CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A história oficial conta a vida dos políticos, artistas, comerciantes, industriais e intelectuais que fazem a história de uma cidade. As figuras mais simples, os descamisados, os trabalhadores humildes, os boêmios, os desempregados, que têm igual importância na vida cultural, econômica e política da cidade, são anônimos coadjuvantes na história, quando aparecem.

No século passado, um negrão forte, alto, tornou-se uma figura importante e inesquecível, mas, não tem seu nome registrado na história oficial. Rás Gonguila era seu nome. Ele dizia ser príncipe africano, descendentes de Reis e Rainhas da Etiópia, seus antepassados foram trazidos escravos para o Brasil. Gonguila tinha maior orgulho de seus ancestrais, fazia questão de seu título nobiliárquico africano, Rás, príncipe etíope.

O Negão era bom engraxate e tinha um ponto na Rua do Comércio. Era cheio de cliente: funcionários, poetas, amigos; ficavam esperando sua vez, conversando potocas. A cadeira de graxa do Negão tornou-se ponto de encontro.

Gonguila tinha alma alegre, divertido, carnavalesco, criou e comandou o “Bloco Cavaleiros dos Montes”. Todo ano desfilava a frente do bloco arrastando multidão com uma orquestra tocando frevos e marchas vibrantes. A moçada caía no passo. Naquela época um bloco de carnaval nivelava a sociedade, pulavam e dançavam juntos: pedreiros, engenheiros, médicas, enfermeiras, desempregados, filhinhos de papai, puta, soldados, todo tipo de gente.

O Negão morava na Ponta Grossa, líder nato, respeitado. Na época não havia associação de moradores, nem interesse escuso por parte desses homens abnegados, eles queriam apenas a sobrevivência de sua comunidade.

Uma eleição, Theobaldo Barbosa, assessor de Arnon de Mello, falou com o chefe, candidato a governador, que havia feito contato com um cabo eleitoral, a maior liderança do bairro da Ponta Grossa e Vergel do Lago. Arnon pediu para visitá-lo. O encontro foi marcado para 20 h. de uma sexta-feira num galpão. Na noite marcada lotou de gente. Havia mais de 600 pessoas.

Arnon, Theobaldo, Zé Barbosa, desceram do carro ao lado do mal iluminado galpão, onde a turma estava esperando. Arnon admirou a estatura avantajada do líder, vestido de branco, negro de lábios grossos e nariz chato, Na hora Arnon esqueceu seu nome e perguntou em voz baixa para Theobaldo, o nome do Negão. Gonguila aproximava-se dos políticos, Theobaldo cochichou no ouvido de Arnon: o nome é Gonguila!

O Negão estendeu a mão a Arnon, dando “Boa Noite”. Arnon ofereceu sua mão respondendo: “Boa Noite, Seu GORILA”. Ao ouvir o nome GORILA, Gonguila ficou puto da vida, retrucou quase gritando: “ARNON, GORILA É O CARALHO! MEU NOME É GONGUILA, RÁS GONGUILA!” Apesar das caras amarradas, alguém soltou uma salvadora gargalhada, que quebrou o gelo. Arnon desculpou-se várias vezes, deu um abraço no Negão, conversou com os catadores de sururu, e catou os votos. Teve excelente votação no Vergel e Ponta Grossa, redutos do seu inimigo, o governador Silvestre Péricles, de quem ganhou a eleição.

Candidatos a vereador, prefeito, deputado, até presidente, disputavam o apoio do líder. Na campanha de presidente houve um comício na Ponta Grossa pró Getúlio Vargas perto do cine Lux. O comício foi organizado em cima de um caminhão, o som era um enorme microfone. Vários oradores, brilhantes políticos compareceram para discursar. Alguns candidatos a deputado buscavam os votos daquele populoso bairro. Em certo momento anunciaram o líder comunitário da Ponta Grossa, Rás Gonguila, entregaram o microfone ao Negão. Ele não se fez de rogado, arrochou a voz:

– “Amigos da Ponta Grossa, O Doutor Getúlio sempre foi um homem que trabalhou para o povo e para os trabalhadores do Brasil. Getúlio é o maior brasileiro vivo, e merece nosso voto…”

Um cachaceiro, colega de copo de Gonguila, assistia o comício embaixo do caminhão. Impressionado com tantos elogios ao Dr. Getúlio, do chão, ele gritou debochado, com voz de bêbado:

– Dá o cu a ele, Gonguila!!!!!!

Gonguila parou sua fala, olhou para baixo, apontou para o amigo e gritou no microfone:

– Como o seu, e o dele!!!!

O animador puxou o microfone de Gonguila, continuou o comício:

– Depois das brilhantes palavras de nosso Rás Gonguila, vamos ouvir agora o deputado Ari Pitombo!

Assim era o Negão: não tinha papa na língua, nem se intimidava com figurões. Apesar de analfabeto, preto, pobre, impunha respeito por sua liderança, honestidade, e amor à cidade, era organizador de festas populares. Os nomes dos figurões daquela época estão nas placas de ruas, colégios, praças. O nome de Gonguila ficou apenas na lembrança e nos corações dos seus amigos.

4 pensou em “RÁS GONGUILA

  1. Impossível não rir: Ao ouvir o nome GORILA, Gonguila ficou puto da vida, retrucou quase gritando: “ARNON, GORILA É O CARALHO! MEU NOME É GONGUILA, RÁS GONGUILA!”

    Grande texto, imenso Capita… e o gigantesco e “nosso” Tricolor das Laranjeiras conseguirá ser vice de meu Vasquim, neste Brasileirão?
    Forte abraço

    Em tempo: o mengão virou menguim?

    • Não vai divulgar a FLIJAÇA aqui no JBF?
      Sancho lá esteve em 2018, na Praça do Mirante.
      Sancho sempre frequenta as festas e feiras literárias, inclusive este ano divulgou aqui no JBF como ficaram tais eventos literários por causa da pandemia. Como ficou a situação da FLIJAÇA neste inútil ano de 2020?

      Abração, gigante amigo

  2. Estados esperando a publicação do edital da Lei Aldir Blanc para entrarmos com o os projetos da FLIJAÇA, FLIPONTAL E FLIFE ( FERNÃO VELHO) Pareve que terá de ser em LAIVES. Esperando o edital.
    Obrigado pela força. Siata-se convidado para a próxima.

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