esposa no maior amor do mundo.

Juliana e Pedro tiveram 12 filhos, ao primeiro deram o nome de Antônio Bento Neto. O povo da região conta para seus filhos e netos a história de amor da Ilha da Fitinha. Dizem até que o compositor, João do Vale, inspirou-se no casamento para fazer a música:

Coroné Antônio Bento… No dia do casamento… Da sua filha Juliana… Ele não quis sanfoneiro… Foi pro Rio de Janeiro… Convidou Benê Nunes… Pra tocar, olê, lê, olá, lá

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A COMEMORAÇÃO DA TORCEDORA

Orla da Ponta Verde onde sucedeu o fato

Tibúrcio acordou-se na maior ressaca nessa quinta-feira. Estava feliz com a vitória do Fluminense na noite anterior. Afinal Campeão da Taça Rio 2020. Levantou-se, olhou na cozinha de seu apartamento de solteiro um monte de garrafas e copos, deixou para lavar depois, tomou um suco de laranja. Eram dez horas da manhã, vestiu a camisa tricolor, colocou uma máscara, e mesmo nessa pandemia, desceu à praia para uma caminhada.

Andava contemplando o marzão naquela bela e luminosa manhã de julho. Avistou ao longe, à beira-mar, uma moça de vestido verde, com uma faixa branca como se fosse um cinto, descalça, dançando sozinha com o fone no ouvido. Pequenas marolas batiam em suas canelas, molhando a ponta do vestido. Tibúrcio olhava admirando à jovem dançar, se requebrar, tendo apenas o mar como companheiro. Ele sorriu, devia ser uma bêbada maluca e continuou sua andança mais meia hora e voltou. Ao passar novamente pelo local da dançarina notou que ela retornava ao calçadão. Quis o destino, ou o diabo, ou o Sobrenatural de Almeida, que a moça cruzasse com Tibúrcio. Ele teve um susto quando a jovem, ao avistá-lo com a camisa do Fluminense, abriu os braços e cantou alto, sorrindo:

– “Sou tricolor de coração… sou do time tantas vezes campeão”.

A alegre torcedora aproximou-se e deu um abraço em Tibúrcio. Sorrindo comentaram o jogo, o sufoco. Depois de algum papo, sentaram num banco olhando para o mar. Os dois se entenderam, maior empatia, eram tricolores doentes. A moça entre 30 a 35 anos, da mesma faixa etária do Tibúrcio. Conversaram mais de uma hora sobre o Fluminense. Valéria é advogada, carioca, viajou à Maceió para resolver pendências de sua firma, sem data para retornar ao Rio devido à pandemia. Certo momento, a garota tricolor convidou-o para tomar uma cerveja, precisava comemorar e muito esse título. Atravessaram a rua, na loja de conveniência do posto entornaram meia dúzia de cerveja.

Tibúrcio observou que em sua roupa havia apenas o verde do vestido e o branco da faixa, faltava o vermelho-grená. Valéria deu uma gargalhada, apertou a mão do amigo, cochichou no ouvido para ele prestar atenção. Sentou-se em sua frente, num gesto altamente discreto e sensual levantou o vestido, bem devagar, apareceram lindas pernas, as coxas, e finalmente a calcinha. Tibúrcio percebeu que a calcinha era vermelho grená. Ficaram às gargalhadas. Valéria estava hospedada em um apartamento de temporada, convidou o amigo tricolor a subir. Ao entrar no apartamento, a carioca puxou-o para dentro do banheiro, ainda vestidos, abriu o chuveiro, abraçaram-se, beijaram-se, encharcados amaram-se, feito dois animais.

Eram quatorze horas quando Tibúrcio saiu do apartamento. Valéria dormia o sono dos justos, dos amantes, dos campeões. Ele deixou um bilhete pedindo para telefonar quando acordasse. Depois do jantar, sem alguma notícia de sua tricolor, Tibúrcio resolveu aparecer no apartamento de Valéria. Comprou flores vermelhas, subiu, antes de tocar a campainha na porta, seu celular chamou. Era Valéria, perguntando quando ia vê-lo. Ele respondeu: agora, e apertou a campainha. Ao abrir a porta, ela ficou radiante com a surpresa, abraçou-o, beijou-o, arrastou seu tricolor. Não saíram, passaram a noite na varanda, bebendo uísque, se amando com carinho e alegria. Eles fizeram a maior comemoração do Fluminense campeão da Taça Rio 2020.

Na sexta-feira pela manhã foram à praia da Barra de São Miguel. Ao passar pela Prefeitura, Tibúrcio mostrou à Valéria a bandeira do município que tinha as cores: verde, branco e vermelho. Tibúrcio contou a história que se tornou lenda e ninguém sabe ao certo se é verdade ou invencionice do povo. A Barra quando se emancipou de S. Miguel não tinha bandeira, a secretária de educação levou o problema ao novo prefeito. Ele gostava de desenhar passou a noite desenhando três opções para a Câmara de Vereadores escolher. Aconteceu o incrível, a bandeira escolhida foi a parecida, semelhante à bandeira do Fluminense. O casal ainda está comemorando a vitória do campeão da Taça Rio, 2020; até que a pandemia acabe.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

ACONTECEU COM O NEREU

Nas vésperas do carnaval eu saboreava um arabaiana ao molho de camarão acompanhado de cerveja gelada na Barraca Pedra Virada, esperando o pôr do sol da praia da Ponta Verde, quando Nereu aproximou-se e sentou-se a meu lado. Era fim de tarde, notei que o amigo havia tomado alguns uísques além da cota. Nereu, meio embriagado, estava a fim de desabafar, confessou-me fatos detalhados de sua vida. Não parou de falar, nem para respirar.

– Meu querido amigo como você já deve estar sabendo dos boatos que correm na cidade, eu gostaria de contar minha versão da história. Você é um homem moderno e tenho certeza que vai entender.

No início dos anos 90, eu tinha cerca de 20 anos, arribei do Ceará, minha terra, vim trabalhar em Maceió. Gostei, por aqui fiquei, constitui família, considero-me alagoano. Passei parte de minha vida me reprimindo, essa é a questão. Quando eu bebia tinha vontade de tocar nos amigos, entretanto, me segurava, tinha medo da desmoralização, do escândalo. Desconfiava de minha ambiguidade sexual desde menino, eu amava brincar de troca-troca durante minha puberdade em Sobral, cidade onde nasci e me criei.

Toda vez que bebia além do normal, dava-me uma comichão e vontade de segurar no pau dos outros, de dar o rabo; eu me segurava e isso me atormentava.

Para resolver a situação tive que escolher entre ser homem ou baitola e me fiz macho: namorei a Helena, aquela jovem morena da praia de Pajuçara, cobiçada por muitos, entretanto ela me quis. Com pouco tempo de namoro e noivado, nos casamos, logo nasceram dois filhos. Eu pensava que estava livre dos desejos que me atormentavam, mas, em vez em quando a comichão aflorava. Certa vez, conheci um jovem carioca, Romeu, rolou um amor, eu fiquei em vida dupla. Depois que Romeu retornou ao Rio, comecei a fazer programa com garotos. Tive problemas e muita briga com Leninha, era o inconsciente.

Depois de vinte anos de casados e muito desentendimento, nos separamos. Helena hoje me detesta. Onde ela estiver, com a língua solta, me destrata, me esculhamba. Eu fico com pena de meus filhos, eles me amam.

Há quatro anos frequento uma psicóloga competente, ela puxou tudo de mim, depois de algum tempo de tratamento, a doutora me preparou para assumir minha bissexualidade. Foi o que de melhor aconteceu em minha vida, nada pior que as coisas não resolvidas. Hoje não importo para o que pensem, sou bicha, baitola, adoro dar. Sou homossexual assumido e não vejo problema. Aliás, sou bissexual, gosto também de mulher, vez em quando.

Estou agora na linha de frente na luta os homossexuais, tornei-me batalhador da causa das minorias sexuais tão discriminadas. O único problema é a aceitação de meus dois filhos; sei que é difícil, mas o tempo é o senhor da razão, já dizia o Presidente. Serei um homem mais feliz quando os filhos me aceitarem como sou.

Nereu não parou de falar, eu escutando, conversa de xiita engajado na luta. Pensando, tirei uma conclusão: jamais Nereu retornará à categoria dos machos, está de cabeça feita, tem convicção de sua opção sexual, a psicóloga ajudou muito ao cearense.

Ele deu-me uma explicação de uma forma científica. Não entendi muito, confesso. Segundo a psicóloga:

As pessoas não mudam sua sexualidade durante a vida, ela vem do berço, algumas assumem a homossexualidade cedo, outros assumem durante o período de incerteza, de indefinição de identidade sexual, na adolescência. Outros homossexuais não assumem, são os enrustidos.

Fiz que entendia a informação científica de meu amigo porque naquele momento apareceu à mesa outro desocupado, o Xavier. Mudou o assunto.

Amigo leitor ou leitora, vocês entenderam? A história do Nereu serve para os dois casos. Então, se você tiver vontade de abraçar um amigo com mais força, não se acanhe, é normal. Sair do armário, assumir foi o melhor que aconteceu com Nereu. Stanislaw Ponte Preta já dizia nos anos 60, que o terceiro sexo já estava em segundo lugar. Não se constranja, hoje o mundo é outro, peça ajuda a um psicólogo, faça como meu amigo. Se for solteiro ou solteira, talvez até arranje um bom casamento.

Finalizo os escritos, esclarecendo que eles não têm intensão de caçoar. Homossexualismo é coisa séria e esta história é baseada em um fato contado pelo próprio personagem. Tenho muitos amigos e amigas homossexuais, que gosto e respeito. E garanto que o mundo sem homofobia, ficaria bem mais fraterno e cor de rosa.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A INVASÃO DAS GUARAÇUMAS

Mar da Avenida da Paz (Foto: Marola)

O extenso calçadão da praia da Avenida da Paz, arborizado com amendoeiras e jardins gramados, foi o palco da nossa mocidade, onde toda noite a juventude fazia uma festa; andando de bicicleta, patins e patinetes, jogando ximbra (bola de gude), rodando pião, brincando de rouba-bandeira ou gata-pirada empurrando um aos outros nos bancos de concreto até sobrar apenas um, o vencedor. Às vezes um namoro, um aperto nas meninas, a puberdade florescia. Nas noites das quartas-feiras os moradores sentavam-se nos longos bancos de madeira embaixo do coreto para ouvir música clássica, popular e jazz. Era a retreta da Banda do Exército Brasileiro, às vezes da Polícia Militar.

Nesse paraíso havia uma praia extensa de areia branca, nosso campo de futebol. Depois do jogo, mergulhávamos e nadávamos até o fundo do mar perto dos navios fundeados. No retorno, muitas vezes os botos nos acompanhavam como estivessem nos protegendo, brincavam, mergulhavam e emergiam, soltando um som gutural como se estivessem conversando com os jovens nadadores. Ao sairmos do mar íamos em direção às paqueras que esperavam numa sombrinha tomando banho de sol ou jogando baralho. Como era gostoso entrar no mar com a namorada, os dois segurando na boia de pneu de caminhão e as pernas se cruzando embaixo d’água.

À tarde quando a maré estava cheia, a moçada partia para o trapiche que entrava mar adentro no início da praia de Jaraguá. Era uma espécie de ancoradouro, de píer, com um trilho em cima e na ponta, onde o mar era fundo, havia um sólido armazém de telhado de zinco, onde empilhavam sacos de açúcar para transbordo, por balsas, aos navios. Nós nadávamos até o armazém, subíamos pelas palafitas de madeiras grossas e pelas grades do imenso portão, logo alcançávamos o telhado de zinco quente. Ao olhar a imensidão do mar e dos coqueirais em volta, nos sentíamos os donos do mundo. Em seguida, o mergulho: com o corpo retesado nos jogávamos ao mar, era uma queda de segundos, 15 metros de altura, um vento gostoso passava na barriga até batermos e afundarmos na água. Imediatamente subíamos para outro salto.

Quando aparecia o vigia, todos nós mergulhávamos. Ao cair dentro d’água, alguém puxava, os outros continuavam a saudação: “O galo canta… o macaco assovia… banana de jegue… no cu do vigia.” Certa tarde um colega pulou e não retornou, ficamos mergulhando para tentar trazer o Tony para superfície e nada, desesperados chamamos os bombeiros que tentaram resgatar o corpo com embarcação e mergulhadores. Nunca foi encontrado o corpo de nosso amigo. Foi tristeza geral, nossos pais proibiram essa brincadeira, mas dentro de um mês os meninos da Avenida estavam pulando novamente do zinco do trapiche.

Toda manhã, antes de pegar o bonde para o Colégio Marista, eu dava um mergulho no meu mar. Certa vez notei que a água não estava com a cor verde azulada habitual, a superfície tremeluzia, alguma coisa estranha acontecia, quando cheguei à beira mar estavam diversos pescadores jogando redes, anzóis, tarrafas. Era um enorme cardume de guaraçumas que invadiu a enseada da praia da Avenida. Dei o mergulho, notei vários peixes nadando à beira mar. Um arrastão chegava com os pescadores puxando, a rede estava cheia, quase estourando de tanto peixe. Fui ao Colégio, quando retornei perto do meio dia, a praia estava cheia de gente com caniço e samburá.

O cais do porto repleto de pescadores profissionais e amadores jogando suas varas, suas redes. No dia seguinte continuou a inexplicável invasão das guaraçumas. Quase toda população de Maceió levou caniço ou tarrafa para praia e para o cais. À noite a enseada da praia da Avenida tornou-se uma festa: fachos acesos à beira do cais e nas canoas dentro d’água. As guaraçumas atraídas pelo fogo dos fachos pulavam e caíam dentro da canoa.

Ate hoje ninguém soube explicar este fenômeno. Por algum tempo a miséria havia acabado. Havia guaraçuma para quem quisesse: o pobre, o rico, o miserável, menino, velho e mulher. Maceió se fez em festa. Foram treze noites, treze dias, o mar ficou cinzento de tanto peixe pular, cardumes e mais cardumes renovavam-se invadindo a enseada. Fenômeno inexplicável e extraordinário.

Nessa época os negociantes de automóveis encheram Maceió com um novo tipo de jipe, vendido em grande quantidade, logo chamados de guaraçumas. Até hoje, o jipe 1954 é chamado de Guaraçuma pelos colecionadores.

A Gazeta de Alagoas publicou uma reportagem no dia 28 de abril de 1954, dizia assim: ABUNDÂNCIA E PESCA – “O pescado guaraçuma afluiu em quantidade espetacular à praia da Avenida da Paz. Gente muita se fez da pescaria, aproveitando o extraordinário volume de peixes surgidos ali. Muita gente pobre serviu-se à farta desse gênero de alimentação. Nesses últimos dias houve na cidade peixe de muito boa qualidade e extremamente barato. Muito pescado vendido a preço irrisório…”

Muitos técnicos tentaram explicar esse fenômeno: pesquisadores da UFAL, engenheiros de pesca do Recife. Veio gente da Bahia e até do Japão. Cada qual com uma teoria diferente. Eu gostava de conversar com um amigo, Cabo Jorge, motorista do comandante da Polícia, (meu pai). O Cabo era pai de santo de um terreiro pras bandas da praia de Ipioca, e me deu a seguinte explicação sobre a invasão das guaraçumas: “Foi Yemanjá, a rainha do mar, quem presenteou a cidade com 13 dias de fartura com muito peixe, para compensar ela ter levado o Tony que está vivendo com ela no fundo do mar.” Ainda hoje acho a teoria do velho Cabo Jorge a mais plausível.