CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A PROMOÇÃO

Historicamente, o Estado de Alagoas sempre teve como suporte econômico a fabricação do açúcar. A zona da mata onde ficam as Usinas de Açúcar é um tapete verde de canavial. Era emprego garantido para os trabalhadores rurais até que um dia chegou a mecanização com possantes máquinas e tratores, desempregando muita gente. Como não houve uma política de fixação do trabalhador rural no campo, eles emigraram para capital em busca de emprego. Muitos construíram favelas no Vale do Reginaldo-Salgadinho, lançando os dejetos humanos no riacho. No decorrer dos anos essa favela aumentou; hoje são mais de 20 mil casebres que tornam o Riacho Reginaldo-Salgadinho um esgoto a céu aberto, poluindo o mar e a praia da Avenida da Paz.

As jovens que chegavam do interior encontraram poucos empregos, para sobreviver havia uma solução: ser empregada doméstica. A procura foi tanta que a burguesia, a classe média, chegava a ter três ou quatro empregadas a troco da alimentação, da dormida e um pequeno salário. Essas empregadas geralmente jovens, e como tal, gostavam de sair, frequentar as festas populares, brincar o carnaval, sempre alegres e faceiras. Gostavam também de namorar, seus hormônios funcionavam bem. À noite passeavam nas praças onde apareciam pretendentes e outros aproveitadores. Geralmente essas jovens do meio rural eram mais liberais que as preconceituosas jovens da classe média que guardavam a virgindade para o casamento.

Nessa época, os jovens tinham uma namoradinha estudante dos colégios de freira. Depois do jantar eles partiam para namorar no portão da casa, com direito a uma volta na calçada. Quando dava nove ou nove e meia, o severo pai aparecia e pigarreava. Era sinal para a jovem entrar, deixando o namorado excitadíssimo pelo xumbrego, com três opções: Recolher-se em casa para se masturbar; subir aos bordéis para um descarrego, dependia da grana; a terceira opção era partir à cata das empregadas domésticas que desfilavam na praça, bonitinhas e cheirosinhas. Elas não eram enganadas, sabiam que o jovem não estava afim de casamento, queria diversão. E arrastavam para locais mais escuros, compatíveis. Elas tinham pontos preferidos: praça do Centenário no Farol; praça Deodoro no Centro e em torno da Avenida da Paz, à noite muitos jovens vadiavam na areia morna da praia da Avenida.

O politicamente correto ainda não existia. Nas casas geralmente havia apenas um banheiro e nos quartos, embaixo da cama, colocava-se um penico para necessidade noturna. Alguém, um dia, chamou uma doméstica de “peniqueira” e a alcunha pejorativa pegou. As jovens empregadas não gostavam desse apelido. Porém, banalizou-se. Na praça Centenário alguns jovens, depois das onze, reuniam-se para contar aventuras e conquistas. Chegaram a criar uma associação, os sócios deram o nome de UCPM, União dos Conquistadores de Peniqueiras de Maceió. Era bem organizado. As reuniões aconteciam na garagem da casa de um primo, na Rua Comendador Palmeira. O regulamento elaborado por um estudante de Direito, foi lido e aprovado pelos sócios fundadores. Havia uma escala hierárquica entre os sócios com os postos militares. O jovem entrava como soldado, à medida que contasse conquistas noturnas, ganhava promoção, decidida pelos sócios presentes. Formou-se uma hierarquia rígida entre sócios, de soldado ao general comandante. Toda sexta-feira na garagem de meu primo havia reunião e gostosas gargalhadas, sempre com respeito às domésticas, a causa e inspiração viva daquela associação.

Meu amigo Ávila era Major, muito atuante, não perdia reuniões, era o primeiro da lista na promoção a coronel. Foi quando ele começou a namorar a bonita vizinha, um sonho antigo. Quando estavam na praia, ou no cinema, ou ficavam sentados num banco da praça, em vez em quando passava um amigo e o cumprimentava batendo continência: “Boa noite Major”. A namorada ficou cismada perguntou sobre aquela continência; Ávila desconversava. Até que um dia a namorada, conversando com a cunhadinha, tocou no assunto; a irmã de Ávila abriu o jogo, contou todos os pormenores da UCPM e porque seu irmão tinha o posto de Major.
À noite, na porta da casa da namorada, ela não o deixou tocar em sua mão, e contou que sabia tudo sobre a UCPM, e seu posto de Major. Ávila segurou a mão da namorada e prometeu com convicção:

– Minha querida eu ainda sou Major, é a maior injustiça da UCPM, garanto, lhe prometo como daqui para o final do mês eu serei promovido a Coronel.

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O CACHORRO QUE CHORAVA

Alagoas é um celeiro de bons jornalistas. A imprensa honesta, batalhadora e competente faz parte de nossa história. Tenho Ricardo Rodrigues como um dos melhores jornalistas atuantes e mais éticos. Foi ele que me relembrou o caso do cachorro que chorava. Um fenômeno que abalou, assanhou a cidade e o Brasil nos idos dos anos 70.

Ao completar 10 anos, Ricardo ganhou um lindo cachorro de se pai, Arlindo. Não pertencia a alguma raça específica, ou seja, era um legítimo vira-lata. Colocaram o nome de Johnson, em homenagem ao presidente dos USA. O cachorro ficou bonito danado, cresceu com muito apego ao dono.

Certa vez, durante a madrugada, arrombaram a porta e roubaram algumas bebidas e comidas no Bar de Seu Arlindo que se tornou ponto de encontro da boemia em Jaraguá. Ele resolveu levar o cachorro para dormir no bar, Ricardo esperneou, não queria deixar o cachorro. Johnson tornou-se patrimônio, cria e mascote do Bar do Arlindo. Os fregueses tinham maior carinho pelo cão-vigia.

O bar era frequentado por artistas e boêmios de Maceió. Seu Arlindo colocava música na possante vitrola Phillips, e a moçada curtia Nelson Gonçalves, Altemar Dutra, Elizeth Cardoso e outros grandes cantores da época enquanto dava um trato na cerveja e na branquinha.

Certa noite, Seu Arlindo notou Johnson chorar, o cachorro uivava quando tocava uma música específica; não eram todas. Finalmente descobriu: Johnson chorava apenas quando tocava a música de Altemar Dutra: “Vida Minha”.

Johnson tornou-se atração do bairro boêmio de Jaraguá. Quando aparecia um desavisado, os assíduos frequentadores apostavam como o cachorro chorava ao ouvir música. Alguns desatentos pagaram garrafas, caixas de cervejas para os malandros.

O fato se espalhou por toda cidade de Maceió. Entrou pelo Poço, Mangabeiras, Ponta da Terra, Pajuçara, até no Tabuleiro. Todos queriam conhecer o cachorro que chorava. O Bar do Arlindo de repente se encheu. Gente do povo, deputado, senador, coronel, capitão, ficavam pasmados com o choro de Johnson.

Sociólogos, filósofos, professores da UFAL tentaram explicar o fenômeno. Muitas páginas foram escritas em tese de mestrado sobre o cachorro que chorava. Teorias fizeram trabalhar os tipos das máquinas de datilografias da época.

Certa noite apareceu o jornalista Bernardino Souto Maior. Ao ouvir o uivo do cachorro ao som da música do Altemar Dutra, foi taxativo com Arlindo:

-“Vou levar você e o cachorro para o Programa Flávio Cavalcante.”

Naquela época, na TV Tupi de São Paulo, o Programa Flávio Cavalcante, tinha a maior audiência no Brasil. Havia um quadro chamado “Fora de Série”, onde Flávio apresentava histórias interessantes, fenômenos e outras gaiatices. Não deu uma semana, Bernardino entrou no Bar do Arlindo:

– “Prepare uma jaula para o cachorro. Aqui estão nossas passagens para São Paulo. Vamos viajar amanhã e entrar no ar ao vivo no domingo.”

Numa fria madrugada de sexta-feira no Aeroporto Campo dos Palmares, entraram no avião: Arlindo, Bernardino e o já famoso Johnson.

Na hora do programa todos estavam nervosos, era ao vivo. Se o cachorro falhasse, seria um vexame televisionado para todo o Brasil. Até que chegou o momento. Flávio Cavalcante com sua empáfia de apresentador estrelado iniciou:

-“E agora meus amigos de todo o Brasil. Vou apresentar Johnson, o cachorro que veio das Alagoas. Um sentimental cachorro que chora quando ouve Altemar Dutra.”

Entraram no palco da TV: Bernardino e Seu Arlindo com Johnson. Depois de algumas perguntas, e fazer o suspense, se o cachorro ia chorar ou não, finalmente Flávio manda rodar a música. Maior expectativa. Quando se ouviu: “Eu acordei chorando…e tu não acreditaste…vida minha…..”, o nosso querido Johnson irrompeu em uivos. Chorou com lágrimas caindo como se fosse um personagem de novela mexicana.

A plateia e todos os expectadores ligados na TV deliraram. Maior sucesso, muitos aplausos. Johnson era a nova sensação do Brasil. Por conta disso, no outro dia, Johnson foi convidado para gravar no programa da Cidinha Campos.

Quando os três retornaram à Maceió, no aeroporto havia jornalistas, rádios pedindo entrevistas. Seu Arlindo continuou com sua birosca sob a vigilância do famosíssimo Johnson.

Na quinta-feira daquela semana, uma multidão foi assistir na televisão do Bar do Arlindo o Programa Cidinha Livre, tinha sido gravado. Durante a apresentação, quando iniciou a música “Vida Minha”, Johnson irrompeu no choro duplamente, ao vivo e na televisão.

Muitos quiseram comprar nosso herói canino. Veio proposta do Recife, da Bahia, do Rio de Janeiro. Um milionário de New York mandou uma oferta fabulosa. Mas Seu Arlindo preferiu conservar Johnson junto a ele, fazendo guarda em seu bar e brincando com o filho Ricardo.

Nunca mais um alagoano foi tão aplaudido em rede de televisão nacional. Difícil um sucesso como o do inesquecível Johnson, o cachorro que chorava.

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À BEIRA DA ESTRADA

Apolinário dirigia devagar rumo a Caruaru quando avistou, ao longe, um pequeno carro estacionando no acostamento. Ao parar, desceu uma mulher olhando o pneu traseiro murcho. A jovem senhora iniciou uma série de inúteis pontapés. Apolinário parou seu carro, e foi acudir à dama solitária.

Ela chutava o pneu, e chorava. Ele pediu calma, estava ali para ajudar. A distinta respirou fundo, voltando a si como se estivesse em transe.

Apolinário levantou o carro rodando o macaco, retirou o pneu furado, colocou o estepe. Enquanto realizava a troca, a madame não deu uma palavra. Ela percebeu que não tinha retribuído a gentileza do senhor. Pediu desculpas, disse que estava com a cabeça cheia de problemas e com ódio no coração. Que ele perdoasse. Apresentou-se como Flávia.

– Muito Prazer, Apolinário. Olhe aqui minha amiga, nenhum ódio vale a pena, aconselhou o gentil homem.

– Minha raiva é grande. Vontade de matar. De qualquer maneira, desculpe e obrigado. Respondeu a morena com a alma infeliz.

Apolinário logo chegou à Caruaru. Ele queria curtir as peças de artesanato, a cultura popular do Nordeste. Viajava para distrair-se.

Almoçou no hotel, descansou. Ao entardecer fez uma visita à feira, aos pontos de folclore, recordando a finada Marilda que gostava tanto da Feira de Caruaru, foram 23 anos de casamento.

Jantando no Restaurante Chapéu de Couro, percebeu que a senhora do carro, a irada Flávia, estava em uma mesa tomando uísque, desacompanhada.

Ele estava terminando o jantar, quando percebeu uma pessoa encostar à frente da mesa. Apolinário levantou a cabeça, era a moça zangada, estava sorrindo. Perguntou se podia sentar. Apolinário puxou uma cadeira, ato contínuo ela sentou-se elegante e iniciou a conversa:

– Pensei no que você falou. É verdade, raiva mata, deixa o coração ferido. E a vida é uma só. Vou tentar superar a bordoada que recebi, e não se fala mais nisso. Agora conte sua vida. Quem é você, cavalheiro gentil?

Apolinário resumiu sua vida. Era de Maceió, estava em viagem solitária pelo Nordeste, sem roteiro predeterminado. Queria refletir sobre sua nova vida, viúvo há seis meses. Não tinha data marcada para voltar.

Flávia achou a história muito interessante. Conhecia bem Alagoas, contou reminiscências, parte da infância morando em Maceió. Enquanto ela falava Apolinário analisou a companheira acidental.

Devia ter entre 35 a 40 anos, pele bem cuidada, morena. O braço parecia porcelana. Rosto redondo, cabelos pretos escorridos, bem tratados. Olhos negros vivos como se estivessem acesos, penetrantes, por cima de um nariz levemente achatado. Exalava sensualidade e mistério. Sentiu que havia um grande problema em sua alma, daí esse rancor. Notou uma marca de aliança na mão esquerda. Seria casada?

Ficaram naquela mesa por mais de duas horas em conversa descontraída, alegre, com o acompanhamento do velho uísque. De repente, Flávia olhou nos olhos de Apolinário, pegou-o pela cabeça, puxou-o, deu-lhe um beijo na boca. Correspondida, ficaram a chupar línguas. Ela pediu sorrindo.

– Quero ir pra cama com você, agora! Tem que ser agora, antes que desista, não quero desistir.

Rápido ele pagou a conta. Sem esperar pelo troco saíram. Entraram no carro de Apolinário, partiram em busca de um motel à beira da estrada. Flávia durante o percurso beijava seu pescoço, alisava-o, não se falaram.

Ao entrar no quarto do hotel, ela pediu, “Beije aqui meu amor!”

Apolinário obedeceu, fizeram amor até mais tarde.

Depois do êxtase, corpos separados, enquanto ele olhava para o teto, sentiu que Flávia chorava, e aumentava o choro. Estava desesperadamente histérica, lamentando-se, pedindo desculpas como se estivesse falando com outra pessoa.

– Seu bosta! Você foi o culpado, você me traiu!

Apolinário conseguiu acalmá-la. Flávia contou sua vida.

Era casada, dois filhos já rapazes, morava no Recife. No dia anterior, ao entrar no escritório, flagrou o marido transando com a secretária no tapete Uma prima, que implorou um emprego. Em casa o marido tentou justificar. Flávia não conseguiu dormir. Pela manhã pegou alguma roupa e partiu no seu carro rumo à fazenda de uma amiga no sertão. Ninguém sabia onde ela estava. Desligou celular e partiu, com toda raiva, ódio no coração. Estava planejando matá-lo, quando encontrou Apolinário, percebeu que não era a solução. No restaurante, bebendo, armou outro tipo de vingança. Foi o ódio que impeliu transar com ele. Estava arrependida, com sentimento de culpa, mas a raiva não havia passado.

Ele ouviu com atenção enquanto trocava de roupa, e admirava aquele belo espécime de mulher.

Já vestidos, ele abraçou-a, deu um cheiro nos cabelos.

– Agora vá dormir no hotel. Amanhã visite sua amiga, depois volte para sua família, você é uma pessoa especial. Não se sinta culpada pelo que aconteceu. A raiva é uma emoção cruel, muito forte, você agiu impulsionada pelo sentimento de vingança. O que aconteceu foi melhor que mandar matá-lo, tenho certeza. O segredo é nosso, ninguém precisa saber o que houve entre nós. Eu amei essa noite, jamais esquecerei.

Saíram do motel até o carro de Flavinha. Ela alisou a cabeça do parceiro, deu-lhe um beijo na boca. Olhou em seus olhos e cochichou: “Amei lhe conhecer, essa noite marcou minha vida.” Desceu do carro do amigo e sem olhar para trás, caminhou lentamente em direção a seu carro. Deu a partida e desapareceu na estrada escura

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OS DOCES DE MINHA INFÂNCIA

A arte culinária é peculiar, tem características próprias de cada artista da gastronomia; é uma cultura forte e típica. Nessa cidade de Nossa Senhora dos Prazeres, Maceió, as comidas estão entre os melhores prazeres. Saborear um bom prato faz parte de nosso lazer, de nossa cultura. Lembrando que o Bispo Don Pero Fernandes Sardinha foi devidamente devorado em apreciado banquete antropofágico pelos nossos ancestrais, os índios caetés nas areias brancas da praia de Barra de São Miguel.

Minha juventude foi marcada por doces e salgados inesquecíveis. Ainda tenho em minha mente, em meu paladar, alguns pratos feitos em casa por minha mãe, Dona Zeca, excelente cozinheira. Ela caprichava nos almoços dominicais: caruru, galinha ao molho pardo, carapeba, cavala, arabaiana ao olho de camarão ou feijoada de feijão mulatinho incrementada com charque, toucinho, tripa de porco, linguiça, carne do sol, couve, jerimum, quiabo, maxixe.

Havia pratos, hoje preparados em óleo vegetal, na época cozidos com banha de porco: o sarapatel, o fígado e o bife de panela. Sem esquecer o cozido, as macarronadas, peixadas e camarãozadas de todo tipo.

Quando íamos ao centro da cidade invariavelmente lanchávamos na sorveteria da moda, Bar e Sorveteria Elegante, em frente ao Beco do Moeda, frequentado pela classe média emergente que sentava às mesas de ferro com tampo de mármore. No cardápio de lanches havia sorvetes de frutas regionais: mangaba, manga, pinha, laranja cravo, sapoti, mamão, abacaxi, melancia, coco, cana, além de pudins maravilhosos; tudo servido em taças de metal niquelado.

Ainda no centro da cidade eu adorava o chocolate caseiro em barras, duas cores, vendido pelo Seu Portela na loja especializada em óculos que vendia mais chocolate que óculos.

Não esquecendo a Sorveteria Xangai de Seu Fon na Rua da Alegria oferecendo o deliciosíssimo sorvete de chocolate crocante e sorvete de creme.

Ainda sinto o gosto e o cheiro das doces de minha infância, ficaram para sempre entranhados nas narinas e glândulas do paladar.

Acrescento à lista, os ambulantes que passavam na praia da Avenida da Paz. Depois do almoço ficávamos à espera de Seu Primitivo empurrando o carrinho de sorvete. Sempre dois sabores: coco e maracujá, coco e mangaba, coco e cajá, coco e goiaba; ele raspava o sorvete com uma colher enchendo o carlito (casquinha). Era nossa predileta sobremesa.

Ao entardecer, o China aboletava o tabuleiro de quebra-queixo embaixo de alguma amendoeira na Avenida da Paz, tínhamos guardados os tostões contados especialmente para uma “taíada” desse doce precioso; encantávamos com a rapidez do corte vertical, um pouco inclinado, ele entregava o quebra-queixo em pedaço de papel colorido, era cocada dura queimada com pedaços de amendoim.

A moçada se deliciava com o algodão doce, rodado na hora numa panela com fogo, esquentava o açúcar fazendo enorme nuvem de algodão. Complementava tomando um raspadinho: gelo raspado dentro de um copo cheio de garapa de coco, maçã ou misto, uma delícia. E o caldo de cana, caiana! Uma divindade.

Na praia defronte ao coreto havia um futebol organizado. Depois do banho-de-mar, os jovens iniciavam papos e paqueras sentados na areia. Invariavelmente aparecia o Gaguinho empurrando o carrinho de sorvete XAXADO, uma delícia feita de frutas nordestinas. Gaguinho parava na roda oferecendo seu delicioso sorvete e picolé: “Quem vão quererem? Quem vão quererem? Podem pedirem!”

Ele vendia fiado, na hora do almoço passava na casa de cada um com a conta do sorvete consumido; ele conhecia todos, meninos e meninas da Avenida.

As tardes da Rua do Comércio eram imperdíveis, jovens encostados nos automóveis (limpando carro) curtiam as meninas, flertando, paquerando, marcando encontro nas Sorveterias DK-1 ou Gut-Gut, onde tomávamos saborosos sorvetes de frutas de todas as qualidades; era o ponto de encontro favorito da moçada bonita.

Quando o Comércio estava perto de fechar, eu descia rumo à minha casa com uma parada obrigatória na esquina do trilho de ferro, ao lado do Arcebispado, saboreava um suco maracujá com pão doce. Nunca ninguém no mundo até hoje conseguiu fazer um suco igual àquele, o sumo da divindade. Os deuses da gula em vez de água devem beber aquele maracujá.

É preciso um estudo mais profundo sobre comidas, salgados e doces dos anos dourados. Fazem parte de nossa história, de nossa cultura.

A modernidade acabou com os doces de minha infância, hoje proliferam no mundo as lanchonetes dos Shoppings esquentando sanduíches congelados com gosto de sola de sapato. Estão espalhadas no mundo as sofisticadas fábricas de obesidade inventadas pelos americanos. Saudades dos doces de minha infância.

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EPIDEMIA DE GONÔ

Bairro boêmio de Jaraguá

Logo após a II Guerra aconteceram problemas com a população boêmia no Nordeste, houve proliferação de doenças venéreas, principalmente a gonorreia, a velha Gonô. Os americanos com seus dólares aumentaram a prostituição em nossas terras, trouxeram e disseminaram gonorreia e outras doenças. As prostitutas ficaram infestadas, transmitindo moléstias aos soldados brasileiros e à população nativa, foi considera epidemia na época.

Em Maceió houve um trabalho organizado contra as doenças venéreas. O Ministério da Saúde enviou remédios. Surgiram as camisinhas. O Governo enviou verba para uma campanha de prevenção.

O ponto mais visado foi o bairro boêmio de Jaraguá onde as raparigas exerciam seu trabalho. Naquela época as melhores mulheres frequentavam os casarões da Rua Sá e Albuquerque, as mais baratas ficavam no baixo meretrício, o Duque, o Verde e o Sovaco do Urubu, onde hoje é o Centro de Convenções.

Primeira providência: todas as prostitutas passaram por rigoroso exame. O Posto de Saúde da Praça das Graças se encheu de cafetinas e pupilas na fila dos exames, tiravam a carteirinha de serviço com data de exame carimbado, havia espaço para notificar as revalidações.

A procura foi tão grande que abriram outro ponto de exame na Delegacia de Jaraguá, o delegado da época, Cabo Sobral, se empenhou na campanha com muito zelo. Como autoridade da região, o cabo-delegado fazia ronda diária fiscalizando se todas as operárias do sexo tinham suas carteirinhas carimbadas, exame em dia.

Constatando alguma doença transmissível como gonorréia, cancro, etc… a jovem era obrigatoriamente internadas no Hospital de Doenças Tropicais para tratamento até sarar. Com a cura podia voltar à atividade, ao trabalho.

Nos quartos das pensões foram colocados cartazes preventivos: “EXIJAM A CARTEIRA PROFISSIONAL DE SAÚDE”. Alguns clientes se constrangiam em exigir a carteira das raparigas, pegaram doenças por conta disso. Essas carteiras eram atualizadas no Posto Avançado da Erradicação que havia em Jaraguá, com médicos fazendo novos exames diários e indicando o tratamento adequado se fosse o caso.

A atuação do Cabo Sobral foi fundamental nos serviços da erradicação. Onde havia alguém com suspeita de doença, ele mandava buscar para rigorosa investigação.

Foi formada uma rede de informações em vários cabarés. As raparigas recusavam fregueses quando desconfiavam que eles estivessem infectados. Muitas davam parte na delegacia, entregando o cliente. O delegado levava os acusados para o posto em nome da lei, sob a custódia de seus auxiliares.

Cidadãos da mais alta sociedade constrangeram-se em serem levados por policiais para o Posto Avançado de Jaraguá a fim de serem examinados. Não tinha acordo com o delegado. Geralmente essas denúncias eram fundamentadas e o delegado, além de dar uma bronca no doente fazia verdadeiras investigações policiais com os “criminosos” para descobrir a pessoa que transmitiu a doença, e quem transmitiu a essa pessoa.

As investigações eram constantes. Chamava as pessoas transmissoras da doença, citado pelo doente, até chegar aos sadios. O Cabo Sobral obrigava a todos os envolvidos serem tratados adequadamente pelos médicos, baixando ao Hospital nos casos precisos.

Houve até problemas conjugais. O zeloso delegado chegou a enviar esposas dos contaminados para exames específicos. Alguns suspeitos se livravam confessando ter se contaminado no Recife. Se acaso “entregassem” quem passou a doença, podia ser quem fosse o delegado ia pessoalmente buscá-la para os devidos exames. Como geralmente a pessoa estava também infectada, obrigava a confessar a quem mais ela havia transmitido e com quem havia pegado a doença até chegar ao final do novelo.

Em uma dessas investigações, Gerusa, uma das meninas mais queridas da Boate Alhambra, promíscua como ela só, apareceu doente. O delegado a fez relacionar todos os parceiros da última quinzena. Na relação, havia gente conhecida, inclusive um capitão do Exército e um deputado. O delegado chamou todos os clientes de Gerusa, via carta entregue em mãos, para que fossem devidamente examinados e tratados.

Teve deferência especial com o deputado e o capitão do Exército. Foi pessoalmente à Assembléia Legislativa e ao 20º BC, juntamente com o médico, para que essas autoridades fossem examinadas. O trabalho imprescindível do zeloso Cabo Sobral conseguiu erradicar as doenças venéreas da cidade trazidas pelos soldados americanos.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

HOMENAGEM DE RUI GUERRA A GUILHERME PALMEIRA

Guilherme Palmeira, Rui Guerra jantando com suas famílias

Peço licença aos leitores desta coluna para transcrever a carta do engenheiro Rui Guerra, um dos homens mais chegados a Guilherme Palmeira, foi secretário e conselheiro de Guilherme durante anos, um dos técnicos mais capazes, de inteligência brilhante e prática do Estado de Alagoas. Rui escreveu esta suposta carta ao Zé Nunes, ex motorista, “faz tudo” e anjo da guarda de Guilherme durante mais de 40 anos, era amigo de todos os seus amigos, morreu há algum tempo e está no céu.

CARTA AO ZÉ NUNES

Querido Zé Nunes.

Desculpe não ter enviado esta carta pelo Guilherme pois em tempos de Coronavírus tudo fica mais complicado.

Espero que na sua condição de veterano aí possa ajudá-lo na chegada.

Ultimamente nosso amigo tem falado muito em você.

Desconfio até que ele me escondeu que iria visitá-lo.

Imagine que lhe deram um veículo lento e desconfortável, incapaz de servir às nossas ligeiras viagens ao interior.

Você bem lembra que entre uma cidade e outra, uma dose e outra, ele dava um cochilo de meia-hora e já acordava reclamando;

⁃ “Porra que demora é essa, onde ainda estamos?”

Mal sabia que você nunca dirigia abaixo de 120!

Imagine quando trocaram seu veículo e lhe colocaram numa cadeira de rodas.

Aquele cirurgião, que nem do nome sabemos, resolveu operá-lo para retirar suas dores e só fez agravar.

Além das dores que aumentaram, ele ficou sem urinar e teve que usar permanentemente uma SONDA que lhe trouxe um monte de infecções urinárias.

Depois de muita conversa e devido a sua Bexiga Neurogênica, a Suzana conseguiu convencê-lo a fazer um tratamento com um neurologista que lhe aliviou parte das dores.

Como você já deve estar manobrando aí veja se consegue que não lhe hospedem numa ALA onde estejam pessoas com as quais ele nunca concordou, apesar da sua enorme tolerância.

Com todas as virtudes e paciência que tem, bem sabemos que ele nunca concordou com oportunismos nem perseguições.

Seus sucessivos exemplos de vida e solidariedade permitem saber com quem ele gosta de conversar.

Dê-me um jeito de descobrir onde estão: Rui Palmeira, Tancredo Neves, Ulisses Guimarães, Aureliano Chaves, arranje um apartamento perto deles e, por favor, mude-se com o Guilherme.

Nestas companhias, com certeza, ele aliviaria a falta que lhe fazem Suzana, Rui, Solange, Nadja e seus amigos fraternos.

Veja se consegue um transporte mais rápido que a cadeira de rodas que ele estava usando, para acalmá-lo nos deslocamentos e passeios que terá que fazer na companhia desses amigos que há tanto tempo ele não vê.

Diga a ele que avisei de sua viagem ao Jorge Bornhousen e Zé Jorge que muito lamentaram sua partida sem uma despedida no Piantela.

Avise também que com sua ausência os amigos sumiram. O Piantela fechou e decidiu que só volta a abrir quando ele regressar.

Por aqui sua velha e leal VARANDA DO GP está meio desorientada sem saber o que fazer.

Lá na frente e depois que o Coronavírus partir, veremos como fazer para matar as saudades da sua ausência.

Diga-lhe que tenho chorado como uma criança.

Voltarei a lhe escrever quando a saudade tornar-se pesada demais.

Seu amigo de sempre Rui Guerra.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

MEMÓRIAS DE UM OITENTÃO (9)

Acordei-me com o som cadenciado e harmonioso da alvorada tocada pelo corneteiro. Amanhecia o dia 1º de abril de 1964, eu tenente do Exército Brasileiro, dormia no quartel na 2ª Companhia de Guardas, tropa de elite do IV Exército, altamente treinada contra distúrbio e guerrilha urbana, sediada na Avenida Visconde de Suassuna, Centro do Recife. Uma luminosa manhã acordava a bela histórica cidade mauriciana. A Companhia estava de prontidão há mais de uma semana, sem algum militar sair do quartel devido aos acontecimentos políticos da época. O presidente João Goulart acendia uma vela a Deus outra ao Diabo (disse Julião). O processo de desgaste político do presidente espalhou-se sobre a Nação. Jango pensava ter um esquema militar forte comandado pelo General Assis Brasil, inclusive o General Justino Alves Bastos, comandante do IV Exército, jurou de pés juntos a Arraes que defenderia a legalidade. Quando a conjuntura mudou, ele também mudou. A situação ficou mais nebulosa depois do grande comício das reformas em frente ao Ministério do Exército, dia 13 de março, com muitos discursos provocativos às Forças Armadas. Jango estava cutucando a onça com vara curta. As informações que nos chegavam era que Jango daria um golpe transformando o Brasil numa República Socialista Sindicalista.

Naquela bela manhã logo depois da formatura matinal, o capitão Luís Henrique Maia reuniu os cinco tenentes comandantes de pelotão, fez uma preleção.

– Chegaram informações que a tropa do general Mourão Filho de Minas Gerais estava a caminho do Rio de Janeiro para levantar o I Exército, e depor o presidente João Goulart. O General Assis Brasil deu ordens para uma tropa sediada no Rio marchar de encontro e deter a tropa do General Mourão, acontece que a tropa do Rio aderiu e se juntou à tropa do General Mourão, que ruma ao Rio De Janeiro. O objetivo da intervenção militar será restabelecer a ordem no país, garantir a eleição para presidente em 1965 e evitar um golpe do presidente João Goulart estabelecendo um regime socialista.

O capitão Maia mandou preparar o pelotão para o enfrentamento, entrar em combate urbano a qualquer momento. Informavam que tropas do Estado do Governador Miguel Arraes estavam altamente armadas e bem preparadas por guerrilheiros cubanos e chineses.

Dirigi-me ao alojamento de meu pelotão, com a cabeça a mil, sabia que haveria uma confrontação naquelas próximas horas. Ainda estava em divagações quando o comandante me chamou e deu as primeiras ordens: Dissolver uma manifestação no Sindicado dos Bancários, ficava distante cinco ou seis quilômetros. Ordenei ao pelotão entrar em forma, passei em revista o armamento e equipamento, falei aos sargentos e soldados sobre a missão, deixei bem esclarecido: atirar só com minha ordem. O pelotão tomou a rua, formação em cunha. Enquanto aqueles 44 soldados bem armados e equipados avançavam pelas ruas arborizadas, ouvi vaias e palmas, era o povo dividido. Enquanto o pelotão se aproximava do objetivo, eu continha a emoção, pensando nas informações que os sindicalistas, os camponeses, os homens de Arraes junto à Julião e Gregório Bezerra tinham sido treinados em guerrilha e possuíam armamento de primeira linha.

Assim que avistei ao longe a multidão em torno de 400 pessoas, tive de controlar um sargento que me pedia para dar um tiro para o alto a fim de dispersar a multidão. Mandei o sargento se aquietar, lembrei que o comando era meu exclusivo. Não queria que houvesse uma reação por parte dos manifestantes e terminar numa carnificina de balas dos dois lados. Tentaria um diálogo, se possível. O pelotão se aproximou, dava para ver as fisionomias dos manifestantes, o sargento insistindo, me pedindo para atirar; eu reprendi, NÃO ATIRE!. Chegando mais perto, gritei a voz de comando ao pelotão “Acelerado marche!”. Os soldados passaram da marcha comum ao acelerado, correndo em passos curtos, o que se ouviu um barulho assustador do coturno batendo forte no chão. De repente tive a maior alegria, o maior alívio de minha vida ao perceber a multidão dispersando-se em todas as direções. Invadimos o sindicato, ficaram apenas três manifestantes. Pedi para eles saírem ou teria que levá-los presos, era a ordem. Apenas um barbudo, corajoso, magro, me encarou: “Só saio morto ou preso”. Disse-lhe “Como não vou lhe matar, esteja preso”. Fiz uma revista geral na sede do sindicato, mandei lacrar os móveis, deixei cinco soldados guarnecendo o sindicato, retornei com o resto do pelotão para o quartel da 2ª Cia de Guardas.

O pelotão marchando mais relaxado em duas colunas, uma de cada lado da rua, e o barbudo, sindicalista, andando no meio sozinho. Achei constrangedor, tive pena. Encostei-me e inventei na hora em seu ouvido: “Estão matando tudo que é comunista, como Fidel Castro fez em Cuba no Paredón, ao chegar ao quartel você vai ser fuzilado. Vou lhe dar uma chance, na próxima esquina lhe empurro e você sai correndo!”. O sindicalista olhou para mim, espantado. Perto da esquina, o barbudo, olhava para trás encarando-me com olhar suplicante. Na esquina, puxei-o pelo braço e o empurrei. Ele deu um pique, se escafedeu na primeira rua (ainda hoje deve estar correndo).

Durante o percurso de retorno, de cima dos apartamentos, alguns aplaudiam outros vaiavam. Ao passarmos pela Faculdade de Engenharia, alguns estudantes gritavam provocando: “Viva Arraes!” O sargento me incitava a dissolver os estudantes. Eu neguei, confesso, pensando em meu irmão Lelé, poderia estar entre os estudantes (e não é que estava! Eu soube depois).

No quartel fiz um relatório verbal. Nesse dia ainda cumpri outras missões patrulhando o Recife Velho. À noite, a televisão chamava de Intervenção Militar. Não havia aparecido o termo Revolução, nem Ditadura. Nenhum cientista político, nenhum futurista, nenhum especialista, para usar um termo moderno, seria capaz de imaginar que aquele 1º de abril seria o primeiro dia de Governo Militar ou Ditadura durante os próximos anos. Só sei que foi assim, sem tirar, nem pôr.

ESTA SÉRIE “MEMÓRIAS DE UM OITENTÃO” SERÁ PARTE DE UM LIVRO DE MEMÓRIA EM COMEMORAÇÃO AOS 80 ANOS DO AUTOR. AGUARDEM DEZEMBRO (SEM CORONAVÍRUS)

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

MEMÓRIAS DE UM OITENTÃO (8)

Somos amigos há muitos anos, nossos pais eram amigos, nossos avós e bisavós, somos amigos desde quando éramos índios caetés povoando o litoral alagoano. Quando eu morava no Rio nos anos 50, vez em quando ia à casa de Guilherme Palmeira na Rua Almirante Guilhobel. Depois de um bom almoço dominical, partíamos para o Maracanã assistir vitórias do Fluminense.

As férias de verão em Maceió eram maravilhosamente aproveitadas: praia da Avenida, Pajuçara, réveillon da Fênix, carnaval nas ruas e nos clubes. Bela época dos anos dourados, vivíamos nossa cultura popular, época do cinema novo, da bossa nova. Revolução dos costumes, queríamos também transformar o mundo, como qualquer jovem.

Certa vez no Engenho Prata, São Miguel dos Campos, em conversas e cervejinha gelada, Guilherme Palmeira comunicou ser candidato a deputado estadual nas eleições de 1966, alegria geral. Dias depois Esdras Gomes distribuía adesivos, GP 66. Foi uma vitória retumbante, iniciava naquele momento uma carreira política das mais admiráveis na história das Alagoas.

No final de 1967 eu servia na 9ª Companhia de Fronteira, Roraima, fui promovido a Capitão e transferido para 20º Batalhão de Caçadores em Maceió. Ao chegar em casa pela tarde, coloquei um calção desci à praia da Avenida, depois de um bom mergulho e braçadas naquele mar azul do tamanho do mundo, fiz uma promessa, nunca mais sair de Maceió. Cursei engenharia, deixei a carreira militar e cumpri a promessa.

Naquela época Maceió era uma festa, tempo bom de viver na cidade amada, ensolarada Muitos amigos, muito calor humano, juventude sadia. Formamos um quinteto inseparável: Guilherme Palmeira, Marden Bentes, Eduardo Uchoa e Galba Acioly, solteiros e bonitos, fazíamos a festa aonde chegássemos. Éramos conhecidos entre as melhores famílias, entre as jovens deslumbrantes, como também nos bares e lugares não compatíveis às moças casadoiras. Convidados para batizados, casamentos, aniversários, alegrávamos as noites com bom humor e fidalguia. Jovens boêmios, considerados bons partidos, custamos a casar.

Acompanhei a vida política de Guilherme Palmeira: deputado, governador, senador, prefeito de Maceió. Finalmente Ministro do Tribunal de Contas da União, aposentado se estabeleceu em Brasília, nunca esqueceu sua querida Alagoas. Vez em quando às sextas feiras reúne amigos na varanda do apartamento, praia da Ponta Verde para conversas e uma rodada de uísque.

Em 1988 houve eleição para prefeito de Maceió. Renan Calheiros candidatou-se tendo como vice o deputado Sabino Romariz, o mais votado na Assembleia, era uma chapa imbatível apoiada pelo governador Fernando Collor. Nas pesquisas o IBOPE lá em cima. Como enfrentar Renan? Em uma reunião da oposição, Benedito de Lira deu a sugestão: Guilherme Palmeira para prefeito e João Sampaio, vice. Fiz parte da coordenação de campanha. Fomos à rua, Guilherme visitou toda biboca de Maceió, chegávamos tarde às nossas casas. Afinal o dia da eleição, logo depois a apuração na mão, voto a voto, disputa acirrada. Final maior vibração. Guilherme ganhou por 6.845 votos Fomos para Avenida da Paz comemorar a vitória com uma passeata inesquecível

Guilherme prefeito, eu assumi uma Diretoria da Limpeza Urbana depois fui Secretário de Desenvolvimento Urbano. Travamos campanha e briga contra qualquer tipo de poluição. Descobri que era proibido colocar qualquer tipo de placa ou outdoor na ladeira da antiga rodoviária, anunciei que ia derrubar todas as placas e outdoors. Na véspera, ao término do expediente, recebi um telefonema de um advogado avisando que no dia seguinte ele daria entrada na Secretaria com uma liminar de um juiz cancelando a derrubada dos outdoors. Fiquei a pensar sozinho em meu gabinete. Tomei a decisão, convoquei os funcionários, fiscais, caminhão, para sairmos às seis da manhã, antecipei, derrubamos todos outdoors. Foi lindo aparecer uma mata verde exuberante que estava escondida.

A liminar chegou às minhas mãos no local às nove da manhã, a derrubada já havia acontecido. O juiz mandou me prender. Eu me escondi em uma casa em Paripueira. Guilherme tomou as dores, assumiu ter ordenado aquela ação. Só não fui preso devido ao pulso firme de Guilherme e a competência do advogado Diógenes Tenório de Albuquerque em minha defesa. Lembrei esse fato mostrando a firmeza de caráter, honestidade, amor à sua terra, sapiência e liderança de Guilherme Palmeira, o melhor prefeito da história de Maceió. Desculpe o Rui. Hoje Guilherme vive cercado de amigos que o admiram. Ele orgulhoso do filho, Rui Palmeira, seu herdeiro político na decência e no amor à Maceió.

Esta série de artigos, MEMÓRIAS DE UM OITENTÃO, será um livro em comemoração aos 80 anos do autor neste 2020.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

MEMÓRIAS DE UM OITENTÃO (7) – AS ÁGUAS DE ABRIL

Eu tinha nove anos, menino, criado livre, leve e solto na praia da Avenida da Paz em Maceió. Certa noite de abril de 1949, eu fiquei apavorado com os relâmpagos, trovoadas e muita chuva forte, batendo no telhado e no chão feito um chicote. Ao mesmo tempo fiquei feliz ao lembrar os caranguejos que sairiam de seus buracos assustados pelos trovões. Durante a tarde eu havia colocado algumas “ratoeiras”, feitas de lata de óleo, nas tocas de goiamuns às margens do Riacho Salgadinho. Já deviam ter caranguejos presos, eu pensava. Noite adentro aumentou o temporal diluviano. O riacho Salgadinho transbordou, as águas cobriram a rua e entraram em nossas casas na Rua Silvério Jorge, onde eu morava. As grandes chuvas de maio estavam acontecendo em abril.

Durante aquela noite uma forte enxurrada desceu veloz do bairro do Tabuleiro, passando pelas ruas e casas chiques do bairro do Farol, num barulho aterrador de água em movimento. O vagalhão avançou como se fosse uma onda desgovernada atropelando o que encontrava pela frente: carros, carroças, lixeiras. Derrubou árvores. Quando a enxurrada se intensificou descendo feito forte cascata na Rua Barão de Anadia, bairro de Mangabeiras, ouviu-se um forte estrondo, foi um enorme bloco de barreira que se rompera, caindo por trás das casas daquela rua, onde soterrou cerca de 20 residências, mais de 30 moradores mortos.

No leito do vale do Riacho Reginaldo–Salgadinho a correnteza cada vez mais volumosa, insustentável, arrastava o que havia em seu corredor. Na foz, onde o riacho deságua na Avenida da Paz, o vagalhão chegou tão forte que rompeu ao meio a ponte de concreto da avenida. A ponte desmoronou, quebrou-se em dois enormes blocos de concreto, arrastados à beira-mar.

Onde havia a ponte sobre o Salgadinho, ficaram apenas trilhos dos velhos bondes pregados em seus dormentes. O bonde era o transporte urbano mais usado àquela época.

Ao amanhecer foram percebidos os estragos da catástrofe provocados por um volume de chuva nunca visto. Curiosos, usuários do bonde para o trabalho ficaram estarrecidos, contemplando as consequências da água violenta naquela manhã.

A Rádio Difusora dava detalhes da catástrofe, a enxurrada havia derrubado a ponte da Avenida da Paz. Depois do café da manhã, eu fui em busca de minhas “ratoeiras”, pensando ter um goiamum preso em cada uma. Procurei-as nos locais onde havia armado na saída do buraco, não encontrei uma sequer. Alguns locais estavam submersos. Retornei à praia, entrei no Hotel Atlântico, de uma privilegiada posição, na varanda, fiquei contemplando emocionado o vão da ponte apenas com os dormentes do bonde balançando.

Dois enormes blocos de concretos, dois pedaços de ponte levados pela correnteza, como se fossem rochas naturais jaziam à beira mar sendo molhados pelas marolas. Fiquei encantado com os trilhos pregados no dormente, resistindo numa linha curva, o que restou da tragédia.

Esses mesmos trilhos serviram como base de construção de uma ponte de pedestre provisória para usuários dos bondes atravessarem fazendo baldeação da linha Vergel do Lago – Ponta da Terra e vice versa. Os bondes paravam na cabeceira da ponte, o passageiro recebia um tíquete, atravessava a ponte improvisada, tomava outro bonde que o levava ao destino.

Carros, caminhões e ônibus seguiam seu destino de Ponta da Terra para o Centro, arrodeando, via bairro do Poço.

A meninada inocente aproveitou a tragédia como divertimento. Todo dia nós acompanhávamos as obras de engenharia, a construção da nova ponte do Salgadinho. Da cabeceira descíamos, ficávamos embaixo da ponte estreita de pedestre, em local estratégico, apreciando o que havia por baixo das saias das mulheres que atravessavam distraídas.

Com a construção rápida de uma ponte de madeira provisória na Rua Silvério Jorge, o trânsito voltou ao normal na região da orla. Minha rua ficou intensa, acabou-se o bucolismo. A nova ponte de madeira terminou a tranquilidade da rua, entretanto, continuou o divertimento de apreciar bater estacas e a concretagem de pilares e vigas. Foi nossa diversão até terminar a construção. A obra durou cerca de um ano, a nova ponte de concreto foi inaugurada com grande estardalhaço pelo então governador Silvestre Péricles de Gois Monteiro..

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

MEMÓRIAS DE UM OITENTÃO (6)

Não sou saudosista. Saudosista é a pessoa que vive, pensa e se alimenta do passado, sou até moderninho, um oitentão cheio de juventude. Mas gosto de relembrar os acontecimentos, as tradições, as brincadeiras, as festas de outrora. Muitas delas perduraram no tempo e mudaram pela evolução dos costumes e pelo consumismo. Hoje passando em casa a semana santa numa quarentena imposta ao mundo por um vírus que ameaça a humanidade, eu fico a relembrar a semana santa do meu tempo de menino.

Havia uma mistura de religiosidade e brincadeiras divertidas. Iniciava no Domingo de Ramos quando se comemora a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém montado em um burrico. Seus discípulos trouxeram-lhe um burrico puseram em cima dele suas vestes, sobre elas Jesus montou. A multidão cortou ramos de oliveiras, espalhou-os pela estrada, formando um tapete de folhagem para o Rei dos Reis passar, em cima de um jerico. O povo acompanhava Cristo, clamava: “Hosana ao filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor! Hosana nas maiores alturas!” Ao entrar Jesus em Jerusalém, toda cidade se alvoroçou. Perguntavam: Quem é este? E a multidão clamava: “Este é o profeta Jesus, de Nazaré da Galileia.”

Assim aprendi nas aulas de catecismo no velho Colégio Diocesano. Essa parte emblemática da história do Cristianismo ficou gravada em minha memória: a marcha triunfal de Jesus em um jerico. Logo depois Ele foi traído e crucificado.

Entretanto, para a juventude dos anos 50, o melhor do Domingo de Ramos era a procissão saindo à tardinha da Catedral. Os colégios femininos religiosos compareciam: São José, Sacramento, era um desfile das moças mais bonitas de Maceió. Nós íamos com o objetivo quase pecaminoso de paquerar essas meninas, andando em fila, contritas, rezando de terço na mão. Um sorriso, um piscar de olho, valia a pena apreciar o arrastar da procissão.

O feriado começava na quinta-feira santa, a partir desse dia era proibido comer carne. Dona Zeca, minha mãe, cozinhava as delícias da semana santa: peixe à vontade, carapeba, arabaiana, cavala, camarão, siri, bacalhau, acompanhava o feijão e arroz de coco, além da jerimunzada e o bredo. Até hoje pergunto por que esses maravilhosos manjares são exclusivos da semana santa?

Na noite da quinta-feira era vez de uma brincadeira perigosa. A meninada saía em bando, cinco a seis moleques para “serrar um velho”. A brincadeira de serrar velho é uma tradição europeia conhecida desde o século XVIII. Reunia-se um grupo de brincalhões, diante da casa de um velho e serravam uma tábua com muito ruído, muito choro, muito lamento. Os velhos serrados irritavam-se com a brincadeira. Pela crença popular, um velho serrado não chegava à outra Quaresma, teria menos de um ano de vida. A garotada cantava alto acordando a vizinhança: “As almas do outro mundo, vieram lhe avisar que deste ano o senhor não vai passar”. “Encomende a alma a Deus, que seu corpo já não vale nada” e liam um bem humorado testamento em versos. Os velhos ficavam irados. Certa vez levamos uma carreira do pai de um amigo na Pajuçara, ele atirou em nossa direção com uma espingarda de sal. De outra feita, Seu Pádua um velho ranzinza da Avenida da Paz, quando estávamos lendo seu “testamento”, jogou um penico cheio de xixi e coco pela janela, fedendo, tive que ir para casa tomar um demorado banho.

Durante a Sexta-Feira da Paixão parecia que o mundo havia se acabado. As rádios tocavam músicas fúnebres. Era proibido ir à praia, até sorrir não podia. As prostitutas fechavam o balaio; o bairro boêmio de Jaraguá ficava deserto. À noite todos iam à igreja, para beijar os pés de Nosso Senhor morto.

Finalmente o Sábado de Aleluia. A meninada preparava um boneco de pano, era o Judas, sempre com um nome de algum político ou alguma figura pública inimiga do povo. Quando às 10 horas, os sinos da Igreja dobravam anunciando a aleluia, a moçada caía de cacete malhando e queimando o Judas amarrado em um poste. Melhor do que malhar um Judas, era roubar os Judas dos pivetes da vizinhança na noite anterior.

Na missa do Domingo da Ressurreição, os padres durante a homilia contavam a história como Cristo depois de morto subiu aos céus.

Hoje a ressureição é um espetáculo pirotécnico com atores globais, para se assistir comendo chocolate, tomando vinho.

Essa invencionice comercial, venda de ovo de chocolate, a comida dos Deuses, durante a Páscoa, está definitivamente institucionalizada pela propaganda e o consumismo. A meninada tem o ovo de chocolate e o coelho como símbolos da semana santa. Um período mais apropriado à meditação, à oração, tornou-se a festa do coelho e ovos de chocolate.

Os marqueteiros não combinaram com a Igreja, tão conservadora nos assuntos sobre sexo; pois, coelho é o símbolo de procriação, de fertilidade, de muitas transas, e chocolate está na lista de alimento afrodisíaco. Portanto, os símbolos da semana santa moderna, inventados pelo comércio, são apologias ao sexo, o que acho ótimo, não deixa de ser uma evolução da Igreja.

Essas lembranças dá saudade, amo as tradições de meu povo. Não troco minhas boas recordações da semana santa pelo ovo do coelhinho, e olha que sou chocólatra.